Publicação brasileira técnico-científica on-line independente, no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar o conhecimento com qualidade acadêmica e rigor científico, mas linguagem acessível.


Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Filosofia para Crianças e Jovens: Entendendo a filosofia através do Mito da Caverna.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 10, Volume jul., Série 03/07, 2019.

Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.

Licenciado em História - CEUCLAR.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.
Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.

A filosofia pode ser simbolizada pelo mito da caverna, atribuído a Sócrates e narrado por Platão na obra A República, dizendo muito sobre quem somos nós seres humanos e como nos comportamos até hoje.
Esse livro foi escrito entre os anos 385-380 a.C., descreve um diálogo entre Sócrates e seus amigos, apresentando o método dialético de investigação filosófica.
O mito da caverna é uma metáfora da condição humana perante o mundo, discutindo a importância do conhecimento filosófico e da educação como forma de superação da ignorância. 
Simboliza a proposta da filosofia: ajudar o homem na passagem gradual do senso comum para uma visão mais aprofundada da realidade, enxergando por trás das aparências usando a razão, sistematizando e organizado a resposta que, não por acaso, transforma-se em novas perguntas.

Quem foi Sócrates.
Sócrates teria sido um pensador nascido em Atenas no período clássico da Grécia Antiga, uma figura enigmática a quem se atribui uma grande contribuição na fundação da filosofia Ocidental. 
Sua suposta existência só chegou até nossos dias através de relatos de terceiros, porque ele seria analfabeto, não deixando uma única obra ou registro escrito.
Dois filósofos que viveram na mesma época que ele, após sua morte, relataram por escrito seu pensamento e ações, no caso seus alunos Platão e Xenofonte.
Além dos diálogos que supostamente descrevem os debates de Sócrates com seus interlocutores, o único registro de sua existência concreta são peças teatrais de Aristófanes, onde aparece como personagem. 
Razão pela qual existe uma corrente da história da filosofia que defende que Sócrates nunca existiu, simbolizando uma tradição filosófica.
Para estes, pode ter sido um personagem inventado pelo aristocrata Platão, um heterônimo usado para criticar seus pares sem se comprometer ou sofrer represarias.
Segundo consta, o que sabemos da vida de Sócrates, caso realmente tenha existido, registrado através de terceiros; é que Sócrates era um homem muito feio, mas quando falava encantava a todos.
Vinha de família humilde, era filho de Sofronisco - motivo pelo qual ele era chamado em sua juventude de Sokrates ios Sōfronískos (Sócrates, o filho de Sofronisco) -, um escultor, especialista em entalhar colunas nos templos; e Fainarete, uma parteira.
Durante a infância, o pai tentou ensinar seu trabalho de escultor, mas o jovem se mostrou pouco hábil para trabalhar com o mármore. 
Os amigos zombavam de sua falta de habilidade e o pai reclamava que mais atrapalhava do que ajudava.
Preferia acompanhar a mãe e assistir o seu trabalho de parteira do que aprender o ofício do pai.
Diante deste fato, a mãe o teria levado até o famoso Oráculo de Delfos, buscando uma resposta para o futuro do garoto, o qual teria profetizado que seria um grande educador.
Depois deste episódio, sua biografia dá um salto, encontramos apenas a informação que era casado com Xântipe, muito mais jovem que ele, com quem teve um filho, Lamprocles. 
Segundo Aristóteles - aluno de Platão - e seu discípulo Aristóxenes, dois filósofos nascidos após a morte de Sócrates; teria tido outra esposa, Mirto, com quem teve os filhos Sofronisco e Menexêno.
O relato que aparece nas peças teatrais de Aristófanes, descreve Sócrates como alguém que costumava caminhar descalço, não tinha o hábito de tomar banho e amava ler. 
Em certas ocasiões, parava o que quer que estivesse fazendo, ficava imóvel por horas, meditando sobre algum problema. 
Certa vez o fez descalço sobre a neve, segundo os escritos de Platão, o que demonstra seu caráter lendário.
Consta também que gostava de brincar com crianças, a quem ensinava enquanto aprendia, dialogando com os pequenos.
Não se sabe ao certo qual era sua profissão, as fontes relatam que trabalhava em diferentes funções, o mais provável é que era artesão, fazendo parte dos poucos privilegiados em Atenas, considerados cidadãos, com direito de participar ativamente das decisões da cidade.
Na maturidade teria sido mantido financeiramente pelos seus seguidores ricos, como Platão; pois não tinha escravos, mas vivia debatendo com a juventude em praça pública e constantemente refletindo sobre a realidade.
Dizia-se um parteiro de ideias, inclusive, certa vez comentando prosseguir com o trabalho de parteira da mãe, teria afirmado: 

"O conhecimento está dentro das pessoas. Porém, eu posso ajudar no nascimento deste conhecimento. [...] Minha mãe não irá criar o bebê, apenas ajudá-lo-á a nascer e tentará diminuir a dor do parto. Ao mesmo tempo, se ela não tirar o bebê, logo ele irá morrer, e igualmente a mãe morrerá!"

Por esta razão, o método inventado por Sócrates, para ajudar as pessoas a pensarem por si, é chamado de maiêutica (que em grego significa parto ou parteira).
Dialogando  principalmente com os jovens, ensinando ao ar livre sem cobrar nada por isto para quem estivesse disposto a ouvir, em um época em que um grupo de filósofos chamados de sofistas cobrava para ensinar; as suas ideias foram se espalhando pela cidade de Atenas, cada vez mais pessoas começaram a segui-lo como verdadeiros discípulos.
Assim, entrou em conflito direito com os sofistas, que questionavam como um homem sábio poderia ensinar de graça e pregar que os atenienses não precisavam de professores.
A influência política de Sócrates se tornou tão grande que os poderosos locais começaram a se sentir ameaçados, acusando-o de corromper a juventude e querer se igualar aos deuses.
No julgamento que se seguiu a sua prisão, questionado por onze magistrados, em sua defesa, mostrou que as acusações eram contraditórias; mesmo assim, o tribunal, constituído por 501 cidadãos, o condenou.
Para evitar que milhares de jovens se revoltassem, não foi condenado diretamente a morte, a sentença deu a opção de exílio para sempre - partir de Atenas e nunca mais voltar- ou ter a língua cortada; opções que impossibilitariam de continuar a questionar as aparências e ensinar.
Caso ele não aceitasse uma entre as duas opções, poderia ainda escolher tomar cicuta - um veneno -, ou seja se matar.
Após receber a sentença, Sócrates proferiu: "Vocês me deixam a escolha entre duas coisas: uma que eu sei ser horrível, que é viver sem poder passar meus conhecimentos adiante. A outra, que eu não conheço, que é a morte ... escolho pois o desconhecido!"
Sócrates optou, portanto, pelo suicídio ordenado pelo Estado ateniense, morreu aos 70 anos de idade.
A sua vida - concreta ou imaginada por Platão - simboliza a essência da filosofia: um questionamento da realidade que pode ser incomodo e perturbador da ordem estabelecida.
Não é a toa que, nos Estados totalitários e nas ditaduras, a filosofia é sempre eliminada ou minimizada nos currículos escolares, enquanto os filósofos são perseguidos.

O diálogo do Mito da Caverna.
O famoso episódio pelo qual o personagem Sócrates ficou mais conhecido em nossos dias, o mito da caverna, aparece no Livro VII da República de Platão.
Trata-se de um diálogo em que as falas na primeira pessoa são de Sócrates e seus interlocutores, Glauco e Adimanto, estes eram os irmãos mais novos de Platão.
No diálogo, é dada ênfase ao processo de conhecimento, mostrando a visão de mundo do ignorante, que vive mergulhado no senso comum, e do filósofo, na sua eterna busca da verdade inalcançável.

Vejamos o diálogo na integra:

Sócrates – Agora, imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.
Glauco– Estou vendo.
Sócrates– Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.
Glauco- Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.
Sócrates — Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte?
Glauco — Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?
Sócrates — E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?
Glauco — Sem dúvida.
Sócrates — Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?
Glauco — É bem possível.
Sócrates — E se a parede do fundo da prisão provocasse eco sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?
Glauco — Sim, por Zeus!
Sócrates — Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados?
Glauco — Assim terá de ser.
Sócrates — Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?
Glauco - Muito mais verdadeiras.
Sócrates - E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?
Glauco - Com toda a certeza.
Sócrates - E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?
Glauco - Não o conseguirá, pelo menos de início.
Sócrates - Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e sua luz.
Glauco - Sem dúvida.
Sócrates - Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é.
Glauco - Concordo.
Sócrates - Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna.
Glauco - É evidente que chegará a essa conclusão.
Sócrates - Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?
Glauco - Sim, com certeza, Sócrates.
Sócrates - E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?
Glauco - Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.:
Sócrates - Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?
Glauco - Por certo que sim.
Sócrates - E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?
Glauco - Sem nenhuma dúvida.
Sócrates - Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna, e a luz do fogo que a ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha ideia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Zeus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a ideia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública.
Glauco - Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la.

O simbolismo do Mito da Caverna.
Segundo a metáfora de Platão, o processo para a obtenção da consciência, isto é, o conhecimento, abrange dois domínios: o domínio das coisas sensíveis e o domínio das ideias. 
A realidade estaria no mundo das ideias - um mundo real e verdadeiro - e a maioria da humanidade viveria na condição da ignorância, no mundo das coisas sensíveis - este mundo -, repleto de ilusões e aparências que não correspondem a realidade.
Segundo o mito, três homens teriam sido criados em uma caverna, vendo apenas as sombras do que se passava lá fora, pois estavam acorrentados junto à parede.
Um dia um deles consegue se soltar e sair da caverna, no inicio fica meio cego pela luz do sol que nunca havia visto, mas depois começa a enxergar e percebe que o mundo real não eram as sombras que conhecia.
Maravilhado, ele retorna e conta aos outros dois o que havia visto.
Assustados, um dos seus companheiros de caverna propõe ao outro matar aquele homem que estava perturbando a ordem estabelecida.
Mais ponderado, o terceiro afirma que o companheiro, que dizia ser a realidade vista na caverna apenas sombras, era apenas um louco não merecia atenção.
Uma situação que foi satirizada por Mauricio de Souza e que demonstra que ainda vivemos em uma caverna, mostrando que cada um de nós pode até mesmo construir sua própria caverna.








































O Mito da Caverna e a vida de Sócrates.
A alegoria do mito da caverna demonstra como estudar filosofia pode ser difícil, cegar em um primeiro momento, fazendo pensar que não estamos entendendo nada e que aquilo não serve para nada.
No entanto, a filosofia permite desvendar o que está por trás das aparências.
Exatamente por isto, a filosofia nasceu na antiguidade agregando todas as áreas do conhecimento humano, era o que mais se aproximava do que hoje chamamos ciência.
Os filósofos foram os primeiros cientistas e professores, questionando o mundo através de grandes debates em praça pública, isto antes mesmo do aparecimento da escrita, tentando derrubar as verdades estabelecidas.
Na ocasião surgiu à maiêutica, um processo pedagógico atribuído a Sócrates, constituindo em multiplicar as perguntas para obter, por indução de casos particulares e concretos, um conceito geral.
Neste sentido, a figura de Sócrates sintetiza a essência do que é a filosofia.
Procurando pelos jovens, passava horas em praça pública, interpelando os transeuntes, dizendo que quanto mais aprendia, mais percebia nada saber, pois ainda restava muito para conhecer.
Uma ideia expressa pela famosa frase: “Só sei que nada sei”; ou seja, quanto mais aprendo, mais percebo que sei pouco, pois existe muito ainda para aprender.
Seu método consistia em destruir a ilusão do conhecimento, levando seu interlocutor a concluir, por si só, afirmações contraditórias, não tendo outra saída a não ser reconhecer sua própria ignorância.
Exatamente por este motivo, Sócrates terminou condenado a escolher entre o exílio e a morte, optando por tomar cicuta.
Na antiguidade, o exílio era considerado pior que a morte, pois isolava o sujeito, os gregos consideravam os estrangeiros com status social abaixo dos escravos.
Ninguém dava atenção ou oportunidades aos estrangeiros, daí ser exilado, para Sócrates, significaria viver a margem da sociedade, sem poder interferir para mudar as coisas.

Concluindo.
O mito da caverna é uma metáfora da condição humana perante o mundo, diz respeito à importância do conhecimento filosófico e à educação como forma de superação da ignorância.
Demonstrando como a filosofia opera a passagem gradativa do senso comum - visão de mundo ilusória - para o conhecimento racional sistematizado e organizado em busca da verdade.
Segundo a metáfora de Platão, o processo para a obtenção da consciência da realidade abrange dois domínios: o sensível e o inteligível (mundo das ideias).
A realidade está no mundo das ideias - um mundo real e verdadeiro - e a maioria da humanidade vive na condição da ignorância, no mundo das coisas sensíveis - este nosso mundo.
O mundo sensível é composto de imagens mutáveis, ilusões; a verdade reside no mundo das ideias, onde tudo é perfeito, mas o conhecimento é inalcançável.
Neste sentido, sendo possível apenas se aproximar mais da verdade, sem nunca alcança-la completamente; a atualidade exige senso critico, necessário para diferenciar as aparências da realidade e não ser enganado.
O grande problema é que vivemos em uma caverna, sem desconfiar que tudo que sabemos pode ser uma ilusão.
O filme Matriz (EUA, 1999: 136min) aborda com maestria esta discussão, recriando uma narrativa contemporânea do mito da caverna em forma de ficção científica.
O enredo trabalha com o argumento de que o mundo ao nosso redor pode ser apenas uma ilusão, criada por máquinas, para distrair a mente e que a verdade estaria por trás das aparências, cabendo a cada um a escolha entre permanecer feliz vivendo na ilusão ou conhecer a verdade.
No filme, um grupo de rebeldes luta contra a Matriz, o sistema que mantém a maioria na ignorância, na vida real a passagem do senso comum para a criticidade é operada, justamente, pela filosofia, estimulando a reflexão e o questionamento sobre as verdades estabelecidas.
A filosofia elimina o achismo e torna as opiniões mais embasadas e sistematizadas, possibilitando construir metodologias de analise da realidade.
Assim, a filosofia permite adquirir um instrumental que ajuda a pensar de forma lógica, com maior coerência, possibilitando formular o discurso de maneira clara.
Poderia existir uma ferramenta mais poderosa e valiosa?

Para saber mais sobre o assunto.
GOLDSCHMIDT, V. “Tempo histórico e tempo lógico na interpretação dos sistemas filosóficos” In: A religião de Platão. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1963, p.139-147.
LALANDE, André. Vocabulário técnico e critico da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
PLATÃO. A República. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996.
PRADO JR, Caio. O que é filosofia? São Paulo: Brasiliense, 1997.


terça-feira, 2 de julho de 2019

Filosofia para Crianças e Jovens: O que é Filosofia?

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 10, Volume jul., Série 02/07, 2019.


Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.

Licenciado em História - CEUCLAR.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.
Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.

Vamos iniciar fazendo um exercício mental, tentemos imaginar e definir o que é filosofia. O que é filosofia para você?
Antes de continuar lendo, escreva o que imagina ser filosofia e para que serve. Depois, quando terminar a leitura do restante do texto, vamos retomar o registro desta sua definição particular de filosofia, por isto é importante realmente parar a leitura e escrever sua definição, não tenha pressa, leve o tempo que precisar. 
Agora que já registrou sua definição de filosofia, imagino que muitas perguntas vieram a mente enquanto pensava no que escrever. Talvez tenha pensado:  
1. A filosofia tem haver com religião ou política?
2. Afinal porque que tenho que penar nisto?
3. Filosofia tem haver com ler textos dos pensadores do passado?
4. Filosofia é um jeito de pensar? Cada um tem a sua filosofia?
4. Filosofia serve para alguma coisa? Vou usar isto na minha vida para quê?
Não vamos responder todas estas indagações apenas neste texto, mas iniciaremos aqui um entendimento do que é a filosofia, que percorrerá outros textos que estarão publicados nesta mesma edição.
Existe uma falsa imagem de que a filosofia é algo escrito e estudado por homens velhos de barba branca, sentados em uma sala cheia de livros empoeirados, com cara séria e olhar arregalado por trás de óculos de lente grossa.
Ou ainda, pensamentos de intelectuais que vivem isolados e com a cara enfiada em livros, sem vínculo com a vida real ou com as novas tecnologias. Ratos de biblioteca antissociais que não tem preocupação com a prática, meros teóricos.
A razão deste erro de julgamento é que durante muito tempo o estudo da filosofia foi tratada como um conhecimento reservado para poucos escolhidos, com textos longos e complexos que deveriam ser lidos e relidos para permitir o ingresso neste clube exclusivo de homens carrancudos, que se julgavam superiores aos demais mortais.
Por isto, ainda hoje, a filosofia é vista, por quem não a conhece; como etérea, vaga, sem sentido, pouco atrativa e difícil de entender.
O grande problema é como a filosofia foi apresentada pela primeira vez àquele que a vislumbra. Como diz o ditado: "a primeira impressão é a que fica".
No ambiente escolar, em geral, esta apresentação acontece de forma pouco dinâmica, criando uma visão negativa e equivocada.
Um pensador contemporâneo, que viveu no século XX, o grego naturalizado francês, Cornelius Catoriadis (1922-1997), certa vez afirmou que: filósofos vivem em meio a livros, mas não desligados do mundo.
Para desmistificar a filosofia, construir uma imagem mais próxima da real; a proposta aqui é percorrer, ao mesmo tempo, temáticas cotidianas e uma linha cronológica da história da filosofia, desvendando de forma dinâmica o universo filosófico.
Este é apenas o primeiro de uma série de textos, escritos com uma linguagem e conceituação adequada para crianças e jovens, aliás, pensados para permitir o entendimento aos leigos de qualquer idade e sem conhecimento prévio da filosofia.
Acredite, a filosofia é essencial para qualquer área do conhecimento humano, profissão e nível de escolaridade. 
A filosofia é essencial para a vida cotidiana de todos nós!

A origem do termo "filosofia".
Comecemos a percorrer a origem da filosofia pelo significado da palavra. Segundo a tradição foi criada por Pitágoras, um filósofo e, hoje, tido também como matemático, que viveu na Grécia Antiga entre o ano 580 e 496 antes de Cristo (a.C).
Ele foi também responsável pela formulação do teorema da geometria que leva seu nome, conhecido como "Teorema de Pitágoras".  Representado pela fórmula (c²= a²+b²) sendo seu enunciado descrito da seguinte maneira: "No triângulo retângulo, composto por um ângulo interno de 90° (ângulo reto), a soma dos quadrados de seus catetos corresponde ao quadrado de sua hipotenusa".
Pitágoras, retratado na imagem ao lado em uma escultura romana, pertencente ao acervo do Museu Capitolino (Roma-Itália); viveu em uma época em que os registros escritos eram raros. Isto porque a escrita estava ainda surgindo na Grécia, a própria imagem do filósofo é uma representação simbólica, uma licença poética, a forma como artistas imaginaram a sua aparência. 
O conhecimento, que teria sido desenvolvido por Pitágoras, foi passado oralmente de geração em geração até ser registrado por escrito. Razão pela qual sobraram apenas fragmentos de suas ideias originais.

Os historiadores da filosofia e filólogos (estes últimos, estudam a origem e evolução da linguagem escrita) supõem que Pitágoras teria criado o termo "filosofia" juntando duas outras palavras.

Entre os gregos, na antiguidade, era comum juntar palavras já existente para nomear novos conceitos. Criava-se a partir do conhecido uma maneira de nomear aquilo que era novo, associando o que se conhecia ao que se apresentava como novidade; como se fosse uma variação do que já existia e não algo realmente novo.

De certa forma, ainda hoje, a maior parte das pessoas são muito resistentes a aceitar novas informações. Apenas reclassificar o novo, associado com o velho, é uma maneira de permitir sua aceitação mais fácil.

Assim, Pitágoras associou uma nova maneira de enxergar e pensar o mundo, que estava surgindo com ele e outros, os quais posteriormente ficaram conhecidos como pré-socráticos, com a ideia de busca pela sabedoria.

O termo "filosofia" é derivado da junção da palavra philos (amigo/amizade/amor) com sophía (sabedoria/conhecimento). É interessante notar que no grego antigo, simultaneamente, cada palavra expressava um conceito, podendo ser traduzida por mais de um significado.

Portanto, filosofia significa amigo da sabedoria ou amor pela sabedoria, pelo desejo de construir o conhecimento (filo + sofia), tendo surgido conceitualmente na Grécia por volta do século VI a.C.

Para os gregos, amizade e amor estavam intimamente relacionados, o verdadeiro amor só poderia acontecer entre amigos. Um sentimento puro que estaria ligado a apreciar a essência e não a aparência, amor fraterno ao verdadeiro eu, a quem estaria por trás das aparências. 

Amar seria gostar de quem a outra pessoa é de verdade.

É neste sentido que se insere o termo "filosofia" com um significado conceitual de busca pelo que existe por trás das aparências, uma construção do conhecimento a partir da reflexão racional.

A invenção da filosofia foi, provavelmente, a maior inovação da história da humanidade. A partir de então, começamos a pensar, cada vez com mais intensidade, usando a racionalidade ao invés da crendice baseada nas aparências, no "achismo".

É por isto que, o que as pessoas chamam em nossos dias de "filosofia oriental", mais antiga que a filosofia que surgiu na Grécia Antiga, não se enquadra na definição da "filosofia acadêmica" estudada nas escolas.

Antes dos gregos, o pensamento humano estava misturado com conclusões não racionais, confundindo-se com religião e espiritualidade.

Razão pela qual, a "filosofia oriental", que carrega consigo muita sabedoria, sem dúvida; não pode ser classificada como racionalização do pensamento, não é acadêmica, não é estudada nas escolas na disciplina de filosofia.

Quando estudado, o conhecimento filosófico antes dos gregos, poderia apenas ser enquadrado como especulação metafísica - esta última um  segmento da filosofia que aborda aquilo que não é tangível, concreto ou palpável, assunto para ser discutido mais adiante em outro texto.

O contexto histórico do nascimento da filosofia.
Agora que já entendemos o que significa o termo "filosofia", apesar de autoexplicativo, é necessário aprofundar nosso conhecimento para visualizar o conceito com maior clareza.
Conhecer o contexto histórico do nascimento da filosofia é essencial para continuar percorrendo este caminho.
Embora seja atribuído a Pitágoras a criação da palavra, ele não foi o primeiro filósofo, em simultâneo, outros estavam inovando.
A filosofia surgiu bem próxima do local de nascimento de Pitágoras, a ilha de Samos, sendo fruto de um contexto comum entre várias das primeiras civilizações na antiguidade que, no entanto, assumiu características especificas na Grécia.
A maior parte dos filósofos gregos estavam concentrados na parte continental da Grécia, mais especificamente em uma das colônias no que atualmente é a Turquia, a cidade de Mileto. 
Ali nasceram três pensadores que começaram a questionar explicações que usavam mitos para embasar a argumentação: Tales, Anaximandro e Anaxímenes.
Ao mesmo tempo, em toda a Grécia, outros também iniciaram as primeiras tentativas de racionalizar o entendimento de tudo que os rodeava; mas como não havia ainda escrita, o registro de seus nomes e propostas não chegaram até nós.
Portanto, a invenção da filosofia pode ser atribuída ao conjunto da humanidade, sendo fruto de um contexto histórico do desenvolvimento civilizacional grego.
Por mais estranho e contraditório que possa parecer, a filosofia nasceu a partir da escravidão, tal como estava configurada entre a maioria dos povos da antiguidade.
A escravidão não tinha nenhum vinculo com o contexto étnico ou racial, isto só aconteceu na Idade Moderna, depois do inicio da colonização europeia da África e América no século XV e XVI.
Na antiguidade, tornavam-se escravos os prisioneiros de guerra e os devedores que não tinham como pagar suas dividas; independente de origem étnica-racial, geográfica, religiosa ou qualquer outro componente de diferenciação.
Organizados ao redor de lideranças que controlavam as Cidades-Estado, as disputas por recursos naturais eram muito comuns neste período, resultando em alianças e guerras brutais e constantes entre vizinhos. 
A Cidade-Estado não é uma instituição exclusiva dos gregos, praticamente todas as civilizações da antiguidade nasceram em torno desta unidade política, econômica e social geograficamente delimitada; que tinha como núcleo um centro urbano soberano e independente de outros ao seu redor. 
Em outras palavras, inicialmente, quando surgiram, cada cidade funcionava como um pequeno país e, depois, em alguns casos foram evoluindo para formas de governo unificadas em torno de um governante a quem se atribuía características divinas.
Este foi o caso do Egito, por exemplo, mas não da Grécia; que permaneceu fragmentada em Cidades-Estado devido ao seu litoral recortado e geografia acidentada (pequenos espaços de planície ligados ao mar mediterrâneo, cercados por morros e penhascos).
Estas populações isoladas, desenvolveram-se a partir de povos distintos e sucessivas invasões, onde os conquistadores escravizaram parte dos habitantes originais, mas também assimilaram sua cultura.
É por isto que, apesar de isolados em territórios compartimentados, os gregos construíram uma civilização, mesmo sendo politicamente fragmentada, baseada na mesma língua e cultura.
No entanto, a origem distinta fez as Cidades-Estado passarem a rivalizar entre si por zonas de pesca, pasto e produção agrícola; mantendo um certo intercâmbio diplomático e comercial, construído em nome de interesses em comum que facilmente desapareciam ao menor desentendimento.
Neste contexto, as muitas disputas entre cidades, geravam prisioneiros de guerra que eram transformados em escravos dos vencedores.
As rivalidades não eram apenas entre povos, havia também divisões internas, segmentação pela origem familiar, proximidade de parentesco com o patriarca (este, o homem mais velho, fundador da família) e a riqueza.
Esta divisão resultou em uma distribuição desigual na posse de terras e controle dos recursos, enquanto uma minoria enriqueceu, a maioria foi empobrecendo. 
Aqueles que não tinham a posse de terras passaram a trabalhar para os ricos, em troca de um pagamento que permitisse a sobrevivência, depois foram se endividando e se tornaram escravos.
Quando alguém não tinha dinheiro e nem como obtê-lo através do seu trabalho, podia pegar um empréstimo dando a esposa e filhos como garantia de pagamento.
Caso não pagasse a divida, o devedor tinha sua família escravizada e podia ele mesmo se tornar escravo.
Exatamente por este motivo, as pessoas que não tinham posses eram chamadas de proletários, cujo significado é “aquele que possui como posse sua prole", seus filhos e esposa.
O chefe da família tinha como sua propriedade o restante dos familiares mais próximos, contando com eles para gerar renda através do seu trabalho.
Na Grécia Antiga, conforme os trabalhadores livres foram desaparecendo, substituídos por endividados escravizados e prisioneiros de guerra; aqueles que possuíam estes escravos começaram a atribuir tarefas não apenas meramente braçais e domésticas aos escravizados, usando escravos de confiança para administrar suas propriedades e organizar o trabalho de outros escravizados.
Tendo escravos para fazer todos os trabalhos possíveis, os ricos puderam se permitir o ócio, que se transformou em símbolo de status, prestígio social, praticado pela minoria da população grega.
Em nossos dias, o termo "ócio" é sinônimo de repouso, um momento sem atividade alguma, em que estaríamos parados sem fazer nada, ociosos.
Entre os gregos o ócio tinha outro significado, era um tempo dedicado a reflexão, a trabalhar somente com a mente, sem um propósito utilitário, não destinado a produzir algo palpável; mas sim ideias, questionando a forma como o mundo era entendido e explicado através dos mitos.
Até o surgimento da filosofia, as opiniões eram de senso comum, crenças coletivas baseadas nas aparências, sem correspondência com a racionalização do entendimento humano.
Isto só mudou a partir do momento em que alguns poucos privilegiados, no caso os cidadãos das Cidades-Estado gregas, graças ao trabalho escravo, passaram a gozar de tempo livre para pensar, refletir sobre o mundo a sua volta.
Como os escravos até mesmo administravam as fortunas de seus senhores, passou a sobrar tempo para os ricos pudessem admirar o mundo e investigar o que existia por trás das aparências, constituindo o que depois passou a ser chamado de "ócio filosófico" ou "criativo".

Filosofia e atitude crítica.
A filosofia grega inaugurou, pela primeira vez na história da humanidade, uma atitude crítica com relação àquilo que se acreditava ser inquestionável: as explicações fornecidas pelas crendices perpetuadas pela tradição oral, que hoje chamamos de senso comum, e que para os gregos eram os mitos.
Devemos notar que estas opiniões não foram todas questionadas, imediatamente, quando surgiram os primeiros filósofos. 
A criticidade humana, que deu origem a ciência moderna, nasceu a partir da filosofia em um processo lento e gradual que demorou séculos.
Na antiguidade, os mitos forneciam explicações sobrenaturais para aquilo que a razão não conseguia compreender. 
É curioso notar que, ainda hoje, em plena era da informação, com conclusões cientificas acessíveis com um simples toque do dedo na tela do celular; alguns segmentos populacionais continuam acreditando nos mitos, recusando-se a enxergar o mundo a luz da razão.
Além disto, entre os gregos, os mitos normatizavam a vida em sociedade, fornecendo um código de ética primitivo ao demonstrar as pessoas como se comportar através de lições transmitidas de geração em geração.
O que, antes da modernidade, tinha grande utilidade coletiva, permitindo a vida harmônica em sociedade, condicionando comportamentos e formas de pensar (mentalidades).
O mito de Édipo, por exemplo, aquele no qual o filho se apaixona pela mãe, sem saber seu real grau de parentesco, acaba em tragédia; servindo para demonstrar que relações incestuosas podiam acabar mal.
Já o mito de Narciso, que teria se apaixonado pela própria imagem refletia em um lago e se afogado; simbolizava como a vaidade poderia acabar em tragédia.
Os mitos, de certa forma, foram se perpetuando e condicionando a maneira de pensar de toda a humanidade; estando presente inconscientemente no condicionamento do comportamento de todos nós.
Razão pela qual Freud, no século XIX, nos primórdios do que depois seria chamado de psicologia; usou a mitologia greco-romana para estudar o funcionamento da mente, os impulsos que nos levam a agir desta ou daquela forma.
Quando a filosofia surgiu na Grécia Antiga, não existia o que chamamos atualmente de ciência, os mitos eram ordenadores do mundo, explicando todos os fenômenos e condicionando comportamentos não apenas inconscientes, serviam até mesmo para sustentar a argumentação das leis.
Ao questionar os mitos, os primeiros filósofos passaram a procurar por um elemento ordenador racional, algo que se opusesse ao Kaos, a desordem.
Eles procuravam entender o Kosmos, o mundo (tudo que existia), através de um principio organizador. O que os gregos chamaram de Arkhé, aquilo que está a frente, que governa tudo.
O mundo seria como uma grande orquestra, a qual escutamos, ouvimos a música, sem conseguir ver quem está tocando os instrumentos e quais seriam estes. 
Esta orquestra invisível seria o Kosmos, que teria um regente, um maestro, o Arkhé. A ideia era visualizar este organizador da orquestra para, depois, desvendar quais instrumentos estariam sendo usados para produzir o som da música e quem estaria tocando cada um deles.
O que conduz, inclusive, a outras indagações, como qual som emite cada instrumento, como este som se combina com outros para compor a melodia, quem fez os instrumentos, como foram feitos, etc.
Esta analogia permite entender uma das características da filosofia: o desdobramento de uma pergunta em várias outras e assim por diante, infinitamente.
Visto que a filosofia nasceu com a intenção de recusar explicações simplistas de senso comum, pretende desvendar o que está por trás das aparências usando a racionalização; e, obviamente, uma pergunta conduz a inúmeras outras.
Responder estas questões, que vão se desdobrando em outras, foi o trabalho da vida dos filósofos; os quais, literalmente, levaram toda a vida para contribuir com a construção do conhecimento de forma tímida.
A questão central que tirou o sono destes pensadores, no entanto, nos primórdios da filosofia na antiguidade, foi como encontrar o principio ordenador de tudo, buscando a verdade por trás das aparências.
Como entender o mundo racionalmente e alcançar a verdade? Como articular o pensamento racionalmente? São perguntas fundamentais que os gregos pensaram e que, também, permitem entender o que é a filosofia. No entanto, esta é uma temática para desvendarmos em outro texto.

Concluindo.
No inicio do texto, começamos um exercício mental que retomaremos agora, na ocasião tentamos imaginar e definir o que é filosofia.
Façamos novamente o mesmo esforço, responda o que é a filosofia para você, sem consultar o registro anterior.
Percorrido este pequeno trajeto introdutório, em que apenas começamos a entender o que é a filosofia, escreva o que pensa ser a filosofia. O que é filosofia para você com base no que aprendeu?
Agora compare sua resposta com o entendimento que registrou antes de ler este texto, certamente deve ter notado pelo menos algumas diferenças no seu entendimento.
A construção do conhecimento filosófico funciona exatamente assim, a cada passo o entendimento muda, fica mais complexo.
A filosofia busca desde seus primórdios encontrar a verdade, algo que até hoje não foi alcançado e talvez nunca seja; mas, a medida que avançamos, certamente, ficamos mais próximos da verdade.
O mais importante é que, em sua busca pela verdade, a filosofia inaugurou uma atitude crítica, essencial para evolução do conhecimento humano e para a vida de cada um de nós. 
Seja qual for à profissão ou ocupação, o mundo contemporâneo exige dos indivíduos senso critico, é necessário saber diferenciar as coisas para não ser enganado.
A passagem do senso comum para a criticidade é operada, justamente, pela filosofia, estimulando a reflexão e o questionando do que está por trás das aparências. 
Pensando no cotidiano de cada um de nós, a filosofia propõe rever os pré conceitos; aquilo que acreditamos ser, mas que não corresponde a verdade.
A filosofia elimina o achismo e torna as opiniões mais embasadas e sistematizadas, possibilitando racionalizar o entendimento de tudo que nos rodeia.
O que cria o que Marilena Chauí chamou de “atitude filosófica”: a substituição de afirmações por indagações, ajudando a enxergar além das aparências.
Não bastasse esta função prática, a filosofia ajuda, também, a pensar de forma lógica, com maior coerência, possibilitando formular o discurso de maneira clara.

Para saber mais sobre o assunto.
GHIRALDELLI JR. Paulo. História da Filosofia: dos pré-socráticos a Santo Agostinho. São Paulo: Contexto, 2008.
GOLDSCHMIDT, V. “Tempo histórico e tempo lógico na interpretação dos sistemas filosóficos” In: A religião de Platão. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1963, p.139-147.
LALANDE, André. Vocabulário técnico e critico da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
PRADO JR, Caio. O que é filosofia? São Paulo: Brasiliense, 1997.


segunda-feira, 2 de julho de 2018

A origem dos canais da cidade de Santos: resgate da memória das estruturas históricas do litoral paulista.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 9, Volume jul., Série 02/07, 2018.


Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

Líder do Projeto.



Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.

Licenciado em História - CEUCLAR.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.
Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.

COAUTORES: Lucas Henrique Alves de Freitas, Lucas da Silva Souza, Luiz Primo Ferreira Junior, Rithielen Teixeira Canuto, Victor Antonio Araujo Santos (discentes do curso de engenharia Civil do Centro Universitário Monte Serrat - Unimonte).


O texto deste artigo originalmente compunha uma monografia inserida no Projeto Integrador, orientada pelo Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos, apresentada pelos alunos citados como coautores ao Centro Universitário Monte Serrat (Unimonte), como exigência parcial para a aprovação na disciplina PI II dos cursos de engenharia. Os resultados da pesquisa foram apresentados ao público em evento interno da universidade, submetido à avaliação de banca de professores do curso no ano de 2015. Este texto foi atualizado pelo orientador, com modificações substanciais, para publicação na Revista.


RESUMO: Os nove canais originais da cidade de Santos, construídos entre 1905 e 1927, são a maior obra de engenharia na história da cidade. Criados pelo engenheiro Saturnino de Brito, com o intuito de melhorar a precária situação sanitária da cidade, que carecia de um sistema de esgoto e escoamento das águas das chuvas, acarretando em diversas epidemias; as quais estavam, gradativamente, avançando pelo interior do estado de São Paulo, o principal porto de exportação da produção cafeeira do Brasil. A criação do saneamento erradicou estas doenças da cidade, drenando as áreas alagadiças, ampliando o espaço destinado a instalação de novas residências e deixando como legado um monumento. O pretendemos investigar a origem destes canais, entendendo as técnicas de construção e materiais empregados, ressaltando sua importância para cidade e população. Contribuindo para o resgate e preservação da memória de estruturas históricas do litoral paulista.
PALAVRAS-CHAVE: Canais, Santos, Saneamento Básico, Saturnino de Brito.

ABSTRACT: The nine original canals in the city of Santos, built between 1905 and 1927, are the greatest engineering work in the city's history. Created by engineer Saturnino de Brito, in order to improve the precarious sanitary situation in the city, which lacked a sewage system and rainwater runoff, resulting in several epidemics; which were gradually advancing through the interior of the state of São Paulo, the main export port for coffee production in Brazil. The creation of sanitation eradicated these diseases from the city, draining wetlands, expanding the space for the installation of new homes and leaving a monument as a legacy. We intend to investigate the origin of these channels, understanding the construction techniques and materials used, emphasizing their importance for the city and population. Contributing to the rescue and preservation of the memory of historic structures on the coast of São Paulo.
KEYWORDS: Channels, Santos, Basic Sanitation, Saturnino de Brito.



1. INTRODUÇÃO.
Desde que foi fundada, em 1543, a cidade de Santos, localizada no atual Estado brasileiro de São Paulo, passou por constantes alagamentos e problemas decorrentes da ausência de um saneamento básico adequado.
No século XIX, percebeu-se que era necessário investir na drenagem, implantando canais para escoar a água.
Canais de drenagem são rios artificiais que transportam as águas da chuva e do solo encharcado.
Em geral, são construídos com a finalidade de estabelecer um sistema sanitário e, na cidade de Santos, foram idealizados para amenizar o surgimento de epidemias e, consequentemente, reduzir o índice de mortalidade.
Através deste sistema, seria possível drenar e locomover a água, contribuindo com o escoamento dos esgotos e o controle de epidemias.
Projetados pelo engenheiro Francisco Saturnino Rodrigues de Brito, simplesmente conhecido e eternizado nos anais da história como Saturnino de Brito; os canais fizeram parte de um projeto sanitário que pretendia instalar nove deles em conjunto com um sistema de esgotos, separado e em paralelo; mas passaram a ser um ponto turístico devido a sua vasta amplitude e estrutura arquitetônica com estética inovadora.
Os sete principais canais partem da orla da praia, transitando por toda a cidade, por isto, transformaram-se em ponto de referência para a população.
Considerados atualmente monumentos, que contaram com estudos de engenharia, arquitetura e geográficos; os canais contribuíram para o desenvolvimento da cidade, tanto econômico como social.
Depois de sua instalação houve uma diminuição na taxa de mortalidade, devido doenças relacionadas com a ausência de drenagem de água empossada; e rápido crescimento populacional e da ocupação de espaços na cidade.
Outros benefícios correlacionados resultaram na utilização da mão-de-obra que favoreceu a economia local, ajudando na elaboração do sistema sanitário da cidade.
Na época de sua construção, os canais geraram melhorias substancias na captação da água da chuva, ajudando a solucionar o problema dos alagamentos; embora atualmente a ampliação do volume de água, dado o crescimento populacional, não permita mais isoladamente eliminar as enchentes que ainda persistem e incomodam a cidade.
Pretende-se aqui estudar as estruturas usadas na época da construção original dos nove canais de Saturnino de Brito, sua importância para a cidade e população, elaborando uma maquete simbolizando um trecho de um dos canais.
Ressaltamos que este estudo insere-se em um projeto mais amplo, desenvolvido no ano de 2014 e 2015, idealizado e liderado pelo Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos, docente titular da Unimonte no curso de engenharia civil; de conservação da memória de estruturas históricas da cidade de Santos e dos processos de construção civil do passado.
Assim, abordaremos dados, recuperando a história dos canais desde sua criação até alcançar a contemporânea importância cultural e arquitetônica para a cidade e população.
Mostraremos as técnicas de construções e materiais utilizados que permitiram a inauguração dos canais, conservando a memória em forma de maquete.
Para alcançar este objetivo, realizamos pesquisa de campo em locais que ajudaram a conhecer os materiais, processo e funcionamento dos canais; além de investigação documental e bibliografia.
Atualmente, os canais de Santos possuem mais de cem anos, sendo uma das características da cidade e pela qual é reconhecida, um ponto de referência.
O desenvolvimento da maquete, além de preservar a memória, trazendo uma visão mais ampla sobre sua estrutura, funcionalidade e marcante presença na cidade; pretende fomentar a discussão sobre o futuro dos canais e possíveis novas aplicações.
A água captada pelos canais, por exemplo, poderia ser tratada e, posteriormente, utilizada para o consumo da população; resolvendo a questão das enchentes que assolam a cidade em épocas de chuva mais intensa.

Maquete simbolizando um trecho de um dos canais de Santos, confeccionada
pelos coautores do artigo. Fonte:
 Foto do autor.


2. OBJETIVO.
Através do Projeto Integrador, realizado pelos alunos do segundo semestre de 2015, do curso de Engenharia Civil da Unimonte, orientados pelo Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos; pretende-se estudar as técnicas de construção utilizadas na época, mostrando a grande importância dos canais para a cidade de Santos e sua população e, resgatando suas primeiras formas, imortaliza-las em maquete.
Para iniciar a confecção da maquete, tornou-se necessário pesquisar as técnicas de construção e o contexto de sua utilização.
Através do estudo das fontes disponíveis e pesquisa bibliográfica, realizamos a construção da maquete simbolizando um trecho de um dos canais de Santos, conforme sua aparência original quando foi construído, antes do crescimento vertical e horizontal da cidade ao longo da segunda metade do século XX.
Assim, pretendemos resgatar a memória de um marco nas estruturas arquitetônicas históricas presentes na cidade.
O objetivo deste estudo é entender a construção dos canais, assim como as técnicas empregadas, realizando uma análise crítica de sua criação e dos materiais utilizados originalmente.

Maquete simbolizando um trecho de um dos canais de Santos, confeccionada
pelos coautores do artigo. Fonte:
 Foto do autor.


3. PROBLEMÁTICA.
Antes da construção dos canais, Santos era repleta de problemas epidêmicos e de salubridade, responsáveis pela transmissão de doenças e um constante estado de alagamento das ruas, prejudicando o crescimento da cidade e da população.
As chuvas inundavam facilmente as ruas entre a praia e o centro antigo, situado então um pouco abaixo do nível do mar, facilitando o acúmulo de água e dificultando o escoamento.
Junto com as cheias, a água empossada virava um criadouro de mosquitos, fazendo a população sofrer com várias epidemias como a febre amarela e dengue, dentre outras que seriam descobertas pela ciência posteriormente como zika e chikungunya, ameaçando a população e prejudicava o turismo.
No inicio do século XX, a população estimada da cidade rondava 50.000 habitantes; uma década antes, entre 1890 e 1900, morreram 22.588 pessoas vítimas de epidemias, correspondendo a 50% dos habitantes.
Somente no ano de 1901, 6.683 pessoas faleceram vitimas da febre amarela.
A falta de uma rede de esgotos e abastecimento de água potável estava na origem da mortandade, trazendo medo e inúmeros problemas para o cotidiano dos santistas.
A construção dos canais sanou uma parte destes problemas, razão pela qual entender e preservar sua memória, desde sua construção até os dias atuais, é importante para a cidade e a história do Brasil.
Ocorre que os canais não despertaram ainda a atenção dos historiadores profissionais, sendo alvo de estudos que em muitos casos carecem de fundamentação documental, motivo pelo qual sua história não é conhecida por grande parcela da população da cidade de Santos.
Para dar conta desta problemática, pensamos em confeccionar uma maquete que despertasse o interesse para os canais, a qual finalizada foi doada ao Instituto Histórico e Geográfico de Santos, visando à exposição junto com maquetes de outras estruturas históricas da cidade.
Assim, atendendo a intenção maior de inserção no projeto “A evolução histórica-estrutural da cidade de Santos e região: um olhar da engenharia civil sobre o passado, pensando em um futuro sustentável”.
A ideia, portanto, é resolver o problema da ausência de uma memória da estruturação dos canais de Santos, agregando informações que possibilitaram a confecção de uma maquete, para compor o acervo permanente da Fundação Arquivo e Memória de Santos, com finalidade educativa.
Discentes do curso de engenharia civil contribuem com conhecimentos de sua área de formação, orientados por um historiador, para entender os processos construtivos e preservar a sua memória.

Apresentação da Maquete simbolizando um trecho de um dos canais de Santos, confeccionada
pelos coautores do artigo; à banca examinadora em evento interno na Unimonte. Fonte: Foto do autor.


4. REFERENCIAL TEÓRICO.
Nascido em Campos, no Rio de Janeiro, em 1864, Francisco Saturnino Rodrigues de Brito era engenheiro sanitarista, fez os principais estudos urbanistas e de saneamento de grandes cidades brasileiras.
Deixou vasta obra e usou técnicas modernas de construção que já tinham sido usadas na França, Inglaterra e Estados Unidos.
Por volta do ano de 1890, houve grande elevação no número de mortes registradas na cidade de Santos, dentre as causas oficialmente registradas desses óbitos estavam varíola, peste bubônica, disenteria, febre tifoide entre outras.

“Santos até essa época continuava vitima das epidemias periódicas, que além de prejuízos imediatos, desmoralizavam o estado no estrangeiro. As obras do cais iniciaram o Saneamento em grande escala. Sendo a ação municipal impotente, o governo estadual, interveio no serviço de esgoto, que teve seu período decisivo de 1905 a 1912, com projeto e execução de Saturnino de Brito. O plano incluía algumas medidas urbanísticas, que sofreram varias modificações após discussões muito brasileiras com a municipalidade e outros interessados.” (MAIA, 1950: 37-38)

O Engenheiro Saturnino de Brito ficou encarregado de algumas obras na cidade, com destaque para os canais de drenagem.
A primeira inauguração foi do canal 1, em agosto de 1907, primeiro passo de um grandioso plano de construção de canais pela cidade, projeto no qual o Brasil foi pioneiro.
Na ocasião o projeto foi pensado de forma a criar duas redes separadas: uma para escoar as águas pluviais e outra para os esgotos.
Para entender o desenvolvimento deste empreendimento, fez-se necessário buscar embasamento recuperando o plano de ação original dos canais.
O trabalho foi desenvolvido através de pesquisa de campo, com a visitação ao memorial do construtor Saturnino de Brito, além de investigação documental e bibliográfica.
Pesquisamos artigos acadêmicos e livros, que permitiram a análise de materiais e estruturas empregadas nos canais, auxiliando na confecção da maquete.
O trabalho foi dividido em cinco etapas:
1. Estudo dos canais e a sua importância para a população de Santos.
2. Investigação dos métodos construtivos da época e os materiais utilizados.
3. Análise das ligações do canal até as casas dos moradores da cidade e do descarte dessa coleta de esgoto, além da visualização da importância do transporte fluvial utilizando os canais.
4. Retratação, em forma de maquete, de um dos canais mais importantes na primeira metade do século XX.
5. Análise dos resultados da pesquisa e comparação dos canais na época de sua construção com sua função atual.

Coautores do artigo em evento interno da Unimonte, onde a Maquete simbolizando um trecho
de um dos canais de Santos foi apresentada à banca examinadora. 
Fonte: Foto do autor.


5. ANÁLISE DOS DADOS E RESULTADOS.
O projeto dos canais da cidade de Santos obteve sucesso desde o início; logo o problema da cidade estava resolvido, mostrando-se uma estrutura duradoura, tanto que o monumento está em atividade até os dias de hoje, necessitando apenas de reparos ou restauro ao logo de quase cem anos, sem nunca precisar de reconstrução.
Para confecção da maquete utilizamos uma das plantas publicadas na obra Álbum Canais de Drenagem Superficial de Saturnino de Brito; a qual fornece uma visão ampla da cidade, com os canais de drenagem destacados.
Em um primeiro momento, decidimos fazer a maquete retratando todo o caminho de todos os canais.
Todavia, quanto maior a área retratada, menores seus detalhes, assim, decidimos focar apenas em uma parte de um canal, para que pudesse ser mais realista em detalhes.
Elaboramos uma planta da parte do canal que queríamos focar, a ideia inicial era fazer uma base elevada, para mostrar como funcionava a encanação na parte do solo, estes revestidos de PVC transparente.
Porém, quando estudado mais a fundo, notou-se que não era algo vantajoso, visto que não tinha nada a ser mostrado.
No solo eram apenas os canos revestidos de concreto e terra ao redor.
Mais uma vez a confecção teve de ser alterada, abandonando a base elevada, decidimos enfatizar detalhes das ruas e do canal na parte superior.
Utilizando um pedaço de um dos canais, fizemos outra planta e novo planejamento.
A maquete possui 1m de largura e 60cm comprimento, a escala utilizada foi de 1:50, onde cada 1cm da maquete equivale a 50cm do real.
Os materiais foram selecionados de acordo com as peculiaridades dos materiais aplicados na estrutura original, de modo a criar a ilusão de observar a estrutura original.
Para isto, decidimos utilizar: placas MDF, placas de isopor, papel ondulado, tinta acrílica, tesoura, cola quente, gesso, cano PDV, cola de madeira e cola para isopor.

Exposição da Maquete simbolizando um trecho de um dos canais de Santos, confeccionada
pelos coautores do artigo; em evento interno na Unimonte. Fonte: Foto do autor.


6. RESULTADOS DA PESQUISA.
Os canais de Santos foram um marco na historia da cidade e na carreira do engenheiro sanitarista Francisco Saturnino Rodrigues de Brito, representaram uma evolução para a cidade e país, além de uma solução para o saneamento da época.
Cada um dos canais possui características particularizadas para um melhor funcionamento, de acordo com o terreno em que foi construído.
Buscamos compreender o tipo de estrutura, materiais e técnicas utilizadas para desenvolver a maquete, retratando o monumento na proposta original dos canais santistas.
Houve necessidade de conhecer o processo de construção e de planejamento, para saber como os canais de drenagem e funcionavam e sua relação com as galerias pluviais e de esgotos.
Fundada em 1543, a cidade de Santos nasceu em torno do porto, localizado em um espaço favorecido pela geografia, uma península com o mar de um lado e do outro o canal de Bertioga formado por uma série de rios e ilhas.
Ganhando maior importância durante o ciclo do ouro no século XVIII, quando ajudava a escoar a produção das Minas Gerais junto com o porto do Rio de Janeiro, recebendo produtos que abasteciam esta mesma região e servindo também como base para contrabandistas que tentavam fugir do pagamento de impostos à Coroa.
No entanto, a cidade cresceu somente com a expansão cafeeira do final do período Imperial no século XIX, quando passou a escoar a produção que vinha de trem do interior do Estado de São Paulo.
Depois da abolição da escravidão, em 1889, houve um novo surto de crescimento populacional com a efervescência do fluxo de mercadorias e pessoas, pois na ocasião o Brasil passou a importar mão de obra europeia e, depois, japonesa.
Na época, enquanto a cidade crescia em um ritmo rápido e desordenado, a situação da cidade era precária, com ruas de terra quase sempre enlameadas, construções com piso de madeira em constante estado de umidade e a ausência de um sistema de esgotos e de escoamento da água da chuva.
O porto não passava de uma série de trapiches de madeira, o que piorava a situação.
Os navios que passavam por lá eram sujos, com porões repletos de ratos, trazendo além de cargas, marinheiros e passageiros do mundo inteiro.
Estes traziam consigo doenças contagiosas, que se espalhavam rapidamente entre a população local, resultando em constantes surtos epidêmicos de grandes proporções e enorme mortalidade.
A área onde era possível construir casas era bastante restrita, porque havia extensos pântanos e manguezais, a população estava aumentando e não havia espaço para instar os novos moradores, que eram obrigados a morar em palafitas em condições de saúde e higiene ainda mais precárias.
No final do século XIX, a cidade estava assim configurada, quando passou por uma crise sanitária grave.
Infestações contagiosas transmitidas por mosquitos, que proliferavam nos pântanos e ruas alagadas, somavam-se a sujeira, lixo, fezes de animais e ao clima quente e úmido; além das doenças trazidas a bordo dos navios que aportavam em Santos.
Estas condições contribuíam para que doenças se espalhassem com grande velocidade, tornando a região insalubre, passando a ser evitada por nacionais e estrangeiros.
Na época, o cônsul da Inglaterra no Brasil, Richard Burroughs, chegou a afirmar que Santos era “uma cidade terrível, que arfa de calor como uma caldeira, pestilenta e doentia".
Metade da população chegou a adoecer, acarretando em mortes e fuga maciça da população urbana, principalmente daqueles que tinham condições e oportunidades de mudar de cidade ou para zonas rurais mais afastadas do centro urbano.
Mesmo diante de condições tão precárias, a proximidade com o mar atraiu o interesse de empreendedores paulistas, que pretendiam instalar um balneário turístico, os quais começaram a pressionar o governo da então província para realizar a drenagem dos pântanos e áreas alagadas.

O porto de Santos no século XIX. Fonte: Acervo Novo Milênio.

A solução só começou a ganhar forma depois da proclamação da República, quando o governo de São Paulo decidiu financiar um empreendimento para solucionar a questão.
O que aconteceu depois da intervenção, a favor do projeto, de Vicente Augusto de Carvalho; político e fazendeiro envolvido com a produção de café, natural de Santos, que na altura era juiz na capital paulista.
Em 1895, criou-se a Comissão de Defesa Sanitária de Santos, que desenvolveu um plano para resolver o problema considerado caro e extenso.
Somente dez anos depois esta intenção ganhou um formato reconhecível, quando Vicente Augusto de Carvalho tornou-se secretário municipal de obras da cidade.
Foi quando o poder público contratou o engenheiro sanitarista Francisco Saturnino de Brito e o engenheiro civil Miguel Presgrave para projetar um sistema de coleta de esgoto, livrando as ruas das fossas a céu aberto.
O plano de construção de canais de Saturnino de Brito passou a enfrentar a resistência de interesses políticos e econômicos, gerando longo embate entre o engenheiro e a Câmara Municipal.
Razão pela qual, entre 1900 e 1903, os esgotos começaram a ser implantados para resolver a situação da cidade, mas não um sistema de drenagem das águas de chuva que continuava empossada.
Provisoriamente foram construídos canais de drenagem de madeira como medida paliativa, sem grande efeito prático, já que a insalubridade só séria resolvida com a conclusão da proposta dos nove canais de Saturnino de Brito.
O projeto dos canais não foi criado para jogar o esgoto da cidade no mar, mas para drenar a água do solo encharcado.
Saturnino de Brito buscou na França e na Inglaterra as técnicas para construir sua obra.
Anos antes, ele havia vivido na Europa, tinha estudado na França, onde observou o surgimento de inovações tecnológicas e soluções simples para o problema do saneamento básico.
Importou a ideia do uso do concreto ao invés da madeira, o que, depois, exigiu e fomentou a criação de indústrias que pudessem produzir os equipamentos e materiais necessários.

Planta da Comissão de Saneamento de 1910.
Fonte: Imagem publicada na obra da Comissão de Saneamento de Santos.

Distritos de Elevação Auto-Elétrica dos Esgotos de Santos.
Fonte: Imagem publicada na obra da Comissão de Saneamento de Santos.

As instalações da Estação 2.
Fonte: Imagem publicada na obra da Comissão de Saneamento de Santos.

O primeiro registro do uso de concreto no mundo remonta ao ano de 1756, quando o engenheiro civil inglês John Smeaton misturou agregado graúdo e cimento; em 1793, construiu na Inglaterra um farol, o Eddystone Lighthouse, com o uso de cimento hidráulico.
Depois, outro grande desenvolvimento aconteceu no ano 1824, o inventor inglês Joseph Aspdin desenvolveu o cimento portlant, fabricando concreto queimando giz com terra e argila, em um forno até que o dióxido de carbono evaporasse, resultando em um forte cimento.
Em 1816, na Alemanha, aconteceu o primeiro teste sistemático de concreto, aperfeiçoado por um jardineiro francês chamado Joseph Monier, que inventou o primeiro concreto armado em 1849.
Portanto, o uso do concreto já estava difundido na Europa quando Saturnino de Brito resolveu implantá-lo no Brasil.

Obras do Canal 1, as quais contaram com guindastes de uma pequena ferrovia construída
exclusivamente para o transporte de pedra e terra. Fonte: Acervo Novo Milênio.

Construção do canal 1 em 1906. Fonte: Acervo Novo Milênio.

Assim, com tudo planejado, após vencer o embate com o poder público municipal, contando com o apoio do governo do Estado de São Paulo; a construção dos canais foi autorizada em 1905.
Em simultâneo com a finalização dos planos de construção destes canais, urgentes para escoar a água das chuvas; Saturnino de Brito precisou lidar com a gravidade para concluir a rede de esgotos, uma vez que a cidade era plana, não permitindo a vasão da água como acontecia em outras cidades de forma natural.
Todo o esgoto coletado precisou convergir para uma única tubulação, onde, através de três bombas seria remetido a uma Estação Elevatória, de onde para completar a última etapa do processo, o esgoto seria lançamento no mar.
Saturnino desejava que o esgoto fosse lançado o mais longe possível para não poluir as águas usadas pela população para banho em balneário.
Para isto, já imaginando um crescimento futuro da área urbana e estudando a movimentação das marés, decidiu que este ponto de lançamento deveria ser localizado em um morro.
Mais especificamente na Ponta do Itaipu, entre São Vicente e Praia Grande, em uma área então imprópria para habitações devido ao terreno, hoje um parque estadual, de onde o esgoto lançado não voltaria para as praias dado a regime de marés.
Entretanto, havia um problema significativo, porque este local estava fora da península; sendo necessário, levar o esgoto por uma série de tubulações por cima do mar até o continente.
O que demandava a construção de uma ponte, originando a famosa e centenária Ponte Pênsil, que se tornaria um dos cartões postais da cidade de São Vicente.

Terminal, oficina e usina de prevenção.
Fonte: Imagem publicada na obra da Comissão de Saneamento de Santos.

Emissários de descarga no mar.
Fonte: Imagem publicada na obra da Comissão de Saneamento de Santos.

6.1. LOCALIZAÇÃO E FINALIDADE.
Ao todo, foram planejados nove canais pelo engenheiro Saturnino de Brito, concluídos ao longo de vinte anos.
As obras foram iniciadas em 1906, com canais projetados para serem enormes valas de concreto destinadas à condução das águas, traçados em um eixo meridional na península.
O traçado dos canais foi pensado para, ao sul, as águas serem escoadas para o oceano e, ao norte, para o canal do estuário, que separa a ilha de São Vicente da ilha de Santo Amaro e do continente.
Haveria também um sistema de comportas para que, em dias de chuva, os canais fossem cheios e a água liberada gradualmente para não causar a destruição das praias.
A função destas comportas era também evitar que na maré cheia a água do mar invadisse a cidade, permitia que fossem abertas em emergências, ajudando na vazão das águas para a praia e evitando enchentes no centro da cidade.
Curiosamente, com o crescimento de Santos, este sistema se tornou falho; atualmente a necessidade de fechamento das comportas na maré cheia, quando coincide com chuvas intensas, provoca justamente o alagamento da cidade em vários pontos.

Mapa dos canais idealizados por Saturnino Brito.
Fonte: Imagem publicada na obra da Comissão de Saneamento de Santos.

O primeiro canal finalizado foi o 1, que demorou dois anos para ser concluído em 1907, localizado atualmente na Avenida Pinheiro Machado, o mais próximo da divisa com São Vicente e que fica nas proximidades do Teatro Municipal e, chegando à praia, nos arredores do Orquidário e do Emissário Submarino.
O mais longo de todos os canais, que se inicia na praia, nas proximidades da Estação Elevatória de Esgoto, no bairro do José Menino, e percorre os bairros de Marapé, Vila Mathias e Vila Nova até desaguar na frente do Mercado Municipal.
Para além da sua função prática de sanear a cidade, Saturnino de Brito pensou os canais para serem rodeados de avenidas largas, completando um ideal de embelezamento urbanístico.
O canal 1 foi projetado para ser totalmente navegado, deveria servir ao trânsito de pequenos barcos, por isto seu trajeto passando pela chamada Bacia do Mercado, permitindo deslocar peixes e frutas até o Mercado Municipal por via fluvial.
O fluxo contínuo de água, independente do volume de chuvas, estava garantido pelo Ribeirão dos Soldados, um pequeno riacho estreito, que dependendo da época do ano corria sentido praia ou sentido centro, deixando para trás uma enorme área insalubre.
Assim, servindo de piloto para nortear a construção dos demais, a inauguração do canal 1 transformou-se em um grande acontecimento no dia 27 de agosto de 1907, cercado de pompa e festejos.

A inauguração do canal 1, com a presença do presidente de São Paulo, Jorge Tibiriçá,
e do engenheiro Saturnino de Brito de chapéu panamá na frente do barco,
saudado pela eufórica população. Fonte: Acervo Novo Milênio.


O deslocamento de mercadorias pelo canal 1 no dia de sua inauguração
em 27 de agosto de 1907. Fonte: Acervo Novo Milênio.

O projeto de Saturnino de Brito não envolvia somente os canais e galerias de esgoto, estava previsto diversos modelos de pontes, muitas delas em concreto armado, com escadarias de acesso aos barcos.
Antecipando a questão ambiental e urbanística, após a conclusão do canal 1, iniciou o alargamento das ruas em seu entorno, que se tornaram avenidas, ao mesmo tempo em que árvores foram plantadas ao longo de todo trajeto.
As árvores eram de todas de copa grande, para ajudar na absorção de água, impedir que a terra cedesse para dentro do canal e fornecer sombra; ajudando a diminuir as temperaturas elevadas para os habitantes da cidade e, principalmente, para as peças em concreto, evitando à dilatação do material.
Embora sua construção tenha se iniciado em simultâneo com o canal 1, tomando como parâmetro este e as melhorias ao seu redor; somente dois anos depois, em 1910, foi inaugurado o canal 2 da Avenida Bernardino de Campos.
Hoje próximo ao Mendes Convention Center, ao Gonzaga e, também, a Vila Belmiro, Estádio do Santos Futebol Clube.
Um ano depois, em 1911, ficaram prontos mais dois canais menores que estavam interligados e saíam do canal 1, em direção ao morro, que Saturnino de Brito chamou de canaletes, pelos quais não era possível navegar.
Sendo um ao lado da Estação Elevatória no José Menino, o canal 9 da Avenida Barão de Penedo, destinado a receber as águas do Córrego Cachoeirinha; e outro, o canal 7 da Avenida Francisco Manoel, ao lado da Santa Casa, destinado a drenar o atual bairro do Jabaquara, hoje nomeado como canal 10.
No mesmo ano, inaugurou-se o canal 4 da Avenida Siqueira Campos, com profundidade e largura suficiente para receber navegação, criando a Bacia do Macuco, uma espécie de estacionamento para barcos que transitavam pelos canais.
Em termos de transporte fluvial, sua função era levar doentes em pequenos barcos, que chegavam dos navios ancorados no porto de Santos, direto para o hospital Guilherme Álvaro, sem ter que passar por dentro da cidade, impedindo a transmissão de doenças para a população local.
O que estimulou a instalação dos principais hospitais da cidade no seu em torno, até hoje localizados no trajeto do canal.
Curiosamente, projetado para evitar o trânsito pelos locais mais habitados da cidade, atualmente o canal 4 fica no meio da cidade, próximo ao Super Centro Boqueirão e a Avenida Conselheiro Nébias; onde estão, além dos principais hospitais, escritórios e universidades da região e a Pinacoteca Benedito Calixto;
Após um ano da conclusão dos três novos canais, em 1912, foi entregue o canal 8, localizado naquela altura na rua Marapé, atual Avenida Moura Ribeiro.
Seguiu-se um intervalo de cinco anos, provavelmente tributário do esgotamento de recursos financeiros e devido a entraves burocráticos, quando o canal 6 foi finalizado em 1917, hoje na Avenida Joaquim Montenegro.
Novamente depois de um intervalo de cinco anos, em 1923 o canal 3 foi finalizado na Avenida Washington Luís.
O último dos nove canais planejados originalmente foi entregue somente em 1927, também com um intervalo de cinco anos, trata-se do canal 5 da Avenida Almirante Cochrane.
Posteriormente, conforme a cidade cresceu, inclusive por conta do processo de saneamento facultado pelos nove canais projetados por Saturnino de Brito; a Prefeitura da cidade construiu outros canais, todos na zona noroeste, que na época do projeto original estava desabitada.
No final da década de 1960 foram construídos mais seis canais, o canal 10 inaugurado em 1968, que atualmente é conhecido erroneamente pela população como 7, localizado na Avenida General San Martin, foi o primeiro desta nova empreitada.
Depois foram concluídos o canal 11, que fica entre o 6 e o Porto, na continuação da Avenida Afonso Pena; e o canal 12, próximo ao Rádio Clube na Avenida Hugo Maia.
E entregues o canal 13, na Avenida Alberto de Carvalho e Avenida Roberto de Molina; o canal 14, da Avenida Eleonor Roosevelt; e o canal 15, passando pela Avenida Jovino de Melo.
No entanto, o projeto de Saturnino de Brito se manteve inalterado, não exigindo reformas até hoje, passando apenas por um único restauro em 2007, constituindo a base para a rede de esgotos e águas pluviais da cidade.
Este sistema foi apenas complementado na década de 1970, com a inauguração de um novo emissário submarino.
Os canais de Saturnino de Brito foram tombados, em 2006, pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) e; em 2007, pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos; passando para a administração da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), atual operadora do sistema.

O canal 1 no dia de sua inauguração, onde se pode observar as escadarias de
acesso aos barcos. Fonte: Acervo digital do jornal A Tribuna.

A fila de populares para embarcar em barco de passeio no canal 1, em 1907.
Fonte: Projetos e Relatórios - Saneamento de Santos (volume VII das Obras Completas
de Saturnino de Brito, Imprensa Nacional/Instituto Nacional do Livro, Rio de Janeiro, 1943).

Ponte sobre o canal 1, sendo cruzada por Saturnino de Brito no dia da inauguração.
Fonte: Acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo.

O canal 1 em 1914. Fonte: Acervo Novo Milênio.

6.2. CONTEXTUALIZAÇÃO.
A instalação do regime republicano no Brasil, em 1889, tornou crescente economia capitalista, articulando interesses econômicos de parte da elite brasileira com a intensificação da força de trabalho assalariada, acelerando a importação de mão-de-obra europeia.
A chegada de cada vez mais navios ao porto de Santos, fez a cidade crescer rápido; a população que ronda 5.000 habitantes no inicio do século XIX, havia dobrado em 1890, contando com 13.000 pessoas.
O crescimento da cidade acompanhou a expansão de São Paulo, a qual movida pelo café expandiu a população de 20.000 habitantes em 1810 para 40.000 em 1890, depois atingindo a cifra de 240.000 no inicio do século XX.
O surgimento de uma infraestrutura de transporte baseada na instalação de ferrovias pelos ingleses, permitindo chegar a capital em poucas horas; tornou possível um crescimento até então sem precedentes da cidade de Santos.
A população chegou a 50.000 habitantes antes do inicio do século XX, representando um crescimento de 287%, justamente o momento em que a mortalidade atingiu metade deste contingente.
Milhares de imigrantes europeus, trazidos para o trabalho nas lavouras de café, muitos dos quais de passagem pela cidade, além de migrantes nordestinos e escravos libertos, optaram por fixar moradia em Santos, buscando oportunidades de trabalho na crescente economia urbana.
Como já ressaltado, no entanto, a cidade permanecia insalubre, repleta de lugares impróprios à ocupação e sem obras de saneamento.
O final do século XIX foi marcado por diversas epidemias de doenças transmissíveis, dizimando boa parte da população e, em muitas ocasiões, impedindo o funcionamento do porto de Santos, então o principal exportador do café brasileiro.
Visando melhorias, o engenheiro Saturnino Brito, que já vinha estudando a situação de Santos desde 1898, propôs um novo projeto, denominado Planta de Santos.
Este foi apresentado à Câmara Municipal da cidade, por iniciativa do próprio Saturnino.
A proposta exigia a aprovação de leis urbanísticas, anexas ao plano, contrárias aos interesses econômicos de alguns promotores imobiliários, que se opuseram ao plano de Saturnino de Brito.
Foram registrados vários embates entre o engenheiro sanitarista e a municipalidade, culminando com a sua demissão da Comissão de Saneamento e na rejeição parcial do projeto.
Desta forma, a entrada do século XX foi marcada pelo impasse entre discurso e prática, pelo conflito de interesses na atividade de planejamento urbano, que perdurou por alguns anos.
Quando o projeto de Saturnino finalmente foi aprovado, em 1905, ele assumiu a condução dos serviços de saneamento com um plano geral para a cidade.
As obras ganham ritmo acelerado e gradativamente possibilitaram o desenvolvimento de Santos, com um projeto que respeitava a topografia e hidrologia, evitando o desperdício com gastos e obras desnecessárias.
A conclusão do projeto possibilitaria uma qualidade de vida inigualavelmente melhor do que aquela que a população vivenciará no final do século XIX.

Exposição da Maquete simbolizando um trecho de um dos canais de Santos, confeccionada
pelos coautores do artigo; em evento interno na Unimonte. Fonte: Foto do autor.

Exposição da Maquete simbolizando um trecho de um dos canais de Santos, confeccionada
pelos coautores do artigo; em evento interno na Unimonte. Fonte: Foto do autor.

6.3. HISTÓRICO DA CONSTRUÇÃO.
O engenheiro responsável pela implantação do projeto dos canais, Francisco Saturnino Rodrigues de Brito, apresentou um plano de saneamento para Santos que adotava um sistema de separação absoluta entre a água drenada e o esgoto.
Ao mesmo tempo, propôs um sistema de abastecimento de água que permitiria uma expansão constante, acompanhado de propostas de planos urbanísticos baseados no princípio de higiene e embelezamento da cidade.
Diferente de projetos propostos antes dele, Saturnino de Brito queria a descarga dos esgotos em locais afastados.
O plano previa adoção de subdistritos, implantando uma série de estações elevatórias, reduzindo os custos das obras, e uma rede de canais.
Estes canais foram ladeados por avenidas, estruturando o desenho urbano de Santos, que hoje é um dos mais expressivos referenciais, tornando o projeto uma das mais completas contribuições ao planejamento urbano nacional.
Saturnino de Brito descreveu sua obra em um livro intitulado Projetos e Relatórios, onde explicou as medidas tomadas e materiais empregados.
Os canais são de tipos diferentes, de acordo com a capacidade e condições dos locais construídos.
A capacidade tanto das galerias quanto dos canais foi avaliada para esgotar as águas desde os pontos mais altos das montanhas até os bairros que seriam futuramente formados na planície.
A técnica de construção empregou o revestimento de concreto armado, em perfil transversal, apropriado à execução econômica e sanitária da obra no terreno fluente.
O revestimento de concreto armado, responsável por resolver o problema da cidade de modo estético, sanitário e econômico; era formado por barras de ferro redondo.
O concreto se regularizava a superfície interna por meio de um reboco de argamassa de um de cimento e três de areia.
No fundo e nas paredes laterais existiam drenos-filtros, que descarregam a água do subsolo e diminuem as subpressões.
Estes drenos são formados de tijolos perfurados, que saem de um fundo de areia grossa e pedrinhas.
Foi necessário muito cuidado para que não deixassem passar areia ao subsolo, pois isso prejudicaria a obra.
Apesar destes detalhes, ainda hoje não se sabe exatamente todo o processo de funcionamento destes canais, pois carecem de informações originais.
Até mesmo a Sabesp, empresa brasileira que detém a concessão dos serviços públicos de saneamento básico no Estado de São Paulo, atualmente, está à procura das plantas.
O orçamento inicial do projeto era de cerca de onze mil contos para construir os nove canais, em valores atuais corresponderia a aproximadamente 135 milhões de reais.
Entretanto, houve imprevistos e alterações que exigiram realocar os gastos para manter o orçamento.



6.4. PANORAMA ATUAL.
Atualmente, os nove canais de Santos, do projeto original de Saturnino de Brito, possuem mais de cem anos de idade e continuam sendo considerados um marco para a cidade. 
Não são apenas um monumento com função urbanística, permanecem em atividade funcional, responsáveis por conduzir as águas pluviais ao mar.
Apesar de não serem vistos como pontos turísticos, os canais servem como sistema de orientação para quem vai ao centro, muito mais que aos bairros.
As estruturas originais já foram reformadas, ainda antes da cidade receber novos canais, todavia, nunca precisaram de reconstrução.
Mesmo assim, continuam desprestigiadas, houvesse maior valorização deste patrimônio, os canais poderiam se tornar um centro turístico e de aprendizagem, principalmente com toda a história por trás de sua construção.

Exposição da Maquete simbolizando um trecho de um dos canais de Santos, confeccionada
pelos coautores do artigo; em evento interno na Unimonte. Fonte: Foto do autor.


7. DISCUSSÃO.
Tendo em vista todo o material estudado, desde a causa que levou ao projeto dos canais, o porquê de terem sido construídos, a história por trás de sua inauguração, os materiais, métodos e técnicas utilizadas para sanar os problemas urbanísticos e de saneamento; nota-se a relevância do monumento e que foi um projeto bem sucedido.
Mesmo com as varias controvérsias políticas, sociais e econômicas; os canais contribuíram para uma sociedade melhor, sendo o estopim para a urbanização de Santos.
Os quais ainda hoje são bem utilizados e servem como ponto de referência por toda a cidade, tanto para os moradores quanto aos visitantes; apesar de infelizmente não serem mais utilizados para o transporte fluvial.
Os canais de Santos, representados em forma de maquete, podem contribuir para futuros estudos que aprofundem o tema, fomentando novas investigações.
A maquete imortaliza na memória dos homens um dos principais monumentos históricos da cidade.

Exposição da Maquete simbolizando um trecho de um dos canais de Santos, confeccionada
pelos coautores do artigo; em evento interno na Unimonte. Fonte: Foto do autor.


8. CONCLUINDO.
Ao longo do século XX, Santos foi aperfeiçoada com planos urbanísticos e de saneamento, planejamentos aplicados na medida dos interesses políticos e econômicos da época.
Apesar de todas as controvérsias e dificuldades contra a sua implementação, os planos de Saturnino de Brito para o saneamento de Santos obtiveram sucesso desde o primeiro momento, satisfazendo as necessidades imediatas e futuras da população.
Os canais colocaram fim nas epidemias provenientes das más condições sanitárias que afetavam os moradores da cidade, contribuindo com o processo de urbanização do município.
Ainda hoje os canais continuam ativos, funcionando como drenagem das águas pluviais por toda a cidade, o que, no entanto, não resolve os atuais problemas de inundação advindos do crescimento urbano.
São pontos de referência, o que evidência sua relevância na história do litoral paulista.
Os detalhes do processo da obra, as plantas originais dos canais de Santos, feitas por Saturnino de Brito, e as técnicas usadas na construção não foram ainda totalmente desvendas, nem mesmo o memorial ao engenheiro possui estas valiosas informações.
Todavia, a confecção da maquete e sua incorporação ao acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Santos constitui um primeiro passo na preservação de sua memória.


9. PARA SABER MAIS SOBRE O ASSUNTO.

9.1. FONTES.
BRASIL. Comissão de Saneamento de Santos. Inauguração dos Trabalhos de Saneamento de Santos. Livrete Exposição. São Paulo: Typographia Brazil de Rothschild & CO, 1913.
BRITO, Francisco Saturnino Rodrigues de. Álbum Canais de Drenagem Superficial. São Paulo: Typographia Brazil de Rothschiild & Cia, 1908.
MAIA, P. Plano Regional de Santos. Edição do autor, 1950.
Pesquisa de campo no Palácio Saturnino de Brito na cidade de Santos (SP).
SOUZA, Alberto. A Municipalidade de Santos perante a Comissão de Saneamento. 1914. Disponível em: <http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0076d.htm > Acesso em 20 set. 2015.

9.2. BIBLIOGRAFIA.
BRASIL. Santos Antigamente. Novo Milênio. Artigo Online. Disponível em: <http://www.novomilenio.inf.br/santos/fotos023.htm > Acesso em 19 ago. 2015.
COELHO, Fábio Reis. Caracterização da qualidade das águas dos canais de Santos. Santos: Programa de Mestrado em Ecologia da Universidade Santa Cecília, 2012. Disponível em: <http://periodicos.unisanta.br/index.php/bio/article/viewFile/70/27Ac> Acesso em 01 out. 2015.
GARCIA, Maiza. Saturnino de Brito, o pioneiro nos projetos de abastecimento de água e saneamento. Artigo Online Fique Ligado, 2009. Disponível em: <http://www.energiaesaneamento.org.br/media/28695/saturninodebrito.pdf > Acesso em 30 ago. 2015.
HARGER, Luiza. Tutoriais: Materiais para maquetes. Artigo online, Portal Arquitetônico, 2014. Disponível em: <http://portalarquitetonico.com.br/materiais-para-maquetes/ > Acesso em 19 ago. 2015.
NEVES, Pedro Dias Mangolini. Canais de Santos: Um marco na Engenharia Sanitária. 2013. Maringá: Mestrado de Geografia apresentado à Universidade Estadual de Maringá (UEM), 2013. Disponível em: <http://www.academia.edu/4145717/Canais_de_Santos_Um_marco_na_Engenharia_Sanit%C3%A1ria > Acesso em 14 ago. 2015.
RAMOS, Dawerson da Paixão. Canais de Santos: Trajetória do tombamento de uma identidade urbana. São Carlos: Dissertação para obtenção do Grau de Mestre em Engenharia Urbana na Universidade Federal de São Carlos, 2004. Disponível em: <http://www.bdtd.ufscar.br/htdocs/tedeSimplificado//tde_busca/arquivo.php?codArquivo=1140 > Acesso em 01 out. 2015.