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Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Consciência histórica e narrativa histórica: a abordagem de Jörn Rüsen.

 
Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 5, Volume dez., Série 02/12, 2014, p.01-06.


Profª Drª Marilda Soares.

Doutora em História Social - FFLCH/USP.

Consultora do CONEPIR-Piracicaba.




Considerando a influência das representações e dos significados atribuídos aos eventos e às experiências temporais humanas sobre o entendimento da história e a construção de uma consciência histórica, cabe ressaltar a importância da abordagem teórica de Jörn Rüsen – estudioso da filosofia, pedagogia e literatura alemã e, especialmente, da Teoria da História; ex-presidente do Kulturwissenschaftliches Institut, em Essen, Alemanha –  para a análise do tema.

“A história possui um sentido cognoscível?”, “Como se constitui o pensamento sobre a história que se apresenta como ciência?”.

Estas são algumas das problemáticas iniciais anunciadas por Jörn Rüsen acerca da produção de um conhecimento histórico, seus vínculos com a razão e seu transido entre a ciência e a práxis, a razão e os sentidos.


 
Razão e consciência Histórica.

De acordo com Rüsen, “Se a ciência histórica pretende ser uma instância racional no trato da história (pretensão com que se legitima), então não lhe é permitido simplesmente ignorar a questão da razão, originada na incontornável carência de orientação da práxis humana e pilar do pensamento histórico.

A ciência histórica está, assim, entre a cruz e a caldeirinha: como ciência, ela não é a especialidade competente para responder às perguntas fundamentais sobre o sentido e, no entanto, ela se sabe movida por tais questões, o que a impede de ignorá-las” (Razão histórica: 12).
O autor elabora uma abordagem crítica da Teoria da História, explicitando seus questionamentos e intenção de desnudar os procedimentos adotados para a produção do conhecimento histórico enquanto racionalidade e fundamentação para o conhecimento do passado.

Segundo ele, o conhecimento histórico extrapola os limites da História e da Teoria da História, abrangendo teoria, reflexão e prática, ultrapassando, portanto, o trabalho dos historiadores:

“Ora, a práxis dos historiadores – vale dizer, sua pesquisa e sua historiografia – é por sua vez “teoria” (no sentido coloquial do termo) porque, como operação cognitiva, vai além do agir prático, colocando-o, por conseguinte, em uma perspectiva de dimensão histórica que os profissionais, em sua prática concreta, não tematizam explicitamente. Com respeito a essa dimensão “teórica”, a teoria da história é uma metateoria, uma teoria (reflexiva) da teoria, um pensar sobre o pensamento histórico, cujo eixo é a racionalidade (Razão Histórica: 15).

O esforço para descobrir o passado humano, uma visitação aos conteúdos, eventos e sentidos do passado, efetiva-se mediante as referências de vida e experiências que compõem o repertório de conhecimentos daquele que realiza essa operação cognitiva de desenvolvimento da consciência histórica.

Os princípios do pensamento histórico, objeto da Teoria da História, estão mesclados em diferentes de formas de pensar a história, abordagens, métodos, representações, intenções e manifestações empíricas, concepções diferenciadas e contraditórias, resultando em uma grande dificuldade para definir seu campo de análise e a necessidade de pensar sobre si mesmo enquanto princípio de investigação racional e científica.

O pensamento histórico tem uma ambiciosa intenção de racionalidade, define-se por critérios de cientificidade, apresenta-se como objetivo e busca sobrepor-se a interpretações contrárias recorrendo à força da argumentação.

Por essa razão, afirma Rüsen, é necessário “desenvolver sistematicamente as questões da teoria da história em articulação com a práxis a pesquisa histórica e da historiografia” e  compreender que “a formulação sistemática de soluções somente seriam adequadas funcionalmente se se considerar apenas uma etapa de uma caminho a ser continuado, cuja direção só se pode descobrir à medida em que é percorrido” (Razão Histórica: 21).

O fato é que o pensar histórico propriamente, seja por meio da adoção de rigorosos critérios de investigação e análise de fontes documentais fidedignas, seja pelo contato ulterior com as produções acadêmicas ou artísticas, ou mesmo objetos do mass media, produz consciência histórica, ainda que seus conteúdos possam e devam ser questionados quanto à extensão e à qualidade dessa consciência histórica.


A formação da consciência histórica.

Ao estudar a formação e o desenvolvimento da consciência  histórica, Jörn Rüsen elaborou o conceito de “tipologia geral da consciência histórica”, sistematizando as suas manifestações de racionalidade em quatro formas diferenciadas as quais denominou “Consciência Tradicional, Consciência Exemplar, Consciência Crítica e Consciência Genética”.

No texto intitulado "O desenvolvimento da competência narrativa na aprendizagem histórica": uma hipótese ontogenética relativa à consciência moral, o autor expõe os conceitos formulados.

A consciência tradicional corresponde a uma forma mais estabilizada e, portanto, menos dinâmica de apreensão do passado, das experiências vividas, sendo os valores morais inquestionáveis e as experiências não problematizadas, mostrando-se mais conservadora. 

A consciência exemplar considera a variedade das experiências humanas como representativas de regras gerais e atemporais, de modo que a argumentação corresponde à generalização e à regularidade dos princípios.

A consciência crítica apresenta um caráter de negação das totalidades temporais e de ruptura com as experiências anteriores, com a inserção de pontos de vista próprios e a crítica das ideologias e dos valores morais pré-existentes.

A consciência genética, por sua vez, insere a perspectiva de criação de novos modelos culturais e de ação mais aceitáveis e condizentes com as necessidades do tempo presente, aceitação de diferentes pontos de vista, validade e mudança dos padrões morais segundo sua temporalidade, mostrando-se transformadora e com alto grau de complexidade (O desenvolvimento da competência: 63).

Nas palavras de Rüsen, a  consciência histórica na sua forma mais elaborada permite aos indivíduos “sua própria autorrelação como dinâmica e temporal.

Eles compreendem sua identidade como ‘desenvolvimento’ ou como ‘formação’, e ao mesmo tempo, com isso, aprendem a orientar temporalmente sua própria vida prática de tal forma que possam empregar produtivamente a assimetria característica entre experiência do passado e expectativa de futuro para o mundo moderno nas determinações direcionais da própria vida prática (Aprendizado histórico: 46)

A memória é matéria-prima para a operacionalização da consciência histórica.

É por meio dela que os eventos passados são relembrados e atualizados, mediante as questões postas pelo presente e como forma de ligação entre diferentes temporalidades.

É a memória que permite a lembrança e a efetiva continuidade do tempo e fornece aos homens os elementos necessários à reflexão, pela observação direta ou indireta, sobre os eventos passados e a análise crítico-comparativa destes com os eventos presentes.

A linguagem é o instrumento e o meio pelo qual o homem socializa suas experiências afetivas ou intelectuais e é, também, uma operação de construção e reconstrução de sentido.

Pelo uso e elaboração da linguagem gestual, falada, escrita, artística, arquitetônica, etc., os seres humanos expressam formas de compreensão da realidade, intenções, questionamentos, gostos e valores.

É por meio da linguagem que a memória surge para “presentificar” o passado conferindo-lhe existência no momento em que está sendo evocado.


Memória, narrativa e consciência histórica.

A memória dos feitos humanos mantém-se, especialmente, pela narrativa histórica, que garante a possibilidade de leitura e releitura do passado, e pela mediação da linguagem, que permite a organização dos acontecimentos ao longo do tempo e o estabelecimento da relação entre eles, com a percepção de causa e efeito (ou consequência).

Memória e linguagem constituem, portanto, o elo entre o que já se fez e o que se faz agora, por meio da continuidade temporal e das ligações  de sentido.

Como afirma Rüsen, “a narrativa constitui (especificamente) a consciência histórica na medida em que recorre a lembranças para interpretar a experiência do tempo”, porém “a mera subsistência do passado na memória não é constitutiva da consciência histórica” (Razão histórica: 62).

Para que a consciência histórica se constitua é necessária a correlação entre o presente e o passado e sua expressão por meio da narrativa histórica.

Poder-se-ia  assegurar, ainda, que o contato com a memória, em seus diferentes suportes, gera conhecimento histórico, pois permite uma mobilidade temporal que desloca o indivíduo da sua realidade imediata, levando-o a espaços e tempos distintos, possibilitando o encontro entre o vivido e outras culturas, civilizações presentes ou passadas, e mesmo projeções de situações futuras.

O compartilhar desse conhecimento, por meio de novas elaborações cognitivas, é sempre mediado pela narrativa histórica, e esta pelo repertório intelectual, o lugar social, as ideologias, as concepções do narrador, as mentalidades do tempo no qual se fala, os recursos discursivos e mesmo as relações afetivas entre o narrador e o objeto da narrativa.

O passado narrado é uma abstração do tempo no qual se fala, ele não existe tal como está sendo descrito ou interpretado.

O passado não existiu exatamente como é registrado pela memória ou definido e redefinido pelas narrativas históricas que o representam em diferentes tempos e contextos.

O que valida a narrativa é seu caráter de racionalidade, evidenciado pela cognição e capacidade argumentativa.

É por meio da argumentação que a narrativa torna-se mais ou menos inteligível e plausível.

É por meio dessa racionalidade – que se converte em conhecimento e consciência e que se exprime em narrativas e argumentos que formam outras consciências – que, segundo Rüsen, o indivíduo se percebe como um sujeito histórico inserido em um tempo e contexto específico, portanto, dimensiona historicamente sua existência.

Assim, a partir dessa compreensão, explicita-se o papel do saber histórico na formação da identidade histórica dos indivíduos e grupos humanos.

 
Regras do pensamento histórico.

Abordando as regras do pensamento histórico, Jörn Rüsen apresenta uma síntese esquemática da relação entre cinco aspectos que julga interligarem-se na formulação do conhecimento histórico enquanto busca de entendimento do passado para responder a questões de ordem teórica e prática postas pela dinâmica histórica do tempo presente e que se constituem, pois, em parte dos recursos motivadores ou impulsionados das mudanças históricas, apresentando-os em uma representação gráfica:
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A consciência histórica é, segundo o pensador, “a soma das operações mentais com as quais os homens interpretam sua experiência da evolução temporal de seu mundo e de si mesmos, de forma tal que possam orientar, intencionalmente, sua vida prática no tempo” (Aprendizado histórico: 57).
 
Ou seja, a consciência histórica é a atribuição de sentido para a experiência histórica passada (vivida ou sabida) colocada em relação ao tempo presente e às expectativas de futuro, o que se traduz em elaboração cognitiva, orientação e motivação para as ações.

 
Concluindo.

Rüsen  estabelece uma linha divisória entre o conhecimento histórico que se produz como ciência e o conhecimento histórico comum, bem como entre o âmbito da ciência especializada e da vida prática, mas ressalta a interdependência dos fatores e sua atuação em ambos os casos.
 
São eles: as ideias, “perspectivas orientadoras da experiência do passado”; os métodos, “regras da pesquisa empírica”; as formas de apresentação; as funções “de orientação existencial”; e os interesses, “carências de orientação no tempo”.

Tal entendimento é fruto de processo intelectual que dimensiona as transformações e permanências ocorridas ao longo do tempo, dando sentido ao tempo e às experiências humanas não apenas no passado, como também no presente, tendo, portanto, um caráter intelectual e político.

Assim sendo, o conhecimento histórico e a consciência histórica não estão restritos ao saber individual, mas ligados a saberes que se ampliam e transformam permanentemente,  pois aquele que detém o conhecimento serve-se dele para expandir sua compreensão e interpretação do mundo, bem como para ressignificar sua própria prática cotidiana  e interferir na formação de outras consciências e práticas.

 
Para saber mais sobre o assunto.

BAROM, Wilian Carlos Cipriani; CERRI, Luis Fernando. A teoria da história de Jörn Rüsen entre a modernidade e a pós-modernidade: uma contribuição à didática da história. Educação & Realidade, vol. 37 nº 3, Porto Alegre, Sept./Dec. 2012.

RÜSEN, Jörn. Aprendizado histórico. In: SCHMIDT, Maria Auxiliadora; BARCA, Isabel; MARTINS, Estevão Rezende (org.) Jörn Rüsen e o ensino de História. Curitiba: Ed. UFPR, 2010.

Rüsen, Jörn. O desenvolvimento da competência narrativa na aprendizagem histórica: uma hipótese ontogenética relativa à consciência moral (In: SCHMIDT, Maria Auxiliadora; BARCA, Isabel; MARTINS, Estevão Rezende (org.) Jörn Rüsen e o ensino de História. Curitiba: Ed. UFPR, 2010.

Rüsen, Jörn. Razão histórica. Teoria da História: os fundamentos da ciência histórica. Brasília: Editora UnB, 2001.

Rüsen, Jörn. Reconstrução do passado. Teoria da história II: os princípios da pesquisa histórica. Trad. de Asta-Rose Alcaide. Brasília: Ed. UnB,  2007.

SCHMIDT, Maria Auxiliadora; BARCA, Isabel (org.) Aprender história: perspectivas da educação histórica. Ijuí: Ed. Unijui: 2009.

SCHMIDT, Maria Auxiliadora; BARCA, Isabel; MARTINS, Estevão Rezende (org.). Jörn Rüsen e o ensino de História. Curitiba: Ed. UFPR, 2010.
 
 
 

domingo, 1 de dezembro de 2013

O paradigma histórico do século XVIII: a oposição entre o conceito de história de Rousseau e Voltaire.

 

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 4, Volume dez., Série 01/12, 2013, p.01-08.

 

Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

Doutor em história social - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.
Licenciado em história - CEUCLAR.
Licenciado em filosofia - FE/USP.
Bacharel em filosofia - FFLCH/USP.

 


Para além da celebre polêmica entre Rousseau e Voltaire, este ultimo oculto atrás de D´Alembert, sobre a se a comedia era boa ou má para Genebra; os dois pensadores divergiram também quanto ao conceito e concepção de história.
Somente no século XIX a história passou a ser encarada como uma ciência, embora o cientificismo em voga considerasse que os documentos falavam por si; a concepção de história, tal como entendida hoje, nasceu com a escola de Annales.
A fundação da revista francesa Annales Économiques et Sociales em 1929, por Lucien Febre e Marc Bloch, reinventou a história.
Mas qual é a relação entre o cientificismo do século XIX e a escola de Annales do século XX com a concepção de história de Rousseau e Voltaire do século XVIII?
Para chegar a atual concepção de história que procura hoje valorizar a reconstituição do cotidiano do homem comum, da mentalidade, da economia e da sociedade como um todo; o conceito de história passou por mudanças significativas de paradigma.
Afirmação que coloca em evidencia o fato de existirem pelo menos três paradigmas ao longo da história da historiografia contemporânea, contestando um velho tabu entre historiadores e filósofos.
A maioria dos quais defende a ideia de que em se tratando de análise histórica não existem paradigmas.
Estes argumentam que a história, a semelhança das ciências sociais, não atingiu ainda um paradigma.
No entanto, o iluminismo, o cientificismo e o presentismo são encarados como paradigmas da construção da história enquanto ciência.
A despeito de paradigmas anteriores serem deixados de lado, não se pode negar que a história como ciência nasceu no século XIX, mas seus antecedentes estão presentes no século XVIII.
A metafisica, neste mesmo período, foi considerada uma ciência, hoje considerada um nominalismo sem sentido cientifico; visto que a Escola de Viena, Popper, Khun, Feyerabend e outros formularam, no inicio do século XX, critérios de demarcação que terminaram por separar definitivamente a metafisica da ciência.
Igualmente, a história do século XVIII foi uma ciência dentro da acepção de racionalidade para a época; constituindo uma ciência da memoria, portanto, inserida no âmbito de um paradigma diferente do atual.
 

O paradigma de Rousseau e Voltaire.
A primeira revolução paradigmática, como diria Khun, ocorreu no século XVIII, com o iluminismo, alavancada pela oposição entre o conceito de história defendido por Rousseau e Voltaire.
Foi quando a história ganhou peso, na medida em que de mera retratação da vida dos reis e dos feitos dos grandes homens, que por serem supostamente magníficos deveriam ser lembrados.
No seio do iluminismo, a história passou a constituir um tensor contraposto a razão.
A partir da desta primeira mudança paradigmática, decorreu depois a revolução que originou o cientificismo do século XIX e a escola de Annales no século XX.
A história como ciência nasceu no século XIX, mas foi no século XVIII que passou a ser norteada pela primeira vez por um paradigma.
Por esta razão, antes de discutir qualquer outra escola historiográfica, é necessário examinar o paradigma iluminista.
Para tal, procuraremos expor duas concepções opostas de história, em voga no período, que rivalizaram: o conceito de Rousseau e Voltaire.
Embora tenham existido outros pensadores iluministas que abordaram a história, todos se aproximaram mais de um ou de outro, tornando as ideias dos dois dominantes.



A concepção de história antes do século XVIII.
Os cronistas dos séculos XVI e XVII construíram importantes fontes históricas, porém não foram historiadores no sentido contemporâneo do termo, a despeito de se considerarem como tal.
Um fenômeno típico da constituição da historiografia, visto que, como salientou Walter Benjamin, voluntaria ou involuntariamente, ao retratar o passado, o historiador termina também refletindo a concepção de sua época sobre determinado fato, assim como o paradigma histórico vigente em sua época.
Tais concepções pertencem sem duvida à filosofia da história e, é justamente no século XVIII que nasce.
O ideal iluminista, como lembrou Ernst Cassirer, colocou no centro das discussões os problemas da natureza e da história enquanto formando uma unidade impossível de se desfazer.
No entanto, como demonstrou Paul Hazard, até então a história não passava de uma série de acontecimentos maravilhosos, uma mera narrativa de guerras, rebeliões, motins, processos e amores.
A história era um artificio retorico, cuja função era mais divertir e entreter do que ensinar algo à humanidade.
Muitos destes retóricos narraram os acontecimentos do passado alterando a descrição dos fatos observada nas fontes, sem citar os autores consultados, criando uma memoria artificial construída de acordo com os interesses políticos vigentes daqueles que estavam no poder.
Uma prática vigente ainda no século XVIII e cujus remanescentes, incorporados ao romantismo histórico, sobreviveram ao século XIX e inicio do XX, suscitando questionamentos até hoje.
Não obstante, somente com a oposição de ideias entre Rousseau e Voltaire este panorama começou a se alterar.
 

A influência da enciclopédia.
Em 1757, Diderot e D’Alembert organizaram a Enciclopédia ou Dicionário raciocinado das ciências das artes e dos ofícios por uma sociedade de letrados, onde um quadro do sistema figurado do conhecimento humano foi dividido em três grandes ramos: história, razão e imaginação.
A razão se subdividia em metafisica, lógica, moral, matemática e física particular.
Entre estas apenas a lógica e a moral eram consideradas ciências do homem, o que atualmente chamaríamos de ciências humanas.
A imaginação agregava a poesia, entre outras artes, cujo ramo profano comportava música, pintura, escultura, arquitetura civil e gravura.
Ao passo que a história constituía a arte da memória, dividindo-se em eclesiástica, civil e natural.
Para os enciclopedistas, a história não era uma ciência, muito menos humana, aproximando-se mais da arte.
De fato, embora atualmente consideremos a historia como uma ciência, não deixa de ser também uma arte da memória, pois, como salientou o professor Ulpiano, é uma cativa da memória.
Embora uma seja distinta da outra, na medida que a memória é um instrumento da história e não a própria história, seria esta memória que assumiria o significado de história para o paradigma iluminista.
Curiosamente, forjando o mesmo conceito de memória em voga até hoje, ou seja, vinculada a concepção de raízes fixadas no passado e presente.
 

O conceito de memória.
A memória é o mecanismo de registro e retenção de informações, conhecimentos e experiências de um individuo ou, no caso da memória histórica, da humanidade.
Segundo o conceito de memória utilizado em nossos dias, a memória seria a retenção dos fatos passados traspostos para o presente.
Neste sentido, como em todas as épocas, o papel da memória seria transmitir o conhecimento acumulado, exatamente uma das razões que torna o homem diferente dos outros animais.
Portanto, o papel da memória é servir de objeto da história, realizando uma determinada leitura do passado.
O que transforma a memória em fonte maleável, visto que o historiador utiliza partes desta que interessam sua interpretação do presente, narrando o passado com o objetivo de tentar entender o presente.
Para Rousseau residiria nesta característica uma natureza defeituosa, exatamente porque a historia registraria somente os fatos sensíveis e marcantes; ou seja, não vê todas as ações humanas, mas só certos momentos escolhidos com determinados objetivos.
Ao passo que para Voltaire, os primeiros fundamentos de toda historia se encontrariam nas narrativas que os pais fazem aos filhos; portanto, a memória seria pura história, transmitida de geração em geração.
Podemos facilmente notar que tanto um como outro terminaram influenciando a concepção de memória ainda hoje utilizada entre historiadores; não existindo grande distinção, neste ponto, entre o paradigma iluminista, cientificista e o presentista.
A despeito do iluminismo considerar a história uma arte a as tendências do século XIX e inicio do XX uma ciência; será que ao analisar especificamente o conceito de história de Rousseau e Voltaire, em oposição a concepção cientificista e presentista, também não encontraríamos diferença?
 

O conceito de história de Rousseau.
Em seu Emilio ou da educação, entre outras considerações, Rousseau terminou exlicando que, segundo sua visão, “para conhecer os homens é preciso vê-los agindo”.
Só a história é capaz de expor os fatos “sem véus”, contrariando a concepção em uso no século XVIII.
A história, para Rousseau, seria mais uma ciência do homem do que simplesmente arte da memória.
O estudo mais “conveniente ao homem” seria “o de suas relações” com os outros homens e “com as coisas”, pois a única maneira de instruir o homem seria “instrui-lo por princípio e fazê-lo conhecer, com a natureza do coração humano, a aplicação das causas externas que transformam nossas inclinações em vícios”.
Portanto, a história não seria mero meio de entender o presente, mas um instrumento no sentido de comunicar ao homem a origem de seus erros.
Embora o estudo da história seja útil ao homem, “infelizmente este estudo” teria seus “perigos” e “inconvenientes”, já que privilegiaria a exaltação das “más qualidades” em detrimento das “boas”.
Isto, a medida a história se interessa apenas pelas “revoluções e catástrofes”, deixando de lado a exaltação dos povos que crescem e prosperam “na calma de um governo sereno”.
Para Rousseau, a narrativa histórica começaria “a falar destes quando” entrassem em “declínio”, iniciando por onde deveria terminar, celebrando os maus e esquecendo ou ridicularizando os bons momentos da humanidade.
Ele enxergava na exaltação dos maus costumes do passado um exemplo a ser imitado, criticando as narrativas históricas em uso no seu tempo.
As quais, na sua concepção, esqueciam-se de louvar as boas ações do passado, deixando de incitar a imitação no presente.
Como todo iluminista, visualizava na história exemplos a serem ou não imitados e não um meio de tentar entender a situação presente.
Simultaneamente, questionava e exatidão dos fatos narrados pelo historiador, antecipando uma discussão que ganharia corpo somente no século XIX.
Para Rousseau, “a pintura exata dos (...) fatos” seria impossível, visto que o historiador estaria sempre sobre influência de “seus preconceitos”, a mercê da “ignorância” e “parcialidade”, responsável por fantasiar.
Ao que se somaria o habito de ornar a realidade com pormenores imaginários para tornar a leitura do texto histórico agradável.
Neste sentido, ele vê muito pouca diferença entre um romance e um livro de história, no que, dentro do contexto do século XVIII, tinha razão.
Não obstante, adota posição critica diante da conceituação da história, muito semelhante à que seria defendida pelo cientificismo dois séculos depois, condenando os historiadores que interpretam os fatos.
Segundo suas próprias palavras, os historiadores “julgam” os fatos, quando sua função seria “unicamente” descreve-los, deixando ao leitor o julgamento.
No que termina, sem notar, entrando em contradição direta consigo mesmo, uma vez que os historiadores modernos não conseguem exaltar os fatos dissociados dos seus próprios preconceitos, toda qualquer exaltação, por mais imparcial que seja, carrega em si mesma uma interpretação do que é descrito.
Uma questão que seria mais tarde amplamente discutida pela escola de Annales no século XX.
Corroborando com a tese de que para Rousseau a história só seria útil pelo seu exemplo útil e não como meio de conhecer melhor o presente, para ele, o estudo da “história moderna” (do contexto contemporâneo), deveria ser deixado de lado para privilegiar a antiguidade.
Pela ótica iluminista, os antigos forneciam exemplos a servirem de referência para a construção do agora, um principio que norteou a Revolução Francesa e a era Napoleônica.
Para Rousseau, os antigos, ao contrário dos modernos, narrariam “os fatos sem os julgar’, possuindo o defeito de narrar mais “as ações do que os homens”.
Insere-se nesta concepção o inicio de uma tradição memorialista na França do século XVIII, onde era preferível a leitura “das vidas particulares” do que dos livros de história.
No que Rousseau termina mais uma vez entrando em contradição consigo mesmo, pois, ao mesmo tempo em que critica a história por se ater a exemplos particulares, recomenda o estudo de fatos isolados.
Isto porque, segundo sua concepção, “o encadeamento de conhecimentos limitados mas certos” é vantajoso, mostrado “através de suas ligações” e “de suas relações”, evitando “preconceitos”.
Em concordância com o conceito de história em sua época, para Rousseau, o estudo da vida dos homens ilustres seria mais útil por servir de exemplo para a conduta dos homens do presente.
Assim, embora as considerações de Rousseau sejam inovadoras para o século XVIII, realizando uma filosofia da história, acaba por integrar-se ao paradigma iluminista.
O qual considerava a história como uma ciência auxiliar na formação do homem pelo bom exemplo do passado a ser imitado no presente.
 

O conceito de história de Voltaire.
Diferente de Rousseau, Voltaire assumiu o papel de um típico historiador iluminista, explicitado no Dicionário filosófico de 1747, especialmente no verbete história, deixando registrado mais do que sua própria concepção o paradigma de sua época.
Para Voltaire, a “história é a narração dos fatos considerados verdadeiros, ao contrário da fabula, narração de fatos considerados falsos”.
 
A história se dividiria em:
1. “História das opiniões”, responsável por uma simples coletânea “dos erros humanos”.
2. “História das artes”, considerada como “a mais útil de todas”, por “unir o conhecimento da invenção e do progresso das artes à descrição de seus mecanismos”.
3. “História natural, impropriamente denominada história”, a medida que “parte essencial da física”.
4. “História dos acontecimentos”, dividida em “sagrada e profana”, cabendo a primeira a narrativa de “uma sequência de operações divinas e miraculosas”, e a segunda a narração dos feitos dos homens.
 
Segundo Voltaire, a origem de toda história estaria nas narrativas, que perderiam “gradativamente a probabilidade” de verossimilhança de geração para geração, degenerando “com o tempo” e passando a constituir mais uma “fabula” do que uma história propriamente dita.
Por este motivo, as narrativas sobre a “origem” de todos os “povos” seriam sempre “absurdas”, uma vez que estariam envoltas por uma aura de fabuba; ou seja, seriam por um lado “uma pintura viva da natureza” e por outro uma obra da “imaginação”.
Portanto, ao contrário de Rousseau, para Voltaire, o estudo da história “moderna”, leia-se contemporânea, seria mais recomendado, já que “menos fabulosa” do que a antiga, onde “as coisas prodigiosas [são] improváveis”.
Nas palavras de Voltaire, “o único meio de conhecer com relativa certeza alguma coisa sobre história antiga” seria através dos monumentos, fazendo parte destes não só as obras arquitetônicas e artísticas, como também os documentos.
Sendo dos documentos escritos na antiguidade escassos, raros períodos desta época poderiam ser conhecidos com segurança quanto sua verossimilhança.
Na verdade, ele assume a postura que tornaria típica de um historiador cientificista, afirmando que só podemos reconstituir o passado a partir de documentos que comprovem os fatos narrados.
Dentro desta concepção, a história, mesmo na narrativa moderna, não ofereceria certezas, mas sim “probabilidades”, uma postura que seria adotada pelos historiadores somente no século XX.
Seria impossível reconstituir qualquer período histórico sem recorrer à imaginação, pois a memória reteria os fatos, mas a imaginação seria responsável por sua composição, ao que Voltaire termina concordando com Rousseau.
No entanto, apesar de recomendar o estudo da história contemporânea, por ser mais certa e segura, para Voltaire, a utilidade da história não estaria em tornar possível um melhor conhecimento do presente.
Em concordância com o paradigma histórico iluminista, seria dever da história “mostrar nossos deveres e direitos sem ter aparência de  nos querer ensina-los”.
Segundo explicitado no verbete “cadeia dos acontecimentos”, do Dicionário filosófico”, embora “os acontecimentos” estejam “encadeados uns nos outros por uma fatalidade invencível[,] (...) nem todo movimento” se propaga “progressivamente, até dar a volta ao mundo”; de modo que “ao acontecimentos presentes não [são] as crias de todos os acontecimentos do passado”, mas teriam “linhas diretas colaterais”.
Portanto, escrever a história não seria apenas realizar uma “coletânea de jornais”, mas sim retratar “detalhes, fatos, (...) datas precisas, (...) costumes, (...) leis, (...) usos (...), comércio, (...) finanças, (...) agricultura, (...) [ou] população”.
O que seria necessário para ilustrar um exemplo do passado, instruindo o homem sobre seus deveres e direitos; sendo a história antes memória do que ciência.

 
Concluindo.
Contrapondo a concepção de história de Rousseau e Voltaire, podemos facilmente notar que o paradigma do século XVIII considerava a história uma arte da memória, destinada a instruir o homem do presente em sua conduta, espelhando exemplos a serem seguidos ou evitados, o que me certa medida continua em voga ainda atualmente.
No entanto, o paradigma iluminista ignorava que a melhor maneira de entender o presente era estudando o passado, concepção que seria adotada somente no século XIX com o cientificismo.
Destarte, divergiram quanto ao período da história a ser privilegiado para que a história cumprisse seu papel de instruir o homem.
Enquanto Rousseau liderou a corrente que defendeu o estudo da antiguidade, Voltaire colocou-se a favor da primazia da modernidade, entendida como investigação do período que lhe era contemporâneo.
Ambas as tendências consideravam a história por uma perspectiva fragmentada, fato que somente com a mudança de paradigma, mais tarde, percebido.
Incorrendo em um erro grosseiro pelo ponto de vista cientifico, pois estudar a antiguidade conduz a modernidade e o estudo da modernidade depende do entendimento do que veio antes, tornando os períodos e fatos históricos dependentes.
O grande mérito do paradigma iluminista foi o abandono da tendência, anteriormente aceita, de considerar a história como uma espécie de romance destinado a entreter e divertir, para adotar uma postura que considerava a história como útil à instrução humana.
A partir do paradigma iluminista, o cientificismo evoluiu para transformar a história em uma ciência, e o presentismo iniciou a reflexão sobre o papel da imaginação na reconstituição do passado.
Além disto, o iluminismo fez nascer a filosofia da história, responsável pelas revoluções paradigmáticas do século XIX e XX.
O que nos conduz a demanda suscitada por esta enorme importância, carecendo o paradigma iluminista de uma atenção mais detida e pormenorizada, ainda por ser desvendado e devidamente abordado.
 
“Finis aut Initium?”

 
Para saber mais sobre o assunto.
BACZKO, Bronislaw. Rousseu: solitide et comunauté. Paris: Mouton, 1974.
BURCKHARDT, Jacob. Reflexões sobre a história. Rio de Janeiro: Zahar, s.d.
CANDIDO, Antônio. “A literatura e a vida social” In: Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1967.
CASSIRER, Ernst. A filosofia do iluminismo. Campinas: UNICAMP, 1992.
DIDEROT; D’ALEMBERT (org.). Enciclopédia ou dicionário racionalizado das ciências das artes e dos ofícios por uma sociedade de letrados: discurso preliminar e outros textos. São Paulo: UNESP, s.d.
FORTES, Luís Roberto Salinas. Rousseau: da teoria à prática. São Paulo: Ática, 1976.
FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
GOLDMAN, Lucien. Dialética e cultura. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967.
HAZARD, Paul. O pensamento europeu no século XVIII. São Paulo: Presença, s.d.
KHUN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1970.
MATOS, Olgária. Rousseau: uma arqueologia da desigualdade. São Paulo: MG Editores Associados, 1978.
MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. “A história: cativa da memória?” In: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. no.34.  São Paulo: 1992, p.09-24.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Carta a D’Alembert. São Paulo: UNICAMP, 1993.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. “O contrato social; Discurso sobre as ciências e as artes; Discurso sobre a origem da desigualdade” In: Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
STAROBINSKI, Jean. Jean-Jacques Rousseau: a transparência e o obstáculo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
VOLTAIRE, François Marie Arouet de. “Cartas inglesas; Tratado de metafísica; Dicionário filosófico; O filósofo ignorante” In: Os pensadores. São Paulo: Abril cultural, 1978.
VOLTAIRE, François Marie Arouet de. Oeuvres historiques. Paris: Galimard, s.d.

 

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Entre homens e deuses: aspectos da formação histórico-social e da produção cultural na Grécia antiga.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume set., Série 21/09, 2011, p.01-11.


Considerados filhos de Heleno, os gregos constituíram historicamente sua grecidade, sua identidade cultural grega, a partir das contribuições de diversos povos cuja origem nem sempre se pode precisar.
Uma divisão didática da história da Grécia antiga, apesar de ser apenas estenográfica,  pode auxiliar na compreensão e caracterização dos seus diferentes períodos, bem como de suas produções culturais.
O período arcaico compreende o intervalo temporal de c. 800 ou 750 a 500 a.C., da fixação da geografia política da Península Grega e do litoral grego da Ásia Menor até o início das Guerras Médicas.
O período clássico abrange os séculos V e IV a.C, com as cidades-estado independentes, correspondendo à fase de aperfeiçoamento cultural, talvez com as maiores realizações da história cultural de todos os tempos.
O período helenístico inicia-se com Alexandre Magno e se encerra com a conquista romana sobre a região oriental do Mediterrâneo. É a fase de expansão da cultura grega para centros de efervescência cultural, como Alexandria e Antioquia.
O período romano encerra essa passagem da história grega. A presença romana impôs-se na Grécia a partir do III séc. a.C, mas o predomínio iniciou-se quando as tropas de Cleópatra foram derrotadas por Augusto (31 a.C.), tendo permanecido enquanto durou o Império Romano do Oriente.


Sobre mitos e concepções de mundo.
Segundo os mitos gregos antigos, os seres humanos teriam surgido do desejo de Zeus, o soberano entre os deuses, e da capacidade de criação de Epimeteu e Prometeu, que esculpiram o primeiro homem, e de Hefesto e Atena, que juntos criaram a primeira mulher.
Homem e mulher seriam semelhantes aos deuses, porém sem poderes sobrenaturais ou o dom da imortalidade. Trata-se de uma alegoria a indicar que os humanos foram criados pela inspiração divina, como obras de arte, tendo beleza e capacidades, mas também fraquezas.
As crenças também fundamentavam a organização social, econômica e política, pois a tradição grega atribuía aos deuses a criação dos aristoi (melhores), homens dotados de valores morais como honra, dever e heroísmo, atributos recebidos das divindades ou herdados no nascimento, e socialmente superiores, o que justificaria a existência de uma hierarquia dominante, do ponto de vista ético, social e econômico.  
Além dos aristoi, havia os heróis (héros = guardião), filhos de mortais e deuses, portanto alguns atributos divinos e capacidades sobre-humanas.
Segundo essa mesma concepção, coexistiam homens, sátiros, górgonas, quimeras, centauros, sereias, ninfas e musas.
Perpetuava-se, por meio das narrativas mitológicas, a crença na interferência do divino – pensada como reguladora das capacidades humanas – nas concepções sobre a existência do homem e suas relações sociais.


Sobre a formação sócio-histórico-cultural.
Por volta de 2.000 a.C. os pelasgos, povos que viviam na região, foram submetidos pelos aqueus (dos quais faziam parte os jônios e os eólios), povos de origem indo-europeia, vindos da região balcânica, que criaram a civilização micênica e impuseram a língua grega.
Os pelasgos estavam em um nível cultural rústico: usavam machados de pedra polida, viviam em cabanas de taipa e ramagens, cultuavam divindades agrícolas, enquanto os aqueus  a Idade do Bronze, produzindo armas de metais e recorrendo a estratégias militares mais eficazes.
Entre os séculos XVIII e XV a.C., os aqueus, já dominantes e inseridos na civilização micênica, entram em contato com a cultura cretense, contratando os artistas que produziam obras arte bastante refinadas.
A influência da cultura cretense sobre a micênica mostra-se na produção artesanal e arquitetônica, mas há diferenças significativas entre ambas: a arte cretense recorre aos aspectos decorativo e religioso, enquanto a micênica expressa a preferência pelas narrativas e cenas de caça; a arquitetura cretense é labiríntica, enquanto a micênica é fortificada.
Gradativamente, a civilização micênica dominou Creta e todo o mundo em torno do Mar Egeu, estabelecendo relações comerciais e culturais com a Sicília, a Síria e o Egito.
Os aqueus estavam originalmente organizados em clãs patriarcais, ou genos, cuja autoridade suprema concentrava-se no rei, o basileus. Essa estrutura associa-se ao relevo da região, com a sociedade organizada em famílias tradicionais, ditas nobres, e separadas em núcleos autônomos, o que mais tarde contribuiu para a formação de cidades-estado autônomas, que caracterizam a antiga organização política grega, a pólis.
A autonomia e as condições naturais determinavam a busca de recursos complementares e ligações econômicas com outras regiões, de modo que as cidades formaram-se voltadas para o mar e relações com outros povos, o que levou à riqueza e, também, às disputas políticas.
Por outro lado, os contatos culturais favoreceram a apropriação e produção de novos saberes.
A partir do século XIV a.C., os dórios, povos indo-europeus, em sucessivas levas invadiram a região e, com armas de ferro, instituíram seu domínio. Somente cerca de três séculos depois se estabeleceram na região do Peloponeso, na Grécia central, em Creta e na Ásia Menor.
Com essas invasões, eólios migraram para Lesbos e jônios para Mileto e Éfeso, formando vigorosos centros econômicos e culturais gregos.
Como os grupos estavam divididos em núcleos políticos dispersos, as cidades-estado foram constituindo uma nova forma que passaria a ser característica da pólis grega: a ágora, praça pública, para debates de interesse coletivo, e templos, para práticas religiosas.
Devido à violência das invasões dóricas outros povos afluíram para a região, em um longo período de mudanças nas estruturas sociais. Surgiu, então, uma sociedade monárquica, com rígida estrutura dominada pela aristocracia (aristoi = os bem nascidos + kratos = poder).
 Do ponto de vista cultural, devido às relações comerciais, os jônios entraram em contato com os fenícios, conheceram o seu alfabeto (aleph + bet = primeira e segunda letras fenícias)  e assimilaram certos requintes na conduta social.


Crenças e práticas culturais.
Entre os séculos X e VIII a.C., surgiu na Grécia uma produção literária que incorporava os mitos e lendas dos eólios e jônios, acrescidas de um sentido heroico e fabuloso presente nas narrativas do Oriente Próximo.
No século VIII a.C., em Teogonia  (theo = deus + genea = origem), ou a Genealogia dos Deuses, ou ainda Cosmogonia, Hesíodo registrou as explicações míticas sobre a origem dos deuses e da vida.

No final do período arcaico registram-se,  os cantos e as sagas, com os poetas e suas epopeias, dos quais as produções mais famosas, e únicas preservadas, são Ilíada e Odisseia, de Homero.

As epopeias são consideradas as primeiras manifestações literárias do Ocidente. Eram cantadas pelos aedos, os poetas, que iam de cidade em cidade declamando os versos que narravam as fabulosas sagas do povo grego, suas disputas e vitórias.
Nos textos homéricos há relatos sobre a organização política, fatos do cotidiano, viagens fantásticas e, sobretudo, os mitos, constituindo uma rica produção cuja origem remonta a períodos imemoriais.
Atravessando tempos e espaços, esses registros chegaram aos dias atuais como referências documentais sobre as práticas e a mentalidade gregas.
Interessante ressaltar que os textos de Homero, mesmo mais tarde sendo contestados pelos filósofos gregos – em busca pela “verdade” – foram objetos de estudos já na Antiguidade, tendo feito parte do acervo da Biblioteca de Alexandria.
Os deuses retratados em Odisseia são descritos sob forma e sentimentos humanos, numa espécie de humanização do divino, mas com poderes extraordinários, interferindo de modo enigmático na vida terrena, nos destinos humanos, nas guerras entre os povos.
Uma passagem de Homero ilustra essa concepção:
“Pode ser que os deuses o tenham detido no caminho, porque de modo algum está morto sobre a terra o divino Odisseu, mas estará retido em algum lugar do mar, em alguma ilha cercada de corrente, onde o têm homens cruéis e selvagens que o sujeitam contra sua vontade”
De acordo com a mitologia grega, para que os homens pudessem desenvolver suas potencialidades, os deuses geraram as Musas, seres divinizados, filhas de Zeus e Mnemosine, a deusa da Memória: Clio, a história; Terpsícore, a dança; Calíope, a poesia épica e a eloquência; Polínia, a poesia lírica; Erato, a poesia erótica e a elegia; Euterpe, a música; Melpóneme, a tragédia; Tália, a comédia; Urano: a astronomia.
As Musas seriam responsáveis pelos conhecimentos e inspirações que permitem as criações, ou produções culturais, bem como por elevar o espírito humano, dotando-o de sensibilidade, saberes e talentos.


Aperfeiçoamento das produções culturais.
Os gregos desenvolveram diversos aspectos culturais associados a suas crenças.
Os Jogos Olímpicos, por exemplo, eram realizados em homenagem aos deuses, na cidade de Olimpíada, no Peloponeso.
As olimpíadas envolviam os cidadãos gregos que buscavam demonstrar força, agilidade e capacidades sobre-humanas, sendo coroados de louros após vencer tais competições.

Ao se organizarem como sociedade sexista, os jogos eram praticados pelos homens, com a coroação dos vencedores feita pelas mulheres.

Com o tempo, os jogos foram se tornando bastante conhecidos e passaram a contar com um público numeroso, razão pela qual começaram a ser realizados em espaços especialmente destinados a esse fim. Era a criação do teatro (thêo = ver + atrôn = lugar).

Como os espetáculos e cerimônias duravam dias, outros elementos culturais foram sendo inseridos: leitura de poesias, apresentação de danças e encenação de peças.


O Teatro e as expressões moralizantes.
O teatro foi uma das grandes produções dos antigos gregos, com as suas duas formas clássicas: a tragédia e a comédia.
A comédia (komoidía, de kômos = festa + oidós, cantor) apresentava situações ridículas, absurdas e ofensivas nas quais os estereótipos tinham a função de crítica social e política, tendo uma função moralizante e de correção das condutas.
Ao utilizar recursos como o imprevisto e a surpresa, os comediantes provocavam o riso, ridicularizando as atitudes que não eram consideradas éticas para a vida em sociedade.
As comédias eram apresentadas com cânticos, primeiramente, nas festividades em homenagem a Dionísio, tendo, portanto, uma relação com o sagrado. Mas, com o passar do tempo, foram se dessacralizando e se tornaram um subgênero teatral, com a presença da música, do coro e das máscaras disformes.
Os textos trágicos expressavam a diferenciação entre deuses e homens.
A palavra tragédia (tragos = bode + ode = canto) tem um significado associado às práticas culturais e às representações do povo grego.
Nas cerimônias religiosas, ou cultos cívicos, os gregos ofereciam esses animais em sacrifício aos deuses. Uma vez escolhido, o animal seria necessariamente sacrificado, momento em que emitiria um som de dor, como um canto triste. Assim a palavra tragédia está ligada à ideia de um fim inevitavelmente aniquilador, “trágico”.
As tragédias gregas foram e ainda são objetos de estudos literários, artísticos, jurídicos e psicanalíticos, como é o caso de Édipo Rei, de Sófocles, que narra a história de um jovem cujo destino foi anunciado pelo oráculo antes do seu nascimento.
Os oráculos eram comuns na antiga Grécia, sendo mais famoso o da cidade de Delfos. De acordo com os registros deixados pelos gregos, a predição dos acontecimentos era possível quando sacerdotes iniciados entravam em um transe sagrado e revelavam o futuro.
Outra tragédia exemplar é a que se passa em meio à Guerra de Tróia. Segundo as narrativas, Príamo, rei de Tróia, assim como o pai de Édipo, procurou o oráculo para obter notícias sobre o filho que esperava. Tendo-lhe sido revelado que o filho seria portador de tragédias para Tróia, Príamo decidiu desfazer-se da criança.
Ao nascer, o menino chamado Páris, foi afastado de Tróia e criado por outra família, que lhe cuidou com valores morais, de tal modo que quando adulto, era considerado, além de belo, um homem de bom senso.
A face trágica desse mito liga-se às vaidades e disputas entre divindades femininas. Em certa ocasião Discórdia não foi convidada para uma festividade e, portanto, usando sua invisibilidade resolveu vingar-se lançando um fruto dourado com a inscrição “para a mais bela”: era o “pomo da discórdia”.
Afrodite, Hera e Atena entraram em disputa, colocando o Monte Olimpo em desarmonia. Zeus, então, escolheu Páris para arbitrar o conflito.
Por fim, Páris foi seduzido pela promessa de Afrodite, a deusa do amor, de que se ele a escolhesse seria presenteado com o afeto da mais bela mortal. Assim seu destino estava definitivamente marcado.
Hera, a rainha dos céus, e Atena, a deusa da justiça e da guerra, inconformadas com a decisão de Páris, lançam sobre ele a maldição de realizar seu desejo, pois a mais bela mulher era Helena, esposa de  Menelau, rei da  Grécia.
Em viagem à Grécia, Páris e Helena se conhecem e se apaixonam, fugindo posteriormente para Tróia, sendo responsáveis pela cruel e duradoura guerra, pela aniquilação da família de Príamo e pelo fim do seu reinado, juntamente com a grandeza e glória de Tróia. Era a concretização da profecia do oráculo.
Esse é o conteúdo da tragédia e sua finalidade moralizante.


A Poesia e as narrativas.
Como a mitologia estava presente desde tempos imemoriais na sociedade grega, influenciou na organização social e política, na Literatura, na Arte, na Arquitetura e mesmo na Filosofia.
A Arte grega é avaliada como um conjunto de expressões muito sofisticadas, em que se buscava representar as formas e sons com a máxima perfeição, uma vez que os artistas eram entendidos como aqueles que receberam a inspiração das Musas e deuses.
Os poetas eram considerados como iniciados nos conhecimentos de Mnemosine, a deusa da Memória, e sua fala tida como reveladora da beleza sagrada e, com consentimento divino, também da verdade.
Nos versos de Hesíodo encontramos:
“Por cetro deram-me um ramo, a um loureiro viçoso / colhendo-o admirável, e inspiraram-me um canto / divino para que eu glorie o futuro e o passado / impeliram-me a hinear o ser dos venturosos sempre vivos / e a elas primeiro e por último sempre cantar".
Assim, o aedo, é um iniciado que cultua a Memória, tanto no sentido religioso como no sentido prático, fato que o eleva acima dos reis e outros senhores gregos. Seu canto e sua palavra são veículos de saberes inspirados por Mnemosine e pelas Musas. Portanto, é considerado um propagador da arte e da sabedoria.
A palavra poesia (poiesis = criação) tem um sentido muito próximo ao de arte, em grego techné (também criação). Mas esse sentido para os gregos era mais amplo, não representando apenas a elaboração de um poema (texto produzido em versos), mas a capacidade criadora, em sentido amplo.
Os poemas eram apresentados publicamente. Em tais apresentações, os versos eram cantados com o acompanhamento da lira e, às vezes, passos de dança.
Além de retratar deuses e a vida da elite, há outras produções, como Os Trabalhos e os Dias, de Hesíodo, narrando o cotidiano camponês e apresentando o trabalho como virtude.
A partir da obra de Hesíodo podemos saber que os trabalhadores do campo organizavam suas tarefas de acordo com as épocas do ano: em novembro e dezembro eles aravam a terra; em fevereiro e março, ceifavam as vinhas; em maio e junho faziam colheita; em julho e agosto, a separação dos grãos; em setembro fabricavam o vinho; em outubro podavam as árvores.
Na Grécia antiga, poesia, canto, música e dança se manifestavam juntas, e assim permaneceu por muito tempo. Somente a partir da Idade Moderna é que foram se separando, pensados como formas autônomas de arte.


A Dança e a religiosidade.
De acordo com a mitologia grega, a criação das Musas introduz as linguagens artísticas como manifestações divinas, pois os deuses teriam pedido a Zeus a criação de divindades que pudessem narrar seus grandes feitos e manter viva essa memória.
Terpsícore era a Musa criadora da dança, mas de acordo com a Teogonia, todas as musas dançavam e cantavam em volta da fonte de água inesgotável e do altar de Zeus.
Como seres invisíveis, durante a noite cantam e dançam, evocando, relembrando e reforçando os poderes dos deuses das diferentes gerações.
Para os gregos antigos a dança era a expressão da alegria e da celebração religiosa, como nas festas denominadas “dionisíacas”, pela fertilidade e em homenagem ao deus Dionísio que a representava.
Nos cultos religiosos a dança e o canto exercem uma função extática, colocando o iniciado em contato com a divindade.
Segundo as narrativas homéricas, as danças eram realizadas por homens e mulheres e comuns em diferentes ocasiões, inclusive nas cerimônias de casamento, em que a fertilidade e a prosperidade eram evocadas.
Com o passar do tempo, as danças começaram a ser acompanhadas por cânticos dos coros e passos ritmados, expressando sempre a alegria e a religiosidade.


A Escultura e as experiências estéticas.
A escultura grega é expressão estética que sobrevive como mostra da perfeição tanto das formas representadas, quando da técnica usada pelo artista.
Em uma passagem da narrativa de Ovídio, poeta romano, esse senso é relatado. Pigmalião, rei de Chipre e um renomado escultor, cria Galatea (palavra de origem controversa, podendo significar “como leite” ou “elegância”), estátua de mármore branco, com tamanha perfeição que se apaixona por ela, pedindo à Afrodite que a transforme em ser humano.
No mito, o diário de Pigmalião relata:
“A obra está avançando admiravelmente, ainda que a custo de muita concentração. Durante cinco dias estive entregue à tarefa de dotar a minha estátua de um rosto superior a todos os outros. Não tenho tido tempo nem ânimo para desviar os olhos da minha obra. [...] Não sei exatamente como explicar; há nele um encanto que combina o ar sonhador oriental com o ar de ponderada reflexão das mulheres mais sábias da minha terra. Não fosse o rosto de uma estátua, diria que estou apaixonado por ele”.
Nessa passagem, explicita-se o sentido da experiência estética: a contemplação da extrema beleza, que leva o ser humano a sentimentos profundos.
A escultura grega pode ser representada pela obra de Fídias, famoso escultor do século V a.C., contratado por Péricles, governante ateniense, para realizar as mais belas obras em homenagem aos deuses do panteão grego, e que esculpiu a magnífica estátua de Palas Atenas, já desaparecida, cuja réplica encontra-se no Museu do Louvre, em Paris.
A arquitetura também buscou a beleza, a perfeição, a proporção e harmonia das formas, especialmente nas construções dos templos e edifícios públicos, com suas colunas, capitéis e frontões triangulares, que ainda na Antiguidade foram incorporados pelos romanos; na Idade Moderna, pelo estilo renascentista; na Idade Contemporânea pelos movimentos neoclássico e art nouveau; e, nos dias atuais, ainda presentes em construções de caráter público ou privado.


Filosofia e História.
A civilização representou uma evolução em termos culturais, com a criação da Filosofia, da Democracia e o redimensionamento da cultura e da arte, que passam a ser valores do povo grego, ou sinônimo de grecidade e, posteriormente, valores da civilização ocidental.
Dentre as mais significativas criações da Grécia Clássica destaca-se a Filosofia, com sua busca incessante de conhecimento sobre a realidade material ou imaterial, e a concepção de História como um campo do saber, ambas a partir do distanciamento das concepções mitológicas.
A palavra história (o que procura saber, derivada de  histor = testemunha) ganhou o sentido de investigação com bases em fatos concretos e identificáveis, por meio de estudos e documentos.

Tratava-se de uma tentativa de superar as explicações contidas nas narrativas tradicionais do povo grego.
Dos expoentes dessas investigações destacam-se Tucídides, Hecateu de Mileto e Heródoto, que publicou suas Histórias, investigações, em um conjunto de capítulos intitulados com os nomes das nove Musas, nos quais relata as ações de gregos e persas. Vejamos o trecho de abertura das Histórias de Heródoto:
Heródoto de Túrio expõe aqui suas investigações, para impedir que o que fizeram os homens, com o tempo, se apague da memória e que as grandes e maravilhosas realizações, levadas a cabo tanto pelos bárbaros, quanto pelos gregos, cessem de ser renovadas, em particular, o que foi a causa de que gregos e bárbaros entrassem em guerra uns com os outros. [...]
Tratava-se de uma clara distinção entre as crenças, os mitos, e as práticas sociais, especialmente em uma tentativa de superação da narrativa homérica, mas, ainda assim, referia-se à memória e as musas.
Muitos estudiosos consideram que talvez não tenha existido um poeta chamado Homero, e que Ilíada e Odisseia seriam apenas compilações das narrativas dos inúmeros aedos que viviam na região. Outros apontam os textos como compilações das pesquisas feitas por Hecateu de Mileto. Outros, entretanto, afirmam que Homero provavelmente nasceu na Ilha de Quios, e que quanto se tornou conhecido estava em idade avançada e já não enxergava.
Mas, o fato é que por meio desses textos pode-se conhecer o modo de vida dos gregos em uma parte de sua história, assim como muitas de suas concepções de mundo e existência.
Por outro lado, concretizou-se o projeto de Heródoto, pois seu modelo de narrativa histórica perpetuou-se ao longo dos séculos, sendo reproduzido, questionado, negado ou atualizado.
A Filosofia e seus ramos de investigação na Grécia antiga são referenciais para a problematização e compreensão do mundo e da existência humana, perpetuando-se em múltiplas menções em todos os campos do saber.


Concluindo.
Pelo grande valor histórico e artístico, muitas produções gregas foram preservadas e podem ser admiradas nos museus mais importantes do mundo, como no Louvre,  o baixo relevo denominado Procissão das Panateneias (445-438 a.C.), feito em mármore, encontrado ao pé do Parthenon na acrópole de Atenas, representando as túnicas que compunham a vestimenta característica da época; ou a estátua denominada Vênus de Milo (fins do séc. II a.C.), encontrada na Ilha de Milo, nos arredores do teatro, apresentando uma figura feminina com busto desnudo e grande sensualidade, uma mostra da sofisticação e do estilo artístico desenvolvidos no final do período helenístico.
O Renascimento foi um período em que as tradições greco-romanas retornaram como inspiração e temática de grandes artistas, de modo que na pintura, escultura e arquitetura, do final da Idade Média e início da Idade Moderna, produziram-se obras que relembravam a mitologia e os valores do mundo grego antigo, como vistos nas obras de Botticelli (Primavera, O Nascimento de Vênus, Vênus e Marte), Ticiano (Baco e Ariadne), Velásquez (Os Bêbados ou o Triunfo de Baco, A forja de Vulcano, Vênus ao Espelho), Antonio del Pallaiolo (Apolo e Dafne), Lucas Cranach (Vênus e Cupido), Peter Paul Rubens (O Julgamento de Páris), Pietro Perugino (Apolo e Mársias), Lambert Sustris (Vênus e o Amor), e tantas outras de inestimável significado.
Os gregos influenciaram os romanos, formando a cultura greco-romana; e os persas, formando a cultura helenística; os romanos dominaram e influenciaram os europeus, difundindo seu padrão cultural; os europeus, por sua vez, buscaram meios para transplantar seus valores para a América, contribuindo para a introdução de um novo molde civilizatório, no qual o padrão grego – associado aos valores medievais e modernos e acrescidos da influência de ameríndios e africanos – constituíram um novo processo de formação histórico-social.


Para saber mais sobre o assunto:
AYMARD,  A. e AUBOYER, J.  O Oriente e a Grécia. Rio de Janeiro: DIFEL, 1977.
BULFINCH, Thomas. O Livro de Ouro da mitologia: (a idade da fábula): histórias de deuses e heróis. São Paulo: Ediouro, 2000.
COULANGES, Fustel de. A cidade antiga. Tradução de Frederico Ozanam Pessoa de Barros. eBookBrasil, 2006. Disponível em: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/cidadeantiga.pdf.
DEL DEBBIO, Marcelo. Enciclopédia de Mitologia. São Paulo: Daemon, 2008.
FINLEY, M. I. Os gregos antigos. Lisboa: Edições 70, 1963.
FRANCHINI, A. S. e SEGANFREDO, C. As 100 melhores histórias da mitologia. Deuses, heróis, monstros e guerras da tradição greco-romana. 6ª ed. São Paulo L&PM, 2003.
GRILLO, José Geraldo Costa. O sacrifício de Políxena nos vasos áticos dos séculos VI-V a.C. 2009. Disponível em: http://www.nea.uerj.br/publica/e-books/mediterraneo1/DOC/Jose%20Geraldo%20Costa%20Grillo.pdf.
HESÍODO. Teogonia. A origem dos deuses. Estudo e tradução de Jaa Torrano. São Paulo: Iluminuras, 1995.
HOMERO. Odisea. eBookBrasil, 2003. Disponível em: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/odisea.pdf


Texto: Profª Drª Marilda Aparecida Soares.
Doutora em História Social – FFLCH/USP.
Professora das Faculdades Integradas de Ribeirão Pires – FIRP.