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terça-feira, 18 de outubro de 2011

A estética arquitetônica das catedrais góticas como reflexo do pensamento cristão da Alta Idade Média.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume out., Série 18/10, 2011, p.01-13.


O presente artigo visa a uma análise acerca da relação causa-efeito entre o pensamento cristão da Alta Idade Média e as catedrais góticas como um reflexo materializado da filosofia medieval.
Partindo de uma explanação contextual sobre a Alta Idade Média, passando pela caracterização do pensamento escolástico em suas bases e intentos, trataremos da arte gótica, em sua apresentação e conceituação, encaminhando-nos, assim, para uma explanação acerca da arquitetura gótica, estruturando, deste modo, a compreensão do tema central.
Por fim, demonstraremos as evidências que inserem o medievo no paradoxal âmbito positivo da luz ante a generalizada e equivocada qualificação negativa comumente atribuída ao período em questão.
A relação causa-efeito entre o pensamento escolástico e a arquitetura das catedrais góticas será o tema central do presente artigo.
Para tanto, o texto parte da apresentação de uma síntese geral acerca do período histórico denominado Alta Idade Média em vista de uma contextualização da temática; posteriormente, aborda o pensamento escolástico com a finalidade de alicerçar as análises subsequentes; seguindo o nexo lógico do intento principal deste estudo, será apresentada a arte gótica, seu surgimento, suas características e ainda um enfoque na arquitetura gótica das catedrais envolvidas no contexto espaço-temporal ora analisado.
Adentrando à problemática a ser elucidada, serão apresentadas as linhas de reflexão que nos levam a afirmar a existência inequívoca de uma relação de causa e efeito entre a mentalidade então em voga – substanciada pela Escolástica e seu projeto – e a arquitetura das catedrais góticas como uma “petrificação” de um modo próprio de se pensar o mundo e a existência humana em sua caminhada.
Encerrando as tratativas, serão elencados diversos argumentos reais e sustentáveis que inserem o período ora trabalhado na paradoxal inferência de se considerar a Idade Média sob um horizonte de “luz” em franca oposição à opinião que reduz os cerca de dez séculos do medievo em estagnação e obscurantismo.


Metodologia.
Mediante análise criteriosa de uma seleta bibliografia direcionada ao pensamento e cultura medievais, à História da Arte, à História da Arquitetura – particularmente no que tange à arquitetura gótica, visando ao embasamento e à sustentação teórica do presente artigo, intentamos coletar no trabalho de pesquisa os dados relevantes à proposta basilar, oferecendo, assim, o devido suporte às asserções ora manifestas.
Por conseguinte, dados os resultados da pesquisa, apresentaremos, em síntese, a Alta Idade Média, o pensamento escolástico e a arquitetura gótica como fundamentos da temática nuclear.
Subsequentemente, encerrando as tratativas, evidenciaremos a positividade de variados âmbitos relacionados ao medievo.

A Alta Idade Média.
“O que é a Antiguidade? O que é a Idade Média? Em que critérios se pode basear uma tipologia de contrastes destas duas civilizações? Critérios econômicos, sociais, políticos, linguísticos (Poder-se-ia admitir que o Mundo Antigo termina no Ocidente a partir do momento em que a língua falada pelo povo deixa de ser o latim). Ter em consideração estes dados obriga a reconhecer que é difícil cortar brutalmente entre a Antiguidade e a Idade Média, e sobretudo que, se há caracteres essenciais pelos quais se reconhece a Idade Média que estavam presentes nas estruturas históricas do mundo romano a partir do século V, numerosos traços pelos quais se define o Mundo Antigo continuam até aos séculos VII ou VIII. Aparece, assim, um período transitório entre um tipo de civilização antigo e um outro já fundamentalmente medieval. É a Alta Idade Média” (BANNIARD, 1980, p.13-14).


O ser humano sempre apresentou interesse pelo conhecimento e compreensão do passado.
Desde os períodos pré-históricos até a contemporaneidade, o homem construiu o presente, constituiu cultura e legou à posteridade incontáveis pontos de investigação.
Dada a vastidão temporal, bem como as peculiaridades de cada espaço e cultura dividiu-se a História em períodos consensualmente conhecidos como Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea.
Este texto se voltará para a Idade Média que perdurou da derrubada do Império Romano do Ocidente, no ano de 476 d.C., até a tomada de Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente, pelos turcos, em 1453 d.C.
Existe, todavia, uma subdivisão nos cerca dez séculos de duração do medievo, isto é, a Alta Idade Média e a Baixa Idade Média.
Embora não haja plena concordância no que tange à datação dessas subdivisões, estudiosos como Jacques Le Goff (2005) e Georges Duby (1993) adotam o período que vai de 476 d.C. ao ano 1000 d.C. para tratar das temáticas referentes a este intervalo.
A Alta Idade Média se caracteriza como um período histórico bastante conturbado. Inicia-se com a invasão dos povos germânicos (visigodos, anglo-saxões, ostrogodos, etc.) em diversas regiões da Europa Ocidental.
Em consequência, houve o surgimento de vários reinos, cuja composição majoritária era de camponeses; estes serviam aos poucos mas poderosos proprietários de terra, legando, por conseguinte, à maioria da sociedade uma vida difícil, marcada por períodos de pobreza, fome e conflitos.
A mão-de-obra era servil em substituição à escravidão característica na Antiguidade.
A liberdade do servo, no entanto, era relativa, pois este dependia de seu senhor, que lhe dispunha a terra da qual dependia substancialmente para sobreviver e dali tirar seu sustento. Em contrapartida, tinha como garantia a estabilidade.
As cidades tinham importância secundária na época.
Pode-se até mencionar um êxodo urbano, dado o abandono do povo citadino em direção ao campo. Isto se deve, também, devido à crise perante a qual a Europa de então se deparava.
De acordo com as apreciações de Banniard (1989), é imprescindível mencionar na presente caracterização da Alta Idade Média a relevância do chamado Império Carolíngeo, cujo primeiro imperador foi o General Carlos Magno, um conquistador agressivo e, ao mesmo tempo, um político sagaz, experiente que empreendeu avanços nas áreas da cultura, culminando no Renascimento Carolíngeo; da educação, com a busca pela manutenção dos conhecimentos clássicos por meio das scholas; e da administração, como, por exemplo, a subdivisão territorial em condados sob supervisão constante de emissários do Imperador.
Embora seja tarefa difícil precisar a data em que a Alta Idade Média começa a decair, ocasionando um período de transição para o que se denominará pela maioria dos estudiosos de renome como Baixa Idade Média, podemos elencar alguns fatos que apontam para uma mudança de conjuntura, a saber, o aparecimento da burguesia e a consequente urbanização da sociedade, o fortalecimento do comércio, a centralização do poder clerical e, por fim, o surgimento das universidades – devido à Igreja, então detentora da missão de educar e produzir conhecimento.


A Escolástica.
A Escolástica é designada originalmente em latim pelo termo scholasticus, isto é, “pertencente à escola”. Embora exista uma escolástica de traços hebraicos e árabes, ateremo-nos no presente artigo à Escolástica latina gestada durante a Alta Idade Média, a partir do século V, e cujo auge perdurou do século XI ao século XV.
A Escolástica, em seu gérmen, surge em um contexto de transição entre o mundo antigo e o início de uma nova concepção do pensar e viver.
O grande Império Romano, devastado pelos bárbaros, ansiava por um improvável retorno.
O que se via era o desmoronar da civilização, do direito, da filosofia; enfim, urgia uma reação ampla e consistente que viesse a recolocar as ruínas e construir um novo mundo, uma nova cultura, ainda que alicerçada em conhecimentos outrora cultivados.
Surge, pois, o empenho em prol da reconstrução; e as scholas seriam um meio eficaz para um soerguimento sustentável.
De acordo com Marías (2004, p. 135) do século V até o século IX praticamente não houve uma produção filosófica propriamente dita; foi uma época de se lançarem as bases para, a partir do século XI, constituírem-se as sistematizações filosóficas mais relevantes do pensamento escolástico.
Oriunda dos pressupostos filosófico-teológicos da Patrística – no que se refere a uma busca pela conciliação entre a fé e a razão, teologia e filosofia; ou “teorização da ratio em função da fide”, no dizer de Reale e Antiseri (1991, p.478) – a Escolástica como um sistema organizado de pensamento nasceu aos poucos, nos mosteiros, nas catedrais e, posteriormente, inseriu-se nas universidades medievais, efetivando-se notoriamente a partir do século XI.
Trata-se, grosso modo, de um corpo de doutrinas dialética e logicamente articulado, de caráter crítico, assentado em debates acadêmicos – disputationes – onde a busca pela real significação do tema em questão era o objetivo a ser alcançado pelos debatedores, comumente sob a supervisão de um mestre que, por sua vez, geralmente era quem elaborava os chamados manuais – os quais intentavam uma didática na apreensão dos conhecimentos referentes às artes liberais (trivium: gramática, retórica e dialética; quadrivium: aritmética, geometria, astronomia e música) para um grau intermediário de instrução e, por fim, o estudo aprofundado das Sagradas Escrituras e de textos filosóficos e teológicos.

Corroborando o anteposto, pode-se afirmar:
“Mais que um conjunto de doutrinas, entendemos por escolástica ‘a filosofia e a teologia que eram ensinadas nas escolas medievais’ (S. Vanni Rovighi). [...] A partir da primeira reorganização medieval das escolas, promovida por Carlos Magno, o fechamento das últimas escolas pagãs, no início do século VI, por obra de Justiniano, além de um ato político, assinalou também o fim da cultura pagã. E a abertura de novas escolas ou a absorção das antigas em novas instituições educativas, por parte da Igreja, assinala o início da formação e organização, lenta e laboriosa, de uma nova cultura” (Reale; Antiseri, 1991, p.478).

Elucidar a teologia com o auxílio da filosofia sem prejuízo da doutrina cristã.
Essa foi uma marcante característica da Escolástica. Todavia, visava-se, sobretudo, o nascer e o desenvolver de uma nova mentalidade, tão universal quanto possível, em prol da denominada Cristandade. Pensadores de renome como Santo Alberto Magno e Santo Tomás de Aquino protagonizaram a produção teológica e filosófica do período.
Importa mencionar, entretanto, o evidente entrelaçamento entre teologia e filosofia no pensamento escolástico, saberes interdependentes (portanto, não excludentes) segundo a ampla visão medieval.
Ademais, observa-se notoriamente nesse período a ênfase na filosofia clássica de Aristóteles, vista como de possível adequação às regras imutáveis da fé cristã.
Outro ponto que marcou a filosofia escolástica foi a discussão sobre os universais.
Essa questão não tinha apenas um caráter filosófico, ontológico, mas trazia consigo a relevância de sustentar ou não os dogmas cristãos, dependendo da conclusão a que se chegasse.
Houve um intenso embate entre realistas, cujo representante-mor era Santo Anselmo de Cantuária, (concebiam os universais como realidade ontológica – imanentes ou transcendentes); nominalistas, que tinham como baluarte Guilherme de Ockham (para esses, os universais seriam apenas nomes, emissões fonéticas); e conceitualistas, capitaneados por Pedro Abelardo (supunham os universais como mera representação do intelecto).
Objetivando dar fim à querela, a autoridade intelectual de Santo Tomás de Aquino, recorrerá a Aristóteles, onde, por meio do princípio de individuação como matéria delimitada, o indivíduo – como substância primeira – se particulariza dentro de determinada espécie.
Em síntese, pode-se afirmar que a Cristandade foi fruto de uma cosmovisão cristã estruturada pelo projeto escolástico.
O que era pensado nos centros irradiadores de cultura refletia na mentalidade e, por consequência, no agir do grande público ao longo do tempo – dos pobres camponeses, servos, vassalos, suseranos ao clero, à nobreza; enfim, do menor ao maior, originando o que Gilson (2006, p. 2) chamará de espírito da filosofia medieval:

O espírito da filosofia medieval, tal como entendemos aqui, é portanto o espírito cristão, que penetra a tradição grega, trabalhando-a por dentro e fazendo-a produzir uma visão de mundo, uma Weltanschauung [cosmovisão] especificamente cristã. Foram necessários os templos gregos e as basílicas romanas para que houvesse catedrais [góticas]; no entanto, qualquer que seja a dívida dos nossos arquitetos medievais para com seus predecessores, eles se distinguem destes, e o espírito novo que lhes possibilitou criar talvez seja o mesmo que aquele em que se inspiraram, com eles, os filósofos [escolásticos] de seu tempo.


A arquitetura gótica.
Antes de adentrarmos propriamente nas tratativas que concernem à arquitetura gótica, é de importância capital uma apresentação do Estilo Gótico e suas características.

De acordo com Gozzoli (1978, p.03):
A arte gótica desenvolveu-se na Europa na última fase da Idade Média (séculos XII e XIV), num período de profundas transformações em que se assistiu à superação da sociedade feudal e à formação de novos centros de poder: as primeiras monarquias, as grandes cidades, o clero, as classes ‘novas’ e ricas dos comerciantes e banqueiros. Se o quadro econômico e social em que tal estilo floresceu é bastante claro, continua a ser pouco compreensível o motivo porque os historiadores da arte o denominaram gótico: com certeza que não terá sido por os godos – um povo originário da Escandinávia, muito provavelmente da ilha de Gotland – se terem distinguido pela sua habilidade como arquitetos (como todas as tribos bárbaras, eram nômades, que pouco se preocupavam com casas e menos ainda com igrejas, tanto mais que eram pagãos).
           
Bracons, (1992, p.03) nos apresentará uma outra versão, discordando, em partes, de Maria Gozzoli, particularmente no que tange à denominação do estilo em questão como ‘gótico’:
Em seu sentido mais estrito, arte gótica significaria arte própria dos godos. Não obstante, entende-se por arte gótica um extensíssimo conjunto de manifestações artísticas produzidas dentro do âmbito da cultura ocidental entre meados do século XII e o século XVI. Foram os teóricos do Renascimento que viram, na arte de épocas anteriores à sua, um reflexo da arte inventada pelos godos, que, após haver arruinado os edifícios antigos e matado os arquitetos nas guerras, passaram a construir cobrindo as abóbodas com arcos ogivais e inundaram toda a Itália com essa maldição de edifícios, dos quais não podiam ter feito mais (no dizer de Giorgio Vasari). Na realidade, para Vasari e seus contemporâneos existia uma clara contraposição entre uma arquitetura tedesca (germânica), ou maniera dei goti (estilo próprio dos godos), e o modo romano encarnado pelo ideal renascentista, que consideravam mais perfeito, na medida em que se relacionava com os modelos da Antiguidade clássica.

Apesar de não haver pleno acordo entre as concepções dos estudiosos da arte gótica apresentados, ambos nos fornecem dados importantes para uma visão teórica acerca da temática ora desenvolvida.
Percebe-se, ademais, que a arte gótica, longe de ser um fenômeno unívoco, se expressa em várias manifestações artístico-culturais, dentre as quais nos deteremos na arquitetura.

Bracons (1992, p.17) nos coloca ante o panorama da arquitetura gótica, seu nascimento e desenvolvimento:
O nascimento da arquitetura gótica e sua expansão inicial têm lugar na Île-de-France. O principal centro religioso daquela região onde a monarquia dos capetos exercia plenamente sua autoridade era a abadia de Saint-Denis (São Dionísio), que, além de santuário do evangelizador da França, foi panteão real e depositária das insígnias do poder. Em 1122, Suger assumiu o cargo de abade de Saint-Denis. Após sua designação, pôs-se a serviço da política de reintegração monárquica, chegando a se tornar conselheiro real e até a desempenhar a regência. Dentro da mesma linha de atuação, concebeu um projeto de renovação dos edifícios da abadia. [...] Os elementos arquitetônicos que configuram essas construções (principalmente o arco ogival e a abóbada de ogivas) foram tomados do repertório próprio da arte românica normanda. Entretanto, foram combinados segundo uma nova ordem, em virtude de uma proposta teórica que o próprio Suger expôs em volumosos livros.

O empreendimento pensado por Suger (considerado o primeiro mestre-de-obras da arquitetura gótica) tornou-se paradigma para as futuras edificações do estilo em questão. Esta afirmação é testemunhada pelas grandes obras que se realizaram no território então sob domínio do rei da França.
Construções de grande envergadura, a partir das quais se manifestou um crescente ímpeto de aperfeiçoamento e superação, fazendo com que a arquitetura gótica galgasse, em tempo relativamente curto, sua plena definição, chegando, inclusive, a se tornar a expressão da arte própria do domínio real francês.
O grande Auguste Rodin, por exemplo, registrou por escrito sua admiração para com as catedrais francesas. Sobre a catedral de Amiens, disse: “é o império absoluto da elegância suprema” (RODIN, 2002, p.87).
O contexto histórico-social no qual surgiu a arte gótica foi de transição, isto é, entre o fim do feudalismo e a criação das cidades, o que proporcionou uma considerável ascensão social por meio da produção de artesanato, do favorecimento da atividade comercial, bem como de uma religiosidade marcante coordenada pelo clero.
Assim, pois, a referida arte surgiu também como produto de um dinamismo social.
Na construção das catedrais, por exemplo, os habitantes das cidades tinham participação ativa. Era evidente o civismo e o orgulho em integrar o grupo de pessoas que construíam a catedral da cidade.

Aquela fé que nem sempre move montanhas, em Chartres com toda certeza moveu as pedras. Para construir a catedral, edição 1194, os habitantes travaram uma verdadeira disputa para oferecer dinheiro e mão-de-obra. Até mesmo das cidades vizinhas acorreram ricos e pobres, trazendo jóias, madeira, e quem nada tinha colocava à disposição do canteiro de obras músculos e entusiasmo. O bispo e os cônegos renunciaram durante três anos os seus rendimentos. As pessoas sadias ofereceram braços, as doentes colaboraram com suas orações. Alguns senhores, para pagar o pecado de soberba e de avareza, assumiram o lugar dos cavalos nas cangas dos carros, abaixaram-se para preparar argamassa juntos com seus criados, e, sujos assim, não mais se distinguia o patrão do servo, o vassalo do senhor (MARCHI, 1991, p.38).

Existia, ademais, até mesmo uma rivalidade entre as cidades, no sentido de qual teria a catedral mais alta e imponente.
Em grande parte, os estudos e tentativas acerca da arquitetura gótica desenvolveram-se em prol de se resolverem os problemas suscitados por um edifício específico, a saber, a catedral – que se tornará o grande referencial para a arquitetura gótica.
Esta, de acordo com Bracons (1992, p.19), tem como elementos arquetípicos “o arco ogival e a abóbada sobre cruzamento de ogivas ou abóbadas de ogivas”.
Poderíamos acrescentar, ainda, outros elementos que evidenciam a arquitetura gótica, como os contrafortes e arcobotantes (estes desempenham a função de transmitir àqueles o empuxo lateral da abóboda).
Observam-se, ademais, o transepto, o clerestório, as rosáceas, as fachadas frontais, os tímpanos com suas belas esculturas e os extasiantes vitrais que refletem a luz que vem do alto, com uma conotação mística toda particular ao pensamento medieval.
Contudo, existem outros elementos característicos das catedrais góticas, mas os supracitados traduzem o que se vislumbra em uma obra cujo estilo ora apresentamos.

Os céus contam a glória de Deus: as catedrais acrescentam a ela a glória do homem. Elas oferecem a todos a todos os homens um espetáculo esplêndido, reconfortante, exaltante; elas nos oferecem o nosso próprio espetáculo, a imagem eternizada de nossa alma, de tudo o que aprendemos a amar abrindo os olhos (RODIN, 2002, p.57).

No item subsequente, trataremos mais detidamente do âmbito estético e, portanto, filosófico nos quais as catedrais góticas se inserem.


A Escolástica e as catedrais góticas: relação causa e efeito.
‘Os criadores [das catedrais góticas] não foram os artistas, mas os filósofos eclesiásticos’, escreve Georges Duby, prosseguindo a reflexão de Ewin Panofsky sobre a obra do abade de Saint-Denis, Suger. Se algumas das suas conclusões devem hoje ser encaradas com reservas, dificilmente podemos encontrar melhor do que estes textos raros em que um patrono criador se explica sobre seu desígnio. Evidentemente, Saint-Denis não era uma catedral na Idade Média, mas esta abadia foi um tal manifesto da arte nova e teve uma tal influência sobre as obras contemporâneas que não poderíamos ignorá-la. Suger teria então concebido a sua igreja como uma obra teológica (DEMOUY, 2008, p.44-45).

A interrogação central a que este artigo pretende responder é se existe alguma relação de causa e efeito entre a filosofia escolástica e as catedrais góticas.
O excerto acima nos oferece um caminho para uma possível resposta.
Todavia, antes de responder ao mencionado questionamento, apresentaremos algumas características do contexto no qual as catedrais góticas foram pensadas, construídas e, posteriormente, entregues à posteridade como signo visível de um pensamento que intentava se perpetuar pelos séculos.

A todo aquele que permaneça de pé em alguma das grandes naves góticas e se deixa penetrar pelo ambiente do lugar, impõem-se simultaneamente duas impressões: sensações físicas e emoções espirituais. Ninguém pode furtar-se a sentir a poderosa sugestão que se desprende das linhas em ascensão vertical, a penetração e o envolvimento da luminosidade. Ao contrário da basílica romana, curvada sobre o chão, fortemente concentrada em si mesma e apoiada nas suas bases, a catedral gótica é um edifício ereto, uma igreja de pé. Ao contrário da pesada abóbada em semicírculo, que requer excessiva espessura das paredes, estreita as janelas e enche de sombra a nave à medida que esta se expande, a técnica gótica chama com veemência a luz e entrega-lhe todo o edifício para que o atravesse e ali se estabeleça. Os dois traços característicos que os nossos sentidos reconhecem na catedral gótica têm as suas correspondências instantâneas na alma. Alguma coisa se exalta nela quando se sente sobrenaturalmente ligada a esse impulso e a essa chamada das alturas. A instintiva felicidade que a luz derrama em grandes clarões não parece ser a promessa das elucidações definitivas, o reflexo terrestre da luz incriada? (DANIEL-ROPS, 1993, p.417).

Diante da colocação acima, surge-nos a inevitável pergunta: teriam os mestres-de-obras responsáveis pelas catedrais góticas proposto uma relação direta entre a verticalidade própria de suas edificações e a impulsão das almas dos fiéis ao Alto, ao Transcendente por excelência – Deus?
É certo que afirmar uma relação direta sem maiores reflexões seria um erro.
Os mestres-de-obras do período tinham em vista primeiramente a técnica, mas o mistério da arte propiciou as condições em que um perfeito jogo de concordâncias, através de um encontro de aspirações, pudesse atingir um êxito formidável e, a partir daí, assumir um sentido que toca ao âmbito espiritual; este, por sua vez, pressupõe que exista um pensar, uma filosofia de vida abrangente que fundamente os modos de ser, pensar e agir dos europeus no medievo.
Deste modo, corroborando Demouy (2008, p.44), pode-se afirmar que, em última instância, a filosofia escolástica, gestada e desenvolvida na Alta Idade Média, transmitiu seu legado à arquitetura das catedrais góticas.
Existe, pois uma expressão concreta e natural do pensamento escolástico na arquitetura das catedrais góticas, ambos refletem a cosmovisão cristã que se instaurara através dos séculos da Alta Idade Média.

Os ensinamentos de uma filosofia – a escolástica – que enquadrava harmoniosamente todo o saber do tempo e afirmava a possibilidade de ascensão a Deus não só pela fé, como pela razão. Chegava-se a Deus por um esforço do pensamento, complexo mas requintado, rigidamente formal mas rico de sutilezas. Esses mesmos conceitos que, em arquitetura, inspiraram as catedrais góticas, a sua ascensão para Deus, através de construções complexas mas requintadas, formalmente rigorosas, mas de igual modo ricas de pormenores. A enfática verticalidade de tais edificações revela plenamente as transformações do gosto, do pensamento filosófico, dos ideais estéticos, traduzidas, no plano arquitetônico, por uma renovação das técnicas mediante a introdução de uma série de elementos originais típicos do estilo gótico (GOZZOLI, 1978, p.08-09).

Por fim, infere-se que é perfeitamente possível e sustentável uma argumentação em favor da relação causa-efeito entre o pensamento escolástico e a arquitetura das catedrais góticas medievais.
Sobre a questão, Gomes (2010, p.90), evidenciando a visão do crítico, historiador da arte e profundo conhecedor da estética arquitetônica gótica, o alemão Erwin Panofsky, assevera:

A ideia de relacionar a escolástica com as catedrais góticas não é nova. Dentro de todas as analogias possíveis, Erwin Panofsky destaca a coincidência no tempo e no espaço entre ambos os fenômenos. Tal paralelismo temporal não pode ser compreendido como mera casualidade, mas trata-se de uma relação tão marcante que os historiadores da filosofia e da arte estabelecem sem maiores questionamentos. Assim, o gótico surge como fruto de um movimento iniciado na Ille de France, verdadeiro núcleo geográfico da escolástica. Dali se irradia, tomando características locais, mas mantendo sempre seus elementos fundamentais. Num círculo de aproximadamente 150 quilômetros, traçados de Paris como centro, abarcou tanto os primeiros representantes da nova forma de pensar, como as igrejas ogivais do primeiro período. Por mais de um século e meio, essa região iria manter-se como plataforma para o desenvolvimento tanto da filosofia escolástica quanto das catedrais góticas.


A Idade Média sob o paradoxo da luz.
A classificação da Idade Média como “Idade das Trevas” tornou-se um clichê nocivo à verdade dos fatos que se nos apresentam mediante uma pesquisa honesta sobre em que realmente se consistiu a medievalidade.
A percepção de acontecimentos favoráveis ou negativos à civilização é cabível a qualquer momento histórico.
As sombras só são vistas onde habita a luz.
São evidentes os percalços ocorridos nos dez séculos que abrangem o medievo e seria estultice negá-los; igualmente parvo seria desconsiderar culposamente as notáveis contribuições legadas à humanidade advindas do período em questão.

Se a idade do meio foi uma longa noite entre a antiga e a moderna, naquela noite, como observou alguém, as estrelas brilharam. Ela foi muito menos ‘medieval’ do que nos leva a crer a indolência do lugar-comum, para o qual Idade Média significa inquisição, fogueiras e nada mais. Devemos a ela invenções tecnológicas (o moinho de vento) ou a aplicação sistemática de invenções anteriores, já não tão usadas (o moinho a água). A ela devemos a letra de câmbio, o contrato de seguro, a democracia comunal, as sumas filosóficas, a Chanson de Roland e a Divina Comédia. E a ela devemos as catedrais e o desenvolvimento econômico (MARCHI, 1991, p.09).

Classificar moinhos movidos a água e a vento como avanços tecnológicos parece inadequado aos nossos dias.
No entanto, trata-se de invenções que durante vários séculos auxiliaram no beneficiamento de alimentos em toda a Europa.
No tocante às ciências, ignora-se quase que por completo os grandes contributos da Idade Média. Todavia, os grandes estudiosos do período são praticamente unânimes em afirmar que no medievo, em alguns setores, avançou-se mais que em outros períodos da História.

O inventário completo dos tratados de medicina, de matemática, de astronomia, de alquimia, de arquitetura, de geometria e outros não foi ainda levado a cabo, e os seus textos permanecem, na maior parte, inéditos. Os esforços tentados nesse sentido foram até aqui fragmentários e não permitem uma visão de conjunto da ciência medieval. Mas o que se sabe de preciso permite constatar que ela foi muito mais extensa do que o que tem podido supor-se e que se aparentava à nossa em muitos pontos. Um Roger Bacon, em pleno século XIII, conhecia a pólvora de canhão, o uso das lentes convexas e côncavas. Alberto Magno tinha feito, sobre a acústica e os tubos sonoros, investigações que o haviam conduzido a construir um autômato falante – oitocentos anos antes de Edison. Arnaud de Villeneuve, que ensina em Montpellier, descobre o álcool, o ácido sulfúrico, o ácido clorídrico, o ácido azótico. Raimond Lulle pressentiu a química orgânica e a função dos sais minerais nos seres organizados. Por intermédio dos árabes, a Idade Média beneficiou a ciência dos Persas, dos Gregos, dos Judeus, e pôde realizar a sua síntese, assimilando os conhecimentos astronômicos dos Sírio-Caldeus e a medicina hebraica. Oxford, onde ensinava Robert Grossetête, o mestre de Roger Bacon, era para os estudantes de matemática o mesmo que Montpellier para os estudantes de medicina, e grandes personagens como o rei de Espanha Afonso X, o imperador Frederico II, ou Roger, rei normando da Sicília, mantinha, a exemplo de Carlos Magno, uma corte de sábios: geógrafos, físicos, alquimistas – do mesmo modo que tinham os seus filósofos e os seus poetas (PERNOUD, 1997, p.157).

Deve-se, ainda, à Idade Média, o surgimento de várias das hoje consideradas melhores universidades do planeta; a criação dos hospitais; no campo da literatura, as epopeias, romances de cavalaria, novelas amorosas, poesias, fábulas, etc.; a própria vida cotidiana traz a marca de uma civilização já refinada.
Basta dizer que a higiene estava mais desenvolvida do que no século XVII. A hierarquia social assentava essencialmente os laços familiares; as mulheres tinham direitos que perderam a partir do século XVI.
Apresentar todas as luzes que permearam a Idade Média seria impossível ao espaço ao qual se limita o presente artigo.
O supracitado, porém, nos oferece as evidências necessárias para descrer das conotações falaciosas, repletas de preconceitos e reducionismos, dirigidas ao medievo.
Afirma-se a existência de sombras na medievalidade, mas questiona-se, também: em qual período da História não os houve?
Óbvia é a resposta: as mais diversas vicissitudes acompanham o ser humano da Antiguidade aos dias atuais e a Idade Média não se constitui de modo algum o período nefasto, cuja imagem geralmente se procura propagar.


Concluindo.
A Alta Idade Média foi o período de surgimento e desenvolvimento da filosofia escolástica. Esta preconizava o soerguimento da civilização, profundamente abalada pela destruição posterior às invasões bárbaras e a consequente queda do Império Romano do Ocidente.
A religião cristã surge então como proposta viável à restauração que se buscava.
De Santo Agostinho a Santo Tomás de Aquino, dentre outros grandes nomes, procurou-se a justificação racional do cristianismo por meio da filosofia grega, particularmente a platônica e a aristotélica.
Criou-se, pois, um modo de pensar o mundo e o ser humano com relação à transcendência divina à qual o homem estava subordinado em status ontológico intermediário entre o celeste e o terrestre.
Trata-se da chamada cosmovisão medieval.
Neste contexto nasceu a chamada arte gótica, traduzida extraordinariamente na arquitetura das catedrais medievais.
Estas tinham como características a evidente verticalidade, proporcionando a sensação de um movimento que tende para o alto, não obstante o peso da pedra; arcos e abóbadas em formato ogival; as paredes finas; os contrafortes e arcobotantes externos à estrutura; os elevados campanários piramidais; as belas rosáceas; os vitrais; o transepto; o clerestório; as imponentes fachadas e o tímpano, dentre outras.
Diante de tal panorama, críticos e historiadores da arte, como Wilhelm Worringer e Erwin Panofsky, apresentam evidências que denotam peremptoriamente a relação de causa e efeito entre a Escolástica e a estética arquitetônica das catedrais góticas medievais.
Analogias que se podem observar como, por exemplo, a coincidência espaço-temporal que foge à casualidade; o apogeu do pensamento escolástico em suas particularidades que se assemelham às notas características do gótico clássico; a estruturação da suma teológica de Santo Tomás de Aquino e a renovação das técnicas e formas arquitetônicas que tornaram possível tamanha verticalidade e leveza nos edifícios religiosos.
Contudo, é o intento da sóbria relação entre imanente e transcendente; razão e fé; corpo e alma que se destacam, seja no pensamento escolástico, seja na “petrificação” do mesmo, proporcionados pelo estilo gótico em favor do testemunho da posteridade.
Evidencia-se, por fim, a real grandeza do período medieval – erroneamente rotulado de obscurantista e retrógrado.
Afinal, foi nestes tempos que advieram as universidades, os hospitais, o incentivo ao saber e ao direito universal; a reestruturação da civilização destruída pelos bárbaros, bem como a guarda e cópia dos textos clássicos – sem os quais a humanidade empobreceria em cultura; podem-se mencionar ainda os pensadores de renome da época como Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino, Santo Alberto Magno, Boécio dentre muitos outros que nos presentearam com suas produções filosóficas.
Por conseguinte, inegáveis são as sombras e equívocos que se apresentaram no medievo; inequívocas, porém, são as demonstrações que apontam para uma imensidão de luzes que até os dias atuais propagam seu fulgor.

Finalizando as asserções do presente texto, vale mencionar o convite que o grande escultor Auguste Rodin nos dirige acerca das catedrais góticas:
Eu gostaria de contribuir para que se amasse essa arte grandiosa, de concorrer para salvar o que ainda resta intacto, de reservar para nossos filhos a grande lição desse passado que o presente desconhece. Com esse desejo, tento despertar os espíritos e os corações para a compreensão e para o amor. Mas não posso dizer tudo. Vocês têm de ir ver (RODIN, 2002, p. 5).


Para saber mais sobre o assunto.
BANNIARD, Michel. A Alta Idade Média Ocidental. Mem Martins: Europa-América, 1980.
BANNIARD, Michel. Gênese cultural da Europa. Lisboa: Terramar, 1980.
BOEHNER, Philotheus; GILSON, Etienne. História da Filosofia Cristã: desde as origens até Nicolau de Cusa. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 1991.
BRACONS, José. Saber Ver a Arte Gótica. São Paulo: Martins, 1992.
DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja das Catedrais e das Cruzadas. São Paulo: Quadrante, 1993.
DEMOUY, Patrick. As Catedrais. Mem Martins: Europa-América, 2008.
DUBY, Georges. O Tempo das Catedrais: a Arte e a Sociedade (980-1420). Lisboa: Estampa, 1988.
ECO, Umberto. Arte e beleza na estética medieval. São Paulo: Record, 2010.
FOCILLON, Henri. Arte do Ocidente: a Idade Média românica e gótica. Lisboa: Estampa, 1980.
GILSON, Etienne. O Espírito da Filosofia Medieval. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
GILSON, Etienne. A Filosofia na Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
GLANCEY, Jonathan. A História da Arquitetura. São Paulo: Loyola, 2007.
GOMBRICH, Ernst Hans Josef. História da Arte. 16. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2000.
GOZZOLI, Maria Cristina. Como reconhecer a Arte Gótica. Lisboa: 70, 1978.
LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente Medieval. São Paulo: EDUSC, 2005.
LOYON, Henri R. Dicionário da Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
MARCHI, Cesare. Grandes Pecadores, Grandes Catedrais. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
MARÍAS, Julián. História da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
PANOFSKY, Erwin. Arquitetura Gótica e Escolástica. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
PERNOUD, Regine. Luz sobre a Idade Média. Lisboa: Europa-América, 1983.
REALE, Giovanni; ANTISSERI, Dario. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1990. v. 1.
RODIN, Auguste. Grandes Catedrais. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
WORRINGER, Wilhelm. A Arte Gótica. Lisboa: 70, 1992. 


Texto: Jorge Donizetti Pereira.
Concluinte do Curso de Graduação Licenciatura em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano – SP.

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