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quinta-feira, 1 de março de 2012

O conceito de Ética.

 

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 3, Volume mar., Série 01/03, 2012, p.01-06.


Dentro do contexto da sociedade da informação, da globalização e da cidadania; em um momento em que o ambiente pessoal e profissional exige do individuo uma postura vinculada com a responsabilidade social e o discernimento dos limites da liberdade, pensando no respeito ao outro como garantia de ver respeitados os próprios direitos; discutir o conceito de ética tornou-se essencial.
Isto porque é preciso ter clareza no significado do termo ética, não confundir a referência conceitual com esferas ligadas entre si, mas que são distintas, tal como a moral, o direito ou a ideologia.

Neste sentido, o grande problema inicial é, antes de tudo, a própria definição do que se entende por ética.


Definindo o termo e seu significado.
Existe uma confusão reinante no sendo comum que não distingue ética e moral.
O que tem razão de ser, porque um conceito não existe sem o outro, estando entrelaçados, além da ética ter sofrido modificações conceituais ao longo da história, com vários desdobramentos.
Entretanto, é fato que ética e moral são distintos.
A gênese da confusão está na origem dos termos e em sua concepção primitiva, repleta de paralelos e aproximações.
A palavra Ética nasceu na Grécia antiga, deriva de Ethos, que significa morada ou residência.
A partir da qual surgiu o termo Ethica, significando personalidade, assumindo a utilização usual para expressar costumes e hábitos.
Desde então, vários filósofos abordaram a sua conceituação, cunhando uma significação de senso comum, ainda corrente, de normatização de comportamentos.
A palavra Moral nasceu do termo romano Mos/Moris, que expressa em latim o mesmo que os similares gregos.
É, portanto, uma tradução que também significa moradia ou personalidade.
Acontece que ética e moral foram se tornando distintas ao longo do final da Idade Antiga; a despeito de, no século XIX, Hegel ter afirmado que eram sinônimos.
Ao longo da história do pensamento Ocidental, a ética foi considerada como moral dos filósofos, chamada filosofia moral; estando fixada no âmbito do público e do universal.
Já a moral foi considerada pertencente ao particular e subjetivo, circunscrita ao sujeito e sua privacidade.
Em termos práticos, a definição contemporânea é exatamente a oposta.
A moral define um conjunto de regras que valem para todos, sendo impostas pelos costumes, padronizando comportamentos dos indivíduos inseridos no conjunto da sociedade, pouco importando o que cada um faz na privacidade, desde que não interfira na coletividade.
Neste sentido, a moral se insere em um contexto político, diz respeito ao individuo e a figura da pessoa.
Dois termos usados pelo senso comum como sinônimos, mas que não significam a mesma coisa.
A palavra Indivíduo, a partir do grego antigo, significa objeto do pensamento sem partes, remetendo a sua significação sociológica: elemento ou ser particularizado que não existe sem o conjunto da sociedade.
Portanto, o indivíduo, apesar de compor um todo integral, é aquele que não pode ser separado ou dividido da coletividade.
Termo que se aplica ao contexto aristotélico aplicado a política, a vida em sociedade.
Para Aristóteles, a política é a Ciência mais suprema, a qual todas as outras estão subordinadas, sendo sua tarefa investigar o que diz respeito às coisas públicas para garantir a felicidade coletiva, tal como a melhor forma de governo e instituições capazes de gerenciar o conjunto de indivíduos.
A palavra Pessoa deriva do latim Person - de onde vem Personagem -, a máscara usada pelos atores na representação teatral na antiguidade, denotando a representação do ser, daquilo que a sociedade imagina que alguém é, ou aquilo que o próprio deseja que seus semelhantes pensem que ele é.
Assim, a palavra está ligada com a aparência, remete imediatamente a condição moral, atendendo as expectativas impostas pela sociedade, forjando uma máscara que a pessoa precisa adotar para ser aceita pelo grupo.
O que originou o termo Pessoa Física, manifestação do caráter individual, político, da pessoa moral; exprimindo seus direitos e deveres garantidos pela legislação convencionada pelo Pacto Social.
Em sentido amplo, a ética se aplica ao sujeito, determinando ações que não necessariamente atendem imposições que nascem no exterior, tal como a moral.
A ética determina ações que permitem buscar a felicidade, não a aceitação, conduzindo ao conceito de liberdade e responsabilidade.
O indivíduo é livre para buscar a felicidade, mas não pode ferir o direito do outro de também ser livre.
Ao mesmo tempo, a busca da felicidade implica em responsabilidade para consigo mesmo, o outro, a sociedade e a humanidade.
Esferas com as quais o sujeito está comprometido, porque não pode ser feliz individualmente se não contribuir para a felicidade coletiva.
O termo Sujeito é o que melhor se aplica a este contexto, já que a partir da concepção original da palavra na antiguidade, significa “aquilo que é submetido à reflexão, à discussão”.
O sujeito é o que os filósofos chamam de Ser, aquilo que realmente é; expressando o objeto do conhecimento, a interiorização do mundo e sua significação para alguém.
Portanto, o sujeito é aquele produz atos pensados, racionalizados a partir da construção do conhecimento.
O que fornece uma pista valiosa do que é a ética, pois constitui padronização de ações de forma ponderada pelo sujeito; pensada depois de investigação das necessidades do indivíduo e do pragmatismo coletivo.
Transformando o termo em um significado que expressa seu caráter cientifico.
Em outras palavras, a despeito de sua conceituação que pode ser mais estreita que a moral, quando aplicada a sentidos específicos, como a ética profissional; em sentido amplo, a ética é maior que a moral, porque é também uma Ciência.


A ética como ciência normativa.
A ética é uma Ciência porque é determinada racionalmente, brotando do interior do sujeito, a partir da reflexão que sistematiza o conhecimento do mundo, as necessidades individuais e coletivas.
Por definição, a ética é a Ciência que tem por objeto o juízo de apreciação, aplicada a distinção entre bem e mal, estabelecendo juízos de valor que determinam comportamentos considerados corretos, interferindo nas concepções morais e na legislação.
Diferente da moral, a ética tenta fugir do senso comum, isentando-se do componente emocional ou ideológico; não é influenciada pelas opiniões do sendo comum.
A ética é uma Ciência Humanista por excelência, pretendendo fomentar a reflexão do sujeito para despertar a sua consciência de si mesmo e do mundo; compondo parâmetros de comportamentos que servem de referência para a figura da pessoa e do indivíduo.
Evitando o que Durkheim chamou de estado de anômia.
Assim, a ética poderia ser também definida como Ciência que trata de hábitos que procedem da interioridade do sujeito, tentando aperfeiçoar a natureza humana.
O que remete a discussão sobre o qual seria a natureza humana, um tema controverso, pois não existe consenso ou uma conclusão definitiva.
Para Aristóteles, por exemplo, “toda a humanidade se criou tendo em vista sempre o bem”.
Rousseau definiu a natureza humana como boa, mas afirmou que a sociedade corrompe “o bom selvagem”, deturpando a bondade, tornando o indivíduo inclinado às ações egoístas.
Mais recentemente, vários autores de orientação marxista, vincularam esta deturpação da bondade natural ao sistema capitalista; cujas estruturas estimulam o individualismo, a competição e disputa pelo poder.
Para garantir sua contínua reprodução, o sistema capitalista teria ainda estruturas de controle para forçar a adesão dos indivíduos aos seus preceitos ideológicos, tornando quase impossível, por uma questão de sobrevivência, manter uma atitude altruísta.
Pelo prisma antropológico, a natureza humana, em si, é má e egoísta, priorizando a sobrevivência individual, que só é abandonada pelo coletivo quando beneficia a pessoa.
Além do fato da questão do status também interferir no tratamento para com o outro.
Isto porque é da natureza humana a necessidade de sentir-se superior ao outro, o que garantiria melhores oportunidades de sobrevivência e reprodução ao indivíduo.
Uma concepção que conduz a ética como Ciência necessária, em concordância com o utilitarismo, corrente de pensamento de origem inglesa que apareceu no século XVIII.
Segundo a qual, toda ação deve visar ao que é útil, tendo como finalidade a felicidade humana, ou simplesmente aquilo que serve para trazer a felicidade ao maior número de pessoas.
Pensando assim, seria função da ética procurar esclarecer a dimensão filosófica da existência moral, constituindo uma Ciência que discute hábitos e ações para compor princípios universais que regulam as relações entre os homens, facilitando a vida em sociedade e à convivência do sujeito consigo mesmo e o outro.
Devido ao seu caráter cientifico, a ética necessita entender as leis naturais do comportamento humano, prevendo possibilidades de ação, matematizando o mundo para compor novas equações que sejam úteis ao sujeito e para a vida coletiva.
Assumindo uma postura funcionalista, que observa a sociedade como uma máquina, onde cada indivíduo é uma engrenagem necessária ao funcionamento do todo, devendo integrar-se ao conjunto para produzir a felicidade.
O que conduz a questão da determinação dos parâmetros conceituais em torno do que é a felicidade, também um objeto da ética enquanto ciência, a despeito da subjetividade metafísica que comporta.


A concepção de felicidade ética.
Dentro do âmbito da ética como Ciência normativa, pensada no contexto utilitarista de Jeremy Bentham, a felicidade poderia ser mensurada a partir do prazer e da dor, onde o primeiro seria bom e o segundo indesejado.
A felicidade estaria fixada no prazer, aproximando a ética utilitarista ao hedonismo, doutrina que tem o prazer como finalidade, retirando as restrições impostas à liberdade pela responsabilidade.
No entanto, a felicidade ética só pode ser considerada hedonista se não for mensurada em termos absolutos.
Na ética, o hedonismo seria calculado e racionalizado, desvinculando-se dos sentidos, já que o conceito de prazer não é sensorial, mas comporta equilíbrio interior, a paz espiritual.
Portanto, a felicidade ética recupera o sentido grego de Eudaimonia.
A palavra, em grego antigo, significa justamente felicidade, inserindo-se na busca do desenvolvimento pleno pela racionalização do mundo e do eu.
Para os gregos, a eudaimonia poderia ser definida como o estado de satisfação oferecido pela contemplação da verdade pelo espírito, desprendendo-se do senso comum e do prazer sensível.
Em um contexto platônico, seria atingir o mundo inteligível, o mundo das ideias; em oposição ao mundo sensível.
O que foi expresso por Platão através da alegoria do mito da caverna, que retrata como o que pensamos conhecer configura apenas sombras da verdadeira realidade que está sempre fora da caverna.
O grande problema é que, quando pensamos estar saindo da caverna, estamos apenas entrando em outra realidade composta por sombras.
O que tornaria a contemplação da verdade impossível e, portanto, a felicidade inalcançável.
Mesmo assim um objetivo primordial do ser humano e uma busca que nunca termina.
O viver na eudaimonia estaria dentro do organizar a existência para conferir sentido à vida, remetendo ao bom funcionamento da sociedade, da Polis; identificando a felicidade com a harmonia interna e externa do sujeito.
Devemos notar que a felicidade ética tenta se desvincular do desejo material, indo na contramão do consumismo capitalista, o qual dentro desta acepção não conseguiria satisfazer as reais necessidades do espírito humano.


Concluindo.
Quando se discute o conceito de ética, inevitavelmente, acabaremos concluindo que é totalmente distinta da moral; mas está entrelaçada, propondo valores racionalizados, critérios para julgar o certo e o errado, influenciando e sendo influenciada pela moral e o direito.
A ética possui, portanto, uma função moralizadora, banalizando juízos, discutindo o que é moral, ajustando os princípios aceitos pelo conjunto da humanidade e, ao mesmo tempo, padronizando códigos de comportamento que pertencem a grupos ou profissões específicas.
Destarte, a ética possui também uma função humanista, criticando posturas de ação, examinando fundamentos.
Pensando os valores de forma sistematizada, caracterizando uma Ciência que idealiza o comportamento ideal, racionalizando a relação do sujeito consigo mesmo, o outro e o mundo.
A utilidade da ética insere-se no âmbito humano da valorização da liberdade através do conceito de responsabilidade; simultaneamente, padronizando regras de comportamento para facilitar o convívio entre indivíduos.
A ética torna a coexistência entre as pessoas possível e aceitável também pelo prisma do sujeito, de sua consciência interna.


Para saber mais sobre o assunto.
ARISTÓTELES. A ética; textos selecionados. São Paulo: Edipro, 2003.
BIGNOTTO, Newton. Ética. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
MARTINI, Carlo Maria. Viagem pelo vocabulário da ética. São Paulo: Ed. São Paulo, 1994.
VALLS, Álvaro L. M. O que é ética. São Paulo: Brasiliense, 2008.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela USP.
MBA em Gestão de Pessoas.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade de São Paulo.

2 comentários:

  1. Gostaria de ler um artigo sobre a diferença da escravidão Grecia X Roma.
    Adorei o site.

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  2. Fica a sugestão para os nossos colaboradores.

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Forte abraço.
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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