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sábado, 3 de dezembro de 2011

A formação das monarquias ibéricas: Portugal e Espanha.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume dez., Série 03/12, 2011, p.01-13.


Portugal e Espanha possuem uma origem comum e vários pontos de sua história se encontram e estão entrelaçados.
Primeiro Portugal e depois a Espanha foram precursores na formação das monarquias absolutistas na Europa, os dois primeiros Estados Nacionais europeus.
É a partir do nascimento da nacionalidade portuguesa e espanhola que, por exemplo, os descobrimentos e a expansão ultramarina se tornaram possíveis, mudando a face do mundo conhecido e conduzindo a configuração contemporânea das relações econômicas, sociais e políticas.
Assim, para entender a história da Idade Moderna é essencial conhecer a formação das monarquias ibéricas, por sua vez, sendo necessário recuar no tempo até as origens mais remotas da cultura da região.


As origens da cultura ibérica.
O território que hoje constitui Portugal e Espanha, rico em recursos hídricos, desde a antiguidade possui a pequena extensão montanhosa do norte fértil e as grandes planícies do sul propícias somente ao cultivo de oliveiras (azeitonas) e videiras (uva).
Apesar de hoje a irrigação ter solucionado a falta de terras para o plantio e pastoreio, principalmente na Espanha, um dito anedótico português medieval simboliza ainda esta característica.
Afirma o dito que quando um boi é posto a pastar no campo, o excremento do animal cai nas terras do vizinho, tamanho o aspecto apertado das propriedades rurais, dificultando o cultivo dos cereais, tal como trigo, usado para fabricar pão, o principal produto de consumo ibérico até o século XIX.
A despeito desta característica, a península ibérica, com sua costa recortada, sempre foi um convite à pesca e a partida, mas igualmente exerceu forte atrativo ao desembarque de povos vindo do norte da África e outras regiões através do mar mediterrâneo.
Existem vestígios que comprovam do povoamento da península anterior a 1800 a.C, quando por lá passaram povos da mais diferentes origens, inclusive do longínquo Oriente.
No entanto, povos de origem celta, entre os quais os lusitanos, fizeram-se presentes, fixados em cidades fortificadas, chamadas Castros.
Eles dominaram a península, estabelecendo o comercio de sal e ouro, trabalhando unidos com os fenícios.
Neste período surgiu o reino de Tartessos, uma confederação de cidades fortificadas, assim chamada por Heródoto, na sua História, devido à mítica aventura de um mercador grego que teria feito comercio com Argantônio, cujo nome pode ser traduzido como “o homem da montanha de prata”.
Atraídos pelas ricas jazidas de ouro e prata, além dos fenícios, cartagineses e gregos terminaram estabelecendo feitorias no território, embora a península fosse considerada periférica na antiguidade.
Na Odisseia, Homero descreveu a região ibérica como situada além das colunas de Hércules, o estreito de Gibraltar, considerado o limite do mundo conhecido.
A cultura castreja, assim chamada devido ao nome das cidades fortificadas, os Castros, cultuava seus próprios deuses, apesar do contato com fenícios, cartagineses e gregos.
O centro destes cultos estava fixado na família patriarcal, nos antepassados e no falo, símbolo da fertilidade e virilidade masculina.
O reino de Tartessos durou entre 900 a.C até o século I.
Atraídos pelo ouro e prata, além da possibilidade de produzir vinho e azeite, os romanos invadiram a península em 219 a.C, enfrentando a oposição dos lusitanos, conseguindo estabelecer o domínio sobre os povos ibéricos depois de derrotar Viriato, rei dos lusitanos, durante o governo de Otaviano Augusto.
O primeiro imperador romano dividiu a península ibérica em três províncias: a Baetica, Torracanensis (ambos são hoje a Espanha) e a Lusitânia (no atual território de Portugal).
Os romanos trouxeram uma série de benefícios, construíram várias cidades, com termas e fóruns, ligadas entre si e com Roma de estradas pavimentadas e pontes, impondo o latim como língua oficial.
Por motivos desconhecidos, quando os romanos se converteram ao cristianismo, rapidamente os ibéricos adotaram a nova religião voluntariamente.
O estilo de vida romano também foi adotado, persistindo mesmo depois da queda do Império, quando as invasões bárbaras originaram vários reinos medievais.
Invadiram a península: suevos, alanos e vândalos; que mantiveram a estrutura administrativa romana, a despeito do fracionamento da divisão territorial.
Justamente, a partir do século V, começou a se intensificar a migração judaica para a região, sendo bem recebidos pelos reis bárbaros, passando a constituir uma casta de comerciantes e profissionais liberais que iriam financiar os guerreiros cristãos e seus reinos.
Atuando principalmente como médicos, já que lidar com sangue era considerado impuro pelos cristãos, advogados e comerciantes; os judeus se tornando intermediários culturais no cenário que surgiu em 711.
Foi quando a península ibérica foi invadida por muçulmanos vindos do norte da África, então atraídos pelos recursos hídricos.
Os mouros, como eram chamados, ocuparam o sul e empurraram os cristãos cada vez mais para o norte, embora tenham assimilado a população nativa e facultado a liberdade religiosa.
Após a invasão muçulmana, quase imediatamente começou o período da reconquista, em 718, a ponto de, em 914, um terço já ter sido tomado de volta pelos cristãos.
Através da reconquista, a cruzada contra o islã convocada pelo Papa¸ surgiria Portugal e Espanha, caracterizados por uma cultura miscigenada, mas com formas distintas de lidar com a influência diversificada.


A reconquista.
A Europa medieval era um barril de pólvora, com gritante desigualdade, exploração dos camponeses ao extremo, nobres lutando entre si pelo poder e entrando em atrito com o papado, quando a igreja católica pensou na solução ideal: focalizar a atenção da população em um inimigo externo que pudesse unir todos em torno do cristianismo.
Dentro deste contexto, o Papa convocou a cristandade para livrar a península ibérica dos infiéis, fazendo levas e mais levas de peregrinos rumarem para lá, buscando conciliação com o divino e fortuna, incrementando os contingentes cristãos.
Entre os nobres, neste período, somente o primogênito se habilitava a herdar terras e títulos, aos outros filhos homens restava entrar para o clero ou buscar fortuna em terras distantes como cavaleiro.
Portanto, não só a plebe rumou para a península, mas também nobres, os quais enxergaram na reconquista a possibilidade de obter terras e títulos.
Não obstante, depois que Fernando Magno, rei de Castela, conquistou Coimbra, em 1058, a avanço cristão estagnou, até que o novo rei de Leão, D. Afonso VI, iniciou novamente o processo de expulsão dos infiéis, tomando Toledo em 1079, futura capital do reino.
Tudo poderia estar perdido, não fosse à chegada, no mesmo ano de 1079, de uma grande leva de peregrinos francos que reforçaram as tropas cristãs.
Entre os cruzados estavam os primos D. Raimundo e D. Henrique da Casa de Borgonha, vindos do que hoje é a França, ambos buscando fortuna por não serem primogênitos.
Pelo desempenho na guerra, ambos receberam as filhas de D. Afonso VI como recompensa.
D. Raimundo se casou com Dona Urraca, filha legitima do rei de Leão, recebendo como dote a Galiza e o condado Portucalense; D. Afonso se casou com Dona Tereza, a filha ilegítima, portanto, sem possibilidade de ascender à coroa.
Porém, apesar de D. Raimundo ser tido como um bom administrador, uma derrota militar fez com que perdesse a Galiza para D. Henrique, nascendo a partir da rivalidade entre os primos a futura desavença entre Portugal e Espanha.
D. Henrique tinha fama de um excelente guerreiro, um gênio militar, o que não pode lhe garantir a coroa, mas permitiu obter outras regalias.
Depois da morte do último conde Portucalense, o rei de Leão decidiu tornar D. Henrique o novo conde, enquanto a Galiza foi devolvida para D. Raimundo, então nomeado herdeiro do trono.
D. Raimundo e seus descendentes iriam fundar os reinos que originariam a Espanha, já o filho de D. Afonso iria fazer nascer à primeira monarquia nacional da Europa, Portugal.


O nascimento e consolidação do Estado Nacional português.
A despeito do território que seria Portugal originalmente ter pertencido ao que hoje é a Espanha, a formação da nação portuguesa é anterior à constituição do Estado espanhol.
O cruzado franco D. Henrique obteve grande sucesso na continuidade da reconquista, frustrando o plano do primo D. Raimundo de reaver o condado, isto apesar do primeiro ser vassalo do segundo.
Quando o filho de D. Henrique nasceu, em 1108, o infante D. Afonso Henriques, futuro primeiro rei de Portugal; foi iniciado o processo de centralização que daria origem a primeira monarquia nacional europeia.
D. Afonso Henriques, como seu pai. D. Henrique de Borgonha, foi intitulado, pelos seus méritos como guerreiro, “o melhor cavaleiro do mundo”, mantendo um estado permanente de tensão com os reis de Leão e Castela, além da continuidade da guerra com os mouros.

As provocações foram se avolumando, quando, por exemplo, o neto de D. Afonso VI, filho de D. Raimundo, foi coroado imperador de toda a Europa pelo Papa, um titulo mais honorifico que real, em 1135, D. Afonso Henriques não esteve presente, em uma atitude de desdém e desfio.

Embora tenha prometido fidelidade, segurança e auxilio ao seu suserano, como conde Portucalense, depois da união de Leão e Castela sob a égide de um mesmo rei, em 1137; D. Afonso Henriques proclamou a independência de Portugal em 1139, intitulando-se rei.
Após lutar com a Galiza, Leão e Castela, com o apoio do Papa, Portugal teve sua independência reconhecida em 1143, na Conferencia de Zamara.
Centralizado o poder em torno do rei, Portugal concentrou seus esforços na reconquista da península ibérica, lutado contra os mouros até 1248, configurando o atual território português em 1297, através de um tratado com Castela.
A despeito dos portugueses terem enfrentado várias tentativas de invasão espanhola.
Entretanto, a formação do absolutismo português não foi obra apenas de D. Afonso Henriques, contou com a participação de seus sucessores:
D. Sancho I (1185-1211), chamado “o Lavrador”, devido aos investimentos na agricultura;
D. Afonso II (1211-1223), cuja alcunha “o gordo” estava relacionada à prosperidade de seus súditos, obtida em um período de administração centralizada eficiente;
D. Sancho II (1223-1248), “o Capelo”, um rei fortemente ligado ao poder eclesiástico dos bispados, responsável pela construção de igrejas e catedrais, lembrado pelo seu ímpeto em expulsar os infiéis.
Igualmente, a consolidação do Estado Nacional foi um processo lento e gradual, envolvendo um período conturbado de três guerras contra Castela, entre 1369 e 1382.
Após o qual, o rei português, D. Fernando, filho de D. Pedro I (não confundir com D. Pedro I, imperador do Brasil independente, em Portugal ele é D. Pedro III), faleceu em 1383, criando um problema em torno da sucessão.
Pela tradição, deveria suceder D. Fernando, sua filha, a infanta Dona Beatriz; mas com apenas onze anos de idade, ela era casada com o rei de Castela, o que representava a volta do domínio espanhol sobre Portugal.
As clausulas do acordo matrimonial previam que, ao completar quatorze anos, o filho varão de Dona Beatriz deveria suceder seu pai no trono de Castela, sendo também herdeiro da Coroa portuguesa, uma tentativa de acabar com a guerra entre os dois territórios.
No entanto, a população portuguesa não aceitou a indicação de Dona Beatriz ao trono, revoltando-se contra a possibilidade de Portugal ficar sob a tutela de Castela.
O pai de D. Fernando, D. Pedro I havia tido uma tórrida história de amor com D. Inês de Castro, de família galega, portanto pertencente à nobreza castelhana, tendo gerado herdeiros ilegítimos ao trono, uma saída para sucessão.
D. Pedro havia casado em segredo, passando a viver junto com Inês.
Quando o pai dele descobriu, D. Afonso IV, mandou decapitar a esposa do filho para desimpedi-lo de contrair novo matrimonio, desta vez com uma mulher indicada por ele e que pudesse render dividendos políticos.
O episódio gerou guerra civil entre pai e filho, que terminou com a deposição do rei e a subida ao trono de D. Pedro.
Uma das primeiras medidas tomadas pelo novo soberano foi mandar construir um tumulo para Inês de Castro no mosteiro de Alcobaça, na nave principal, de frente a um reservado a ele, em uma posição que, no dia do juízo final, quando os mortos se levantariam, a primeira coisa que D. Pedro veria seria a amada.
Assassinada por ordem de D. Afonso IV, no dia sete de janeiro de 1355, Pedro vingou-se dos dois assassinos, arrancou-lhes o coração.
Quando se tornou rei, depois da morte da segunda esposa, Constança, mandou exumar o corpo de Inês e a corou rainha, obrigando a corte a ajoelhar-se diante dela e beijar a mão já decomposta, no episódio que ficou conhecido como a coroação da rainha morta.
Entretanto, antes de Inês de Castro ser assassinada, havia tido um filho com D. Pedro I, considerado um bastardo: D. João I, mestre da ordem militar de Avis, irmão de D. Fernando.
Quando Dona Leonor Teles, viúva de D. Fernando, tornou-se regente em nome da filha, Dona Beatriz; o povo miúdo se revoltou, exigindo o coroamento de D. João.
A revolução de Avis começou com o assassinato do conde de Andeiro, favorito de Dona Leonor em Lisboa.

Graças ao apoio da burguesia, D. João marchou para a capital, contando também com o apoio inglês, selado através de seu casamento com Dona Felipa de Lencastre, neta de Eduardo III, rei da Inglaterra.

Um detalhe interessante é que, romântico como o pai, o tumulo de D. João I e Dona Felipa está no mosteiro da Batalha, onde os corpos forma enterrados juntos, sob um lapide esculpida em tamanho natural, onde se pode observar a representação dos dois lado a lado de mãos dadas.
De qualquer forma, após várias batalhas travadas entre 1383 e 1385, o exército do rei de Castela, então apoiado pela cavalaria francesa, foi derrotado.
O apoio francês a Castela foi devido à ligação dos nobres da França com a dinastia de Borgonha, representando uma tentativa de impedir sua substituição pelos Avis.
A batalha de Aljubarrota, em quatorze de agosto de 1385, foi o marco que possibilitou a ascensão de Avis ao trono, embora combates esporádicos entre portugueses e castelhanos tenham sido registrados até 1411.
Coroado rei, D. João mandou construir o mosteiro da Batalha, no local do evento, para comemorar a vitória, um símbolo do poder da nova dinastia de Avis.
Isto porque surgiu, sob a coroa de D. João I, uma nova dinastia em Portugal, Avis, a qual substituiu a linhagem original de Borgonha.
O novo rei tratou de organizar o Estado português, enquanto D. Nuno Álvares Pereira comandou as tropas, tornando-se o maior proprietário de terras do reino e o homem mais poderoso depois de D. João.
Para a maioria dos historiadores, o coroamento de D. João I marcou o início da monarquia absolutista em Portugal e a consolidação da formação do Estado Nacional.
A despeito da manutenção de resquícios medievais, foi nesta ocasião que se iniciou o incentivo ao comércio, uma recompensa ao apoio da burguesia ao coroamento do Mestre de Avis.
O apoio burguês possibilitou definitivamente a centralização do poder em Portugal em torno do rei, quando se formou uma nova nobreza, com burgueses recendo títulos e sendo nomeados cavaleiros.
Revolvida definitivamente a questão da independência, ao menos até o episódio da União Ibérica em 1640, Portugal, o primeiro Estado Nacional absolutista europeu, lançou-se a empreitada marítima.
D. João I iniciou uma nova cruzada contra os mouros, encarregando seu próprio filho de organizar a expansão ultramarina: o infante D. Henrique, depois chamado “o navegador”.
A expansão marítima, simbolizada pela cruzada contra os infiéis, foi à saída encontrada para direcionar a belicosidade da nobreza de sangue, que havia ficado do lado de Castela, para fora de Portugal.
Uma opção que serviu também, obviamente, a busca de recursos e riquezas que o solo português não podia proporcionar.


O nascimento e consolidação do Estado Nacional espanhol.
A formação da Espanha tem em comum com Portugal o passado vivido na antiguidade e em boa parte da Idade Média, contudo, existem diferenças significativas na consolidação do Estado Nacional espanhol.
Cabe lembrar que, durante o período do domínio romano, na antiguidade, o território que formaria a Espanha constituiu a província da Hispânia, palco da primeira guerra Púnica, entre 264 e 241 a.C.
Depois da queda de Roma e das invasões bárbaras, os visigodos terminaram construindo um Império ao dominar a província, através de um acordo costurado com os romanos para expulsar os suevos, alanos e vândalos, então já misturados à população local.
Entretanto, o reino visigodo nunca teve unidade política e cultural, sendo facilmente esfacelado pelos muçulmanos em 711, os quais constituíram um Emirado independente na península, dividido em Califados.
Diferente do que aconteceu em Portugal, o território que formaria a Espanha constituiu um amontoado de reinos cristãos que tiveram raros momentos de união contra os mouros, o que tornou o processo de unificação mais lento.
Os reis de Leão, Castela, Navarra e Aragão estiveram envolvidos em periódicas rebeliões da nobreza e das populações urbanas; tendo que lidar, simultaneamente com os interesses internos e ordens de cruzados que migraram buscando combater os infiéis, especialmente Templários e Hospitalares.
Dentro deste contexto, havia ainda uma série de pequenos condados na Catalunha, formados a partir de terras conquistadas aos mouros; e Aragão, um reino ligado à República de Pisa; ambos que, depois, originaram núcleos separatistas.
Os condados da Catalunha sempre tiveram uma cultura e língua distintos do resto da Espanha, assim como leis e regimentos próprios, mesmo depois da unificação do Estado Nacional.
Destarte, os reinos de Leão e Castela tentaram diversas vezes a unificação através de casamentos, voltando a ser divididos, igualmente, em varias ocasiões, até serem permanentemente unidos em 1230, sob o governo de um mesmo rei, herdeiro, ao mesmo tempo, dos dois reinos.
As diferenças jurídicas e administrativas foram rapidamente superadas em nome da criação de uma Castela mais forte, no século XIV, sob o governo de Afonso X e XI, responsáveis pela centralização do poder no reino.
O processo de unificação prosseguiu com o casamento, às escondidas e sem o consentimento dos pais, de Isabel de Castela (herdeira do trono) e Fernando de Aragão, em 1469.
Isabel só assumiu o trono em 1474, com a morte de seu irmão, envolta em circunstâncias estranhas.
O irmão de Isabel, Felipe, “o Impotente”, deixou uma filha, mas era tida como resultado de relações estabelecidas com uma cortesã, o que o estatuto do sangue puro castelhano fazia com que fosse inabilitada a assumir o trono.
Fernando assumiu o trono de Aragão em 1479, quando de fato aconteceu a unificação com Castela.
Unidos, Castela e Aragão retomaram com força a reconquista, tomando dos muçulmanos o reino de Granada em 1492, momento em que a viagem de Cristovão Colombo ao Novo Mundo foi financiada pelos reis católicos.
Um marco do surgimento do Estado espanhol, apesar da consolidação da unificação somente ser finalizada com a invasão do reino de Navarra em 1512.
A morte de Isabel, em 1504, fez pairar a ameaça do risco de todo processo retroceder, pois Fernando passou a governar novamente somente Aragão, casando-se novamente sem deixar herdeiros.
O que possibilitou ao herdeiro de Fernando e Isabel, Carlos V, receber o titulo de rei das Espanhas, do reino de Nápoles e da Sicilia, dos Países Baixos, do Franco Condado, Áustria e Hungria; reivindicando e recebendo o título de Imperador do Sacro Império Romano-Germânico.
O governo de Carlos V, graças ao capital obtido com possessões no norte da África e Américas, consolidando o sentimento de nação, formando um Estado Nacional absolutista fortemente centralizado na figura do rei.
Na Espanha, diferente de Portugal, o papel representado pela burguesia não foi decisivo, mas sim o apoio da alta nobreza, depois intimamente envolvida com a conquista militar dos povos nativos das Américas, com especial ênfase nos astecas, maias e incas, conferindo à empreitada a continuidade da cruzada contra os infiéis.


Adendo: reis de Portugal.
Segue uma breve descrição dos reis de Portugal, respectivas datas em que estiveram à frente do governo, alcunha e informações adicionais quando é o caso:

Dinastia de Borgonha.
01. D. Afonso Henriques – 1139-1185 – “o melhor cavaleiro do mundo”.
02. D. Sancho I – 1185-1211 – “o lavrador”.
03. D. Afonso II – 1211-1223 – “o gordo”.
04. D. Sancho II – 1223-1248 – “o capelo”, este rei foi deposto pelo Papa Inocêncio IV e exilado em Toledo.
05. D. Afonso III – 1248-1279 – “rei de Portugal e do Algarve”.
06. D. Dinis – 1279-1325 – “o virtuoso”.
07. D. Afonso IV – 1325-1357 – “o bravo”, deposto pelo filho.
08. D. Pedro I – 1357-1367 – “o justiceiro”.
09. D. Fernando I – 1367-1383 – “o belo”.





Dinastia de Avis.


10. D. João I – 1385-1433 – “mestre de Avis”.
11. D. Duarte – 1433-1438 – “o rei filosofo”.
12. D. Afonso V – 1438-1481 – “o africano”.
13. D João II – 1481-1495 – “o príncipe perfeito”.
14. D. Manuel – 1495-1521 – “o venturoso”.
15. D. João III – 1521-1557 – “o piedoso”.
16. D. Sebastião – 1557-1578 – “o encoberto”.
17. Cardeal D. Henrique – 1578-1580 – “o cardeal rei”.







Dinastia de Habsburgo.



18. D. Filipe I (II da Espanha) – 1580-1598 – “o prudente”.

19. D. Filipe II (III da Espanha) – 1598-1621 – “o piedoso”

20. D. Filipe III (IV da Espanha) – 1621-1640 – “o grande”, este rei foi deposto pela revolução da restauração da monarquia portuguesa.








Dinastia de Bragança.
21. D. João IV – 1640-1656 – “o restaurador”.
22. D. Afonso VI – 1656-1667 – “o vitorioso”, este rei foi deposto.
23. D. Pedro II – 1667-1706 – “o pacífico”.
24. D. João V – 1706-1750 – “o magnífico”.
25. D. José I – 1750-1777 – “o reformador”, o governo efetivo foi exercido pelo primeiro ministro, o marques de Pombal.
26. D. Maria – 1777-1784 – chamada “a viradeira” em Portugal e “a louca” no Brasil.
26. D. João VI – 1784-1825 – “o clemente”.
27. D. Miguel – 1828-1834 – “o usurpador”, este rei foi deposto após uma guerra civil promovida pelo seu irmão, imperador do Brasil.
28. D. Pedro III (I do Brasil) – 1834 – “o rei soldado”.
29. D. Maria II – 1834-1853 – “a educada”, o governo efetivo foi exercido pelo seu marido, o rei D. Fernando II, alemão de nascimento.
30. D. Pedro V – 1853-1861 – “o muito amado”.
31. D. Luís I – 1861-1889 – “o popular”.
32. D. Carlos I – 1889-1908 – “o diplomata”.
33. D Manuel II – 1908-1910 – “o estudioso”, este rei foi deposto pela proclamação da República em Portugal.







Adendo: reis da Espanha.
Segue uma breve descrição dos reis da Espanha, respectivas datas em que estiveram à frente do governo, alcunha e informações adicionais quando é o caso:

Dinastia Habsburgo.

01. D. Carlos I – 1516-1556 – “de rei das Espanhas, do reino de Nápoles e da Sicilia, dos Países Baixos, do Franco Condado, Áustria e Hungria” e “Imperador do Sacro Império Romano-Germânico”.
02. D. Filipe II – 1556-1598 – “o prudente”.
03. D. Filipe III – 1598-1621 – “o pio”.
04. D. Filipe IV – 1621-1665 – “o grande”.
05. Carlos II – 1665-1700 – “o amaldiçoado”, não deixou herdeiros, o que provocou uma guerra pela sucessão.






Dinastia Bourbon.
06. D. Filipe V – 1700-1724 – abdicou.
07. D. Luís I – 1724 – morreu de varíola, sem deixar herdeiros.

08. D. Filipe V – 1724-1746 – voltou a reinar após a morte do antecessor.

09. D. Fernando VI – 1746-1759.

10. D. Carlos III – 1759-1788.

11. D. Carlos IV – 1788-1808 – abdicou.

12. D. Fernando VII – 1808 – deposto por Napoleão Bonaparte.








Dinastia Bonaparte.




13. D. José I – 1808-1813 – deposto pela guerra da independência.














Dinastia Bourbon.



14. D. Fernando VII – 1813-1833 – “o desejado”.


15. D. Isabel II – 1833-1868 – “a chata”.



















Dinastia de Sabóia.




16. D. Amadeu I – 1870-1873 – abdicou em virtude da implantação da primeira República espanhola.














Dinastia Bourbon.

17. D. Afonso XII – 1874-1885.

18. D. Afonso XIII – 1886-1931 – renunciou para a implantação da segunda República espanhola.

19. Juan Carlos I – 1975 até a presente data – assumiu após a morte de Francisco Franco, depois implantação o regime parlamentarista.













Concluindo.
O rei da França, Luis XIV, foi o autor da célebre afirmação: “O Estado sou eu”.
Ele simbolizou a autoridade suprema do rei absolutista, foi o perfeito monarca, caracterizando o Antigo Regime.
No entanto, muito antes da formação do Estado Nacional absolutista francês, o precursor do Estado Nacional foi Portugal, seguido pela Espanha.
O catolicismo foi o centro de apoio de ambos, Deus conferia poder divino aos reis, com autoridade ilimitada e incontestável, o que iria encerrar definitivamente a pretensão dos Papas ao poder temporal, a quem, a partir de então, passaria a restar apenas governar a espiritualidade.
A harmonia garantida do Estado absolutista, em Portugal seria garantida pela burguesia. O que permitiu aos reis legitimarem a formação do Estado Nacional e o sentimento de nacionalidade, uma construção coletiva que demorou séculos e não obra de apenas um homem.
Uma harmonia obtida na Espanha através do apoio da alta nobreza.
Nos dois casos, permitindo a expansão ultramarina, sustentáculo das monarquias ibéricas na Idade Moderna.


Para saber mais sobre o assunto.
ANDERSON, Perry. Linhagens do Estado Absolutista. São Paulo: Brasiliense, 2004.
ANDERSON, Perry. Passagens da antigüidade ao feudalismo. São Paulo: Brasiliense, 1987.
ARRUDA, José Jobson de Andrade. A grande revolução inglesa: 1640-1780. São Paulo: Hucitec, 1996.
BETHENCOURT, Francisco. História das Inquisições: Portugal Espanha e Itália. São Paulo: Cia das Letras, 2000.
BRAUDEL, Fernand. Civilização material, economia e capitalismo: séculos XV-XVIII. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
BRAUDEL, Fernand. O mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Felipe II. Lisboa: Martins Fontes, 1984.
BURKE, Peter. A fabricação do rei: a construção da imagem pública de Luis XIV. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.
CAPEROCHIPI, José A. Reforma Protestante y Estado Moderno. Madrid: Civitas, 1986.
DELUMEAU, Jean. A civilização do renascimento. Lisboa: Estampa, 1983.
DUFFY, Eaman. Santos e pecadores: história dos Papas. São Paulo: Casac & Naify, 1998.
HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Abril Cultural, 1974.
LARIVAILLE, Paul. A Itália no tempo de Maquiavel. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Abril Cultural, 1990.
OCKHAM, Guilherme de. Breviláquio sobre o principado tirânico. Rio de Janeiro: Vozes, 1988.
RAMOS, Fábio Pestana. “A ascensão da monarquia absolutista na França” In: Para entender a história... Ano 1, Volume out., Série 14/10, 2010, p.01 - 13. Disponível em http://fabiopestanaramos.blogspot.com/2010/10/ascensao-da-monarquia-absolutista-na_14.html
RAMOS, Fábio Pestana. “A ascensão da monarquia absolutista na Inglaterra” In:
Para entender a história... Ano 1, Volume out., Série 04/10, 2010, p.01-10. Disponível em http://fabiopestanaramos.blogspot.com/2010/10/ascensao-da-monarquia-absolutista-na.html
RAMOS, Fábio Pestana. “A Teoria do Estado Absolutista foi fruto de séculos de debates: sua origem mais remota está na antiguidade” In: Para entender a história... Ano 1, Volume out., Série 07/10, 2010, p.01-09. Disponível em http://fabiopestanaramos.blogspot.com/2010/10/teoria-do-estado-absolutista-foi-fruto.html
RAMOS, Fábio Pestana. Naufrágios e Obstáculos enfrentados pelas armadas da Índia Portuguesa: 1497-1653. Apresentação da Prof.a. Dra. Laura de Mello e Sousa e Prefácio da Prof.a. Dra. Mary Del Priore, São Paulo: Editora Humanitas/Departamento de História-FFLCH/USP, 2000.
RAMOS, Fábio Pestana. No tempo das especiarias. São Paulo: Contexto, 2008.
RAMOS, Fábio Pestana. Por Mares Nunca Dantes Navegados. São Paulo: Contexto, 2008.
ROMANO, Egídio. Sobre o poder eclesiástico. Rio de Janeiro: Vozes, 1989.
SARAIVA, José Hermano. História concisa de Portugal. Lisboa: Publicações Europa-América, 1990.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela USP.
MBA em Gestão de Pessoas.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade de São Paulo.

3 comentários:

Esteja a vontade para debater idéias e sugerir novos temas.
Forte abraço.
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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