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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Repensando o papel da mulher no mundo contemporâneo.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume dez., Série 07/12, 2011, p.01-03.


Por quê o dia Internacional da Mulher, instituído em 1975 pela ONU, para comemorar conquistas e combates femininos?

Resposta: essas lutas surgem, na segunda metade do século dezenove, momento em que as mulheres começam a participar mais ativamente da vida pública e em especial do mundo do trabalho.
Mas um mundo do trabalho cruel.
As indústrias que começavam a se proliferar, cuspindo fumaça por grandes chaminés, empregavam em alguns setores uma população majoritariamente feminina.
Em São Paulo, na última década do século XIX, por exemplo, elas eram 90% do contingente de trabalhadores.
E as mulheres trabalhavam nas mais rudes condições: dez a doze horas sem interrupção, em instalações sem higiene, sem condições de salubridade, açodadas sexualmente por capatazes e gerentes, e como hoje, recebendo salários bem mais baixos do que os dos homens.


O contexto histórico internacional do trabalho feminino.
No século XIX, muitas mulheres, ao voltar para casa, tinham que enfrentar o descontentamento dos maridos, pois estes eram tempos em que médicos e juristas acreditavam que o trabalho feminino fora de casa, destruía o lar, provocava a infelicidade dos filhos e tornava a mulher uma prostituta.
Nos EUA é o momento de grandes passeatas e alguns mitos: passeatas de mulheres em NY, onde se encontrava o grosso das indústrias têxteis.

E mitos como o de um incêndio na fábrica Cotton – não comprovado - que teria matado 127 operárias, as primeiras mártires do trabalho feminino.

A revolução russa, desencadeada em 1917, também vai contar com mobilização das mulheres operárias de São Petersburgo, para manifestar sua desaprovação com as terríveis condições em que viviam.

Por fim, os vários congressos socialistas e comunistas que começavam a se organizar, encontraram em militantes como a sindicalista alemã Clara Zetkin, porta-vozes contra a exploração de que eram vítimas as mulheres.
Tudo isto vai colaborar para que nos países industrialmente avançados, e sobretudo, nos meios socialistas, se comece a discutir a necessidade de um dia internacional da Mulher.


O trabalho feminino no Brasil.
No Brasil, lutava-se não só por melhores condições de trabalho, mas também para estudar e votar.
Alguns marcos desta luta: só em 1879, as mulheres têm autorização do governo para freqüentar instituições do ensino superior, pelo que foram ridicularizadas.

Em 1887, formou-se a primeira médica brasileira, Rita, Lobato Velho.

Em  1885, num romance intitulado Memórias de Marta, Júlia Lopes de Almeida denunciava pioneiramente a dificuldades da vida das mulheres pobres.

Em 1917, a professora Leolinda Daltro liderou uma passeata exigindo a extensão do voto às mulheres. Ano de 1922, fundada a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino.
Em 1929 é eleita a primeira prefeita: Alzira de Souza, em Lages, Rio Grande do Norte.
Em 1931, criada a Cruzada Feminista Brasileira e em 32, no governo de Getúlio Vargas, o novo código eleitoral institui o voto feminino.
E só em 1945, uma Carta das Nações Unidas, reconheceu a igualdade de direitos entre homens e mulheres.


Concluindo.
Hoje, passadas as lutas mais renhidas, as mulheres são quase 10% da representação política em instituições como Senado, Câmara ou prefeituras.
E o quê elas, que se beneficiaram dos combates anteriores, estão construindo para suas filhas?
Muito pouco.
Tanto que no dia 8 de março mais se pensa em distribuição de rosas e música do Roberto Carlos, do que em agendas que de fato modifiquem a vida das mais desfavorecidas.
Para as que pensam que a atual trajetória das mulheres, transformou um passado de lutas em mais uma data comercial, fica a sugestão: criar também o Dia Internacional do Homem.


Para saber mais sobre o assunto.
DEL PRIORE, Mary. A Família no Brasil Colonial. São Paulo: Editora Moderna, 1999.
DEL PRIORE, Mary. Ao sul do corpo, Condição Feminina, Maternidades e mentalidades no Brasil Colônia. UNESP: São Paulo, 2009.
DEL PRIORE, Mary. “A vida cotidiana no Rio de Janeiro” In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, v. 436, 2007, p. 313-333.
DEL PRIORE, Mary. Histórias do Cotidiano. São Paulo: Contexto, 2002.
DEL PRIORE, Mary. L'Histoire de la vie privée dans le monde luso-americain: l'exercice d'une nouvelle approche? In : Cahiers de L'histoire Du Brésil, Sorbonne - Paris, 2000.


Texto: Profa. Dra. Mary Del Priore.
Doutora em História Social pela USP, com Pós-Doutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (Paris/França).
Lecionou História do Brasil Colonial nos Departamentos de História da USP e da PUC/RJ.
Autora de mais de cinqüenta livros e atualmente professora do Programa de Mestrado em História da Universidade Salgado de Oliveira - UNIVERSO/NITERÓI.
Membro do Conselho Editorial de "Para entender a história..." desde 14/01/2011.

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Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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