Publicação brasileira técnico-científica on-line independente, no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
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Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Teoria do conhecimento e o criticismo kantiano.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume ago., Série 08/08, 2011, p.01-07.


Na sua maturidade, o filosofo alemão que viveu no século XVIII, Immanuel Kant dizia que toda filosofia tinha a finalidade de responder uma só questão:
“O que pode legitimamente a nossa razão?”
Em outras palavras, a filosofia se resumiria a teoria do conhecimento, ao questionamento da capacidade cognitiva da razão.
O que implicaria em rever toda a metafísica, conduzindo até a ética.
Já que ao responder “o que posso saber”, necessitaríamos abordar “o que devo fazer”, implicando em discussões conceituais em torno da ética.
Tudo para chegar ao questionamento do que “é permitido esperar”.
Preocupações que nasceram a partir da oposição entre racionalistas e empiristas, levando Kant a questionar a natureza do conhecimento humano e a possibilidade da existência de uma razão pura, independente da experiência.
Em outras palavras, seria o conhecimento aquilo que é apreendido pelos sentidos e a experiência ou pela razão?
Kant questionou o racionalismo e o empirismo, ao longo de vinte anos de pesquisas, originando o pensamento que ficaria conhecido como criticismo kantiano.
Uma critica tanto ao racionalismo como ao empirismo, daí chamado de criticismo, fortalecendo a base da ciência contra os ataques dos céticos.
O implica em afirmar que o criticismo também diz respeito à filosofia da ciência.


Immanuel Kant.
Immanuel Kant (1724-1804) nasceu em uma família simples de artesãos, em uma cidade portuária no mar Báltico, quando a Alemanha ainda nem existia como país, em território então pertencente à Prússia.
O pai fabricava correias para carroças, a mãe era muito religiosa e cuidava dos afazeres domésticos.
O casal teve doze filhos, dos quais seis morreram ainda crianças, um perdeu a mão com onze anos, enquanto duas meninas tornaram-se empregadas domésticas ao crescer.
A família era luterana, com rígida postura moral, pertencendo ao Pieteismo, um movimento puritano que afirmava que a fé brotava direto da leitura e interpretações literais da Bíblia.
Incentivado pela mãe, Kant estudou em um colégio local, destacando-se, sendo recomendado pelo diretor para cursar filosofia em Königsberg, onde também estudou teologia.
Época em que demonstrou grande interesse pela física, química e biologia.
É interessante ressaltar que ele entrou na universidade com apenas dezesseis anos de idade.
Entretanto, em 1747, com a morte do pai, foi obrigado a abandonar os estudos, vivendo anos de miséria, sendo obrigado a trabalhar como preceptor em casas de famílias da nobreza.
Apesar das dificuldades, já com duas obras publicadas, em 1755, voltou à universidade para concluir seus estudos.
Pouco depois, recebeu o titulo de doutor, o que garantiu o direito de oferecer cursos livres, pagos pelos alunos da universidade e não pela instituição.
Em 1770, aprovado em concurso publico, tornou-se professor titular na Universidade de Königsberg, lecionando matemática, lógica, metafísica, pedagogia, direito natural e geografia.
Ele fez carreira na universidade, onde chegou a reitor, na qual fez questão de permanecer apesar dos convites para lecionar em outros locais da Europa.
Nos últimos anos de vida ficou quase cego, renunciou a cátedra em 1796, perdeu a memória e a lucidez, ficando quase senil, falecendo em 1804 aos oitenta anos de idade.
Durante sua vida Kant escreveu obras de fundamental importância para a filosofia e outras áreas do conhecimento.

No chamado período pré-critico publicou as seguintes obras:
01. Pensamento sobre a verdadeira avaliação das forças da vida (1740-1747), onde tenta conciliar o pensamento de Descartes com de Leibniz.
02. História universal da natureza e teoria do céu (1755), uma explicação mecanicista da natureza, inspirada na física de Newton.
03. Um esboço sumário de algumas meditações sobre o fogo (1755).
04. Nova explicação dos primeiros princípios do conhecimento metafísico (1755), obra que deu a Kant o titulo de doutor.
05. Os terremotos (1756), livro sobre física e fenômenos da natureza.
06. Monodologia física (1756).
07. Sobre o otimismo (1759).
08. O único argumento possível para demonstrar a existência de Deus (1763).
09. Ensaios para introduzir em metafísica o conceito de grandeza negativa (1763).
10. Observações sobre o sentimento de belo e do sublime (1764).
11. Pesquisas sobre a evidência dos princípios da teologia natural e moral (1764).
12. Sonhos de um visionário esclarecido com os sonhos da metafísica (1766).
13. Sobre a forma e os princípios do mundo sensível e do mundo inteligível (1770).
14. Dissertação de 1770, publicada no referido ano.

No chamado período crítico, que marca a maturidade do pensamento kantiano, o filósofo escreveu as seguintes obras:
15. Critica da razão pura (1781), onde estabeleceu criticas ao racionalismo.
16. Prolegômenos a toda metafísica que se queira apresentar como ciência (1783), critica feroz aos conceitos metafísicos que se pretendem científicos.
17. Idéias de uma história universal do ponto de vista cosmopolita (1784).
18. Respostas à pergunta: o que é o esclarecimento? (1784).
19. Fundamentos da metafísica do costume (1785), obra abordando questões éticas.
20. Princípios metafísicas da ciência da natureza (1786).
21. Critica da razão prática (1788), uma critica ao empirismo que tenta resolver questões que ficaram abertas na “critica da razão pura”.
22. Critica da faculdade de julgar ou critica do juízo (1790).
23. A religião nos limites da simples razão (1793).
24. Pela paz perpétua (1795).
25. A metafísica dos costumes (1797).
26. A pedagogia (1803), obra publicada após a morte do autor.


O criticismo kantiano.
Embora no chamado período pré-critico, entre 1755 e 1770, Kant tenha comungado com o racionalismo, tentando reestruturar a metafísica metodicamente, em uma tentativa de revesti-la de uma roupagem cientifica.
Após se tornar professor titular, com a defesa da Dissertação de 1770, Kant atingiu a maturidade intelectual, superando o dogmatismo e iniciando uma nova fase que daria origem ao chamado criticismo.
Contemporâneo da Revolução Francesa e Industrial, em um momento que os filósofos se encontravam divididos entre o racionalismo francês e o empirismo inglês, Kant propôs um terceiro caminho, criticando as duas tendências.
A postura criticista propunha a investigação dos fundamentos do conhecimento, repensando a filosofia para perguntar pela fonte do conhecimento, analisando o dogmatismo racionalista e o ceticismo empirista.
Em certo sentido, o criticismo kantiano se insere no iluminismo, mas termina indo além, pois pretende demonstrar que: “não se pode aprender a filosofia, somente se pode aprender a filosofar”.
É intenção do criticismo reconstruir a filosofia como uma ciência racional que pudesse abordar todo o conhecimento humano.

Respondendo quatro questões básicas:
1. O que é possível saber?
2. O que devemos fazer?
3. O que devemos esperar?
4. O que é um ser humano ou o que somos nós?

Assim, embora muitas vezes classificado como iluminista, Kant pretendeu o inverso dos filósofos ilustrados.
Ao invés de subdividir a filosofia, tencionou fortalecer seu caráter totalizante como ciência primeira ou ciência geral e completa.
O que levou Kant a ir muito além da Teoria do Conhecimento, entrando em discussões também pertinentes a ética e a moral, entre outras temáticas.


A crítica da razão pura.
Os racionalistas haviam criado uma base de sustentação sólida para o conhecimento, fornecendo um método seguro para auxiliar na construção do saber.
Porém, a garantia do Cogito era sustentada pela metafísica, por idéias inatas e universais.

O que, na opinião de Kant, sob o olhar empirista, não pode ser comprovado pela experiência.

Por outro lado, o empirismo se quer fornecia uma base para a construção do conhecimento, caindo em um individualismo relativista e no ceticismo, inviabilizando qualquer segurança ao conhecer.
A solução, portanto, estaria em examinar a razão através da própria razão, reescrevendo sua base de sustentação.
Em primeiro lugar caberia demonstrar que é possível chegar a conhecimentos universais.
O que implicaria em questionar a origem do conhecer para além da experiência e, ao mesmo tempo, fugindo do inatismo.
Para Kant, um juízo, a relação entre conceitos pensados, decorre a partir de matéria e forma.
A matéria é composta pelas próprias coisas, é o objeto em si, percebido pelo juízo analítico ou a priori, independente da experiência, embora apreendido pelos sentidos, originando uma idéia universal.
Todo corpo é físico, independente do formato, o predicado do corpo é ser físico, concreto, palpável, transmitindo em si esta idéia universal captada pelos sentidos.
A forma encontra-se naquele que conhece, nas sensações do próprio sujeito que organiza a matéria no tempo e espaço.
Portanto, a forma é representação da matéria na mente de quem percebe, o que altera o objeto real, originando juízos sintéticos ou a posteriori.
Um exemplo é o fato do corpo ter peso, o que é conferido pela matéria, mas o quanto é pesado depende da forma, levando o sujeito a perceber o peso e compor um conceito particular e relativo à sua percepção que é o juízo sintético.
Neste sentido, o conhecimento é a relação do sujeito com o objeto.
Não podemos conhecer as coisas em si, mas aquilo que é permitido pela mente humana, constituindo conceitos universais.
Em certo sentido, ao fazer isto, conheço o que não é apenas para mim, mas para todos os seres humanos, ou seja, idéias universais, embora não inatas.
Assim, os sentidos percebem o mundo, mas é a razão que organiza o conhecimento.
Segundo Kant, o engano dos racionalistas foi afirmar que as idéias são inatas, já que na realidade dependem dos sentidos.
Entretanto, o engano dos empiristas foi supor que a razão é adquirida pela experiência, pois ela existe independe de vivenciar um fato, é uma síntese que é transmitida independentemente das experiências pessoais.
O conhecimento pode ser adquirido através da experiência de um sujeito que o transmite a outro que não necessariamente necessita viver a mesma experiência, embora quem apreende precise sempre recorrer aos sentidos para adquirir novos conhecimentos.
Neste ponto, Kant se depara com uma dificuldade insolúvel, uma vez que as questões metafísicas, tais como a existência de Deus, não podem ser conhecidas através dos sentidos.
A solução provisória é afirmar que estes conhecimentos metafísicos caem no Agnosticismo (a=não + gnosis=conhecimento), demarcando a impossibilidade de conhecer.
Em síntese, seriam possíveis apenas juízos a priori sobre a metafísica, sendo impossível balizar juízos sintéticos e, portanto, pensar na temática como uma ciência, constituindo apenas crenças.
Um problema que Kant iria procurar resolver na Critica da razão prática, chegando a uma solução muito parecida com a cartesiana, afirmando que para as questões metafísicas seria possível a existência de conceitos inatos.


Concluindo.
Estabelecida a razão como centro do conhecimento, Kant procurou demonstrar que é a necessidade prática que determina a vontade humana e não os sentidos.
Simultaneamente, afastou a pretensão da razão como condicionadora da ação moral.
Não seria a razão que determina a moral, o que é considerado bom ou mau, mas a necessidade coletiva que determina a moral e a racionalização do que é bom.
As necessidades práticas para a existência da vida em sociedade criam os chamados imperativos, prescrições, deveres que determinam a ação a priori, antes da experiência.
Em outras palavras, os imperativos determinariam como agir, antes de ter que decidir ou viver a situação, tornam o agir uma obrigação.

Segundo Kant, os imperativos seriam:
1. Hipotéticos: condicionando uma ação a algum fim, tal como no exemplo “estude para passar na prova”.
2. Categóricos: incondicional e absoluto, tomado como essencial para a existência da vida coletiva, tal como no exemplo “não matarás”.

Neste sentido, os imperativos terminam determinando as leis, ratificando o dever e o próprio conceito de liberdade, já que a minha liberdade é restringida pelos imperativos.


Para saber mais sobre o assunto.
DELEUZE, Gilles. Para ler Kant. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.
FIGUEIREDO, Vinicius de. Kant e a critica da razão pura. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela FFLCH/USP.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela USP.

terça-feira, 24 de maio de 2011

A boa vontade como dever na obra “Fundamentação da Metafísica dos Costumes” de Kant.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mai., Série 24/05, 2011, p.01-06.


Como é possível o conhecimento e o que deriva a ação humana?

Ora, podemos afirmar que a ação do homem sobre o seu mundo se dá à medida que ele tem uma visão de tal mundo, visão esta denominada de teoria ou conhecimento.

Assim, a ação do homem sobre o mundo é caracterizado pela ética ou moral.

A História da Filosofia Moderna traz grandes pensadores que construíram teorias relativas ao conhecimento humano e dentre todos, estão os racionalistas e empiristas.
Kant irá tentar resolver esta dicotomia.
Em outras palavras, tentar encontrar o elo, o nexo, a conexão do racionalismo e do empirismo.


Thomas Hobbes.
Lembremos que para Thomas Hobbes a natureza humana é guerra de todos contra todos; “o homem é o lobo do homem”; possui em sua natureza o egoísmo e age segundo sua convencionalidade.
Em outras palavras, para assegurar sua sobrevivência, sua vida e obter tudo o quanto lhe possa ser útil, o homem se coloca no mundo como um animal instintivo e hostil a tudo aquilo que lhe apresentar-se-á como obstáculo ou como morte.
Mas Hobbes também afirma que no íntimo o homem tem outra necessidade antagônica e contrária a essa natureza: o desejo pela paz, pela segurança, pela vida, pela saúde.
Desta forma, o Leviatã surge como uma alienação necessária para que a paz e a segurança, enfim, a vida em si seja mantida quando o homem renuncia seu estado de natureza para o bem comum.
Tal desejo ou necessidade de se viver em paz – o homem talvez seja um paranóico, esperando sempre colidir com forças opostas de outros homens – Kant afirma ser uma lei universal, e portanto, moral, que o homem exerce com autonomia.
Aqui está o conhecimento a priori de sua vontade – onde todos os homens reconhecem tal moralidade como fruto da liberdade e da vida, da segurança e da construção de uma sociedade justa e pacífica, acarretando uma sobrevivência necessária a todos os humanos, quando todos navegam no mesmo barco.


O poder do mito e a boa vontade.
Para exemplificar melhor a questão a priori e a posteriori, Joseph Campbell, autor da obra “O Poder do Mito”, narra que em todos os povos e nações, embora distantes e isolados uns dos outros, criaram seus próprios deuses.
Embora sejam eles diferentes, a idéia da criação dos próprios deuses ou a idéia de que algo transcendente e governante do mundo, poderoso e onisciente, se encontra em todas as culturas.
O que equivale a dizer que tal intento é a priori, ou seja, está na forma interna do homem de organizar os eventos do mundo como sendo uma divindade.
A diferença da natureza de tais deuses se dá pelas diferenças dos fenômenos do mundo externo que o homem vive no seu cotidiano, o que equivale a dizer que é a posteriori, como afirmaram os empiristas, ou seja, quando através dos sentidos os homens apreendem o seu meio externo.
Nota-se que tal exemplo se dá bem como uma explicação das teorias kantianas.
Isto porque, somente com a apreensão sensorial do mundo externo, tais imagens ficariam aleatórias e sem nexos uma com as outras no espírito do homem, o que não ocorre, pois são personificadas, organizadas e recheadas de sentidos pelo próprio espírito humano.
Há uma razão, uma ordem, uma resignificação das imagens colhidas pelos órgãos dos sentidos e a esta operação do espírito, a razão, é uma forma de assim proceder, que não depende do posteriori, das experiências externas, mas de uma operação íntima, semelhante em todos os homens, que já existe em seu interior e, por isso, a priori, inata, natural.
Esta razão, então, será a responsável pela criação da Boa Vontade, uma lei intrínseca e universal, categórica e norteadora das ações do homem.

"Conservar cada qual a sua vida é um dever, e é, além disso, uma coisa para que toda gente tem inclinação imediata.
Mas por isso mesmo é que o cuidado, por vezes ansioso, que a maioria dos homens lhe dedica não tem nenhum valor intrínseco e a máxima que o exprime nenhum conteúdo moral.
Os homens conservam a sua vida conforme o dever, sem dúvida, mas não por dever.
Em contraposição, quando as contrariedades e o desgosto sem esperança roubaram totalmente o gosto de viver, quando o infeliz, com fortaleza de alma, mais enfadado que desalentado ou abatido, deseja a morte, e conserva, contudo, a vida sem a amar, não por inclinação ou medo, mas por dever, então a sua máxima tem um conteúdo moral."
(KANT, 1973, p.208).


Matrix e outras ligações com Kant.
Lembro-me de uma cena do filme “Matrix”, quando Cypher promete entregar a vida de Morpheu ao agente da Matrix em troca de riqueza e fama.
Morpheu é apenas um objeto, um meio, em que Cypher usa para atingir seus desejos egoístas.
Sua vontade, estritamente determinada pelo relativismo e convencionalismo, exprime tão bem o estado de natureza proferido por Hobbes.
A incongruência é a imaginação e a ignorância presente na confiança que Cypher deposita no agente: como pode ter tamanha certeza de que o agente irá realizar seus desejos?
Como poderá acreditar na honestidade do agente, sendo este corrupto e tirânico?
Poderá da corrupção e tirania surgir a honestidade e a honradez?
Claro que não.
E é neste exemplo cinematográfico que afirmo que a boa vontade que Kant define, é boa em si mesma.
Não poderá surgir da MÁ vontade, seu oposto.
E se a vontade consiste em obter o que é útil usando outro homem como meio, não pode ser uma lei universal, porque aqui entra a máxima de Protágoras, “quando o homem é a medida de todas as coisas”.
O relativismo é contingente até porque o que deveria ser uma lei, uma norma, pode ser outra lei e outra norma, dependendo das circunstâncias e dos fatos.
Para Kant, a razão, como em Hobbes, isto é, quando o homem, em estado de guerra contra todos, percebido como o lobo do homem, traz em seu íntimo a necessidade de paz e segurança.
Em Kant a razão toma a vontade como uma potência inata para o bem e, para evitar o bem subjetivo e egoísta, aquele bem intencional e condicional, deve ser um bem que se torna universal, onde todos os homens o reconhecem porque a todos hes asseguram a vida e a liberdade, não o praticando por medo, ignorância ou por meios de obter algo, mas por dever, ou seja, porque é um fim em si mesmo, absoluto e categórico.
Faço uma ligação a Espinosa também, partindo do pressuposto de que a imaginação e as idéias obscuras levam o homem a construir uma visão antropomórfica da divindade, submetendo os homens a uma obediência como meio de se atingir algo, sempre através do medo e da punição.
O que não corresponde a um ato moral.  
Em Kant, e é claro suas idéias, não se deve fazer algo tendo em vista os meios pelos quais este algo será a satisfação de nossas necessidades subjetivas, mas sim por dever, por ser uma lei universal, um fim em si mesma, e como no exemplo acima citado, a respeito do filme Matrix, como uma vontade direcionada pela razão humana: Cypher imagina que do mal irá surgir um bem que lhe é seu e único.
A moral como imperativo categórico revela que todos os homens são um fim em si mesmo, pessoas humanas, dignas de respeito, e o que se faz a outro homem e que lhe cause qualquer tipo de prejuízo (mal) poderá ser também feito a mim mesmo, também como homem, e desta forma, nunca poderá advir da BOA vontade.
Guerra de todos contra todos, disputa, concorrência, além de revelar o estado de natureza de Hobbes, não se trata também da definição de BOA VONTADE.
Outro nome seria designado, como por exemplo, egoísmo.  
Assim, o dever é imposto como norma universal.
A razão é universal, pois todos os homens são racionais e poderão contemplar o dever como fruto desta razão que diz, numa língua universal, o que todos anseiam em suas claras e reais existências: a felicidade!

"Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se tome lei universal" (KANT, 1973, p.223).

Como, então, poderemos colocar a liberdade numa lei universal e categórica, por dever?
Ora, se o homem decide suas ações baseando-se em algo que deseja, usando seu próximo como meio de se adquirir algo, ele está sendo determinado pelas circunstâncias e até mesmo por seu desejo, e sendo determinado, está sendo coagido por estes fatores, e não há liberdade, portanto.
Quando ele escolhe agir por um dever, estará contradizendo as forças que o oprimem a ser aquilo que em sua essência não o é: humano.
Estará indo contra sua natureza maléfica e destruidora.
Ele tem, através do dever, a escolha, e isto é liberdade.
Assim, a boa vontade instituída racionalmente como um dever a ser seguido, é fruto da liberdade, quando você escolhe o que é bom em si mesmo, e não como meio para se obter algo, porque a bondade é um fim em si mesma!
Tal como o homem!


Concluindo.
Estaria longe nossa sociedade de viver o ato moral kantiano?
Como poderemos responder essa questão, baseando-se no conhecimento racional dos empiristas?
Precisamente de David Hume, quando o conhecimento é a posteriori, ou seja, devido a experiência?
O que vemos, sentimos e colhemos de nosso cotidiano, enquadrando nossa realidade segundo o capitalismo?
Seria o homem realmente visto como um fim em si mesmo?
Sim, ele é assim visto tendo em consideração as leis brasileiras, quando assegura-lhe a dignidade da pessoa humana.
Mas e na prática?
Os empregados de uma empresa são percebidos como pessoas humanas, como um fim em si mesmo?
Ou são percebidos como meios de se atingir o lucro desenfreado, a concorrência assídua, a competitividade entre as classes profissionais e etc?
Como engrenagens de uma gigantesca máquina venerada e idolatrada como o progresso e a ciência? Nossos conterrâneos servem-se dos atos morais por dever?
Ou o fazem por medo da punição e do castigo, por obter a aprovação de poderosos e, assim, gozar da glória e do bem estar narcísico de suas pessoas?
Nossos jovens tem dentro de suas férteis e dinâmicas mentes as idéias de Kant, do conhecimento filosófico, digo do verdadeiro conhecimento filosófico que permeia as ações humanas buscando sua gênese e essência, como fim em si mesmo que revela a natureza humana e sua metafísica em relação às questões existenciais, tentando harmonizar, tal como o corpo humano o faz e tal ato recebeu a denominação de homeostasia, o emprego da harmonização como um fim em si mesma?
Ou são pessoas que aprendem na realidade cotidiana a serem meios para o transcendental mundo dos homens, cuja imanência se encontra apenas no rastro de seus passos?


E mesmo conhecendo, refletindo, agindo, como – e digo COMO e não porque – poderiam construir uma vida na boa vontade, se nem se fala ou comenta ou impõe tal boa vontade?


Afirmo e sempre afirmarei que não há conhecimento tão valioso e essencial para os homens do planeta Terra, senão o da Filosofia.
Talvez seja por isso que numa realidade construída com imaginação e com ilusões, meios de rodar as engrenagens do sistema, seja realmente sustentada pela fuga de questões essenciais e primordiais que o homem faz a si mesmo, conforme tão bem elucidada o fez o filósofo Blaise Pascal.
Somos realmente míseros e fugimos desta verdade.
No entanto, mais cedo ou mais tarde, seremos vítimas dos efeitos de tais fugas.
Fugimos do maior instrumento que conserva nossas vidas, assim como destruímos todos aqueles que foram o maior de todos os homens.
Seria, por conseguinte, uma necessidade de calar, seja em nós mesmos, seja no outro, as vozes que revelam quem somos nós?
Ética, moral, costumes, hábitos e crenças, a razão, o pensamento, nossa visão de mundo, sua gênese e sua construção...
Kant, como os demais filósofos, refletiram e deram ao mundo suas descobertas e construções.
Agora, quando o mundo for recebê-las que o façam praticando-as, pois é esta a função para a qual o pensamento e a alma elaboram suas atividades: para a sua materialização.


Para saber mais sobre o assunto.
KANT, IMMANUEL. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. São Paulo: Editora Abril, 1973.
CAMPBELL, JOSEPH. O Poder do Mito. São Paulo: Editora Palas Athena, 2009.
REALE et. alli. História da Filosofia 4: De Spinoza a Kant. São Paulo: Paulus, 2005.
YOVEL & YIRMIYAHU. Espinosa e Outros Hereges. Brasília: Impressa Nacional/ Casa da Moeda, s.d.

 

 

Texto: Claudio Roberto Gavério.
Aluno da Licenciatura em Filosofia do Centro Universitário Claretiano.
Técnico em Enfermagem integrado ao CAPS-AD (Centro de Atenção Psicossocial em Álcool e Drogas) na cidade de Santa Rita do Passa Quatro (SP).