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Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Entre homens e deuses: aspectos da formação histórico-social e da produção cultural na Grécia antiga.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume set., Série 21/09, 2011, p.01-11.


Considerados filhos de Heleno, os gregos constituíram historicamente sua grecidade, sua identidade cultural grega, a partir das contribuições de diversos povos cuja origem nem sempre se pode precisar.
Uma divisão didática da história da Grécia antiga, apesar de ser apenas estenográfica,  pode auxiliar na compreensão e caracterização dos seus diferentes períodos, bem como de suas produções culturais.
O período arcaico compreende o intervalo temporal de c. 800 ou 750 a 500 a.C., da fixação da geografia política da Península Grega e do litoral grego da Ásia Menor até o início das Guerras Médicas.
O período clássico abrange os séculos V e IV a.C, com as cidades-estado independentes, correspondendo à fase de aperfeiçoamento cultural, talvez com as maiores realizações da história cultural de todos os tempos.
O período helenístico inicia-se com Alexandre Magno e se encerra com a conquista romana sobre a região oriental do Mediterrâneo. É a fase de expansão da cultura grega para centros de efervescência cultural, como Alexandria e Antioquia.
O período romano encerra essa passagem da história grega. A presença romana impôs-se na Grécia a partir do III séc. a.C, mas o predomínio iniciou-se quando as tropas de Cleópatra foram derrotadas por Augusto (31 a.C.), tendo permanecido enquanto durou o Império Romano do Oriente.


Sobre mitos e concepções de mundo.
Segundo os mitos gregos antigos, os seres humanos teriam surgido do desejo de Zeus, o soberano entre os deuses, e da capacidade de criação de Epimeteu e Prometeu, que esculpiram o primeiro homem, e de Hefesto e Atena, que juntos criaram a primeira mulher.
Homem e mulher seriam semelhantes aos deuses, porém sem poderes sobrenaturais ou o dom da imortalidade. Trata-se de uma alegoria a indicar que os humanos foram criados pela inspiração divina, como obras de arte, tendo beleza e capacidades, mas também fraquezas.
As crenças também fundamentavam a organização social, econômica e política, pois a tradição grega atribuía aos deuses a criação dos aristoi (melhores), homens dotados de valores morais como honra, dever e heroísmo, atributos recebidos das divindades ou herdados no nascimento, e socialmente superiores, o que justificaria a existência de uma hierarquia dominante, do ponto de vista ético, social e econômico.  
Além dos aristoi, havia os heróis (héros = guardião), filhos de mortais e deuses, portanto alguns atributos divinos e capacidades sobre-humanas.
Segundo essa mesma concepção, coexistiam homens, sátiros, górgonas, quimeras, centauros, sereias, ninfas e musas.
Perpetuava-se, por meio das narrativas mitológicas, a crença na interferência do divino – pensada como reguladora das capacidades humanas – nas concepções sobre a existência do homem e suas relações sociais.


Sobre a formação sócio-histórico-cultural.
Por volta de 2.000 a.C. os pelasgos, povos que viviam na região, foram submetidos pelos aqueus (dos quais faziam parte os jônios e os eólios), povos de origem indo-europeia, vindos da região balcânica, que criaram a civilização micênica e impuseram a língua grega.
Os pelasgos estavam em um nível cultural rústico: usavam machados de pedra polida, viviam em cabanas de taipa e ramagens, cultuavam divindades agrícolas, enquanto os aqueus  a Idade do Bronze, produzindo armas de metais e recorrendo a estratégias militares mais eficazes.
Entre os séculos XVIII e XV a.C., os aqueus, já dominantes e inseridos na civilização micênica, entram em contato com a cultura cretense, contratando os artistas que produziam obras arte bastante refinadas.
A influência da cultura cretense sobre a micênica mostra-se na produção artesanal e arquitetônica, mas há diferenças significativas entre ambas: a arte cretense recorre aos aspectos decorativo e religioso, enquanto a micênica expressa a preferência pelas narrativas e cenas de caça; a arquitetura cretense é labiríntica, enquanto a micênica é fortificada.
Gradativamente, a civilização micênica dominou Creta e todo o mundo em torno do Mar Egeu, estabelecendo relações comerciais e culturais com a Sicília, a Síria e o Egito.
Os aqueus estavam originalmente organizados em clãs patriarcais, ou genos, cuja autoridade suprema concentrava-se no rei, o basileus. Essa estrutura associa-se ao relevo da região, com a sociedade organizada em famílias tradicionais, ditas nobres, e separadas em núcleos autônomos, o que mais tarde contribuiu para a formação de cidades-estado autônomas, que caracterizam a antiga organização política grega, a pólis.
A autonomia e as condições naturais determinavam a busca de recursos complementares e ligações econômicas com outras regiões, de modo que as cidades formaram-se voltadas para o mar e relações com outros povos, o que levou à riqueza e, também, às disputas políticas.
Por outro lado, os contatos culturais favoreceram a apropriação e produção de novos saberes.
A partir do século XIV a.C., os dórios, povos indo-europeus, em sucessivas levas invadiram a região e, com armas de ferro, instituíram seu domínio. Somente cerca de três séculos depois se estabeleceram na região do Peloponeso, na Grécia central, em Creta e na Ásia Menor.
Com essas invasões, eólios migraram para Lesbos e jônios para Mileto e Éfeso, formando vigorosos centros econômicos e culturais gregos.
Como os grupos estavam divididos em núcleos políticos dispersos, as cidades-estado foram constituindo uma nova forma que passaria a ser característica da pólis grega: a ágora, praça pública, para debates de interesse coletivo, e templos, para práticas religiosas.
Devido à violência das invasões dóricas outros povos afluíram para a região, em um longo período de mudanças nas estruturas sociais. Surgiu, então, uma sociedade monárquica, com rígida estrutura dominada pela aristocracia (aristoi = os bem nascidos + kratos = poder).
 Do ponto de vista cultural, devido às relações comerciais, os jônios entraram em contato com os fenícios, conheceram o seu alfabeto (aleph + bet = primeira e segunda letras fenícias)  e assimilaram certos requintes na conduta social.


Crenças e práticas culturais.
Entre os séculos X e VIII a.C., surgiu na Grécia uma produção literária que incorporava os mitos e lendas dos eólios e jônios, acrescidas de um sentido heroico e fabuloso presente nas narrativas do Oriente Próximo.
No século VIII a.C., em Teogonia  (theo = deus + genea = origem), ou a Genealogia dos Deuses, ou ainda Cosmogonia, Hesíodo registrou as explicações míticas sobre a origem dos deuses e da vida.

No final do período arcaico registram-se,  os cantos e as sagas, com os poetas e suas epopeias, dos quais as produções mais famosas, e únicas preservadas, são Ilíada e Odisseia, de Homero.

As epopeias são consideradas as primeiras manifestações literárias do Ocidente. Eram cantadas pelos aedos, os poetas, que iam de cidade em cidade declamando os versos que narravam as fabulosas sagas do povo grego, suas disputas e vitórias.
Nos textos homéricos há relatos sobre a organização política, fatos do cotidiano, viagens fantásticas e, sobretudo, os mitos, constituindo uma rica produção cuja origem remonta a períodos imemoriais.
Atravessando tempos e espaços, esses registros chegaram aos dias atuais como referências documentais sobre as práticas e a mentalidade gregas.
Interessante ressaltar que os textos de Homero, mesmo mais tarde sendo contestados pelos filósofos gregos – em busca pela “verdade” – foram objetos de estudos já na Antiguidade, tendo feito parte do acervo da Biblioteca de Alexandria.
Os deuses retratados em Odisseia são descritos sob forma e sentimentos humanos, numa espécie de humanização do divino, mas com poderes extraordinários, interferindo de modo enigmático na vida terrena, nos destinos humanos, nas guerras entre os povos.
Uma passagem de Homero ilustra essa concepção:
“Pode ser que os deuses o tenham detido no caminho, porque de modo algum está morto sobre a terra o divino Odisseu, mas estará retido em algum lugar do mar, em alguma ilha cercada de corrente, onde o têm homens cruéis e selvagens que o sujeitam contra sua vontade”
De acordo com a mitologia grega, para que os homens pudessem desenvolver suas potencialidades, os deuses geraram as Musas, seres divinizados, filhas de Zeus e Mnemosine, a deusa da Memória: Clio, a história; Terpsícore, a dança; Calíope, a poesia épica e a eloquência; Polínia, a poesia lírica; Erato, a poesia erótica e a elegia; Euterpe, a música; Melpóneme, a tragédia; Tália, a comédia; Urano: a astronomia.
As Musas seriam responsáveis pelos conhecimentos e inspirações que permitem as criações, ou produções culturais, bem como por elevar o espírito humano, dotando-o de sensibilidade, saberes e talentos.


Aperfeiçoamento das produções culturais.
Os gregos desenvolveram diversos aspectos culturais associados a suas crenças.
Os Jogos Olímpicos, por exemplo, eram realizados em homenagem aos deuses, na cidade de Olimpíada, no Peloponeso.
As olimpíadas envolviam os cidadãos gregos que buscavam demonstrar força, agilidade e capacidades sobre-humanas, sendo coroados de louros após vencer tais competições.

Ao se organizarem como sociedade sexista, os jogos eram praticados pelos homens, com a coroação dos vencedores feita pelas mulheres.

Com o tempo, os jogos foram se tornando bastante conhecidos e passaram a contar com um público numeroso, razão pela qual começaram a ser realizados em espaços especialmente destinados a esse fim. Era a criação do teatro (thêo = ver + atrôn = lugar).

Como os espetáculos e cerimônias duravam dias, outros elementos culturais foram sendo inseridos: leitura de poesias, apresentação de danças e encenação de peças.


O Teatro e as expressões moralizantes.
O teatro foi uma das grandes produções dos antigos gregos, com as suas duas formas clássicas: a tragédia e a comédia.
A comédia (komoidía, de kômos = festa + oidós, cantor) apresentava situações ridículas, absurdas e ofensivas nas quais os estereótipos tinham a função de crítica social e política, tendo uma função moralizante e de correção das condutas.
Ao utilizar recursos como o imprevisto e a surpresa, os comediantes provocavam o riso, ridicularizando as atitudes que não eram consideradas éticas para a vida em sociedade.
As comédias eram apresentadas com cânticos, primeiramente, nas festividades em homenagem a Dionísio, tendo, portanto, uma relação com o sagrado. Mas, com o passar do tempo, foram se dessacralizando e se tornaram um subgênero teatral, com a presença da música, do coro e das máscaras disformes.
Os textos trágicos expressavam a diferenciação entre deuses e homens.
A palavra tragédia (tragos = bode + ode = canto) tem um significado associado às práticas culturais e às representações do povo grego.
Nas cerimônias religiosas, ou cultos cívicos, os gregos ofereciam esses animais em sacrifício aos deuses. Uma vez escolhido, o animal seria necessariamente sacrificado, momento em que emitiria um som de dor, como um canto triste. Assim a palavra tragédia está ligada à ideia de um fim inevitavelmente aniquilador, “trágico”.
As tragédias gregas foram e ainda são objetos de estudos literários, artísticos, jurídicos e psicanalíticos, como é o caso de Édipo Rei, de Sófocles, que narra a história de um jovem cujo destino foi anunciado pelo oráculo antes do seu nascimento.
Os oráculos eram comuns na antiga Grécia, sendo mais famoso o da cidade de Delfos. De acordo com os registros deixados pelos gregos, a predição dos acontecimentos era possível quando sacerdotes iniciados entravam em um transe sagrado e revelavam o futuro.
Outra tragédia exemplar é a que se passa em meio à Guerra de Tróia. Segundo as narrativas, Príamo, rei de Tróia, assim como o pai de Édipo, procurou o oráculo para obter notícias sobre o filho que esperava. Tendo-lhe sido revelado que o filho seria portador de tragédias para Tróia, Príamo decidiu desfazer-se da criança.
Ao nascer, o menino chamado Páris, foi afastado de Tróia e criado por outra família, que lhe cuidou com valores morais, de tal modo que quando adulto, era considerado, além de belo, um homem de bom senso.
A face trágica desse mito liga-se às vaidades e disputas entre divindades femininas. Em certa ocasião Discórdia não foi convidada para uma festividade e, portanto, usando sua invisibilidade resolveu vingar-se lançando um fruto dourado com a inscrição “para a mais bela”: era o “pomo da discórdia”.
Afrodite, Hera e Atena entraram em disputa, colocando o Monte Olimpo em desarmonia. Zeus, então, escolheu Páris para arbitrar o conflito.
Por fim, Páris foi seduzido pela promessa de Afrodite, a deusa do amor, de que se ele a escolhesse seria presenteado com o afeto da mais bela mortal. Assim seu destino estava definitivamente marcado.
Hera, a rainha dos céus, e Atena, a deusa da justiça e da guerra, inconformadas com a decisão de Páris, lançam sobre ele a maldição de realizar seu desejo, pois a mais bela mulher era Helena, esposa de  Menelau, rei da  Grécia.
Em viagem à Grécia, Páris e Helena se conhecem e se apaixonam, fugindo posteriormente para Tróia, sendo responsáveis pela cruel e duradoura guerra, pela aniquilação da família de Príamo e pelo fim do seu reinado, juntamente com a grandeza e glória de Tróia. Era a concretização da profecia do oráculo.
Esse é o conteúdo da tragédia e sua finalidade moralizante.


A Poesia e as narrativas.
Como a mitologia estava presente desde tempos imemoriais na sociedade grega, influenciou na organização social e política, na Literatura, na Arte, na Arquitetura e mesmo na Filosofia.
A Arte grega é avaliada como um conjunto de expressões muito sofisticadas, em que se buscava representar as formas e sons com a máxima perfeição, uma vez que os artistas eram entendidos como aqueles que receberam a inspiração das Musas e deuses.
Os poetas eram considerados como iniciados nos conhecimentos de Mnemosine, a deusa da Memória, e sua fala tida como reveladora da beleza sagrada e, com consentimento divino, também da verdade.
Nos versos de Hesíodo encontramos:
“Por cetro deram-me um ramo, a um loureiro viçoso / colhendo-o admirável, e inspiraram-me um canto / divino para que eu glorie o futuro e o passado / impeliram-me a hinear o ser dos venturosos sempre vivos / e a elas primeiro e por último sempre cantar".
Assim, o aedo, é um iniciado que cultua a Memória, tanto no sentido religioso como no sentido prático, fato que o eleva acima dos reis e outros senhores gregos. Seu canto e sua palavra são veículos de saberes inspirados por Mnemosine e pelas Musas. Portanto, é considerado um propagador da arte e da sabedoria.
A palavra poesia (poiesis = criação) tem um sentido muito próximo ao de arte, em grego techné (também criação). Mas esse sentido para os gregos era mais amplo, não representando apenas a elaboração de um poema (texto produzido em versos), mas a capacidade criadora, em sentido amplo.
Os poemas eram apresentados publicamente. Em tais apresentações, os versos eram cantados com o acompanhamento da lira e, às vezes, passos de dança.
Além de retratar deuses e a vida da elite, há outras produções, como Os Trabalhos e os Dias, de Hesíodo, narrando o cotidiano camponês e apresentando o trabalho como virtude.
A partir da obra de Hesíodo podemos saber que os trabalhadores do campo organizavam suas tarefas de acordo com as épocas do ano: em novembro e dezembro eles aravam a terra; em fevereiro e março, ceifavam as vinhas; em maio e junho faziam colheita; em julho e agosto, a separação dos grãos; em setembro fabricavam o vinho; em outubro podavam as árvores.
Na Grécia antiga, poesia, canto, música e dança se manifestavam juntas, e assim permaneceu por muito tempo. Somente a partir da Idade Moderna é que foram se separando, pensados como formas autônomas de arte.


A Dança e a religiosidade.
De acordo com a mitologia grega, a criação das Musas introduz as linguagens artísticas como manifestações divinas, pois os deuses teriam pedido a Zeus a criação de divindades que pudessem narrar seus grandes feitos e manter viva essa memória.
Terpsícore era a Musa criadora da dança, mas de acordo com a Teogonia, todas as musas dançavam e cantavam em volta da fonte de água inesgotável e do altar de Zeus.
Como seres invisíveis, durante a noite cantam e dançam, evocando, relembrando e reforçando os poderes dos deuses das diferentes gerações.
Para os gregos antigos a dança era a expressão da alegria e da celebração religiosa, como nas festas denominadas “dionisíacas”, pela fertilidade e em homenagem ao deus Dionísio que a representava.
Nos cultos religiosos a dança e o canto exercem uma função extática, colocando o iniciado em contato com a divindade.
Segundo as narrativas homéricas, as danças eram realizadas por homens e mulheres e comuns em diferentes ocasiões, inclusive nas cerimônias de casamento, em que a fertilidade e a prosperidade eram evocadas.
Com o passar do tempo, as danças começaram a ser acompanhadas por cânticos dos coros e passos ritmados, expressando sempre a alegria e a religiosidade.


A Escultura e as experiências estéticas.
A escultura grega é expressão estética que sobrevive como mostra da perfeição tanto das formas representadas, quando da técnica usada pelo artista.
Em uma passagem da narrativa de Ovídio, poeta romano, esse senso é relatado. Pigmalião, rei de Chipre e um renomado escultor, cria Galatea (palavra de origem controversa, podendo significar “como leite” ou “elegância”), estátua de mármore branco, com tamanha perfeição que se apaixona por ela, pedindo à Afrodite que a transforme em ser humano.
No mito, o diário de Pigmalião relata:
“A obra está avançando admiravelmente, ainda que a custo de muita concentração. Durante cinco dias estive entregue à tarefa de dotar a minha estátua de um rosto superior a todos os outros. Não tenho tido tempo nem ânimo para desviar os olhos da minha obra. [...] Não sei exatamente como explicar; há nele um encanto que combina o ar sonhador oriental com o ar de ponderada reflexão das mulheres mais sábias da minha terra. Não fosse o rosto de uma estátua, diria que estou apaixonado por ele”.
Nessa passagem, explicita-se o sentido da experiência estética: a contemplação da extrema beleza, que leva o ser humano a sentimentos profundos.
A escultura grega pode ser representada pela obra de Fídias, famoso escultor do século V a.C., contratado por Péricles, governante ateniense, para realizar as mais belas obras em homenagem aos deuses do panteão grego, e que esculpiu a magnífica estátua de Palas Atenas, já desaparecida, cuja réplica encontra-se no Museu do Louvre, em Paris.
A arquitetura também buscou a beleza, a perfeição, a proporção e harmonia das formas, especialmente nas construções dos templos e edifícios públicos, com suas colunas, capitéis e frontões triangulares, que ainda na Antiguidade foram incorporados pelos romanos; na Idade Moderna, pelo estilo renascentista; na Idade Contemporânea pelos movimentos neoclássico e art nouveau; e, nos dias atuais, ainda presentes em construções de caráter público ou privado.


Filosofia e História.
A civilização representou uma evolução em termos culturais, com a criação da Filosofia, da Democracia e o redimensionamento da cultura e da arte, que passam a ser valores do povo grego, ou sinônimo de grecidade e, posteriormente, valores da civilização ocidental.
Dentre as mais significativas criações da Grécia Clássica destaca-se a Filosofia, com sua busca incessante de conhecimento sobre a realidade material ou imaterial, e a concepção de História como um campo do saber, ambas a partir do distanciamento das concepções mitológicas.
A palavra história (o que procura saber, derivada de  histor = testemunha) ganhou o sentido de investigação com bases em fatos concretos e identificáveis, por meio de estudos e documentos.

Tratava-se de uma tentativa de superar as explicações contidas nas narrativas tradicionais do povo grego.
Dos expoentes dessas investigações destacam-se Tucídides, Hecateu de Mileto e Heródoto, que publicou suas Histórias, investigações, em um conjunto de capítulos intitulados com os nomes das nove Musas, nos quais relata as ações de gregos e persas. Vejamos o trecho de abertura das Histórias de Heródoto:
Heródoto de Túrio expõe aqui suas investigações, para impedir que o que fizeram os homens, com o tempo, se apague da memória e que as grandes e maravilhosas realizações, levadas a cabo tanto pelos bárbaros, quanto pelos gregos, cessem de ser renovadas, em particular, o que foi a causa de que gregos e bárbaros entrassem em guerra uns com os outros. [...]
Tratava-se de uma clara distinção entre as crenças, os mitos, e as práticas sociais, especialmente em uma tentativa de superação da narrativa homérica, mas, ainda assim, referia-se à memória e as musas.
Muitos estudiosos consideram que talvez não tenha existido um poeta chamado Homero, e que Ilíada e Odisseia seriam apenas compilações das narrativas dos inúmeros aedos que viviam na região. Outros apontam os textos como compilações das pesquisas feitas por Hecateu de Mileto. Outros, entretanto, afirmam que Homero provavelmente nasceu na Ilha de Quios, e que quanto se tornou conhecido estava em idade avançada e já não enxergava.
Mas, o fato é que por meio desses textos pode-se conhecer o modo de vida dos gregos em uma parte de sua história, assim como muitas de suas concepções de mundo e existência.
Por outro lado, concretizou-se o projeto de Heródoto, pois seu modelo de narrativa histórica perpetuou-se ao longo dos séculos, sendo reproduzido, questionado, negado ou atualizado.
A Filosofia e seus ramos de investigação na Grécia antiga são referenciais para a problematização e compreensão do mundo e da existência humana, perpetuando-se em múltiplas menções em todos os campos do saber.


Concluindo.
Pelo grande valor histórico e artístico, muitas produções gregas foram preservadas e podem ser admiradas nos museus mais importantes do mundo, como no Louvre,  o baixo relevo denominado Procissão das Panateneias (445-438 a.C.), feito em mármore, encontrado ao pé do Parthenon na acrópole de Atenas, representando as túnicas que compunham a vestimenta característica da época; ou a estátua denominada Vênus de Milo (fins do séc. II a.C.), encontrada na Ilha de Milo, nos arredores do teatro, apresentando uma figura feminina com busto desnudo e grande sensualidade, uma mostra da sofisticação e do estilo artístico desenvolvidos no final do período helenístico.
O Renascimento foi um período em que as tradições greco-romanas retornaram como inspiração e temática de grandes artistas, de modo que na pintura, escultura e arquitetura, do final da Idade Média e início da Idade Moderna, produziram-se obras que relembravam a mitologia e os valores do mundo grego antigo, como vistos nas obras de Botticelli (Primavera, O Nascimento de Vênus, Vênus e Marte), Ticiano (Baco e Ariadne), Velásquez (Os Bêbados ou o Triunfo de Baco, A forja de Vulcano, Vênus ao Espelho), Antonio del Pallaiolo (Apolo e Dafne), Lucas Cranach (Vênus e Cupido), Peter Paul Rubens (O Julgamento de Páris), Pietro Perugino (Apolo e Mársias), Lambert Sustris (Vênus e o Amor), e tantas outras de inestimável significado.
Os gregos influenciaram os romanos, formando a cultura greco-romana; e os persas, formando a cultura helenística; os romanos dominaram e influenciaram os europeus, difundindo seu padrão cultural; os europeus, por sua vez, buscaram meios para transplantar seus valores para a América, contribuindo para a introdução de um novo molde civilizatório, no qual o padrão grego – associado aos valores medievais e modernos e acrescidos da influência de ameríndios e africanos – constituíram um novo processo de formação histórico-social.


Para saber mais sobre o assunto:
AYMARD,  A. e AUBOYER, J.  O Oriente e a Grécia. Rio de Janeiro: DIFEL, 1977.
BULFINCH, Thomas. O Livro de Ouro da mitologia: (a idade da fábula): histórias de deuses e heróis. São Paulo: Ediouro, 2000.
COULANGES, Fustel de. A cidade antiga. Tradução de Frederico Ozanam Pessoa de Barros. eBookBrasil, 2006. Disponível em: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/cidadeantiga.pdf.
DEL DEBBIO, Marcelo. Enciclopédia de Mitologia. São Paulo: Daemon, 2008.
FINLEY, M. I. Os gregos antigos. Lisboa: Edições 70, 1963.
FRANCHINI, A. S. e SEGANFREDO, C. As 100 melhores histórias da mitologia. Deuses, heróis, monstros e guerras da tradição greco-romana. 6ª ed. São Paulo L&PM, 2003.
GRILLO, José Geraldo Costa. O sacrifício de Políxena nos vasos áticos dos séculos VI-V a.C. 2009. Disponível em: http://www.nea.uerj.br/publica/e-books/mediterraneo1/DOC/Jose%20Geraldo%20Costa%20Grillo.pdf.
HESÍODO. Teogonia. A origem dos deuses. Estudo e tradução de Jaa Torrano. São Paulo: Iluminuras, 1995.
HOMERO. Odisea. eBookBrasil, 2003. Disponível em: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/odisea.pdf


Texto: Profª Drª Marilda Aparecida Soares.
Doutora em História Social – FFLCH/USP.
Professora das Faculdades Integradas de Ribeirão Pires – FIRP.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A Teoria do Conhecimento na antiguidade: contribuições para o pensamento filosófico na Idade Moderna.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume jan., Série 17/01, 2011, p.01-08.

Modernamente, a Teoria do Conhecimento é um ramo da filosofia que estuda a possibilidade e a capacidade humana de conhecer a realidade, opondo-se a metafísica.
Neste sentido, utiliza a axiologia (do grego axios = valor), questionando a construção dos valores humanos.
Uma postura fundada por René Descartes, o pai do racionalismo, embora exista uma corrente teórica que defende John Locke como sendo o verdadeiro fundador da moderna Teoria do Conhecimento.
No entanto, apesar de não existir ainda nominalmente, as questões em torno da Teoria do Conhecimento remontam a antiguidade.
Foi quando se estabeleceram as bases que permitiriam aprofundar o debate sobre a possibilidade de conhecer a realidade.
Entretanto, para os gregos antigos a Teoria do Conhecimento era chamada de epistemologia.
Uma palavra derivada a partir de outra, do grego episteme, que significa ciência, conhecimento ou discurso.
Portanto, a análise da construção do discurso e, simultaneamente, o estudo da construção do conhecimento.
Nada mais natural, até porque é próprio da filosofia considerar qualquer teoria como não mais que um discurso bem construído, não possuindo necessariamente correspondência com a realidade.
Uma concepção um pouco diferente da moderna Teoria do Conhecimento, a qual considera a observação da realidade, enquanto um ponto de intersecção entre verdade e senso comum, para tentar entender como o conhecimento é construído.
É interessante notar que a ciência é outro ponto de intersecção possível entre verdade e senso comum, assim também fazendo parte da Teoria do Conhecimento.


Os pré-socráticos.
Os pré-socráticos, notadamente três pensadores que viveram na Grécia do século IV. a.C, iniciaram a discussão em torno da Teoria do Conhecimento, sob a égide da epistemologia: Heráclito, Parmênides e Demócrito.
Para Heráclito, seria impossível conhecer a realidade concreta, pois existiria uma diferença entre o que percebemos e o que temos a capacidade de entender.
Isto porque a natureza está em fluxo perpétuo, tudo se modifica mais rápido do que temos a capacidade de entender.
A partir deste raciocínio, ele criou a teoria do Devir, uma palavra que em grego significa mudança constante, usando a famosa analogia do rio.
Um homem não pode atravessar o mesmo rio duas vezes, pois as águas já não são as mesmas, já que o liquido corre, assim como o homem não é o mesmo, pois ele também se modifica.
Parmênides chegou à mesma conclusão por um caminho diferente, embora parecido.
Para ele só seria possível conhecer aquilo que permanece imutável, pois estando o mundo em constante mudança, o que o pensamento entende já não corresponde à realidade, já passou.
Em outras palavras, ao beber a água de um rio, é impossível dizer se dita água é boa, pois ao fazer esta afirmação, a água que corre pelo rio já não é a mesma que foi ingerida.
Portanto, só podemos dizer o que foi e não o que é.
Uma conclusão diferente da idéia defendida por Heráclito, uma vez que, para este, o que a razão entende não é o que passou, mas sim algo que não corresponde à realidade porque reflete o que os sentidos percebem como real, sem que exista correspondência com a realidade.
No entanto, para Parmênides, observando o que está por trás das aparências é possível entender a realidade, o que implica em descobrir a essência das coisas perguntando: “O que é?”
É a partir desta premissa que Parmênides criou a teoria do ser, segundo a qual toda mudança é ilusória, pois a essência do ser é sempre a mesma, permanece imutável.
É por isto que o ser é definido simplesmente como aquilo que é.
Dentro deste raciocínio, Parmênides dizia que tudo é ser e não ser, a despeito de existir também o vir a ser; ou seja, os sentidos enganam, mas a razão pode identificar o que é ou não e deduzir o que pode se tornar.
Entretanto, Heráclito e Parmênides chegaram a uma mesma conclusão: existe um descompasso entre a realidade e o entendimento, seja este tributário dos sentidos ou da razão.
Na realidade, com estes pensadores, são fundadas duas tradições: a partir de Heráclito baseada na confiança nos sentidos, o que seria continuado pelos empiristas na entrada da modernidade; enquanto Parmênides estabelece a centralização na razão, um prelúdio do racionalismo cartesiano.
Diferente dos dois, Demócrito estabeleceu a teoria conhecida como atomismo, à realidade constituída por átomos, aquilo que não pode ser dividido.
Para ele, sendo o mundo constituído por diferentes átomos, os quais são imutáveis, o mundo e o conhecimento dele é concreto, portanto real.
Temos a impressão de mudanças conforme os átomos sofrem re-arranjos de combinações, mas os átomos permanecem os mesmos.
A percepção não é ilusória, os sentidos percebem aquilo que realmente é, embora somente o pensamento, a razão, seria capaz de observar os reajustes dos átomos e a realidade.
Em certa medida, Demócrito funda a tradição que seria seguida por Kant no século XVIII, ao mesmo tempo, também seguida pelo iluminismo.


Os sofistas e o pensamento socrático.
Os sofistas foram os primeiros políticos e advogados do mundo Ocidental, compunham um grupo que cobrava para ensinar e defender pontos de vista, sendo considerados guardiões da democracia em Atenas e os primeiros professores remunerados.
Dentre os sofistas, destacaram-se Protágoras, Górgias e Isócrates.
Todos viveram na Grécia do século V. a.C.
Refletindo sobre o antagonismo entre os filósofos anteriores, os sofistas terminaram concluindo que o conhecimento é relativo, podendo refletir múltiplas opiniões, isto porque essência da realidade não pode ser conhecida.
Górgias, por exemplo, colocou-se contra Parmênides, afirmando que o ser não existia, pois seria impossível determinar a essência das coisas.
Para ele não é possível dizer o que uma coisa é ou não é, já que poderia ser muitas coisas ou nada.
Na opinião dos sofistas, tudo era apenas uma questão de retórica, linguagem manipulada para modificar a percepção da realidade, os interlocutores percebem o mundo de acordo com a construção do discurso.
Os sofistas defendiam o relativismo, Protágoras cunhou a frase “o homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são”.
Tentava expressar a idéia de que tudo é conhecido de forma particular por cada um, não existindo conceito absoluto.
Dentro deste contexto, Górgias se notabilizou por responder questões, sem preparo algum, usando apenas a arte da retórica, defendendo idéias absurdas e fazendo os ouvintes chegarem à conclusão de que eram possíveis.
Ele persuadia o interlocutor usando o controle das emoções, envolvendo os sujeitos para convencer.
Isócrates também usou a arte da retórica para persuadir, utilizando a mitologia para validar sua argumentação, inaugurando a manipulação política do povo pelo orador, fundando uma escola de eloqüência.
Um estilo de construção do raciocínio que iludia as pessoas, levando a aceitar fatos totalmente destoantes da realidade.
Justamente diante da utilização política da linguagem pelos sofistas, o pensamento socrático tencionava demonstrar como a realidade era mais complexa do que aparentava.
Para conhecer a realidade, seria necessário afastar as ilusões perpetuadas pela linguagem e os sentidos, o que é expresso pela famosa alegoria do mito da caverna.
O personagem Sócrates duvidava que a filosofia pudesse ser ensinada, como propunham os sofistas, achava que as inquietações deveriam brotar de dentro de cada um.
Também ao contrário dos sofistas, a tradição socrática buscava um conhecimento absoluto e inquestionável, julgando que era possível sim conhecer a realidade, bastava sair da caverna, buscar a verdade por trás das aparências.
Neste sentido, o conhecimento só era limitado pela própria ignorância do sujeito.
O que é expresso pela frase: “só sei que nada sei”.
Simbolismo que significa que quanto mais aprendemos, mais percebemos saber pouco, pois ainda resta muito a conhecer.
A idéia é que, ao sentir-se ignorante, o sujeito se coloca em uma postura de constante aprendizado, sendo possível conhecer realidades provisórias que vão se substituindo e expandindo o conhecimento acumulado.
Na realidade um principio básico que iria forjar o que entendemos por ciência hoje, afinal o que são teorias se não verdades provisórias adotadas até que outras venham substituí-las.


A contribuição de Platão.
Platão viveu em Atenas, na Grécia, no século V. a. C., era de origem nobre, descendia da alta aristocracia; viajou pelo Egito e Península Itálica, acabando escravizado em Siracusa, onde foi comprado e libertado por um amigo, quando voltou para sua cidade natal.
Seu verdadeiro nome era Arístocles, Platão era um apelido, que significava ombros largos, um atributo considerado muito atraente entre os gregos na época.
Em Atenas, de volta da aventura, fundou a Academia, uma escola que seria conservada funcionando pelos próximos mil anos.
Platão demonstrou grande preocupação pelo cárcere representado pelo corpo, defendendo a idéia de que a morte era a libertação definitiva de um mundo ilusório.
Para ele, a realidade percebida pelos sentidos é apenas uma cópia imperfeita daquilo que existe no pensamento, já que o percebido não passa de aparência.

Existiriam dois mundos diferentes:
1.      Mundo Sensível, o qual muda constantemente, puro devir, percebido pelos sentidos, onde se passam os fenômenos, sendo apenas uma cópia imperfeita da realidade.
2.      Mundo Inteligível ou das Idéias, livre de mudanças e presente no pensamento, refletindo a verdadeira realidade, enxergando por trás das aparências.

Esta concepção faz parte da hierarquização do mundo presente na essência de todo o pensamento platônico, já que existiriam graus de conhecimento entre o mundo sensível e inteligível.
A matemática estaria no grau mais puro e verdadeiro do conhecimento da realidade, pertencendo completamente ao contexto das idéias, sendo pura abstração.
Platão tentou resolver a oposição entre Heráclito e Parmênides, buscando uma solução para a oposição entre a idéia de que tudo é movimento e de que isto é uma ilusão, pois a essência não muda.
Para isto elaborou uma teoria gnosiológica (gnosis = conhecimento), demonstrando preocupação com a validade da construção do conhecimento.
Pensou na afirmação de Heráclito de que é impossível dizer o que é uma árvore, uma vez que ela muda conforme cresce existem muitas espécies.
Contraposta a idéia de Parmênides de que a árvore muda desde a semente até morrer, existindo muitas espécies, mas sua essência é ser árvore.
Platão resolveu a questão de forma diferente de Demócrito, não usando o subterfúgio do átomo.
Para ele, a árvore muda porque não é apenas uma idéia, mas uma representação do pensamento, uma cópia imperfeita da realidade.
Platão usa um mito para explicar este conceito, supondo que, antes de nascer, a alma vivia em uma estrela, onde se localizavam as idéias.
Ao nascer, o impacto leva ao esquecimento, mas a anamnesis (reminiscência) conduz a recordar a partir das cópias imperfeitas da realidade.
Portanto, é impossível conhecer a realidade vivendo neste plano térreo de existência, o que pensamos saber é apenas uma sombra da verdade.
O conhecimento mais próximo da realidade concreta está apenas no mundo das idéias, daí inclusive a expressão amor platônico significando originalmente que o verdadeiro amor pertence aquilo que é imaginado e não ao vivido.
Uma vez que o imaginado é real para quem imagina, enquanto o vivido pode parecer real para mim, mas não ser para o outro.


As idéias de Aristóteles.
Aristóteles nasceu em Estagira no século IV. a. C., filho do médico pessoal do rei da Macedônia, na Grécia, indo para Atenas aos dezesseis anos de idade para estudar na Academia de Platão.
Mais tarde, foi professor de Alexandre, o Grande, filho do rei da Macedônia de quem o pai de Aristóteles foi médico.
O pensamento aristotélico parte do mesmo principio hierarquizado das idéias platônicas, distinguindo graus de conhecimento que transitam entre o mundo sensível e inteligível.
No entanto, diferente de Platão, Aristóteles afirma que a realidade é formada pelo acumulo de graus.
Embora as idéias expressem a verdade, este conhecimento é inútil, pois a realidade é uma junção de graus.
Isto porque, além da razão e dos sentidos, para conhecer é necessário usar a intuição, um raciocínio inconsciente, uma suposição sobre o que pode ser.
A matemática insere-se, neste contexto, como grau mais puro de conhecimento.
Diferente de Platão, Aristóteles não considera que a matemática pertence ao mundo das idéias, sendo puramente intuitiva, precisando da soma dos graus para existir como conhecimento.
A matemática necessitaria da razão, dos sentidos e da intuição como instrumentos que ajudam a pensar sem equívocos.
O que, por sua vez, originou a idéia de que não é possível encontrar a essência das coisas.
Assim, a questões éticas não seriam possíveis de aplicação prática, já que não é possível definir “o que é”.
Para estas questões, Aristóteles encontrou como solução a repetição das ações para garantir a ordem das coisas e atingir a felicidade.
Não sendo possível dizer o que é imutável, como definir, por exemplo, o que é a virtude?
O virtuoso se torna o que está convencionado pela repetição dos atos.
O que originou o silogismo, a demonstração do raciocínio dedutivo por meio de operações do pensamento, envolvendo premissas que permitem chegar a uma conclusão.
Um raciocínio que, segundo Aristóteles, permite se aproximar do conhecimento da realidade.


Concluindo.
A despeito da discussão iniciada na antiguidade, durante a Idade Média, o cristianismo interrompeu o debate em torno da possibilidade de conhecer.
Isto porque o cristianismo medieval distinguiu as verdades de fé, reveladas, e a realidade racional.

Em outras palavras, a realidade passou a ser aquela que Deus permite conhecer, revelada pelo poder eclesiástico.

Esta forma de enxergar o mundo só começou a mudar a partir da contestação de alguns pensadores, entre eles, nos século XVII, René Descartes na França e John Locke na Inglaterra.
Os dois, conforme a corrente teórica, são considerados fundadores da moderna teoria do conhecimento.
Entretanto, Descartes segue uma tradição iniciada na antiguidade por Parmênides, baseada na razão, representando o racionalismo.
Locke continuou a vertente iniciada por Heráclito, baseada nos sentidos, originando, junto com outros filósofos de sua época, empirismo.
Assim, ao observar o pensamento filosófico na Idade Moderna, devermos ter em mente a forte contribuição de uma discussão densa iniciada na antiguidade.


Para saber mais sobre o assunto.
ALQUIÉ, F. et. alli. Galileu, Descartes e o mecanismo. Lisboa: Gradiva, 1987.
CHAUI, M. Convite a filosofia. São Paulo: Ática, 1984.
KOYRÉ, A. Considerações sobre Descartes. Lisboa: Presença, 1963.
KUJAWSKI, G. Descartes existencial. São Paulo: Edusp. 1969.
MACIEL JR, A. Pré-socráticos: a invenção da razão. São Paulo: Odysseus, 2007.
PLATÃO. A república. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000.
SANTOS, J. Do empirismo a fenomenologia. São Paulo: Loyola, 2010.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.