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sábado, 25 de setembro de 2010

Peronismo – Parte 7 (Final): indicações para leitura.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume set., Série 25/09, 2010.


No Brasil, as obras que tratam o tema peronismo são raras e escassas.
Um dos motivos se deve a estrema proximidade do fenômeno peronista de nossos dias, o que termina por torná-lo atual.
Além disso, as poucas obras existentes em português acabam sempre classificando erroneamente o peronismo como populismo, o que exige do leitor certo senso crítico.
De qualquer modo, concernente ao estudo do peronismo pode ser consultada a obra de Maria Lígia Coelho Prado, “O populismo na América Latina”, da coleção “Tudo é História” da editora Brasiliense.
Apesar de classificar o peronismo como populismo, pode servir de ponto de partida ao estudo sobre o fenômeno.
Igualmente, uma boa fonte inicial de consulta é o livro de Murmis e Portantiero, “Estudos sobre as origens do peronismo”, também da editora Brasiliense, embora ele caia no mesmo erro do anterior.
Estas obras podem ser mescladas com textos que tratam do fascismo propriamente dito, possibilitando identificar o peronismo como fenômeno de caráter fascista.
Sobre o fascismo são textos de consulta obrigatória: a “Introdução ao Fascismo” de Leandro Konder, da Graal;  a “Psicologia de massas do fascismo” de Wilhelm Reich, da Martins Fontes; e “Ascensão e queda do III Reich” de William Shirer, em 4 volumosos tomos, editado pela Civilização Brasileira.
Podendo ser consultadas também as obras: “Minha Luta” escrita pelo próprio Adolf Hitler; “Hitler” de Joachim Fest; e o “Fascismo Italiano” de Angelo Trento.
Sobre o fascismo espanhol e as condições em que surgiram as revoluções populares e, por sua vez, o fascismo como resposta imediata a tais revoluções, pode ser consultada a obra do eminente professor francês Pierre Broué, “A revolução espanhola: 1931-1939”, que esteve no Brasil em setembro de 1996, participando do Simpósio Guerra Civil Espanhola: 60 anos, realizado na Universidade de São Paulo.
Sobre as relações entre Brasil, Argentina e Estados Unidos, pode ser consultada a obra de Moniz Bandeira, “Estado Nacional e política internacional na América Latina: o continente nas relações argentina - Brasil (1930-1992)”, da Editora Ensaio.
Aqueles que desejam realmente se aprofundar o estudo do peronismo podem ainda ler alguns textos em espanhol: “La política de los militares argentinos: 1900-1971” de Dario Canton; “História Argentina: la democracia constitucional y sus crisis” de Canton e Moreno; “Perón o muerte: los fundamentos discursivos del fenómeno peronista” de Sigal e Verón; e “Gobierno peronista y política del petroleo en Argentina: 1946-1955” de Marcos  Kaplan.
Para complementar este estudo pode ser consultada a obra “As razões do iluminismo” de Sérgio Paulo Rouanet.
Entre outros assuntos ele dá uma pincelada sobre questão do irracionalismo do fascismo, que se esconde sobre a aparência de racional.

Para saber mais sobre o assunto.
BANDEIRA, Moniz. Estado Nacional e política internacional na América Latina: o continente nas relações Argentina - Brasil (1930-1992). São Paulo: Editora Ensaio, 1993.
BROUÉ, Pierre. A Revolução Espanhola: 1931-1939. São Paulo: Perspectiva, 1973.
CANTON, Dario. La política de los militares argentinos: 1900-1971. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Argentina Editores, 1971.
CANTON, Dario; Moreno, J. L. & CIRIA, A. Historia Argentina: la democracia constitucional y sus crisis. Buenos Aires: Paidós, s.d.
FEST, Joachim. Hitler. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1976.
HITLER, Adolf. Minha Luta.  São Paulo: Editora Moraes, 1983.
LACLAU, Ernest. Política e ideologia marxista. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
MURMIS, M. & PORTANTIERO, J. C. Estudos sobre as origens do peronismo. São Paulo: Brasiliense, 1973.
PRADO, Maria Lígia. O populismo na América Latina. São Paulo: Brasiliense, 1981.
REICH, Wilhelm. Psicologia de massas do fascismo. São Paulo: Martins Fontes, 1972.
ROUANET, Sérgio Paulo. As razões do iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
SHIRER, William L. Ascensão e queda do III Reich. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963.
SIGAL, Silvia & VERÓN, Eliseu. Perón o muerte: los fundamentos discursivos del fenómeno peronista.  Buenos Aires: Logus, s.d.
TRENTO, Angelo. Fascismo Italiano.  São Paulo: Ática, 1986.
KAPLAN, Marcos. Gobierno peronista y politica del petroleo en argentina: 1946-1955. Caracas: Edicines de la Biblioteca de la Universidad Central de Venezuela, s.d.
KONDER, Leandro.  Introdução ao Fascismo. Rio de Janeiro: Graal, 1977.
UMBERTO ECO em colóquio organizado no dia 24 de abril de 1995, pelo departamento de italiano da Columbia University, publicado pelo jornal “Folha de São Paulo” em 14 de maio de 1995.

Texto:
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.

Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.





sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Peronismo – Parte 6: o exílio e a volta triunfal.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume set., Série 24/09, 2010.


A chamada “Revolução Libertadora”, encabeçada pelo general Eduardo Lonardi, derrubou o general Juan Domingo Perón, em 16 de setembro de 1955.

No entanto, o peronismo sobreviveu à queda de Perón.
Logo depois de ser destituído, ele partiu para o exílio no Paraguai, ficando no país até 6 de novembro do mesmo ano, quando então foi recebido no Panamá.
Em 8 de agosto de 1956, partiu para Caracas, capital da Venezuela, onde foi protegido pelo ditador Pérez Giménez, cuja queda do poder, obrigou Perón a se exilar na República Dominicana.
Finalmente, em 26 de janeiro de 1960, conseguiu asilo na Espanha do ditador fascista, general Francisco Franco, a quem os nazistas haviam ajudado a colocar no poder pouco antes do inicio da 2º. Guerra Mundial.
De longe, Perón organizou um movimento para tentar retornar a Argentina e retomar a direção da nação.

Enquanto Perón estava na Espanha.
Na Europa, Perón teve sua residência fixada inicialmente nas Ilhas Canárias, instalando-se depois em Madri, de onde regressaria para a Argentina somente em 27 de novembro de 1972.
Ao longo de todo o período do exílio, que durou exatamente dezessete anos e dois meses, Perón continuou a ter voz ativa na política argentina.
Tamanha a influencia de Perón entre os argentinos que o governo que o substituiu proibiu lemas e canções do partido peronista.
Chegou até a proibir que se pronunciassem termos como: Perón, peronismo, justicialismo e Eva Perón.
Isto só fez proliferarem os eufemismos para fazer referência a sua pessoa e ao período peronista, tais como: “o tirano prófugo”, “o tirano deposto”, “a segunda tirania”.
Demonstrando, por outro lado, que os próprios peronistas tinham consciência do caráter fascista do movimento.
Acontece que grande parte dos peronistas não consideravam uma ofensa serem taxados de fascistas, mas uma honra.
Foi dentro deste contexto que os membros da esquerda peronista começavam a ficar insatisfeitos com a orientação fascista.
Destarte, as várias leis que ficaram conhecidas como decretos da “Revolução Libertadora”, colocando o peronismo na clandestinidade, não conseguiriam fazer calar os peronistas.
Mesmo na clandestinidade e rachado, o partido peronista continuou se articulando para trazer de volta ao país o seu líder.
A imagem do peronismo, enquanto movimento sectário, fortemente associado a um período de abundância do país, continuou enraizado no imaginário popular argentino.

Sendo transmitido de pai para filho, dando origem a “juventude peronista”, a qual constituiria uma nova massa de manobra para Perón.

A crise política e econômica se agravou em 1966, chegando ao seu ápice em 1968, abrindo a oportunidade que os peronistas precisavam para trazer à tona a ausente figura de Perón.
Ele foi transformado em um messias capaz de restaurar a unificação nacional.
Os militares já não conseguiam mais controlar a situação do país, quando, em julho de 1972, temendo uma revolução popular, começaram a enxergar em Perón uma saída.
 Grupos de guerrilheiros de esquerda proliferavam por toda a América Latina, Perón parecia então o único capaz de evitar a chagada dos vermelhos a Argentina.
Os militares iniciam o processo de abertura, colocando restrições para impossibilitar a candidatura de Perón à presidência.
Ele finalmente pode retornar do exílio em 17 de novembro de 1972, chegou no famoso avião preto, o qual havia sido objeto dos sonhos dos peronistas durante longos anos.

A volta triunfal.
Perón retornou a Argentina em meio a um grande caos político e econômico, assumindo uma atitude conciliadora.

Estando impedido de concorrer às eleições, indica como seu candidato Héctor Cámpora, concorrendo à presidência pela “Frente Cívica da Libertação Nacional”.

Héctor Cámpora representava a ala ligada a extrema direita do movimento peronista, principalmente a juventude peronista, o que causou forte oposição da esquerda, mas a candidatura acabou oficializada em janeiro de 1973.
Em 11 de maio deste mesmo ano, os candidatos peronistas, Cámpora e Vicente Solano Lima foram eleitos, respectivamente, presidente e vice-presidente da república Argentina, com 49,5% dos votos.
O que representou mais a volta triunfal do peronismo ao poder, além da vitória do setor mais radical do movimento, nítida e declaradamente fascista.

Um novo governo peronista e problemas a vista.
A posse de Cámpora, em 25 de maio de 1973 desencadeou a revolta das bases operárias, gerando um conflito direto e físico, chegando ao enfrentamento armado entre operários e a juventude peronista.
Órgãos estatais, universidades, hospitais e outras instituições públicas tornam-se palco de conflitos sangrentos.

Um conflito que pode ser explicado pelo fato da ausência de Perón do país durante o exílio ter aberto espaço para modificações na base operária peronista.

Ela havia se transformado de fascista em socialista.

Estava então mais consciente do que no passado, os operários não acreditavam mais em discursos e propaganda.
Não bastava mais apenas dizer-se social, sem assumir de fato uma postura de luta pela igualdade de classes.
A população saiu às ruas gritando palavras de ordem como “Cuba e Perón, um só coração”; exigindo que Perón assumisse um novo posicionamento, não mais de direita, mas uma guinada a esquerda.
Verdadeiramente, o movimento peronista se encontrava rachado; de um lado a extrema direita exigia o expurgo do “trotskismo”; de outro a esquerda exigia o aniquilamento do caráter fascista.
Perón começou a perceber que, apesar da volta triunfal, sua base estava visivelmente debilitada.

Novamente o começo do fim.
Visando tentar sanar o racha entre peronistas, através de uma nova ilusão das massas, Perón alterou seu discurso, passando a dirigir-se não mais aos operários, mas aos descamisados.

O artifício falhou, ele não conseguiu convencer os operários, agora extremamente politizados.

No entanto, este novo governo peronista contava com aliados poderosos, havia chegado ao poder com o apoio dos Estados Unidos da América, representado pela CIA.
O mundo se encontrava em pleno clímax da guerra Fria, o peronismo parecia aos norte-americanos à única coisa que poderia impedir os comunistas de tomarem a Argentina.
Orientado por Perón, Cámpora endureceu o combate ao comunismo.
Centenas de pessoas foram mortas, muitas vezes em confrontos diretos com a juventude peronista, que havia se tornado uma organização paramilitar a semelhança das SA e SS de Hitler.
Confrontos diretos com a polícia massacraram manifestações; a tortura e o encarceramento sem fundamentação jurídica tornaram-se comum.
Em meio à confusão inicial, Perón, um tanto transtornado e perdido, alternou períodos em que estava presente no país, com períodos em que procurou se auto-exilar em Madri.
Ele deixou uma brecha que foi explorada tanto pela esquerda como pela direita, ora associando sua imagem a uma ou outra tendência.

O fim ou seria o começo.
Pouco a pouco, Perón procurou deixar clara sua posição pró-direita e declaradamente fascista.

Em outubro de 1973, o governo passou a ser acompanhado mais de perto por Perón justamente porque estava a frente dele depois de ter sido eleito presidente.

Em represaria as tendências de esquerda da ala sindical do movimento peronista, Perón iniciou uma reforma na lei sindical, com vistas a manter um controle mais rígido sobre os sindicatos.
Em meio ao tumulto surgiu o grupo terrorista de esquerda “ERP” (Exercito da Revolução Popular).
Através de atentados este grupo procurou se opor ao peronismo.
Em janeiro de 1974, o “ERP” lançou um atentado à bomba a uma guarnição militar.
Mais uma vez deixando claro seu caráter fascista, Perón obrigou o governador da província a renunciar, já que tinha sido incompetente.
Iniciou em seguida um novo endurecimento no combate ao comunismo, entrando em choque direto com os sindicatos.
A reação não tardou, em 1a. de maio de 1974, tradicional dia de comemoração da ala sindical do partido peronista, dia do trabalho, a oposição organizou uma enorme manifestação na “Praça de Maio”, em Buenos Aires.
Como no passado os argentinos manifestaram a insatisfação com o governo peronista; obtendo o apoio de diversos setores da sociedade, chegando a contar com cinqüenta mil pessoas.
Pouco depois, em 1a. de julho de 1974, Perón faleceu; assumiu o governo a vice-presidente, no caso a terceira esposa do presidente morto, Maria Estela Martinez de Perón, cujo verdadeiro nome era Isabel.

Ocupando o governo da Argentina em condições internas deterioradas, a nova presidente enfrentaria o agravamento da crise, com um aumento da inflação que chegou a 920% ao ano em 1976.


A ausência definitiva de Perón do cenário argentino fez aumentar os atos de terror e violência.
Os quais ganharam a proporção de uma verdadeira guerra civil.
Tornam-se comuns os combates e atos de terror provocados pela “Triple A” (Alianza Anticomunista Argentina) e pelo “Comando de la Arganización”, que assassinam militantes e líderes de esquerda.
Estas organizações rivalizavam com o “Ejército Revolucionario del Pueblo” (de origem Trotskista).
Enquanto, por sua vez, a juventude peronistas continuou atuante, agravando o caos e instabilidade social.
A viuva de Perón em breve seria derrubada da presidência por uma novo golpe militar.

Para saber mais sobre o assunto.
Acompanhe o próximo artigo da Revista .

Texto:
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.

Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.



quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Peronismo – Parte 5: o fascismo “terceirista”.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume set., Série 23/09, 2010.


Como todo regime fascista, o peronismo se apresentava como "terceirista".
Em outras palavras, dizia advogar uma terceira posição, nem capitalista, nem socialista.
Isto, a semelhança do NSDAP (Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães), que ficou conhecido por sua abreviação “Nazi”, na Alemanha de Hitler e que também dizia advogar uma terceira posição.

Peronismo e nazismo, algumas aproximações.
É interessante notar que o partido nazista alemão atrai, na sua origem, como o peronismo, tanto elementos da extrema direita como esquerda.
Estes últimos foram expurgados por Hitler do partido em 30 de junho de 1934, eles exigiam o aniquilamento dos patrões e proprietários, em uma segunda revolução, o que fez a ala direitista pedir providências imediatas ao partido.
Como os fascistas alemães e italianos, os peronistas acreditavam ser a esperança de um novo mundo.
Acreditavam serem os detentores de um novo sistema que se dizia nem capitalista, nem socialista; mas que não passava de um capitalismo conservador de extrema direita.
Dentro deste contexto, seu caráter socialista nada mais era do que pura demagogia propagandista, destinada a iludir sua massa de manobra, ou seja, os trabalhadores.
Na verdade objetivava combater o comunismo, através da ilusão de que poderia servir de base para a implantação de uma sociedade mais justa e igualitária.
Deste modo, o peronismo, como todo fascismo, era pura e simplesmente o capitalismo levado as suas ultimas conseqüências.
O que não deixa de constituir um terceiro caminho, porém não um caminho ao centro, mas sim um caminho mais a direita.
Tanto é que o próprio Perón admitiu, que sua ideologia era apenas uma outra forma de capitalismo, segundo afirmou em discurso, datado em 1946:

“Não somos de maneira alguma inimigos do capital, e se verá no futuro que temos sido seus verdadeiros defensores. É mister discriminar claramente entre o que é capitalismo internacional dos grandes consórcios de exploração forânea e o que é capital patrimonial da indústria e comércio. Nós temos defendido este último e atacado sem quartel e sem trégua o primeiro”.

O terceirismo peronista e os argentinos.
Obviamente, a classe detentora do capital, terminou aderindo ao peronismo depois que Perón advogou ser o “terceirismo” o único modo de controlar a massa, manter a ordem e combater o terrível fantasma do comunismo.

Perón, tal como Hitler, negociava com grandes industriais, e deles recebia dinheiro prometendo proibir as greves.

Como afirma Reich, autor de um estudo sobre a psicologia de massas do fascismo, “foi sem dúvida a estrutura psicológica do trabalhador médio que impediu os homens comuns enxergar as contradições.
O peronismo conseguiu alcançar um consenso entre diferentes grupos, com interesses distintos entre si, e que se temiam mutuamente; conseguindo manter-se no poder, com o seu suposto “terceirismo”, por pouco mais de dez anos.
Sem dúvida, parece ser uma característica, de todo e qualquer tipo de fascismo, agradar gregos e troianos simultaneamente, sem que os troianos (no caso os operários) percebam o presente de grego que lhes é oferecido.
A estrutura do fascismo, ao colocar-se demagogicamente como “terceirista”, operou como fator de agregação, convocou as massas a aderir a uma luta pelo nacionalismo e pelo desenvolvimento do poderio nacional, em detrimento do internacionalismo representado pelo comunismo.
Ao agir assim, operou em favor dos capitalistas de seu país, manobrando as massas, e comprando sua liberdade através de bens materiais.
Todos os tipos de fascismo, inclusive o peronismo, colocam-se sempre como “terceirista”, mas são na verdade apenas capitalistas que levam a doutrina até as últimas conseqüências.

Peronismo foi um fenômeno fascista?
Apesar de muitas vezes, por razões obvias, Perón negar a identificação de sua doutrina com o nazismo.
Em outras ocasiões deixou claro que o nazismo serviu de fonte de inspiração para a construção do fascismo peronista argentino.
Como se pode facilmente ser notado através do seguinte discurso pronunciado em 17 de agosto de 1944, quando o nazismo começava a ser derrotado na Europa:

“Pelas idéias que professo tenho sido atacado por pessoas interessadas, o mesmo que se sucede com todos os indivíduos bem intencionados. Declaro que não me creio nunca possuidor único da verdade; porém também afirmo que confesso o que sinto e o que penso (...) Se me tem atacado porque manifesto que cada grêmio sindical deve ser unitário. Me dizem que pensando assim, eu devo declarar que os nazis tem razão; e se digo isto, é precisamente porque não me ato a prejuízos ridículos de uma determinada ideologia, em paralelo, vou eu buscar a verdade onde ela está”.

Em seu discurso, Perón evidencia que enxergava o nazismo como uma saída possível, na medida em que também considerava os alemães “terceiristas”.
Como pretexto para inspirar-se no nazismo, Perón usou o artifício de dizer-se livre de prejuízos, ou se preferirem preconceitos, afirmando que buscava a verdade onde ela estava, colocando-se como detentor da verdade, assim como os nazistas.
Sendo assim, tentava justificar suas idéias, nitidamente de caráter e inspiração nazifascista, como sendo verdadeiras e por isto justas, portanto, ideais para a realidade argentina.
Obviamente, a posição “terceirista” adotada pelo peronismo, em uma época de bi-polarização mundial em dois blocos, não poderia ser sustentada sozinha por um país pequeno e militarmente fraco como a Argentina.

Exatamente por esse motivo, Perón buscou o apoio inglês.
No entanto, pode rapidamente perceber que não conseguiria este apoio gratuitamente.

Perón nunca foi unanimidade, mas o peronismo sim.
Sempre existiu uma divisão interna no partido peronista, que se torna cada vez mais latente depois que Perón foi destituído da presidência pelo golpe militar de 1955.

Nas eleições de 1957, com Perón exilado fora do país e seu partido na clandestinidade, o qual havia sido dissolvido e declarado ilegal poucos meses depois do golpe de 1955, somente os votos em branco chegam a somar 24% do sufrágio total, deixando claro que o peronismo estava vivo e ativo.

Os votos em branco representavam um repudio ao fato dos peronistas não poderem ser votados.
Em 1958, Perón firmou um acordo secreto com Frondizi, candidato a presidência, que prometeu legalizar novamente o partido peronista, obviamente, em troca de votos.
Os peronistas estavam então divididos entre os que aceitam apoiar Frondizi, e os que pregam o voto em branco.
Em fevereiro de 1958, os votos em branco chegam a oitocentos mil sufrágios, embora Frondizi tenha conseguido ser eleito com a ajuda da facção que seguia a risca as orientações enviadas por Perón do exílio.
Cabe notar que os dissidentes, tanto de esquerda como de direita, votaram em branco, não por discordarem da orientação de Perón, mas sim por não acreditaram que Perón tivesse enviado a orientação.
Um fato que constitui um grande empecilho as tentativas de organizar uma volta os poder, uma vez que dada a distancia, muitas mensagens enviadas por Perón eram consideradas falsas ou alteradas.
Mais tarde, quando realmente foi confirmada a existência do pacto, muitos peronistas não conseguiram acreditar que Perón tivesse tomado a decisão, consideravam a união com Frondizi um ato vergonhoso que traia os ideais do movimento peronista.
Não obstante ao racha no partido peronista, as tentativas de voltar ao poder continuariam, tanto por parte da vertente que defendia a luta armada, um grupo menos numeroso; como dos defensores do retorno por meios legais e através do protesto, representado pelo voto em branco.
Muito embora, alguns elementos da nascente esquerda peronista, começassem a desconfiar de certas posturas adotadas por seu líder, questionando a fidelidade de Perón para com as metas sociais.
O governo responsável pela queda de Perón seqüestrou o corpo embalsamado de Evita; considerada como a “mãe dos pobres”.
Eva Perón havia se tornado um verdadeiro peronista, sobretudo da ala sindical (CGT).
O novo governo manteve o corpo em um furgão que perambulou durante meses pelas ruas de Buenos Aires para evitar sua localização.
Depois da queda de Perón, o governo passou a considerar essencial evitar que o cada ver de Evita pudesse se tornar objeto de veneração; mais tarde, chegando a transportá-lo clandestinamente para a Europa.
O corpo percorrendo um tortuoso roteiro que terminou em uma cova anônima na Itália; para retornar a Argentina, depois de passar pela Espanha, onde então Perón encontrava-se exilado.
O cadáver só retornaria a Argentina depois da reabilitação do peronismo; mesmo assim, depois que a guerrilha peronista, na década de 70, roubou do cemitério o cadáver do general e ex-presidente Pedro Arambúru, um dos cabeças do golpe contra Perón em 1955.
Em troca do corpo, os peronistas exigiram como resgate a devolução de Evita.

Para saber mais sobre o assunto.
Acompanhe os próximos artigos na Revista.

Texto:

Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.
Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.



quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Peronismo – Parte 4: o segundo período presidencial (1951-1955).

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume set., Série 22/09, 2010.


Diversamente do primeiro período presidencial, o segundo, iniciado em fins de 1951, foi marcado por uma grande crise econômica gerada pelos mais diversos fatores.
Ficou evidenciado o gigante peronismo com pés de barro, ou seja, uma estrutura frágil.
A recuperação industrial da Europa acabou com a pequena e nascente indústria argentina, a qual na verdade sempre sofreu problemas de infra-estrutura.
O governo Perón tentou solucionar a questão em 1952, mas os problemas derivaram da falta de uma indústria pesada adequada e do atraso tecnológico, principalmente no setor da energia e combustível.

Uma crise anunciada.
Durante anos o equipamento industrial, agropecuário e energético argentino sofreu um constante desgaste, os diversos setores não se modernizaram, enquanto os países europeus reconstruíram sua capacidade produtiva com a tecnologia mais moderna existente.
A indústria argentina passou a enfrenta grandes dificuldades, sentindo a falta de uma indústria pesada em seu próprio país, obrigada a comprar máquinas dos EUA a valores.
Devido à concorrência européia, os industriais argentinos só conseguiam vender sua produção em quantidade reduzida no exterior, sendo forçada a reduzir constantemente os preços.
A este contexto se somava um aumento dos gastos com a mão de obra, encarecendo os custos e reduzindo ainda mais a produtividade.
O governo peronista nada pode fazer para enfrentar a situação.
As reservas monetárias haviam acabado, tinham sido gastas em grande parte com as nacionalizações realizadas durante o primeiro período presidencial.
Dessa forma as subvenções ao consumo começam a se tornar um fardo para o governo.
A poupança interna se mostrava insuficiente, a inflação crescia, e, com ela, o desemprego.
Agravando todo este quadro, a Argentina enfrentou duas colheitas ruins seguidas.
O mercado interno se contraiu e a indústria entrou em queda desenfreada, os índices de desemprego chegaram a taxas perigosas.
O capital externo temendo investir no país, especialmente em determinadas áreas, fez sentir-se, deixando as empresas sem terem como captar recursos e, por fim, fazendo várias delas quebrarem.
O IAPI (Instituto Argentino de Promoção do Intercâmbio), órgão estatal, que monopoliza o comércio exterior de cereais, o qual durante o primeiro período presidencial havia obtido ganhos extraordinários, logo passou a acumular prejuízos.
No caso, estava obrigado a comprar colheitas a um preço superior ao do mercado internacional, passando a não ter mais condições de financiar outras atividades econômicas e muito menos o consumo.

Conseqüências da crise econômica.
Os vários fatores aglutinados em torno das questões estruturais, geraram na Argentina a impossibilidade do pagamento de salários mais elevados que pudessem fazer a economia girar, criando um circulo vicioso.
A inflação afetou não só a classe média, como também as camadas populares da cidade e do campo.
Os salários nominais dos trabalhadores forma congelados, representando uma queda no salário real.
Os índices do produto bruto, da participação industrial e do capital por habitante, permaneceram em 1955 nos mesmos patamares que em 1948.
Assim, Cresceram as reivindicações populares, justamente, em momento em que difícil o governo não tinha como atendê-las.
Tentando amenizar a situação, a CGT (ala trabalhista do partido peronista), procurou estimular a formação de mecanismos de assistência própria.
No entanto, estimulados pelas próprias empresas nacionais, estouram manifestações contrarias ao congelamento de salários por todos os lados.
A resposta do governo foi um forte aumento da repressão.
A ordem do governo peronista passou a ser produzir para o engrandecimento da nação e não fazer greves reivindicatórias.

A morte de Eva Perón e a aproximação com os EUA.
À medida que o prestigio de Perón declinava, sua vida pessoal também sofria perdas significativas, a maior dela aconteceu em 1952, foi quando morreu sua companheira Eva Perón.
Evita faleceu de câncer aos 33 anos, mais tarde sua figura terminaria se tornando símbolo da ala esquerda do movimento peronista.
O marido apaixonado mandou embalsamar o corpo da esposa, o que acabaria acarretando em uma peregrinação forçada do cadáver por diversas partes do mundo.
Devido à crise econômica, junto com a morte de Eva Perón, a orientação peronista também morreu.
 O governo mudou sua atitude com relação às empresas estrangeiras e grandes potências mundiais, aproximando-se da orbita de influência norte-americana.
Já em 1947, a Argentina havia sido praticamente obrigada, devido a pressões dos Estados Unidos, exercidas no Tratado do Rio de Janeiro, a assinar um compromisso de cooperação político-militar.
Em 1950, os argentinos conseguiram obter do “Export and Import Bank” um crédito de cento e vinte e cinco milhões de dólares, o que amenizou a crise e garantiu a Perón prosseguir no comando do país por mais alguns anos.
Em 1953, o país recebeu a visita da missão norte-americana, presidida pelo próprio presidente Eisenhower.
Foram fixadas então as bases de um crescente entendimento entre os governos da argentina e dos EUA.
No mesmo ano de 1953, uma nova lei legalizou concessões extremamente favoráveis as empresas estrangeiras.
O governo peronista fez concessões às empresas norte-americanas nos ramos automobilísticos e petrolíferos.
Cabe notar que o ramo petróleo foi uma das raras exceções, na questão da nacionalização, pois o peronismo nunca cogitou nacionalizar o setor, o qual sempre se manteve uma concessão norte-americana.
O nacionalismo havia se esgotado em si mesmo, tornava-se cada vez mais evidente a penetração norte-americana na Argentina, o que por si demonstrava que o governo peronismo estava chegando ao fim.

O começo do fim.
O peronismo terminou por desarticular-se, traiu os seus próprios princípios e atropelou a si mesmo, rompendo com sua base de apoio.
Perón golpeou e irritou os diversos grupos sociais sobre os quais se equilibrava, gerando um clima de insegurança geral.
Entretanto, apesar da crise e da aproximação com os EUA, os peronistas passaram a alimentar a esperança de formar um bloco de poder político e econômico com Chile e Brasil (então ainda sob o governo Vargas, o qual havia a pouco retornado ao poder através do voto).
Segundo as próprias palavras de Perón, este bloco deveria formar “a unidade econômica continental, ou melhor, a formação de uma confederação latino-americana, na qual evidentemente, os Estados Unidos da América teriam de ficar a parte”.
Para ele, havia “chegado o momento de paralisar a tentativa de desagregação do pan-americanismo, por uma reiteração da fidelidade ao passado”.
Não obstante, Perón fez declarações que desestabilizam a possibilidade desta união, demonstrando uma total insensibilidade para assuntos externos, ferindo a soberania nacional brasileira e chilena.
A população do Brasil e Chile sentiu-se constrangida, incitada a manifestar-se contrária a uma união econômica com a Argentina, devido a sua pretensão hegemonia sobre seus parceiros.
Por essas e outras, começaram a ser planejadas conspirações para derrubar o governo Perón.
Em 1955 eclodiu um conflito direto com a igreja, que serviria como estopim que daria inicio a queda de Perón.

O conflito com a igreja católica.
Poderia parecer que um desentendimento do peronismo com a igreja católica em nada poderia afetar a estabilidade do governo, mas nos países de colonização espanhola, como na própria Espanha, os clérigos possuíam grande influência política e econômica.
A religiosidade da população fazia com que a voz da igreja fosse ouvida a acatada.
Acontece que a igreja católica na Argentina era proprietária de grandes extensões de terras, como em muitos outros países latino-americanos, era um dos maiores latifundiários do país.
Uma questão que entraria na pauta do governo peronista em breve.
Inicialmente, a raiz do desentendimento esteve ligada a uma proposta de separação entre Igreja e Estado.

A situação foi gravada com a revogação da lei do ensino religioso obrigatório, bem como com a implantação da lei do divorcio.
Os peronistas tentavam transformar a Igreja como bode expiatório pela crise que se intensificava.
Por outro lado, a igreja, ressentida com as medidas tomadas contra ela, culpava os peronistas pela crise, mobilizando a sociedade argentina contra o governo.
Assim, a procissão de “Corpus Christi”, de 11 de junho de 1955, terminou convertendo-se em ato político, ultrapassando os limites religiosos, um marco na luta contra o peronismo.
A Igreja, uma das maiores beneficiadas pelo peronismo, e por isso um de seus principais sustentáculos, liderou a conspiração anti-peronista.

O golpe militar que derrubou Perón.
No mesmo dia 11 de junho de 1955, em que a igreja se manifestou contra o peronismo, teve lugar uma tentativa frustrada de bombardear a casa do governo e a Praça de Maio, em Buenos Aires.
O número de mortos foi elevado, mas o exército salvou momentaneamente o governo peronista, embora o equilíbrio do poder estivesse definitivamente rompido.

O apoio durou pouco, em 16 de setembro de 1955, os militares acabaram aderindo significativamente ao movimento, organizando um levante armado.

Foi na cidade de Córdoba que a rebelião começou, liderada pelo general Lonardi, futuro presidente argentino.
O exercito marchou em direção a Buenos Aires.
Diversos setores da sociedade, temendo que a crise econômica pudesse propiciar uma revolução socialista, apoiaram o golpe.
Um dos fatores responsáveis pela subida de Perón ao poder, também causou sua queda.
Em 22 de setembro de 1955, devido à chamada “Revolução Libertadora”, Perón renunciou.
Apesar de possuir grande número de tropas fiéis a sua causa, bem como elevada porcentagem de operários que se dispunham a lutar por ele, temendo que o país terminasse se tornando comunista através de uma revolução popular, descartou qualquer possibilidade de luta civil.
Perón dirigiu-se ao exílio, primeiro no Paraguai, depois na República Dominicana, para finalmente se instalar na Espanha do General Francisco Franco.
O ditador fascista argentino caiu, mas o peronismo continuou vivo.
Mesmo no exílio, Perón manteve voz ativa na política argentina, constituindo um dos casos mais singulares da história mundial.

Para saber mais sobre o assunto.
Acompanhe os próximos artigos na Revista.

Texto:

Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.
Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.