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domingo, 5 de setembro de 2010

A historiografia sobre o período colonial: debates e perspectivas.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume set., Série 05/09, 2010, p.01-05.



A economia e a sociedade colonial brasileira foram objeto de estudo de diversos autores e tendências, desde a metade do século XIX ou mesmo antes, originando trabalhos clássicos incorporados à historiografia que trata do período.

Embora, as questões culturais tenham despertado o interesse dos historiadores em uma época relativamente mais recente, segundo Laura de Mello e Sousa, a partir do inicio do século XX.

Em outras palavras, a multiplicidade miscigenada da realidade colonial foi examinada dentro do âmbito de diversas tradições interpretativas, recortes e correntes teóricas.

Entretanto, uma análise atenta sobre o debate historiográfico permita notar que em raras ocasiões as três esferas (economia, sociedade e cultura) foram examinadas em um olhar cruzado, mesclando aportes e perspectivas para entender a realidade contemporânea a partir de sua gênese colonial.

Ao inverso, a tendência historiográfica, intimamente vinculada com a expansão dos programas de pós-graduação em história nos centros de ensino universitário, integrando um movimento em progresso há mais de vinte anos, mostra-se inclinada a uma rígida profissionalização tecnicista.

Um grande problema que tem originado trabalhos de natureza monográfica, pontuais, primando pelo modelo monotemático, inserido em micro-análises.

Pesquisas que possuem seus méritos, mas que deixam de lado a erudição dominada pelos historiadores brasileiros clássicos do passado, tal como Capristano de Abreu, Caio Prado Junior e Sérgio Buarque de Holanda, entre outros.

A maior parte dos trabalhos contemporâneos parecem ter abandonado, igualmente, a interdisciplinaridade daqueles que poderíamos ousar chamar pais da moderna historiografia colonial, em beneficio do domínio técnico da metodologia mais correta ao uso apropriado desta ou daquela fonte.

E o pior, na maior parte dos casos, deixando em segundo plano aquilo que Braudel chamou de longa duração, tornando raros os grandes trabalhos de fôlego de natureza totalizante ao estilo braudeliano de O mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Felipe II.

O que, inclusive, tem gerado ferozes criticas aos não historiadores de oficio, entenda-se ai aqueles não diretamente vinculados às universidades, produtores de trabalhos relevantes dentro do âmbito historiográfico, muitos dos quais obtendo maior sucesso editorial do que as teses e dissertações que conferem títulos.

Neste sentido, caberia perguntar até que ponto a tendência historiográfica acadêmica não necessita ser repensada.

O que implica em tentar entender como e porque se chegou a esta situação e, por sua vez, retomar alguns debates como forma de traçar novas perspectivas em torno da historiografia sobre o período colonial.


A historiografia colonial em retrospectiva.

A criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1838, foi sem dúvida um marco, estimulou o surgimento de diversos estudos sobre o período colonial.

Isto, a despeito de poder ser objetado que o recorte historiográfico do Brasil colonial se inicia já com Pero de Magalhães Gandavo ou, quiçá, antes. No entanto, optaremos aqui por iniciar a discussão através de alguns poucos e emblemáticos clássicos da historiografia do inicio do século XX.

A razão é óbvia, os autores que publicaram suas obras a partir de 1907, muitos dos quais sem formação em história propriamente, iniciaram debates que continuam presentes na produção historiográfica até hoje.

Apesar de nem sempre terem concluído suas hipóteses iniciais, levantaram dúvidas, localizaram fontes e iniciaram orientações teóricas seguidas pelas pesquisas monográficas contemporâneas.

A grande diferença entre estes clássicos e os estudos atuais, na sua imensa maioria, é o fato dos pais da moderna historiografia colonial terem primado pela interdisciplinaridade, a erudição e o caráter totalizante, inaugurando novas problemáticas, debates e perspectivas.

Entre estes verdadeiros pais da moderna historiografia colonial, dado a durabilidade dos resultados alcançados em suas pesquisas e a repercussão de suas obras; João Capistrano de Abreu fornece um exemplo valioso de erudito que buscou a interdisciplinaridade que foi se perdendo ao longo das décadas de 1980 e 1990, em beneficio do tecnicismo histórico.


Ele não passou pelo banco das Universidades, mas nem por isto deixou de buscar uma formação autoditada que possibilitaria tornar-se um dos maiores historiadores brasileiros.


Depois de cursar o primário e o secundário em Maranguape, no Ceará, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi caixeiro viajante, antes de se tornar oficial da Biblioteca Nacional e, posteriormente, ser aprovado no concurso para professor de História do Brasil no Colégio Pedro II.

Em 1907, Capistrano de Abreu publicou o seu Capítulos de História Colonial, onde demonstrou como a pluralidade étnica, a mestiçagem, formou a sociedade e a cultura brasileira.

Uma abordagem totalizante que iniciou múltiplas discussões que se tornariam objetos centrais da historiografia, como, por exemplo, o papel dos povos indígenas.

Outro emblemático exemplo é Caio Prado Junior, formou ao lado do antropólogo Gilberto Freire e de Sérgio Buarque de Holanda, a chamada “tríade fundadora” da historiografia profissionalizada.

Caio Prado Junior não tinha formação acadêmica em história, era bacharel em direito, livre-docente em economia política, mas produziu uma rica gama de trabalhos que se tornaram referencia para gerações de historiadores.

Entre outros textos, o clássico a Formação do Brasil Contemporâneo, publicado em 1942, inserido dentro da tradição marxista, ao analisar quatro séculos do período colonial, inaugurou a busca por um sentido da colonização.

Na obra, o autor propôs a tese de que o Brasil teria sido o quintal da colônia, a gênese do subdesenvolvimento brasileiro.

Não menos importante, o já mencionado Sérgio Buarque de Holanda também não possuía formação em história, era bacharel em ciências jurídicas e sociais, mas nem por isto deixou de produzir, entre outros, dois grandes clássicos da historiografia: Raízes do Brasil, publicado em 1936, e Visão do Paraíso de 1959.

Obras que traçaram uma macro-análise da formação do Brasil a partir do período colonial e que são exemplos típicos de erudição a serviço da história, levantando inúmeros debates, a exemplo dos trabalhos de Capistrano de Abreu e tantos outros.

Destarte, como esses homens teriam sido recebidos pelos meios acadêmicos se tivessem vivido entre nós contemporaneamente?

Teriam se tornado referencias como foram em sua época e são ainda hoje?

É verdade que são fruto de seu tempo e que poderiam não ter se interessado pelos temas que abordaram, mas, usando de um pouco de imaginação e recorrendo a um anacronismo verossímil, certamente não teriam sido aprovados em um concurso para professor em qualquer Universidade pública.


A historiografia colonial em perspectiva.

A “tríade” da década de 1930, ao mesmo tempo em que primou pela erudição e interdisciplinaridade, também profissionalizou o oficio de historiador no Brasil, influenciando várias gerações, dentre as quais, a década de 1970 assistiu surgir os trabalhos de Fernando Novais.

Em seu estudo clássico Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial, publicado originalmente em 1979, a amplitude do recorte temporal já não é tão ambiciosa como fora na época de Capistrano de Abreu ou de Gilberto Freire, Caio Prado Junior e Sérgio Buarque de Holanda.

No entanto, nota-se nitidamente a continuação da busca por um sentido na colonização e uma tentativa totalizante, acompanhada por farto volume de informações abordados com fina erudição.

Na década de 1980, paradoxalmente a tendência monográfica iniciada pela mesma altura, influenciados pela “Nova História Cultural” de Roger Chartier, surgiram outros grandes nomes da historiografia colonial: Laura de Mello e Souza, Mary Del Priore e István Jancsó, entre outros.

Os grandes mestres que dominariam a interdisciplinaridade e erudição, sem descuidar dos aspectos teóricos e metodológicos, conciliando recortes mais específicos com abordagens amplas.

Entretanto, as gerações que tiveram contato com estes brilhantes historiadores, talvez movidos por um zelo técnico excessivo, começaram a deixar de dialogar com outras áreas do conhecimento humano.

Abandonaram a longa duração em prol de focos específicos e pontuais e foram perdendo a erudição antes típica dos historiadores.

Entregando as tentativas de explicações mais amplas e elaboradas sobre o período colonial aos jornalistas e outros profissionais, além de brasilianistas como Thomas Skidmore.


Concluindo.

É verdade que, em sua trajetória rumo ao reconhecimento como ciência autônoma e legitima, a história precisou se profissionalizar, demonstrar sua capacidade metodológica de explicar a si mesma; mas será que já não atingiu sua maturidade?

A despeito de continuar a existir um intenso debate sobre a cientificidade da história, sendo este o caso também de tantas outras ciências, como, por exemplo, a psicologia; não seria o caso dos historiadores voltarem-se novamente mais para o âmago do seu suposto oficio e deixarem o tecnicismo para a filosofia da ciência?

Ao contrario de contribuírem para legitimar a história como ciência, os estudos monográficos, neste sentido, ao se distanciarem dos leitores, não permitindo uma visão de conjunto; não fazem a história contada pelos profissionais cair no ostracismo, causando o efeito inverso ao que tencionam aqueles que se dizem historiadores academicamente legitimados?

Será que já não chegou o momento de ousar, arriscar, buscar novos diálogos, ampliar a visão, alterar o ângulo ou popularizar a historia escrita por historiadores, obviamente sem descuidar da erudição, contribuindo para educar a população brasileira.

Estamos em uma encruzilhada, qual caminho será escolhido: aquele que leva ao fim da história, ao seu confinamento nos centros acadêmicos ou aquele em que história permite entender de fato quem somos a partir de sua origem colonial, tal como pretenderam, entre outros, Capistrano de Abreu, Gilberto Freire, Caio Prado Junior e Sérgio Buarque de Holanda.


Para saber mais sobre o assunto.

ABREU, Capistrano de. Capítulos de História Colonial. Belo Horizonte: Itatiaia, 2000.

BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

BRAUDEL, Fernand. O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Felipe II. Lisboa, Martins Fontes, 1983.

CARDOSO, Ciro Flamarion & VAINFAS, Ronaldo. Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Elsevier, 1997.

FREITAS, Marcos Cezar. Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo: Contexto, 2001.

GANDAVO, Pero de Magalhães. História da Província de Santa Cruz. Lisboa: Tipografia de Antonio Gonçalves, 1576.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do Paraíso: os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 2000.

NOVAIS, Fernando. Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808). São Paulo: Hucitec, 1995.

PRADO JUNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 2000.

SKIDMORE, Thomas. Uma história do Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

3 comentários:

  1. Verdadeiramente são autores historiadores que fazem um verdadeiro estudo e analise sobre o Brasil desde o seu período de "descobrimento" a sua contemporaneidade. É muito valido tais leituras.

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  2. eu queria uma biografia de 4 pessoas de destaque na historiado ceara no periodo colonial

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  3. Em breve tentaremos publicar algo dentro do tema, mas fica desde já feito o convite aos colegas especialistas no tema para publicar aqui um artigo sobre personalidades no Ceara na época colonial.
    Forte Abraço.

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Esteja a vontade para debater idéias e sugerir novos temas.
Forte abraço.
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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