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Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

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quarta-feira, 2 de julho de 2014

RESENHA: COUTO, Ronaldo. Os jesuítas na América portuguesa [livro eletrônico]: a expansão da fé e a consolidação econômica no Rio de Janeiro: Séc. XVI e XVII / Ronaldo Couto. -- Rio de Janeiro, RJ: Ed. do Autor, 2013.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 5, Volume jul., Série 02/07, 2014, p.01-03.
 
 
Prof. Fábio Liberato de Faria Tavares.
Graduado em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Mestrando em Educação Tecnológica pelo Centro Federal de Educação
Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG).




O autor já explicita que não se propõe a fazer uma história definitiva sobre o tema.
O livro se inicia nas origens do cristianismo, com destaque para a primeira figura missionária da religião, Paulo.

Paulo, por ter levado o cristianismo para várias localidades, teria sido uma inspiração para os empreendimentos posteriores.

A ligação Igreja-Estado começou no Império Romano.
Se por um lado era benéfica para a Igreja, por ter proteção e garantia de fiéis, muitas vezes ela foi submetida a interesses dos governantes.

As universidades que foram surgindo através da problematização e da sistematização do conhecimento passam a ser vistas como importantes instrumentos para capacitação e expansão da fé cristã.
A Cia. De Jesus se encaixa no quadro da Contra-Reforma. Ignácio de Loyola era de família nobre.

Feriu gravemente na perna em luta contra a França e ficou com sequela.
No período de recuperação foi se apaixonado pelo cristianismo lendo entre outros autores, Jacobus de Varagine.

Brigas foram comuns, para se decidir nas mãos de quem ficaria a administração da Cia.

O predomínio foi de itálicos.
Os inacianos sabiam como usar as lendas locais a seu favor. Faziam distorções para aproximá-las do cristianismo.

Um caso é o de Sumé.
Os únicos a quem os jesuítas deviam obediência era ao Papa.

No Brasil Colonial, por exemplo, os jesuítas aceitavam quer um índio adulto que não soubesse a língua portuguesa confessasse para uma criança e esta repassaria ao padre.
Mesmo com as críticas, continuaram com a prática.

Eles proibiam também que bispos entrassem nos aldeamentos para não atrapalharem a catequização.
Acolhiam na ordem os considerados “infames” (libertos, desterrados, cristão novos, excomungados, etc.).

Apesar de tentar se colocar como uma instituição mundial, os jesuítas esbarravam nas rivalidades continentais.
Um exemplo foi o atrito entre portugueses e espanhóis durante a União Ibérica.

A briga de nacionalidades ficou clara nas “guerras Guaraníticas” entre 1754 e 1756 quando os Sete Povos das Missões se rebelaram quando a região saiu do domínio espanhol e foi para mãos portuguesas.
Os jesuítas espanhóis incentivaram a luta. Pela lógica, só estaria havendo a troca de jesuítas espanhóis para portugueses.

Os jesuítas contribuíram para a educação não só na América como na Europa.
René Descartes estudou em colégio da ordem na França.

A universidade de Évora teve sua origem em colégio jesuíta.

Os jesuítas não condenavam os conhecimentos da medicina, contrariando a maioria dos religiosos da época.
Padre José de Anchieta teria tido certo conhecimento de medicina.

Os tratamentos que ele ministrou ajudou na conquista de novos fiéis, pois acabava desacreditando os pajés.
Em Goa eles abriram cursos na área médica que acabaram dando origem ao curso em 1842.

Em Goa e Pequim, os jesuítas driblaram as proibições do Santo Ofício e compravam ou publicavam livros proibidos.
Entretanto na América Portuguesa as restrições eram fortes.

Na América Espanhola havia censura, mas em menor grau, além disso, poderia haver impressão de livros.
Os jesuítas forma importantes também não só por levarem a fé católica, mas também ajudaram na colonização.

Muitas vezes agiram como negociadores de apoio indígena, seja para ajudarem os portugueses as submeterem povos hostis, seja para expulsar estrangeiros, como os franceses na baía de Guanabara.
Mas também tiveram ganhos com isso. Conseguiram ampliar seu poderio econômico e terras como no RJ (regiões do Engenho Novo, Velho, Tijuca, entre outras).

Mais de 1000 habitantes da América Portuguesa ajudaram na reconquista de Luanda.
Era de suma importância para os fazendeiros (principalmente fluminenses) a manutenção do tráfico.

E para os jesuítas também, pois assim aliviaria a escravidão indígena.

Os jesuítas faziam uso intenso de suas terras.
Plantavam cana de açúcar, hortaliças, criavam gado entre outras atividades lucrativas.

Eles até emprestavam a juros.
Eles não dependiam muito de doações, viraram atores relevantes no comércio da colônia.

Tinham o costume de “bancarem os coitados”, para conseguirem benesses do governo lusitano.
Graças aos pedidos, conseguiam terras, esmolas, e alimentos da Coroa.

A bem sucedida cristianização dos indígenas fez com que a ordem aumentasse seu poder econômico e político.

A obra é uma leitura valiosa para os que querem iniciar os conhecimentos sobre a participação dos jesuítas na história brasileira e entender o porquê de eles terem deixado marcas de seus trabalhos até a atualidade.

 
Para saber mais sobre o assunto.
COUTO, Ronaldo. Os jesuítas na América portuguesa [livro eletrônico]: a expansão da fé e a consolidação econômica no Rio de Janeiro: Séc. XVI e XVII / Ronaldo Couto. -- Rio de Janeiro, RJ: Ed. do Autor, 2013.



sexta-feira, 24 de junho de 2011

Noticias e Eventos – Boletim 4.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume jun., Série 24/06, 2011, p.01-03


Lançamento – Livro: Hernán Cortez - Civilizador ou Genocida.


Membro do Conselho Editorial de Para entender a história; o Prof. Ms Marcus Vinicius de Morais irá lançar no dia 02 de julho o seu mais novo livro.
Trata-se de uma biografia de um dos mais controversos personagens da história da América, o conquistador espanhol Hernán Cortez, discutido pelo autor sob uma ótica pouco comum.


Foi a partir de Cortez que os indígenas que vi­­viam no México viram uma chance de se livrar do domínio de outras sociedades indígenas cruéis e violentas.
Esta é a explicação mais atual para se compreender o que levou alguns índios a se aliarem aos conquistadores espanhóis para derrubar a cidade de Teno­­chtitlán.
“Talvez estar sob o domínio espanhol fosse menos severo do que obedecer aos mandos de certas sociedades indígenas”, afirma o historiador Marcus Vinícius de Morais, que acaba de
Para Morais, os vencedores podem ter sido os próprios índios, daí a originalidade de seu livro.


O livro.
Figura indissociável da conquista da América, Hernán Cortez guarda muitas ambigüidades. Representa, ao mesmo tempo, o extermínio de um império indígena vasto e populoso e a origem do povo mestiço que constitui o México.

A campanha liderada por Cortez no mundo asteca entraria para a História da cultura ocidental como um dos maiores símbolos do contato entre culturas e o conseqüente choque de valores de sociedades distintas.

E foi a partir desse encontro que um novo mundo, aos poucos, se ergueu e outra sociedade, sincrética, nem européia e nem indígena, começou a ser formada.
Com base em pesquisa realizada em relatos, cartas, memórias e diários de viagens da época, o autor reconstrói a extraordinária epopéia do guerreiro espanhol, cuja imagem oscila entre o símbolo máximo do conflito, da destruição provocada pelas guerras de conquista, e a representação do nascimento de um mundo novo.
Hernán Cortez: civilizador ou genocida?
A resposta fica a critério do leitor desta obra, que traz de volta à luz a vida do conquistador que conseguiu derrotar um dos maiores impérios que a América já teve: o asteca.


O autor.
O professor Marcus Vinicius de Morais é natural de Santos, litoral do estado de São Paulo, é mestre em História Cultural pela Universidade de Campinas (Unicamp).
Há 12 anos pesquisa a história do México e dos conquistadores espanhóis em fontes de época e crônicas de viagens já publicadas, mas também em documentos originais que se encontram arquivados na Cidade do México.
Foi pesquisador da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Atualmente, além das atividades de pesquisa, dedica-se à docência e promove palestras especialmente sobre História da América e Ensino de História.
É co-autor das obras História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI, Novos temas nas aulas de História, História na sala de aula e Eles formaram o Brasil, todas publicadas pela Editora Contexto.


Lançamento.
O coquetel de lançamento do livro será em Campinas, no dia 02 de julho, na livraria Cultura do Shopping Center Iguatemi.
Av. Iguatemi, 777 – Lojas 04 e 05 – Piso 1.
Vila Brandina – Campinas.
Tel: (19) 3751.4033

Maiores informações em como adquirir o livro, tendo acesso à leitura do primeiro capitulo, podem ser obtidas no site da editora Contexto.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Cinqüenta dias a bordo de um navio negreiro.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mai., Série 31/05, 2011, p.03-10.



Resenha:

HILL, P. G. Cinqüenta dias a bordo de um navio negreiro. Traduzido por Marisa Murray. Rio de Janeiro: Editora José Olimpio, 2006.


O livro “Cinqüenta Dias Abordo de Um Navio Negreiro” escrito em 1843 traz o relato de Pascoe Granfell Hill (1804-1882), religioso protestante.
Ele acompanhou o retorno a África de um navio negreiro interceptado em Cabo Verde pelo navio da Marinha Britânica “Cleópatra”.
O relato do livro se situa no fim do período do comércio escravista transatlântico.
A primeira parte deste livro retrata o Rio de Janeiro, local onde teve início à viagem. Nas primeiras páginas o autor, destacou as belezas naturais da cidade.


A escravidão no Brasil.
Um dos aspectos que chamou a atenção de Hill, no Rio de Janeiro, foi à forma de realização do trabalho dentro do porto pelos escravos.

O autor relatou a seguinte situação:

“O patrão anotava o número de horas de que eles trabalham pesado e eles têm uma parte do dia para trabalhar em proveito próprio, permitindo lhes, com esforço, comprar a sua liberdade dentro de um prazo razoável (2006, p.24)”.

Segundo Wehlling (2006), estes escravos conseguiam juntar, por meio das suas economias, dinheiro suficiente para compra da liberdade, apenas, por volta dos quarenta anos de idade.

Após a compra da liberdade, normalmente casavam e constituíam família.

O autor, como religioso protestante, mostrou-se contrário ao regime escravista.
Esta postura, assumida por Hill, era comum na Europa onde os movimentos religiosos protestantes, a partir da metade do século XVII, eram contrários ao regime escravista.
As pressões realizadas por estes movimentos possibilitaram que o tráfico fosse abolido em 1807, e que a escravidão fosse eliminada da Inglaterra em 1834 (ALBUQUERQUE; FRAGA FILHO, 2006, p.173).
Em sua obra, Hill falou também das condições dos escravos no Brasil.
Em sua opinião o trato com os escravos domésticos era melhor que em outras partes do mundo, mas não esqueceu de fazer referências aos maus tratos, principalmente, no interior do país.   
Estes abusos são duramente condenados, o autor ainda destaca o grande número de fugas que podiam ser percebidas através dos constantes anúncios nos jornais.
Os mercados de escravos existentes no Rio de Janeiro estavam cheios dos ditos “fujões” que tinham menor preço.
Por muito tempo a captura dos escravos fugidos esteve sobre a responsabilidade do Exército Nacional, apenas em 1880 a Princesa Isabel dispensou o serviço.
Esta dispensa ocorreu graças às manifestações populares em prol da Abolição, que inúmeras vezes impediam o exército de concretizar as capturas.
Uma das observações destacáveis de Hill é a condição marginal em que se encontravam as instituições eclesiásticas católicas no Brasil.

Nas palavras do autor:

“Na parte alta baia, a rua a direita termina na subida de um morro, onde estava situado o convento dos Beneditos, ainda mantida por alguns monges daquela ordem.
Está ordem em melhor estado de conservação do que muitos outros edifícios eclesiásticos, como testemunham os destelhados do colégio dos jesuítas ocupando um morro semelhante na parte da cidade queda de frente a baía” (2006, p.29).

O livro traz assim uma demonstração do processo de laicização do Estado Luso-Brasileiro, que neste momento estava consolidado.
Este laicização ocorreu pelas mãos de Marquês do Pombal, que sobre influência dos pensamentos iluministas, em 1759, decretou a expulsão dos jesuítas do território português.


Em Moçambique.
Hill partiu do Rio de Janeiro a bordo do “Cleópatra”, junto de com Sir Willian Gomm, em direção as Ilhas Mauricio, onde este último seria o novo governador.

Depois de cumprir seus objetivos na ilha, foi para Moçambique.

A cidade em que chegou tinha sido um grande centro mercantil português, servindo de ligação e rota comercial para Índia, tornando-se uma capitania-geral em 1752.
A importância desta cidade se mostrava pelo fluxo de escravos, que em seu auge chegou a representar 10% dos escravos importados pela América.
O tráfico negreiro só cessou em Moçambique com a intervenção inglesa (BETHELL, 2002, p.179).
Hill traz o relato de um comerciante português, Senhor Nobre, dono da única loja, lá existente, sobre o bom comportamento dos negros na região.
Segundo este, o comportamento era: “melhor para eles, senão suas costas iam sofrer (2006: 66)”
O autor destaca o ódio dos portugueses para com os ingleses e seus esforços em combater o trafico negreiro.
O fim do mercado negreiro em Moçambique foi influenciado pelo processo de mudanças inerentes ao avanço do modo de produção capitalista, que se consolidava neste período.
A estratégia de bloquear e por fim ao mercado escravista, teve como objetivo a abertura de novos mercados consumidores, tendo em mente o crescimento da mão-de-obra assalariada.
As regiões na África que ainda tinham um mercado negreiro em funcionamento, eram apenas os distritos de Quelimane e Sofala (Mattos, 2008, p.03-04).


Em Madagascar.
Depois e passar por Moçambique, a viagem do “Cleópatra” foi retomada, após alguns dias, com direção a ilha de Madagascar.
Onde o autor retratou algumas características dos nativos da ilha, dizendo que:

“Eles me pareceram uma raça fina de selvagens; a pele marrom escura, lisa e brilhante, seus braços e pernas elásticas pelo exercício contínuo; todos os seus movimentos livres e ágeis.
Suas feições estavam longe de serem desagradáveis com uma expressão viva, e inteligente, os cabelos negros e arrumados com grande cuidado e maneira nenhuma desagradável” (2006, p.33).

Podemos sempre ver semelhanças entre os depoimentos que foram escritos ao longo dos séculos sobre o contato com os nativos, um exemplo destes é a carta de Pedro Vaz de Caminha que relata as primeiras impressões dos contatos com os nativos.


A captura do navio “Progresso”.
Uma das passagens mais marcantes do Livro “Cinqüenta Dias Abordo de um Navio Negreiro” é o da captura do navio “Progresso”.
Onde o autor relata os horrores encontrados.

Nas palavras de Hill, ele viu:

“A multidão de negros, com aspectos de esfomeados, tendo ficado descontrolada, havia se apoderando de tudo o que lhes interessava na embarcação; alguns com mãos cheias de farinha, a raiz de mandioca em pó, outros tendo quebrado o caixotes seguravam pedaços de carne de porco e de boi; alguns pegaram aves e as devoraram crua” (2006, p.73).

Este relato demonstra o desespero dos homens que estavam cativos.
Então amontoados em uma luta contra a fome e todas as precariedades enfrentadas dentro no navio negreiro.
Após, a captura do “Progresso”, a embarcação foi escoltada pelo “Cleópatra” com o intuito de levá-lo até Cabo Verde.
Hill se ofereceu para ser interprete e fazer a comunicação a respeito do cuidado e tratamento necessário aos negros, embarcando no “Progresso”.


A bordo do navio negreiro.
No dia posterior a captura, começou a jornada de cinqüenta dias abordo do navio negreiro, onde Hill observou o sofrimento, agonia e morte dos africanos embarcados.
A tripulação do navio capturado era formada por dezessete homens, três espanhóis e o restante brasileiros e portugueses.
O navio vinha do Brasil, do porto de Paranaguá.
Hill questionou um desses tripulantes sobre o trafico e ele responde que este “era um trabalho para homens desesperados, ou seja, hombres perdidos (2006, p.75).
Na sua primeira noite de viagem a bordo do navio negreiro, uma tempestade os abateu.
O autor testemunhou o desespero dos africanos que estavam no porão, lutando e se pisoteando por espaço próximo a única abertura ali existente.
Pela manhã do dia seguinte, os resultados desta noite de tormenta foram contados, em total de cinqüenta e quatro corpos foram encontrados esmagados e dilacerados.
A morte que foi presenciada nesta primeira manhã de viagem foi uma constante durante toda a viagem, pelo grande número de escravos que estavam doentes e machucados.
Muitos destes que se encontravam feridos foram atacados pelos seus próprios companheiros de cárcere.
Além dos horrores encontrados dentro do navio, o autor destacou que, entre aqueles que estavam aprisionados, havia muitos presos há meses, estando à espera de uma oportunidade para a realização do comércio.
O grande número de escravos doentes devia-se a este fato.
Segundo Hill um traficante “espanhol afirmou que os negros que constituíam a carga de modo geral estavam muito doentes -mala esclavitud- [tinham sido] embarcados (...) tendo esperado na costa durante dois ou três meses na expectativa de um navio (...)[,] alguns deles [vinham] de longe do interior e chegaram em condições deploráveis e cinqüenta foram rejeitados [por] incapacidade para viajar (2006, p.74).
Neste trecho o traficante faz menção aos locais de origens dos cativos, dando a entender a grande rede comercial escravista que ligava o centro do continente a costa.
As doenças que atingiam a tripulação foram às mesmas que chegaram ao Brasil no início do processo escravista, doenças como varíola, bichos-do-pé, disenteria, febre-amarela, dentre outras que se disseminaram graças às dificuldades existente na administração de remédios dentro do navio.
O autor fala sobre um enterro cristão em alto mar, ainda relata a forma de punição aos negros que se comportaram de forma ilícita durante a viagem.
Neste momento ele revela um relato de um dos tripulantes: ‘“nos não devemos ter sentimentos por este infeliz mais do que”.
Outro tripulante o retruca: “Ora nós não temos sentimentos uns pelos outros, muito menos por eles’’”.
Neste momento o autor faz presente sua opinião afirmando que o criador fez todos iguais, pois todas as nações dos homens são oriundas do seu sangue.
Esta questão de igualdade era defendida pelos quakers e metodistas na Inglaterra desde o início do século XVII (ALBUQUERQUE; FRAGA FILHO, 2006, p.172).
Mesmo que a tripulação acreditasse que os negros não tivessem fé, ele não acreditava nisso.      
Em outro momento, Hill destacou a sociabilidade existente entre os negros, tal como o fato de todos se cumprimentarem com uma batida nos pés, feita inclusive pelos doentes.
Além de falar da igualdade da divisão dos alimentos entre eles.


A alimentação no navio negreiro.
Os alimentos que estavam dentro do navio para a viagem eram comprados em sua maioria no porto de embarque da carga, para garantir que estes fossem frescos, entre os principais itens estavam arroz, milho, feijão miúdo, carne seca e farinha de mandioca, esta ultima tinha sido introduzida no século XVI.
Para o Leite (1998, p.22), “a cobiça era tão desenfreada que, no “abominável tráfico”, havia falta de alimentos (feijão, arroz, milho, peixe e carne seca), necessários para a subsistência e saúde dos negros, não só na quantidade, mas até na qualidade”.
Durante toda a viagem, a fome e a morte foram companheiras inseparáveis dos cativos do navio Progresso.
O livro de Mary Del Priore e Renato Pinto Venâncio, “Uma Introdução à História dos Ancestrais da África Atlântica” (2004), traz uma lista das preferências alimentares dos povos usados no comércio escravo:

''Os cativos provenientes do Sahel preferiam, por exemplo, o sorgo ou o milhete ao arroz, comida de base para inúmeras regiões costeira.
Escravizados vindos do delta do Niger ou Maiombe que preferiam inhame”.

O valor de venda dos escravos, segundo Hill, ao chegar ao Rio de Janeiro tinham seu preço fixado em 500 mil-réis ou 52 libras para os homens, 400 mil-réis ou 41,10 libras para as mulheres, 31 libras para crianças.
O tráfico de escravos, com certeza, trazia um grande lucro, tendo em vista que cada  africano custava 3.5 libras na origem.
A tripulação recebia 25,5 mil-réis pela viagem, em acaso de sucesso era acrescentado 500 mil-réis a cada tripulante.
Na chegada ao Brasil, após a compra, o escravo passava a receber ensinamentos, o batismo cristão era seguido por um novo nome.


Concluindo.
Ao chegar ao porto de Cabo Verde, o navio negreiro “Progresso”, trouxe consigo um incrível número de morto: 175 em um total 397.
Segundo Eltis e Richardson (2003) a média de embarcados era de 229 escravos por navio, assim podemos ter uma idéia sobre a grande lotação do “Progresso”, qual esteve também relacionada ao número de mortos.  
Os sobreviventes desta viagem foram introduzidos em fazendas, por um prazo de seis meses, como aprendizes, sendo que seus serviços poderiam ser requisitados pelo prazo de um ano sem salário.
Depois passariam a ser beneficiados com um salário, conforme a função, mas não seriam devolvidos à sua terra natal.
Quanto ao trato com os traficantes, o autor relata a impunidade, foram soltos e retomaram suas atividades normais.
No livro de Hill há uma forte critica a impunidade que vigorava em Cabo Verde quanto ao trafico.
Na última parte do livro o autor faz uma previsão que, mesmo com o fim da escravidão, seus efeitos se manteriam, o que se confirmou.  
A lei áurea, de 13 de Maio de 1888, aboliu a escravatura, mas ainda, estamos presenciando as conseqüências do tráfico negreiro, presentes nas discriminações raciais, na desvalorização cultural e na negação da identidade afro-brasileira.
Entretanto, o livro “Cinqüenta Dias Abordo de Um Navio Negreiro”, escrito na metade do século XIX, traz um importante testemunho do período escravista.
Uma leitura necessária, não apenas para os profissionais da educação que podem usá-lo nas salas de aula, mas para o público em geral.


Para saber mais sobre o assunto.

BETHELL, L. A Abolição do comércio brasileiro de escravos. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2002.        
CAMINHA, P.V. Carta de Pero Vaz de Caminha. São Paulo: Martin Claret, 2003.
DEL PIORE, Mary; VENÂNCIO, Renato Pinto. Ancestrais uma introdução a historia da África atlântica. Rio de Janeiro: Editora Sevier, 2004.   
ELTIS, David Eltis; RICHARDSON, David R. “Os mercados de escravos africanos recém-chegados às Américas: padrões de preços, 1673-1865” In: Topoi. Rio de Janeiro, março 2003, p.9-46.                                                               
HILL, P. G. Cinqüenta dias a bordo de navio negreiro. Traduzido por Marisa Murray. Rio de Janeiro: Editora Jose Olímpio, 2006.
MATTOS, Regiane Augusto de. “Comerciantes brasileiros de escravos e a resistência à dominação portuguesa em Angoche (Moçambique) no século XIX” In: Anais do XIX Encontro Regional de História: Poder, Violência e Exclusão. São Paulo: ANPUH/SP-USP., 08 a 12 de setembro de 2008. CD-ROM.
LEITE, Alfredo Carlos Teixeira. O tráfico negreiro e a diplomacia britânica. Caxias do Sul: EDUCS, 1998.
WEHLING, Arno; WEHLING, Maria José. Formação do Brasil Colonial. São Paulo: Editora Nova Fronteira, 2006.                                                                                              


Texto: Cássio Michel dos Santos Camargo.
Licenciado pelo Instituto Metodista IPA do Sul, Pós-graduando em História e Geografia Universidade Federal do Rio Grande do Sul.