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Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A netiqueta e a filosofia: ética e etiqueta no ambiente virtual.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume out., Série 24/10, 2011, p.01-14.


A sociedade da informação, com o advento da banda larga e a popularização do uso da internet, fomentou o surgimento de novas ferramentas educacionais baseadas em blogs, revistas eletrônicas e no ensino EAD.
Para regular as relações estabelecidas entre as pessoas surgiu o que se convencionou chamar de netiqueta, normas não oficiais de comportamento cordial.
Neste sentido caberia perguntar se esta constitui também um código de ética que pode facilitar a efetivação da virtualidade educacional, regulando relações pedagógicas na internet?
Em caso afirmativo, poderia ser estabelecido um vinculo entre netiqueta e cidadania?
As pessoas estão preparadas para lidar com a internet como meio de integração educacional?
Questões que multiplicam as perguntas.
O sistema educacional formal institucionalizado consegue lidar com a internet como ferramenta?
Onde entra a netiqueta no ensino básico e superior?
Como preparar os educandos para conviver em harmonia com outros indivíduos e a construção coletiva do conhecimento em ambiente virtual?
Baseado no método lógico dedutivo, em pesquisa bibliográfica e documental, além de constatações empíricas, propomos realizar neste artigo uma discussão inicial em torno destas questões, com o objetivo de conduzir a introdução da questão da netiqueta como reguladora das novas relações educacionais estabelecidas virtualmente pela internet.
Os resultados parciais alcançados pela pesquisa demonstram que existe uma desatualização da LDB e dos PCNs para lidar com a virtualidade educacional.
Ao passo que propomos como solução provisória a este problema a abordagem da netiqueta como conteúdo a ser integrado ao ensino de filosofia na educação básica, ensino médio e superior.


A netiqueta.
Dentro do âmbito da sociedade da informação, em um ambiente globalizado, onde o acesso as informações e a produção e divulgação do conhecimento foi democratizado, com a educação sendo cada vez mais transposta para o âmbito virtual, torna-se necessário discutir o que se convencionou chamar de netiqueta.
O termo “netiquette” foi criado pela norte-americana Judith Kallos, uma consultora do wordpress, em 1988 (Artigo Netiqueta).
Prestando serviço para empresas com negócios on-line nos Estados Unidos da América, ainda durante o advento da internet discada, ela percebeu que o mundo empresarial não estava preparado como lidar com as novas realidades promovidas pelo avanço tecnológico.
Foi assim que fundou cursos para treinar prestadores de serviços pela internet, para que as empresas pudessem participar das novas demandas abertas pela rede mundial de computadores, associando o compromisso com o próprio sucesso com um tratamento adequado do consumidor em potencial, tornando-se uma especialista em etiqueta virtual on-line pela internet (Artigo Email Etiquette Expert).
A palavra surgiu a partir da junção do termo “Net”, em referência a internet, com “Etiqueta”, passando a nomear um “conjunto de regras não-oficiais, passadas de boca em boca e site em site que tenta estabelecer um padrão de comportamento considerável desejável pelos utilizadores e para os utilizadores” (SILVA, s.d.).
Segundo Adelina Maria Pereira Silva, mestre em Relações Interculturais pela Universidade aberta de Lisboa, os objetivos destas regras poderia ser assim pontuado:

As regras da netiqueta visam tornar a Internet um lugar menos caótico e mais sadio, ensinando as pessoas que certas atitudes aparentemente inofensivas podem aborrecer, atrapalhar ou agredir outros usuários, devendo ser evitadas. O usuário que desrespeita a netiqueta, propositalmente ou não, prejudica também a si mesmo, porque é deixado de lado pelos outros utilizadores. A Netiqueta pode variar ligeiramente de acordo com o tipo de comunicação que está a ser utilizado (por exemplo: canais chat, grupos de discussão, e-mail).

A netiqueta não é só um padrão de etiqueta, pois também configura um conjunto de princípios éticos para os usuários da rede mundial de computadores.
O que conduz seus preceitos a serem pensados como elementos de regulação das relações estabelecidas na ótica educacional, à medida que; com a proliferação dos blogs especializados, revistas eletrônicas e cursos superiores baseados no Ensino a Distância (EAD); é essencial padronizar a comunicação para tornar a educação realmente efetiva na internet.
Entretanto, refletir sobre o tema leva a uma série de constatações, incitando questionamentos que levantam problemas.
Para discuti-los é preciso adentrar conceitos e definições, rever posturas, passando pela relação entre educação e tecnologia, pelo que entendemos por tecnologia em si, pela educação informal e formal, além do vinculo da netiqueta com a ética e como balizadora das relações virtuais pedagógicas.
A despeito da enorme distancia que possa parecer existir entre a netiqueta e cidadania, sua proximidade é muito maior do que poderia ser imaginada.
O entendimento da netiqueta como fomentadora da cidadania, e esta última como parte do código de ética necessário para efetivação da educação no ambiente virtual, pensando a atual legislação educacional brasileira, torna óbvia a tarefa do ensino de filosofia: é sua obrigação jurídica e moral abordar a netiqueta como parte do conteúdo filosófico.


Educação e Tecnologia.
Existem muitas formas de compreender a tecnologia, portanto, antes, é necessário conceituar o que podemos entender por este termo.
Pode ser classificado como tecnologia qualquer artefato, método ou técnica criada pelo homem para tornar seu trabalho mais leve, sua locomoção e comunicação mais fáceis ou simplesmente sua vida mais agradável e divertida.
Formalmente, a tecnologia é o emprego de um conjunto de técnicas, mas filosoficamente, a partir da origem da palavra (tecno = técnica + logia = ciência), seria a teoria ou filosofia da técnica.

O que remete a perguntar: o que é técnica?

Por definição, a técnica é um procedimento bem definido e transmissível, destinado a produzir um resultado útil.

Neste sentido, desde os gregos antigos, reflete uma prática consciente, em oposição às atitudes tomadas ao acaso.
A partir do século XIX, a técnica passou a denotar uma sistematização do conhecimento que repousa sobre o saber cientifico, a racionalização do emprego de instrumentos e materiais.
Pensando assim, tanto em seu sentido original como contemporâneo, a tecnologia é tão antiga quanto o homem (RAMOS, 2010, p.01-06).
Isto porque um bastão de madeira, que amplifica um golpe e serve de extensão ao braço, também faz parte da tecnologia.
Modernamente, existem tecnologias que amplificam os poderes sensoriais, a percepção - como o telescópio ou o microscópio, altos falantes, etc -, melhoram a capacidade de acumular informações - indo desde o papel, a escrita e o lápis até o computador -, permitem a ampla comunicação entre os homens - telefone e internet -, encurtam o deslocamento - carros, aviões e barcos -, enfim que facilitam a vida das pessoas e a necessidade humana de subjugar à natureza para sobreviver.
No entanto, será que toda tecnologia pode ser aplicada à educação?
Pensada na educação, a tecnologia é o que torna possível a transmissão e aperfeiçoamento do conhecimento.
Configura o processo educacional em sentido amplo, inclusive no âmbito que extrapola a educação formalizada nas escolas (BARRETO, 2003, p.271-286).
Isto porque podemos incluir qualquer forma de tecnologia no processo educacional, incluindo meios de comunicação, como rádio, TV e cinema, além da própria fala e escrita.
Em um sentido mais restrito, na escola, usamos tecnologias tradicionais, entre as quais giz, lousa, livros, cadernos, carteiras, mesas, cadeiras, etc.
Porém podem ser usadas na escola também tecnologias mais recentes, como vídeos, DVDs, computadores, teleconferência, lousa digital, ensino a distância e outras.
Em suma, boa parte da tecnologia humana, de uma forma ou outra, aplicada-se à educação.
Portanto, a relação entre educação e tecnologia não poderia ser mais estreita.
As tecnologias são a síntese produzida pelas relações sociais, sistematizadas em um momento histórico, de acordo com as necessidades humanas para subjugar a natureza (MANASSÉS, 1980).
A humanização só aconteceu a partir do processo educacional, a apropriação de saberes através de diferentes linguagens, formas simbólicas de mediação materializadas nas interações sócio-culturais.
Neste sentido, a tecnologia pode ser entendida como uma das linguagens que o homem utiliza na construção social para transformar as relações sócio-econômicas e culturais, além do próprio acumulo e transmissão do conhecimento, denotando as características típicas de uma civilização e sua visão de educação (MORAN, 2004, p.245-254).
Segundo Marx (2010), “a tecnologia revela o modo de proceder do homem com a natureza, o processo imediato de produção da sua vida material e assim elucida as condições de sua vida social e as concepções mentais que dela decorrem”.
O que significa que o uso que uma sociedade faz da tecnologia diz muito sobre ela e o que espera construir no futuro.
Portanto, a velocidade da incorporação das novas tecnologias na educação, a democratização de seu acesso, também simboliza a importância cultural delegada ao futuro e ao respeito ao outro dentro do que se convencionou chamar sociedade da informação.
Por outro lado, contemporaneamente, a globalização criou um determinismo tecnológico que subordinou às produções histórico-sociais a informação rápida e condensada.
Os discursos que acompanham a sociedade da informação elegeram como lei o principio da tabula rasa.
Não há nada mais que seja absoluto, tudo muda rapidamente, por isto não existem respostas únicas.
Ao mesmo tempo, a informação foi coisificada, tornando-se um produto.
Na educação, a transmissão do conhecimento também se tornou mercadoria, o aluno se converteu em cliente e o professor em prestador de serviço.
Na realidade um processo que decorre do fordismo, a compartimentação do conhecimento, tal como em uma linha de montagens.
Quando Henri Ford criou a linha de montagem no inicio do século XX, não tencionava apenas facilitar a produção em massa, mas também controlar o conhecimento, subdividindo o saber para que os indivíduos não tivessem o domínio do todo.
O fordismo educacional transformou os professores em tarefeiros, semelhante ao que ocorreu com operários em linhas de montagem, fazendo, por outro lado, o educando perder a noção do conjunto.
No entanto, de certo modo, a educação formal contém em si a informal, já que o educador não se limita a transmitir conteúdos (SAVATER, 1998).
Enquanto o professor exerce uma profissão eminentemente técnica, o educador deveria ensinar e praticar a tolerância com o outro, a convivência pacifica, instigando a curiosidade para conhecer as diferenças, ou seja, incentivando a socialização.
O grande problema é que a educação formal, sendo hierarquizada, é fruto e reflexo do fordismo, dividindo tarefas e limitando o processo de socialização.
É por isto que para o entendimento do papel da educação na socialização é necessário discutir a transmissão da cultura dentro e fora da escola.
A educação, a transmissão do saber acumulado pela humanidade, não se concretiza somente na escola, acontece também de maneira informal (sem norma ou forma), não possuindo critérios, horários, hierarquia ou sistema de avaliação (MIZUKAMI, 1986).
Onde entra justamente a questão envolta da internet e das novas tecnologias que dia-a-dia surgem.


Violência simbólica e tecnologia.
A educação informal é produzida a partir das necessidades imediatas da vida, configurando o conhecimento conforme as exigências requeridas para a sobrevivência do individuo e de seu grupo.
Está vivamente presente na internet e nos meios de comunicação que utilizam as novas tecnologias.
Pensando nesta concepção, o saber escolar muitas vezes se distancia da realidade, impedindo a assimilação democrática do conhecimento e excluindo várias categorias sociais, portanto, limitando o acesso ao saber que confere poder.
A escola manipula o educando, ocultando uma violência simbólica, tal como pensado por Bourdieu e Passeron (2001).
A violência está no fato da escola se revestir de uma aparência de neutralidade, quando na verdade condiciona o educando de acordo com os interesses das elites que controlam o sistema educacional.
É simbólica devido ao seu caráter não material, portanto, circunscrito a esfera mental.
Dentro deste contexto, insere-se o capital cultural, a competência cultural e lingüística herdade, sobretudo, da família, facilitador do bom desempenho escolar.
Usando uma linguagem e cultura pertencentes à elite, o padrão culto, a escola comete uma violência ao impor, ao conjunto da sociedade, valores de um único grupo.
A educação legitima o domínio da elite, impedindo o acesso daqueles que não possuem o necessário capital cultural a estamentos mais elevados, doutrinando para o fracasso.
Entretanto, a modernidade tecnológica trouxe outras formas de violência simbólica, tal como a tecnológica, pois a escola, ao ignorar as novas tecnologias, realiza uma dupla violência simbólica.
Primeiro nega a incorporação do vocabulário tecnológico e suas ferramentas como recurso pedagógico para chegar até o aluno.
Depois, para aqueles que não tem domínio sobre as novas tecnologias, não propicia a construção de um conhecimento necessário a vida em sociedade no mundo tecnologicamente globalizado.
A escola é uma instituição, como tal possui normas e padrões, impostos por aqueles que controlam o sistema educacional, visando organizar seu funcionamento (FOUCAULT, 2000).
Diferente da educação informal, o conhecimento escolar é sistematizado, transmitido a partir de critérios e métodos, composto por um saber científico, dogmático.
Embora a idéia, teoricamente, seria a escola criar uma proximidade com a realidade concreta, possibilitando uma flexibilidade de conteúdos, utilizando a tecnologia para facilitar a proximidade entre formalizada e informalidade (RODRIGUES, 2002).
É neste sentido que as Diretrizes Curriculares para a Formação de Professores da educação básica, assim definem as competências que devem ser desenvolvidas nos cursos de licenciatura e de graduação plena: “(...) com relação ao mundo do trabalho, sabe-se que um dos fatores decisivos passa a ser o conhecimento e o controle do meio técnico-científico informacional”.
Porém, na prática o professor é transformado em um facilitador, animador, tutor, monitor, etc.
A primeira vista, o professor torna-se um item dispensável, facilmente substituído pelos recursos tecnológicos.
No entanto, a tecnologia carece de pessoas para gerenciar as informações, de forma que o professor passou a ser parte indispensável do uso da tecnologia em favor da educação (FREIRE, 2004).
Por outro lado, o perfil do educando foi alterado para indivíduos com uma constante insatisfação com o conhecimento transmitido, tido como fora de propósito e sem relação com suas necessidades reais.
A internet e a facilidade de acesso a informação fez o educando passar a exigir visualização do conhecimento, de forma rápida e fácil (RAMOS, 2011, p.01-06).
Assim, blogs, revistas eletrônicas e outros meios de comunicação e construção coletiva do conhecimento tornaram-se importantes ferramentas educacionais.
Disponíveis não só aos professores como a qualquer interessado em construir ou partilhar o conhecimento.
Não obstante, não existem leis ou normatizações formais para balizar as relações educacionais estabelecidas entre os sujeitos pela internet, inclusive com a proliferação freqüente do anonimato.
O que acompanha também a proliferação de uma enorme quantidade de informações nem sempre verificáveis e, em muitos casos, com conceituações equivocadas que distorcem fontes confiáveis, passando uma falsa imagem de confiabilidade.
É por esta razão que se torna necessário iniciar uma ampla discussão sobre a netiqueta, uma possível balizadora informal das relações educacionais on-line, garantidora da veracidade e da construção sadia de novos conhecimentos partilhados na internet.
Dentro deste contexto, será que poderíamos pensar a netiqueta também como código de ética?
O que conduz à outra discussão inicial em volta dos conceitos que envolvem justamente a ética.


Netiqueta e ética.
Para Pekka Himanen (2002, p.66), existiria uma distinção entre netiqueta e nética, este último, um termo que nomearia a ética entre usuários da internet, incluindo hackers.
Entretanto, o conceito de ética remete ao que se entende por netiqueta.
Em linhas gerais, o comportamento ético é aquele que colabora com a busca da felicidade, normatizando racionalmente as relações entre as pessoas.
No entender de André Lalande (1993, p.348), a ética é a “ciência que tem por objeto o juízo de apreciação (...) à distinção entre bem e o mal”.
Embora ética e moral tenham a mesma raiz etimológica, com ambas palavras significando a mesma coisa, uma em grego e outra em latim, a saber: normas de conduta, padrão de comportamento ou hábitos.
Kant acabou separando as acepções no século XVIII, colocando a primeira acima da segunda (LALANDE, 1993, p.349).
A partir deste momento o conceito de ética evoluiu, e, hoje, significa também um conjunto de regras de convivência no interior de um grupo.
Enquanto os conceitos morais seriam definidos por uma época e sociedade, tendo como norteador uma série de fatores aglutinados que impõem padrões de comportamento como corretos, em oposição a atitudes condenadas como erradas e punidas com o isolamento social.
Em muitos casos, sendo estas regras não escritas transformadas em legislação, convertidas em leis e ratificadas juridicamente.
A ética é mais ampla por ser uma ciência filosófica normativa e teórico-prática, possuindo caráter de investigação moral, contraposta a racionalização dos comportamentos, tendo como centro a busca da idoneidade e dignidade humana.
No entanto, pode ser entendida também como mais estreita que a moral, pois a ética diz respeito também a consciência sobre o comportamento humano, individualizando normas de comportamento aplicadas a conjuntos de pessoas que constituem grupos (MENEZES, 2010, p.07).
O que faz a ética nem sempre corresponder às determinações morais.
Vender um dado produto, promovendo seu consumo é, por exemplo, ético para o conjunto dos publicitários, mas, dependendo da mercadoria, sendo ela comprovadamente maléfica à saúde, pode ser considerado imoral pelo conjunto da sociedade.

Dentro desta acepção de ética, pensando no significado de etiqueta, “conjunto de cerimônias usadas (...) no trato de muitas pessoas” (BUENO, 1976, p.463), a nética e a netiqueta se confundem e confluem para os mesmos objetivos e objetos.

Portanto a etiqueta pensada para facilitar a convivência na internet é também um código de ética norteador das relações e usos da rede mundial de troca de dados e informações.

Todavia, pensada no sentido educacional, a netiqueta pode auxiliar na construção do conhecimento?
Seus princípios podem facilitar de fato as trocas virtuais e tornar mais cordiais as relações professor/aluno, educar/educando ou pessoa/pessoa?



A netiqueta nas relações virtuais pedagógicas.
Levando em consideração que o processo de apropriação do conhecimento ocorre ao mesmo tempo em que os sujeitos se desenvolvem culturalmente.
A apropriação da tecnologia na prática pedagógica exterioriza esta potencialidade (BOUSSUET, 1985).
Em outras palavras, simultaneamente, a tecnologia serve a reprodução do sistema capitalista, podendo assumir um papel integrador interdisciplinar, ajudando a contornar o fordismo educacional, reelaborando o contexto cultural para transformar o mundo.
Uma idéia que não é nova, está presente, por exemplo, no pensamento de Illich. 
Amigo e contemporâneo de Paulo Freire, o austríaco Ivan Illich, na década de 1970, fez uma critica a educação institucionalizada.
Em seu livro Sociedades sem escola (ILLICH, 2003), defendeu a idéia de que a escola impede o ser humano de desenvolver todo seu potencial.
Para ele, a escola fragmentava o saber e incentiva o consumismo e a reprodução das desigualdades.
Tentando contornar esta situação, propôs substituir as escolas por redes de comunicação e convivência, onde as pessoas pudessem trocar informações e experiências diretamente, através de uma rede de computadores, correios, anúncios de jornais, etc.

Illich pensou em quatro redes educacionais:

1. Serviços de consulta a objetos educacionais (bibliotecas, laboratórios, museus, teatros, etc);
2. Intercâmbio de habilidades (troca de conhecimentos entre as pessoas).
3. Encontro de colegas (formação de parcerias de pesquisa, comunidades de pessoas que interagem para buscar conhecimento).
4. Consulta a educadores (orientadores na busca pelo conhecimento).

Assim, Illich foi o precursor da internet e das redes sociais pensadas como ferramenta de troca de informações e do ensino a distância on-line.
Porém, por razões óbvias, sua proposta nunca foi colocada integralmente em prática.
Para estabelecer uma relação pedagógica é necessário a presença de pelo menos dois elementos: professor e aluno, educador e educando.
Somente o dialogo entre as pessoas constrói uma relação pedagógica, onde o saber é coletivamente cultivado, mas, igualmente, sempre carece de direcionamento.
A educação institucionalizada, a escola, possui muitos defeitos e vícios, muitos dos quais advindos do sistema capitalista e estrutura social, o que não invalida sua importância e caráter coletivo de partilha do conhecimento acumulado pela humanidade.
O professor, em sala de aula pode contornar as barreiras, um fator não considerado por Illich.
Cabe ao educador profissional realizar um trabalho de formiguinha, tornando-se agente multiplicador.
Sozinhos somos nada, somos fracos; juntos seremos tudo, seremos fortes e poderemos mudar o mundo através da educação.
O que, por si, exige a institucionalização da educação.
Uma vez que a passagem da heteronomia para a autonomia necessita do domínio de técnicas que servem de instrumento aos profissionais da educação.
Sendo assim, como incorporar a informalidade na educação formal?
Para isto acontecer, em primeiro lugar, tanto professor como aluno precisam conhecer as linguagens tecnológicas e tomar consciência do contexto em que estão envolvidas, estabelecendo criticas e até mesmo questionando esta realidade (PAPERT, 1994).
É necessário desconstruir ilusões forjadas por interesses políticos e econômicos.
Devemos ter em mente que a tecnologia pode mediar a aprendizagem, mas o processo educacional necessita da interação entre as pessoas.
Esta interação só é garantida através de uma convivência cordial que crie um clima propicio ao dialogo, uma discussão que permita construir e reconstruir o conhecimento, compondo um saber de domínio público, vivamente presente em blogs e publicações eletrônicas.
Mecanismos de democratização do acesso ao saber, embora não ao status representado por um diploma universitário.
Destarte, até mesmo no que diz respeito à formalização da educação institucionalizada, que confere certificados e títulos, devemos ressaltar que o ensino caminha em direção à virtualização, tornando necessária a presença da netiqueta.
Atualmente e, no futuro, cada vez mais a educação e a internet caminharam lado a lado.
Os cursos EAD - Educação a Distância - tem facilitado o acesso ao ensino superior, estendendo-se pelo Brasil e possibilitando alcançar regiões onde antes seria impossível alguém cursar uma universidade.
Aliás, segundo especialistas, a tendência EAD deve dominar o panorama do mercado educacional, praticamente extinguindo o ensino presencial.
Entre 2005 e 2008, a titulo de exemplo, os cursos EAD tiveram um crescimento de 600% no numero de alunos, enquanto os cursos presenciais encolheram por conta de uma concorrência predatória entre universidades privadas.
É por isto que escolas tradicionais, algumas universidades públicas, começaram a investir em cursos EAD, seguindo uma tendência mundial adotada pelo ensino superior de ponta, como o Massachusetts Institute of Technology (MIT), Berkeley e Yale.
Assim, torna-se fundamental, pensando no ensino fundamental e médio, repensar as questões em torno das relações pedagógicas virtuais estabelecidas no contexto educacional.
Até porque a popularização da internet e da banda larga, à medida que crescem os EAD, aumenta a necessidade de profissionais capacitados para lidar com as novas tecnologias que, dia-a-dia, evoluem com extrema rapidez, e, igualmente sejam capazes de se transformarem em agentes multiplicadores.
É verdade que o EAD exige dos alunos maior esforço e dedicação que os cursos presenciais, porém, carece de suporte de educadores para que a tecnologia possa ser usada em beneficio da construção do conhecimento.
O que torna uma obrigação do educador ensinar normas de comportamento que facilitem a convivência virtual entre as pessoas.
Algo operacionalizado pelo exemplo próprio e fomento à discussão conceitual e prática em torno da netiqueta.
Segundo Jocelma Almeida Rios (2008, p.19), a netiqueta, no âmbito da EAD, deveria balizar a construção de uma maior proximidade entre educador e educando, auxiliando a humanizar o espaço educacional virtual através da afetividade.
Em resumo, a tecnologia na educação, seja ela de qualquer natureza, deve estar a serviço do professor e do educando, sendo o docente um mediador (LÉVY, 1993).
Caso contrário, corremos o risco de desvincular esta importante ferramenta de seu propósito primeiro: servir ao progresso da humanidade.
A idéia do EAD é democratizar o acesso ao saber, mas a inserção neste meio exige do educando autodisciplina e domínio dos instrumentos necessários ao bom andamento do curso.
Portanto, é essencial que, na era da globalização, em plena sociedade da informação, o ensino elementar possibilite também o acesso a tecnologia disponível e a netiqueta enquanto código de ética.
A formação da cidadania, apregoada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), passa necessariamente pela formação ética, ao passo que o acesso a internet, em qualquer esfera, exige do utilizador a adoção de parâmetros mínimos de cordialidade para o bem estar virtual de si mesmo e do outro.
Conceitos que se cruzam e entrelaçam com a educação em acepção ampla, fazendo nascer uma interdependência com a netiqueta.
Onde reside outro problema: a desatualização dos Parâmetros Curriculares Nacionais brasileiros, diante da rede mundial como mecanismo educacional. Conduzindo a perguntar se não seria o caso de rever a LDB, em vista do avanço das tecnologias e meios de informatização do conhecimento.


Cidadania, educação e netiqueta.
A redemocratização do Brasil, em 1985, conduziu a um fomento do sentimento de cidadania, onde a formação do cidadão foi colocada como principal objetivo da Nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) - lei 9394/96.
Porém, a cidadania não foi conceituada pela LDB promulgada em 1996, sua definição ficou subentendida como conceito liberal, pertinente a república representativa, que trás em si a idéia de contrato social (CHAUI, 1994, p.403).
A discussão do que se deve entender por cidadania ficou entregue a filósofos, sociólogos, historiadores e educadores.
Alguns destes pontuaram o nascimento do cidadão na antiguidade, entre o século XII a VIII a.C, apesar da democracia grega ser muito distinta da concepção contemporânea, já que era praticada somente entre alguns poucos privilegiados, excluindo mulheres e escravos, estes últimos a imensa maioria da população.
O cidadão foi conceituado como aquele que “pode e deve atuar na vida pública independente da origem familiar, classe ou função”, transmitindo a visão de que “todos são iguais, tendo o mesmo direito à palavra e à participação no exercício do poder” (ARANHA & MARTINS, 1992, p.153).
Esta definição de cidadania atendeu o que senso comum entende pelo termo, aquilo que a mídia apregoa e massifica.
Acontece que a cidadania foi abordada de forma genérica, tornando sua definição etérea e pouco conhecida integralmente.
Para Andrew Edgar & Peter Sedgwik, o cidadão é “um agente humano a quem são dadas características sociais especificas, com significados políticos codificados (...) que são questões de seus interesses privados e (...) de interesse público” (EDGARD & SEDGWICK, 2003, p.55).
Segundo Kalina Vanderlei Silva e Maciel Henrique Silva (2006, p.47), a cidadania é um conceito histórico e complexo, atribuída “aos indivíduos que integram uma Nação”, abrangendo “direitos políticos, sociais e civis”, mas também “direitos e deveres”.
Conceito que remetem a Revolução Francesa, com seu ideal de igualdade, liberdade e fraternidade, sendo este último item de suma importância, já que pressupõe o abandono do individualismo consumista, incentivado pela ótica capitalista, em favor da busca do bem estar do outro em prol da coletividade.
Dentro desta concepção, será que a netiqueta não poderia ser pensada como conteúdo formador da cidadania?
Acontece que atualmente a LDB não considera adequadamente os espaços virtuais como mecanismos educacionais.
A reboque, os Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs -, as diretrizes elaboradas pelo governo federal para orientar a educação no Brasil, seguindo a LDB de 1996 e reafirmando a importância da formação da cidadania, também não abordam a internet como elemento educativo.
Tanto a LDB como os PCNs esquecem que a interdisciplinaridade apregoada como fomentadora da cidadania poderia ser alcançada contextualizando conteúdos, em sentido transversal, por meio da internet.
Como lembrou Saviani, uma pedagogia coerente e eficaz está atrelada “com o problema da compreensão do homem; que tipo de homem pretendemos nós atingir através da educação” (SAVIANI, 2004, p.47).
Para realizar a tarefa de formar o cidadão o século XXI, é necessário repensar o que entendemos por educação e tentar atender as necessidades da modernidade virtual, um conceito complexo e, simultaneamente, abrangente.
Seja qual for a definição, o cidadão não existe sem criticidade, consciência de si mesmo e do mundo que o rodeia.
O que acompanha a inclusão digital e, ao mesmo tempo, a introdução do educando na netiqueta, pensando no respeito pelo outro como a si mesmo.
Assim, a netiqueta conduz de volta ao objetivo educacional da construção da cidadania, assumindo uma postura formadora de uma postura ética, outro elemento importante dentro do conceitual do modelo de cidadão ideal.
O que exige repensar qual educação queremos para o Brasil e, portanto, a reformulação da LDB e dos PCNs.
Além é claro da questão da formação dos professores, pois em sua maioria, no ensino presencial, em qualquer nível, nunca ouviram falar em netiqueta e sequer sabem utilizar a internet como ferramenta educacional.
Como poderiam os professores constituir então uma categoria multiplicadora do acesso a educação através da internet e de preceitos éticos nas relações virtuais pela netiqueta?


Concluindo.
Dentro do âmbito da globalização, onde as informações estão fortemente disponíveis pela rede mundial de computadores, a Internet; onde a comunicação entre as pessoas foi facilitada pela informática, aproximando e derrubando fronteiras; a inclusão social passa necessariamente por este meio.
Assim, um objetivo e desafio primordial da Educação, dentro da rede virtual, é a facilitação do acesso a construção do conhecimento e ao saber acumulado pela humanidade.
Entretanto, para isto, é necessário familiarizar o educando e instrumentalizá-lo para integrar a sociedade da informação, o que inclui o conhecimento da netiqueta como facilitadora das relações educacionais virtuais.
É neste sentido que, mais que meio ou recurso didático, o uso do computador e da internet deveria sensibilizar o educando para que se perceba como parte de um contexto mais amplo, instigando a curiosidade e a vontade de aprender por si só.
O que encontra respaldo nas teorias de Dewey, Paulo Freire, Piaget, Skinner e Vigotsk.
Além de fomentar o autodidatismo, essencial a sobrevivência do individuo no mundo globalizado, o acesso as informações disponibilizadas na internet, em seu sentido educacional, objetiva estimular a interdisciplinaridade, quebrando o paradigma fordista, para tentar retomar a tendência humanista dos renascentistas.
Estimulando a reflexão interdisciplinar, o compartilhamento de conhecimentos pela internet pretende transmitir conteúdos de uma forma mais leve e instigante, desenvolvendo o raciocínio lógico do educando.
Mas para se efetivar como educação precisa ser regulada por normas de convivência ética, garantidas pela netiqueta, auxiliando, ao mesmo tempo, na formação da cidadania.
O que exigiria repensar a educação no Brasil, reescrever a LDB e os PCNs.
No entanto, enquanto isto não acontece, como tentar contornar os problemas existentes e crescentemente ampliados pelo descompasso brasileiro com a modernidade virtual?
Poderíamos iniciar as mudanças pelo menor elo do sistema educacional institucionalizado e, por isto mesmo, o mais importante: o professor.
Porém, não estando os docentes, eles também, devidamente preparados para lidar com a educação instrumentalizada pela internet, como realizar esta façanha?
Após tantas constatações, verificações de problemas e multiplicação de questões, surge aqui uma proposta factível de aplicação prática imediata: por que não transformar a internet em ferramenta e a netiqueta em conteúdo através do ensino de filosofia?
A filosofia serve exatamente para isto, formar o senso crítico, o autodidatismo, fomentar o questionamento, a interação entre as pessoas em busca de uma construção coletiva do conhecimento e um olhar para fora de si mesmo, de volta ao interior do próprio sujeito e transformador da realidade.
Pensada pela Nova LDB, no Capitulo II, Seção IV, Artigo 36, junto com a sociologia, a filosofia é definida como “[conhecimento] (...) [necessário] ao exercício da cidadania”, embora seja recomendada apenas para o ensino médio.
Quanto ao ensino fundamental, no mesmo Capitulo, Seção I, Artigo 22, quando são definidas as intenções da educação básica, é feita menção “a finalidade [de] desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores”.

No entanto, na Seção III, que trata especificamente do ensino fundamental, a filosofia não é citada diretamente, embora seja mencionado, no Artigo 32, o “objetivo a formação básica do cidadão, mediante (...) o fortalecimento (...) dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social”.

Uma definição que, sem intenção concreta, penetra no âmago do que é a filosofia e nas possibilidades abertas por seu ensino na educação básica, no nível médio e nas instituições de nível superior.


Transdisciplinar e interdisciplinar, como agregadora de todos os conhecimentos, pensando na utilização da internet como ferramenta educacional, o ensino de filosofia poderia abordar a netiqueta como conteúdo.

Repensar a ética seria agregado pelo âmago do que se entende por netiqueta, ao mesmo tempo, cumprindo as propostas colocadas no âmbito da disciplina pela LDB e os PCNs vigentes.

O professor de filosofia, pegando um termo emprestado de Victor Goldschmidt (1963, p.146-147), precisa tomar consciência de sua “responsabilidade filosófica”, criando um ambiente onde “o pensamento se experimenta e se lança, sem ainda determinar-se”, podendo “prevalecer contra a obra, para corrigi-la, prolongá-la ou coroá-la”.
É obrigação do professor de filosofia, dentro da proposta da formação da cidadania pela LDB, incentivar rupturas, questionamentos, mas também formar o educando dentro de ideais éticos.
Não se trata somente de promover o dialogo e a interdisciplinaridade, como pensam a maioria dos gestores educacionais e intelectuais.
O ensino de filosofia precisa ser formador de um ambiente propicio ao dialogo em qualquer instancia, inclusive e, dado a contextualização dos indivíduos na sociedade da informação, no ambiente virtual.
Segundo os PCNs, o ensino de filosofia deveria “desenvolver a tradução do conhecimento das Ciências Humanas em consciências críticas e criativas, capazes de gerar respostas adequadas a problemas atuais e a situações novas”.
Junto com outras disciplinas, o saber filosófico “implica o conhecimento, o uso e a produção histórica dos direitos e deveres do cidadão e o desenvolvimento da consciência cívica e social, que implica a consideração do outro em cada decisão e atitude de natureza pública ou particular”.
Assim, o ensino de filosofia tem a obrigação jurídica e moral de abordar a netiqueta como conteúdo, oferecendo uma solução imediata aos questionamentos aqui colocados, apesar de constituir uma resposta provisória. Simultaneamente, talvez promovendo maiores discussões para aprofundar mudanças na maneira de enxergar a educação no Brasil e suas possíveis interações com a internet como ferramenta educativa.


Para saber mais sobre o assunto.
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda & MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de filosofia. São Paulo: Moderna, 1992.

BARRETO, R. G. “As tecnologias na formação de professores” In: Educação e pesquisa, nº. 30. Jul/dez de 2003, p.271-286.

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SILVA, Kalina Vanderlei & SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos. São Paulo: Contexto, 2006.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela USP.
MBA em Gestão de Pessoas.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade de São Paulo.




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terça-feira, 18 de outubro de 2011

A estética arquitetônica das catedrais góticas como reflexo do pensamento cristão da Alta Idade Média.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume out., Série 18/10, 2011, p.01-13.


O presente artigo visa a uma análise acerca da relação causa-efeito entre o pensamento cristão da Alta Idade Média e as catedrais góticas como um reflexo materializado da filosofia medieval.
Partindo de uma explanação contextual sobre a Alta Idade Média, passando pela caracterização do pensamento escolástico em suas bases e intentos, trataremos da arte gótica, em sua apresentação e conceituação, encaminhando-nos, assim, para uma explanação acerca da arquitetura gótica, estruturando, deste modo, a compreensão do tema central.
Por fim, demonstraremos as evidências que inserem o medievo no paradoxal âmbito positivo da luz ante a generalizada e equivocada qualificação negativa comumente atribuída ao período em questão.
A relação causa-efeito entre o pensamento escolástico e a arquitetura das catedrais góticas será o tema central do presente artigo.
Para tanto, o texto parte da apresentação de uma síntese geral acerca do período histórico denominado Alta Idade Média em vista de uma contextualização da temática; posteriormente, aborda o pensamento escolástico com a finalidade de alicerçar as análises subsequentes; seguindo o nexo lógico do intento principal deste estudo, será apresentada a arte gótica, seu surgimento, suas características e ainda um enfoque na arquitetura gótica das catedrais envolvidas no contexto espaço-temporal ora analisado.
Adentrando à problemática a ser elucidada, serão apresentadas as linhas de reflexão que nos levam a afirmar a existência inequívoca de uma relação de causa e efeito entre a mentalidade então em voga – substanciada pela Escolástica e seu projeto – e a arquitetura das catedrais góticas como uma “petrificação” de um modo próprio de se pensar o mundo e a existência humana em sua caminhada.
Encerrando as tratativas, serão elencados diversos argumentos reais e sustentáveis que inserem o período ora trabalhado na paradoxal inferência de se considerar a Idade Média sob um horizonte de “luz” em franca oposição à opinião que reduz os cerca de dez séculos do medievo em estagnação e obscurantismo.


Metodologia.
Mediante análise criteriosa de uma seleta bibliografia direcionada ao pensamento e cultura medievais, à História da Arte, à História da Arquitetura – particularmente no que tange à arquitetura gótica, visando ao embasamento e à sustentação teórica do presente artigo, intentamos coletar no trabalho de pesquisa os dados relevantes à proposta basilar, oferecendo, assim, o devido suporte às asserções ora manifestas.
Por conseguinte, dados os resultados da pesquisa, apresentaremos, em síntese, a Alta Idade Média, o pensamento escolástico e a arquitetura gótica como fundamentos da temática nuclear.
Subsequentemente, encerrando as tratativas, evidenciaremos a positividade de variados âmbitos relacionados ao medievo.

A Alta Idade Média.
“O que é a Antiguidade? O que é a Idade Média? Em que critérios se pode basear uma tipologia de contrastes destas duas civilizações? Critérios econômicos, sociais, políticos, linguísticos (Poder-se-ia admitir que o Mundo Antigo termina no Ocidente a partir do momento em que a língua falada pelo povo deixa de ser o latim). Ter em consideração estes dados obriga a reconhecer que é difícil cortar brutalmente entre a Antiguidade e a Idade Média, e sobretudo que, se há caracteres essenciais pelos quais se reconhece a Idade Média que estavam presentes nas estruturas históricas do mundo romano a partir do século V, numerosos traços pelos quais se define o Mundo Antigo continuam até aos séculos VII ou VIII. Aparece, assim, um período transitório entre um tipo de civilização antigo e um outro já fundamentalmente medieval. É a Alta Idade Média” (BANNIARD, 1980, p.13-14).


O ser humano sempre apresentou interesse pelo conhecimento e compreensão do passado.
Desde os períodos pré-históricos até a contemporaneidade, o homem construiu o presente, constituiu cultura e legou à posteridade incontáveis pontos de investigação.
Dada a vastidão temporal, bem como as peculiaridades de cada espaço e cultura dividiu-se a História em períodos consensualmente conhecidos como Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea.
Este texto se voltará para a Idade Média que perdurou da derrubada do Império Romano do Ocidente, no ano de 476 d.C., até a tomada de Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente, pelos turcos, em 1453 d.C.
Existe, todavia, uma subdivisão nos cerca dez séculos de duração do medievo, isto é, a Alta Idade Média e a Baixa Idade Média.
Embora não haja plena concordância no que tange à datação dessas subdivisões, estudiosos como Jacques Le Goff (2005) e Georges Duby (1993) adotam o período que vai de 476 d.C. ao ano 1000 d.C. para tratar das temáticas referentes a este intervalo.
A Alta Idade Média se caracteriza como um período histórico bastante conturbado. Inicia-se com a invasão dos povos germânicos (visigodos, anglo-saxões, ostrogodos, etc.) em diversas regiões da Europa Ocidental.
Em consequência, houve o surgimento de vários reinos, cuja composição majoritária era de camponeses; estes serviam aos poucos mas poderosos proprietários de terra, legando, por conseguinte, à maioria da sociedade uma vida difícil, marcada por períodos de pobreza, fome e conflitos.
A mão-de-obra era servil em substituição à escravidão característica na Antiguidade.
A liberdade do servo, no entanto, era relativa, pois este dependia de seu senhor, que lhe dispunha a terra da qual dependia substancialmente para sobreviver e dali tirar seu sustento. Em contrapartida, tinha como garantia a estabilidade.
As cidades tinham importância secundária na época.
Pode-se até mencionar um êxodo urbano, dado o abandono do povo citadino em direção ao campo. Isto se deve, também, devido à crise perante a qual a Europa de então se deparava.
De acordo com as apreciações de Banniard (1989), é imprescindível mencionar na presente caracterização da Alta Idade Média a relevância do chamado Império Carolíngeo, cujo primeiro imperador foi o General Carlos Magno, um conquistador agressivo e, ao mesmo tempo, um político sagaz, experiente que empreendeu avanços nas áreas da cultura, culminando no Renascimento Carolíngeo; da educação, com a busca pela manutenção dos conhecimentos clássicos por meio das scholas; e da administração, como, por exemplo, a subdivisão territorial em condados sob supervisão constante de emissários do Imperador.
Embora seja tarefa difícil precisar a data em que a Alta Idade Média começa a decair, ocasionando um período de transição para o que se denominará pela maioria dos estudiosos de renome como Baixa Idade Média, podemos elencar alguns fatos que apontam para uma mudança de conjuntura, a saber, o aparecimento da burguesia e a consequente urbanização da sociedade, o fortalecimento do comércio, a centralização do poder clerical e, por fim, o surgimento das universidades – devido à Igreja, então detentora da missão de educar e produzir conhecimento.


A Escolástica.
A Escolástica é designada originalmente em latim pelo termo scholasticus, isto é, “pertencente à escola”. Embora exista uma escolástica de traços hebraicos e árabes, ateremo-nos no presente artigo à Escolástica latina gestada durante a Alta Idade Média, a partir do século V, e cujo auge perdurou do século XI ao século XV.
A Escolástica, em seu gérmen, surge em um contexto de transição entre o mundo antigo e o início de uma nova concepção do pensar e viver.
O grande Império Romano, devastado pelos bárbaros, ansiava por um improvável retorno.
O que se via era o desmoronar da civilização, do direito, da filosofia; enfim, urgia uma reação ampla e consistente que viesse a recolocar as ruínas e construir um novo mundo, uma nova cultura, ainda que alicerçada em conhecimentos outrora cultivados.
Surge, pois, o empenho em prol da reconstrução; e as scholas seriam um meio eficaz para um soerguimento sustentável.
De acordo com Marías (2004, p. 135) do século V até o século IX praticamente não houve uma produção filosófica propriamente dita; foi uma época de se lançarem as bases para, a partir do século XI, constituírem-se as sistematizações filosóficas mais relevantes do pensamento escolástico.
Oriunda dos pressupostos filosófico-teológicos da Patrística – no que se refere a uma busca pela conciliação entre a fé e a razão, teologia e filosofia; ou “teorização da ratio em função da fide”, no dizer de Reale e Antiseri (1991, p.478) – a Escolástica como um sistema organizado de pensamento nasceu aos poucos, nos mosteiros, nas catedrais e, posteriormente, inseriu-se nas universidades medievais, efetivando-se notoriamente a partir do século XI.
Trata-se, grosso modo, de um corpo de doutrinas dialética e logicamente articulado, de caráter crítico, assentado em debates acadêmicos – disputationes – onde a busca pela real significação do tema em questão era o objetivo a ser alcançado pelos debatedores, comumente sob a supervisão de um mestre que, por sua vez, geralmente era quem elaborava os chamados manuais – os quais intentavam uma didática na apreensão dos conhecimentos referentes às artes liberais (trivium: gramática, retórica e dialética; quadrivium: aritmética, geometria, astronomia e música) para um grau intermediário de instrução e, por fim, o estudo aprofundado das Sagradas Escrituras e de textos filosóficos e teológicos.

Corroborando o anteposto, pode-se afirmar:
“Mais que um conjunto de doutrinas, entendemos por escolástica ‘a filosofia e a teologia que eram ensinadas nas escolas medievais’ (S. Vanni Rovighi). [...] A partir da primeira reorganização medieval das escolas, promovida por Carlos Magno, o fechamento das últimas escolas pagãs, no início do século VI, por obra de Justiniano, além de um ato político, assinalou também o fim da cultura pagã. E a abertura de novas escolas ou a absorção das antigas em novas instituições educativas, por parte da Igreja, assinala o início da formação e organização, lenta e laboriosa, de uma nova cultura” (Reale; Antiseri, 1991, p.478).

Elucidar a teologia com o auxílio da filosofia sem prejuízo da doutrina cristã.
Essa foi uma marcante característica da Escolástica. Todavia, visava-se, sobretudo, o nascer e o desenvolver de uma nova mentalidade, tão universal quanto possível, em prol da denominada Cristandade. Pensadores de renome como Santo Alberto Magno e Santo Tomás de Aquino protagonizaram a produção teológica e filosófica do período.
Importa mencionar, entretanto, o evidente entrelaçamento entre teologia e filosofia no pensamento escolástico, saberes interdependentes (portanto, não excludentes) segundo a ampla visão medieval.
Ademais, observa-se notoriamente nesse período a ênfase na filosofia clássica de Aristóteles, vista como de possível adequação às regras imutáveis da fé cristã.
Outro ponto que marcou a filosofia escolástica foi a discussão sobre os universais.
Essa questão não tinha apenas um caráter filosófico, ontológico, mas trazia consigo a relevância de sustentar ou não os dogmas cristãos, dependendo da conclusão a que se chegasse.
Houve um intenso embate entre realistas, cujo representante-mor era Santo Anselmo de Cantuária, (concebiam os universais como realidade ontológica – imanentes ou transcendentes); nominalistas, que tinham como baluarte Guilherme de Ockham (para esses, os universais seriam apenas nomes, emissões fonéticas); e conceitualistas, capitaneados por Pedro Abelardo (supunham os universais como mera representação do intelecto).
Objetivando dar fim à querela, a autoridade intelectual de Santo Tomás de Aquino, recorrerá a Aristóteles, onde, por meio do princípio de individuação como matéria delimitada, o indivíduo – como substância primeira – se particulariza dentro de determinada espécie.
Em síntese, pode-se afirmar que a Cristandade foi fruto de uma cosmovisão cristã estruturada pelo projeto escolástico.
O que era pensado nos centros irradiadores de cultura refletia na mentalidade e, por consequência, no agir do grande público ao longo do tempo – dos pobres camponeses, servos, vassalos, suseranos ao clero, à nobreza; enfim, do menor ao maior, originando o que Gilson (2006, p. 2) chamará de espírito da filosofia medieval:

O espírito da filosofia medieval, tal como entendemos aqui, é portanto o espírito cristão, que penetra a tradição grega, trabalhando-a por dentro e fazendo-a produzir uma visão de mundo, uma Weltanschauung [cosmovisão] especificamente cristã. Foram necessários os templos gregos e as basílicas romanas para que houvesse catedrais [góticas]; no entanto, qualquer que seja a dívida dos nossos arquitetos medievais para com seus predecessores, eles se distinguem destes, e o espírito novo que lhes possibilitou criar talvez seja o mesmo que aquele em que se inspiraram, com eles, os filósofos [escolásticos] de seu tempo.


A arquitetura gótica.
Antes de adentrarmos propriamente nas tratativas que concernem à arquitetura gótica, é de importância capital uma apresentação do Estilo Gótico e suas características.

De acordo com Gozzoli (1978, p.03):
A arte gótica desenvolveu-se na Europa na última fase da Idade Média (séculos XII e XIV), num período de profundas transformações em que se assistiu à superação da sociedade feudal e à formação de novos centros de poder: as primeiras monarquias, as grandes cidades, o clero, as classes ‘novas’ e ricas dos comerciantes e banqueiros. Se o quadro econômico e social em que tal estilo floresceu é bastante claro, continua a ser pouco compreensível o motivo porque os historiadores da arte o denominaram gótico: com certeza que não terá sido por os godos – um povo originário da Escandinávia, muito provavelmente da ilha de Gotland – se terem distinguido pela sua habilidade como arquitetos (como todas as tribos bárbaras, eram nômades, que pouco se preocupavam com casas e menos ainda com igrejas, tanto mais que eram pagãos).
           
Bracons, (1992, p.03) nos apresentará uma outra versão, discordando, em partes, de Maria Gozzoli, particularmente no que tange à denominação do estilo em questão como ‘gótico’:
Em seu sentido mais estrito, arte gótica significaria arte própria dos godos. Não obstante, entende-se por arte gótica um extensíssimo conjunto de manifestações artísticas produzidas dentro do âmbito da cultura ocidental entre meados do século XII e o século XVI. Foram os teóricos do Renascimento que viram, na arte de épocas anteriores à sua, um reflexo da arte inventada pelos godos, que, após haver arruinado os edifícios antigos e matado os arquitetos nas guerras, passaram a construir cobrindo as abóbodas com arcos ogivais e inundaram toda a Itália com essa maldição de edifícios, dos quais não podiam ter feito mais (no dizer de Giorgio Vasari). Na realidade, para Vasari e seus contemporâneos existia uma clara contraposição entre uma arquitetura tedesca (germânica), ou maniera dei goti (estilo próprio dos godos), e o modo romano encarnado pelo ideal renascentista, que consideravam mais perfeito, na medida em que se relacionava com os modelos da Antiguidade clássica.

Apesar de não haver pleno acordo entre as concepções dos estudiosos da arte gótica apresentados, ambos nos fornecem dados importantes para uma visão teórica acerca da temática ora desenvolvida.
Percebe-se, ademais, que a arte gótica, longe de ser um fenômeno unívoco, se expressa em várias manifestações artístico-culturais, dentre as quais nos deteremos na arquitetura.

Bracons (1992, p.17) nos coloca ante o panorama da arquitetura gótica, seu nascimento e desenvolvimento:
O nascimento da arquitetura gótica e sua expansão inicial têm lugar na Île-de-France. O principal centro religioso daquela região onde a monarquia dos capetos exercia plenamente sua autoridade era a abadia de Saint-Denis (São Dionísio), que, além de santuário do evangelizador da França, foi panteão real e depositária das insígnias do poder. Em 1122, Suger assumiu o cargo de abade de Saint-Denis. Após sua designação, pôs-se a serviço da política de reintegração monárquica, chegando a se tornar conselheiro real e até a desempenhar a regência. Dentro da mesma linha de atuação, concebeu um projeto de renovação dos edifícios da abadia. [...] Os elementos arquitetônicos que configuram essas construções (principalmente o arco ogival e a abóbada de ogivas) foram tomados do repertório próprio da arte românica normanda. Entretanto, foram combinados segundo uma nova ordem, em virtude de uma proposta teórica que o próprio Suger expôs em volumosos livros.

O empreendimento pensado por Suger (considerado o primeiro mestre-de-obras da arquitetura gótica) tornou-se paradigma para as futuras edificações do estilo em questão. Esta afirmação é testemunhada pelas grandes obras que se realizaram no território então sob domínio do rei da França.
Construções de grande envergadura, a partir das quais se manifestou um crescente ímpeto de aperfeiçoamento e superação, fazendo com que a arquitetura gótica galgasse, em tempo relativamente curto, sua plena definição, chegando, inclusive, a se tornar a expressão da arte própria do domínio real francês.
O grande Auguste Rodin, por exemplo, registrou por escrito sua admiração para com as catedrais francesas. Sobre a catedral de Amiens, disse: “é o império absoluto da elegância suprema” (RODIN, 2002, p.87).
O contexto histórico-social no qual surgiu a arte gótica foi de transição, isto é, entre o fim do feudalismo e a criação das cidades, o que proporcionou uma considerável ascensão social por meio da produção de artesanato, do favorecimento da atividade comercial, bem como de uma religiosidade marcante coordenada pelo clero.
Assim, pois, a referida arte surgiu também como produto de um dinamismo social.
Na construção das catedrais, por exemplo, os habitantes das cidades tinham participação ativa. Era evidente o civismo e o orgulho em integrar o grupo de pessoas que construíam a catedral da cidade.

Aquela fé que nem sempre move montanhas, em Chartres com toda certeza moveu as pedras. Para construir a catedral, edição 1194, os habitantes travaram uma verdadeira disputa para oferecer dinheiro e mão-de-obra. Até mesmo das cidades vizinhas acorreram ricos e pobres, trazendo jóias, madeira, e quem nada tinha colocava à disposição do canteiro de obras músculos e entusiasmo. O bispo e os cônegos renunciaram durante três anos os seus rendimentos. As pessoas sadias ofereceram braços, as doentes colaboraram com suas orações. Alguns senhores, para pagar o pecado de soberba e de avareza, assumiram o lugar dos cavalos nas cangas dos carros, abaixaram-se para preparar argamassa juntos com seus criados, e, sujos assim, não mais se distinguia o patrão do servo, o vassalo do senhor (MARCHI, 1991, p.38).

Existia, ademais, até mesmo uma rivalidade entre as cidades, no sentido de qual teria a catedral mais alta e imponente.
Em grande parte, os estudos e tentativas acerca da arquitetura gótica desenvolveram-se em prol de se resolverem os problemas suscitados por um edifício específico, a saber, a catedral – que se tornará o grande referencial para a arquitetura gótica.
Esta, de acordo com Bracons (1992, p.19), tem como elementos arquetípicos “o arco ogival e a abóbada sobre cruzamento de ogivas ou abóbadas de ogivas”.
Poderíamos acrescentar, ainda, outros elementos que evidenciam a arquitetura gótica, como os contrafortes e arcobotantes (estes desempenham a função de transmitir àqueles o empuxo lateral da abóboda).
Observam-se, ademais, o transepto, o clerestório, as rosáceas, as fachadas frontais, os tímpanos com suas belas esculturas e os extasiantes vitrais que refletem a luz que vem do alto, com uma conotação mística toda particular ao pensamento medieval.
Contudo, existem outros elementos característicos das catedrais góticas, mas os supracitados traduzem o que se vislumbra em uma obra cujo estilo ora apresentamos.

Os céus contam a glória de Deus: as catedrais acrescentam a ela a glória do homem. Elas oferecem a todos a todos os homens um espetáculo esplêndido, reconfortante, exaltante; elas nos oferecem o nosso próprio espetáculo, a imagem eternizada de nossa alma, de tudo o que aprendemos a amar abrindo os olhos (RODIN, 2002, p.57).

No item subsequente, trataremos mais detidamente do âmbito estético e, portanto, filosófico nos quais as catedrais góticas se inserem.


A Escolástica e as catedrais góticas: relação causa e efeito.
‘Os criadores [das catedrais góticas] não foram os artistas, mas os filósofos eclesiásticos’, escreve Georges Duby, prosseguindo a reflexão de Ewin Panofsky sobre a obra do abade de Saint-Denis, Suger. Se algumas das suas conclusões devem hoje ser encaradas com reservas, dificilmente podemos encontrar melhor do que estes textos raros em que um patrono criador se explica sobre seu desígnio. Evidentemente, Saint-Denis não era uma catedral na Idade Média, mas esta abadia foi um tal manifesto da arte nova e teve uma tal influência sobre as obras contemporâneas que não poderíamos ignorá-la. Suger teria então concebido a sua igreja como uma obra teológica (DEMOUY, 2008, p.44-45).

A interrogação central a que este artigo pretende responder é se existe alguma relação de causa e efeito entre a filosofia escolástica e as catedrais góticas.
O excerto acima nos oferece um caminho para uma possível resposta.
Todavia, antes de responder ao mencionado questionamento, apresentaremos algumas características do contexto no qual as catedrais góticas foram pensadas, construídas e, posteriormente, entregues à posteridade como signo visível de um pensamento que intentava se perpetuar pelos séculos.

A todo aquele que permaneça de pé em alguma das grandes naves góticas e se deixa penetrar pelo ambiente do lugar, impõem-se simultaneamente duas impressões: sensações físicas e emoções espirituais. Ninguém pode furtar-se a sentir a poderosa sugestão que se desprende das linhas em ascensão vertical, a penetração e o envolvimento da luminosidade. Ao contrário da basílica romana, curvada sobre o chão, fortemente concentrada em si mesma e apoiada nas suas bases, a catedral gótica é um edifício ereto, uma igreja de pé. Ao contrário da pesada abóbada em semicírculo, que requer excessiva espessura das paredes, estreita as janelas e enche de sombra a nave à medida que esta se expande, a técnica gótica chama com veemência a luz e entrega-lhe todo o edifício para que o atravesse e ali se estabeleça. Os dois traços característicos que os nossos sentidos reconhecem na catedral gótica têm as suas correspondências instantâneas na alma. Alguma coisa se exalta nela quando se sente sobrenaturalmente ligada a esse impulso e a essa chamada das alturas. A instintiva felicidade que a luz derrama em grandes clarões não parece ser a promessa das elucidações definitivas, o reflexo terrestre da luz incriada? (DANIEL-ROPS, 1993, p.417).

Diante da colocação acima, surge-nos a inevitável pergunta: teriam os mestres-de-obras responsáveis pelas catedrais góticas proposto uma relação direta entre a verticalidade própria de suas edificações e a impulsão das almas dos fiéis ao Alto, ao Transcendente por excelência – Deus?
É certo que afirmar uma relação direta sem maiores reflexões seria um erro.
Os mestres-de-obras do período tinham em vista primeiramente a técnica, mas o mistério da arte propiciou as condições em que um perfeito jogo de concordâncias, através de um encontro de aspirações, pudesse atingir um êxito formidável e, a partir daí, assumir um sentido que toca ao âmbito espiritual; este, por sua vez, pressupõe que exista um pensar, uma filosofia de vida abrangente que fundamente os modos de ser, pensar e agir dos europeus no medievo.
Deste modo, corroborando Demouy (2008, p.44), pode-se afirmar que, em última instância, a filosofia escolástica, gestada e desenvolvida na Alta Idade Média, transmitiu seu legado à arquitetura das catedrais góticas.
Existe, pois uma expressão concreta e natural do pensamento escolástico na arquitetura das catedrais góticas, ambos refletem a cosmovisão cristã que se instaurara através dos séculos da Alta Idade Média.

Os ensinamentos de uma filosofia – a escolástica – que enquadrava harmoniosamente todo o saber do tempo e afirmava a possibilidade de ascensão a Deus não só pela fé, como pela razão. Chegava-se a Deus por um esforço do pensamento, complexo mas requintado, rigidamente formal mas rico de sutilezas. Esses mesmos conceitos que, em arquitetura, inspiraram as catedrais góticas, a sua ascensão para Deus, através de construções complexas mas requintadas, formalmente rigorosas, mas de igual modo ricas de pormenores. A enfática verticalidade de tais edificações revela plenamente as transformações do gosto, do pensamento filosófico, dos ideais estéticos, traduzidas, no plano arquitetônico, por uma renovação das técnicas mediante a introdução de uma série de elementos originais típicos do estilo gótico (GOZZOLI, 1978, p.08-09).

Por fim, infere-se que é perfeitamente possível e sustentável uma argumentação em favor da relação causa-efeito entre o pensamento escolástico e a arquitetura das catedrais góticas medievais.
Sobre a questão, Gomes (2010, p.90), evidenciando a visão do crítico, historiador da arte e profundo conhecedor da estética arquitetônica gótica, o alemão Erwin Panofsky, assevera:

A ideia de relacionar a escolástica com as catedrais góticas não é nova. Dentro de todas as analogias possíveis, Erwin Panofsky destaca a coincidência no tempo e no espaço entre ambos os fenômenos. Tal paralelismo temporal não pode ser compreendido como mera casualidade, mas trata-se de uma relação tão marcante que os historiadores da filosofia e da arte estabelecem sem maiores questionamentos. Assim, o gótico surge como fruto de um movimento iniciado na Ille de France, verdadeiro núcleo geográfico da escolástica. Dali se irradia, tomando características locais, mas mantendo sempre seus elementos fundamentais. Num círculo de aproximadamente 150 quilômetros, traçados de Paris como centro, abarcou tanto os primeiros representantes da nova forma de pensar, como as igrejas ogivais do primeiro período. Por mais de um século e meio, essa região iria manter-se como plataforma para o desenvolvimento tanto da filosofia escolástica quanto das catedrais góticas.


A Idade Média sob o paradoxo da luz.
A classificação da Idade Média como “Idade das Trevas” tornou-se um clichê nocivo à verdade dos fatos que se nos apresentam mediante uma pesquisa honesta sobre em que realmente se consistiu a medievalidade.
A percepção de acontecimentos favoráveis ou negativos à civilização é cabível a qualquer momento histórico.
As sombras só são vistas onde habita a luz.
São evidentes os percalços ocorridos nos dez séculos que abrangem o medievo e seria estultice negá-los; igualmente parvo seria desconsiderar culposamente as notáveis contribuições legadas à humanidade advindas do período em questão.

Se a idade do meio foi uma longa noite entre a antiga e a moderna, naquela noite, como observou alguém, as estrelas brilharam. Ela foi muito menos ‘medieval’ do que nos leva a crer a indolência do lugar-comum, para o qual Idade Média significa inquisição, fogueiras e nada mais. Devemos a ela invenções tecnológicas (o moinho de vento) ou a aplicação sistemática de invenções anteriores, já não tão usadas (o moinho a água). A ela devemos a letra de câmbio, o contrato de seguro, a democracia comunal, as sumas filosóficas, a Chanson de Roland e a Divina Comédia. E a ela devemos as catedrais e o desenvolvimento econômico (MARCHI, 1991, p.09).

Classificar moinhos movidos a água e a vento como avanços tecnológicos parece inadequado aos nossos dias.
No entanto, trata-se de invenções que durante vários séculos auxiliaram no beneficiamento de alimentos em toda a Europa.
No tocante às ciências, ignora-se quase que por completo os grandes contributos da Idade Média. Todavia, os grandes estudiosos do período são praticamente unânimes em afirmar que no medievo, em alguns setores, avançou-se mais que em outros períodos da História.

O inventário completo dos tratados de medicina, de matemática, de astronomia, de alquimia, de arquitetura, de geometria e outros não foi ainda levado a cabo, e os seus textos permanecem, na maior parte, inéditos. Os esforços tentados nesse sentido foram até aqui fragmentários e não permitem uma visão de conjunto da ciência medieval. Mas o que se sabe de preciso permite constatar que ela foi muito mais extensa do que o que tem podido supor-se e que se aparentava à nossa em muitos pontos. Um Roger Bacon, em pleno século XIII, conhecia a pólvora de canhão, o uso das lentes convexas e côncavas. Alberto Magno tinha feito, sobre a acústica e os tubos sonoros, investigações que o haviam conduzido a construir um autômato falante – oitocentos anos antes de Edison. Arnaud de Villeneuve, que ensina em Montpellier, descobre o álcool, o ácido sulfúrico, o ácido clorídrico, o ácido azótico. Raimond Lulle pressentiu a química orgânica e a função dos sais minerais nos seres organizados. Por intermédio dos árabes, a Idade Média beneficiou a ciência dos Persas, dos Gregos, dos Judeus, e pôde realizar a sua síntese, assimilando os conhecimentos astronômicos dos Sírio-Caldeus e a medicina hebraica. Oxford, onde ensinava Robert Grossetête, o mestre de Roger Bacon, era para os estudantes de matemática o mesmo que Montpellier para os estudantes de medicina, e grandes personagens como o rei de Espanha Afonso X, o imperador Frederico II, ou Roger, rei normando da Sicília, mantinha, a exemplo de Carlos Magno, uma corte de sábios: geógrafos, físicos, alquimistas – do mesmo modo que tinham os seus filósofos e os seus poetas (PERNOUD, 1997, p.157).

Deve-se, ainda, à Idade Média, o surgimento de várias das hoje consideradas melhores universidades do planeta; a criação dos hospitais; no campo da literatura, as epopeias, romances de cavalaria, novelas amorosas, poesias, fábulas, etc.; a própria vida cotidiana traz a marca de uma civilização já refinada.
Basta dizer que a higiene estava mais desenvolvida do que no século XVII. A hierarquia social assentava essencialmente os laços familiares; as mulheres tinham direitos que perderam a partir do século XVI.
Apresentar todas as luzes que permearam a Idade Média seria impossível ao espaço ao qual se limita o presente artigo.
O supracitado, porém, nos oferece as evidências necessárias para descrer das conotações falaciosas, repletas de preconceitos e reducionismos, dirigidas ao medievo.
Afirma-se a existência de sombras na medievalidade, mas questiona-se, também: em qual período da História não os houve?
Óbvia é a resposta: as mais diversas vicissitudes acompanham o ser humano da Antiguidade aos dias atuais e a Idade Média não se constitui de modo algum o período nefasto, cuja imagem geralmente se procura propagar.


Concluindo.
A Alta Idade Média foi o período de surgimento e desenvolvimento da filosofia escolástica. Esta preconizava o soerguimento da civilização, profundamente abalada pela destruição posterior às invasões bárbaras e a consequente queda do Império Romano do Ocidente.
A religião cristã surge então como proposta viável à restauração que se buscava.
De Santo Agostinho a Santo Tomás de Aquino, dentre outros grandes nomes, procurou-se a justificação racional do cristianismo por meio da filosofia grega, particularmente a platônica e a aristotélica.
Criou-se, pois, um modo de pensar o mundo e o ser humano com relação à transcendência divina à qual o homem estava subordinado em status ontológico intermediário entre o celeste e o terrestre.
Trata-se da chamada cosmovisão medieval.
Neste contexto nasceu a chamada arte gótica, traduzida extraordinariamente na arquitetura das catedrais medievais.
Estas tinham como características a evidente verticalidade, proporcionando a sensação de um movimento que tende para o alto, não obstante o peso da pedra; arcos e abóbadas em formato ogival; as paredes finas; os contrafortes e arcobotantes externos à estrutura; os elevados campanários piramidais; as belas rosáceas; os vitrais; o transepto; o clerestório; as imponentes fachadas e o tímpano, dentre outras.
Diante de tal panorama, críticos e historiadores da arte, como Wilhelm Worringer e Erwin Panofsky, apresentam evidências que denotam peremptoriamente a relação de causa e efeito entre a Escolástica e a estética arquitetônica das catedrais góticas medievais.
Analogias que se podem observar como, por exemplo, a coincidência espaço-temporal que foge à casualidade; o apogeu do pensamento escolástico em suas particularidades que se assemelham às notas características do gótico clássico; a estruturação da suma teológica de Santo Tomás de Aquino e a renovação das técnicas e formas arquitetônicas que tornaram possível tamanha verticalidade e leveza nos edifícios religiosos.
Contudo, é o intento da sóbria relação entre imanente e transcendente; razão e fé; corpo e alma que se destacam, seja no pensamento escolástico, seja na “petrificação” do mesmo, proporcionados pelo estilo gótico em favor do testemunho da posteridade.
Evidencia-se, por fim, a real grandeza do período medieval – erroneamente rotulado de obscurantista e retrógrado.
Afinal, foi nestes tempos que advieram as universidades, os hospitais, o incentivo ao saber e ao direito universal; a reestruturação da civilização destruída pelos bárbaros, bem como a guarda e cópia dos textos clássicos – sem os quais a humanidade empobreceria em cultura; podem-se mencionar ainda os pensadores de renome da época como Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino, Santo Alberto Magno, Boécio dentre muitos outros que nos presentearam com suas produções filosóficas.
Por conseguinte, inegáveis são as sombras e equívocos que se apresentaram no medievo; inequívocas, porém, são as demonstrações que apontam para uma imensidão de luzes que até os dias atuais propagam seu fulgor.

Finalizando as asserções do presente texto, vale mencionar o convite que o grande escultor Auguste Rodin nos dirige acerca das catedrais góticas:
Eu gostaria de contribuir para que se amasse essa arte grandiosa, de concorrer para salvar o que ainda resta intacto, de reservar para nossos filhos a grande lição desse passado que o presente desconhece. Com esse desejo, tento despertar os espíritos e os corações para a compreensão e para o amor. Mas não posso dizer tudo. Vocês têm de ir ver (RODIN, 2002, p. 5).


Para saber mais sobre o assunto.
BANNIARD, Michel. A Alta Idade Média Ocidental. Mem Martins: Europa-América, 1980.
BANNIARD, Michel. Gênese cultural da Europa. Lisboa: Terramar, 1980.
BOEHNER, Philotheus; GILSON, Etienne. História da Filosofia Cristã: desde as origens até Nicolau de Cusa. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 1991.
BRACONS, José. Saber Ver a Arte Gótica. São Paulo: Martins, 1992.
DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja das Catedrais e das Cruzadas. São Paulo: Quadrante, 1993.
DEMOUY, Patrick. As Catedrais. Mem Martins: Europa-América, 2008.
DUBY, Georges. O Tempo das Catedrais: a Arte e a Sociedade (980-1420). Lisboa: Estampa, 1988.
ECO, Umberto. Arte e beleza na estética medieval. São Paulo: Record, 2010.
FOCILLON, Henri. Arte do Ocidente: a Idade Média românica e gótica. Lisboa: Estampa, 1980.
GILSON, Etienne. O Espírito da Filosofia Medieval. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
GILSON, Etienne. A Filosofia na Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
GLANCEY, Jonathan. A História da Arquitetura. São Paulo: Loyola, 2007.
GOMBRICH, Ernst Hans Josef. História da Arte. 16. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2000.
GOZZOLI, Maria Cristina. Como reconhecer a Arte Gótica. Lisboa: 70, 1978.
LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente Medieval. São Paulo: EDUSC, 2005.
LOYON, Henri R. Dicionário da Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
MARCHI, Cesare. Grandes Pecadores, Grandes Catedrais. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
MARÍAS, Julián. História da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
PANOFSKY, Erwin. Arquitetura Gótica e Escolástica. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
PERNOUD, Regine. Luz sobre a Idade Média. Lisboa: Europa-América, 1983.
REALE, Giovanni; ANTISSERI, Dario. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1990. v. 1.
RODIN, Auguste. Grandes Catedrais. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
WORRINGER, Wilhelm. A Arte Gótica. Lisboa: 70, 1992. 


Texto: Jorge Donizetti Pereira.
Concluinte do Curso de Graduação Licenciatura em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano – SP.