Publicação brasileira técnico-científica on-line independente, no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar o conhecimento com qualidade acadêmica e rigor científico, mas linguagem acessível.


Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

Mostrando postagens com marcador Pioneirismo Naval Português. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pioneirismo Naval Português. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

A guerra contra Castela e sua contribuição para o pioneirismo naval lusitano.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 7, Volume dez., Série 22/12, 2016.


Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.


Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.

Licenciado em História - CEUCLAR.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.
Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.



Dentro do contexto medieval, onde apenas o primogênito habilitava-se a herdar o título e as terras de seu pai, restando aos outros filhos homens entrar para o clero; o início de uma cruzada contra os infiéis, instalados na Península Ibérica, foi visto por inúmeros elementos da nobreza como a oportunidade ideal de alcançar títulos e terras pela força das armas e através de atos de heroísmo.
Os cristãos refugiados no norte da península obtiveram um importante reforço à reconquista quando justamente estes nobres, em sua imensa maioria oriundos do sul da França, rumaram como peregrinos aos territórios que viriam a constituir mais tarde Espanha e Portugal.
Depois que Fernando Magno, Rei de Castela e Leão, conquistou definitivamente Coimbra, fixando a fronteira cristã da zona ocidental da península no rio Mondego, após uma disputa sucessória que dividiu o Reino; poucos progressos foram realizados no avanço da reconquista, praticamente se estagnando.
Entretanto, com a subida de D. Afonso VI ao trono de Leão, a guerra contra os infiéis ganhou novo fôlego, Coria foi conquistada em 1079 e Toledo em 1085.
Porém, em 1086, as tropas cristãs foram completamente destroçadas pelos guerreiros almorávidas, comandados por Yusuf bem Tusufin, na batalha de Zalaca.
A reconquista poderia ter sofrido um significativo retrocesso, não fosse à chegada, no mesmo ano, de levas de peregrinos francos a Península Ibérica para lutar contra os mouros.
Entre os cruzados estavam dois nobres da Casa de Borgonha: D. Raimundo e D. Henrique; cavaleiros que terminaram por se notabilizar na guerra de reconquista, recebendo vários privilégios e mercês do Rei de Leão.
Desde a subida ao trono de D. Afonso VI, ao longo da segunda metade do século XI, os ibéricos haviam iniciado uma aproximação junto ao reino franco e o papado, estando na base destes laços à atração exercida pelas riquezas em poder dos mouros.
Ao mesmo tempo, um surto demográfico, visível em todo o Ocidente cristão, contribuiu ativamente para expansão territorial e um movimento de reforma eclesiástica, estimulando a vinda de nobres e de um importante contingente de monges francos que, pela via das peregrinações a Santiago de Compostela, já se deslocavam à península anteriormente. 
Um destes cruzados foi D. Raimundo, senhor de Amous, que esteve integrado nas hostes do Duque de Borgonha, Eudes I.
Ele era filho de Guilherme, Conde de Borgonha, e irmão do futuro Conde Renato II, provinha de um condado de escassa importância.
Partiu, como muitos outros, em busca de melhor fortuna, uma vez que sua condição de filho segundo não lhe permitia aspirar a um grande futuro na sua terra natal.
Outro importante cruzado foi D. Henrique, filho de Henrique de Borgonha e de Sibila, irmão do Duque Eudes I; era neto pelo lado paterno do Duque de Borgonha, Roberto I, sobrinho-neto do abade S. Hugo de Cluny e sobrinho da rainha Constança, mulher de Afonso VI, Rei de Leão. Constança era irmã de seu pai.
Pelo lado materno, D. Henrique era sobrinho do Conde de Borgonha, Guilherme I, o Grande, irmão de sua mãe, e, como tal, primo direto de Raimundo.
Não obstante ao fato de não existirem relatos da atuação de D. Raimundo e D. Henrique como cruzados, seus feitos foram premidos com a mão das filhas do Rei de Leão.
Em 1090 ou 1091, o primeiro casou-se S. Urraca, filha legítima de D. Afonso VI; o segundo uniu-se a D. Teresa, filha ilegítima, em 1094.
Após seu casamento, foi confiado a D. Raimundo o território da Galiza e de Portugal, conquistando ele aos mouros Santarém, Sintra e Lisboa, por volta de 1093; no entanto, Lisboa foi retomada pelos infiéis em 1095.
O que levou, entre outras causas, D. Afonso VI a substituí-lo por D. Henrique no comando da Galiza e do condado Portucalense, em 1096, nascendo já aí à rivalidade que daria origem entre portugueses e espanhóis.
Uma série de retrocessos em batalhas contra os mouros e toda uma conjuntura política fez com que a Galiza voltasse às mãos de D. Raimundo, enquanto por sua vez D. Henrique foi nomeado como o novo conde portucalense.
A fronteira com a Galiza passou a constituir um foco de tensão permanente, dada a rivalidade entre D. Henrique e seu primo.
O único fator a impedir uma guerra feudal entre os dois era a coesão exercida pela luta contra o Islã, dentro do condado portucalense agregando um poder fortemente centralizado na figura do conde D. Henrique, o principal estimulador da criação do Reino de Portugal uma geração depois.
Os primos firmaram um Pacto Sucessório, segundo o qual Henrique reconhecia Raimundo como legítimo herdeiro da coroa castelhano-leonesa, assumindo-se como seu vassalo; em contrapartida, Raimundo deveria conceder ao primo o território de Toledo, juntamente com a terça parte das suas riquezas ou em alternativa a Galiza.
Este acordo foi abalado quando, em 1105, nasceu o infante Afonso Raimundes, filho do Conde Raimundo e de D. Urraca, cuja educação foi confiada ao Conde galego Pedro Froilaz; agora havia um herdeiro para se apossar do que fora prometido a D. Henrique.
D. Raimundo faleceu em 1107 , sendo reconhecido pelo próprio Afonso VI, no ano seguinte, o direito sucessório ao trono de Leão e Castela à D. Urraca; alterando significativamente o cumprimento dos termos do Pacto Sucessório, nada mais obrigava a cessão da Galiza à D. Henrique.
No mesmo ano em que o trono de Castela foi garantido à D. Afonso Raimundes, D. Henrique e D. Teresa assistiram ao nascimento de seu filho, Afonso Henriques, em 1108.
O aparecimento deste herdeiro do condado portucalense no cenário político foi tido como uma ameaça à sucessão de D. Afonso VI.
Depois da morte do marido, D. Teresa conseguiu costurar uma aliança com os barões portucalenses, depois de armado cavaleiro em 1125, aos 17 anos; garantindo ao filho um poder ainda mais centralizado ao seu redor do que havia forjado seu pai, bem como apoio irrestrito da nobreza aos seus intentos de fundar um novo Reino.
Em 1127, D. Afonso Henriques assumiu efetivamente o governo do Condado Portucalense, autointitulado Rei de Portugal em 1139; passando Guimarães a ser a capital do Reino e reiniciando, simultaneamente, o processo de reconquista, uma guerra em beneficio da independência contra o Reino de Leão e Castela.
O que exigiu, já por esta época, o aprimoramento da indústria naval com fins de combate aos espanhóis.
A guerra contra Castela durou vários anos e não fez mais do que intensificar a rivalidade luso-espanhola, criando o anseio entre os espanhóis de um dia retomarem Portugal.
O que seria responsável, no final do século XVI, pelo desejo concretizado de união da Coroa espanhola a portuguesa, levando o poderio lusitano a declinar no Oriente, contribuindo para a mudança do eixo econômico e social português, no século XVII, da Índia para o Brasil.
Todavia, em 1179, uma Bula do Papa Alexandre III terminou por confirmar a independência de Portugal.
Desde que D. Afonso Henriques, chamado pelos cronistas da época como “o melhor cavaleiro do mundo”, proclamara-se rei, as fronteiras do novo Estado haviam expandido muito e, com a subida ao trono de D. Sancho I, dito “o lavrador”, em 1185, continuou a estender-se.
Na realidade, o Estado português nasceu do expansionismo territorial e continuou a guiar-se por esta premissa, em conjunto com o combate aos infiéis.
D. Afonso II (1211-1223), “o gordo”, e D. Sancho II (1223-1248), “o capelo”, deram continuidade à guerra de reconquista e combate aos castelhanos; enxergando no aprimoramento da indústria naval um meio de fazer frente, em termos militares, tanto aos mouros como aos inimigos.
Escaramuças navais e fronteiriças luso-espanholas tornaram-se frequentes, intensifica-se após o reconhecimento da independência de Portugal pelo papado.
Não é de se estranhar que a referência mais antiga ao uso da caravela pelos portugueses date de 1226, sendo já usada no combate aos mouros e castelhanos; embora em sua tipologia primitiva não devesse ser como a que se tornaria famosa no século XV.
Seja como for, com o auxilio do desenvolvimento da indústria naval, a expansão das fronteiras de Portugal continuaram com grande êxito.
A ponto de D. Sancho II, pouco depois de assumir o trono em 1248, assumir o título de Rei de Portugal e do Algarve; este último território em poder dos mouros foi conquistado um ano depois, enquanto combates contra os castelhanos continuaram.
A situação de guerra com Castela só foi parcialmente resolvida em 1297, por conta de tratados que estenderam a fronteira portuguesa para oeste, em detrimento dos interesses espanhóis.
Expulsos os infiéis e garantida a autonomia de Portugal com relação à futura Espanha, a continuidade da cruzada contra os mouros constituiu um segundo passo natural em direção à expansão naval ultramarina.

Para saber mais sobre o assunto.
RAMOS, Fábio Pestana. No tempo das especiarias. São Paulo: Contexto, 2006.
RAMOS, Fábio Pestana. O apogeu e declínio do clico das especiarias: 1500-1700. Volume 1: Em busca de cristãos e especiarias. Santo André: FPR/PEAH, 2012.
RAMOS, Fábio Pestana. Por mares nunca dantes navegados. São Paulo: Contexto, 2008.



sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A guerra de reconquista e o contato com os mouros: fatores que contribuíram para o pioneirismo naval lusitano.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 7, Volume dez., Série 16/12, 2016.


Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.


Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.

Licenciado em História - CEUCLAR.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.
Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.



Atraídos pela riqueza hídrica, os árabes atravessaram o Estreito de Gibraltar em 711, o domínio muçulmanos sobre a Península Ibérica fez parte da expansão da fé islâmica pregada desde 612 por Maomé.
O relativo sucesso e rápida penetração árabe deveu-se, sobretudo, ao antagonismo entre judeus e cristãos, o que criou espaço para que em muitos locais a população judaica oprimida recebesse os mouros como libertadores.
Embora os muçulmanos tenham permanecido oito séculos na Península, o domínio efetivo teve duração muito variável de região para região, nunca foi exercido nas terras mais setentrionais, onde várias cidades estiveram em poder dos cristãos por breves períodos.
As variações fizeram com que houvesse um intenso intercâmbio cultural e comercial entre cristãos e mouros, apesar de inimigos civilizacionais por excelência.
Os judeus, principalmente dentro do contexto da reconquista, adquiriram a posição de intermediadores culturais.
Graças ao contato com o mundo islâmico, em muitos casos, intermediado pelos judeus, os lusos se depararam com realidades totalmente inéditas.
Neste sentido, a análise das palavras de origem árabe, que migraram para o português, expressa a aquisição de produtos e tecnologias até então desconhecidas; uma vez que uma palavra nova adota-se para exprimir uma realidade nova.
Entre as inúmeras palavras importadas do árabe, a que se destacar as usadas para designar novos produtos como: alfarroba, alface, alfazema, laranja, limão, açafrão, acelga, cenoura, cherivia, alfobre, estragão, albarrã, maçaroca, azeitona e azeite.
Isto, para não mencionar o açúcar, especiaria que assumiria fundamental importância dentro da economia portuguesa.
No que diz respeito às inovações ligadas ao comércio, poderíamos ainda destacar as palavras: almoeda, armazém, almude, arroba, arrátel, fanga, quilate, calibre, quintal, rima, resma, maravedi, ceitil, mitical e fardo.
Todavia, a mais importante de todas as inovações trazidas pelos muçulmanos esteve ligada ao aprimoramento da arte náutica.
Seguindo a mesma linha de raciocínio, segundo uma das explicações para a origem da palavra caravela, esta teria derivado de “cáravo-à-vela”, embarcação de origem árabe característica do norte da África.
Embora nunca possamos saber com certeza até que ponto o desenvolvimento da caravela esteve ligado ao saber adquirido dos mouros, é certo que ao menos em parte o contato com os muçulmanos influenciou o aprimoramento da indústria naval, assim como diversos instrumentos náuticos que se fariam essenciais à empreitada marítima lusitana foram adquiridos através dos árabes.
É certo que, por volta do século XII, os muçulmanos intensificaram o comércio marítimo desenvolvido pelas cidades do litoral Ocidental, devido as mais estreitas relações que mantinham com os portos marroquinos.
Estas rotas comerciais, dentro do contexto da reconquista, a serem cobiçadas pelos cristãos, ao mesmo tempo em que se fez necessário aprimorar a indústria naval lusitana visando fazer frente aos navios árabes nos seus aspectos militares e comerciais.
Ocorre que, para além deste estímulo à expansão ultramarina portuguesa, pela mesma altura; os mouros haviam iniciado um movimento rumo a exploração da navegação Atlântica , aventurando-se pelo oceano muito antes dos lusos, experiência que seria absorvida pelos portugueses.
Segundo um relato de um geógrafo, datado em 1154, uma destas explorações rumo ao Atlântico, levada a cabo por marinheiros árabes, teria sido realizada pelos chamados “Aventureiros de Lisboa”, na primeira metade do século XII:

“Eram oito marinheiros, aparentados entre si, que embarcaram em Lisboa rumo ao oceano, abastecidos com água e víveres para muitos meses. Ao fim de 22 dias atingiram uma ilha deserta. Regressaram ao mar e, mais tarde, encontraram outra ilha, desta feita habitada e agricultada, onde foram feitos prisioneiros. Interrogados, através de um intérprete árabe, pelo rei local acerca do significado da sua viagem, informaram-no que apenas pretendiam saber quais os extremos limites do mar e o que nele poderia existir de singular e maravilhoso, ao que o rei confessou ser também esse um dos seus desejos. São depois libertados e transportados a um barco, no qual prosseguem a sua navegação. Ao fim de três dias e três noites, aportam a Safim e aí contam sua história” .

Apesar da veracidade deste relato ter sido contestada, não é improvável que os árabes tenham atingido, em suas explorações, a Ilha da Madeira, o arquipélago dos Açores e das Canárias.
Embora, com toda certeza, não tenham se interessado em ocupar estas ilhas, como fariam dois séculos depois os portugueses.
Também não é improvável que os lusos tenham obtido a notícia da existência desta série de ilhas ao Oeste por meio do seu contato com os árabes e, neste sentido, o início da expansão europeia não resulta apenas de um mero acaso, constituindo um processo longamente amadurecido e gerado por uma série de fatores agrupados.
Mais do que o sentimento de continuidade da cruzada contra os infiéis, conduzido, por sua vez, pela guerra de reconquista, tido como estímulo à expansão ultramarina, o contato com os mouros criou condições não só mentais como técnicas que dariam origem a exploração do Atlântico.
Entretanto, no que diz respeito à guerra de reconquista em si, embora o antagonismo religioso tenha sido um grande estimulador da cruzada contra os infiéis; não se pode negar suas razões econômicas e sociais.
As quais, agregadas aos motivos que deram impulso à guerra de reconquista, tal como, a posse de rotas comerciais controladas pelos mouros, serviram de válvula de escape às tesões políticas entre a nobreza e os camponeses empobrecidos do norte da Península Ibérica e da França.
Em outra vertente, como lembrou Raymundo Faoro, em 1958, na obra Os donos do poder, “a guerra, a conquista e o alargamento do território que ela gerou, constituiu a base real, física e tangível, sobre que [se assentaria] o poder da Coroa”; este sim, devido a sua forte centralização, uma das condições básicas que permitiram a primazia lusitana nas navegações ultramarinas.
Retornando a questão da guerra de reconquista, devemos ter em mente que muitas das inovações técnicas no campo da náutica nem sempre foram obtidas por meios pacíficos, muitos segredos registrados em livros escritos em árabe foram roubados durante a pilhagem das povoações ocupados pelos mouros.
Este conhecimento, depois, foi guardado nos mosteiros cristãos, como demonstra o extenso acervo de livros em árabe hoje em poder da Biblioteca Nacional de Lisboa.
Os quais, justamente devido a barreira linguística, ainda não foram devidamente aproveitados pela historiografia, cuja tradução certamente mostraria que não só os lusos aprenderam com os invasores, como também eles (muçulmanos) se beneficiaram com o intercruzamento cultural.
Uma afirmação que poderia levantar a seguinte questão: teria o saber acumulado nestes livros em árabe, durante os séculos em que a guerra de reconquista foi travada, sido devidamente aproveitados, ou, como hoje, a barreira linguística impediu que fossem decifrados?
Nunca poderemos ter certeza, mas tudo indica que boa parte destes livros foram decifrados à época.
Hoje, a barreira à interpretação do árabe arcaico é realmente incrível, porém, entre os séculos X e XV, os chamados moçárabes e judeus serviram como intérpretes devidamente qualificados.
Cabe esclarecer que os moçárabes eram cristãos que tinham permanecido, sob o domínio islâmico, em suas terras em troca de um tributo anual, pago aos invasores.
Os mouros costumavam agregar, aos seus súditos, aqueles que aceitavam seu domínio; em alguns casos, forçando cristãos à conversão e, em outros, respeitando a fé do outro.
Nas terras dominadas pelos árabes, funcionarem simultaneamente mesquitas e igrejas convivendo pacificamente.
Todavia, embora a tolerância religiosa por parte dos muçulmanos, ou como ficariam mais conhecidos, mouros; nome latino derivado da província islâmica do noroeste da África, a Mauritânia; tivesse sido até certo ponto grande, o mesmo não se repetiu do lado cristão.
O combate aos infiéis começou quase imediatamente depois da invasão muçulmana, mais especificamente em 718, e, rapidamente, ainda antes de 914, um terço da península havia sido reconquisto pelos cristãos.
A guerra avançou rápido, a reconquistada foi iniciada por levas de peregrinos do sul França, justamente onde o avanço muçulmano havia sido barrado pelos francos em 736.
Gradualmente a península foi sendo tomada, em ondas delimitadas, respectivamente entre: 914 e 1080, quando ganhou maior força a reconquista, por conta do lançamento pelo papado, em 1096, da primeira Cruzada contra os infiéis, com fins a libertação da cidade santa de Jerusalém; 1080 e 1130; 1130 e 1210; 1210 e 1250; 1250 e 1480; sendo os territórios remanescentes conquistados pouco depois de 1480.
A pilhagem das povoações ocupadas pelos mouros e a doação das recém conquistadas terras aos nobres participantes, autofinanciou e estimulou a continuidade da guerra de reconquista, criando um poder fortemente centralizado em torno do Rei e dois Estados que iriam tornar-se pioneiros na navegação Atlântica: Espanha e Portugal.
Especialmente o nascimento deste último, é indissociável da guerra contra os infiéis, pretexto que seria retomado ao término da dita reconquista, a fim de direcionar a belicosidade da nobreza em função da exploração ultramarina, sob a égide do Infante Dom Henrique, chamado pelos cronistas portugueses da época e mesmo de períodos posteriores de o navegador.

Para saber mais sobre o assunto.
RAMOS, Fábio Pestana. No tempo das especiarias. São Paulo: Contexto, 2006.
RAMOS, Fábio Pestana. O apogeu e declínio do clico das especiarias: 1500-1700. Volume 1: Em busca de cristãos e especiarias. Santo André: FPR/PEAH, 2012.
RAMOS, Fábio Pestana. Por mares nunca dantes navegados. São Paulo: Contexto, 2008.



quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

A localização geográfica favorável de Portugal: fator que contribuiu para o pioneirismo naval.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 7, Volume dez., Série 15/12, 2016.



Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.

Licenciado em História - CEUCLAR.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.

Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.



Dentre os fatores que criaram condições favoráveis, para além de várias razões que levaram os lusos a buscarem no mar a expansão da fé e o enriquecimento; a localização geográfica esteve na gênese do pioneiro nas grandes navegações do século XV e XVI.
Todavia, como cantou Camões, foi graças a estar situado quase no cume da cabeça de Europa , onde a terra se acaba e o mar começa, que Portugal pôde lançar-se à aventura ultramarina.
O território, na antiguidade, era considerado, principalmente no período romano, uma região periférica, situada nos limites do mundo conhecido, concepção herdada dos gregos.
A Odisseia, de Homero, retratava o Estrito de Gibraltar como a entrada do submundo, nomeado como um lugar para além das Colunas de Hércules.
Nem por isto o território era desprovido de valor, em suas terras podiam ser encontradas ricas jazidas de ouro e prata e os melhores ourives de todo o mundo greco-romano.
Na História, Heródoto utilizou pela primeira vez o nome Tartessos, narrando o caso de um mercador grego, Colaios de Samos, que teria comercializado com o rei Argantonio.
Este nome carregava um simbolismo de como a Península Ibérica era vista pelos gregos, pois na versão arcaica deste idioma significa “o homem da montanha de prata”, sugerindo a riqueza mineral.
Uma característica que explica, posteriormente, a criação de núcleos populacionais romanos, no atual Portugal, de grande importância no mundo antigo, tal como Conimbriga, a 17 Km a sul da atual Coimbra.
Uma cidade cujas ruínas, em bom estado de conservação, foram em grande parte já escavadas, dando provas da importância da colônia da Lusitânia, dentro da amplidão do Império Romano desde pelo menos 83 a.C.
Portanto, desde a antiguidade, localizado no extremo Ocidental da Europa, contido em suas fronteiras Orientais pela Espanha, graças aos ventos e correntes que levam ao mar aberto, Portugal esteve condicionado a buscar uma saída pelo Atlântico.
Possuía ancoradouros naturais ao longo da costa e uma tradição de deslocamento por via fluvial, o que estimulou a entrada das primitivas embarcações lusas cada vez mais em direção ao alto mar.
O condicionante geográfico conduziu ao aprimoramento da indústria naval, chamada na época de arte náutica.
Não obstante, embora a posição geográfica explique a intimidade do povo com o mar, não justifica de todo seu pioneirismo, questão mais complexa.
Uma vez que os ingleses, tendo seu país situado em uma ilha, também poderiam ter se lançado ao pioneirismo naval, dado sua posição no globo, até mesmo antes dos lusos.
No caso das terras que iriam formar a Grã-Bretanha, uma série de questões internas retardou até tardiamente a entrada dos ingleses na corrida do expansionismo colonial, iniciado na Idade Moderna.
Já no caso português, a tradição cultural, herdada da mistura eclética entre povos de origens diversas, durante a proto-história do território Ibérico; somada a uma série de circunstâncias políticas e militares; levou Portugal a ser deslocado de zona periférica para território de passagem obrigatória, remetendo novamente a geografia.
Sendo já ponto de passagem obrigatório durante a antiguidade, no contexto das cruzadas, a abertura de rotas comerciais de especiarias, via as cidades italianas, contribuiu enormemente para o pioneirismo lusitano.
Novamente, a geografia condicionou Portugal a servir de escala e entreposto comercial italiano, intermediando produtos Orientais para o norte da Europa.
Em 1947, Jaime Cortesão foi um dos primeiros historiadores a chamar a atenção para predestinação geográfica e política de Portugal.   
Braudel, em seu O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Felipe II, também alertou para os laços entre a história e o espaço.
Não obstante, poderia ser objetado que Portugal sempre esteve situado no mesmo lugar, o que daria margem a perguntar por que então não se lançaram os lusos a aventura marítima antes.
Para compreender este aparente enigma, é necessário ter em mente que núcleos populacionais só se formam onde recursos naturais propiciam a manutenção da vida, ao passo que no território onde se estabeleceria Portugal não foi diferente.
Embora algumas regiões do futuro Estado português não se mostrassem muito atrativas, devido à baixa fertilidade do solo, o potencial hídrico e mineral constituiu, desde cedo, um chamariz, ao mesmo tempo em que o mar e os rios foram sempre uma excelente reserva alimentícia.
Assim, conforme o volume populacional manteve-se estável, não houve necessidade de avançar mar adentro em busca de recursos, inclusive se encarregando o próprio imaginário popular de impedir qualquer ação neste sentido.
O crescimento da densidade populacional nas cidades a partir do século XIV, aliado ao esvaziamento do campo, obrigou os lusos a buscarem no mar os recursos que o solo não podia suprir.
Justamente em um momento em que outros fatores se somaram a este, valorizando a posição estratégica de Portugal.
O que impulsionou sua população para a aventura marítima, constituindo a solução mais óbvia aos problemas que se impunham no período.
Deste modo, caso a geografia de Portugal ou um dos fatores do contexto da época fosse diferente, poderiam os lusos nunca ter adotado a solução Atlântica.
Provavelmente teriam buscado outra resposta aos problemas enfrentados ou mesmo migrando para outro local em busca de recursos, algo que não seria novo na história da humanidade.
Uma possível resposta à falta de braços no campo e a superlotação das cidades no século XV, terminaria certamente tendo um desfecho natural, não fosse à posição de Portugal no globo.
Não houvesse a opção de ir buscar no mar a solução, a própria falta de alimentos teria se encarregado de equilibrar a densidade populacional rural e urbana, fazendo os elementos urbanos buscarem por si fugir das cidades.
No entanto, devemos ter presente que a localização favorável de Portugal, em si, não foi à única mola impulsionadora do pioneirismo naval.
Este pioneirismo só fez cumprir-se devido a uma somatória de fatores.
Onde se insere o ideal cruzadístico, que levaria os lusos a dar continuidade à guerra contra os infiéis no norte da África, por sua vez, gerado pela guerra de reconquista.
O próprio contato com os mouros, advindo da guerra de reconquista, traria inovações técnicas vitais ao aperfeiçoamento de embarcações, este também um fator entrelaçado com a geografia.
Aliás, somando-se a este fator, a carência do solo e a indústria da pesca, foi igualmente uma força impulsionadora ligada à localização geográfica.
A solução Atlântica, aparentemente ideal aos problemas que se impunham, nasceu do condicionante geográfico; a despeito deste estar entrelaçado com outros, os quais analisaremos em separado em outros textos.

Para saber mais sobre o assunto.
RAMOS, Fábio Pestana. No tempo das especiarias. São Paulo: Contexto, 2006.
RAMOS, Fábio Pestana. O apogeu e declínio do clico das especiarias: 1500-1700. Volume 1: Em busca de cristãos e especiarias. Santo André: FPR/PEAH, 2012.
RAMOS, Fábio Pestana. Por mares nunca dantes navegados. São Paulo: Contexto, 2008.