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terça-feira, 7 de julho de 2015

A integração do portador de deficiência à escola.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 6, Volume jul., Série 06/07, 2015.


Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.


Doutor em história social - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.

Licenciado em história - CEUCLAR.
Licenciado em filosofia - FE/USP.
Bacharel em filosofia - FFLCH/USP.



Introdução.
A ausência de investimentos nas medidas preventivas primárias e secundárias a deficiência, segundo dados do IBGE divulgados no ano 2000, conduziram o país a possuir uma população formada por cerca 15% de pessoas com algum tipo de deficiência, tornando necessário discutir a questão.
Um dado significativo, já que 14 entre cada 100 brasileiros são portadores de deficiência.
Questão solucionada por meio da minimização do problema através de medidas paliativas que envolvem o moderno conceito de inclusão social, com a inserção do portador de deficiência nas escolas normais e no mercado de trabalho.
A legislação evoluiu para garantir acesso a uma vida dita normal ao portador de deficiência, uma resposta necessária diante da amplitude da população afetada por deficiências, mas que possui uma ótica invertida, pois deixa ao relento as medidas preventivas que poderiam reduzir a menos de 4% o numero de brasileiros portadores de deficiência até o final do século XXI.
Na verdade, seria necessário continuar a aprimorar a política de inclusão não só da pessoa portadora de deficiência, como também do pobre, do negro, do índio, do asiático, do muçulmano, etc.
Entretanto, investimentos mais adequados e melhor aproveitados na prevenção de deficiências deveriam acompanhar a construção deste novo cenário de respeito à diversidade, oferecendo à possibilidade de uma vida mais próxima da normalidade as crianças com algum grau de disposição ao desenvolvimento de deficiência.

Conceituação e níveis de investimento.
Segundo a Organização Mundial de Saúde podemos conceituar três tipos de prevenção às deficiências, que envolvem a tentativa de evitar, retardar ou minimizar as doenças que conduzem às ditas deficiências: primária, secundária e terciária.
A prevenção primária procura evitar as causas das deficiências e, segundo a Organização Mundial de Saúde poderiam evitar 70% dos casos.
Caracteriza-se por medidas de proteção à criança e à mãe contra doenças que provocam deficiência, tal como a recomendação para evitar casamentos consanguíneos ou o consumo de álcool e drogas pela mãe.
Neste sentido, a prevenção primária necessita do envolvimento da família, escola, serviços de saúde, meios de comunicação e da sociedade como um todo.
Sendo essencial a adoção de uma política do Estado orientada para o estimulo e suporte ao pré-natal, melhoria de nutrição da mãe e criança e programas integrados de educação e saúde disponibilizados a população.
Para a Organização Mundial de Saúde, estas medidas só podem se tronar eficazes quando pensadas através da criação de condições pré, peri e pós-natal.
Os cuidados pré-natais vão além dos exames médicos, aconselhamento genético, acompanhamento da gestão ou diagnóstico; envolvem também o suporte do Estado por meio do oferecimento à população de condições adequadas de saneamento básico e cuidados especiais em regiões de risco radioativo.
Embora o Estado deva possibilitar, igualmente, orientações para o planejamento familiar, as pessoas também precisam estar abertas a seguir as recomendações, onde entra a questão educacional e a colaboração dos meios de comunicação na divulgação das informações.
As medidas perinatais deveriam ser garantidas pelo Estado, abarcando um atendimento médico-hospitalar de qualidade quando da situação do parto, assim como cuidados adequados ao recém-nascido, inclusive disponibilizando exames que possam fornecer um diagnostico precoce de possíveis doenças que podem conduzir a deficiências.
As medidas pós-natais adentram novamente a questão do saneamento básico, mas exigem campanhas de vacinação e prevenção de acidentes, com a conscientização da população sobre a importância de sua participação nestes programas preventivos.
A prevenção secundária de deficiências pretende retardar o progresso da doença e possibilitar um tratamento imediato, através de um diagnostico precoce.
Portanto, uma vez constatada a probabilidade de evolução de doenças para um quadro de deficiência, seria necessário tentar reduzir sua duração ou severidade.
Insere-se neste tipo de prevenção disponibilizar acesso a centros de diagnósticos e tratamento de crianças com risco de desenvolvimento de deficiência. Implementando programas educacionais que permitam o pleno desenvolvimento destas crianças desde seu nascimento, buscando atingir padrões de normalidade, contando com o auxilio de profissionais da saúde e educação através de um trabalho interdisciplinar.
A prevenção terciária procura evitar a incapacidade total quando já existem alterações anatômicas e fisiológicas instaladas, minimizando a institucionalização do portador de deficiência.
Para isto, busca maximizar o potencial da pessoa, estimulando sua independência e melhorias na qualidade de vida.
Estes objetivos exigem também um trabalho de informação e conscientização da população para desfazer estereótipos, mudando a imagem do deficiente perante o senso comum e frente ao próprio sujeito, procurando desestimular comportamentos autolesivos e situações de acomodação.
O Brasil carece de investimentos governamentais nos três tipos de prevenção, a despeito da sociedade se organizar atualmente em torno de ONGs principalmente para atuar junto à prevenção terciária, como fornece exemplo as APAEs (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais).
Um dos setores que mais necessitam de investimentos do Estado, a saúde, não recebe verbas adequadas para efetivar uma prevenção primária eficiente, tampouco a educação recebe a atenção que mereceria para conscientizar a população das medidas preventivas à deficiência.
A começar pelo saneamento básico, segundo dados do IBGE divulgados em 2008, cerca 34% da população brasileira ainda não tem acesso a rede de água e esgoto encanado . Pelo menos 2.495 cidades não possuem esgoto sanitário, ou seja, cerca de 34 milhões de pessoas estão expostas ao risco de contrair doenças pela falta de saneamento básico, estando somente no nordeste concentradas 15 milhões de pessoas .
No que diz respeito a disponibilização de centros de saúde e diagnostico, que poderiam fazer um trabalho no âmbito da prevenção primária e secundária das deficiências, o Estado não é capaz de atender a população, oferecendo um serviço público lento e de baixa qualidade.
Falta à sociedade brasileira exercer maior pressão sobre os políticos para exigir investimentos mássicos, por parte do Estado, na prevenção primária à deficiência, uma forma de evitar o desenvolvimento da maior parte dos casos de doenças que conduzem até o problema, poupando gastos futuros com a prevenção terciária.
Ao mesmo tempo, seria necessário priorizar também, em segundo lugar, os gastos com a prevenção secundária, reduzindo o numero de pessoas afetadas por deficiências e evitando gastos ainda maiores com a prevenção terciária, além de implicações sociais que afetam todo o conjunto da sociedade.
Inversamente, o Estado brasileiro procura hoje simplesmente integrar o portador de deficiência à sociedade através da legislação, quando grande parte destas pessoas poderiam ter uma vida próxima da normalidade caso os investimentos na prevenção primária e secundária tivesse sido conduzido com maior seriedade.
Parte desta política invertida legislou para incluir o portador de necessidades especiais nas escolas comuns, sem necessariamente fornecer o suporte interdisciplinar adequado para que uma verdadeira inclusão aconteça.
A inclusão tornou-se marca registrada da LDB, refletindo sobre a realidade educacional do portador de deficiência, contudo, o conceito de inclusão tornou-se esvaziado e demasiadamente amplo, sem ponderar quem são os alunos portadores de necessidades especiais e as especificidades exigidas por cada categoria, tal como o suporte físico ou a adequação da mão de obra docente através de treinamento voltado para atender cada tipo de necessidade.

Portadores de necessidades educacionais especiais e portadores de deficiência.
A Política Nacional da Educação Especial, na perspectiva da educação inclusiva, define o portador de necessidades especiais como “àqueles que têm impedimentos de longo prazo, de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, que em interação com diversas barreiras podem ter restringida [a] participação plena e efetiva na escola e sociedade”.
Porém, os alunos portadores de necessidades educacionais especiais não possuem todos as mesmas características e, portanto, precisam de suportes diferenciados de acordo com a deficiência que portam, exigindo cuidados diferentes e treinamento especifico para os educadores que irão atender este público.
Alias, o conceito de educando com necessidades especiais comporta não apenas portadores de deficiências, como também alunos com habilidades e potencial elevado, conhecidos popularmente como superdotados.
Outro perfil que a escola atual não possui capacidade de entender plenamente, impedindo o desenvolvimento de todo o potencial destas pessoas.
Ao mesmo tempo, este conceito de aluno portador de necessidades especiais também envolve pessoas dentro da normalidade física e mental que possuem transtornos funcionais específicos como dislexia, transtorno de atenção ou hiperatividade.
O que torna a questão ainda mais complexa, uma vez que o senso comum e muitos educadores assumem a definição de portadores de necessidades educacionais aplicada exclusivamente ao portador de deficiência.
Entretanto, pensando dentro do âmbito do conceito correto de portadores com necessidades educacionais especiais, os portadores de deficiência precisam não apenas de estímulos ou recursos didáticos adequados, como é o caso dos educandos com potencial elevado ou transtornos funcionais.
Nestas últimas modalidades à escola já discuti formas de fomentar o desenvolvimento pleno do aluno há várias décadas, em alguns casos oferecendo formação adequada aos professores em sua graduação.
No entanto, além da questão do treinamento para lidar com cada tipo de deficiência, em muitos casos, a estrutura física das instituições educacionais precisa se adequar a diferentes necessidades exigidas por cada tipo de deficiência.
O que remete a conceituação das deficiências, pois é essencial que o professor reconheça cada modalidade e que a escola repense sua adequação para receber o educando e possibilitar seu desenvolvimento pleno, aproximando-o da normalidade.
As deficiências podem ser classificadas em cinco modalidades básicas com subdivisões: mental ou intelectual, auditiva, visual, física e múltipla.
Cada qual exige cuidados especiais, recursos e materiais didáticos próprios.
A deficiência mental (DM) envolve um funcionamento intelectual abaixo da média, denotando algum grau de ausência de compreensão do mundo e de si mesmo, com a incapacidade de adaptação do individuo para responder as demandas exigidas pela sociedade no que tange a comunicação, cuidados pessoais, habilidades sociais, desempenho na família e na vida em grupo, locomoção independente individual, saúde, segurança, desempenho escolar, lazer e trabalho.
Este tipo de deficiência pode ser leve, moderada, grave ou profunda.
Depende do grau de capacidade de autonomia e classificação do coeficiente intelectual. Independente da categorização, necessita de apoio nas áreas afetadas para minimizar dificuldades de comunicação, autocuidado, convivência familiar, relacionamento social, autonomia, etc.
O que, obviamente, exige um trabalho interdisciplinar, acompanhado por educadores e profissionais da saúde como médicos, psicólogos e fisioterapeutas.
Reside neste ponto um grande problema, pois, a despeito da legislação garantir o acesso do portador desta deficiência as escolas normas, não oferece o suporte interdisciplinar dentro da estrutura educacional regular.
Medidas preventivas poderiam reduzir o número de casos de DM, muitos dos quais relacionados a causas pré, peri e pós-natais, mas a ausência de investimentos e a ótica invertida para lidar com a questão tende a fazer os índices se manterem ou mesmo crescerem.
A deficiência auditiva tem ganhado maior espaço na mídia e foi, recentemente, fruto de intensos debates pela sociedade. Pode ser conceituada como impedimento parcial ou total de detectar o som.
Pensando na história da educação dos surdos e nas abordagens que marcaram este processo, o bilinguismo e a língua de sinais, surgiu como uma língua natural dos surdos, pois a criança surda passou a contar com a língua de sinais vista como aquisição de forma espontânea, sem que seja preciso um treinamento específico, a despeito de considerada por muitos profissionais apenas como gestos simbólicos.
Até então, na sociedade não existia lugar para as diferenças, sendo os surdos usuários da língua de sinais desconsiderados no processo educacional.
Para os ouvintes, a língua oral é imperativa e, por conseqüência, caberia a todos que fazem parte dela se adequarem aos seus meios de comunicação, independentemente de suas possibilidades.
Qualquer outra forma de comunicação, como ocorre com a língua de sinais, era considerada inferior e impossível de ser comparada com as línguas orais.
É neste sentido que a oficialização da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) em abril de 2002 (Lei n. 10.436, de 24 de abril de 2002) começou a abrir novos caminhos, gerando polêmicas entre profissionais que trabalham com surdos e entre surdos oralizados, que não se sentiram parte de uma comunidade surda e não enxergaram mérito nessa vitória para a comunidade surda.
Entretanto, criança surda necessita de uma língua que possibilite a ela a integração ao seu meio, no qual ela seja capaz de compreender o que está ao seu redor, significar suas experiências, em vez de uma língua que a torne um ser apto para reproduzir um número restrito de palavras e frases feitas, que para ela não terão nenhum significado comunicativo, restringindo sua potencialidade para construir e utilizar a linguagem no processo dialógico.
Devemos lembrar que linguagem apresenta grande importância na formação da consciência, promovendo a ampliação da percepção de mundo, assegurando o processo de abstração e generalização, sendo o elo de transmissão de informação e cultura entre a criança e o mundo.
A criança construirá sua realidade social e descobrir a si própria pela comunicação, ou seja, por meio das interações ela passa a se perceber e se identificar com seus pares, estabelecendo, assim, as diferenças entre os indivíduos inseridos em seu meio, daí importância dos pressupostos defendidos pelo bilinguismo em oposição ao oralismo e a comunicação total.
A despeito dos avanços que a tecnologia trouxe para a detecção precoce da surdez e para a intervenção nesse processo, além do desenvolvimento da informática, com o aparecimento de grande quantidade de softwares que exploram a imagem visual, facilitando uma série de acessos aos educadores de surdos.
Devemos ter em mente que a conscientização de que toda esta tecnologia disponível não é de acesso a toda a população surda, especialmente considerando a realidade social, cultural e econômica brasileira.
Ainda que toda essa tecnologia fosse acessível, ela por si não garante o desenvolvimento linguístico, a formação da identidade e cultural do sujeito surdo.
O bilinguismo possibilita ao surdo adquirir/aprender a língua que faz parte da comunidade surda.
O trabalho bilíngue educacional respeita as particularidades da criança surda, estabelecendo suas capacidades como meio para essa criança realizar seu aprendizado.
Esta proposta também oferece o acesso à língua oral e aos conhecimentos sistematizados, priorizando que a educação deve ser construída a partir de uma primeira língua, a de sinais, para em seguida ocorrer à aquisição da segunda língua, o português oral e/ou escrito.
O Projeto de Educação Bilíngue para os Surdos busca a aceitação da surdez sem almejar transformações culturais e de identificação do sujeito surdo.
Segundo essa proposta, o indivíduo ao adquirir uma língua natural é capaz de se desenvolver plenamente, vivenciando, aprendendo e se comunicando, além de se identificar com sua cultura.
Assim, a concepção bilíngue linguística e cultural luta para que o sujeito surdo tenha o direito de adquirir/aprender a libras e que esta o auxilie, não só na aquisição da segunda língua majoritária, mas que permita sua real integração na sociedade, pois ao adquirir uma língua estruturada o surdo pode criar concepções e oportunidades, participando ativamente do convívio em seu meio.
Um dos grandes benefícios do bilinguismo para o surdo é a oportunidade de utilizar concomitantemente os recursos das duas línguas adquiridas.
Decorrente desse fato, podem surgir dificuldades quanto ao seu uso, o que não impossibilita a aquisição em alto nível da modalidade escrita.
Mas para que o indivíduo surdo seja aceito como bilíngue é preciso que ocorra primeiro a aceitação das LIBRAS pela sociedade, na qual esta não é tida como língua, e sim como “gestos” e “mímicas”, desconhecendo-se sua estrutura linguística, bem como seus constituintes fonológicos, morfológicos e sintáticos.
A questão é que as escolas normais não estão preparadas para lidar com o surdo, professores e alunos não dominam a linguagem de sinais, nenhum dos segmentos tem a oportunidade de aprender LIBRAS.
A surdez, em grande medida, ultrapassa causas congênitas, devendo-se a fatores a doenças e tratamentos inadequados, mais uma vez remetendo aos investimentos insuficientes na prevenção.
A exemplo da última, a deficiência visual é objeto de atenção da sociedade há mais tempo que outros modalidades, contando com o suporte de instituições especializadas em auxiliar na integração do cego a sociedade desde o século XIX, responsáveis pela tradução de livros e materiais didáticos em formato apropriado a leitura pelo tato, através do método Braille, inventado pelo francês Louis Braille no ano de 1827, em Paris.
A deficiência visual refere-se apenas aos casos de cegueira e visão subnormal, excluindo dificuldades de visão compensadas pelo uso de óculos.
A dita visão subnormal pode ser caracterizada pela alteração da capacidade de visão com significativo rebaixamento de acuidade visual e da sensibilidade de percepção de contrastes.
O cego necessita, além de materiais didáticos adequados, de uma estrutura física que facilite seu deslocamento e identificação pelo tato de elementos detectados normalmente pela visão.
Necessidade que as escolas normais quase nunca atendem, além do fato dos professores não possuírem o domínio da linguagem Braille.
Embora esta dificuldade seja contornada com traduções realizadas pelas instituições de apoio ao cego.
Já os portadores de visão subnormal que dispensam a necessidade de leitura em Braille, constantemente precisam do suporte de iluminação especial, também não disponível nas escolas normais.
Seja como for, apesar das causas da cegueira poder ser congênitas, grande parte dos deficientes visuais adquirem a cegueira a partir de doenças facilmente tratadas e que poderiam ter sido curadas ou controladas pelo oferecimento a população de um sistema de saúde mais ágil e de qualidade.
Mais uma vez, investimentos preventivos por parte do Estado poderiam evitar os elevados índices de portadores de deficiência visual.
Assim como os portadores de deficiência visual necessitam de uma estrutura arquitetônica apropriada nas escolas, outro grupo de portadores de deficiência é extremamente dependente da adequação das instituições educacionais, os portadores de deficiência física.
A deficiência física pode ser definida como uma alteração parcial ou completa em um ou mais segmentos do corpo humano, com o comprometimento da função física, caracterizada pela incapacidade de realizar movimentos normais.
Obviamente, este tipo de deficiência exige a adaptação da arquitetura e eliminação de barreiras, garantida pela lei 5.296 de dezembro de 2004, onde se insere a escola e todos os edifícios públicos e locais de transito como ruas e calçadas.
Acontece que o próprio Estado não respeita a lei, frequentemente o portador de deficiência física tem sua capacidade de deslocamento prejudicada pelo caos urbanísticos, onde se inclui a escola.
Além disto, dependendo do tipo de deficiência física, o portador necessita não só do auxilio do educador como também de profissionais da saúde, quase nunca disponíveis em ambiente educacionais.
Muitas deficiências físicas poderiam ser evitadas por medidas preventivas, contudo, em diversos casos são provocadas por acidentes que poderiam ser evitados se houvesse uma educação preventiva e campanhas de conscientização.
Não bastasse às exigências especificas para cada tipo de deficiência descrita até o momento, um individuo pode possuir duas ou mais modalidades combinadas, caracterizando a chamada deficiência múltipla.
O que exige das escolas, dos educadores e do Estado o oferecimento das condições já descritas quanto à criação de oportunidades de desenvolvimento do sujeito portador e medidas preventivas.

Concluindo.
As medidas preventivas para evitar 70% dos casos de deficiência existem e são conhecidas, então porque não são colocadas em prática?
Mais que investimentos, falta vontade política, a pergunta talvez devesse ser: quem se beneficia com a proliferação de deficiências adquiridas?
Lobbys atuantes nos meios governamentais certamente lucram com as necessidades advindas do desenvolvimento de deficiências.
Além disto, a legislação parece garantir direitos às pessoas, que deveriam ser capazes de prevenir deficiências.
Acontece que as verbas nem sempre chegam aonde deveriam.
Como medida paliativa, a ótica e ordem lógica foi invertida pelo Estado, centralizando esforços na inclusão.
Questão importante, mas que é mais ampla do que aparenta. A qual nunca poderá dar conta de solucionar um problema que não é apenas educacional, mas igualmente pertencente à saúde pública.
Enquanto a sociedade não se mobiliza para exigir que medidas preventivas recomendadas pela Organização Mundial de saúde sejam colocadas em prática, com reflexos que serão percebidos somente em longo prazo.
A escola e os educadores são responsabilizados por problemas criados pelo descaso do Estado, precisando se adequar para receber pessoas com necessidades educacionais especiais, notadamente no âmbito das deficiências.
Está a estrutura educacional preparada para isto? Estão os professores preparados para lidar com os portadores de deficiência? As respostas podem não ser positivas e as conseqüências desta ausência de preparo certamente serão sentidas pelo elo mais frágil da cadeia educativa: educadores e educandos.

Para saber mais sobre o assunto.
BRASIL. Lei n. 10.436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS e dá outras providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF.
BRASIL. Política Nacional da Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília: Ministério da Educação, 2007.
CÁRNIO, M. S.; COUTO, M. I. V.; LICHYIG, I. “Linguagem e surdez” In: LACERDA, C.B.F.; NAKAMURA, H.; LIMA, M. C. (Org.). Fonoaudiologia: surdez e abordagem bilíngüe. São Paulo: Plexus, 2000. p.42-53.
CASTEL, Robert. “As armadilhas da exclusão”. In: Castel, R; Wanderley, L.E; Wanderley-Belfiore, M. Desigualdade e a questão social. São Paulo, EDUC, 1997.
DEMO, Pedro. Desafios Modernos da Educação. Rio de Janeiro: Vozes,1999.
GREEN, Bill; BIGUM, Chris. “Alienígenas na sala de aula”. In SILVA, Tomás Tadeu da. (org.) Alienígenas na sala de aula. Uma introdução aos estudos culturais em educação. Petrópolis, Ed. Vozes, 1995.
GÓES, M. C. R. Linguagem, surdez e educação. Campinas: Autores Associados, 1999.
GÓES M. C. R.; LACERDA, C. B. F. (Org.). Surdez: processos educativos e subjetividade. São Paulo: Lovise, 2000.
GOLDFELD, M. A criança surda: linguagem e cognição numa perspectiva sócio-interacionista. São Paulo: Plexus, 1997.
GONZALEZ, J. A. T. Educação e Diversidade: Bases Didáticas e Organizativas.  Porto Alegre: Artmed, 2002.
MOURA, M. C. O surdo: caminhos para uma nova identidade. Rio de Janeiro: Revinter, 2000.
QUADROS, R. M. Educação de surdos: a aquisição da linguagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
PEDROSO, C. C. A. (org.). Fundamentos da educação especial. Batatais: Claretiano, 2008.
SACKS, O. Vendo vozes: uma viagem ao mundo dos surdos. São Paulo: Cia das Letras, 1998.
SKLIAR, C. (Org.). Atualidades da educação bilíngue para surdos. Porto Alegre: Mediação,1999.
SMITH, D. D. Introdução à educação especial: ensinar em tempos de inclusão. Porto Alegre: Artmed, 2008.


sábado, 13 de dezembro de 2014

Cultura & Estado: relações de integração e resistência no regime Estado-Novista.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 5, Volume dez., Série 13/12, 2014, p.01-08.

 
 
 
Flávia Braga.

Graduada em licenciatura em História pela UFPE.

Graduanda em bacharelado em História pela UFPE.
 
 
 
 

 


 
Período controverso, divisor de opiniões e constante na memória coletiva do povo brasileiro: o período de governo de Getúlio Vargas, desde o golpe de 30 passando pelo regime do Estado Novo, até o período “democrático” após o quadriênio de Dutra, finalizando com sua carta-suicídio em 1954, foi marcante para as relações entre o Estado e as manifestações culturais.
Retendo o presente texto ao período entre 1930 á 1945, a partir das leituras e das discussões acerca da obra O Brasil Republicano – O tempo do nacional-estatismo, buscaremos analisar as relações entre o Estado Novo e a produção cultural brasileira no período.
Mas, antes, uma introdução geral aos acontecimentos pré-1937 é imperativa para a coerência do tema.
Não se pode considerar o golpe do Estado novo, em 1937, como um resultado natural de um processo contínuo desenvolvido ao longo da história republicana brasileira, como se a presença de Getúlio Vargas ao final da década de 30 fosse o desenrolar evolutivo de uma cadeia de acontecimentos.
Pelo contrário, desde o Golpe de 30 até a consolidação do segundo golpe, em 37, várias forças lutaram para assumir o poder do governo do Brasil. (PANDOLFI, 2007: 15).
Comunistas, integralistas, liberais, vários foram os segmentos sociais com chances reais de assumirem a política brasileira.
O governo provisório, conflituoso e fruto de um golpe tenentista com anseios de reformas, teve sua estabilidade ameaçada por todos os lados.
O sistema de Interventorias, que nomeava pessoas de outros estados para governarem longe de seu território natal, eleva a tensão entre o governo central e os antigos grupos oligárquicos dominantes, notadamente, São Paulo.
A nacionalização das Forças Armadas, com o intuito de diminuir o poder de oligarcas regionais, a subordinação de sindicatos ao Estado, em 1931, as primeiras leis de proteção ao trabalhador entre 1931-34, a presença de tenentes no poder, contrariando toda a ordem hierárquica militar, o código eleitoral de 1932, dando sufrágio universal e voto feminino, causam uma balbúrdia contra o governo que, até certo ponto, modifica as estruturas da consolidada “República Velha”.
Os questionamentos a continuidade do governo provisório levam a criação de juntas governativas opositoras, como a Frente Única Paulista e, posteriormente, a gaúcha. Em 1932 eclode a Revolução Constitucionalista de São Paulo, demonstrando, através da expressiva participação popular, o desconforto generalizado com a situação política do país.[1]
O clima de tensões passa do governo provisório ao período constitucionalista sem demonstração de esfriamento. Ainda que fracassado, o Movimento Paulista de 1932 provocou mudanças na política nacional.
Em 1933, a promulgação da constituição resulta em “um modelo de Estado mais liberal e menos centralizador do que desejava Vargas” (PANDOLFI, 2007: 29.).
Estimulados, os movimentos sociais exigem participação política, tais como a AIB e a ANL.
Em 1935, a Intentona Comunista, mesmo que fracassada, demonstrava que, ainda que com uma constituição promulgada e um governo eleito, a estabilidade política estava longe de ser aceita por todos os segmentos populares sedentos de poder.
No mesmo ano, em abril, a Lei de Segurança Nacional[2] declara estado de Guerra e, sob a falsificação do perigo de golpe comunista, o plano Cohen, Getúlio justifica seu golpe em 1937.
O Estado Novo, sendo Getúlio “vitorioso” no plano das disputas políticas anteriores ao golpe, estabelece um governo corporativo onde a ética do trabalho é a máxima ordem estabelecida. Sem se utilizar da filosofia liberal, individualista, marcante da velha república, nem tampouco da filosofia marxista, alternativa, no entanto, classista, a escolha corporativa de “harmonia” entre as classes, tendo o Estado como grande moderador, é a alternativa mais viável a ideologia do regime. (D’ARAÚJO, 2007: 220), de acordo com Maria Celina d’Araújo com o corporativismo estatal “buscava-se manter as hierarquias mais diminuir as desigualdades sociais; evitar o conflito e banir a luta de classes; gerar harmonia social, progresso, desenvolvimento e paz.” (D’ARAÚJO, 2007: 217-218).
Desta forma, buscando o estado de paz, o regime varguista perseguirá o ideal do progresso (material) dentro da ordem, através da repressão e da propaganda, vestindo-se de conciliador das classes e protetor dos oprimidos. (CAPELATO, 2007: 117-118).
Com o intuito de forjar uma identidade nacional brasileira, o Estado Novo se utiliza de diversas manobras políticas, uma delas, a propaganda, por meio do Departamento de Imprensa e Propaganda. Intervindo diretamente na produção cultural, o Estado preserva e divulga a arte “utilitária” através do cinema, da música e tantos outros aspectos de manifestação artística. (CAPELATO, 2007). Tendo revisto o período pré-estado novista e as diretrizes ideológicas do regime, é possível pormenorizar a relação entre Estado e Cultura através dos textos.
 
 
SUBMISSÃO E AUTONOMIA: CIDADANIA NO ESTADO NOVO?
É bastante comum atribuir a expressão cultural um caráter autônomo e, muitas vezes, alternativo a apreensão da realidade por parte dos agentes autores de cultura, atribuindo a eles uma independência em relação ao momento político e/ou econômico-social a que está inserido.
Os intelectuais brasileiros, muitas vezes, reivindicaram “para si o papel de guia, condutor e arauto” (VELLOSO, 2007: 147) da consciência nacional. Historiograficamente, o período do Estado Novo é visto como um “rolo compressor” sobre as idiossincrasias culturais, impondo sua ideologia sobre a homogeneidade nacional. (FORTES; NEGRO, 2007).
Entretanto, ainda que o texto seja direcionado para a consciência da classe trabalhadora, o trabalho de Alexandre Fortes e Antonio Luigi Negro ressalta que o período pós-37 é marcado por diversas formas de expressão e luta por direitos apesar do autoritarismo estatal, sendo necessário rever a historiografia sobre o período.
De acordo com os autores:
Em consonância com o que diversas pesquisas sobre o pós-30 e a experiência contemporânea insinuavam, tanto estreitar relações com o Estado quanto incorporar-se ao sistema político não significam a negação do efetivo exercício da cidadania ou o não-reconhecimento da profunda alteração daí recorrente. (FORTES; NEGRO, 2007: 191) 
Tendo debatido acerca da possibilidade de expressão ainda que dentro de um regime corporativista-autoritário como foi o Estado Novo, podemos discutir acerca das relações decorrentes da cultura no Brasil pós-37.
 
 
DA VERGONHA AO ORGULHO
O carnaval é, dentre as festas populares brasileiras, a mais associada a identidade nacional, tanto por brasileiros, quanto por estrangeiros.
No entanto, do surgimento até a exaltação da cultura popular, décadas são necessárias até que as manifestações culturais populares sejam reconhecidas pela maioria da sociedade brasileira.
Desde meados do século XIX, mais especificadamente após a Geração de 70, o cientificismo e a obsessão pelo progresso coloca o Brasil, diante dos olhos dos “ilustrados”, em uma posição inferior em relação a tão civilizada Europa.
Voltando-se para o passado nacional, os intelectuais da virada do século constatam a formação mestiça do povo brasileiro e, daí, as causas para o nosso atraso.
Buscando uma maneira de remediar esse descompasso com a evolução histórica comparativamente à europeia, teorias do branqueamento procuram por uma maneira de remediar a situação, por meio da imigração. (ORTIZ, 1994) (VIANNA, 1995).
No entanto, a Primeira Guerra Mundial força os intelectuais a reverem conceitos acerca da “superioridade” europeia.
A longevidade e brutalidade da guerra, e suas influências sobre o mundo, foram tão extensas e tão globalizantes, que o progresso científico tão frutífero ao início do século não mais se sustentou.
Os olhos nacionais voltam-se para os problemas internos.
O modernismo, surgido a partir da Semana de Arte Moderna de 1922 e, posteriormente, os manifestos Pau-Brasil de 1924 e Antropofágico 1928, além do patriotíssimo verde-amarelismo de Plínio Salgado, demonstram a urgência com que os artistas tentam diferenciar o Brasil do resto do mundo. (VELLOSO, 2007: 150).
Agrava-se, em tudo isso, o Crack da Bolsa de Nova York de 1929 que, novamente, influencia na “virada” de sentimentos do brasileiro pelo seu país.
O que no início do século era motivo de vergonha e repulsa, a partir das reinvindicações tenentistas e do Golpe de 30, passa a ser, paulatinamente, visto como motivo de orgulho nacional.
O samba, o futebol, o carnaval e a literatura regional passam a ser assunto de Estado.
Os livros, o rádio e o cinema, dentro da conjuntura das manobras políticas estado-novistas, notadamente a propaganda, constroem a identidade coletiva nacional.
 
 
CULTURA: LIDA, VISTA E OUVIDA.
A relação entre Estado Novo e a cultura popular não é um tema pacífico.
Afinal, o estado varguista foi extremamente autoritário a ponto de não haver possibilidade de expressão independente?
Lembremos de Graciliano Ramos, em Memórias do Cárcere, e talvez respondamos que não. Lembremos de Carlos Drummond de Andrade, chefe do gabinete de Gustavo Capanema, no Ministério da Educação, e talvez respondamos que sim.
O que pode ser admitido é que o Estado Novo foi profundamente complexo, permitindo em suas teias uma variedade enorme de artistas e intelectuais, uns submetidos a presença quase onipresente do Estado, outros por se adaptarem, mas, de qualquer forma, tão imbricados estão os indivíduos que é difícil fazer um julgamento.
No entanto, Monica Pimenta Velloso trás uma luz a respeito dessa relação:
Apropriando-se de expressões, ideias e valores populares, o regime buscava sintonizar-se ideologicamente com o conjunto da sociedade. Para obter essa sintonia, de um lado a censura, de outro certa flexibilidade ou tolerância com os valores que se mostrassem capazes de serem integrados à ideologia oficial. (VELLOSO, 2007: 169.).
De modo a garantir a participação do Estado em diversas esferas sociais, o regime adota “para cada público uma estratégia” (VELLOSO, 2007: 165).
Da participação de Vargas na elite literária da Academia Brasileira de Letras[3] aos discursos proferidos em estádios de futebol, o regime de adaptou as diferentes propostas.
Quanto ao como o Estado participou do processo de educação e das manifestações culturais, melhor define Lúcia Lippi de Oliveira:
Diferentes instrumentos de educação coletiva foram criados ou desenvolvidos visando educar o povo, a promover o ensino de bons hábitos. O rádio, o cinema educativo, o esporte, a música popular participavam desse objetivo comum de integrar os indivíduos no novo Estado nacional. (OLIVEIRA, 2007: 330). 
É no período após o Golpe de 30 que o mercado literário brasileiro conhecerá grande expansão.
Não apenas a literatura, mas também as primeiras produções nacionais cinematográficas, a popularização do rádio, as primeiras agremiações carnavalescas, a multiplicação dos campeonatos de futebol, enfim.
O clima nacionalista propiciou o surgimento e multiplicação de expressões nacionais de cultura, muitas delas associadas as camadas populares.
O futebol, por exemplo, ainda que tenha surgido no seio aristocrático visando a cópia dos valores londrinos, associa-se ao gingado do negro, sambista e capoeirista, aos poucos forjando uma maneira ímpar de praticar o esporte, reconhecido internacionalmente (SOIHET, 2007: 299).
O rádio, veículo de propagação dos jogos, mas também da Voz do Brasil, do resultado das competições musicais, da propaganda estrangeira, das notícias do Repórter Esso, do american way of life, do sotaque carioca, torna-se os capilares – adentrando em todos os espaços – de comunicação entre o Líder e todas as classes.
O cinema, conflituoso entre as grandes produções norte-americanas como E o Vento Levou[4] e a obrigação de transmitir o cinejornal brasileiro, editado pela DIP e o cinema nacional educativo, produzido pelo Ministério da educação através do INCE, informa e educa, sobrevive e se recria.
Grandes produções brasileiras são produzidas neste período. Humberto Mauro é, provavelmente, o maior nome do cinema brasileiro do período, destaca-se Ganga Bruta em 1933 e O Descobrimento do Brasil em 1936, em parceria com o INCE e atuação musical de Villa-Lobos.
É este o tempo de Carmem Miranda e a internacionalização das características brasileiras.
O advento da Segunda Guerra Mundial dificulta a entrada de matérias-primas para o cinema, fomentando o surgimento da Atlântida e, posteriormente e através dela, da chanchada. (OLIVEIRA, 2007).
Período também da publicação dos grandes interpretadores do Brasil: Gilberto Freyre, Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Holanda, muitos deles associados a Editora José Olympio, que, dentre outras editoras, publicam “retratos do Brasil” feitos por intelectuais e por literatos, como Jorge Amado[5].
O Brasil volta-se para o interior, para o sertão, busca sua identidade longe do litoral, exposto, estrangeirizado. Mas o estrangeiro não é totalmente alijado.
A política de boa vizinhança encabeçada por Roosevelt introduz no cinema e no rádio os valores norte-americanos, tendo o Estado Novo também de conviver com o crescente imperialismo dos EUA. Via de mão-dupla, também o Brasil leva sua cultura a aquele país. (OLIVEIRA, 2007: 344).
O carnaval, antes reduto de gente “inferior”, “suja”, ‘popular”, é oficializado pelo Estado, obriga o sambista a fazer música em prol do trabalho, mas a gente resiste, através do escárnio, da paródia, demonstra sua insatisfação, expõe a pressão social e busca, senão a cidadania trabalhista, ao menos a “cidadania cultural”. (SOIHET, 2007: 319).
O futebol, ainda que guardasse diferenças e disputas internas, propagava um “entusiasmo uníssono” entre a elite e os populares, integrando-os, “forjando um sentimento patriótico” (SOIHET, 2007: 295). 
De qualquer forma, como afirma Rachel Soihet “as impossibilidades concretas de superação imediata de suas dificuldades cotidianas levam-nos a privilegiar o campo cultural e as formas metafóricas como cerne de resistência” (2007: 311).
E, através do pensamento da autora, podemos considerar que homogeneizar a análise do Estado Novo como único agente de cultura é desconsiderar a complexidade de um regime que perdura na memória e no coração dos brasileiros, sem que tenha havido trabalho, pesquisa ou livro que conseguisse diminuir a paixão popular por Vargas, somente comparado (mas não superado) por outro líder, Luis Inácio da Silva.
Os textos são apenas introdutórios e analisam – com exceção talvez de Rachel Soihet, Alexandre Fotes e Antonio Luigi Negro – a perspectiva do Estado sobre a cultura, e não no sentido inverso.
De qualquer maneira, fomentam grande discussão acerca da relação entre Estado e Cultura, propondo debates e expansão de leituras.
 
 
CONCLUINDO
Após a leitura dos textos e as discussões, podemos esboçar o seguinte pensamento.
A cultura, campo vasto que vai desde a pequena paródia em tempos carnavalescos até a análise do passado colonial dos intelectuais brasileiros, é o espaço comum de manifestação das classes e do Estado.
Longe de ser onipresente, o regime estado-novista estava presente em diversos aspectos culturais, mas, para garantir sua permanência e integridade, teve que flexibilizar-se.
Antes de ser uma “massa de manobra”, os populares são capazes de expressar seu pensamento se não através da cidadania “direta” ao menos através de sua Escola de Samba ou do seu time de futebol.
O espaço público, palco de cultura é também lugar de garantia de direitos. (SOIHET, 2007).
Diversos foram os veículos de interação entre o Estado e a população.
O rádio, o veículo mais popular, “foi fábrica de ídolos e mitos” (OLIVEIRA, 2007: 341).
Os livros tornaram conhecido o passado e o sertão do Brasil, o cinema deu visibilidade.
O futebol e o samba integrou o país, secularmente dividido, em um só ritmo e um só gingado, estava, assim, formada a identidade nacional. Relações de afeto ou não, a cultura brasileira contemporânea deve, em larga medida, aos anseios, projetos e resistência desse período.
 
 
PARA SABER MAIS SOBRE O ASSUNTO
CAPELATO, Maria Helena. O Estado Novo: o que trouxe de novo? In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. O Brasil Republicano: livro 2 : o tempo do nacional-estatismo do inicio da decada de 1930 ao apogeu do Estado Novo. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p.108-143.
D’ARAUJO, Maria Celina. Estado, classe trabalhadora e políticas sociais. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. O Brasil Republicano: livro 2 : o tempo do nacional-estatismo do inicio da decada de 1930 ao apogeu do Estado Novo. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p.214-239.
FORTES, Alexandre. NEGRO, Antonio Luigi. Historiografia, trabalho e cidadania no Brasil. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. O Brasil Republicano: livro 2 : o tempo do nacional-estatismo do inicio da decada de 1930 ao apogeu do Estado Novo. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p.182-211.
OLIVEIRA, Lúcia Lippi. Sinais da modernidade na era Vargas: vida literária, cinema e rádio. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. O Brasil Republicano: livro 2 : o tempo do nacional-estatismo do inicio da decada de 1930 ao apogeu do Estado Novo. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p.324-349.
ORTIZ, Renato, Cultura brasileira e identidade nacional. 5. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. 148p.
PANDOLFI, Dulce Chaves. Os anos 1930: as incertezas do regime. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. O Brasil Republicano: livro 2 : o tempo do nacional-estatismo do inicio da decada de 1930 ao apogeu do Estado Novo. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p.14-37.
SOIHET, Rachel. O povo na rua: manifestações culturais como expressão de cidadania. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. O Brasil Republicano: livro 2 : o tempo do nacional-estatismo do inicio da decada de 1930 ao apogeu do Estado Novo. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p. 288-319.
VELLOSO, Mônica Pimenta. Os intelectuais e a política cultural do Estado Novo. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. O Brasil Republicano: livro 2 : o tempo do nacional-estatismo do inicio da decada de 1930 ao apogeu do Estado Novo. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p.146-179.
VIANNA, Hermano. O mistério do samba. 2. ed. -. Rio de Janeiro: J. Zahar : UFRJ, 1995. 193 p.


RESUMO: Através da leitura do compêndio O Brasil Republicano, 2º volume, este texto busca, através da opinião dos autores, compreender a relação existente entre o Estado Novo, instaurado em 1937 por Getúlio Vargas, e a cultura brasileira do período, dialogando com as diversas percepções apresentadas. As práticas de resistência, integração e conflito são ressaltadas ao longo do texto, procurando integrar as diversas faces do regime com a produção cultural.

Palavras-Chave: Estado Novo; Cultura; Integração; Resistência.



NOTAS.
[1] A Campanha do Ouro para o Bem do Brasil, por exemplo, engajava os cidadãos a contribuírem para o financiamento das tropas rebeldes. (PANDOLFI, 2007: 25).

[2] Lei nº 38, de 4 de Abril de 1935.

[3] Acerca desse assunto, interessante notar a inversão de valores acerca da intelectualidade presente no discurso de posse de Getúlio. Condenando o intelectual inacessível e alienado pré-30, Vargas defende o intelectual útil para o “bem” social comum. A culpa do “atraso” brasileiro não mais recai sobre as classes populares, mas em uma elite obcecada pelo estrangeiro. Desta forma, o “atraso” seria superado por uma boa administração governamental, ou seja, O Estado Novo. (VELLOSO, 2007).
[4] Oscar de melhor filme em 1939.
[5] A questão regionalista consolida-se de tal forma que, após 1930 há uma disputa por qual regionalismo deveria prevalecer. De acordo com Lúcia Lippi de Oliveira (2007, 334) o regionalismo nordestino é vitorioso no tocante ao nacionalismo.