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sábado, 10 de março de 2012

A evolução conceitual da Ética.

 

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 3, Vol. mar., Série 10/03, 2012, p.01-12.


Desde a antiguidade, a ética percorreu um longo caminho, distinguindo-se da moral e se segmentando, adquirindo contemporaneamente um sentido amplo e outro mais estreito.
Atualmente, existe uma ética da humanidade que pauta comportamentos pensando em pressupostos maiores; e outra que padroniza ações no interior de um grupo especifico.

As duas vertentes nem sempre caminharam juntas, gerando recomendações contraditórias e paradoxais.

Para entender o que e como se configurou a chamada ética profissional, apenas um dos ramos da ética normativa, é necessário percorrer o desenvolvimento conceitual da ética ao longo da história.


A ética na antiguidade.
A ética nasceu na Grécia, praticamente junto com a filosofia, embora seus preceitos fossem praticados entre outros povos desde os primórdios da humanidade, mesclados ao contexto mítico e religioso, tentando pautar regras de comportamento para permitir o convívio entre indivíduos agrupados no conjunto da sociedade.
A rigor, os gregos foram os primeiros a racionalizar as relações entre as pessoas, repensando posturas e sistematizando ações.
Momento em que surgiram discussões que até hoje fomentam reflexões éticas.
Apesar dos pré-socráticos se inserirem neste contexto, a maioria dos autores atribuem a tradição socrática um olhar mais atento sobre problemáticas em torno da ética.
Para Sócrates, o verdadeiro objeto do conhecimento seria a alma humana, onde reside a verdade e a possibilidade de alcançar a felicidade.
O grande problema é que o individuo não está preparado para encontrar a verdade dentro de seu espírito.
Tentando eliminar os próprios erros, ocultos em sentimentos confundidos com a felicidade, o sujeito acaba buscando somente o prazer puramente hedonista.
Por esta razão, seria missão do filósofo conduzir o sujeito ao conhecimento, direcionando para eudaimonia, a verdadeira felicidade.
Um conceito importante para os gregos, tanto que a palavra eudeimon tem a mesma origem etimológica, denotando riqueza e denominando um homem poderoso e com boa fortuna.
Para a tradição socrática, a felicidade só pode ser alcançada pela conduta reta, a verdade só pode ser contemplada pelo conhecimento virtuoso do mundo, pelo comportamento orientado pela bondade.
A virtude é o centro da ética socrática, podendo ser definida como uma disposição para praticar o bem, suprimir os desejos despertados pelos sentimentos, racionalizando as ações em beneficio da coletividade.
O individuo virtuoso, bom, é aquele que se preocupa em aperfeiçoar a convivência comunitária, em tornar-se o cidadão perfeito.
Neste sentido, devemos notar que a ética é uma busca pela felicidade coletiva, mas envolve apenas a eudaimonia entre iguais.
A preocupação ética abarca a comunidade, a Pólis, onde estrangeiros e escravos estão excluídos em meio à hierarquização da sociedade.
Os sofistas, tendo um conceito relativizado de verdade, duvidaram da possibilidade da virtude poder ser ensinada, contudo, admitiram que poderia ser desenvolvida pelo sujeito através do despertar da consciência.
O conhecimento seria o meio do individuo se aperfeiçoar, tornando-se virtuoso pelo amadurecimento intelectual; enquanto a ignorância representa o vicio.
Desta concepção decorreu a fundamentação da ética em volta da liberdade, virtude e bondade.
Parâmetros que nortearam o pensamento ético aristotélico, onde a felicidade é definida como a própria virtude, garantia da liberdade.
Antes de Aristóteles, herdeiro da tradição socrática, Platão tratou a ética como componente indissociável da vida política, da harmonia entre os habitantes da Pólis.
Sua tarefa seria promover o nivelamento entre os indivíduos, diluindo as diferenças em prol do bem comum.
A ética deveria permitir que os indivíduos partilhassem o poder, impedindo a concentração do governo da Pólis nas mãos de um segmento da sociedade ou de um individuo.
Portanto, fornecendo limites à liberdade, equalizando diferenças sociais e econômicas, a ética deveria fazer o sujeito se preocupar com o outro, partilhando o poder.
A questão é que a tentativa de organizar a distribuição do poder desvirtua o homem, corrompe a busca da felicidade coletiva em favor da ilusão hedonista individualizada.
Para Platão, todas as formas de governo poderiam ser resumidas em quatro, todas produtoras de homens não éticos:

1. Timocracia. O regime dos amantes da riqueza, onde o poder é partilhado apenas entre os membros das oligarquias, palavra que em grego significa “governo de poucos”, restringindo-se ao controle exercido pelas famílias mais ricas e proeminentes que formam a nobreza.
O poder é transmitido hereditariamente, sem possibilidade de alternância ou de compartilhamento.

2. Oligarquia. O regime decidido pela transação de fortunas, governado pelos ricos, independente de sua origem familiar, sem nenhuma participação dos pobres.
Onde o que é valorizado é a capacidade econômica e não a virtude.

3. Democracia. O governo da Pólis ao gosto de cada um, com representantes eleitos ou cidadãos participando diretamente, estabelecendo acordos para pautar leis, as quais os indivíduos devem se adaptar.
O problema deste regime é que tende a anarquia, a desorganização em meio a discussões intermináveis que defendem interesses múltiplos, sem alcançar resultados práticos.
Além do fato que, o crescimento populacional, inviabiliza a sua efetivação, conduzindo a uma das outras três formas de governo, disfarçadas em democracia.

4. Tirania. O sistema em que um homem, o tirano, assume o poder sob pretexto de beneficiar o coletivo, mas que na verdade representa seu desejo por bajulações, demonstrando total ausência de virtude e pobreza de alma.

Uma vez que todas as formas de governo conduzem ao vicio, inviabilizando a existência ética do individuo e da Pólis; Platão propôs a construção de um Estado Ideal, onde a virtude pudesse ser cultivada, garantindo a liberdade efetivada no exercício da justiça, o que ficou conhecido como República Platônica (Res Pública = coisa pública).
O Estado deveria ser governado pelos reis filósofos, sendo a racionalidade o que permitiria dirigir o destino coletivo com sabedoria e virtude.
Os guardiões deste sistema de governo seriam os soldados, selecionados entre os mais corajosos e obedientes.
Aos artesãos caberia viabilizar economicamente o Estado, constituindo a base da sociedade, composta por indivíduos governados pelas coisas sensíveis.
Os filósofos possuiriam alma de ouro, cultivando a virtude da sabedoria; os soldados teriam alma de prata, possuindo a virtude da coragem; e os artesãos seriam dotados de alma de bronze, devendo cultivar a virtude da moderação para conter seus desejos pelos bens materiais.
Esta concepção leva em consideração que haveria escravos para cultivar alimentos para suprir a população.
Estes não estão incluídos nas preocupações da ética platônica, pois não passam de animais vocais, capazes de falar, mas não de interiorizar virtudes e a razão.
Assim como também, neste mundo perfeito, não havia espaço para as mulheres, consideradas serem inferiores por se entregarem aos sentimentos.
Um segmento indesejado seria composto pelos poetas, que deveriam ser expulsos da Pólis, já que despertam sentimentos, fazendo o sujeito deixar a racionalidade de lado.
Modernamente, poderíamos traça uma analogia dos poetas com os meios de comunicação, que constroem verdades e desviam a atenção das massas das questões realmente importantes, iludindo os indivíduos e manipulando suas ações.
Aristóteles também considerava a ética como possibilidade de eliminar a desigualdade, harmonizando o convívio coletivo; mas envolve, antes, o equilíbrio interno do individuo, externalizado pela eudaimonia coletiva.
Ao inverso de Platão, para ele não é o sistema político que corrompe o homem, este é que desvirtua o regime.
É por isto que Aristóteles foi um grande defensor da democracia, relacionando a liberdade com a responsabilidade para compartilhar o poder de forma igualitária, através do conceito de representatividade.
Para tal, seria necessário preparar o individuo para o exercício virtuoso da política, cultivando virtudes como prudência, sabedoria e justiça.
Não sendo possível determinar a essência destes conceitos, sendo relativos no tempo e espaço; é difícil definir parâmetros para um comportamento virtuoso.
Problema contornado pela repetição de ações consideradas boas para a coletividade, garantindo a ordem das coisas para atingir a felicidade.
O papel da ética é justamente convencionar o que deve ser repetido, racionalizando comportamentos benéficos ao individuo e à Pólis.
Para racionalizar o convívio entre as pessoas, seria preciso assimilar três tipos de conhecimentos que compõem o que Aristóteles chamou de sabedoria voltada para o bem, o belo e o honesto:

1. Conhecimentos Teóricos. A averiguação do que ocorre no mundo, transformado em conhecimento sistematizado, em Ciência e, portanto, naquilo que hoje chamamos de ética.

2. Conhecimentos Produzidos. Normas de orientação técnica, necessárias à efetivação da prática, correspondentes às leis e ao Direito.

3. Conhecimentos Práticos. Orientações obtidas pela vivência diária, conduzindo a maneira justa e saudável de viver em harmonia com a natureza e o outro, condizente com a moral.

Em outras palavras, a ética aristotélica propõe observar as necessidades do homem como individuo e membro da coletividade, o que é possível estabelecer como norma em dado contexto, teorizar e refletir para padronizar como correto.
A ética se constitui como Ciência normativa da conduta individual e coletiva em sentido amplo.
Diferente da concepção platônica, onde a ética é inerente a um grupo e padronizada de forma segmentada, origem do que hoje chamamos ética profissional.
Ainda na antiguidade, os romanos tiveram que lidar com a oposição antagônica proposta por Platão e Aristóteles, entre o padrão de comportamento da sociedade e de grupos inseridos nela.
O que originou a moral e sua distinção com relação à ética, o Direito e a justiça.
 A conclusão foi que a existência coletiva precisa de regras para efetivar-se, percorrendo esferas distintas que vão do privado ao convencionado para o conjunto, do individuo ao grupo e deste para o contexto mais amplo; comportando paradoxos, distinções e segmentações.


A ética medieval.
A Idade Média foi dominada pelo catolicismo na Europa Ocidental, pautando uma ética vinculada com a religião e dogmas cristãos, dominando o panorama conceitual entre o século XI e XIX; a despeito de mudanças significativas com o renascimento e, depois, a entrada na modernidade e o iluminismo.
Dentre as concepções filosóficas que influenciaram fortemente o conceito de ética medieval, cabe destacar as ideias de Santo Agostinho, Santo Anselmo e São Tomás de Aquino.
Para Santo Agostinho a verdade é uma questão de fé, é revelada por Deus, superando a razão; subordinando o Estado e a política à autoridade da Igreja.
Houve também uma subordinação da ética à moral; com a última sobrepondo-se a primeira e invertendo a ótica a favor da heteronomia pautada pelo cristianismo.
O catolicismo alterou profundamente a ética, introduzindo a ideia de que a bondade, uma vida virtuosa, só podia ser alcançada pela vontade de Deus, desvinculando a felicidade da racionalização do mundo.
Embora a máxima cristã - fazer ao outro o que queres para ti - seja perfeitamente condizente com a concepção original de ética; o ascetismo e o martírio modificaram o conceito, operando uma releitura das ideias filosóficas de Platão e Aristóteles.
O ascetismo cristão - do grego ascese = exercitar - consistia na renúncia ao prazer e mesmo a satisfação de qualquer espécie, aplicada a tudo que é terreno e material, fomentando práticas como mutilação genital, celibato e jejum.
Um grande problema para fundamentação ética, visto que a mesma se caracteriza pela busca do prazer, representado pela felicidade, configurando um hedonismo relativo e satisfação consigo mesmo e o próprio papel no coletivo.
Uma concepção considerada pecado da vaidade pelo cristianismo, razão que tornava a moral mais importante que a ética na idade Média.
O martírio implicava em valorizar a dor em nome da fé - do grego martys = testemunha - implicando em agir de acordo com a vontade de Deus, mesmo quando contrário à razão, guiando-se pelos dogmas estabelecidos pela igreja, independente do que é determinado pela ética.
Mais um fator de fortalecimento da moral, aumentando a ignorância da maior parte da população europeia quanto ao discernimento conceitual da ética.
Neste contexto, o mundo sensível e inteligível platônico foram reinterpretados; identificados com a vida mundana em oposição ao paraíso nos céus, com a verdade só podendo ser contemplada através da fé em Deus e a felicidade alcançada somente após a morte.
Tudo, desde que os preceitos católicos tivessem sido seguidos à risca em vida.
A ética cristã, através do pensamento de São Tomás de Aquino, também fez uma releitura do pensamento aristotélico.
O tomismo procurou conciliar a fé e a razão, condicionando os atos dos indivíduos à natureza humana.
No entanto, ao afirmar que a dita natureza humana estaria na essência divina, inclinada a bondade, como pretendia Aristóteles; não fez mais que reafirmar a subordinação da razão à fé.
Para Tomás de Aquino, o caminho para a felicidade passaria pela “grande ética”, caracterizada pelo justo equilíbrio divino, projetado na ordenação da sociedade.
Portanto, em aceitar as contradições sociais e econômicas, a desigualdade, como vontade de Deus, esperando receber a recompensa no além, quando finalmente a contemplação do paraíso permitiria atingir a felicidade plena, individual e coletiva, participando e retornando ao espírito divino.
O que representou uma relativização da ética, fragmentada e aplicada apenas a um contexto especifico de estamento e grupo social.
Segundo ele, “os princípios comuns da lei natural não podem ser aplicados do mesmo modo indiscriminadamente a todos os homens, devido à grande variedade de raças, costumes e assuntos humanos; por isto, existe a diversidade das leis positivas nos diversos povos”.
Para harmonizar a sociedade, ao invés da ética, dada sua segmentação, caberia a moral servir de referencial.
Santo Anselmo, pai da escolástica, tendência filosófica que propunha a educação como meio de vencer o ceticismo e doutrinar o homem na fé cristã, mostrando sua superioridade frente à razão; afirmou que os princípios morais seriam intuitivamente auto-evidentes, condicionando as ações à vontade de Deus.
Relegada ao segundo plano na efetivação da justiça, a ética passou a ser entendida como aplicada a contextos específicos; abrindo caminho para a visualização conceitual dos aspectos éticos erroneamente apenas vinculados com a atuação profissional, com regras que valeriam somente entre iguais.
Assim, a tendência de interpretação conceitual da ética platônica prevaleceu sobre as demais abordagens, sendo acentuada pela visão cristã que valorizou a moral em detrimento da uma concepção ética universalizadora.


A ética moderna.
Entre os séculos XVI e XVIII, as discussões éticas estiveram centralizadas no embate entre racionalismo e empirismo.
A Idade Moderna foi à época da formação e consolidação dos Estados Nacionais europeus, precedendo a Revolução Francesa e Industrial, quando a separação entre Estado e igreja tornou-se definitiva, com a preponderância do antropocentrismo e a aceleração do avanço da Ciência.
Foi também um período de transição para a Idade Contemporânea, registrando contradições de cunho ainda medieval e forte influencia da religião na vida das pessoas.
Qualquer que seja a tendência teórica, a ética passou a ser vista novamente enquanto voltada para a busca da felicidade coletiva, retomando seu sentido original grego, vinculado com a política, compondo orientações para a realização plena do cidadão.
Diante de múltiplos caminhos para chegar a eudaimonia, a ética foi pensada como garantia de condições para que o sujeito se aprimore por meios legítimos.
Onde entraria o Estado como fomentador e garantidor de condições de condições transformadoras, providenciando educação, direitos individuais, justiça e subsistência.
Neste sentido, os preceitos religiosos começaram a perder força, em uma tentativa da ética se sobrepor a moral, universalizando e discutindo princípios de convivência em sociedade.
O que tornou atributo da ética realizar uma reflexão sobre a construção dos valores que balizam a moral, instituindo uma critica sobre práticas e ações humanas no âmbito da axiologia e da teoria dos valores.
Embora Descartes não tenha pensando especificamente a ética, sua concepção filosófica remete a uma transição entre a Idade Média e Moderna, pois Deus é a garantia de existência do eu físico, fator significativo que compôs a ética racionalista em meio à dúvida que origina o cogito.
O caminho da dúvida cartesiana conduziu Descartes a estabelecer uma moral provisória, baseado em recomendações como obedecer às leis e costumes do país, mantendo a religião e a fé em Deus, guiando-se pelas opiniões mais moderadas e aceitas pela prática, evitando excessos e cultivando o bom senso.
Em primeiro lugar, existe uma defesa da ética vinculada com as necessidades do Estado, estando subordinada ao Direito.
Depois, uma normatização ética atrelada à razão, obrigando o individuo a refletir e tomar decisões, sob pena de entregar-se ao azar.
Outro racionalista, Baruch Spinoza, delineou com maior precisão as questões éticas na obra Ethica, publicada em 1677.
Ele fixou como parâmetro de definição do que é bom ou mau as necessidades e interesses humanos, inserindo a razão como elemento capaz de frear as paixões, permitindo alcançar prazer e felicidade.
É interessante notar que, também para Spinoza, o amor intelectual a Deus é garantia da virtude, esta definida como a própria felicidade advinda da contemplação da totalidade do universo mental e físico, através da natureza divina, sendo ela inata.
Os empiristas adotaram uma postura diferente, apesar de não totalmente desvinculada da metafísica, porém mais próxima da política e do contexto padronizador do comportamento coletivo.
Thomas Hobbes forneceu a base de sustentação para o Estado Absolutista, ligando a monarquia com a vontade de Deus; mas defendeu a ideia de que a natureza humana é desonesta, solitária e violenta, expressa pela máxima “O homem é o lobo do homem”.
Como consequência seria necessário organizar a sociedade, estabelecendo um contrato social para eliminar a guerra de todos contra todos, fortalecendo o Estado para reprimir a maldade humana.
A implicação ética estaria fixada na figura do cidadão, o qual, para integrar-se a sociedade, precisaria refletir sobre si mesmo e seu papel coletivo.
Influenciado por esta concepção, John Locke retomou o conceito de contrato social como limitador do poder absoluto da autoridade, promovendo a felicidade através da garantia de liberdade individual restrita.
David Hume também complementou a concepção de Hobbes, afirmando que as ideias inatas não existiam, sendo regras compostas pela experiência, exigindo a padronização de comportamentos éticos a partir daquilo que fosse útil e prazeroso para a maioria.
Portanto, a ética moderna, a despeito de ainda vinculada com a religião, começou a tentar sobrepujar a moral, resgatando discussões presentes na antiguidade, avançando alguns passos rumo à vinculação com a liberdade.
Entretanto, foi pensada como instrumento de sustentação do poder do Estado perante a vida coletiva e individual.


A ética contemporânea.
Ao separar o conhecimento da religião, no século XVIII, o iluminismo inaugurou uma releitura da ética, estabelecendo criticas que voltaram a centralizar o foco na razão, apostando na autonomia humana e na crença otimista no progresso.
Foi estabelecida uma visão ética por um viés mais amplo, não só circunscrito ao grupo, mas sim ao contexto do conjunto da humanidade.
É por isto que a Revolução Francesa pregou o ideal de liberdade, igualdade e fraternidade; tendo como centro a questão da tolerância para com as diferenças e o estabelecimento de um pacto social.
O que deveria ser garantido pelo Estado para permitir uma igualdade efetivada pela restrição parcial da liberdade.
Neste período, pela primeira vez, iniciou-se um dialogo em torno dos direitos humanos, culminando com a “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” em 1789.
Representando o iluminismo alemão, Immanuel Kant exerceu forte influencia na universalização dos preceitos conceituais da ética humana.
Segundo o qual, não é tarefa da ética normatizar, pois, sendo de caráter puramente racional, é guiada apenas pela boa vontade.
Esta é relativa e fixada pela lei moral, porém deve se isentar da vontade emotiva, dos gostos e desejos particulares.
Assim, a ética segue os mesmos parâmetros da moral, mas ao racionalizar os atos, seleciona como corretos apenas o que está em concordância com a razão.
A ética passa a se distinguir da moral por ser autônoma, enquanto os preceitos morais são fixados pela heteronomia.
O agir corretamente passa, não só pelo conceito de liberdade, mas também de responsabilidade pelos próprios atos e intenções.
O problema é que o ato pode não corresponder à intenção, motivado pela inclinação moral, onde a racionalização serve de parâmetro.
Reside neste ponto outro problema, já que o homem encontra-se na menoridade, sendo incapaz de fazer uso do próprio entendimento.
Os ideais iluministas aparecem como inicio da maioridade humana, justamente por proporem o conhecimento como base da racionalidade.
No entanto, pensando na natureza falha da razão humana, Kant propõe que imperativos passem a servir de referência para o agir.
O imperativo é uma regra obrigatória que deve nortear a normatização da vida racional.
O imperativo categórico, aquele que deveria ser dever de toda pessoa, estando também vinculado com a moral, é definido como agir pela vontade, de tal forma que a ação possa ser tomada como uma lei universal da natureza.
Portanto, tornar padrão o comportamento que seria aprovado como correto em qualquer caso e por qualquer pessoa.
Deste imperativo decorrem outros, todos baseados na fraternidade para com o outro, expresso na máxima de desejar a todos o que se deseja para si mesmo, estreitando este conceito com o de liberdade, responsabilidade e igualdade.
Entretanto, mesclada a esta concepção de ética, a tendência utilitarista, inaugurada pelo empirismo, também ganhou força a partir do século XVIII, principalmente por conta dos avanços da Ciência.
A partir das leis da física de Isaac Newton, a sociedade passou a ser vista como máquina, onde a ética atenderia e regularia seu funcionamento.
Enquanto a teoria evolucionista de Charles Darwin possibilitou conceber a moral como produto da evolução do comportamento humano.
Tendências que transformaram a ética em Ciência do julgamento dos atos morais, alterando normas de comportamento, pensadas em beneficio da utilidade para a vida coletiva harmoniosa.
A rigor, o utilitarismo surgiu na Grã-Bretanha, representado por Jeremy Bentham e John Stuart Mill, contrapondo-se a ética kantiana ao relativizar o conceito de eudaimonia, afirmando que o correto é aquilo que traz felicidade para o maior número de pessoas.
Não é a intenção que importa, como no caso da ética kantiana, mas sim o resultado; relativizando igualmente as regras, indo na contramão dos imperativos, condicionando os comportamentos a sua utilidade aparente, extremamente vinculada ao Direito.
O que levou Friedrich Hegel, no século XIX, a discutir se os princípios éticos condicionam a história, ou, ao contrário, esta modifica os parâmetros.
Algo que poderia conferir a ética uma grande semelhança com a moral.
Embora Hegel nunca tenha escrito especificamente sobre a ética, até porque considerava esta como mero sinônimo de moral, sua concepção foi herdeira das discussões do século XVIII, vinculando a vivência ética com a política, a sociedade e a história.
Para ele, como também para a tradição estabelecida a partir do século XVI, o Estado deveria garantir a vivência ética.
Destarte, Friedrich Nietzsche, na segunda metade do século XIX, tornou a ética definitivamente uma Ciência, totalmente desvinculada da religião.
Para ele, a ética seria o centro, justificativa e fundamentação das ações humanas; constituindo o elemento que torna possível a convivência, estabelecendo padrões de comportamento que reprime a natureza.
É neste contexto que se insere o conceito de além-do-homem - Übermensch -, erroneamente traduzido como super-homem.
Trata-se da defesa do sujeito superar sua humanidade, sua natureza falha, para ir além do bem e do mal, da moral estabelecida, racionalizando as ações para transformar-se de escravo em senhor, guiado pela autonomia de pensamento.
Um processo ligado à ideia de “eterno retorno”, envolvendo tentar superar-se contínua e infinitamente em busca do prazer dionisíaco.
No entender de Nietzsche, o único imperativo ético existente.
Esta conjuntura formou o conceito e ética como Ciência normativa, baseado na construção interna do sujeito e externalizada na preocupação racional com o outro; a despeito de sua ramificação circunscrita a contextos específicos, como a ética profissional.


A crise da ética.
O século XX, centralizado na sociedade de consumo e no individualismo, desvirtuou o caminho da preocupação com a coletividade no mundo Ocidental capitalista, inaugurando a crise da ética em sentido amplo.
A preocupação com o outro foi substituída pelo egoísmo focado apenas no eu em detrimento do nós, com um ambiente de permanente competição.
A despeito de alguns pensadores terem tentado retomar a tradição grega, agregando elementos desenvolvidos posteriormente, a tendência platônica de normatização de comportamentos, diferenciada entre grupos, é que prevaleceu no século XXI.
A ética passou a ser um termo comum na boca de todos, mas esvaziada de sentido concreto, conceitualmente interpretada pelo senso comum de forma torta e equivocada.
Simultaneamente, a ética profissional passou a dominar o cenário globalizado, igualmente contextualizada em um sentido extremamente especifico, aplicada apenas entre supostamente equivalentes.
O grande problema é que a ética deveria justamente repensar posturas que fazem de alguns mais iguais que outros, refletindo sobre sua natureza generalizadora e universalizante, racionalizando as ações humanas até o limite do possível, diante da natureza emotiva e movida por sentimentos individualistas.


Para saber mais sobre o assunto.
ARISTÓTELES. A ética; textos selecionados. São Paulo: Edipro, 2003.
BENTHAM, Jeremy. Uma introdução aos princípios da moral e da legislação. São Paulo: Abril Cultural, 1974.
DARWIN, Charles. A origem das espécies e a seleção natural. Curitiba: Hemus, 2003.
DESCARTES, René. Discurso sobre o método. São Paulo: Hemus, 1972.
DESCARTES, René. Meditações. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. A fenomenologia do espírito. São Paulo: Abril Cultural, 1974.
HUME, David. Ensaios morais, políticos e literários. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. São Paulo: Abril Cultural, 1974.
KUJAWSKI, G. M. Descartes existencial. São Paulo: Edusp, 1969.
LALANDE, André. Vocabulário técnico e crítico da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
LOCKE, John. Segundo tratado sobre o governo. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
MACIEL JR, A. Pré-socráticos: a invenção da razão. São Paulo: Odysseus, 2007.
NEWTON, Isaac. Princípios matemáticos. São Paulo: Abril Cultural, 1974.
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Além do bem e do mal. São Paulo: Cia. das Letras, 2005.
PLATÃO. A república. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000.
SPINOZA, Baruch. Ética. São Paulo: Abril Cultural, 1973.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela USP.
MBA em Gestão de Pessoas.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade de São Paulo.

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Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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