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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O racionalismo Cartesiano e o alvorecer da modernidade.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume nov., Série 21/11, 2011, p.01-09.



O racionalismo cartesiano irrompeu de forma decisiva aos alicerces da modernidade.

Seu principal protagonista, Renée Descartes, recorrendo às mais profundas considerações racionais e, amparado pelos inquestionáveis princípios matemáticos, empenhou-se em demolir racionalmente a totalidade das estruturas instituídas por séculos de divagações e incertezas tradicionais.

No que concernem seus fundamentos, propôs questionar a totalidade das heranças tomistas remanescentes, permitindo-se desconsiderar antigos princípios erigidos em solo pouco seguro, promovendo viagens a nações e ambientes propícios à reflexão em busca de um método que lhe permitisse atingir o conhecimento seguro.

Não obstante, René Descartes se mostrara muito prudente na sua busca, intentando revestir-se de uma moralidade provisória, em respeito às tradições e princípios pessoais, no intento de não perder-se de todo em sua odisséia rumo aos anais da modernidade.

No tramitar da história da filosofia temos a filosofia antiga, a qual para Descartes representara a infância da humanidade, dado os primeiros passos e experiências preliminares na cultura ocidental.

A partir de Descartes, àquele contexto de descobertas científicas, a reforma religiosa e a descoberta de novos continentes, o antigo modelo, principalmente aquele que emprestou seus fundamentos para o estabelecimento cosmológico medieval estivera ferido de morte; o legado medieval e sua cosmovisão não poderiam sustentar-se àquele contexto renascentista cultural europeu, dado as inúmeras inovações e descobertas que se evidenciavam, logo o espírito do tempo parece ter preparado terreno a essa desconstrução, através do gênio inquietante de René Descartes.

           

A justificativa à temática é o fascínio pelas ricas nuances do renascimento cultural europeu, sejam elas epistemológicas, culturais ou históricas; um contexto de inovações e descobertas que transitaram entre o medieval e o moderno e, não obstante, por compartilhar da natural e rigorosa curiosidade cartesiana, quanto a admitir tão somente o conhecimento em conformidade ao método, sob a alçada da dúvida e da crítica aos princípios instituídos pelas tradições.

A proposta do presente será discorrer de forma fidedigna a cerca das inquietações específicas vivenciadas por Descartes àquele contexto histórico, a partir de análise bibliográfica autoral, buscando elencar o cerne do racionalismo cartesiano e sua importância decisiva aos alicerces da modernidade e posteridade da cultura europeia; a filosofia cartesiana fundamentou a modernidade e, como tal, não se esgotou àquele contexto, estendendo-se aos confins da cultura ocidental.





As inquietações cartesianas.

Considerando sua origem nobre, Descartes tivera o privilégio de estudar em um dos melhores colégios europeus de seu tempo, La Flèche, onde aprendera tudo o que era esperado de um jovem de sua estirpe.

Não obstante os privilégios de nascimento e a excelência educacional que recebera, Descartes fora dotado de um espírito inquieto e curioso, tendo tido a liberdade acadêmica de ler a maioria dos livros e conteúdos disseminados pela cultura até aquele contexto, o qual encontrava a mercê de descobertas científicas e astronômicas, notadamente o heliocentrismo de Copérnico e as descobertas de Galileu Galilei, as quais insistiam em abalar os alicerces da herança teocentrista medieval.

Descartes, depois de concluída sua formação inicial, não obstante ter de cursar direito por desejo de seu pai, resolve não iniciar carreira alguma, uma vez que considerara não ter apreendido coisa alguma de útil na vida; decide-se a buscar o conhecimento a partir de si mesmo e da vida, para além dos velhos livros que lera; buscara o conhecimento por convicção, através das sementes da verdade.

Para tanto, decide-se a abandonar a infância e preconceitos nas quais fora educado; Descartes considerara a antiguidade a infância da humanidade da qual prendera se libertar.

A filosofia cartesiana fora, antes de tudo, um apelo à razão, partindo de meditações temporais, passando por revisões a totalidade dos princípios até então arraigados no contexto da modernidade epistemológica europeia.

Por estes pressupostos, René Descartes questionara a grande totalidade dos princípios até então tomados como certos e evidentes, apelando para a desconstrução daquelas estruturas seculares, rumando à idealização de uma utópica ciência universal.



Ao editor francês de seus Princípios de Filosofia assim discorre:



“E para que este conhecimento assim possa ser, é necessário deduzi-lo das primeiras causas, de tal modo que para se conseguir obtê-lo--- e a isto se chama filosofar---há que começar pela investigação dessas primeiras causas, ou seja, dos princípios. Estes devem obedecer a duas condições: uma é, que sejam tão claros e evidentes que o espírito humano não possa duvidar de sua verdade desde que se aplique a considerá-los com atenção; a outra, é que o conhecimento das outras coisas dependa deles, de maneira que possam ser conhecidos sem elas, mas não o inverso” (DESCARTES, 2006, p.15).



A origem da odisseia cartesiana remontara à infância, onde despontara os critérios potenciais de seu legado; partindo da elucidação de seus primeiros enganos e preconceitos, onde, através do conhecimento de algumas causas e reflexões necessárias, logra livrar-se das falsas impressões.

“Procura nela a fonte dos seus preconceitos e dos seus erros, em vez de enternecer com ela. Explica-se, não se conta...” (ALQUIÉ, 1993, p.16).

A função racional, tão ricamente cultuada por Descartes, adquire um sentido único no contexto da modernidade, recorrendo ao pressuposto de que todos os homens são dotados naturalmente de razão na mesma medida, não obstante trilhem diferentes caminhos e considerações no que concerne a condução dos pensamentos.



Assim discorre:

“(...) mas antes testemunha que a potência de bem julgar e distinguir o verdadeiro do falso, que é propriamente igual em todos os homens; e assim, a diversidade de nossas opiniões não vem de uns serem mais razoáveis do que outros, mas só de conduzirmos nossos pensamentos por caminhos diversos e não considerarmos as mesmas coisas” (DESCARTES, 2008, p.15).



Assim, a originalidade do racionalismo cartesiano não consistira em propor novos princípios ou uma nova filosofia, mas em revisar os antigos e correntes, em função do bom senso ou razão, comum a todos os homens, ainda que por critérios e medidas acidentais indistintas, diante de pressupostos pacíficos inerentes à natureza da criação permeadas naquele contexto.

O caminho seguido por Descartes é o caminho da sensatez intelectual e certezas matemáticas, no que concerne a distinção da natureza de todas as coisas.



O método cartesiano.

1. Evidência: só aceitar como verdadeiro aquilo que se apresentar ao espírito de forma clara e distinta, de forma a evitar qualquer precipitação, prevenindo juízos que atentem contra a clareza e distinção, dirimindo qualquer possibilidade de dúvida.

2. Análise: dividir as dificuldades em tantas parcelas quanto forem necessárias para melhor resolvê-las.

3. Síntese: Conduzir os pensamentos por ordem, partindo do conhecimento dos objetos mais simples e mais fáceis de forma a atingir e deduzir  possivelmente o conhecimento dos compostos e mais complexos.

4. Enumeração: fazer revisões tão complexas e revisões tão gerais no intuito de nada omitir.



Decorre do método, portanto, que todo o conhecimento deve passar pelo crivo desse processo de regras simples, cujo legado influenciaria a ascensão da tradição racionalista e supremacia da razão na sustentação do conhecimento, em substituição aos princípios de autoridade, relegados à tradição aristotélico-tomista e à autoridade bíblica, sendo metodicamente necessário, desse modo, colocar tudo em dúvida; a dúvida cartesiana não é a dúvida cética tradicional, a qual sustentava a impossibilidade de conhecer, senão a dúvida necessária à fundação do conhecimento seguro, livre de quaisquer pressupostos tradicionais ou empreendimentos dogmáticos permeados àquele contexto histórico.

Considerado pai da filosofia moderna pelas vias de sua filosofia, Descartes não pretendeu impor seu método, senão servir-se do mesmo segundo critérios e necessidades próprias.

Esse subjetivismo solipcista propõe um pensar sobre si em função de conhecer e criar caminhos para si mesmo; o sujeito moderno surge desse posicionamento pessoal, intransferível e solitário.





A moralidade cartesiana.

Enquanto prepara o terreno para a total desconstrução que seu pensamento desencadeará no seio da modernidade, Descartes parecera revestir-se de grande prudência.

Ao que tudo indica, Descartes sempre fora muito cauteloso quanto ao impacto de suas ideias, tendo-se em vista o período político, histórico e religioso, e os resquícios da autoridade da antiga tradição tomista medieval. 

Nesse intento, propõe agir de forma cautelosa, tanto pessoal, quanto aos objetivos de sua epistemologia, propondo uma moralidade provisória, enquanto preparara terreno à inovação que desencadearia suas ideias; preferiu muitas vezes abrigar-se em ambientes de guerras e em nações de liberdade religiosa para poder trabalhar seus pensamentos com liberdade, não se detendo muito tempo nos mesmos lugares, considerando os preceitos:



01. Obedecer às leis, os costumes de seu país, guardando sua formação religiosa particular e governando-se de acordo com as opiniões mais sensatas e distantes do excesso, partilhadas junto às pessoas mais sensatas.

02. Ser o mais firme e decidido possível nas ações, caminhando sempre por um caminho reto, ainda que a princípio este pareça casual, na certeza de chegar a um lugar melhor do que se encontrara àquele contexto.

03. Vencer-se a si próprio antes à fortuna, mudando seus desejos ante a ordem do mundo, acostumando-se a crer-se tão somente no comando de seus pensamentos.



Na ratificação de seus princípios assim discorre:



“Enfim, como não basta, antes de começarmos a reconstruir a casa onde moramos, derrubá-la e juntar materiais e arquitetos ou exercermos nós mesmos a arquitetura, e além disso ter cuidadosamente traçado o seu plano, mas é preciso também providenciar uma outra casa onde possamos instalar-nos comodamente durante o tempo em que nela trabalhamos; assim, para não ficar indeciso, em minhas ações, enquanto a razão me obrigava a sê-lo em meus juízos, e para não deixar de viver, a partir de então, o mais felizmente que pudesse, compus para mim mesmo uma moral provisória, que consistia em apenas três ou quatro máximas que com prazer quero vos comunicar” (DESCARTES, 2008, p.15).





A dúvida metódica.

Da necessidade de atingir o conhecimento seguro, segundo o método rigoroso a que se propôs, Descartes se encarrega de duvidar de tudo aquilo que então era posto como verdadeiro nas esferas do conhecimento.

Sua estratégia de duvidar não era pacífica ao ceticismo grego antigo de Pirro de Elis, senão uma via particular de atingir fundamentos seguros, segundo condições racionais que lançasse luz a quaisquer possibilidades de incertezas quanto ao um conhecimento indubitável.

O método da dúvida pressupõe, destarte, não duvidar por considerar o conhecimento impossível, mas duvidar de tudo o que não se mostrasse inteiramente verdadeiro. 

Sob o crivo da dúvida, tudo deveria ser posto sob suspeita no intento único de atingir certezas indubitáveis.



Assim discorre:

“(...) seriamente e com liberdade me aplicarei a destruir em geral todas as minhas antigas opiniões. Ora, para tanto não será necessário mostrar que todas elas são falsas, o que talvez jamais levasse a cabo; mas uma vez que a razão já me persuade de que não devo com menos cuidado evitar dar crédito às coisas que não sejam inteiramente certas e indubitáveis do que as que nos parecem manifestadamente falsas, bastar-me-á para rejeitá-las a todas poder encontrar em cada uma delas alguma razão para duvidar”. (DESCARTES, 2008, p.83).





O subjetivismo moderno.

Perante uma infinidade de dúvidas que o assolam, Descartes passa a desconsiderar qualquer espécie de certezas; duvida de seus sentidos, da memória das representações corpóreas, das extensões, do movimento, não obstante considerar a possibilidade de um gênio enganador que lhe induz ao erro, através de falsas impressões e pensamentos, para tanto busca um ponto de apoio capaz de lhe garantir alguma certeza indubitável. Observa que “Arquimedes, para tirar o globo terrestre do lugar e transportá-lo para outro, nada mais pedia que um ponto firme e imóvel; assim, terei direito a conceber altas esperanças, se for feliz o bastante para encontrar uma só coisa que seja certa e indubitável” (Descartes, 2008, p.89).

Na sua meditação segunda discorre: “[...] não há quaisquer indícios concludentes, nem marcas assaz certas por onde se possa distinguir nitidamente a vigília do sono, que me sinto inteiramente pasmado e meu pasmo é tal que é quase capaz de me persuadir de que estou dormindo” (DESCARTES, 1973, p.94).

Perante as incertezas que o assolam, Descartes hesita em admitir quaisquer graus de certeza com relação às coisas externas à sua sensibilidade; não obstante, em meio aos inúmeros questionamentos que o levaram a duvidar de tudo o quanto pudera ser duvidado, logra encontrar um princípio único e inquestionável o qual não pudera admitir como incerto; a certeza indubitável de sua própria existência, condição primeira e necessária ao próprio ato de duvidar.



Na sua meditação segunda discorre:

“Sou tão dependente do corpo e dos sentidos que não possa ser sem eles? Mas me convenci de que não havia absolutamente nada no mundo, não havia nenhum céu, nenhuma terra, nenhum espírito, nenhum corpo; não me convenci, então de que eu não era? Longe disso; eu sem dúvida era, se me convenci ou simplesmente se pensei alguma coisa. Mas há não sei qual enganador muito poderoso e muito astuto que emprega toda a sua indústria em sempre me enganar. Não há, portanto, dúvida de que sou, se ele me engana; e pode ele enganar-me quando quiser, jamais poderá fazer que eu não seja nada, enquanto eu pensar ser alguma coisa. Assim, depois de bem pensar sobre isso e de ter atentamente examinado todas as coisas, cumpre finalmente concluir e ter como certo que esta proposição: eu sou, eu existo, é necessariamente verdadeira todas as vezes que eu a pronuncio ou a concebo no meu espírito.” (DESCARTES, 2008, p.90).





Mais algumas considerações.

Por ocasião da realização do presente, notou-se a extensão e importância do primado da razão ao desenvolvimento da modernidade filosófica, científica e cultural europeia.

Até aquele contexto, dominado pela tradição tomista, o realismo considerava as ideias como a representação das coisas mesmas.

Descartes parte do subjetivismo para daí, a partir de seu método particular, atingir o conhecimento das coisas da sensibilidade.

Essa inversão inaugura o primado da razão na condução do conhecimento e o método cartesiano proporcionaria o desenvolvimento das ciências segundos critérios rigorosos que caracterizariam o notável desenvolvimento científico vindouro.

O envolvimento com o presente tema proporcionou a imersão naquele contexto temporal, através da compreensão daquelas problemáticas cosmológicas peculiares, estendendo este leque de reflexão às problemáticas presentes, considerando a evolução do pensamento filosófico desde a modernidade europeia, partindo da natural superação do modelo medieval; a compreensão do passado, do amadurecimento da filosofia se mostra indispensável ao entendimento das atuais problemáticas filosóficas, reafirmando a característica indelével da operação racional como particularidade intrínseca e atemporal ao ato de filosofar.

Este enfoque baseou-se numa visão epistemológica quanto ao racionalismo cartesiano.

Para tanto, considerou-se fundamentalmente o problema teórico do conhecimento, da delimitação e destruição dos modelos escolásticos decadentes que constituíam o cerne da cultura científica e filosófica europeia naquele contexto histórico.

Não se considerou algumas problemáticas, tais como as pesquisas científicas que desenvolvera e suas contribuições particulares, uma vez que estas se mostraram redundantes à temática em questão, assim como prova ontológica de Deus, uma vez que esta teve uma importância apenas necessária àquele modelo epistêmico, devendo ser estudada sob um enfoque teológico, estranho a essa proposta epistêmica.

Descartes, que se ocupou da elucidação das dúvidas, sugeriu uma metodologia que, não obstante as naturais e necessárias refutações, intrínsecas ao ato de filosofar, desencadearia uma revolução na forma de pensar, de pensar com método, com rigor e com critérios necessários à fundação da modernidade e posteridade científica e filosófica da cultura ocidental.

Esse enfoque epistêmico da filosofia cartesiana partiu assim, da necessidade de mostrar um Descartes dotado de natural curiosidade no conhecimento das coisas do mundo.

Esse Descartes curioso é naturalmente prudente, uma vez que sabe das consequências da novidade de seus pensamentos, tendo-se em vista a condenação de seus contemporâneos, por isso age com prudência, através de uma moralidade provisória, honrando a tradição.

Não obstante, mudou-se constantemente, talvez não unicamente pra pensar com autonomia, mas ainda para proteger-se dos possíveis impactos de suas ideias.

Temos assim um Descartes sábio e ao mesmo tempo prudente e, graças a essas qualidades legou uma contribuição inestimável ao alvorecer da modernidade.·.





Concluindo.

A filosofia cartesiana partiu assim, da certeza inequívoca e solitária do sujeito enquanto coisa que pensa como condição primeira a obtenção do conhecimento seguro dos dados externos à consciência.

Essa prioridade da razão sobre os sentidos, do cogito, implicou na consideração cartesiana da pouca fiabilidade dos sentidos quanto ao conhecimento seguro.

No argumento dos sonhos, cogita a impossibilidade de discernir entre o estado do sono e da vigília, quando interpelado pelos critérios processos de dúvida que o assolaram, concernente a considerar as falsas impressões dos sentidos.

Essa evidência a qual chegou Descartes pode parece trivial ou redundante num contexto contemporâneo, não obstante, se considerada sob a ótica do contexto histórico do renascimento cultural europeu, envolto em embates entre a tradição escolástica medieval e os novos paradigmas suscitados pelos descobrimentos marítimos, as descobertas científicas e astronômicas e, ainda as querelas entre católicos e protestantes na instituição da fé, esse modelo epistêmico foi decisivo à indústria da modernidade.

Descartes, privilegiado por sua condição fidalga, ainda que aparentemente se mantivesse pacífico às tradições e fé católica tradicional, insurge racionalmente contra o modelo epistêmico daquela tradição, ainda que de forma cautelosa, tendo-se em vista o impacto que seus pensamentos imporiam àquela estrutura decadente.

Sua metodologia rigorosa e a instituição da consciência como condição primeira ao conhecimento seguro instituiria o legado da razão na condução do conhecimento, proporcionando o desenvolvimento ímpar das ciências, cujo legado se estenderia a posteridade cultural ocidental daí, “o racionalismo cartesiano e o alvorecer da modernidade”.





Para saber mais sobre o assunto.

ALQUIÉ Ferdinand. A filosofia de Descartes. Lisboa / Portugal: Editorial Presença, 1993.

COTTINGHAN, John. Dicionário Descartes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995.

DESCARTES, René. Discurso do método: Meditações. São Paulo: Martin Claret, 2008.

DESCARTES, René. Princípios de Filosofia. Lisboa: Edições 70, 2006.





Texto: Antonio Carlos da Rosa.

Concluinte do curso de graduação licenciatura em filosofia
pelo Centro Universitário Claretiano – SP.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O Racionalismo Cartesiano no contexto da Teoria do Conhecimento.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume fev., Série 21/02, 2011, p.01-08.

A despeito da discussão iniciada na antiguidade, durante a Idade Moderna, René Descartes revolucionou a maneira de pensar a construção do conhecimento, podendo ser considerado o pai da moderna Teoria do Conhecimento.
A despeito de grande parte dos historiadores da filosofia considerar John Locke como o fundador da Teoria do Conhecimento, foi Descartes que, seguindo a tradição estabelecida por Parmênides, demoliu todas as certezas para reconstruí-las sob as bases solidas da razão.
Depois de um período em que, durante a Idade Média, o cristianismo interrompeu a discussão sobre a possibilidade de conhecer, o racionalismo cartesiano ousadamente retomou a temática.
O cristianismo havia distinguido verdades de fé reveladas da realidade racional, optando por demonstrar que o conhecido era apenas o permitido por Deus, quando o filosofo francês provou que sem a razão não era nem ao menos ter certeza da existência de um ser imaterial superior ao homem.


Descartes e o Racionalismo.
René Descartes (1596-1650) nasceu na França, em uma família burguesa enobrecida, estudou em colégio jesuíta, onde aprendeu autodisciplina e tomou gosto pelos estudos.
Foi neste período que notou a ausência de uma metodologia capaz de fornecer sustentação a ciência e a filosofia; instruindo, controlando e ordenando as idéias para guiar a busca pela verdade.
O que o levaria a escrever, mais tarde, o Discurso do método.
Na realidade, Descartes estabeleceu uma critica a ciência de sua época e aos ensinamentos tradicionais.
Chegou a afirmar que na filosofia não se encontrava até então uma só coisa que não fosse duvidosa.
Isto, principalmente porque reinava naquele momento a escolástica, uma tendência medieval que defendia a idéia de que a fé em Cristo e a razão deveriam ser conciliadas.
Para Tomás de Aquino, por exemplo, não poderia haver contradição entre fé e razão, sendo que Deus garantia a verdade em detrimento do obvio.
Já Santo Agostinho simbolizava a junção entre fé e razão através de um episódio que o teria levado a conversão.
Segundo ele, andando pela praia, questionando a existência de Deus, encontrou um garoto tentando encher um buraco na areia com água do mar.
Ao perguntar aquela criança sua intenção, obtém a resposta que o menino queria colocar toda a água do mar no buraco.
Chamando o garoto de louco, escuta dele que é mais fácil colocar toda água do mar no buraco na areia do que o homem, com sua razão limitada, entender o que é Deus.
Descarte se opôs, justamente, a este tipo de pensamento e forma de explicar o mundo.
Para isto, defendeu a idéia da recuperação do sentido original da matemática, uma palavra que, a partir do grego ta mathema, significa conhecimento completo ou conhecimento racional integral de ponta a ponta.
Ainda na juventude o francês já afirmava que somente a matemática poderia fundamentar com conceitos firmes e sólidos a ciência e a filosofia.
Aliás, dois conceitos que ainda se confundiam neste período e até pelos menos o século XVIII.
No entanto, Descartes deixou o colégio jesuíta desorientado, sem saber como aplicar a matemática na construção de um conhecimento de fato totalizante, estudando direito e freqüentando aulas de medicina.
Formado, viajou pela Europa, alistando-se nas tropas de Mauricio de Nassau, na Holanda, em 1618.
No ano seguinte, serviu no exercito de Maximiliano da Baviera, no que hoje é a Alemanha.
Nesta época em que foi soldado, estudou física e, depois, resolveu viajar novamente pela Europa, até se estabelecer na Holanda em 1628, quando conheceu Galileu Galilei, interessando-se pelo estudo da matemática pura.
Foi quando escreveu sua primeira obra filosófica, as Regras para a direção do espírito (1628), pesquisando e escrevendo sobre ótica, lentes, o funcionamento dos olhos humanos, a luz, anatomia e a circulação sanguínea.
Fruto destas pesquisas, publicou O mundo ou tratado sobre a luz, uma obra sobre física, além de um estudo antropológico intitulado O homem.
Entre 1633 e 1637 publicou mais um tratado de física - Meteoros, dióprica e geometria -, passando a expressar uma intensa preocupação com o problema da objetividade da razão e a autonomia da ciência em relação à onipotência de Deus.
Isto conduziu a publicação da obra O discurso sobre o método, a qual ficaria conhecida como O discurso do método, em 1637, demonstrando o caráter objetivo da razão, indicando regras para buscar a objetividade para alcançar a verdade.
Embora tenha mesclado esta intenção com fundamentos metafísicos, por razões obvias, para tentar escapar da censura da inquisição.
Este caráter metafísico do pensamento cartesiano foi ressaltado na obra Meditações sobre a filosofia primeira, conhecida como Meditações metafísicas, publicada em 1641.
Onde Deus foi apresentado como garantia da existência do mundo e da possibilidade de construção do conhecimento objetivo e concreto da realidade.
Em 1644, Descartes publicou Princípios da filosofia, uma síntese de suas concepções filosóficas e cientificas.
Dedicando-se a responder objeções de seus críticos, através de cartas remetidas a cada qual, hoje também publicadas.

Em 1649, quando publicou As paixões da alma, onde abordava a relação entre corpos e alma, o problema da moral e do livre-arbítrio; desgostoso com a proibição de suas obras em várias universidades em diferentes pontos da Europa, resolveu aceitar o convite da rainha Cristina da Suécia para integrar sua corte.

A estadia na Suécia foi curta, o hábito da rainha de se reunir com seus protegidos para discutir filosofia às cinco horas da manhã, no inverno rigoroso, diante de sua saúde debilitada e o clima rígido, levou Descartes à morte por pneumonia em dois de fevereiro de 1650.

Após a sua morte, obras póstumas foram publicadas, demonstrando sua imensa genialidade, incluindo suas mencionadas cartas e um tratado de música.


O método.
Para Descartes, a razão era a única capaz de construir uma ciência segura que conduzisse a verdade, possibilitando certezas matemáticas, inserindo-se no contexto da matemática universal cartesiana.
Isto porque a razão seria o único elemento comum a todos os homens, sendo imutável no tempo e espaço, portanto, universal.
Para a realização deste projeto, Descartes defendeu a idéia de que a ciência e filosofia precisavam de um método universalmente aplicável para fornecer alicerces seguros para a construção do conhecimento.
O método foi definido como um conjunto de regras que, observadas com exatidão, conduziriam à certeza, “ensinando a não tomar o falso por verdadeiro e aumentando, progressivamente”, o conhecimento.
Neste sentido, o método adquiriu o significado que possui ainda entre nós hoje: um conjunto de operações, de regras para alcançar um resultado.
Este método universal deveria ser critico, para contestar e evitar erros; e positivo, forçando a acreditar que é possível chegar à verdade, mesmo que provisória.

O método cartesiano defende três princípios:
1. Clareza: só aceitar aquilo que se a apresenta imediatamente ao espírito; o que surge por meio da intuição direta e é entendido só ao ser observado.
2. Distinção: só aceitar como verdadeira uma idéia que não se confunda com nenhuma outra, sem possibilidade de dúvida.
3. Evidência: aquilo que é claro e distinto; o que pode ser expresso pela máxima de só aceitar como verdadeira a idéia que se apresenta de imediato e sobre a qual não existe dúvida, não havendo como confundi-la com outra.

Portanto, para encontrar a verdade, seria necessário um esforço para não aceitar como certo aquilo que não seja claro e distinto, assim evidente; afastando preconceitos, precipitações, situações emocionais e psicológicas que conduzem ao erro.

Para atingir esta intenção, Descartes pensou em quatro regras que compõem seu método:
1. Evidência: só tomar como verdadeiro aquilo que se apresenta de forma clara e distinta.
2. Análise: dividir problemas complexos em partes menores para solucionar cada questão e, portanto, resolver o problema maior.
3. Síntese: conduzir o pensamento de forma ordenada, organizando do mais fácil para o mais difícil, do simples para o complexo.
4. Enumeração ou Revisão: retomar o pensamento em busca da falhas, encontrando erros reiniciar todo processo.

Neste contexto, para tornar o método uma matemática universal (mathema universalis) seria necessário ainda usar dois elementos:
1. Intuição: uma operação ou processo racional que permite a apreensão imediata e instantânea de uma evidência.
2. Dedução: a operação ou processo racional pelo qual, a partir de verdades conhecidas, poderíamos extrair outras verdades, pois as verdades estariam ligadas, encadeadas de forma progressiva.

Seja como for, a partir do racionalismo cartesiano, todo conhecimento cientifico passou a carecer de metodologia para ser considerado ciência.
O método se tornou o alicerce, a base de sustentação de qualquer teoria.


A dúvida cartesiana.
A dúvida cartesiana funda a moderna Teoria do Conhecimento, estabelecendo uma doutrina que suspende o juízo provisoriamente por não saber se uma proposição é verdadeira ou falsa.
Uma idéia defendida por Descartes nas obras Discurso do método (1637), Meditações metafísicas (1641) e Princípios da filosofia (1644).

Através da dúvida, ele pretendia encontrar a verdade sobre a possibilidade de conhecer, utilizando como primeiro argumento o gênio maligno.


O filosofo pretendia aplicar seu método ao saber tradicional, fornecido pelo mundo sensível, pelos sentidos, para ver se existia alguma verdade naquilo que julgamos real.

Supondo que não existe Deus, mas sim um gênio maligno, enganador, afirma que todas as coisas exteriores podem ser apenas ilusões e enganos.
O gênio maligno pode iludir a pensar que determinado objeto é real, quando não existe além da mente.
Em seguida, pensando nas experiências sensíveis, lembra que os sentidos enganam, lançando mão do argumento do erro dos sentidos.
Cita como exemplo uma vara dentro da água, a qual parece entortar ou ficar mais curta para o observador, mas continua igual.
Nem mesmo a razão escapa da dúvida, pois boa parte do saber se fundamenta na razão.
Também este elemento parece duvidoso, a partir do argumento do sono e da vigília, o qual demonstra que o raciocínio erra.
Descartes relata que muitas vezes está diante da lareira aquecendo-se, mas, de repente, acorda e se vê sobre a cama debaixo das cobertas; ou seja, sua mente enganou seu raciocínio.
Neste momento, retoma o argumento do gênio maligno, admitindo a possibilidade da existência de Deus, tornando a dúvida hiperbólica através do argumento do Deus enganador.
Supondo que Deus existe, ele poderia estar me enganando, brincando com o homem, levando a sentir ou pensar coisas que não são reais.
A dúvida se torna hiperbólica porque não há nada certo no mundo, até a matemática e a teologia são colocadas em dúvida.
No entanto, a dúvida cartesiana não é a mesma dos céticos, que negavam a possibilidade de chegar à verdade, é apenas uma etapa para eliminar os entraves que atrapalham a construção do verdadeiro conhecimento racional.
A dúvida serve para afastar o que não é evidente e chegar à verdade, o que é alcançado através do cogito.


O cogito.
Permanecendo a dúvida nunca seria possível construir qualquer tipo de conhecimento, inviabilizando a filosofia e a Teoria do Conhecimento.
A superação deste estado conduz a descoberta do cogito.
Ao duvidar, enquanto duvido, eu penso, logo, existindo pensamento, é necessário que exista quem pense, nem que esta existência do ser seja apenas enquanto ser pensante.

Daí a máxima cartesiana: “cogito ergo sun”, uma expressão em latim que pode ser traduzido como “penso, logo existo”.

Entretanto, não há experiência ou dados fornecidos pelos sentidos, somente intuição, o que é evidente; conduzindo a uma única certeza inquestionável: eu existo como ser pensante.

A realidade do outro ou do mundo exterior já é outra coisa, pois, quanto a isto, a dúvida permanece.
Para que este pensamento não caia no solipsismo - a doutrina que afirma que o eu é a única certeza real e segura no mundo - passa a ser necessário provar a existência de algo fora de mim mesmo, fora do ser pensante.
Até este momento, o eu cartesiano é puro pensamento, res cogitans (ser pensante), já que no caminho da dúvida, a realidade do corpo foi colocada em suspenso.
A res extensa (coisa ou ser extenso, ser material) pode ser apenas imaginada pela razão.
É a prova ontológica da existência de Deus que garante a realidade externa ao eu.
O que possibilita a construção de conhecimentos seguros e a especulação filosófica e cientifica.
Cabe lembrar que a ontologia é a parte da filosofia que especula sobre o ser enquanto ser, estudando as substâncias para além das aparências, em outras palavras, busca conhecer a essência das coisas.
Descartes prova a existência de Deus, justamente, através de sua suposta essência, a partir da idéia de perfeição e infinitude, mostrando pela matemática que o infinito não cabe dentro do que tem fim.
Portanto, a idéia de Deus não pode nascer da mente humana, finita, só pode ter origem externa, fornecida pelo ser infinito, ou seja, Deus.
A existência de Deus, por sua vez, demonstra como a realidade exterior não é ilusão, o que leva, também, a admitir que existem idéias inatas, que são exteriores ao ser pensante e que já nascem com o homem.
Isto mostra que a idéia de corpo é inata e que a res extensa existe concretamente, sendo a realidade possível de ser conhecida através da razão.


Concluindo.
René Descartes desconstrói o mundo, a realidade, antes assegurada pela revelação divina, mostrando que nada é certo, tudo é questionável.
Para em seguida, demonstrar que não é Deus que garante a possibilidade de conhecer, mas sim a razão.
É claro que, sendo um homem de sue tempo, acaba tendo que encaixar Deus em algum lugar, terminando por utilizá-lo como garantia da realidade exterior ao eu.
No entanto, o Deus cartesiano não é exatamente o mesmo Deus cristão; é antes de tudo uma entidade superior, que poderia ser até um deus astronauta.
Descartes errou feio ao afirmar que a glândula pineal fazia a comunicação entre ser pensante e extenso, podendo conferir um sexto sentido ao homem, possibilitando transitar entre realidade física e pensamento.
Mas acertou ao tornar o cogito uma certeza inabalável, tendo como guia um método seguro e universal, permitindo entender a realidade e construir o conhecimento.
Como mostra o filme Matrix, talvez a realidade não passe daquilo que imaginamos, porém, com certeza o pensamento contido no racionalismo cartesiano garante que existe uma possibilidade de conhecer concreta.
Assim, funda a moderna Teoria do Conhecimento.


Para saber mais sobre o assunto.
ALQUIÉ, F. et alli. Galileu, Descartes e o mecanismo. Lisboa: Gradiva, 1987.
KOYRÉ, A. Considerações sobre Descartes. Lisboa: Presença, 1963.
KUJAWSKI, G. M. Descartes existencial. São Paulo: Edusp, 1969.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.