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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Historiografia e espacialidades.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume dez., Série 06/12, 2010.


A abordagem das espacialidades, no âmbito da historiografia, comporta duas vertentes de análise distintas.
Primeiro a mais obvia e pontual, aquela que abrange o conceito de história como estudo do homem no tempo e espaço, a territorialidade geográfica abordada pelos historiadores.
Depois, uma temática mais abrangente e pertinente ao campo historiográfico, a divisão do conhecimento histórico em áreas teóricas diversificadas, dentro das quais a questão geográfica também está presente como uma pequena parcela de sua ampla envergadura.
Pensando conceitualmente, a história refere-se “sempre a certos processos da vida humana em uma diacronia – isto é, no decurso de uma passagem pelo tempo – ou que se relacionam de outras maneiras, mas sempre muito intensamente, com uma ideia de temporalidade”.
Tal como estabeleceu à linguística, também na história os termos sucessivos se substituem uns aos outros ao longo do tempo, tornando a historicidade uma sucessão de fatos, estudados através da sincronia, o entendimento das estruturas.
Uma perspectiva que remete ao contexto geográfico e politico, ao espaço social que termina adentrando o imaginário, a iconografia, a literatura, enfim os espaços virtuais, ao mesmo tempo, penetrando o local e o regional.
Uma abordagem, até a década de 1950, mais comumente efetivada por geógrafos, sociólogos e antropólogos, em certo sentido, vinculada com a História Oral, os relatos individualizados não registrados pela escrita, circunscritos a memória de determinadas pessoas.
Destarte, estes estudos são apenas um pequeno pedaço da grande teia teórica que se formou em volta da historiografia profissionalizada desde o século XIX.
A partir da busca da cientificidade, passou a existir uma profusão de domínios partilhados pelo saber histórico, como, por exemplo, a História Social, a História Econômica, a História Cultural, a História Demográfica, a História Política, a História Serial, a Micro-História e a História Quantitativa.
Todas elas, noções que se referem a dimensões ou a fatores que ajudam a definir a realidade política, social, econômica e cultural; remetendo a classificações que dizem respeito ao tipo de fontes com as quais os historiadores lidam, ou ainda às abordagens utilizadas para tratar estas fontes.
Na realidade, classificações que trazem, internamente, subdivisões quanto aos ambientes, sujeitos e objetos; originando outros olhares historiográficos como a História das Mulheres, a História das Crianças, a História dos Marginais, a História das Cidades, a História Rural, a História da Sexualidade e a História da Arte.
Espacialidades historiográficas que pertencem também a territórios teóricos que determinaram as narrativas, compondo correntes de pensamento, tal como o positivismo, a escola metódica alemã, o marxismo ou Annales.
Isto para não mencionar as regiões em que a história faz fronteira com outras áreas do conhecimento humano, o que implicaria em transitar pelas filosofias da história e as várias concepções decorrentes.
Embora a espacialidade geográfica e referente à divisão do conhecimento histórico em campos, à primeira vista, possam parecer distintas; estão intrinsecamente relacionadas, são interdependentes.
Sendo a história uma ciência que estuda o passado, analisando as transformações, para entender o presente; esta tentativa de resgatar o passado estuda o homem em um tempo e espaço, sempre por um viés teórico, conceitos que se complementam e misturam para construir o saber histórico.
Portanto, analisar a composição da historiografia contemporânea, suscita este duplo debate, até porque o próprio conceito de interdisciplinaridade, que trouxe para a história a questão dos espaços geográficos, decorreu de um aspecto formalmente pertencente à outra forma de espacialidade: a teórica.

A história e Geografia antes de Annales.
História e geografia são ciências sociais que diferem das ciências da natureza, biológicas ou exatas.
Enquanto a história analisa os processos históricos, procurando o desenvolvimento da organização social, econômico, político, administrativo e cultural.
A geografia estuda os territórios e a sua transformação, procura analisar o ser humano dentro do contexto da natureza, a sua relação com as mudanças que provoca.
Aparentemente distintas quanto ao objeto e a abordagem, são áreas que se complementam e completam.
Uma reflexão que foi pensada pelos geógrafos e antropólogos muito antes dos historiadores vislumbrarem.
Até o século XVIII, a geografia, ainda não considerada uma ciência, procurava trabalhar com temas gerais, cosmográficos, inserindo a Terra no universo e tentando conhecê-la e decifrá-la; fazia trabalhos descritivos, empíricos, usando uma abordagem que espelhava a dicotomia metodológica matematizada.
No entanto, como ressaltou Milton Santos, no final do século XIX, a geografia renasceu comprometida com a ideologia imperialista dominante na época.
Passou a constituir uma ciência e filosofia que teorizava e justificava o colonialismo, com novas conquistas territoriais, tanto políticas como econômicas, fazendo largo uso da história para teorizar e justificar a dominação européia da África e Ásia.
Quanto à visão antropológica, mesmo antes do aparecimento desta área do conhecimento humano como ciência, textos de filósofos, cronistas, viajantes e soldados retratavam a experiência humana, vinculando-a com questões geográficas, para explicar o desenvolvimento de civilizações, religiões e culturas.
No século XVIII, o iluminismo racionalizou a antropologia, discutindo as relações entre os povos, novamente usando como ferramentas auxiliares a história e a geografia.
Embora estes trabalhos estivessem restritos a narrativas individualizadas que, passariam, no século XIX, a servir também para justificar teorias eurocêntricas que inferiorizavam povos dominados pelo colonialismo, como os indígenas da América.
Na história, a geografia se fez presente somente no inicio do século XX, quando as idéias desenvolvidas por Karl Marx e Friedrich Engels, no final do século XIX foram incorporadas a teoria da história.
Preocupados em demonstrar que o capitalismo seria um acontecimento transitório, diante do aparecimento de uma classe revolucionária, para o surgimento de uma sociedade comunal; terminaram transpondo conceitos importantes para o contexto teórico do saber histórico, originando uma nova escola historiográfica.
Marx criou um sistema racional de interpretação da realidade, pensada em termos de movimento e mudança, marcado pelo determinismo econômico, conciliando a reflexão filosófica com a prática política.
Originou uma gama tão ampla de interpretações e desdobramentos que o próprio Marx, antes de morrer, declarou ter certeza de que ele não era marxista.
Um destes desdobramentos foi o surgimento da escola historiográfica marxista, extremamente preocupada com as questões teóricas, visto que para Marx uma teoria não podia ser pensada sem correspondência com o contexto histórico, devendo encontrar suas raízes na realidade para transformá-la.
Esta característica, em especifico, criou desdobramentos também dentro da escola historiográfica marxista, tornando-a até certo ponto confusa, a despeito de duas características em comum em todas as orientações: a adoção da dialética e do materialismo histórico como foco central de análise, voltados, obviamente, para alcançar os princípios marxistas.
Marx havia pegado emprestado o conceito de dialética de Hegel, o exame de tese, antítese e síntese, compondo uma espécie de dialogo consigo mesmo, o qual deveria estimular a prática revolucionária; apropriando-se do conceito de materialismo histórico de Feuerbach, tendência que partia da base econômica para explicar outros níveis de realidade, como a religião ou a política.
Este viés transformou a história em uma concepção teórica direcionada a transformar a sociedade, uma ciência da prática revolucionária através do estudo do passado.
Conceito que precisava da contextualização das territorialidades para efetivar-se como método de análise incorporado à historiografia, uma vez que o materialismo histórico tinha nas questões geográficas um dos elementos determinantes das condições econômicas e, por conseguinte, políticas, sociais e culturais.
Entretanto, a verdadeira interdisciplinaridade entre a história e a geografia só começou a ser construída com escola geográfica de Paul Vidal de La Blache, um geógrafo que já atuava em conjunto com historiadores desde 1905, estabelecendo relações entre a noção de “espaço” e de “região”.
O modelo geográfico de La Blache opunha-se à escola geográfica alemã de Ratzel.
Enquanto este último era francamente determinista, atribuindo uma influência quase linear do meio sobre o destino humano, La Blache trabalhava com a idéia de um possibilismo geográfico.
Isto significa que, ainda que colocando o meio geográfico no centro da análise da vida humana, La Blache buscava enfatizar as diversas possibilidades de respostas que podiam ser colocadas pelos seres humanos diante dos desafios do meio.
Posteriormente, Lucien Febvre, e mais tarde Fernand Braudel, adotariam este modelo, inspirando novos trabalhos que se tornariam clássicos da historiografia pensada em torno das espacialidades.

As espacialidades geográficas em Annales.
O surgimento da Escola de Annales, em 1929; uma reação critica as concepções históricas do século XIX, notadamente rejeitando a ênfase positivista e metódica em política, diplomacia e guerras, assim como a abordagem economicista do marxismo; trouxe a questão das espacialidades em definitivo para a história, isto, em um duplo sentido, tanto geográfico como teórico.
Annales pretendia adotar uma abordagem sociológica, unindo o estudo da geografia sociologia e história para entender os fatos e as mudanças históricas, dando especial atenção ao cotidiano.
Quebrando com as antigas metodologias, iniciou, ao mesmo tempo, uma nova abordagem da analise dos fatos no tempo e espaço, rediscutindo o próprio conceito de história.
Para tal se propôs a problematizar a história, contrariando a coleção de fatos perpetuada pelas tendências anteriores.
Circunscrita aos meios universitários, conceituando a história de forma ampla, abrangendo o estudo vivo da produção humana; Annales desdobrou-se em várias linhas teóricas e campos de pesquisa, notadamente servindo de base para criar departamentos tanto de história social como econômica; fomentando debates acerca da natureza teórica do conhecimento histórico, hoje, incorporados ao panorama historiográfico.
No entanto, as primeiras representações desta nova forma de pensar a história, assim como as aplicações das concepções espaciais derivadas da escola geográfica de Paul Vidal de La Blache, apareceram na historiografia com a obra A Terra e a Evolução Humana, publicada por Lucien Febvre em 1922, portanto, ainda em data anterior a fundação da Revista Annales: economia, sociedade e civilizações.
Febvre inaugurou a moderna concepção de espacialidade histórica, relatando as relações entre o meio físico e a sociedade, tidos como elementos necessários para estudar as macro-problemáticas.
Dentro deste âmbito, representado a segunda geração de Annales, Fernand Braudel revolucionou de fato a abordagem das espacialidades territoriais, ao unir pressupostos da história e geografia, com a publicação de O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Felipe II em 1949.
Na obra, ele demonstrou como era possível decompor o tempo da história em planos desdobrados: o tempo individual, o tempo social e o tempo geográfico.
No tempo individual estaria fixada a história não do homem como coletividade, mas do homem como individuo, com variações rápidas e dinâmicas, permitindo ao historiador observar os acontecimentos.
Exatamente o tipo de abordagem em que estaria concentrada a maior parte da historiografia, sendo o tempo da curta duração, de tudo que muda com muita rapidez, por isto, mais facilmente percebido.
O tempo social seria o plano pelo qual se pode observar a história social dos grupos e agrupamentos, pertencendo a uma história lentamente ritmada, circunscrita ao crescimento demográfico e da economia, elementos pertencentes a longa duração.
Seria, portanto, o tempo das estruturas que mudam com muita lentidão, fazendo quem a vivencia não se dar conta destas mudanças, neste sentido, assemelhando-se mais ao que, depois, convencionou-se chamar de média duração.
O tempo geográfico representaria uma história quase imóvel, que observa o relacionamento do homem com o meio que o rodeia.
Uma história que passa lentamente e sofre poucas transformações.
As regiões montanhosas e a população que lá habita, fornecem um bom exemplo desta temporalidade, mostrando o quanto, nesta dimensão, os costumes, ligados aos aspectos geográficos, pouco mudam, já que o ambiente que os rodeia também não muda, o que Braudel chamou de longuissíma duração.
Para ele, os historiadores concentravam sua atenção apenas nos processos da curta duração, deixando de lado as outras temporalidades, oferecendo apenas um vislumbre da história, sem conseguir chegar a nenhuma elucidação.
O que envolvia, portanto, deixar também as espacialidades geográficas em segundo plano.
Para atingir o objetivo de ler o passado partindo do presente, seria necessário realizar macroabordagens, penetrando as três temporalidades, adentrando de fato as espacialidades geográficas e suas especificidades, dando conta, por exemplo, tanto das questões regionais como dos espaços mais amplos.
Somente assim seria possível tornar a escrita da história uma verdadeira ferramenta para desvendar o passado, clareando a noite como um vaga-lume.

História Regional e espacialidades.
A renovação historiográfica efetuada no século XX, propiciada por Annales, ampliou os campos e territórios do historiador, dentre os quais uma espacialidade teórica que foi, em grande medida, inspirada pelas reflexões braudelianas e que se insere duplamente no significado dos espaços: a História Regional.
Apesar de antecedentes que datam de pelo menos uma década antes, surgida nos anos de 1970, como uma resposta ao fenômeno da globalização que iria se intensificar a partir da década seguinte.
A tendência não tratava simplesmente de pequenas porções de um território geográfico ou país, embora também pudesse abordar espacialidades físicas; antes, enxergava no espaço e através dele as dinâmicas históricas, obrigando o historiador a lidar com os processos de diferenciação de áreas.
Assim, ao conceber uma nova concepção de história e propor abordagens mais adequadas ao entendimento de inquietações ligadas às identidades, a História Regional constituiu mais um pedaço das espacialidades teóricas na historiografia.
Simultaneamente, abrangeu elementos físicos das regiões para entender aspectos da demografia, economia, política, cultura, enfim as experiências dos grupos sociais historicamente vinculados com uma base territorial em muitos casos geograficamente constituída.
O que não permite confundir a História Regional com a Micro-História, já que, enquanto a primeira estuda a realidade recortada por ela mesma, à segunda faz uma redução de escala de observação para observar aspectos que poderiam não ser percebidos na análise macro.
Inclusive porque, ao contrário da chamada história em migalhas, a escala da História Regional pode constituir uma macro-análise, tanto teórica como geográfica. Paradoxalmente, a concepção abrange outras metodologias e enfoques auxiliares, tal como, por exemplo, a História Cultural ou das Mentalidades, ou ainda o conceito de Representações.
Isto porque a historiografia regional testa a validade de teorias elaboradas a partir de parâmetros outros.
Via de regra, um país como um todo, ou uma região, em geral, a hegemonia dos grupos dominantes, tende a falsear a leitura do passado; forçando o historiador a confrontar realidades particulares e concretas, as quais se mostram muitas vezes inadequadas ou incompletas quando analisadas apenas por um único prisma teórico.
Por outro lado, a História Regional entende a si mesma como parte de um sistema de relações que integra uma região, a qual deve ser definida pela referência ao sistema que fornece seu principio de identidade, oscilando entre o sistema internacional, ou dentro de uma das unidades de um sistema político, e uma região cujas fronteiras não coincidem com os imites políticos juridicamente definidos.
O que traz implicações não só do ponto de vista do objeto, como igualmente das fontes.
Ao trabalhar com a História Regional, o historiador termina estudando a memória coletiva, construída a partir não só de visões particularizadas do passado, representadas pela oralidade, como também baseada em documentos.
Estes prestam testemunho vivo do passado, perpetuando a recordação a um ponto tal de elaboração que, como lembrou Lefebvre, aquilo que não foi registrado termina se perdendo, tendo se transformado em algo que já não é mais.
Na maioria das vezes, os documentos não estão em arquivos públicos organizados e à disposição para a pesquisa.
O historiador precisa localizar o material que pode estar em poder de famílias ou instituições e que dificultam o acesso por motivos diversos.
Tornando mais fácil e usual recorrer às fontes orais, as quais, neste contexto, acabam adquirindo grande importância, sendo muitas vezes a única fonte disponível e que requer uma atenção para que a pesquisa não fique comprometida com os interesses do entrevistado ou a distorcida pelas respostas.
Esta constatação remete a outra espacialidade teórica que se encontra neste ponto com a História Regional, ou seja, a História Oral.
Exigindo do historiador uma tentativa de manter-se imparcial, o que quase nunca é possível, em vista do profissional da história estar, também ele, inserido em um tempo e espaço.
Sujeito, portanto, as diversas influencias, dentre as quais as espacialidades teóricas, pertencendo ou transitando, em vários casos, por muitas delas, caminhando entre fronteiras tênues.

Espacialidades e Territórios teóricos.
Tanto a História Regional como a História Oral são apenas um dos muitos territórios teóricos da história, nascidos frente às discussões metodológicas e em torno da definição do conceito de história, debates que fazem parte, igualmente, da questão das espacialidades historiográficas e da definição técnica de territórios.
Neste sentido, quer o oficio do historiador seja meramente o domínio destes métodos e técnicas, circunscritos a um conjunto teórico; ou, ainda, um exercício de imaginação, a construção de uma narrativa verossímil, entre outras possíveis; não se pode negar que o surgimento da escola de Annales inaugurou uma postura teórica e metodológica diferenciada.
A corrente se propôs a problematizar a história, contrariando a coleção de fatos perpetuada pelas tendências anteriores, tentando se isentar de ideologia, embora esta tentativa seja passível de inúmeras criticas, já que o historiador, sendo fruto de seu tempo, jamais conseguirá traçar uma análise imparcial.
A partir da problematização, a Escola desdobrou-se em várias linhas teóricas, inspirando até mesmo os curiosos e historiadores amadores, notadamente servindo de base para criar departamentos e linhas de pesquisa as mais diversas no âmbito acadêmico.
A exemplo do que aconteceu quando a Universidade de São Paulo foi criada em 1933, quando, dentre as levas de professores estrangeiros importados para satisfazer a demanda por um corpo docente altamente qualificado, esteve presente Fernand Braudel, um dos mais notórios representantes de Annales e, talvez, seu maior divulgador.
É verdade que, antes do pensamento teórico do século XX, tivemos concepções que interferiram diretamente no conceito de história, inclusive modificando a relação entre o conhecimento histórico e outras áreas, tal como o iluminismo, o positivismo, a escola metódica alemã ou o marxismo.
No entanto, as espacialidades historiográficas são hoje muito mais complexas, comportando uma enorme dificuldade: a determinação das fronteiras entre territórios, uma vez que os conceitos se emaranham e comunicam continuamente, ocultados em meio a problemáticas, hipóteses, respostas e linhas narrativas.
Segundo José D´Assunção Barros, um dos historiadores brasileiros que tem se notabilizado pelos numerosos e esclarecedores trabalhos em teoria da história, “um dos fenômenos mais interessantes da historiografia no século XX se refere à profusão de domínios em que está partilhado hoje o saber historiográfico”.
Para o autor, contemporaneamente, as espacialidades teóricas em se insere a historiografia, poderiam ser divididas em dimensões, abordagens e domínios; correspondentes, respectivamente, a clássica divisão em enfoques, métodos e temas.
Por dimensões ou enfoques, entende ele um modo de ver a história e sua função dentro da sociedade, colocando em primeiro plano uma esfera da vida humana em detrimento de outras, onde poderíamos enquadrar as principais Escolas historiográficas até o aparecimento de Annales.
Embora, atualmente, pudéssemos incluir também perspectivas como a política, a social, a demográfica, a econômica, a antropológica, a cultural; assim como a História das Mentalidades, a História do Imaginário, a Geo-História, a Cultura Material, a Etno-História e a Psico-História.
A despeito destas dimensões se misturem e deslocarem conforme o contexto histórico e as relações estabelecidas com abordagens e domínios, após o advento da reivindicação da cientificidade da história, a perspectiva mais usual no século XIX, foi sem dúvida à política, intimamente relacionada com o positivismo e a Escola Metódica alemã.
No final deste período, confrontada pela abordagem econômica, apoiada pelo marxismo, surgiu a História da Cultura Material como um dos seus desdobramentos.
Corrente que seria revitalizada pela historiografia na década de 1970 e que hoje ganha novo fôlego, mesclada com a Nova História Cultural da historiadora norte-americana Lynn Hunt, esta última renascida em 1989. 
Isto porque, como lembrou o professor Elias Tomé Saliba, a cultura transformou-se na categoria chave para a compreensão do mundo contemporâneo, tendo em vista que as esferas social, econômica, política e ideológica estão emaranhadas ao seu modo primário de representação.
Entretanto, a História da Cultura já estava presente nas concepções de Fernand Braudel, apesar de mais evidente nos estudos do imaginário de Jacques Le Goff; tendo sido este campo de estudo fundado pelo menos 100 anos antes.
Surgiu na década de 1870, com os trabalhos do suíço Jacob Burckhardt, o qual fomentou a tradição de concentração de obras baseadas na história dos clássicos, das obras-primas da arte, literatura, filosofia e ciência.
Forjando uma historiografia que investigou as conexões entre as diferentes áreas e seu contexto histórico de produção, visando entender o que Hegel chamou de espírito da época, portanto, então já vinculada com a História da Cultura Material.
Igualmente contraposto a História Política, ao lado da perspectiva econômica e cultural, o inicio do século XX edificou a História Social, fortalecida depois por Annales e até hoje dominante no Brasil nos meios acadêmicos.
Esta nova dimensão foi atravessada por outros enfoques, fazendo o caleidoscópio historiográfico sofrer novos arranjos, originando múltiplos desdobramentos.
Dentre os quais, abordagens ou métodos, conceitualmente definidos como um modo de narrar à história a partir de determinados campos de observação, implicando em formas diferenciadas de tratamento e escolhas de fontes.
Onde se inserem a Arqueologia, as Biografias, a Micro-História, a História Oral e, em certo sentido, até mesmo a História Regional.
Uma espacialidade teórica complementada pelos domínios ou temas, orientações especificas entre os sujeitos e os objetos, com a definição mais pontual de temáticas, como Gênero, Sexualidade, Arte, Idéias, Religião, Direito, Vida Cotidiana, entre muitos outros.
Espaços com fronteiras nem sempre delineadas com clareza, mas que interferiram na concepção de história e na narrativa dos historiadores, inclusive modificando a própria noção de território geográfico; originando múltiplas linhas e tendências historiográficas.

Concluindo.
Ao longo da história da história, a própria definição da natureza do conhecimento histórico sofreu alterações sensíveis, algumas mais visíveis do que outras, mas todas engajadas, direta ou indiretamente, em torno do tempo e das espacialidades.
Isto, no que diz respeito ao ultimo elemento, em duplo sentido, tanto pelo viés territorial como teórico.
Observando a historiografia, podemos notar nitidamente que cada reestruturação da narrativa histórica constituiu uma critica de abordagens anteriores.
O que envolveu um intenso debate circunscrito ao academicismo das Universidades, representado pelas teses, dissertações e artigos, com um público leitor especializado e restrito.
Uma postura que se opõem à narrativa jornalística dos livros de divulgação, escritos por não especialistas, em muitos casos se quer por historiadores, destinados a um publico mais amplo.
Estas narrativas constituem um terreno fartamente explorado pelos jornalistas, historiadores do agora, o que não invalida a sua contribuição ao enriquecimento do conhecimento humano.
Desde que embasados cientificamente, estes textos representam apenas visões distintas de uma mesma realidade, por isto mesmo, alguns tem sido, inclusive, incorporados a historiografia profissionalizada.
Até porque o mesmo acontece também no âmbito acadêmico, onde várias teses oferecem respostas distintas para uma mesma problemática, sendo algumas esquecidas ou colocadas de lado ao longo do tempo, enquanto outras se tornam clássicos, obras de referência.
Neste sentido, assim como a leitura do passado nunca poderá ser moldada em uma forma definitiva, a discussão em torno da historiografia estará sempre na pauta do dia, será sempre objeto acadêmico de intensa discussão.
Não poderia ser diferente, para o bem da própria história é saudável que tenhamos versões diferentes para os mesmos fatos, com narrativas as mais diversas, para que o leitor, também ele sujeito da história, não fique a mercê de respostas prontas, tendo disponíveis um arcabouço que lhe permita extrair suas próprias conclusões.
Destarte, como ressaltou Jacques Le Goff, não existe sociedade sem história, o que conduz ao conceito de historicidade, o pertencer de cada individuo ao seu tempo e espaço, os aspectos comuns que todos os homens de determinada época compartilham e dos quais ninguém pode escapar, quer sejam historiadores profissionais ou não.
De modo que, se existe um paradigma em história, tal como o conceito formulado por Thomas Kuhn, circunscrito a base referencial sobre a qual um conjunto teórico é construído; este só pode ser considerado como o tempo histórico em que o historiador se circunscreve, o que termina interferindo em sua concepção de espacialidade territorial e teórica e que, paradoxalmente, também interfere no conceito de temporalidade.
Sendo a natureza do conhecimento histórico plural, comportando uma multiplicidade de teorias contraditórias entre si e que explicam o passado plausivelmente, fornecendo ângulos e visões distintas que não se anulam; a historiografia só pode ser definida como um conjunto de narrativas circunscritas ao um tempo e espaço, transformando e embaralhando a espacialidade geográfica, territorial, com as questões teóricas.

Para saber mais sobre o assunto.
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BARROS, Jose D´Assunção. O campo da história: especialidades e abordagens. Petrópolis: Vozes, 2004.
BRAUDEL, Fernand. O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Felipe II. São Paulo: Martins Fontes, 1984.
BRAUDEL, Fernand. “The situation of history in 1950” In: On history. Chicago: University of Chicago Press, 1980.
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Texto:

Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.
Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.




quarta-feira, 15 de setembro de 2010

História, temporalidades e fronteiras.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume set., Série 15/09, 2010.


Introdução.

Uma análise detalhada demonstra que o conceito de história comporta múltiplas definições, cada qual adequada ao seu conjunto teórico e a sua concepção de temporalidade.
Não é possível falar de uma história singular, já que as fronteiras teóricas da história são cada vez mais difíceis de serem delimitadas.
De modo que, se existe um paradigma em história, este só pode ser considerado como o tempo histórico em que o historiador se circunscreve.
A natureza do conhecimento histórico comporta uma pluralidade de teorias contraditórias entre si e que explicam o passado plausivelmente, fornecendo ângulos e visões distintas que não se anulam.
Portanto, é essencial fazer uma filosofia da história, discutir as suas fronteiras e a vinculação com outras áreas do saber humano.
O que implica em discutir a delimitação fornecida pela escolha metodológica das temporalidades e os nuances que fazem com que a história esteja fixada no limiar entre a ciência e a literatura.  
A compreensão da natureza do conhecimento histórico é, sem duvida, o primeiro passo para avaliar sua contribuição para o entendimento do mundo contemporâneo.

O conceito de história e suas fronteiras.
Definir o conceito de história é uma tarefa complexa, implica em discutir concepções múltiplas, transitando pelas escolas historiográficas e outras ciências que produziram leituras distintas do passado.
Como lembrou Horkheimer, os homens não são apenas um resultado da história, sendo a maneira como vêm e ouvem inseparável do processo de vida social desenvolvido ao longo dos séculos.
Os fatos que os sentidos nos fornecem são pré-formados de modo duplo: pelo caráter histórico do objeto percebido e pelo caráter histórico do órgão perceptivo.
Neste sentido, história e filosofia se confundem, possuem o mesmo objetivo, entender a realidade através da observação.
Cabe lembrar que, a rigor, a história transformou-se em área distinta da filosofia somente no século XIX.
Na ocasião, a história passou a procurar encontrar universalidades em fatos singulares, calcada em documentos oficiais, tentando encontrar explicações para o presente.
Porém, na prática, a história continua dependente da filosofia, assim como é hoje também da sociologia, da geografia, da antropologia e de tantas a outras áreas do conhecimento.
O que remete ao debate em torno das fronteiras teóricas da história.
Uma discussão na qual se insere a questão das temporalidades, uma vez que a própria abordagem deste elemento pelos historiadores reavivou a temática, demonstrando como as investigações históricas são inviáveis sem o auxilio de outras áreas.

O tempo na história.
Na história, o tempo aparece sob as mais diferentes formas, é uma conseqüência, uma variável que integra a definição de realidade, embora não reflita um conceito absoluto.
Já a temporalidade, entendida como percepção da passagem do tempo, demonstra uma dimensão que reconfigura os fatos.

No entender de Paul Ricoeur, o tempo é um processo social intuitivo que progride com o amadurecimento psicológico do sujeito que supõe sua especificidade.

Remetendo a uma constante reconfiguração da definição de tempo.

Este conceito, aplicado ao conhecimento histórico, suscita um duplo questionamento: primeiro sobre a natureza do que se entende como tempo e depois como isto se articula com as temporalidades e as fronteiras da história.
Em linhas gerais, o tempo pode ser entendido como físico, social ou histórico.
Uma visão objetiva, vinculada com as ciências biológicas e a psicologia, defende a idéia de que a realidade do tempo é apenas uma percepção sensorial, não sendo, portanto, uma criação intelectual do homem.
Por outro ângulo, para as ciências sociais, além do tempo existencial percebido, existe também um “tempo do relógio”, este sim uma convenção humana.
Sendo uma invenção sociológica, o tempo é uma instituição que se constrói conforme a natureza da sociedade, assumindo funções precisas para organizar a coexistência entre as pessoas e a divisão de tarefas.
Analisado pelo viés filosófico, na antiguidade, o tempo foi concebido por Platão como um acontecimento anterior a um posterior, mera conseqüência com limites apenas vagamente definidos.
Um conceito que trazia implícito tanto o tempo físico como o social, à medida que utilizado como base para medir as épocas do ano, o momento de semear e colher, as épocas da paz, das guerras e dos heróis.
Para Aristóteles, a ideia de tempo só pode existir se admitido antes o conceito de movimento, alterações de estado, transformações perceptíveis, as quais podem ser aplicadas também ao aspecto físico e social, já que constitui uma referência para homem balizar suas opiniões.
Concepções que se tornariam preponderantes no mundo Ocidental até o século XVI, quando o tempo assumiu uma magnitude uniforme e homogênea, convertendo-se em pura unidade de medida para o entendimento do mundo físico, sendo deixado de lado seu viés social.
Isaac Newton reforçou esta ideia no século XVII, mais precisamente em 1686.
Ele distinguiu “o tempo absoluto, “verdadeiro e matemático, por si próprio e por sua própria natureza, fluindo de maneira uniforme sem relação com qualquer coisa externa”; do “tempo relativo, aparentemente comum (...), uma medida sensível e externa da duração do movimento (...), comumente usada ao invés do tempo verdadeiro, tal como uma hora, um dia, um mês, um ano”.
O que, simultaneamente, inaugurou uma noção de linearidade do tempo, sempre em constante fluxo, com começo, meio e fim; medido pela observação das mudanças, ou seja, através da sucessão de fatos, cujas conseqüências chegam até tudo que pertence ao mundo natural.
No final do século XIX, Henri Bérgson prosseguiu na mesma linha de raciocínio, definindo o tempo como uma espécie de mudança que se encontra em tudo aquilo que passa, em oposição à eternidade, retomando o conceito grego, remetendo ao deus Cronos, aquele que conduz as coisas à maturidade.
Esta sucessão de fatos como medida, originou, no âmbito da discussão teórica da história, a temporalidade linear, a crença que a narrativa histórica precisa ter um inicio e um final, a qual se tornaria predominante no Ocidente, em oposição ao tempo cíclico, mais comumente adotado no Oriente e na mesoamérica pré-colombiana.
Dentro desta concepção cíclica, não há um inicio para a história, mas vários, com fatos que se sucedem e repetem constantemente, assim como o sol nasce a cada dia no horizonte depois de ter se posto no final da tarde do dia anterior.
Este conceito de ciclo seria parcialmente incorporado no tratamento das temporalidades pela história econômica, no inicio do século XX.
Mesclado a tradição de tempo linear, iria compor explicações que defendem o conceito de “forças que interagem entre diferentes elementos que compõem um sistema”, repetindo dinâmicas com alternâncias de produtos cultivados ou negociados também no centro dos acontecimentos sociais, políticos e culturais, tal como o ciclo do pau-brasil, da pimenta, do açúcar ou do café.
A temporalidade linear e a cíclica constituíram posturas antagônicas que demonstraram a dificuldade teórica em definir com clareza às fronteiras da história, já que o próprio conceito de tempo, quer seja físico, social ou histórico, forma um conjunto único e inseparável que necessita da visão do conhecimento totalizante, como uma gama ampla de vertentes múltiplas, para fazer da história uma ferramenta eficiente de entendimento da realidade.

Tempo histórico e temporalidades.
A narrativa da história estabeleceu, há séculos, escolhas que denotam posicionamentos interpretativos de análise do homem como ser histórico, circunscrito há um tempo e uma forma contextualizada de encarar a passagem do tempo.
Refletindo a própria essência do debate em torno da observação das mudanças e permanências, centro do conceito de história.
Esta abordagem, por sua vez, remete a própria concepção de tempo adotada como escolha teórica, interferindo diretamente na forma como a história será interpretada e terá suas fronteiras definidas.
Uma questão complexa, já que o tempo desdobra-se e volta-se novamente para dentro de si mesmo.
Isto porque a própria definição de tempo é variável, filosoficamente contentável por ser uma convenção determinada pela sociedade, cultura, economia e também historicamente composta.
O tempo é uma invenção que, no entanto, possui embasamento na percepção das transformações que se processam em volta daquele que observa.
A temporalidade, como produção humana, é uma ferramenta da história, mais visível como referência expressa em calendários e cronologias, demarcando os anos e séculos, situando acontecimentos, ajudando a organizar as narrativas históricas para facilitar o entendimento da passagem do homem pelo tempo.
Entretanto, dependendo da escola ou corrente teórica, para além desta conceituação de senso comum, a percepção das temporalidades interfere diretamente na concepção de história.
O que modifica a abordagem e a escolha dos fatos que o historiador julga relevantes para incorporar ao conhecimento de sua competência, modificando o entendimento do passado e, porque não dizer, do próprio presente.
Ao lado do tempo físico e social, como conseqüência do cruzamento de conceitos, o tempo histórico nasceu em decorrência da percepção das mudanças.
A consciência de que o ser está inserido no tempo, mudando e amadurecendo constantemente, tornou a história indissociável do tempo.
O próprio conceito de história está inserido no conceito de tempo, sendo interdependentes e explicando-se mutuamente, conduzindo implicitamente a refletir sobre a temporalidade, embora a atenção direta sobre a questão tenha se tornado mais abundante somente a partir do século XX.
Destarte, a modernidade inaugurou as filosofias da história, fazendo com que, no século XVIII, Kant afirmasse que não podemos conhecer a essência dos fenômenos, à medida que conhecemos através da experiência, tendo apenas sensações acerca da realidade.
Portanto, podemos conhecer apenas representações dos fenômenos fornecidas pelos sentidos.
Assim, ao questionar a realidade, Kant terminou por estabelecer uma critica ao conceito de historicidade, colocando em dúvida a própria capacidade de conhecer da historia e suas fronteiras.
Posição diametralmente oposta a Hegel, para quem o conhecimento de qualquer fenômeno seria sempre histórico, circunscrito há um tempo e espaço, com fronteiras bem definidas, possível de ser conhecido apenas através da história, de onde derivaria, posteriormente, o historicismo marxista, sustentado pela ideia hegeliana de progresso e revolução, desenvolvimento e evolução.
Na realidade, foi o iluminismo oitocentista que inaugurou a visão progressista da história, a ideia de que os fatos históricos deveriam ser selecionados como relevantes em função da perspectiva evolucionista, tomando como base as mudanças ao longo do tempo sempre como qualitativas.
Um conceito que conduziu a fixação de uma miopia etnocentrista, antagonicamente inspirada por pensadores ilustrados, como Turgot e Condorcet, os quais iniciaram uma tradição Ocidental de análise da história da humanidade classificada em estágios culturais, fixados entre sociedades primitivas e as civilizações complexas, como se existissem degraus pelos quais os povos devessem escalar para atingir a modernidade.
A visão etnocêntrica iluminista reduziu toda a espécie humana a parâmetros únicos que deveriam servir obrigatoriamente de referência, tendo a Europa e sua história como modelo a ser adotado, o que originou também o eurocentrismo.
Ainda no século XVIII, o conceito de evolução ganhou contornos naturalistas com o francês Lamark, popularizando-se no século XIX com Charles Darwin e sua teoria da evolução das espécies através da seleção natural, o que terminou transposto para positivismo histórico e a escola metódica, os quais também adotaram a temporalidade linear evolucionista em suas narrativas.
O positivismo de Comte procurou encontrar, no estudo da história, leis que regulassem o desenvolvimento humano, permitindo contextualizar os fatos do presente, originando uma hierarquia para justificar o colonialismo cultural.
Já a escola metódica, encabeçado por Leopold Von Ranke, supervalorizou o Estado Nacional, defendendo a ideia de objetividade do conhecimento histórico, acrescentando a xenofobia nas narrativas históricas.
O século XIX deu inicio também, a partir dos estudos sociológicos e antropológicos, duas ciências então nascentes, a trabalhos que debateram o tempo como construção mitológica e simbólica da regulação temporal, potencializando uma visão critica do tempo histórico.
Na primeira metade do século XX, consolidando está nova tendência, o pensamento de Martin Heidegger influenciou os historiadores a repensarem a questão das temporalidades e das fronteiras da história.
Em alguns textos, Heidegger defendeu a tese de que não haveria temporalidade absoluta, sendo que a percepção do tempo histórico se faria a partir do futuro, portanto, fenômeno inerente puramente ao presente.
Igualmente, a temporalidade como categoria de vida, concebida por Wilhem Dilthey, também se faria presente no século XX.
Para ele, as pessoas seriam por natureza seres temporais, uma vez que experimentam o tempo com base nas conexões entre passado, presente e futuro.
Para Dilthey, os sujeitos respondem ao presente relacionando-o com experiências passadas e antecipando o futuro, compreendendo como vivem em função do tempo, através da autoreflexão, produzindo o material que os historiadores chamam de fontes e que, para ser analisado, carece de ciências auxiliares.
As idéias Heidegger e Dilthey seriam incorporados aos debates em torno das temporalidades e das fronteiras da história, fomentando estudos entre os historiadores da Escola de Annales.
Foi quando a influencia da percepção da passagem do tempo ganhou um vulto ainda maior, inserida nas discussões metodológicas, na investigação sobre a natureza da história e na critica ao anacronismo.

O debate contemporâneo sobre as temporalidades.
Embora a representação do tempo, presente na historiografia, seja quase sempre linear, como lembrou Jose D´Assunção Barros, “os historiadores mais tradicionais nos seus modos de escrever a história esquecem-se de que, ao elaborar o seu texto, eles mesmos são os ‘senhores do tempo’ - isto é, do seu ‘tempo narrativo’ - e de que não precisam se prender à linearidade cronológica e à fixidez progressiva ao ocuparem o lugar de narradores de uma história ou ao se converterem naqueles que descrevem um processo histórico”.
Uma ideia hoje mais aceita e debatida do que em um passado recente, mas que começou a ser discutida com maior veemência apenas quando a historiografia incorporou a questão ao criar novas formas de narrativa para a história.

Uma observação ressaltada por José Carlos Reis, quando desenvolveu a hipótese de que “o conhecimento histórico só se renova, uma ‘nova história’ só aparece, quando realiza uma mudança significativa na representação do tempo histórico”.

Um destes momentos, talvez o mais significativo, foi justamente o surgimento da Escola de Annales, a qual representou uma renovação na prática historiográfica.
Foi graças esta corrente teórica que as problemáticas metodológicas e teóricas se tornaram dominantes no século XX, remetendo, a reboque, à discussão sobre as temporalidades e as fronteiras da história.
Foi na década de 1930 que Marc Bloch chamou atenção para o problema do condicionamento do historiador com relação ao tempo, ressaltando que não deveria ser considerado um anacronismo pensar a história através do presente.
Até aquele momento isto era negado por aqueles que achavam que a história era apenas um relato do passado.
Bloch desfez de uma vez por todas este equívoco, afirmando que o tempo é uma categoria básica para o historiador.
Ao descrever a história como ciência dos homens no tempo, ele dizia que aquele que constrói narrativas sobre o passado, na verdade tenta entender questões do presente, pois não pode escapar de conceitos que são inerentes a sua própria época.
Ele defendeu a tese de que “seria grave erro julgar que a ordem adotada pelos historiadores nas suas investigações tenha necessariamente de modelar-se pela dos acontecimentos”, sugerindo um método de investigação histórica que recuasse ao passado a partir do presente, o que ele chamou de “método regressivo”.

No entanto, é interessante notar que, apesar da maneira inovadora de pensar, Bloch permaneceu preso a uma temporalidade linear, não extrapolando as fronteiras tradicionais da história de sua época.
Como historiador, as suas narrativas mantiveram a estrutura utilizada anteriormente pelos seus pares, a despeito das inovações advindas com Annales.
Pouco depois das reflexões de Bloch, representado a segunda geração de Annales, Fernand Braudel revolucionou de fato a abordagem do tempo pelos historiadores em 1949.
Ele demonstrou como a história precisava de outras áreas para decompor o tempo em planos desdobrados: o tempo individual, o tempo social e o tempo geográfico.
Para atingir o objetivo de ler o passado partindo do presente, seria necessário extrapolar fronteiras, realizar macroabordagens, penetrando as três temporalidades.
Somente assim seria possível tornar a escrita da história uma verdadeira ferramenta para desvendar o passado, clareando a noite como um vaga-lume.
Esta concepção braudeliana da temporalidade histórica tornou-se de fato um farol para gerações de historiadores, adquirindo um significado mundial, sendo incorporada pela academia como um procedimento metodológico básico, influenciando toda a historiografia a partir de então.
Embora Ernest Labrousse e Pierre Vilar, como seguidores de Braudel, tenham dado continuidade às reflexões braudelianas sobre o tempo nos meios universitários.
Na década de 1960, Jacques Le Goff mudou parcialmente o foco da discussão, retomando a questão pelo ângulo anterior.
Quando tentou definir o trabalho do historiador e da memória, na mesma obra, dedicou um largo espaço à discussão da natureza do tempo.
Ao estudar os calendários como sistemas de medida baseados nos astros, Le Goff concluiu que o tempo pode ser encarado como um objeto de manipulação do poder, já que o Estado os utiliza como meio para organizar a sociedade.
Para ele, estudando a história das civilizações, podemos notar que aqueles que detêm o conhecimento do calendário, controlam a vida social e econômica.

Esta reflexão conduziu ao retorno do questionamento sobre a natureza da história como construção operada pelos historiadores, uma vez que, contemporaneamente, são eles que detêm as temporalidades historiográficas.

Como ressaltou Edward Hallett Carr, os fatos não são averiguações da verdade, da mesma forma que as impressões dos sentidos não falam por si mesmas; os fatos só adquirem sentido quando o historiador recorre a eles e determina sua temporalidade.
Precisamente, os historiadores selecionam, interpretam e apresentam os fatos, conferindo-lhes sentido no tempo, determinando como analisá-los, encaixando-os em uma temporalidade.
Entretanto, ao fazê-lo, operam conforme seus próprios interesses e experiências, traduzindo a vontade de sua época e o conceito de tempo em que estão inseridos, criando temporalidades historiográficas especificas e que não refletem de modo algum a realidade concreta, antes, aproximasse mais de um anacronismo.
Uma discussão que têm se tornado cada vez mais pertinente no âmbito teórico da história.

Concluindo.
A história como parte do conhecimento humano, a partir do iluminismo, iniciou sua escalada rumo a uma tentativa de ganhar completa autonomia como ciência, mas, no processo, esqueceu-se que precisa atuar em conjunto com inúmeras outras áreas para fazer-se eficiente.

Na realidade, a subjetividade da história faz com que seja um tipo de conhecimento construído no limiar de várias fronteiras, dentre as quais a própria conceituação de história, a qual foge da inserção em um paradigma único.
A história comporta uma infinidade de definições contraditoras e paradoxais que, no entanto, não se anulam e continuam a coexistir mesmo em permanente conflito.
Além disto, sua principal variável, o tempo, também constitui um conceito entre fronteiras; é físico, intuitivo, instituído, social, antropológico e, ao mesmo tempo, histórico.
O que, contextualizado pelos historiadores, torna-se temporalidade, narrativa linear ou cíclica, com ímpeto determinado conforme a corrente teórica.
O passado é transformado pela história em algo que caminha para algum lugar, como se antes do tempo passar os sujeitos históricos já soubessem onde tudo ia dar.
Este passado parte do presente para re-significar os fatos que já foram, tornando-os, em certo sentido, distorcidos, anacrônicos.
As temporalidade históricas também transitam entre fronteiras teóricas que nem sempre pertencem puramente à história, foram pegas emprestadas, apropriadas por historiadores como Braudel.
Portanto, por que não dizer que estas temporalidades foram, de certa forma, imaginadas, construídas pelos historiadores, por aqueles que controlam a medição do tempo passado, como lembrou Le Goff.
Uma questão que remete a outra fronteira da história envolvendo sua pretensão a cientificidade e neutralidade, conduzindo novamente a sua natureza interdisciplinar, multiplicadora de questões ao invés de oferecer soluções, quando muito possibilitando entendimentos provisórios.
Conhecimento fronteiriço, narrado também por entre fronteiras, no caso, o seu viés literário que transita entre memórias individuais e coletivas expressas pelas fontes que servem de base e referência à investigação histórica, e a imaginação necessária para compor imagens mentais do passado.
Não por acaso, a história realmente encontra-se comprimida entre temporalidades e fronteiras, fomentando discussões teóricas e debates acalorados entre os historiadores.
Debates que, em razão das exigências do mundo contemporâneo, passaram ao domínio publico, estampados em jornais e revistas, convertendo-se em interesse não mais apenas dos profissionais da área, sendo essencial ao entendimento do que afinal é a história, cuja resposta talvez seja: um monstro de muitas cabeças e incontáveis tentáculos.

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Texto:
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.

Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.