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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

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segunda-feira, 5 de março de 2012

A experiência como possibilidade da interdisciplinaridade rumo ao Currículo Integrado.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 3, Volume mar., Série 05/03, 2012, p.01-06.


A interdisciplinaridade não é qualquer coisa que nós tenhamos que fazer. É qualquer coisa que se está a fazer quer nós queiramos ou não. Nós estamos colocados numa situação de transição para um novo momento das relações cognitivas do homem com o mundo e os nossos projetos particulares não são mais do que formas, mais ou menos conscientes, de inscrição nesse movimento. (PAVIANI, 2008, p. 13)

Currículo integrado, duas palavras que pressupõem uma maneira de ensino diversificado onde as barreiras disciplinares são burladas, ou dissolvidas em prol do desenvolvimento de competências ou saberes que interligam as inúmeras matérias do currículo escolar. 
A integração desejada entre duas ou mais matérias não é fácil, apesar de parecer, mesmo com uma temática comum o desafio mantém-se em pé, na nossa frente, é como a cordilheira do Himalaia, poucos são os que conseguem vencê-la e chegar ao seu topo.
Isto se deve as divisões curriculares que ocorreram entre as matérias, onde cada uma buscou sua independência como disciplina, assim integrar as disciplinas e criar possibilidades de relacioná-las parece tentar misturar água e óleo, até é possível coloca-los na mesma vasilha, mas mantê-las misturadas parece impossível, porém não podemos esquecer que existe um contato, que já é algo positivo.
Para Japiassu (1994, p.48) “em nosso sistema escolar, ensina-se um saber fragmentado, que constitui um fator de cegueira intelectual, que decreta a morte da vida e que revela uma razão irracional.”
Esta organização escolar de isolamento disciplinar começa a desenhar-se com o impulso da pesquisa cientifica ligada ao desenvolvimento industrial no século XIX (MORIN, 2002, p.105).
Neste momento houve uma busca pela origem das disciplinas visando destacar as diferenças, transformando-as em primas distantes ao invés de ciências irmãs. Mas não devemos esquecer que o currículo é uma construção simbólica feita através de escolhas, que necessariamente pressupõem exclusões. 
E representa em si um caminho a ser seguido, tanto para os alunos como para os professores.
Mas muitas das dificuldades encontradas nos trabalhos transdisciplinares encontram-se na mudança, que causa desconforto aos professores pelo medo de perder a sua autoridade disciplinar.
Nestes momentos, cada professor quer assumir a sua identidade disciplinar, assim assume-se o discurso: “sou professor de história, ponto, não posso trabalhar com literatura nas aulas de história”.
Esta afirmação é comum, e demonstra uma acomodação profissional, que impede a inovação didática, assim, mantêm-se vivos padrões ultrapassados de ensino, marcados pelo isolamento disciplinar, que muitas vezes é um empecilho, para a melhoria nas tarefas docentes.
Porém as possibilidades do ensino transdisciplinar ou interdisciplinar são muitas, as possibilidades abertas consistem em uma reconexão de fronteiras que foram anteriormente construídas com o objetivo de impermeabilizar os contatos entre as disciplinas escolares, um pouco, sem sentido, tendo em mente que o conhecimento é do mundo, e esta no mundo, como bem observa Proust, quando dizia: “entre você e o mundo, escolha o mundo”, assim, digo aos colegas professores avessos ao contato interdisciplinar e transdisciplinar, que entre as sua disciplina escolar escolha abrace todas, em essência todas as disciplinas se completam. 
Assim, a interdisciplinaridade prega uma ligação entre as múltiplas disciplinas e, traz um desejo do contato relacional onde uma disciplina complementa a reflexão da outra. 
Para Fazenda, a interdisciplinaridade é momento de redescoberta dos professores, onde as ações docentes são repensadas, para que novas aptidões sejam descobertas, assim “na interdisciplinaridade escolar, as noções, finalidades habilidades e técnicas visam favorecer, sobretudo, o processo de aprendizagem, respeitando os saberes dos alunos e sua integração (2008, p.22)”. 
Desta maneira a integração é total onde os saberes tornam-se complementares para o trabalho e desenvolvimento de conceitos e competências, de cada disciplina.
“Entenda-se por saberes disciplinares: saberes da experiência, saberes técnicos e saberes teóricos interagindo de forma dinâmica sem nenhuma linearidade ou hierarquização que subjugue os profissionais participantes ( 2008, p.24). 
Estes saberes passam a ter sentido para o aluno quando relacionam-se com o seu cotidiano, para atender esta demanda faz necessário a utilização de um novo enfoque dentro das temáticas. 


A possibilidade do trabalho interdisciplinar com o conceito de experiência.
Nas condições atuais da nossa sociedade, cada vez, mais raro torna-se a possibilidade de vivenciar experiências, no sentido fundamental do termo, que segundo Larrosa (2002, p.21) “[...] é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca.”
A experiência tornou se algo escasso atualmente, devido ao grande número de informações, assim a uma constante escassez do tempo para reflexionar os acontecimentos que o sujeito testemunha.
Assim, ocorre a desqualificação da experiência pelo excesso informacional ligado a crescente velocidade temporal em que as relações pessoais ocorrem.
Cada vez mais, o individuo se vê situado no centro, de um mundo mudanças, onde os lugares de experiência foram destruídos ou reformados, e aos poucos ainda existentes tem dificuldades de cumprir esta função.
Nesta dinâmica constante de mudanças transformamo-nos andarilhos, que não saem do lugar propriamente dito, apesar continuarmos a morar na mesma cidade, esta já não é a mesma, por que perdeu seu valor de pertencimento, mesmo as nossas novas experiências vivenciadas neste lugar são incipientes e devido ao desmantelamento das antigas estão de situadas num tempo passado que foi destruído ou esquecido.

Segundo Hobsbawn estamos a comtemplar:
A destruição do passado - ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas - é um dos fenômenos mais característicos e lugubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem (1994, p.13).

Assim, o trabalho com conceito de experiência busca resgatar a sua origem, como um aprendizado significativo, por meio da vivência, tendo como objetivo primeiro à reflexão que é algo particular a esta e a dá sentido.
Adorno afirma que “pensar é o mesmo que fazer experiências intelectuais.
Nesta medida e nos termos que procuramos expor, a educação para experiência é idêntica à educação para a emancipação” (s/d, p.151).
O conceito de experiência utilizado numa demanda interdisciplinar aborda o conhecimento como algo ligado aos rastros ou marcas deixadas no sujeito pelo ato de ensinar e aprender.
As múltiplas formas de compreensão do conceito de experiência possibilitam o trabalho interdisciplinar vislumbrando inúmeras disciplinas por isto escolhemos a: De Literatura, onde as obras testemunhais têm como base o pensar sobre a partir dos escritos que remontam à experiência vivida pelos seus autores; de ciências biológicas este conceito tem como objetivo confirmar o valor de alguma descoberta pela experiência empírica; De educação artística este conceito tem como foco as múltiplas formas de expressar e demonstrar como foram marcantes as experiências vividas pelo indivíduo e representadas através das artes; no caso da história o conceito de experiência assume um caráter de vestígio das vivências dos indivíduos no tempo, possibilitando discutir o valor da experiência na constituição da memória e das identidades.
Mesmo com estas considerações as medidas cautelares para uso da interdisciplinaridade que são expostas por Fazenda (2008, p.18) devem ser verificadas, para compreender que: “cada disciplina precisa ser analisada não apenas no lugar que ocupa ou ocuparia na grade, mas nos saberes que contemplam nos conceitos enunciados e no movimento que esses saberes engendram, próprios de seu lócus de cientificidade.”
Assim, para o trabalho interdisciplinar os docentes assumem a responsabilidade de dialogar com a teoria e a prática para o desenvolvimento das atividades dentro das suas disciplinas, algo que não é de simples execução tendo em vistas as barreiras criadas pelo processo de cientificação de cada disciplina, segundo Paviani (2008, p.15) “a pesquisa tende a ser, desde a origem, interdisciplinar”, tendo em vistas que as disciplinas sempre estiveram relacionadas.
Atualmente, a grande diferença é que em prol da cientificidade os seus resultados das pesquisas acabam por abraçar uma única ciência, como mãe.
“A interdisciplinaridade teria o objetivo de mediar às divisões e as fragmentações das disciplinas, e de aproximar os saberes, via transdisciplinaridade, entre a ciência, a arte, a religião, a moral, o senso comum” (PAVIANI, 2008, p.15).
Para a construção de um currículo integrado faz-se necessário um tempo considerável de pesquisa, para a construção de temáticas desencadeadoras, que nem sempre é fácil, pela falta de tempos dos docentes, pelas dificuldades de romper os caminhos traçados pelo currículo tradicional, as ações interdisciplinares necessárias para a composição de um currículo integrado são muitas, e perpassam desde dificuldades da pesquisa, e da elaboração das aulas.
Para Santomé (1998), o currículo integrado abre a possibilidade de uma multiplicidade de visões sobre um determinado tema ou conceito devido às abordagens distintas ofertadas por cada disciplina; estabelecendo uma ruptura com os conceitos ideológicos impostos pelo currículo tradicional; permitindo de o enfrentamento de problemáticas complexas contribuindo para uma formação diversificada dos alunos, estimulando a criatividade e a inovação.
O conceito de currículo integrado pressuposto por Santomé, contempla uma o objetivo de conexão global do conhecimento, fortalecendo a unidade nas instituições escolares (1998).
A construção de um currículo integrado corresponde, de certa maneira, a tentativa de dar respostas às velhas perguntas dos alunos, como por exemplo: para que serve estudar isto?
Esta é uma, de muitas questões que surgiram devido à fragmentação do conhecimento, que ocorreu pelo crescente das necessidades tecno-cientifícas, que desencadeou a perda das características reflexivas do saber de períodos anteriores a clara divisão disciplinar.
Assim, a interdisciplinaridade visa uma integração relacional dos conteúdos estabelece uma constante critica e reflexiva quanto à tarefa de educar.
Para Fazenda, “o processo de interação permite gerar entidades novas e mais fortes, poderes novos, [portadoras de] energias diferentes” (2002, p.18).


Abordagens interdisciplinar através do conceito experiência.
A presente proposta tem como objetivo desenvolver o conceito de experiência a partir de uma proposta de currículo integrado, que poderá ser desenvolvido no período de um semestre letivo, englobando as disciplinas de história, educação artística, ciências biológicas e literatura.
Cada disciplina deverá estabelecer uma abordagem própria deste conceito observando as suas individualidades como disciplinas, estabelecendo as múltiplas ligações entre as áreas do conhecimento, que possibilita a reflexão deste conceito.
Assim, cada disciplina lançará o seu próprio olhar sobre o mesmo objeto, buscando um ensino significativo aos alunos, pela integração curricular, demonstrando que os conhecimentos produzidos e desenvolvidos pelas as disciplinas que compõe o currículo escolar são permeáveis e interconectados, isto ressaltará o contato existente entre as ciências.

História.
Conteúdos:
Primeira Guerra Mundial;
Entre Guerras;
Segunda Guerra Mundial;
Objetivos:
Trabalhar com o conceito de experiência para compreender os conceitos de memória e identidade.
Estabelecendo relações com os fatos históricos com escritos testemunhais de cada período estabelecendo uma relação com a matéria de literatura
Para compreender como ocorre a elaboração da memória e do testemunho.

Ciências Biológicas.
Conteúdos:
Método cartesiano e sua importância para a ciência;
Darwinismo e uso da experiência por meio da observação;
Objetivos:
Analisar como ocorreu a constituição do conceito de conhecimento empírico;
Pensar como desenvolveu o pensamento evolucionista de Darwin;
Refletido sobre o processo de evolução dos seres vivos tendo com pensamento desencadeador a experiência.

Literatura.
Conteúdos:
Literatura contemporânea;
Literatura testemunhal na Idade Contemporânea;
Objetivos:
Compreender os motivos da escrita testemunhal;
Analisar algumas obras literárias, entre elas:
REMARQUE, Erich Maria. Nada de novo no Front. Tradução de Helen Rumjanek. Porto Alegre: L&PM, 2008.
STEINBECK, John. Vinhas da ira. Tradução: Herbert Caro e Ernesto Vinhaes. Rio de Janeiro: Editora Brasileira, 1978.
LEVI, P. Se isto é um homem. Estórias Editorial Teorema. Lisboa: 2001.
 
Refletir como a experiência vivenciada por estes escritores influenciou nos seus escritos.

Educação artística.
Conteúdo:
Arte contemporânea pensando a Música, Pintura e a Escultura neste período. 
Objetivos:
Refletir sobre a arte como uma maneira de expressar e experimentar.
Desenvolver as capacidades de percepção das múltiplas formas da experiência artística, pensando a música, a pintura e a escultura como experiência.
Rever algumas obras marcantes que retratam de alguma maneira as experiências vividas por seus autores. Ex: Guernica de Pablo Picasso.


Concluindo.
Por fim, muitos são os empecilhos para um ensino inter-multi-pluridisciplinar, não importa qual destes prefixos for usada, por que o certo é que os professores aceitarem fazer um projeto transdisciplinar enfrentaram dificuldades tanto individuais em seus nichos de formação acadêmica como coletivamente quando reunirem-se para organizar as atividades conjuntas.
Assim, um projeto com este intuito deve ser pautado na organização e na interação entre os docentes que se propõem a realizar esta atividade.
Os professores devem se conscientizar que o objetivo de uma proposta interdisciplinar é a integração de conteúdos, a redução das concepções fragmentárias quanto ao conhecimento, para desta maneira transpor os limites da produção do saber cientifico, que é especifico a cada disciplina.
A nova velocidade das relações sociais, devido à internet e seus avanços trás para sala de aula novas demandas de saber.
O saber atualmente deve possibilitar uma leitura ampla do mundo e das suas conecções,  variações  e turbulências, o que é um desafio aos professores.
A internet é um ferramenta essencialmente multidisciplinar, e é um das responsáveis pelo rompimento dos estanques de conhecimento que existem entre as disciplinas.   


Para saber mais sobre o assunto.
ADORNO, T. Educação e Emancipação. São Paulo: Paz e Terra, S/d.
FAZENDA, Ivani C. A (org.). Dicionário em construção: interdisciplinaridade. São Paulo: Cortez, 2002.
FAZENDA, Ivani C. A (org.). O Que é interdisciplinaridade? São Paulo: Cortez, 2008.
JAPIASSU, Hilton. “A questão da interdisciplinaridade” In: Revista Paixão de Aprender. Secretaria Municipal de Educação, novembro, n°8, p. 48-55, 1994.
LAROSSA, J. “Notas sobre a experiência e o saber de experiência” In: Revista brasileira de educação, 2002, Nº 19.
MORIN, E. A cabeça bem feita. Repensar a reforma repensar o pensamento. Rio de janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
PAVIANI, Jayme.  Interdisciplinaridade: conceitos e distinções. Rio Grande do Sul: Educs, 2008.
SANTOMÉ, Jurjo Torres. “As origens da modalidade de currículo integrado” In: SANTOMÉ, J. T. Globalização e interdisciplinaridade: o currículo integrado. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998, p.9-23.


Texto: Prof. Cássio Michel dos Santos Camargo.
Licenciado em História pelo Instituto Metodista IPA do Sul, Pós-graduando em História e Geografia pela UFRGS.
Professor de História do Pré-Vestibular Esperança Popular. POA/RS.

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Forte abraço.
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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