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quarta-feira, 30 de março de 2011

A concepção de Ciências Humanas em Foucault: uma interpretação sobre as palavras e as coisas.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mar., Série 30/03, 2011, p.01-04.


Michel Foucault, o filosofo e historiador francês que viveu entre 1926 e 1984, na obra As palavras e as coisas, publicada em 1966, dá a conhecer ao senso comum que às ciências humanas são mais que um saber.
Em sua opinião elas seriam uma prática, uma instituição.
Ao analisar a gênese e a filosofia da ciência, mostra como é recente o aparecimento do homem na história do nosso saber.
Estudou em sua obra a mudança interior da cultura, do século XVIII ao XIX, através da gramática geral, que se tornou filologia.
Utilizando também a análise das riquezas, que se tornou economia política, e a história natural, que se tornou biologia.


A estrutura de as palavras e as coisas.
A análise das ciências humanas de Foucault é posterior à publicação de História da loucura em 1961, na qual o filosofo examinou como os conceitos de saúde e loucura surgiram e se combinaram para dar origem à categoria de doença mental.

Porém, é anterior a Vigiar e punir, obra publicada em 1975, na qual são analisados os métodos de disciplina empregados nas prisões, através de relações de poder que implicam a coerção e a imposição.

Em As palavras e as coisas, reconhecendo a influência de Nietzsche no conjunto de sua obra, Foucault procede a uma arqueologia do pensamento, mostrando aquilo que faz com que as ciências humanas, contemporaneamente, tornarem-se possíveis.
Especificamente no Capitulo X, intitulado “As ciências humanas”, o pensador mostra o processo de formação destas.
O texto encontra-se dividido em seis partes:

I. O triedro dos saberes.
II. A forma das ciências humanas.
III. Os três modelos.
IV. A história.
V. Psicanálise, etnologia.
VI. Tópico sem titulo.

Neste último, Foucault conclui não só o último capítulo de seu livro, como também toda a obra enquanto conjunto.


A origem das ciências humanas.
Em As palavras e as coisas, Foucault deixa claro que, antes do século XIX, as ciências humanas simplesmente não existiam.
Segundo ele, a dimensão humana só teria surgido a partir de necessidades empíricas derivadas do trietro: ciências dedutivas, ciências empíricas e reflexão filosófica.
Na verdade, em sua opinião, a filosofia teria sido a mãe de todas as ciências humanas, da qual todas derivam.
Em seguida ele delimita as matemáticas, as ciências dedutivas, enquanto formadoras da análise das riquezas e, portanto, da economia política.
Delimitando também a reflexão filosófica como formadora da filologia, através de uma gramática geral e, igualmente, a história natural como precursora da biologia.


O papel da história.
Foucault se colocava como arqueólogo do conhecimento humano e, como tal, dividiu as ciências me regiões, a exemplo da espacialidade geográfica, conferindo espaços delimitados e claros dentro do âmbito das ciências humanas.
Afirmou que a partir das três primeiras regiões epistemológicas existentes nas ciências humanas- ou seja, biologia, economia e filologia -, nasce à região psicológica e sociológica.
A história é definida como uma ciência nascida da tríade, no entanto constituindo uma área do conhecimento que não estaria descolada das demais, seria uma esfera de acolhimento ao mesmo tempo privilegiada e perigosa.
Isto porque a história teria se desenvolvido ao lado das demais ciências humanas, precisando pegar conceitos e instrumentos emprestados de outras ciências, enquanto também estaria dentro destas mesmas ciências como ferramenta auxiliar.
Daí o privilégio de interdisciplinaridade e o perigo de ser pulverizada por este mesmo motivo.


Concluindo.
Antes de encerrar a obra As palavras e as coisas, Foucault retoma a discussão concernente ao nascimento da psicanálise, bem como sua natural ligação com a etnologia.
Seriam regiões que tornaram possíveis um saber de fato real sobre o homem.
Antes, todas as outras ciências humanas eram apenas especulativas.
Este caminho foi traçado por Foucault para concluir que o homem é uma invenção recente, à medida que as ciências humanas são uma invenção que remonta ao século XIX.

Desta forma, ele dá prosseguimento às investigações acerca das origens dos conhecimentos e das formas de controle político que incorporado à vida moderna ocidental.

Pretendia, na verdade, demonstrar o caráter arbitrário das idéias e práticas sociais, dando continuidade ao estudo ao qual dedicou sua vida.
Mais tarde, seguindo esta linha de pensamento, pouco antes de falecer, Foucault publicaria a História da Sexualidade em 1980.


Para saber mais sobre o assunto.
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1987.
FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
FOUCAULT, Michel. Doença mental e psicologia. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.
FOUCAULT, Michel. História da loucura. São Paulo: Perspectiva, 1978.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade. Rio de Janeiro: Graal, 1985.
FOUCAULT, Michel.  Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2000.
FOUCAULT, Michel.  O homem e o discurso. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1994.
FOUCAULT, Michel. Resumo dos cursos de college de france 1970-1982. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1994.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Nascimento da Prisão. Rio de Janeiro: Vozes, 2000.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela FFLCH/USP.

A indiferença contemporânea: uma reflexão sobre o quadro das sensibilidades.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mar., Série 30/03, 2011, p.05-07.


Um dia desses, por alguns momentos a cidade parou.
As televisões hipnotizaram os espectadores que assistiram, sem piscar, o resgate de uma mãe e de uma filha.
Seu automóvel caíra num rio.
Assisti ao evento em um local público.
Ao acabar o noticiário, o silêncio à volta do aparelho se desfez e as pessoas retomaram as suas ocupações habituais.
Os celulares recomeçaram a tocar.
Perguntei-me: indiferença?
Se tomarmos a definição ao pé da letra, indiferença é sinônimo de desdém, de insensibilidade, de apatia e de negligência.
Mas podemos considerá-la, também, uma forma de ceticismo e desinteresse, um “estado físico que não apresenta nada de particular”, enfim, explica o Aurélio, uma atitude de neutralidade.
Conclusão?
Impassíveis diante da emoção, imperturbáveis frente à paixão, imunes à angústia, vamos, hoje, burilando nossa indiferença.
Não nos indignamos mais!
À distância de tudo, seguimos surdos ao barulho do mundo lá fora.
Dos movimentos de massa “quentes”, - (lembram-se do “Diretas Já”?) - onde nos fundíamos na igualdade, passamos aos gestos frios, onde indiferença e distância são fenômenos inseparáveis.
Neles, apesar de iguais, somos estrangeiros ao destino de nossos semelhantes.
O apagamento do conflito, a sedução do consenso oferece um painel açucarado onde não há singularidades.
Damos as voltas que forem necessárias para não toparmos com o outro, com o diferente.
Via “Embratel”, o mundo exterior nos bombardeia com a miséria, a selvageria, a violência e simultaneamente com o riso, a anedota e a festa.
Mas pelo tubo ótico, um morto é igual ao outro; uma imagem vale outra.
Mais e mais a televisão ensina o nosso olhar a perder o uso da perspectiva.
Ela apaga as asperidades e os relevos; não há mais diferença entre o real e o imaginário.
Na tela, pessoas tornam-se coisas e coisas tornam-se pessoas.
Assim, findo o resgate, mãe e filha se afogaram na nova máquina de lavar, na espuma do novo detergente, ao som do plim-plim.
E, de quadro em quadro, vamos assistindo, desencantados, a nossa posição ética frente ao mundo se anestesiar.
Não adianta trocar de canais: a mensagem é sempre a mesma.
Não sentir, não pensar, não falar ou falar, com indiferença, do que não nos toca jamais.
A modernidade, denunciaram alguns filósofos, não passa de um enorme dispositivo para nos “acostumar”: acostumar com o espetáculo diário do sofrimento televisionado, acostumar com nossa função de consumidores anônimos e apáticos.
Antes de ligar a televisão, antes mesmo de pensar em poupar energia, vou pensar nisso.


Para saber mais sobre o assunto.
DEL PRIORE, Mary. A Família no Brasil Colonial. São Paulo: Editora Moderna, 1999.
DEL PRIORE, Mary. Ao sul do corpo, Condição Feminina, Maternidades e mentalidades no Brasil Colônia. UNESP: São Paulo, 2009.
DEL PRIORE, Mary. “A vida cotidiana no Rio de Janeiro” In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, v. 436, 2007, p. 313-333.
DEL PRIORE, Mary. A História das Crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 1999.
DEL PRIORE, Mary. “Crianças e adolescentes de ontem e de hoje” In: Helena Bocayuva e Sílvia A. Nunes. (Org.). Juventude, subjetivações e violências. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2009, p.11-24.
DEL PRIORE, Mary. Histórias do Cotidiano. São Paulo: Contexto, 2002.
DEL PRIORE, Mary. L'Histoire de la vie privée dans le monde luso-americain: l'exercice d'une nouvelle approche? In : Cahiers de L'histoire Du Brésil, Sorbonne - Paris, 2000.


Texto: Profa. Dra. Mary Del Priore.
Doutora em História Social pela USP, com Pós-Doutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (Paris/França).
Lecionou História do Brasil Colonial nos Departamentos de História da USP e da PUC/RJ.
Autora de mais de cinqüenta livros e atualmente professora do Programa de Mestrado em História da Universidade Salgado de Oliveira - UNIVERSO/NITERÓI.
Membro do Conselho Editorial de "Para entender a história..." desde 14/01/2011.