Publicação brasileira técnico-científica on-line independente, no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
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Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

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sexta-feira, 3 de julho de 2015

O Fenômeno da Massa Popular Brasileira - Um Povo Revolucionário(?)


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 6, Volume jul., Série 03/07, 2015.

Prof. Me. Rodrigo Cardoso Silva.
Mestre em Direito Internacional.
Educador de Ciência Política, Direitos Humanos e Direito Econômico na Unimonte.


Eliza Odila Conceição Silva Donda.
Advogada da Missão Paz.
Especialista em Direitos Humanos pela Universidade de Coimbra.
Especialista em Direito Internacional e Econômico pela UEL.


Desde julho de 2013, os brasileiros estão passando por certo processo de despertar político, ainda que bastante dúbio.
Apesar de não estarem muito bem claro os objetivos propostos pela Massa, é contagiante ver essas manifestações populares em prol do bem estar coletivo no Brasil.
Há dois anos, as maiores cidades do país e a Capital Federal foram tomadas por uma explosão populacional de revindicações, que partiu desde o desejo de exigir tarifas menores de transporte coletivo até um Estado mais ético e justo.
Notória é a nobreza de um povo que reconhece um governo que se utiliza do estado republicano para articular em causa própria.
Após o cessar da Massa, o governo federal reconheceu a força do povo nas manifestações, mas repudiou o alto índice de violência consubstanciado pela desordem e o vandalismo.
Os demais governantes - estaduais e municipais e, inclusive, o Senado Federal e a Câmara dos Deputados, não se manifestaram em prol de nenhum lado.
Optaram pela omissão da liberdade do pensamento.
A primeira grande "revolução" do país na segunda década do século XXI, formada por maioria de jovens acadêmicos, foi um misto do que aconteceu em 1984 (Diretas Já) e em 1992 (Impeachment de Fernando Collor), sendo que a diferença mais pujante atual foi a celeridade das informações pelos meios digitais.
Da mesma ordem como ocorreu em meados das décadas de 80 e 90, o povo se reuniu com hora marcada para começar e terminar a sua "revolta" contra o Estado.
É curioso perceber esta peculiaridade do povo brasileiro que é muito diferente de outras culturas no mundo.
A busca por ética e justiça é temporária, e não permanente.
Talvez seja porque a maioria da Massa Popular ainda não perdeu um dos princípios fundamentais do estado democrático de direito brasileiro e universal, a dignidade da pessoa humana.
Passado o terceiro fenômeno, em 2014 ocorreram as eleições para presidente, governador, deputados e senadores.
Um momento importante de "poder" do povo que demonstraria o desejo por mudanças no campo da governabilidade igualitária, ética e justa para todos os cidadãos brasileiros.
No entanto, o resultado das urnas eletrônicas no Brasil mostrou que a vontade da maioria do povo foi permanecer em prol do Estado tisnado como antiético e injusto com todos no protesto anterior.
No primeiro semestre de 2015, o povo retornou as ruas para protestar contra o mesmo governo eleito pela maioria em 2014.
Não obstante, as manifestações tomaram a mesma forma que em 2013, com a Massa Popular organizada por pessoas com certo grau de instrução educacional, mas desta vez com roupas nas cores verde e amarela, em vez da cor preta de 2013.
Ontem, as reivindicações foram muito semelhantes da primeira "revolução", ou seja, gritos por mais justiça e ética para todos, sem se esquecer do certo grau de violência e vandalismo em algumas regiões.
Diante desses dois fenômenos populares republicanos no Brasil, pode-se notar que ambas as Massas Populares que manifestaram desgosto pelo Estado não são pessoas que praticam a mendicância, menores de rua abandonados, imigrantes, homossexuais, vítimas de preconceitos raciais e religiosos, refugiados ou pessoas que sofreram algum desastre natural. Isto é, não são pessoas que perderam a sua dignidade, seja de uma forma ou de outra.
Já a Massa em destaque no cenário nacional é formada por intelectuais e pessoas mais abastadas.
É racional pensar que esta Massa tem muito mais a oferecer para a "revolução". Na verdade, não.  
Pois o manifesto por um Estado ético e justo para todos não foi construído por todas as pessoas sem qualquer distinção.
Ele foi construído por um grupo de pessoas elitizadas.
Logo, o impasse percebido até aqui é a falta do espírito da virtude no povo brasileiro.
A prática da austeridade no viver do brasileiro.
Assim, com a prática do bem, da probidade e da excelência moral no dia-a-dia do Brasil, o povo brasileiro a tempo futuro terá a oportunidade de ser representado por pessoas do bem que buscaram por toda a sua vida formar um conjunto de todas as boas qualidades morais e respeito pelos direito humanos.
A Massa Popular ainda hoje é formada por idealistas que somente com certa fortuna material dão início as realizações que lhe competem e esquecem-se daqueles menos favorecidos.
A "revolução" deveria ser um fenômeno de todos sem qualquer exceção.
A união fraternal é o sonho sublime de todas as pessoas.
Todavia, ela não irá se realizar sem que o povo brasileiro respeite uns aos outros, cultivando a harmonia e o acolhimento de todas as pessoas.
Uma "revolução" é positiva quando ela é uma ação virtuosa para a coletividade.
Por fim, o povo brasileiro precisa reaprender ou renovar os valores morais e a sua virtude para aplicá-los na família, na sociedade e, especialmente, na política.
Um governante deveria ser o exemplo para as demais pessoas.
Ninguém progride sem renovar-se.



terça-feira, 13 de setembro de 2011

Praieira, Política e Poder: A sessão de 25 de Maio de 1848.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume set., Série 13/09, 2011, p.01-07.


O presente artigo intenta, ainda que de forma bastante introdutória, apresentar, a partir da análise de um caso emblemático vivenciado na conjuntura da Revolução Praieira, características abrangentes no processo eleitoral durante a vigência do império.
Em Pernambuco, durante a Rebelião Praieira, em 1848, houve uma intensificação das disputas partidárias para obtenção de cargos públicos estratégicos no direcionamento do processo eleitoral.


A sessão de 25 de Maio de 1848.
Como é sabido, o então presidente provincial praieiro, Chichorro da Gama, candidatou-se e venceu duas eleições para ocupar o cargo de senador por esta província.
Contudo, ambos os pleitos foram inviabilizados – sob forma de anulação das eleições – pelo Senado Imperial.
Argumentando a comissão senatorial, na sessão de 25 de Maio de 1848, a existência de várias irregularidades no processo eleitoral do qual saíram vitoriosos os candidatos praieiros.
Dentre as quais, alegavam: irregularidades cometidas pela mesa de qualificação; coação ostensiva, exercida, sobretudo, pelas forças armadas regulares sobre os votantes e eleitores; fraudes diversas - como o exercício do voto a quem não cabia o direito; além da ação condescendente e parcial do presidente da província com tais irregularidades, agindo assim no intento de direcionar os resultados da eleição.
Poder-se-ia, não sem razão, identificar nestas objeções elaboradas pela comissão ao pleito dos praieiros a força e influência política dos Cavalcanti e dos Conservadores no Senado.
Não obstante, objetiva-se aqui vislumbrar nestas alegações características que perpassam, não só esta eleição em particular, mas todo o processo eleitoral durante a vigência do império no Brasil.


Eleições, Teatralidade e Poder.
As eleições objetivavam, em parte, garantir a legitimidade da ordem.
Era de grande importância não destruir totalmente as esperanças da oposição de chegar ao poder, revestindo-as, assim, de grande legitimidade.

Concomitantemente, representavam uma encenação política no sentido mais lato do termo, afinal:

“Como em todos os espetáculos planejados e apresentados, o traje revelava o papel. Por meio de suas roupas, os atores exibiam seus status e autoridade, a superioridade de alguns e a inferioridade de outros. (...) Um traje para cada papel reforçava o impacto dramático da cena” (GRAHAM, 1997, p.190).

Conquanto, era preciso aqueles da situação vencer “a todo custo” as eleições, sob pena de perder a liderança de suas clientelas.
Estes impulsos contraditórios que engendravam as eleições só eram possíveis, tendo em vista, a prática do clientelismo como elemento que perpassava todo o sistema eleitoral.
O clientelismo, para Graham, tornava possível conciliar vitória com ordem e aparente justiça.
O clientelismo, para José Murilo de Carvalho, pode ser entendido como um tipo de relação, entre atores políticos, que envolve concessão de benefícios públicos em troca de apoio político.
Neste contexto que serão situadas algumas das alegações feitas pela comissão senatorial na sessão de 25 de Maio de 1848.

           
Participação e Exclusão.
Comecemos por uma das primeiras questões suscitadas pela comissão: “sendo claro que nas votações dos colégios paroquiais intervieram votantes a quem a lei não dava esse direito”. 
Como se sabe, as eleições entre 1824 e 1881 ocorriam em dois graus.
Nas eleições primárias os votantes escolhiam os eleitores, que, por sua vez, elegiam deputados e senadores.

Vários eram os mecanismos de exclusão:

“No que diz respeito à participação das camadas mais pobres do Recife no processo eleitoral, percebe-se como a legislação procurava impedi-la. A começar pelo voto censitário, onde se estipulava uma determinada renda para que o indivíduo tivesse o direito do voto. Mesmo que a lei desse margem para interpretações as mais diversas, e com isso uma parte significativa de homens livres não-proprietários acabassem votando, o máximo a que chegariam era participar como votantes primários”. (ANAIS DO SENADO, 1978, p.197).                                                                                                                                                                                                                                                                                

O voto era censitário.
Pela lei, estariam excluídos de votar na eleição primária: homens livres cuja renda mínima fosse inferior 100.$000 réis – em 1846 este valor seria dobrado – os menores de 25 anos solteiros, clérigos de ordens sacras, filhos que mesmo em idade apta para votar morassem com os pais, os criados de servir.
Excluíam-se, tacitamente, mulheres e negros cativos. Cabe salientar que juízes de paz e vereadores eram eleitos pelos votantes.
Dos eleitores exigia-se 2000 réis, após 1846, 400$000, valor que voltaria a ser reduzido em 1881, devendo o candidato a eleitor, segundo Graham, “ser uma pessoa virtuosa e renomada de discernimento”.
Negros libertos eram automaticamente excluídos deste pleito, tal como, os envolvidos em crimes.

Cabe salientar que não se excluíam os analfabetos, nem se fazia distinção baseada na raça.
Alguns historiadores acabaram por exagerar os limites impostos por este caráter censitário, atribuindo ser a eleição “apenas para a elite”.
Ao que parece, votavam - para os padrões da época - um número relativamente grande de pessoas.
Cabe lembrar que um sufrágio relativamente amplo não significava nem de longe uma eleição democrática, nem ausência de exclusões.
Embora restritos, em termos de contingente, esses pleitos eram mais participativos do que os da subseqüente instalada república, onde a cláusula que impedia o analfabeto participar das eleições constará como forte entrave à participação da população.


Clientelismo, Violência e Fraude.
Contudo, isto era o que fixava a lei.
É preciso pensar na importância de cargos estratégicos que significavam controle direto e efetivo sobre o processo eleitoral.
Assim, era significativa a quantidade de influência política – via clientelismo – que havia na mesa de qualificação.
Sendo o cargo de juiz de paz conhecido como a “chave das eleições”.
A junta de qualificação e a mesa eleitoral das eleições primárias estavam sob sua presidência, somado de mais quatro eleitores, geralmente dos quais, ao menos dois eram seus amigos ou confrades políticos.
Na prática concreta das eleições, segundo Graham, o processo de qualificação dependia, em grande parte, da facção dominante.
No fim, as qualificações legais para o voto – renda, ocupação, residência e mesmo idade – não limitavam totalmente quem de fato votava.
A facção no poder usava de todos os meios legais – e como veremos também extralegais – para não perder a eleição.
Não deve assustar o fato de que, segundo Marcus Carvalho, o governo praieiro, ao assumir a presidência da província tratou de demitir cerca de 600 autoridades, e realocar nos cargos seus amigos e clientes.
O resultado da eleição dependia, em grande parte, da capacidade da facção ou partido no poder conquistar cargos chaves no direcionamento da eleição (CARVALHO, 2003).
A mesa de qualificação não especificava que documentos comprovariam se um eleitor tinha, ou não, renda suficiente para participar do pleito, recorrendo-se, não raramente, as declarações juramentadas.
Ainda no que tange o uso de posições estratégicas dos cargos para o direcionamento da eleição, vemos a comissão senatorial reclamar do papel tendencioso do presidente da província.
Pois, “estes fatos foram levados ao conhecimento do presidente da província pelo juiz de paz, presidente da junta, o qual em diferentes ofícios pedia providencias (...) e nenhuma providência foi tomada, além de se recomendar ao mesmo delegado de continuar a manter a ordem”. (ANAIS DO SENADO, 1978, p.198)
De fato, não raramente, os presidentes provinciais, bem como outras esferas da política oficial, usavam de seu poder para garantir a vitória da facção a que pertencia. Pois, o presidente provincial podia adiar as eleições, por três meses; além de estabelecer normas sobre a legalidade do juiz de paz e vereadores.
Exercendo, deste modo, influência direta sobre quem tinha o controle imediato sobre o processo eleitoral.
Sob pedido do presidente provincial o gabinete podia transferir juízes de direito para outras freguesias e comarcas, ligando-a a facções rivais.
Assim, através dos cargos, clientelisticamente, moldava-se, ou ao menos se tentava moldar, os resultados da eleição.
Contudo, não devemos supor como nos diz Marcus Carvalho, que o clientelismo é um dado que encerra as disputas locais.
O clientelismo não é um dado fixo”.
O chefe político tenta impor seu jugo, no qual seu mando nem sempre podia ser acatado pelos clientes e demais facções.
Neste ínterim, não era pequeno a quantia de disputas locais e constantemente vemos o recurso da força adentrar o cenário político das eleições.
Malogrado todas as estratégias os ocupantes dos cargos públicos, bem como seus rivais, optavam abertamente ao uso da força.
Quanto a isto, alegou a comissão senatorial que “nas assembléias paróquias repetiam-se os mesmos artifícios de fraudes e violências que já haviam falsificado as qualificações. Ameaças, processos, prisões; aparato da força armada, forca e fraudes (...)”(ANAIS DO SENADO, 1978, p. 204).
O emprego de métodos violentos, é verdade, tinham a desvantagem de solapar a reivindicação de legitimidade do processo, pondo em risco os interesses mais amplos que as eleições estavam envoltas.
Algumas vezes, contudo, o ganho parecia compensar os riscos e, de qualquer modo, podia-se sempre recorrer ao pretexto de que se usara a força para manter a ordem.
Era frequente seu uso para se opor a facção no poder, sendo, aliás, um dos pré-requisitos para a alegação de fraudes.
Para que fossem registradas denúncias de práticas fraudulentas, o denunciante devia ter conquistado poder e influência o suficiente para dar-lhe “ouvidos”.
Mais objetivamente, precisava-se, recorrer ao uso da força, ou ao menos, dispor de seu potencial.
Fraudes eram constantes e as mais variadas possíveis: um membro da junta podia deliberadamente ler errado uma cédula e anunciar de outro candidato; ou aumentar os números de inscritos para um nome escolhido, ou ainda, alterar-se as atas das juntas, nestes aspectos numa faltou-lhes criatividade.

Como nos mostra o ocorrido no Recife, na Matriz da Boa Vista:

“Na matriz da Boa Vista alguém, não se sabe quem, adicionou tártaro à água que saciava a sede da mesa eleitoral durante seus trabalhos. Este produto, capaz de fazer qualquer pessoa morrer de vomitar, teve o efeito esperado sobre os componentes da referida mesa. Desse modo, tentava-se conseguir ali a suspensão do pleito em andamento, ou simplesmente o pior: a substituição das autoridades responsáveis pela sua condução” (ROSAS, 2004, p. 97).

Se a fraude malograva, os concorrentes apelavam à força.
Por vezes, apenas a ameaça, ou força potencial, era o bastante.
Enfim, a violência – de lado ou de outro, real ou potencial – não era algo contra o processo eleitoral, mas constituía parte essencial dele.

Assim:

“Em resumo, os grupos rivais sempre dependiam da violência: ou pela força legalmente sancionada da Guarda Nacional, do Corpo Policial ou do Exército, que garantiam que determinados votantes, fossem eles realmente majoritários ou não, se saíssem vitoriosos nas urnas; ou por votantes armados que contestavam tal poder e estabeleciam seu próprio direito de controlar as eleições. (...) E nos dois casos obtinha-se a mesma meta: demonstrar superioridade eleitoral e com isso conquistar um novo ou maior apoio governamental” (GRAHAM, 1997, p. 177).

Quando ocorria derramamento de sangue numa eleição, o pleito subseqüente podia, talvez, transcorrer pacificamente.
Ironicamente, tão veemente quanto à violência era sua condenação.
Esta era redundante no discurso público, pois, representava uma contradição contra o ideal de legitimidade, quanto por que, segundo Graham, punha em questão o liberalismo brasileiro.
Era acentuado o uso das forças armadas regulares no constrangimento de votantes e eleitores.
Tornando-se muito importante seu uso como parte constituinte do arsenal de práticas clientelísticas, sobressaindo o papel desempenhado pelo delegado, subdelegado e inspetores de quarteirão.
Segundo Marcus Carvalho, o governo praieiro, ao assumir o governo da província, recorreu intensamente ao uso deliberado de tais cargos.
Consta ainda nesse manancial fraudulento, e não tão destoantes das práticas coevas, a doação de cargos como um artifício bastante utilizado no processo de “domesticação” das forças opositoras.
Por vezes, os candidatos ofereciam antecipadamente os cargos em troca de apoio durante o processo eleitoral.
Normalmente, aduz Graham, a troca de benesses sucedia a eleição.
Por fim, e para além das denúncias de irregularidades feitas pela comissão, cabe salientar o papel simbólico que impregnava as eleições, ou melhor, “o teatro das eleições”.
As eleições serviam de teatro no qual os participantes usavam recorrentemente a linguagem da estratificação social, pois, mais que incluir votantes, era fundamental os diferenciar.
Somente uma realização pública com muita visibilidade cumpriria a tarefa de situar hierarquicamente os indivíduos participantes.


Concluindo.
Nos atos eleitorais a diferença concreta entre cada nível fazia-se mostrar sem rodeios.
O juiz de paz e demais membros da mesa eleitoral ocupavam nitidamente um lugar diferenciado.
Os atores não apenas afirmavam a honestidade do procedimento, mas desempenhavam papéis distintos de acordo com seu status social.
Os indivíduos não ocupavam sempre o mesmo lugar – poderia haver mobilidade social – mas, reafirmavam-se as distintas gradações desta sociedade.
Em suma, reiteravam-se sutilmente a conveniência da desigualdade.
Contudo, as eleições não deixavam de ser um momento crucial para a participação das classes subalternas.
Participação esta edificada na oportunidade de barganhar – ainda que em condições desiguais – benefícios em causa própria.
Hora burlando as regras clientelísticas com a troca de patrão no ato do voto, hora recorrendo a outras “fraudes”.
Embora, não fossem regras, tais práticas, contribuíam para situar os limites encontrados pelos senhores no direcionamento do processo eleitoral como um todo.


Para saber mais sobre o assunto.
ANAIS DO SENADO. Vol.1(Maio de 1848), Ed. Do Senado, Brasília, 1978.
CARVALHO, José Murilo de. “A construção da ordem: a política imperial” In: Teatro de sombras: a política imperial. Rio de Janeiro: civilização brasileira, 2010. 
CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia da Letras, 1987.
CARVALHO, Marcus J. M. de. “Os nomes da Revolução: lideranças populares na Insurreição Praieira, Recife, 1848-1849” In: Revista Brasileira de História. vol.23 nº. 45, São Paulo, July, 2003.
GRAHAM, Richard. Clientelismo e política no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997.
JUNIOR, Manoel Nunes Cavalcanti. Praieiros, Guabirus e “Populaça”: as eleições gerais de 1844 no Recife. Dissertação de Mestrado. Recife, UFPE, 2001.
MARSON, Isabel. “O cidadão criminoso: o engendramento da igualdade entre os homens livres e escravos no Brasil durante o Segundo Reinado” In: Estudos Afro- Asiáticos, Nº 16, Rio de Janeiro: CEAA, 1988.
ROSAS, Suzana Cavani. “Eleições, Cidadania e Cultura Política no Segundo Reinado” In: CLIO Revista de Pesquisa Histórica. Nº20, Recife: Ed. Universitária, 2004.
SOUZA, Francisco Belizário de. O sistema Eleitoral no Império. Brasília: Senado Federal, 1979.


Texto: Prof. Aurélio de Moura Britto.
Graduado em História pela Universidade Federal de Pernambuco, integrante do Núcleo de Documentação Sobre os Movimentos Sociais da UFPE. (NUDOC/UFPE).



sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Quem disse que brasileiro é pacifico? Já tivemos no Brasil várias revoltas armadas!

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume ago., Série 20/08, 2010.


Motins, insurreições e conjurações: as várias formas de conflitualidade.

Ao contrário do que o senso comum poderia supor, a história do Brasil foi marcada por diversas formas de conflitualidade. Neste sentido, nada poderia ser mais falso do que o mito da passividade de nossa população diante de momentos de crise.

Dentro do âmbito desta concepção, o período colonial foi marcado por motins, levantes, alvoroços e conjuras, enfim, rebeliões que sacudiram o Brasil.

Entretanto, diferente dos movimentos emancipatórios ligados ao contexto do inicio do século XIX, origem do processo de independência; as revoltas coloniais, entre os séculos XVI e XVIII, não tiveram a intenção de cortar os laços com a metrópole.

Antes, muitas destas insurreições foram feitas em nome do rei, considerado um protetor e fiel administrador da justiça.

Atacaram tão somente uma autoridade que estaria cometendo abusos longe dos olhos do monarca lusitano, o qual se presumia nada saber e que, exatamente por esta razão, compreenderia os motivos que haviam elevado os ânimos, perdoando os revoltosos.

Aliás, por mais justa que fosse a rebelião colonial, como lembra Luciano Figueiredo, “constituíam crimes de caráter político prescritos na legislação e para os quais se previam punições terríveis, quase sempre exemplares”.

A despeito de, em nome da ordem social, a reação dos soberanos portugueses, dependendo do caso, ter oscilado entre o completo perdão, o desterro, a humilhação e a morte dos implicados.

Mesmo as conjuras, em finais de oitocentos, procuravam atender objetivos imediatos, tiveram sentimentos nacionalistas muito tênues, por trás dos quais se ocultavam interesses de pequenos grupos pertencentes às elites locais, sem qualquer propósito de cunho popular pró-independência.

Cabe lembrar que não existia ainda um sentir-se brasileiro, havia apenas portugueses no Brasil, embora pudesse já ser registrado um antagonismo entre os lusitanos recém chegados e os chamados reinóis, aqueles europeus nascidos por aqui, filhos e netos de Portugal, inclusive discriminados no Reino pelos seus compatriotas.

Todavia, antes de entrar no âmago da questão, analisando as motivações que conduziram aos conflitos e suas implicações, centro da desmistificação da índole pacifica do colono português presente no Brasil, aplicada, obviamente, as relações implícitas entre eles próprios e os poderes constituídos localmente; é interessante tentar recompor as abordagens anteriormente efetuadas pela historiografia.


As revoltas coloniais e a historiografia.

Até pouco tempo atrás, dificilmente um texto abordando qualquer revolta colonial se furtaria de cometer anacronismos.

Sem intencionalidade alguma, imbuído de conceitos desenvolvidos pelas gerações anteriores, o historiador que pretendesse trabalhar a temática, terminaria preso na armadilha imposta por aquilo que Jean Delumeau chamou de “cotidianidade da revolta”.

Em outras palavras, pensando na instabilidade política do Antigo Regime na Europa, baseada na precariedade do equilíbrio entre estamentos, o historiador seria levado a concluir que, em nome da harmonia coletivamente construída, da resistência às injustiças envolta do pacto colonial benéfico à metrópole, uma insurreição estaria vinculada a uma tentativa de desvinculação da hegemonia exercida pela Coroa portuguesa no Brasil.

Esta postura, por sua vez, conduziria a um discurso que adotaria uma ótica, sobre os protestos coloniais, espelhando o germe do espírito nacional.

Aquilo que Rogério Forastieri Silva nomeou criticamente como “biografia da nação”, uma sugestão adotada pela historiografia de que os conflitos coloniais, mesmo revoltas de escravos africanos ou indígenas, integraram movimentos nativistas de cunho patriótico em prol da liberdade emancipatória do Brasil.


Uma postura bem diferente daquela inicialmente
defendida pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no século XIX, após sua criação em 1838.


Na época, a nascente historiografia não se atreveu a tocar na questão das insurreições do passado, algo compreensivo para a ocasião, já que o Brasil enfrentava várias rebeliões regenciais que, após a instauração do governo imperial, seria seguidas de outros distúrbios contestatórios.

Somente com a proclamação da republica o termo nativismo foi cunhado, sendo associado à palavra revolução, significando a luta pela implementação de transformações políticas, econômicas e sociais radicais; diferenciando-se da insurreição, onde não existiria um projeto claro de destituição do poder, e do motim, sinônimo de rebelião e revolta, remetendo a um levante coletivo contra atos das autoridades constituídas.

Uma análise que terminou reduzindo os vários movimentos contestatórios a um prelúdio da geração da “alma do povo em formação, a um forte sentimento do próprio valor, e logo a uma consciência jurídica em colisão com as tradições da mãe-pátria”.


Em certo sentido, uma tradição herdeira da concepção de Francisco de Adolfo Varnhagem, expressa na sua obra História do Brasil.

Para quem os conflitos coloniais constituíram quase uma guerra civil, onde os revoltosos tinham o direito legítimo de se rebelarem contra o governo lusitano.


Um grave erro que conduziu a um julgamento anacrônico, observado posteriormente, entre outros, por Caio Prado Junior.

Ocorre que, no século XVI e XVII, não havia ainda clara distinção entre motim, insurreição e revolução.

As inconfidências se confundiram com levantamentos, conjurações e atos de rebeldia, sem pretensão a contestar o domínio da Coroa portuguesa propriamente.

Quando muito questionaram o governo de uma figura ocupando o papel de monarca em dado momento ou seus atos em si.

Destarte, a historiografia sobre as revoltas populares teve um crescimento considerável a partir dos últimos anos da década de 1930, sobretudo após as contribuições da história das multidões, das turbas e outras formas de comportamento na sociedade.

Em âmbito geral, Eric Hobsbawn, Charles Tilly e Edward Thompsom tornaram-se os principais autores sobre os movimentos contestatórios, percebendo os conflitos populares como uma luta política e ideológica, uma tendência que foi acompanhada pelos historiadores brasileiros.

Exatamente a partir deste novo viés, outros fatores passaram a serem considerados como fomentadores dos conflitos coloniais, além da esfera econômica, política e social, as questões religiosas, por exemplo, também começaram a merecer maior atenção.

As manifestações de contestação, pouco a pouco, adquiriram para a historiografia um direcionamento que espelha interesses em comum a determinados grupos, subordinados a uma tentativa de barganha em prol de necessidades particularizadas, quase sempre, desvinculadas do bem estar da coletividade formada pelo conjunto da sociedade.

Um tipo de analise histórica que originou trabalhos de envergadura mais ampla e condizente com o contexto real, a exemplo das pesquisas realizadas, entre outros, por Laura de Mello e Souza e Ronaldo Vainfas.

A complexa realidade colonial passou de fato a ser observada com uma lente de aumento capaz de distinguir suas nuances, alias nem sempre nítidas a primeira vista.

A eclosão de manifestações de contestação ou reivindicação começaram a fornecer pistas sobre um contexto de crise derivada de uma situação de constrangimentos os mais variados: quer impostos expressivos, limitação ao livre comercio, controle estatal excessivo, tirania e corrupção das autoridades locais, restrição da liberdade individual e religiosa ou até mesmo a miséria e o empobrecimento.


Insurreições indígenas.

A exemplo do que ocorreu na África e na Ásia, na Terra de Santa Cruz a penetração lusitana não aconteceu sem que houvesse uma forte resistência por parte dos nativos.

A insistência dos colonos portugueses em escravizar os índios e convertê-los ao cristianismo, estimulou varias insurreições.

Mal a ocupação territorial lusitana do Brasil havia começado, a inicial cordialidade indígena converteu-se em ódio mortal aos invasores que tentavam impor sua cultura, implicando em atos de desmedida violência de parte a parte.

Já entre 1556 e 1558, os caetés realizaram uma grande campanha contra os portugueses estabelecidos em Alagoas, devorando, um a um, mais de uma centena de náufragos de um navio lusitano.

O capitão donatário Jerônimo de Albuquerque, por este motivo, assumiu a direção de uma tropa que varreu a tiro e a fogo o território caeté, desde o Rio São Francisco até o cabo de Santo Agostinho.

A resistência nativa foi um dos principais fatores responsáveis pelo fracasso inicial da instalação da maior parte das capitanias donatárias no Brasil, desarticulando, depois de 1554, o comércio de açúcar da única capitania que obteve sucesso: Pernambuco.

Segundo documentação primária da época, na capitania de Ilhéus, por exemplo, recebida por Jorge Figueiredo Correa, tendo atraído o investimento de “homens ricos” de Lisboa, foram construídos “seis engenhos [de] “açúcar”, todos eles, pouco depois, destruídos pela “praga dos aimorés”, forçando “a gente” a fugir para a “Bahia”, deixando “a terra quase despovoada”.

Não obstante, estas insurreições, à medida que o numero de portugueses foi crescendo, nem sempre utilizaram o confronto direto como mecanismo de revolta.

Os ameríndios usaram largamente o que hoje chamaríamos de táticas de guerrilha, surtindo um efeito avassalador sobre as populações europeias.

Os aimorés, fixados ao redor de Porto Seguro, por exemplo, evitaram o confronto direto com os invasores, só atacando quando em superioridade numérica, nunca lutando “de rosto a rosto”, ocultando-se pelos “matos” e descendo a “praia”, ou seja, saindo em campo aberto, somente quando iam “dar saltos”, agindo sempre “ligeiros”, o que lhes valeu a fama de “grandes corredores”.

Ao que tudo indica, a vida nômade de grande parte dos nativos do Brasil, em contraposição à vida sedentária dos povos pertencentes ao Império Asteca, Maia e Inca, garantiu uma certa vantagem estratégica no combate aos invasores europeus.

Enquanto os índios brasileiros, exatamente por serem nômades, estavam habituados a táticas de guerrilha, os grandes Impérios indígenas mantinham uma tradição de confronto direto em campo aberto com o inimigo, dentro de regras rígidas que prejudicaram a tentativa de expulsão dos invasores.

O êxito da estratégia nativa dos nossos indígenas fez com que o primeiro governador geral do Brasil empreendesse uma campanha de extermínio de algumas tribos e etnias, o que não fez mais que estimular novas insurreições, cada vez mais organizadas.

No início da década de sessenta do século XVI, por exemplo, os “tamoios[,] já livres da guerra do governador Mem de Sá[,] se tornaram a fortificar no Rio de Janeiro[,] donde saiam a correr à costa toda até São Vicente, salteando os índios novos cristãos, prendendo, matando (...) e comendo quantos podiam[,] (...) [durando] esta moléstia dois anos”.

Uma rebelião que só terminou com a chegada de reforços vindos do Reino em 1563, criando, de qualquer modo, um clima de medo e instabilidade entre os colonos lusitanos ao longo de todo o litoral brasileiro, chegando a repercutir em Portugal, afugentando a mão de obra voluntária.

Em varias ocasiões, mesmo massacrados pelos colonos portugueses, quando os indígenas sobreviventes eram reduzidos a “ladrões de casa”, não sendo mais temidos por “haver muitos anos” que não mais “tinham ameaçado com guerra” as populações portuguesas, algumas tribos remanescentes conseguiam se organizar e voltar à luta.

Este foi o caso da confederação dos tamoios (1555-1567), da guerra dos aimorés (1555-1673), do levante dos tupinambás (1617-1621), da confederação dos cariris (1683-1713), da rebelião dos indígenas urbanizados (1713-1715), da guerra dos Manaus (1723-1728), da resistência guaikuru (1725-1744) e da guerra guaranítica (1753-1766); entre tantas outras revoltas de menor destaque contra o homem branco.

Mesmo nestes casos, as insurreições eram contra a restrição da liberdade, contra a escravização, a expropriação da terra, dos campos de caça, etc; visavam resistir à imposição do cristianismo ou da cultura européia.

Não tiveram a intenção, propriamente, revolucionário de expulsar os portugueses de volta para o mar ou derrubar a monarquia.

No entanto, cabe lembrar que a resistência indígena foi além das insurreições, os pajés agregaram em torno de si movimentos pacíficos de contestação do domínio europeu, entre outras modalidades, liderando uma fuga para o interior em busca da terra sem mal.

A despeito de algumas destas marchas religiosas terem se convertido em movimentos violentos, organizados em torno de saques, ataques aos colonos portugueses e a destruição de plantações e engenhos de açúcar.

Entretanto, dentro do contexto violento de resistência nativa contra os colonizadores, como aconteceria com os africanos escravizados, os indígenas souberam também criar espaços de negociação, terminando por serem incorporados à sociedade colonial, sobretudo, através da miscigenação e da aculturação.


Revoltas de escravos.

Revoltas de escravos pipocaram, em maior ou menor envergadura, por todo o Brasil durante o período colonial.

A exemplo da resistência indígena, como lembrou João José Reis, a luta dos africanos, contra a escravidão, existiu sob variadas formas, nem sempre radicais.


Foram utilizados feitiços contra os senhores, fugas individuais para a liberdade, simulação de doenças para evitar o trabalho, quebra dos instrumentos de produção e a constituição de laços de solidariedade étnica ou a partir da criação de parentesco.

Neste sentido, a resistência coletiva simbolizada pela formação de quilombos, mais que nenhuma outra, serve a desmistificação do seu caráter revolucionário, constituindo uma espécie de “rebeldia ambígua”.

Fugindo sozinhos ou em grupos, os escravos africanos que rumavam para os quilombos, em geral, buscavam sobreviver com autonomia, não lutavam para destruir a instituição escravocrata ou derrubar o Estado constituído.

Neste sentido, ao contrário do que defendeu Carlos Magno Guimarães, os quilombos não negavam a ordem escravista, antes, faziam parte do sistema escravocrata, agindo como uma válvula de escape para as tensões sociais.

Como pretendeu Donald Ramos, serviram para evitar contestações frontais. Haja vista a presença de 160 quilombos, registrados ao longo do século XVIII, nunca ter desestabilizado a ordem escravocrata, não trazendo mais que receios aos senhores de escravos e um medo de sublevação geral infundado.

Na realidade, foram raras as rebeliões escravas que se alastraram ou trouxeram conseqüências mais graves para os colonos, implicando em assassinatos e destruição de propriedades, um tipo de insurreição que somente se tornou mais freqüente em época tardia, já no século XIX, tal como a revolta dos malês, em 1835, na Bahia.

A presença dos quilombos para onde um escravo poderia fugir sorrateiramente na calada da noite, a variedade étnica, os conflitos internos entre os próprios escravos africanos, dado sua condição desigual dentro sistema escravocrata, a miscigenação e a legislação dura que dava vazão ao medo de levantes; desestimularam uma verdadeira revolução escrava, tal como aconteceu no Haiti e em outras partes do caribe.

Os escravos procuraram, através das rebeliões, criar espaços de negociação para melhorar sua condição de existência dentro do sistema colonial português.

Não contestaram a ordem escravocrata, como releva o emblemático caso do levante no engenho Santana, em Ilhéus, no sul da Bahia, em 1789.

Na ocasião, o desfecho da rebelião de escravos terminou com um acordo com o proprietário.

Ao invés de exigirem sua liberdade ou o fim dos castigos físicos; os revoltosos pediram apenas a substituição dos feitores, a participação na escolha dos próximos, melhores condições de trabalho e que as tarefas mais pesadas e arriscadas fossem feitas pelos africanos recém chegados ao engenho.

A mentalidades dos homens de então parece ter restringido a capacidade de contestar as instituições, criando mecanismos de manutenção da ordem estabelecida, pois não só os indígenas ou os escravos africanos foram incapazes de tentar derrubar a estrutura colonial, como também os colonos portugueses tampouco contestaram os laços com a metrópole.


Motins contra as mazelas coloniais.

Embora as formas de conflitualidade, envolvendo colonos, tenham sido diversificadas, estendendo-se desde revoltas de reinóis até a contestação de colonos sobre os atos de autoridades locais.

Mesmo aparentado fazê-lo, sobretudo, a luz da leitura de alguns historiadores; as insurreições coloniais nunca tentaram derrubar a monarquia ou o domínio da Coroa portuguesa.

Constituíram mais motins contra as mazelas coloniais do que qualquer outra coisa.
No século XVI, por exemplo, um desentendimento entre colonos e oficiais dos navios da frota do Brasil provocou um levante armado que se alastrou.

Na época, diversos artifícios garantiam a fuga do fisco a muitos comerciantes, de acordo com a Câmara da Bahia, aproveitando-se da proibição da comercialização dos produtos de estanco entre Portugal e o Brasil, sendo este um privilégio da Companhia Geral do Comércio do Brasil.

A incapacidade da dita Companhia, em prover em quantidade suficiente a colônia com os produtos de estanco, tinha aberto uma brecha para que os oficiais dos navios da frota do Brasil, mais especificamente das embarcações de guerra que serviam de escolta, dada o espaço ocioso a bordo, contrabandeassem estes produtos, vendendo-os a altos preços.

Um procedimento adotado pela própria nau capitania, em 1667, então abarrotada com sal. Caso que causou escândalo em Salvador, já que o contrabando foi promovido pelo general Jorge Furtado de Mendonça, o qual negociou a venda do sal publicamente, em grande quantidade, em proveito próprio.

A Câmara de Salvador escreveu ao rei, queixando-se, sugerindo o confisco da mercadoria em beneficio da população e a prisão do general quando tornasse ao Reino.

Diante da ausência de uma resposta, a população se rebelou e agiu em nome do rei, pegando em armas e saqueando o sal, embora não tenham conseguido destituir o general de seu cargo.

Já em 1688, também em Salvador, foi a vez dos soldados do Terço Velho se amotinarem, depois de nove meses sem receber pagamento, os quais, armados, cercaram a casa de pólvora e ameaçaram saquear a cidade.

Um conflito que causou a morte de mais de 20 pessoas, mas que terminou com o pagamento dos soldos atrasados e o perdão dos envolvidos.

Qualquer que fosse a mazela – impostos excessivos, medidas descabidas, abuso de autoridade, etc – a inabilidade administrativa das autoridades em lidar com a crise, tornava-se um catalisador para mobilização em torno de reivindicações que procuravam criar espaços de negociação.

Todavia, o senso de oportunidade criava situações antagônicas de fomento a atos de rebeldia, envolvendo inclusive o patrocínio de representantes da Coroa, em busca de vantagens quase sempre benéficas as elites dominantes.

Foi o que aconteceu, em certa medida, no caso da Inconfidência Mineira, quando, segundo Kenneth Maxwell, “os magnatas esperavam alcançar seus objetivos sob a cobertura de um levante popular”, tencionando apenas proteger seus próprios interesses, não pretendendo, a rigor, alterar a ordem social estabelecida.

Seja como for, a redução dos conflitos a condição de motins, insurreições de grupos nem sempre homogêneos, organizados contra as autoridades locais; não inviabiliza o caráter belicoso das revoltas estimuladas pelas constantes crises internas e inerentes ao sistema colonial.

Isto, mesmo quando os conflitos foram acompanhados de conjurações, conspirações organizadas para manipular o movimento em prol dos interesses do grupo organizador, sob a roupagem de reivindicações de cunho popular.

Alias, a própria origem do termo conjurar, denota um desvio de intenção.


Pacíficos e apáticos... nós?

Motins, insurreições e conjurações, ou quaisquer outras palavras usadas para denotar as várias formas de conflitualidade no Brasil colonial, não tiveram a intenção de cortar os laços com a metrópole.

Não podem ser consideradas como indícios da formação de uma nacionalidade que ainda não existia, a despeito da historiografia ter construído esta imagem por várias décadas, impregnando a mentalidade contemporânea com esta falsa noção.

Dentro deste contexto, é um erro grave considerar as insurreições indígenas como inicio da auto-afirmação do povo brasileiro contra o domínio lusitano, quando na realidade sua intenção era somente buscar um espaço para a coexistência, garantindo a vida individualizada e a liberdade de escolha.

Assim como seria cometer um anacronismo considerar as revoltas de escravos como revoluções que pretendiam acabar com a escravidão ou fundar um Estado africano no Brasil.

Já que, mesmo os quilombos, não tiveram a intenção de propagar a liberdade a outros irmãos cativos, terminando por servirem, indiretamente, a manutenção do sistema escravocrata, evitando o acirramento das tensões.

A escravidão já fazia parte da cultura dos africanos quando eles foram arrancados de seu continente, sendo encarada com tamanha naturalidade que, com raras exceções, muitas revoltas não tencionaram mais que melhorar as condições de existência dos envolvidos no âmbito da dinâmica escravocrata e latifundiária do sistema colonial.


Sendo também desproporcional assumir as tensões em volta das insurreições dos colonos portugueses como uma tendência separatista.


O Brasil era uma extensão de Portugal, devia servir aos seus interesses e estava ocupado apenas por portugueses, não existiam ainda brasileiros por aqui.

É por isto que as varias formas de conflitualidade colonial não passaram de motins, mesmo quando aparentaram conjurações e inconfidências.

Porque nunca pretenderam de fato separar a colônia da metrópole. Esta não era uma opção que atendia aos interesses das elites locais, as quais apenas se serviram, no final do século XVIII, de uma tendência popular emancipatória tênue, a qual se firmaria com maior nitidez apenas no inicio do século XIX.

O período colonial foi, sem duvida, conturbado, repleto de crises que geraram contestações, acarretando em momentos sangrentos, o que desmistifica a índole pacifica de nossa história, mas não registrou tentativas de rompimento com o domínio metropolitano e muito menos o principio da formação de uma nacionalidade brasileira.


Para saber mais sobre o assunto:

DONATO, Hernâni. Dicionário das batalhas brasileiras: dos conflitos com indígenas às guerrilhas políticas urbanas e rurais. São Paulo: Ibrasa, 1987.

FIGUEIREDO, Luciano. Rebeliões no Brasil colônia. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

GUIMARÃES, Carlos Magno. Uma negação da ordem escravista: quilombos em Minas Gerais no século XVIII. São Paulo: Ícone, 1988.

MAXWELL, Kenneth . A devassa da devassa – a inconfidência mineira: Brasil e Portugal – 1750-1808. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

PAMPLONA, Marco Antonio. A historiografia do protesto popular e das revoltas urbanas. Rio de Janeiro: PUC, 1991.

POMBO, José Francisco da Rocha. História do Brasil. São Paulo: Melhoramentos, 1924, p.163.

PRADO JR, Caio. A formação do Brasil contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 1979.

RAMOS, Donald. “O quilombo e o sistema escravista em Minas Gerais do século XVIII” In: Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

RAMOS, Fábio Pestana & MORAIS, Marcus Vinicius. Eles formaram o Brasil. São Paulo: Contexto, 2010.

REIS, João José. “O povo negro. Quilombos e revoltas escravas no Brasil” In: Revista da USP. São Paulo: FFLCH/USP, 1995-96.

REIS, João José & SILVA, Eduardo. Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

SILVA, Rogério Forastieri. Colônia e nativismo: a historia como “biografia da nação”. São Paulo: Hucitec, 1997.

SOUZA. Laura de Mello e. Norma e conflito: aspectos da história de Minas no século XVIII. Belo Horizonte: UFMG. 1999.

VAINFAS, Ronaldo. A heresia dos índios: catolicismo e rebeldia no Brasil colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.


Texto:

Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.
Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.



quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A vida privada entre escravos africanos no Brasil: espaço de tensão e harmonia.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume ago., Série 19/08, 2010.


A escravidão no Brasil manteve-se por mais de 300 anos, um longo período em que a sociedade esteve circunscrita à relação entre senhores e escravos, mas que extrapolou, simultaneamente, esta polarização simplista.


O tráfico de escravos não se resumiu à importação direta da África, comportando movimentos internos de compra e venda; assim como o aproveitamento desta mão de obra não se resumiu à lavoura de cana-de-açúcar e ao contexto dos engenhos; convivendo inclusive com a mão de obra livre.

A discussão desta realidade complexa conduziu a novos estudos, temáticas e interpretações das fontes, originando trabalhos sobre a dinâmica interna da família escrava e os processos de diferenciação no interior da comunidade cativa.

Fornece exemplo valioso desta nova abordagem, entre outros, os estudos de João José Reis, Leila Mezan Algranti, Maria Helena Machado e Sílvia Lara.

Entretanto, independente destas novas abordagens, é interessante notar que existiram desigualdades no interior dos grupos de escravos que, certamente, alteraram as relações entre cativos e trabalhadores livres, entre negros e brancos, entre escravos e alforriados; compondo uma estrutura social mais complexa do que aquela que poderia ser imaginada.


A dinâmica interna.

A escravização dos prisioneiros de guerra pelos africanos, como no mundo antigo europeu, era muito comum quando os portugueses chegaram à África, fazia parte da cultura africana há séculos, compondo uma complexa rede de relações sociais e econômicas.

No Brasil, esta mão de obra foi utilizada timidamente no inicio, mas, rapidamente, passou a incorporar a dinâmica interna das relações já presentes no escravismo africano.


Senhores e escravos manipulavam e transigiam no sentido de obter a colaboração um do outro, cada qual utilizando seus objetivos, recursos e estratégias.


Os escravos negociavam mais do que lutavam abertamente contra o sistema, poucos a rigor assassinaram seus senhores ou participaram de rebeliões.

A dinâmica interna do trabalho escravo tinha uma ética particular, com valores morais independentes e uma concepção de mundo própria, com espaços de autonomia para o escravo.

É verdade que uma autonomia relativa, forjada nas relações entre senhores e escravos, ocupando as brechas do domínio senhorial. Em todo caso, permitindo uma certa mobilidade e diferenciação interna entre os cativos, criando, inclusive, tensões que auxiliavam no processo de dominação branca.

Como lembrou Silvia Lara, a presença estrutural da escravidão foi sempre apontada pela historiografia como o aspecto mais importante para caracterizar aquilo que distinguia o mundo colonial do metropolitano.

No entanto, as relações estabelecidas entre homens e mulheres, negros e mulatos, livres e libertos, criadoras de tensões sociais e políticas na sociedade colonial, permitem compreender a verdadeira dinâmica da escravidão, o sincretismo cultural, a decodificação da mentalidade dos sujeitos que viveram sob domínio português.


Casamento e diferenciação.

Dentre as brechas permitidas pela dinâmica interna do sistema escravista, o casamento talvez seja um dos mais emblemáticos exemplos de possibilidade de diferenciação entre os escravos.

As uniões matrimoniais, entre cativos, funcionavam como mecanismo de conquista da liberdade, sendo usadas, ao mesmo tempo, como instrumento de produção de desigualdades no interior das comunidades escravas e no interior das famílias.

Os proprietários aceitavam uniões consensuais entre escravos como uma ocorrência da ordem natural, muitas vezes incentivando que os cativos sacramentassem o casamento na igreja, reforçando a noção de família.

O casamento certamente não significava alforria, mas concedia alguns privilégios, impedia a separação da família que se formava, cujos membros não podiam ser vendidos separadamente, conferindo maior segurança.

Além disto, criava uma hierarquia interna que obedecia aos princípios da família nuclear clássica de natureza patriarcal, englobando laços que iam além do pai e da mãe, havendo uma relação entre primos, irmãos, tios, sobrinhos e avós; conferindo status e prestigio ao patriarca dentro da comunidade.

Pelo prisma do senhor, ao permitir a diferenciação entre os cativos, em troca ele ganhava a docilidade de seus escravos e sua submissão ao trabalho.

O senhor podia utilizar um escravo em trabalhos ligados aos comercio, deixando-o transitar livremente pelos centros urbanos, pois ele retornaria ao final do dia para o seio de sua família.

Neste sentido, os laços estabelecidos pelo casamento, diminuíam muito o risco de fugas.

Não obstante, enquanto sacramento da igreja católica, o matrimonio podia ser incentivado entre todos, mas, em alguns momentos, era desencorajado.

No que diz respeito às uniões consensuais entre brancos e libertos e seus descendentes, o casamento produzia mais que um simples parentesco, determinava a formação de parentelas mistas.

Ainda que a condição de parente pudesse igualar seus membros, as diferenças sociais entre cativos, forros, administrados livres, assim como entre pretos, pardos ou mulatos não eram imperceptíveis aos próprios, criando um foco de tensão entre pais e filhos, por exemplo.

Daí não ser incomum os esforços de pais, irmãos, mães e tios para evitar uniões matrimoniais indesejadas, não apenas na elite branca, mas inclusive na população pobre e livre, que só aparentemente não tinha nada a ganhar ou a perder.

Destarte, mesmo os laços de parentesco estabelecidos pelo casamento entre escravos e negros livres alargavam os horizontes dos cativos.

Para descendentes de africanos, possuir parentes livres reduzia a dependência, tanto psicológica como física, com relação ao senhor, simbolizando uma diferenciação que representava certa liberdade.

A verdade é que, em meio aos açoites, correntes, troncos e chibatas; a escravidão era estabelecida sobre uma base dialética dinâmica.

Os cativos encontravam espaços por onde se movimentar e criar diferenciações no interior de suas comunidades, como presta testemunho a analise das brechas aproveitadas pelos laços criados pelo casamento.


Relações complexas.

A complexidade das relações estabelecidas dentro do sistema escravista, mesmo através de uma análise pontual, sucinta e modesta dentro do alcance das possibilidades deste momento; permitem entender que a circulação de escravos e as formas de trabalho, observadas no período colonial, foram diversificadas.

Cativos, administrados e trabalhadores livres conviveram em um ambiente que comportou tensões e relações harmoniosas; rígido e, paradoxalmente, repleto de brechas por todos os lados, exploradas e aproveitadas para facilitar a convivência e permitir maior segurança.

O entendimento desta rica dinâmica, ao facilitar a visualização do quadro mental colonial, conduz ao descortinar da formação do sincretismo da cultura brasileira, tributária, entre outros fatores, também das relações estabelecidas dentro do âmbito do trafico de escravos e da utilização da mão de obra africana nas mais diversas atividades, assim como em decorrência das inter-relações estabelecidas por conta destes encontros e desencontros entre pessoas.


Para saber mais sobre o assunto:
DAVIDSON, Basil. A descoberta do passado de África. Lisboa, Sá da Costa, 1978.

LARA, Silvia H. Fragmentos setecentistas: escravidão, cultura e poder na América portuguesa. Tese de Livre Docência. Campinas: UNICAMP, 2004.

REIS, João José e SILVA, Eduardo. Negociação e conflito. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

SCHLEUMER, Fabiana et. al. Luzes e sombras sobre a colônia. São Paulo: Humanitas, 1998.

SCHWARTZ, Stuart. Segredos internos. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.


Texto:

Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.
Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.