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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
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Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
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terça-feira, 1 de julho de 2014

A metafísica de Aristóteles e a ciência do ser.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 5, Volume jul., Série 01/07, 2014, p.01-08.



Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

Doutor em história social - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.
Licenciado em história - CEUCLAR.
Licenciado em filosofia - FE/USP.
Bacharel em filosofia - FFLCH/USP.
 
 
 
Aristóteles foi um pensador polivalente, inventou a análise do silogismo, um método destinado a permitir que um discurso ou discussão possa ser determinado rigorosamente como válido e verdadeiro.
 
Não obstante haver transitado por diversos segmentos da filosofia, desenvolveu de forma rigorosa o que chamou de filosofia primeira, hoje conhecida como metafisica.
Ao propor uma nova cosmologia, acabou fundando a teologia, a moral e a politica, no sentido moderno, séculos antes que se quer fossem vislumbradas como esferas do conhecimento humano científico.
Isto porque foram suas concepções que despertaram na modernidade os pensadores a elaborar novos conceitos a partir do viés aristotélico.
Alguns defendem a tese que a influencia de Aristóteles se estendeu até mesmo a criação da psicologia no período contemporâneo, tamanho o impacto de suas ideias na construção do conhecimento humano.
A metafísica aristotélica é antes de tudo uma ciência do ser como ser, dos princípios e das causas e dos atributos essenciais do ser.
É neste sentido que Aristóteles pretendeu estabelecer uma filosofia primeira, sustentando todo o conhecimento humano à medida que estudo das essências, portanto de natureza ontológica.
No entanto, ao construir a metafisica terminou por desarticular outras propostas estabelecidas muito antes de sua filosofia primeira.
 
Aristóteles, o Liceu e a metafísica.
Enquanto os sucessores de Platão desenvolviam as teses do mestre na célebre Academia, Aristóteles fundou em Atenas uma escola rival em 355 a.C: o Liceu, também chamado Escola Peripatética (termo grego que significa aqueles que passeiam, denotando a ideia de itinerante).
O Liceu foi uma escola regular com aulas pela manhã e tarde, onde o professor educava a elite de Atenas através de discursos esotéricos, isto é, direcionados a um público interno mais restrito, com conhecimentos mais avançados sobre lógica, física, metafísica.
As aulas da tarde destinavam-se a um público mais amplo e ainda não iniciado nos segmentos a pouco mencionados, abordando temas mais acessíveis, como retórica, política e literatura.
Não era um espaço físico propriamente, pois Aristóteles transmitia seus conhecimentos dando passeios com os alunos, em um local que hoje fica próximo ao atual Parlamento grego, uma área de 3,6 hectares.
Dentro deste contexto, poucos sabem, mas as obras de Aristóteles constituem simplesmente notas de cursos ministrados por ele, algumas tidas como do próprio professor, mas outras reconhecidamente apenas anotações de alunos que assistiram às suas aulas.
Algumas versões dos textos aristotélicos que chegaram até nós não passam de anotações de um professor para ser desenvolvidas oralmente no Liceu, as quais possuem acréscimos a partir das discussões com alunos.
Outras versões são anotações de alunos a partir de sua própria percepção dos ensinamentos do professor com acréscimos que denotam, provavelmente, reflexões pessoais sobre a aula.
O que, por si só, constitui um desafio para o historiador da filosofia, visto que é difícil afirmar que tudo que consta nos textos tidos como sendo de autoria de Aristóteles é realmente de autoria dele.
Sendo notas de aulas, muitos especialistas preferem considerar as obras aristotélicas como produções coletivas.
Uma segunda dificuldade reside no fato de, em se tratando de apontamentos de aulas desenvolvidas oralmente, compreender integralmente o significado conceitual presente nos textos, sem deixar escapar a real intenção do autor em meio a uma escrita em muitos aspectos enxuta e obscura.
Lembremos que até mesmo o termo metafísica não foi uma criação de Aristóteles, mas uma palavra acrescentada posteriormente.
Foi um bibliotecário, no alvorecer do inicio da era cristã, que juntou textos independentes, nomeados de metafisica, para compor um único livro.
No ano 50 a.C, Andrônico de Rodes, ao classificar as obras de Aristóteles, cunhou a palavra, uniu o termo “meta” (depois de, após, acima de) com “física” (explicação racional da natureza).
A metafísica passou a significar aquilo que está acima das explicações racionais da natureza, o que Aristóteles chamava de filosofia primeira, o estudo do ser enquanto ser.
Algo que depois seria chamado ontologia, a tentativa de entendimento das coisas por trás das aparências, além de sua concretude.
Não bastassem estes dois grandes problemas, ainda existe uma terceira dificuldade de interpretação das obras de Aristóteles: diversas cópias de versões das obras dele, que poderiam servir de parâmetro de comparação foram destruídas no período cristão.
Vários textos só sobreviveram a partir de traduções para o árabe, possibilitando o resgate posterior.
Outros sobreviveram desde a antiguidade através da transmissão via manuscritos medievais coletados no Corpus Aristotelicum, tendo sofrido possiveis alterações para se adequar a teologia católica.
Acredita-se que a maior parte das obras de Aristóteles tenha se perdido e apenas um terço de seus trabalhos tenham sobrevivido, mesmo assim com consideraveis acrecimos aos originais.
 
O nascimento das discussões metafísicas.
A despeito de Aristóteles ser considerado o pai da metafísica, embora não tenha se quer sido o criador do termo, como objeto de discussão especulativa, a dita metafísica nasceu quando os gregos começaram a buscar explicações racionais para a origem do mundo ordenado, o cosmos.
A partir da cosmologia, a busca pelo principio ordenador da natureza, a força que provocava mudanças, chamada physis; iniciaram-se intensos debates para tentar explicar racionalmente o mundo, conduzindo a tentativa de estudar também aquilo que não era propriamente tangível e observável.
Inicialmente, o que viria a ser conhecido como metafísica se confundia com o que depois seria chamado de teoria do conhecimento, indagando sobre o que é a realidade, assim como esta realidade poderia ser conhecida.
O que originou a busca medieval pelo ser e o ente, sendo ambos de difícil definição, motivo de controvérsias entre os filósofos ao longo da história, visto possuir uma estrema abstração conceitual, confundindo-se em muitos casos.
No entanto, em resumo, o ser poderia ser definido como essência de tudo que existe, transpondo um novo problema, justamente definir o que é essência.
Já o ente seria os atributos do ser, incluindo o que não é concreto, trazendo consigo a questão da impossibilidade de definição da essência de cada objeto.
A busca pelo ente, a essência das coisas, antes de Aristóteles, já tinha sido objeto dos trabalhos de Parmênides.
Para ele, o devir, as mudanças, tornavam o pensar diferente do percebido, já que o percebido era pura aparência, enquanto o pensar expressaria o que é real.
Dentro desta concepção, aquilo que se pensa é real e não o que parece concreto e é fornecido pelos sentidos.
Anacronicamente, o imaginado seria real e não que percebemos.
Uma ideia também presente na filosofia de Platão, com sua distinção entre mundo sensível e inteligível, que seria retomada por Aristóteles e transformada de especulação em conhecimento concreto estruturado através da lógica.

Aristóteles e a paternidade da metafísica.
Muitos autores defendem a ideia de que Aristóteles deve ser considerado o pai da metafísica porque esta começa de fato a se separar da teoria do conhecimento apenas no momento em que ele compõe a sua filosofia primeira.
No entanto, a metafísica aristotélica está espalhada por todas as suas obra, mesclada com a ética, politica e lógica, carecendo de uma exposição mais detalhada.
É sem dúvida uma modificação da teoria das ideias de seu antigo professor Platão, uma tentativa de distinguir o universal e uma forma particular, estabelecendo uma distinção entre três substâncias diferentes que formariam a realidade cada uma com sua essência.
Aristóteles pretendia investigar não qualquer ser, mas o ser enquanto ser geral, o que pode ser afirmado sobre qualquer coisa que existe por causa de sua existência e não por algum atributo.
Diferente de seus antecessores buscava estudar o inteiro, o geral e não apenas as partes, abordando os diferentes tipos de causas, forma e matéria, a existência dos objetos matemáticos e de Deus, este ultimo entendido em um sentido amplo.
Para ele, à essência não estaria no intelecto, mas nas coisas físicas, transformando o intangível em tangível através de operações intelectuais que visavam entender a essência que estaria presente concretamente sem ser compreendida.
Existiria uma entidade superior a tudo e que, ao mesmo tempo, só seria concreta em um mundo separado do nosso, a qual Aristóteles chamou de ser divino.
O ser divino seria a realidade suprema e primeira, que originou a essência de todas as coisas e que, por isto mesmo, faz com que tudo queira imitá-lo para tentar se aproximar de sua perfeição.
Exatamente por isto, o ser divino seria o primeiro motor, o principio que move a realidade, transforma tudo, preservando sua essência.
Para Aristóteles, as coisas seriam compostas de matéria, forma e substância.
A matéria seria o elemento material; já a forma seria sua individualidade, suas particularidades.
A substância designaria características gerais, o que existe de comum entre coisas distintas.
Acontece que, para Aristóteles, as coisas possuem predicados que definem como podemos percebê-las, ou seja, características que decorrem de sua essência ou de acidentes.
Nesta acepção, a essência é o que a coisa é originalmente.
O que pode mudar por acidente, através de alterações da essência, está contido no ato, nas consequências que surgem.
Assim, a árvore seria o ato da semente e, por sua vez, a potência da semente seria poder tornar-se árvore.
O conceito de potência designa aquilo contido em matéria, a possibilidade de transformação, sua potencialidade.
Portanto, ao transformar o abstrato em concreto, Aristóteles assumiu para si a paternidade sobre a metafísica antes mesmo que fosse criada, cunhando conceitos que influenciaram fortemente os dogmas cristãos e o surgimento da teologia como ciência investigativa daquilo que não é tangível.
 
A filosofia primeira.
Para Aristóteles, a metafísica não seria uma filosofia que viria depois de todas as outras, tal como pensado contemporaneamente, mas uma filosofia primeira e, portanto, anterior a todas as outras.
A sua metafísica é a ciência do ser como ser, por isto, tudo é dito ser; ou ainda dos princípios e das causas do ser e dos seus atributos essenciais.
Abrangendo o ser imóvel e incorpóreo, princípio dos movimentos e das formas do mundo; bem como do mundo mutável e material, em seus aspectos universais e necessários.
Dentro deste contexto, pode-se reduzir fundamentalmente a quatro as questões gerais da filosofia primeira: potência e ato, matéria e forma, particular e universal, movido e motor.
O antagonismo entre potência e ato, assim como entre movido e motor, terminam abraçando todo o ser.
Ao passo que matéria e forma, particular e universal, estariam presentes em todo o ser.
A doutrina da potência e do ato é fundamental na metafísica aristotélica.
Potência significa possibilidade, capacidade de ser e não ser atual.
Ato significa realidade, perfeição, ser efetivo.
Todo ser que não seja ser perfeitíssimo é, portanto, uma síntese de potência e ato, em diversas proporções, conforme o grau de perfeição e de realidade dos vários seres.
Segundo Aristóteles, um ser desenvolve-se, aperfeiçoa-se, passando da potência ao ato.
A passagem seria a atualização de uma possibilidade, de uma potencialidade anterior.
Esta doutrina fundamental da potência e do ato é aplicada e desenvolvida na matéria e forma, que representam a potência e o ato no mundo, a natureza tangível em que vivemos.
 
Aristóteles conciliando e transformando seus antecessores.
Aristóteles une o vir a ser de Heráclito e o ser de Parmênides em uma síntese conclusiva, já iniciada e aperfeiçoada por Demócrito e Platão.
A mudança, que é intuitiva, pressupõe uma realidade imutável, que é de duas espécies.
Primeiro de substrato comum, elemento imutável da mudança, em que a mudança se realiza.
As determinações que se realizam neste substrato é a essência, a natureza que o ser assume.
A potência assume, na metafísica aristotélica, várias formas, constituindo a imperfeição.
A atualidade, por sua vez, é realizadora da matéria buscando alcançar a perfeição.
A síntese da matéria e da forma constitui a substância, substrato imutável, em que acontecem os acidentes.
A mudança, portanto, consistiria ou na sucessão de várias formas idênticas na matéria, ou na sucessão de várias qualidades acidentais na mesma essência.
O que seria forma concretizada na matéria, que constituiria precisamente a substância.
A matéria sem forma, ou pura matéria, chamada de matéria prima, seria um mero possível, não existindo por si, sendo um absoluto indeterminado, em que a forma introduziria as determinações.
No entanto, devemos notar que a matéria aristotélica não é o puro ser de Platão, mero princípio de decadência, pois é condição indispensável para concretizar a forma, ingrediente necessário para a existência da realidade material, causa de todos os seres reais.
Não existiria forma sem matéria, ainda que a forma seja princípio de atuação e determinação da própria matéria.
Por sua vez, a forma seria princípio de ordem e finalidade racional.
Diversamente da ideia platônica, a forma aristotélica não é separada da matéria, é antes imanente e operante nela.
Ao contrário, a forma aristotélica é universal, imutável e eterna.
 
Forma e Matéria: do individuo a Deus.
Para Aristóteles, os elementos constitutivos da realidade física seriam compostos por forma e matéria.
A realidade, porém, seria composta de indivíduos, substâncias compostas da síntese da matéria e forma.
Surge a partir desta combinação um terceiro princípio, a causa eficiente, a qual explica a realidade efetiva das coisas.
A causa eficiente tenta dar conta da síntese da forma e matéria, mas precisa do auxilio de uma quarta causa, a causa final, que dirige a causa eficiente para atualização da matéria mediante forma.
Aristóteles explica o individuo, a substância física, através da única realidade efetiva no mundo, a síntese da matéria e forma.
A essência, que é igual em todos os indivíduos de uma mesma espécie, derivaria da forma, a individualidade pela qual toda substância é original e se diferencia, dependendo da matéria.
O individuo seria, portanto, potência realizada na matéria universal particularizada.
Neste sentido, Aristóteles estabelece uma critica o dualismo platônico, unindo mundo das ideias e mundo sensível.
Estabelecendo relações entre potência e ato, matéria e forma, a filosofia primeira faz surgir o movimento de mudança, o vir a ser, ao qual é submetido tudo que tem matéria e potência.
A mudança é a realização do possível, o que pode ser levado a efeito unicamente por um ser que já está em ato, que possui o que a coisa movida deve vir a ser, visto que o imperfeito não produz o perfeito.
Mesmo que um ser se mova a si mesmo, aquilo que é movido deve ser composto de um motor e de uma coisa movida.
O motor pode ser unicamente potência e matéria, fazendo surgir o vir a ser, uma das concepções mais fecundas da metafísica aristotélica, a doutrina do motor e da coisa movida.
Doutrina que culmina no motor primeiro, absolutamente imóvel, ato puro, isto é, Deus.
 
Concluindo.
A noção de ser foi expressa pelos pensadores gregos mediante a substantivação verbal to ón.
Ao tentar traduzir, os autores latinos clássicos notaram a dificuldade de tradução de um nome por meio de um verbo.
O que produziu no vocabulário medieval a diferença entre ente e ser.
Antes de Aristóteles, gregos como Parménides e Platão observaram que o ser geral não é mais elevado que outros gêneros.
A metafísica aristotélica concebeu o ser como a espécie de todas as espécies, transformando o conceito de ser em vir a ser, fazendo com que tudo seja dito ser, mesmo que seja para negar um determinado conceito.
Dentro deste contexto, existiriam três ordens de ser, cada um deles estudado por ciências distintas: física, matemática e metafísica.
Ordens que se dividem entre: os seres que possuem uma existência separada, mas sujeita a mudar; os seres que são imutáveis, mas só existem como aspecto separado da realidade concreta; e os seres que tanto possuem existência separada como imutável.
A metafísica seria o estudo do ser como ciência primeira, que é a origem de toda concepção de ser presente tanto na física como na matemática.
Brotou da concepção de ser na metafísica aristotélica vários conceitos ainda mais fecundos, originando, inclusive, a teologia.

Para saber mais sobre o assunto.
ARANHA, Maria Lucia Arruda & MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de filosofia. São Paulo: Moderna, 1992.
 
ARISTÓTELES. Metafísica. Porto Alegre: Globo, 1969.
CHAUÍ, Marilena. Convite a filosofia. São Paulo: Ática, 1994.
LALANDE, André. Vocabulário técnico e crítico da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, s.d.
MORA, José Ferrater. Dicionário de filosofia. Lisboa: Dom Quixote, s.d.
ROSS, D. Aristóteles. Lisboa: Dom Quixote, s.d.


 

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Forte abraço.
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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