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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Introdução à Estética.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume out., Série 17/10, 2011, p.01-09.


A palavra estética deriva do grego “aisthesis”, significando faculdade de sentir ou compreensão pelos sentidos, ou ainda percepção totalizante.
Neste sentido, a estética é o ramo da filosofia que se ocupa da interpretação simbólica do mundo, simultaneamente é uma ciência autônoma que tem por objeto o juízo de apreciação que distingue o belo e o feio.
No entanto, a área é ainda mais ampla, pois possui subdivisões, como a estética teórica, a qual procura características comuns na percepção do objeto, o que o torna, por exemplo, universalmente agradável.
A estética estuda também a arte, estabelecendo uma critica a estrutura e construção do objeto, dentro do âmbito da estética prática ou particular.
Pensando assim, podemos afirmar que a estética discuti o gosto, um conceito ligado ao julgamento dos objetos pela sensibilidade, conhecimento e reconhecimento.
Concepções categorizadas pelo senso comum como preferência, mas que depende de valores, contextos, momentos históricos; estando subordinada igualmente à política e ideologia.
O gosto, por sua vez, remete a questão da definição de belo, uma discussão filosófica que se arrasta desde a antiguidade.


O belo e o feio.
A questão da beleza, embora envolva uma grande relatividade, com respostas diferentes para cada individuo, instigou os filósofos ao longo da história, fundando algumas tradições que influenciaram a conceituação em torno do belo até hoje.
Segundo a corrente platônica, o belo existiria em si, a partir de uma essência ideal, objetiva, independente do gosto.
Esta tendência compôs o ideal universal de beleza, dominando a arte da antiguidade até o século XVII.
Em oposição, no século XVII, os empiristas originaram outra tradição, o belo tornou-se relativo, subjetivo, circunscrito ao gosto de cada um, a maneira como cada sujeito percebe o objeto.
O que criou uma oposição que seria resolvida parcialmente por Kant, no século XVIII, para quem a objetividade está no objeto e a subjetividade no sujeito.
Portanto, o belo existe em si, no objeto, mas nem sempre é percebido por aquele que não foi educado para apreciar a beleza, tal como um critico de arte.
No século XIX, Hegel introduziu o contexto histórico na concepção de beleza, para o qual o “devir” (as mudanças) se refletem no gosto.
Este, por sua vez, sofre a interferência da cultura, construindo uma visão de mundo.
A partir destas tradições, uma concepção diferente surgiu no século XX, vinculada a fenomenologia, principalmente aplicada à arte, quando o belo passou a ser aquilo que possui significado, independente de sua correspondência com a realidade.
O belo é mensurado pela sensibilidade, o que, contemporaneamente, remete a psicologia, ciência que atribui à beleza uma resposta narcisista ao que gostamos ou gostaríamos de ver em nós mesmos.
Porém, uma resposta mais filosófica diria que apreciamos o que se idêntica com nossa visão particular de mundo.
Definição que atende a questão do belo em linhas gerais, mas que não responde porque consideramos determinado objeto que não é belo como arte.


O conceito de arte.
Nem tudo que é belo pode ser considerado arte, por outro lado, o repugnante ou feio pode ser artístico.
O que demonstra que arte está localizada em uma esfera para além do belo.
Portanto, cabe perguntar o que é arte?
Em linhas gerais, várias definições para arte são possíveis, isto dado a própria subjetividade de sua conceituação, até porque esta sofreu alterações de acordo com a época e contexto.
A palavra arte foi originada a partir do latim “ars”, cujo significado literal é técnica ou habilidade.
Até o século V a.C, a palavra nem existia, os gregos utilizavam o termo “tekné”, com o sentido de domínio da técnica, denotando uma pericia em criar significados para um objeto.
Neste sentido, nos primórdios da humanidade, em sociedades primitivas, a arte possuiu significado místico ou religioso, assumindo na antiguidade um caráter político.
Tendência que, de certa forma, está presente na arte até hoje, visto que contemporaneamente existe, inclusive, uma significação ideológica.
Filosoficamente, a arte pode ser definida pelo menos por três ângulos: a partir de sua relação com a realidade, com o sujeito e com a sociedade.
Pensando a arte no âmbito daquilo que é tido como real, poderia ser definida como uma tentativa de imitação da natureza.
Ao mesmo tempo, entendendo a natureza em sentido amplo e o homem como parte desta, a arte pode ser definida como expressão do sujeito, admitindo como artístico a manifestação das impressões e sentimentos.
Pensada a partir de sua relação com o sujeito, a arte pode ser definida como meio de expressão da sensibilidade, da faculdade de sentir externalizada em um objeto, revelando uma contemplação do mundo, do outro e de si mesmo.
O que envolve o domínio da técnica e de conhecimentos teóricos, capacitando a criar novos significados a um mesmo objeto, configurando uma linguagem que possibilita comunicar o que é para o sujeito, através do tempo, para o outro e a posteridade.
O contexto social confere a arte outros significados, ligados a religião, política, ideologia, moral, educação e até a funcionalidade prática do objeto.
A arte pode ser definida como instrumento cultural, educativa e cognoscível de manutenção das permanências ou de transformação.
Impondo valores de um grupo sobre o conjunto da sociedade ou rompendo com valores estabelecidos.
Qualquer que seja a definição, todas estão de acordo com o sentido amplo do que é a arte: elemento que reorganiza significados, confere sentido ao caos.
Insere-se neste significado, inclusive, uma definição contemporânea de arte como produto cultural, objeto coisificado pelo capitalismo; produto que visa lucro e que pode massificar a dita cultura erudita, tornando-a presente na cultura popular; ou fazer o inverso, tornar erudito o que antes era popular.
Assim, a arte comporta múltiplas definições, mas todas dentro de um mesmo preceito.
Igualmente, arte pode ser representa em diferentes manifestações, a despeito de até o século XX ser classificada pela estética em sete diferentes tipos.

As forma de arte clássicas são as seguintes:
1º. Música.
2º. Dança.
3º. Desenho e Pintura.
4º. Escultura e Arquitetura.
5º. Teatro.
6º. Literatura.
7º. Cinema.

Entretanto, a evolução do conceito de arte fez surgirem mais quatro tipos:
8º. Fotografia, antes englobada também pelo cinema.
9º. História em Quadrinhos.
10º. Videojogos.
11º. Computação Gráfica.

Embora alguns teóricos desmembrem estas artes em outros, incluindo: Poesia, Grafite ou a chamada Arte-Educação.
Seja como for, além do nó representado pela definição de arte, existe ainda o problema da resposta a questão: para que serve a arte?
Pontuar a utilidade da arte é um problema complexo, pois, em primeiro lugar, configura expressão cultural, denotando a história de um povo e da humanidade.
Apesar da arte ser revestida de utilidade prática em alguns casos, como, por exemplo, na arquitetura ou fotografia; pode ser também totalmente subjetiva, carregada de significado para um sujeito e não servindo para nada para outra pessoa.
No entanto, a arte possui utilidade que ultrapassa a função meramente decorativa, avançando pelo viés inconsciente dentro do âmbito da psicologia; ou ainda adentrando a função educativa, ajudando a conservar a memória da humanidade e a construir novos conhecimentos.
Para a filosofia, a arte faz parte do questionamento do mundo, colaborando para fomentar questões existenciais em torno do “eu” e do “nós”, levando a pensar e questionar o que esta oculto por trás das aparências.
Como no caso do pressuposto filosófico kantiano, que diz que não se ensina filosofia, mas sim filosofar; a arte precisa ser vivida para que possamos entendê-la plenamente, descobrindo sua utilidade.


O desenvolvimento da Estética.
Não é possível falar em estética antes do século VI a.C, uma vez que, nas sociedades tribais, embora houvesse manifestações artísticas e parâmetros apara definir o belo, não existia uma preocupação em discutir de forma sistematizada as chamadas questões estéticas.
Na pré-história, antes da invenção da escrita, os objetos que poderíamos classificar como dentro da amplitude da estética eram produzidos com uma função puramente pragmática, tentando reproduzir a realidade, referenciando a transmissão do conhecimento e, ao mesmo tempo, significando uma visão particular.
É quando esta representação da realidade assumiu um significado religioso, espiritual, que os objetos estéticos transcenderam ao mitológico, misturando razão e tentativas de explicação do mundo através do simbólico e não concreto.
No mesmo momento em que a passagem do mítico para o racional foi iniciada pela filosofia, o teatro grego conduziu a estética para a racionalidade, a despeito do termo estética ainda nem existir.
No século VI a.C, a tragédia começou a retratar a saga dos heróis, discutindo os mitos, colocando em primeiro plano a questão envolta do que é a arte e de sua relação com o real, fomentando discussões estéticas.
Seguindo esta tendência, os pré-socráticos iniciaram a sistematização das discussões estéticas, estabelecendo um questionamento de ordem lógica e especulativa, investigando, por exemplo, a natureza do belo e a definição de arte.

Para Heráclito; dentro da concepção de fluxo constante, onde nada persiste, transformando-se; o belo estaria na harmonia, a qual é alcançada através dos opostos.

O filosofo afirma que “o contrário é convergente e dos divergentes nasce à harmonia”.

Enquanto para Demócrito, criador do atomismo, a arte se origina da tendência humana de imitar a natureza, ou seja, é pura “mimesis”, palavra que me grego significa representação ou imitação.
Um conceito retomado por Platão, para quem a arte, sendo mimesis do mundo sensível, visto o inteligível ser o real, não passa de cópia da cópia.
Portanto, a arte seria desprovida de valor, menos digna de figurar como problema do que a ética ou a metafísica, pois representaria uma ilusão.
Visão oposta a de Aristóteles, que trata da estética na obra Poética, onde a arte é definida como “poésis”, palavra que pode ser traduzida do grego como disposição para produzir.
Segundo Aristóteles, embora a arte seja mimesis, imitação do que é possível por probabilidade, ela vai além da imitação, cria o que a natureza não foi capaz de criar.
Neste sentido, determinadas artes, como a tragédia, possuem uma finalidade elevada: a “catarse”, a purificação dos excessos emocionais, instaurando a harmonia.
A catarse; termo que em grego significa purificação, evacuação ou purgação; corresponderia a uma descarga emocional provocada pela mimesis, libertando o homem de substâncias estranhas à sua essência racional, purificando esta essência dos elementos que corrompem a racionalidade, tal como o sentimento de medo ou piedade.
Ao viver através do outro, assistindo uma representação teatral, o homem viveria sentimentos nocivos a razão, aprendendo a lidar com eles, fazendo uma catarse, expulsando-os de seu ser.
No período romano, obviamente, a valorização da arte da retórica conduziu a inúmeras discussões estéticas, com implicações que explicam o surgimento da palavra latina arte.
Nesta época passou a existir uma grande valorização da poesia, além de um resgate de concepções gregas ligadas à arquitetura e escultura, compondo um padrão de enaltecimento do belo como reafirmação da dominação política da Roma sobre o mundo dito civilizado.
A discussão fomentada por esta tendência foi colocada de lado na Idade Média, quando a visão platônica da arte foi absorvida pela Igreja Católica.
Porém, a questão do belo ganhou uma concepção religiosa, revelada pelo simbolismo da atribuição da beleza divina, suprema, a Deus.
Em outras palavras, o belo passou a ser aquilo que fosse capaz de aproximar de Deus, falar ou significar à espiritualidade.
A arte passou a servir a esta concepção enaltecendo o culto a Deus através da perfeição das proporções e medidas, da busca pela luminosidade, da solidez expressando o eterno.
É a época das catedrais e do estilo gótico, carregado de luz e cores, revelando um simbolismo espiritual.
As discussões estéticas, por isto mesmo, ficaram mescladas à metafísica, servindo à exegese, decifração dos textos sagrados.
A questão central passa a ser como representar entre os homens a beleza divina dos céus e de Deus.
Uma visão que só começou a mudar com o Renascimento, no século XIV, quando o progresso da ciência conduziu ao humanismo, deslocando o centro estético de Deus para o homem, marcado pelo princípio de resgate dos valores da antiguidade e a tentativa de alcançar a perfeição ao imitar a natureza por meio da arte.
Este principio fez ressurgir a discussão sobre o belo, considerado fruto da harmonia numérica entre o todo e as partes e com a natureza.
Uma tendência que ganhou prosseguimento no século XVI, influenciada pelo racionalismo cartesiano, inaugurando um novo período.
O classicismo adotou critérios da razão para discutir a estética, ainda chamada de poética, momento em que os elementos irracionais presentes nas artes começaram a ser questionados como parte da separação entre fé e ciência.
A palavra estética só surgiu no século XVIII, foi empregada pela primeira vez em 1750 por Alexander Baumgarten, como sinônimo do estudo da arte e do belo, construída a partir da palavra grega “aisthesis”.
O alemão Baumgarten foi aluno de Christian Wolff, o sistematizador da filosofia de Leibniz, sendo influenciado pela idéia de que existiriam três faculdades da alma: razão, vontade e sentidos.
Embora a discussão estética existisse desde a antiguidade, nomeada como poética, somente neste momento surgiu como ramo especifico da filosofia.
Antes a estética estava dentro da metafísica, da ética, da moral, da política e da lógica; a partir do século XVIII, passou a estudar os objetos da faculdade de sentir, enquanto a razão ficou restrita a lógica e a vontade circunscrita a ética.
Portanto, a estética se constituiu como parte especifica da filosofia e, gradualmente, tornou-se uma ciência autônoma e independente.


A estética como ciência.
Através da conceituação de Baumgarten, a estética foi se constituindo como ciência, tendo por objeto a contemplação da beleza, efetuada plenamente na criação de obras de arte.
No entanto, Baumgarten considera a estética como gnosiologia inferior, composta por imagens confusas em comparação a gnosiologia superior, circunscrita a lógica.
Foi Kant que notou que a estética vai além da faculdade de julgar ou sentir, possibilitando um juízo reflexivo, levando o homem a repensar conceitos através da transformação de objetos.
Portanto, as obras de arte, além de estarem voltados para o prazer, questionam o mundo e propõem ao observador um repensar a si mesmo e tudo que o cerca.
Embora não aparente, o juízo estético reflete sobre tempo e espaço, adentrando a capacidade criativa e o desenvolvimento matemático contido no domínio da técnica, repleta de relações de quantidade e proporção.
Conceito complementado pelas idéias do holandês Baruch Espinosa, por meio da transposição de seu pensamento por Goethe, segundo o qual a arte imita a natureza, mas também cria o novo.
Neste sentido, a estética pode ser definida como ciência, pois sistematiza o conhecimento criado a partir do entendimento da realidade contida na arte e em discussões conceituais inerentes ao juízo dos sentidos.


Filosofia da arte.
Como desdobramento da estética, Friedrich Wilhem Joseph Von Schelling, representante do idealismo alemão, no século XIX, originou a filosofia da arte.
O conhecimento filosófico e seu instrumental foi colocado a serviço da análise da arte, entendida como contemplação intelectual interna do universo, externalizada de modo simbólico.

É neste sentido que Hegel pensou a arte como etapa necessária ao desenvolvimento da religião e espiritualidade, simbolizando o mundo em sentido lógico e histórico, revelando a verdade na forma de imagens nem sempre construídas pela razão.

Porém, a arte ajudaria na racionalização do que a mente humana não consegue entender em um primeiro momento.

Assim, a filosofia da arte decodifica o que o gênio natural do artista intuiu e transformou em arte, expressão do entendimento do mundo pelos sentidos.


Concluindo.
Mensurar a utilidade da estética é um assunto tão complexo como perguntar para que serve o conhecimento de forma geral.
Não obstante, no âmbito da filosofia, a estética está entrelaçada com outras subáreas como a metafísica, a lógica, a ética e a própria teoria do conhecimento.
A estética é imensamente abrangente, possibilitando discutir questões que dizem respeito à essência do que se entende por filosofia, penetrando no questionamento dos valores que conferem parâmetros ao gosto, interpretando o que está por trás das aparências.
Ao entender a formação dos juízos pelos sentidos, podemos contornar conceitos pré-concebidos que falseiam opiniões.
A estética, neste sentido, pode ser libertadora, liberando o homem de julgamentos precipitados, os quais parecem espontâneos, mas que não passam de uma herança adquirida através dos séculos.
No mundo globalizados, na sociedade de consumo, onde a construção de pressupostos estéticos se tornou ferramenta de manipulação mercadológica, política, social e ideológica; a estética assumiu uma importância ainda maior.
A estética ajuda a desmontar a pseudo-realidade para auxiliar o sujeito em sua tentativa de sair da caverna da alienação.


Para saber mais sobre o assunto.
ADORNO, T. Teoria estética. Lisboa: Martins Fontes, 1970.
BAYER, R. História da estética. Lisboa: Estampa, 1978.
PAREYSON, L. Os problemas da estética. São Paulo: Martins Fontes, 2001.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela FFLCH/USP.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade de São Paulo.

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Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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