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sábado, 24 de março de 2012

Teoria e Práxis: o bem e o mal.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 3, Vol. mar., Série 24/03, 2012, p.01-07.


Embora pareçam termos que expressam conceitos antagônicos, teoria e práxis se complementam no âmbito da ética.

A despeito de Ciência normativa, a ética não é tão maniqueísta como moral, comportando um relativismo que carece da relação dialética entre teoria e práxis para determinar o que é bom e o considerado mal.
A moral, condicionada pelo tempo e espaço de forma mais evidente, possui fronteiras entre bem e mal, paradoxalmente, bem delineadas; sobretudo devido a seu vinculo com o senso comum e dogmas religiosos.
Razão pela qual Nietzsche propôs o conceito de niilismo libertador, voltar à estaca zero, eliminando concepções pré-concebidas, para determinar o certo e o errado, sem interferência do não racional.
O pensador não matou Deus, como se costuma normalmente afirmar, tentou eliminar a religião enquanto instituição social, normatizadora da vida dos indivíduos, propondo uma ética niilista, vinculada ao que, depois, seria a junção da teoria com a práxis.


Práxis contemporânea.
Contemporaneamente, Hegel resgatou o conceito de práxis grega, no século XIX, acompanhado por Feuerbach, quando o absoluto e a ideia de Deus foi substituída pelo homem real, dotado não só de razão, como também de vontade e sentimentos.
A ética tornou-se relativa, sofrendo interferência dos aspectos humanos, carecendo de teorização e da racionalidade, mas também da práxis.
Concepção amplamente desenvolvida pelos teóricos marxistas ao abordarem o conceito de consciência de classe, organizada pela práxis revolucionária.
É neste sentido que, pra Karl Marx, a relação entre teoria e práxis é expressa como teoria e prática, com a primeira servindo de guia para a ação e a segunda como fomentadora da atividade revolucionária.
Para ele, a teoria, ao estudar a realidade, pode mostrar as contradições do sistema capitalista.
Porém, uma revolução só acontece quando os indivíduos vivem a contradição.
Nada adianta teorizar sobre o causa a pobreza e a fome, sem que as pessoas sintam os seus efeitos, pois somente a vivencia da prática gera revolta.
Esta dita revolta, sem orientação teórica, não surtiria efeito, a ausência de teoria deixa as pessoas sem saber o que fazer e para onde ir para tentar resolver o problema.
A teoria depende da prática e vice e versa.
No entanto, no âmbito da ética, entender como a prática altera a teoria e como esta orienta a prática, pautando o relativismo da fixação do certo e errado, carece de uma discussão mais ampla, passando inicialmente pelo conceito de teoria e de práxis.


A concepção de teoria.
Antes de entender o que é práxis, é preciso compreender pormenorizadamente a concepção de teoria.
O termo vem do grego, significando, originalmente, “visão de um espetáculo”, uma “visão intelectual”, que pode ser resumido pela palavra “propriamente” ou “especulação”; a partir do que adquiriu o sentido de “construção especulativa”, que liga princípios e consequências.
Na antiguidade, quando um grego usava a palavra theoria referia-se a contemplação reflexiva de um conjunto, uma visão geral sobre o que era observado e entendido pelo sujeito.
A origem mais remota do termo designava uma festa solene, uma espécie de procissão que seguia de algumas cidades gregas para a sede dos jogos olímpicos ou para consultar o oráculo.
Os jogos olímpicos simbolizavam resolução de disputas entre interesses das cidades representadas, através de resultados nos esportes.
A theoria era o ato de se fazer representar para provar que determinada cidade era melhor que as outras.
O oráculo era um intermediário com o divino, respondendo dúvidas humanas.
A theoria era o rito de fazer-se representar para resolver as inquietações.
Portanto, teoria significava uma representação de parte do conjunto da sociedade, envolvendo disputa de opiniões.
A theoria grega simboliza uma opinião que busca resolver uma inquietação, um problema; demonstrando uma visão de conjunto que é tributário da reflexão estimulada pela observação da realidade.
Segundo André Lalande, a teoria opõe-se a prática na ordem dos fatos, sistematizando conhecimento desinteressado, independente de sua possível aplicação; constituindo uma concepção metódica e organizada do mundo.
É também uma construção hipotética que tenta explicar a realidade, sintetizando fatos por meio de hipóteses verossímeis, sustentando uma opinião que é válida até que outra teoria demonstre sua incoerência.
Dentro do contexto da normatização de comportamentos, a teoria é o que caracteriza o direito puro, o bem ideal, distinto do que é considerado correto pelo senso comum e a moral estabelecida.
Concepção que comporta uma acepção pejorativa, qualificando a teoria como uma construção artificial, que pode não passar de uma disputa bem articulada que convence o maior número de interlocutores, mas que poderia estar desvinculada do concreto.
Outro sentido pejorativo nomeia a teoria como uma simplificação do observado, que corresponde ao imaginado ou percebido, não aquilo que é de fato.
Respondendo as objeções, o aprimoramento do entendimento do significado de teoria, que começou no século XVIII e intensificou-se nos séculos XIX e XX; passou a defender a ideia de hipótese verificada depois de submetida ao raciocínio e a critica experimental.
Vinculada com a Ciência, a teoria é entendida como sistematização rigorosa dos fenômenos, comprovada pela prática ou indícios de aplicação concreta.
O que exigiria constante readequação para corresponder com as novas descobertas, resistindo a verificações e aquilo que se entende como real ou possível.
Ponto de intersecção da teoria com a práxis; pois no âmbito da ética enquanto Ciência, para que as concepções teóricas sejam uteis ao individuo e a coletividade, aplicáveis na prática; seria necessário estabelecer um dialogo permanente entre as duas esferas, permitindo a readequação do considerado correto de acordo com o sentido de bem em oposição ao mal.


A concepção de práxis.
Segundo André Lalande, a despeito do termo práxis, etimologicamente, significar “ação” ou “atividade”; contemporaneamente, o uso da palavra é conhecido pela acepção hegeliana e, principalmente, marxista; correspondendo a uma ação coletiva, técnica, econômica, social ou ideológica fundamentada na prática que modifica a teoria ou confirma hipóteses.
Em um sentido especifico, a práxis, como construção cientifica que se opõe ao embasamento teórico ou especulativo filosófico, é tida como teoria verificada pela prática e que pode ser reproduzida através de experimentos.
Entretanto, a práxis, mesmo aplicada ao contexto marxista, é mais complexa, não se resume a teoria que pode ser concretamente verificada ou pura e simplesmente como sinônimo de prática.
Segundo Adolfo Sánchez Vasquez, o termo práxis transcende seu significado grego pertinente à antiguidade, evoluindo até compor uma concepção complexa.
O sendo comum conhece a expressão “é de praxe”, significando o que se pratica habitualmente, aquilo que é usado, faz parte da rotina ou tradição.
A palavra praxe tem a mesma origem etimológica e guarda relação com a ética e a moral, mas não possui o mesmo significado que o termo práxis.
São palavras distintas, com acepções, igualmente, diferentes.
Uma definição de dicionário diria que práxis corresponde a uma visão filosófica, utilizada na linguagem marxista, significando um conjunto de atividades que podem transformar o mundo.
Seria sua função informar os indivíduos sobre as causas e condicionantes das estruturas sociais, mostrando na prática as contradições e conduzindo a um processo revolucionário em beneficio da implantação do socialismo, uma vida coletivizada em detrimento do individualismo capitalista.
A origem do termo é muito mais remota do que comporta esta definição simplista e pontual.
Na antiguidade, para os gregos, a práxis designava a ação propriamente dita, motivo pelo qual fez surgir em língua portuguesa à palavra prática.
No entanto, o sentido de prática em português não expressa à práxis filosófica, pois designa uma ação que caracteriza algo pensado e que possui um caráter utilitário.
Algo sempre é considerado prático porque é útil, direto, concreto, resolve o problema de imediato, fornece uma resposta na hora.
A práxis grega vai além do que é prático, significa a ação de levar a termo, concretizar um pensamento.
Configura um ato que tem seu fim em si mesmo, não cria ou produz um objeto externo.
Um exemplo de práxis é o comportamento ético que cultiva a virtude pela virtude, pelo sentimento de satisfação do sujeito consigo mesmo, sem ser gerada por motivações externas, a exemplo da moral, ou pretendendo externalizar um efeito virtuoso.
A grosso modo, a práxis determinaria que andar deveria ser motivado unicamente pelo prazer de caminhar, não para chegar a algum lugar ou desenvolver uma melhor forma física.
É neste sentido que Adolfo Sánchez Vázquez afirma que o trabalho de artesão não é práxis, mas sim prática, já que o objeto produzido existe fora do agente e da ação.
Para o grego, o artesão fabrica algo usando a técnica e não a práxis.
A ação que produz algo fora do agente e da ação, para a filosofia, é a poésis, palavra que significa “produção” ou “fabricação”.
Em sentido amplo, hoje, a práxis vai além de seu significado original grego e transcende o que entendemos por prática.
A práxis designa uma atividade consciente e objetiva, não produtora ou voltada à fabricação, mas transformadora de ideias, caracterizando uma operação intelectual ativa e fomentadora.


Práxis Ética e Teoria.
Entendendo a práxis como atividade interpretativa sobre a realidade que, ao efetivar-se, termina em si, transformando o objeto de analise; a sua relação com a teoria pode parecer distante, mas não é.
Devemos lembrar que a práxis é uma ação que está em si mesma, que se desdobra de dentro para fora, possuindo forte vinculo com a ética.
Um exemplo de práxis ética é cultivar a verdade, não pelo efeito que possui para o sujeito ou a sociedade, mas pela sua natureza reveladora e seu desdobramento interior.
Uma verdade pode ser prejudicial ao outro ou para a sociedade, em primeiro momento, prejudicando o sujeito que reflete, porém, deixa a consciência limpa, faz bem ao coletivo em sentido amplo e a própria pessoa.
Ao mesmo tempo, uma mentira leva a outras e tem consequências imprevisíveis, compondo uma teia que prende o sujeito e força a se comportar de forma não racional.
Assim, cultivar a práxis ética da verdade, por ela mesma, simplifica a vida e aproxima o individuo da eudaimonia.
Neste sentido, a práxis deveria acompanhar a teoria, condicionando sua base de sustentação e as concepções éticas em voga.
Isto porque a práxis também é relativa, respondendo as necessidades do sujeito, do outro e do coletivo; atendendo o ideal de liberdade e responsabilidade por si só.
A questão é que o conceito de liberdade ou responsabilidade também é relativo e condicionado pelo tempo e espaço, relativizando a práxis.
Cultivar a liberdade por ela mesma implica em responder o que é considerado ser livre, algo relativo e, conforme a interpretação, condicionando à práxis.
O que remete a conceituação de bem e mal no âmbito da ética, já que a dita liberdade e responsabilidade conduz às ações éticas, pautando a relação entre teoria e práxis.
Em outras palavras, a teoria serve de guia para a práxis, tentando contornar sua subjetividade e relativismo.


A concepção de bem e mal.
Nem sempre, ao longo da história da humanidade, as ações forma julgadas como sendo boas ou más, comportando uma dualidade que esteve presente nas religiões primitivas, com entidades que representam, simultaneamente, o bem e o mal.
Neste contexto, o ato tinha maior proximidade com a práxis, pois não pretendia alcançar um fim fora de si mesmo, não tencionava satisfazer um juízo de valor.
É por isto que o conceito de ética grego estava vinculado com a práxis, não atendendo a imposição do socialmente desejado, perseguindo a eudaimonia.
Porém, a humanidade tornou-se governada por um dualismo que não comporta supostas contradições, em grande parte tributário do maniqueísmo, termo que iria se tornar sinônimo desta nova forma de pensar.
No século III d.C., o persa Manes - nome latinizado-, vivendo no que atualmente é o Irã, criou uma religião que, apesar de não existir mais, influenciou fortemente a lógica de pensamento humano.
Influenciado por Zoroastro, fundador da primeira religião monoteísta da história, no século VII a. C, que possuía todos os elementos que, posteriormente, seriam assumidos pelo cristianismo; tal como o conceito de paraíso, juízo final, ressurreição e a espera por um messias.
Manes propôs a dualidade entre luz e trevas como centro da espiritualidade.
Incorporou supostos ensinamentos de Buda e Jesus Cristo, estabelecendo uma religião nova dentro do seio do cristianismo, então já sob controle do Império Romano em sua fase de decadência política e militar.
Uma tendência que foi considerada herética e perseguida até desaparecer completamente na Idade Média, mas que, conhecida como maniqueísmo, enquanto extensão de seu fundador Manes, dividiu a valoração, necessariamente, entre boa ou má.
Em termos ético, pautando decisões em volta de uma finalidade especifica: normatizar comportamentos em torno da prática do bem em oposição ao mal.
O que criou um problema para a práxis ética, uma vez que pretende transformar em sentido evolutivo, sem possuir finalidade externa, ao passo que a busca de padrões de boas ações constitui um objetivo a parte do ato em si mesmo.


Concluindo.
A práxis é essencial para ética, pois permite garantir a racionalização das ações, independente da valoração entre bem e mal, em grande medida imposta pela moral.
 No entanto, não consegue fugir totalmente do relativismo, respondendo anseios éticos maniqueístas, marcados pela dualidade que força o sujeito a escolher sempre entre dois caminhos: o bem ou o mal.
O que é diferente do certo e errado, dualidade que acaba sofrendo também influência do maniqueísmo, não permitindo enxergar que existem ações que podem ser boas e más ao mesmo tempo, assim como certas ou erradas simultaneamente.
Um bom exemplo poderia ser o caso de um soldado que é ensinado a obedecer ordens, valoradas como seu dever para com a pátria e a coletividade; enquanto esta premissa pode exigir o cumprimento de ordens que configuram atos contrários ao que o sujeito considera ético, opondo-se a ação correta como ser humano, membro de uma coletividade maior.
Centro de um conflito interno do sujeito, que a ética tenta resolver através da práxis, mas que nem sempre consegue solucionar quando entrelaçado com a moral ou o Direito.
Em outras palavras, a práxis ética, somada ao contexto teórico, serve de guia para que o indivíduo possa balizar suas ações, no entanto, a racionalização sozinha não consegue atender aos anseios e responder as perguntas no interior do sujeito.
Dotado de sentimentos, o sujeito não é só guiado pela racionalidade transformada pela práxis ética.


Para saber mais sobre o assunto.
COSTA, Marcos Roberto Nunes. Maniqueísmo: história, filosofia e religião. São Paulo: vozes, 2003.
LALANDE, André. Vocabulário técnico e crítico da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
NIETZSCHE, F. W. Além do bem e do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
NIETZSCHE, F. W. Assim falava Zaratustra. São Paulo: Vozes, 2008.
NIETZSCHE, F. W. O anticristo. São Paulo: Martin Claret, 2000.
VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Filosofia da Práxis. São Paulo: Expressão Popular, 2007.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela USP.
MBA em Gestão de Pessoas.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade de São Paulo.

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Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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