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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Como a família e a escola podem interferir no trabalho do psicopedagogo clínico?


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 3, Vol. out., Série 15/10, 2012, p.01-05.

 
O artigo faz parte da Monografia de Conclusão de Curso de Pós-Graduação em Psicopedagogia Clínica pelo INEC/Universidade Cruzeiro do Sul, orientada pelo Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
 

Esse estudo tem como objetivo analisar o trabalho do Psicopedagogo Clínico durante o processo de tratamento de um paciente, partindo das seguintes questões: até onde a família e a escola podem interferir no trabalho do psicopedagogo clínico?

A relação entre elas auxiliam o profissional da área no desenvolvimento do seu trabalho? 
Onde se inicia e termina a responsabilidade do terapeuta para o desenvolvimento das aprendizagens de seus pacientes?
Como proceder quando o profissional encontra dificuldades com a família e a escola? 
Foram entregues um questionário com quatro questões para três profissionais, que atuam na área, para ser respondido.

Em seguida, houve uma tabulação dos dados coletados; e o resultado foi o seguinte: tanto a família como a escola podem auxiliar o trabalho psicopedagógico, entretanto, o profissional deve ter autonomia, independência para desenvolver o trabalho.

 
INTRODUÇÃO.
Nunca se observou nas últimas décadas o empenho de governos, sociedade, instituições filantrópicas, igrejas entre outros, preocupados com a melhoria e qualidade de educação.
Ciências novas como a Psicopedagogia Institucional e Clínica surgiram no Brasil na década de 70, como uma das respostas ao grande problema do fracasso escolar.
Hoje se sabe que todos os indivíduos aprendem de acordo com seu ritmo e o tempo, o grande desafio da educação do século XXI é intervir no processo de aprendizagem do aprendente respeitando sua individualidade.
O grande desafio de todos que trabalham na educação é a distinção entre fracasso o escolar e a dificuldade de aprendizagem, já que muitas vezes, os profissionais da educação, não têm muito claros essa diferença e geralmente responsabiliza o sujeito aprendiz pelo insucesso escolar. Segundo SAMPAIO (2011, p. 11):

“Dificuldade de aprendizagem é de ordem mais subjetiva e individual - geralmente há algum tipo de deficiência ou necessidade educacional específica, que compromete o desempenho na escola e pode causar fracasso escolar; e esta é a conjunção de fatores que, em um determinado momento, interagem, mobilizando o desempenho do sujeito e do sistema familiar/escolar/social ao qual está integrado.”

Durante décadas o fracasso escolar no Brasil foi responsabilizado pelo aprendente (este tinha alcunha de preguiçoso e que não queria aprender), como também, a sua família (na maioria das vezes, caracterizada como omissa na vida escolar do seu filho em todos os sentidos).
Hoje se sabe que as dificuldades de aprendizagem apresentadas pelo indivíduo precisam ser analisadas em todos os focos como: deficiências do sistema escolar, aspectos socioeconômico-culturais, problemas orgânicos, cognitivos, afetivos, social e a interação com o ambiente familiar e escolar.
Conclui-se que atualmente os educadores precisam estar sintonizados com essas novas perspectivas de como observar as dificuldades de aprendizagem e buscar caminhos para intervenção, inclusive o auxílio e parceria com outros profissionais; já que não há mais espaço para culpar o sujeito e sua família pelo fracasso escolar.


JUSTIFICATIVA.
Com o avanço econômico do Brasil nos últimos anos, a sociedade brasileira tem se conscientizado sobre a importância da qualidade na educação básica e do nível superior, pois cada vez mais, o país necessita de profissionais qualificados em todas as áreas, além disso, um povo letrado tem maiores condições de exigir e lutar por uma nação mais igualitária.
Como a melhoria e a qualidade da educação é o foco desse momento, vários profissionais ligados à aprendizagem discutem , refletem e trabalham, com intuito, de encontrar caminhos, para que todos aprendam.
Observa-se que a educação é responsabilidade de todos (família, escola, sociedade entre outros) já que, um povo letrado ou não, influencia o desenvolvimento social, econômico e político de uma nação.
 

MÉTODO.
Além das leituras sobre o tema abordado, outro elemento norteador para o desenvolvimento desse artigo foi a entrega de um questionário com quatro perguntas para três psicopedagogas que atuam em clínicas particulares, e com posse desse material dar-se-á a tabulação para a análise.
As profissionais são: Maria Inês Sladek da Costa, Cristina K. Tamashiro e Valéria Modesto de Jesus, todas com experiência na área da psicopedagogia.

Segue abaixo as questões e as respectivas respostas das envolvidas na pesquisa:

Até onde a família e a escola podem interferir no trabalho do psicopedagogo clínico?
Maria Inês: "A colocação não seria interferir e sim acrescentar no trabalho, pois sem esta colaboração o trabalho fica quase impossível, pois o psicopedagogo vê a criança duas vezes por semana e a família e a escola estarão com ele todos os dias então...”.
Cristina Tamashiro: "É importante que o profissional tenha autonomia e independência para que um bom trabalho seja realizado. É claro que as demandas da família e da escola devem ser acolhidas e investigadas, mas nem sempre o que se manifesta é o que de fato ocorre, necessita ser trabalhado, etc. Cabe ao profissional com toda a sua bagagem técnica pela qual se diferencia do leigo, realizar esta leitura e da forma mais adequada possível clarificar e trabalhar a questão com os envolvidos”.
Valéria Modesto: "Percebo interferência quando não colaboram com as informações e não fazem parcerias para chegarmos ao objetivo comum que é o aluno, se preocupam com interesses próprios".

A relação entre elas auxiliam o profissional da área no desenvolvimento do seu trabalho?
Maria Inês: "Não só auxilia como completa, pois a continuidade do aprendizado deve acontecer para a fixação do que a criança tem dificuldades".
Cristina Tamashiro: "É muito comum haver discordâncias e conflitos entre a família e a escola. Nestes casos, o psicopedagogo deve intervir de forma a resolver a situação sempre em função do interesse e benefício da criança, observando se a escola é adequada quanto à estrutura, metodologia, equipe profissional, filosofia de trabalho, etc. Esta adequação é fundamental, pois proporciona uma maior probabilidade de que tanto os interesses da escola como da família corram numa mesma direção, tornando a relação mais positiva o que sem dúvida torna o trabalho mais fácil".
Valéria Modesto: "Quando há a resistência da escola e não da família, o psicopedagogo consegue realizar o trabalho; com a família, ela não chega ao consultório; não reconhece o problema no seu filho, justifica que a criança é preguiçosa ou há algum parente que teve a mesma dificuldade. Quando de fato a criança piora o resultado de aprendizagem ou é reprovada na escola, aí sim a família cai na real. Uma vez que se inicia o tratamento, geralmente, não existem só dificuldades de aprendizagem, mas também, problemas na família ou talvez na escola. Na questão da resistência da escola na maioria das vezes é falta de informação do que é o trabalho do psicopedagogo".

Onde se inicia e termina a responsabilidade do terapeuta para o desenvolvimento das aprendizagens de seus pacientes?
Maria Inês: "Dentro dos parâmetros do que é possível numa relação terapêutica".
Cristina Tamashiro: "Esta é uma pergunta difícil, pois seus limites não são tão delineáveis, mas podemos dizer que o profissional clarifica, aponta soluções, encaminha, auxilia nas decisões e escolhas, porém nem sempre a escola e ou família concordam ou aceitam. Uma vez tendo desempenhado o seu papel, creio que podemos dizer que seu papel foi desempenhado”.
Valéria Modesto: "Inicia-se quando começamos o diagnóstico e fazemos a intervenção. Termina quando os interessados não aceitam ou não colaboram com os procedimentos que devem ser tomados”.

Como proceder quando o profissional encontra dificuldades com a família e a escola no desenvolvimento do seu trabalho?
Maria Inês: "Esse também requer uma análise de caso, pois sem a participação no mínimo da família não acontece o atendimento”.
Cristina Tamashiro: "Cabe ao profissional buscar soluções para estes problemas, muito comuns, através de seu trabalho, sempre procurando estabelecer relações positivas entre as partes, mas com objetividade e autonomia. A postura, seu conhecimento técnico, a sua psicoterapia pessoal para autoconhecimento são as bases fundamentais para que o profissional consiga mostrar consistência e importância de seu trabalho, angariando a cooperação de todos. Em casos extremos, onde isto não foi possível, o profissional não deve se submeter a se responsabilizar por um caso onde não tenha mais domínio (no sentido de realizar um trabalho conjunto), devendo isto ser pontuado e trabalhado. Muitas vezes a própria clarificação da situação cria um movimento diferente, ou até a opção pela interrupção, dependendo do caso, mas seria contraditório, enquanto psicopedagogos trabalharmos com o não dito".
Valéria Modesto: "Costumo deixar tudo documentado através de relatórios sobre o processo e intercorrências e envio cópias para a família, a escola e também se houver outros envolvidos no caso. Desta forma, fico assegurada, caso haja algum problema superior”.

 
ANÁLISES DOS DADOS COLETADOS.
Ao analisar o primeiro item respondido pelas psicopedagogas, percebe-se que elas destacam a importância da família e da escola como parceiras no desenvolver do trabalho do psicopedagogo com a criança, entretanto, enfatizam a autonomia e a independência do profissional para desenvolver o trabalho.
 
Segundo PORTO (2011, p.8):

"O psicopedagogo sendo um profissional multiespecialista em aprendizagem humana que congrega conhecimentos de diversas áreas a fim de intervir nesse processo, com sua intervenção psicopedagógica, pode assumir uma feição preventiva ou terapêutica, relacionando-se com equipes ligadas aos campos de saúde e educação, terapêutica e institucional, respectivamente".

No segundo item as profissionais esclarecem que a família e a escola intergradas auxiliam no trabalho do psicopedagogo, entretanto, quando houver divergências entre elas, cabe o profissional defender o interesse do paciente e expor aos envolvidos as dificuldades que cada uma está proporcionando, para não aprendizagem do indivíduo. De acordo SAMPAIO (2011, p. 17):

“O sujeito poderá encontrar obstáculos, mas poderão ser superados à medida que encontramos na família, na escola e no próprio sujeito uma porta, que nos permita entrar e (re)construir, junto a estes, uma nova aprendizagem.”

No terceiro item as terapeutas destacam que é difícil delinear de uma forma precisa onde inicia ou mesmo termina o trabalho do psicopedagogo, mas observam que a partir do contato profissional,na qual clarifica, aponta soluções, encaminha, auxilia nas decisões e escolhas; que nem sempre a família ou a escola concordam; tudo isso faz parte da responsabilidade do psicopedagogo. Conforme SAMPAIO (2011, p. 15):

“O psicopedagogo tem a difícil tarefa de avaliar a adequação das estruturas sociais e o funcionamento dessa complexa rede de relações, a afim de melhor intervir nos processos de aprendizagem. Saber entender as relações entre sujeito/família/ escola é, pois, um pré-requisito importante para uma visão preventiva e terapêutica das dificuldades que se interpõem nos processos do aprender”.

No quarto e último item as psicopedagogas apontam que as dificuldades encontradas junto à família e a escola variam de caso a caso, cabe o profissional buscar solucioná-las com objetividade, autonomia, uma postura de mostrar consistência sobre importância do seu trabalho, como também, elaboração de relatórios sobre o processo e intercorrências. Dessa forma, ficam asseguradas caso haja algum problema superior. Segundo PAIN (1986), citada por PORTO (2011, p.79):

“O profissional, para cumprir os objetivos e garantir o enquadre no trabalho psicopedagógico, deve adotar certas técnicas. São elas: organização prévia da tarefa; graduação nas dificuldades das tarefas; autoavaliação de cada tarefa a partir de determinada finalidade; historicidade do processo, de forma que o paciente possa reconhecer sua trajetória no tratamento; informações a serem oferecidas ao sujeito pelo psicopedagogo...”.

 
CONCLUINDO
No trabalho do Psicopedagogo Clínico é primordial que a relação entre o profissional, à família e a escola seja construtiva, pois isto auxilia o trabalho do terapeuta, entretanto, cabe a ele ter autonomia, independência, e de intervir com segurança para o convencimento da família, escola e do próprio paciente sobre o processo de intervenção psicopedagógica na dificuldade de aprendizagem do indivíduo. É um processo de construção em todos os sentidos: a confiança da família, da escola e do próprio paciente envolvido.
Daí a importância desse profissional está sempre pesquisando, para que sua bagagem teórica possa ser aplicada na prática para um melhor atendimento clínico.

 
PARA SABER MAIS SOBRE O ASSUNTO.
BEAUCLAIR, João. “Psicopedagogia Trabalhando Competências, Criando Habilidades”.  Editora Wak, 4 ° edição, 2011.
PORTO, Olivia. “Bases da Psicopedagogia Diagnóstico e Intervenção de aprendizagem”. Editora Wak, 5˚edição, 2011.  
SILVA, Maria Cecília Almeida. “Psicopedagogia: A Busca de uma Fundamentação Teórica”. Editora Paz e Terra 2010.
SAMPAIO, Simaia. “Dificuldades de Aprendizagem: A Psicopedagogia na relação sujeito, família e escola”. Editora Wak 3° edição, 2011.
SAMPAIO, Simaia “Manual Prático do Diagnóstico Psicopedagógico Clínico”. Editora Wak. 3˚ edição 2012 .
WEISS, Maria Lucia Lemme & Weiss, Alba: “Vencendo as Dificuldades de Aprendizagem Escolar”, Editora Wak 2°edição, 2011.


Texto: Prof. Reginaldo Pereira de Jesus.
Pós-Graduando em Psicopedagogia Clínica pelo INEC/UNICSUL.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O papel da psicopedagogia na Instituição Escolar.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 3, Vol. fev., Série 21/02, 2012, p.01-08.


O presente artigo faz parte da Monografia de Conclusão de Curso de Pós-Graduação em Psicopedagogia Institucional pelo INEC/Universidade Cruzeiro do Sul, orientada pelo Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

DEDICATÓRIA: Dedico este projeto a meus familiares e amigos, pelo incentivo e estímulo que me impulsionou a buscar o meu grande objetivo.


Esse estudo tem como objetivo levantar algumas questões sobre o que é um psicopedagogo exemplos: como ele se vê profissionalmente; sua relação no atendimento das crianças ou adolescentes com déficit de aprendizagem; quais os maiores obstáculos encontrados na atuação e como é o contato com os profissionais de outras áreas como educação e a saúde.
Foram entregues essas questões para serem respondidas por três profissionais que atuam na área, em seguida, com a tabulação, o resultado foi o seguinte:  a psicopedagogia  auxilia a  sanar a dificuldade de aprendizagem do indivíduo; necessita de parceria com a instituição escolar e a  área da saúde, para o desenvolvimento  pleno dos trabalhos, como também, o acompanhamento dos familiares no processo terapêutico; ainda existe muito desinformação  no seu campo  de atuação e com isso a busca constante de formação profissional.

Com a democratização do ensino público no Brasil, proclamada pela Constituição de 1988 e a LDB 9394/96 (Lei de diretrizes de Base da Educação Nacional), a educação brasileira passou por grandes mudanças, observada, por exemplo, no artigo 4º da LDB 9394/93, no qual destaca a obrigatoriedade e a gratuidade do ensino fundamental, a integra do artigo:
Art. 4º. O dever do Estado com a educação escolar pública será efetivado mediante a garantia de:
I - ensino fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram acesso na idade própria;
II - progressiva extensão da obrigatoriedade e gratuidade ao ensino médio;
III - atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com necessidades especiais, preferencialmente na rede regular de ensino;
IV - atendimento gratuito em creches e pré-escolas às crianças de zero a seis anos de idade;
V - acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística. (...)

Com a expansão de escola pública para todos, percebeu-se que a qualidade não acompanhou o ensino, diante disso, o problema de ensino - aprendizagem ficou mais latente, já que, em outrora, a escola era para poucos e os que não se adequavam na antiga estrutura, eram excluídos.
Esse novo modelo de escola que garante acesso obrigatório e permanência a todos, inclusive dos alunos com necessidades educacionais especiais, fez com que houvesse uma mudança no paradigma da mesma, isto é, o ensino está voltado para o desenvolvimento das competências e habilidades do estudante, no qual é respeitado o tempo de aprendizagens de cada indivíduo.
Diante disso, a figura do professor passe ser o de mediador de aprendizagens, onde no processo de ensino- aprendizagem, o aprendiz é o protagonista dessa relação, pois são respeitados os conhecimentos (prévios) de mundo adquirido e o docente desenvolve várias estratégias para intervenção, com o intuito, de que todos aprendam.
Essa nova demanda caracterizada pela diversidade, excluída pela sociedade que até pouco tempo, a escola começou atender, no entanto, não se preparou qualitativamente no aspecto humano e técnico material, haja vista, os resultados divulgados, em 08/09/2010, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre o analfabetismo no país:



JUSTIFICATIVA.
Na busca de uma resposta contra ao problema do fracasso escolar, nas duas últimas décadas do século XX e início do XXI, partiu-se do paradigma que todos aprendem no seu tempo e ritmo; outras ciências estão contribuindo na saúde física e mental do indivíduo, para facilitar o desenvolvimento da aprendizagem.
A Pedagogia está sendo auxiliada pelas áreas como: a Fonaudiologia, Psicologia e Psicopedagogia, entre outras, são parceiras da escola do século XXI, pois, o mais importante, é que todos os problemas clínicos ou psíquicos, nos quais possivelmente o discente possa ter, sejam sanados, afim de que a aprendizagem aconteça.
A psicopedagogia surge com grande destaque no Brasil como uma das respostas para a dificuldade de aprendizagem.


MÉTODO.
Esse trabalho baseia-se nas leituras: Oliveira, Silvia Sely Sillos. A importância do psicopedagogo frente às dificuldades de aprendizagem (Artigo novembro 2006);
Silva, Maria Cecília Almeida. Psicopedagogia: A busca de uma Fundamentação teórica. Editora Paz e Terra 2010;
Beauchair, João. Psicopedagogia Trabalhando Competências, Criando Habilidades. Editora Wak 4° edição 2011;
Lei de Diretrizes de Base da Educação (LDB 9394/96).

Além das leituras sobre o tema abordado, outro elemento norteador para o desenvolvimento desse artigo foi a entrega de um questionário com cinco perguntas para três psicopedagogas que atuam em clínicas particulares, e com posse desse material dar-se-á a tabulação para a análise.

As profissionais são: Tânia Regina Garrucho, Cristina K. Tamashiro e Valéria Modesto de Jesus, todas com experiência na área da psicopedagogia.  Segue abaixo as questões e as respectivas respostas das envolvidas na pesquisa:

1 - Como você se vê profissionalmente como psicopedagoga?
Tânia Regina: “Para mim, vivenciar a Psicopedagogia é um estado de ser e estar sempre em formação e em processo de criação”.
CristinaTamashiro: “ Desde a Graduação vim descobrindo o interesse no trabalho com crianças, ao entrar em contato com a Psicologia de Desenvolvimento, Psicomotricidade e mais tarde com a teoria de Piaget, portanto, a minha formação sempre foi se definindo para a área infantil e Educação, o que só veio a se confirmar ao atuar na prática. Sinto grande realização profissional e pessoal, apesar das grandes dificuldades que encontramos, pois sei que os problemas de aprendizagem envolvem uma série de fatores( psicológicos, sociais, orgânicos, etc), o que nem sempre é fácil de lidar”.
Valéria Modesto: “Depois de vinte anos formada e trabalhando como psicoterapeuta, percebo que só os cursos de psicologia e de psicopedagogia não são suficientes para os atendimentos, a demanda e as novas necessidades me obrigaram ao aprimoramento, buscando nos cursos uma atualização necessária e desafiadora. Contudo minha experiência em atendimentos clínicos faz com que tenha ‘insigts’ mais rápidos para procurar outros recursos. Percebo que o pais aceitam melhor o atendimento psicopedagógico do que o psicoterápico, a ansiedade e busca por resultados imediatos justificam esta preferência”.

2 - Qual é a sua relação no atendimento com crianças ou adolescentes com déficit de aprendizagem?
Tânia Regina: “Através do diagnóstico clínico, a possibilidade de identificar as causas dos problemas de aprendizagem. Para isso, podemos usar instrumentos tais como: provas operatórias, projetivas (desenhos); a anamnese deve acontecer nos primeiros contatos da família com o terapeuta. Realiza-se uma entrevista inicial com os pais ou responsáveis para conversar sobre horário, a quantidade de sessões, honorários, a importância da frequência e da presença. Em seguida, após o contato, discuti-se na sessão o histórico do sujeito, desde o seu nascimento. O diagnóstico normalmente é composto de 8 a 10 sessões, na quantidade de 2 por semana duração de 50 minutos cada. Durante o tratamento são realizadas diversas atividades com o objetivo de identificar a melhor forma de se aprender e o que poderá está causando esse bloqueio. Os recursos utilizados são os jogos, desenhos, brinquedos, brincadeiras, historietas, e outras situações que forem oportunas. Através dos jogos a criança adquire maturidade, aprende a ter limites, a ganhar e a perder. Desenvolve o raciocínio e aprende a se concentrar. Durante as sessões solicitamos as tarefas escolares, observamos a organização e os possíveis erros, ajudando os a compreendê-los, ajudando-os a encontrar uma condição adequada para estudo. Nesse caso, vamos até à escola conversar com o professor, pois esta intervenção é de extrema importância, pois ajuda desta forma o tratamento”.
Cristina Tamashiro: “Em meu trabalho sempre enfatizo a importância do vínculo, acredito que é a base fundamental de qualquer trabalho terapêutico. Busco estabelecer uma relação agradável, dialética e confiável, que representa a figura da aprendizagem ou do ‘ensinante”. “Acredito que é a reconstrução desta relação que chega ao consultório de forma negativa, que nós enquanto psicopedagogos procuramos transformar, sem isto, o processo pedagógico pode ficar comprometido”.
Valeria Modesto: “Primeiro é de fazer o diagnóstico, depois é de ajudá-lo na sua necessidade, tentando entender e motivá-lo no desejo de aprender através da sua área de interesse respeitando sua faixa etária, contexto social e cultural. Quando há necessidade de outros encaminhamentos, faço em conjunto com os envolvidos (a família, escola e outros profissionais na discussão do caso)”.

3 - Quais são os maiores obstáculos que você encontra na sua área de atuação?
Tânia Regina: “Alguns paradigmas ainda precisam ser registrados, é preciso pensar reflexivo sobre esta área do conhecimento por ser constituir em uma das mais importantes tarefas a ser desempenhada por ser um campo de ação de profissionalização, dedicação e estudo.”
Cristina Tamashiro: “Os objetivos da escola dificilmente, raras exceções, acolhem o ritmo e interesse da criança, o que é tão apregoado dentro da Psicologia. Percebo que às vezes o professor, mesmo com intenções neste sentido, fica restrito ao seguimento da filosofia e regimento da instituição. Outros aspectos são os das particularidades com relação à família, como financeiros (exames, outros tratamentos, freqüência) ou de participação do processo orientações ou modificações na rotina).”
Valéria Modesto: “O conhecimento da profissão, a desmistificação, a prontidão e conscientização dos pais para procurar e os recursos financeiros. Geralmente a escola encaminha, porém chegam ao consultório quando se tem o risco de reprovação do aluno (escola particular), nas escolas públicas a procura é tardia e geralmente os pais, como já foi citado, não tem o recurso financeiro, quando é preciso fazer outras avaliações complementares.”

4 - Como se processa a sua relação com os outros profissionais como professores, fonoaudiólogo, psicólogo, psiquiatra entre outros, para o desenvolvimento do seu trabalho com crianças ou adolescentes com déficit de aprendizagem?
Tânia Regina: “Ajudar, colaborar e interagir com troca de ideias, auxiliando-os na melhor forma de elaborar um plano de aula ou de trabalho, para que as crianças e adolescentes possam entender melhor as aulas. Orientar os professores na melhor forma de ajudar em sala de aula, aqueles alunos com dificuldades de aprendizagem.”
Cristina Tamashiro: “Procuro o contato sempre que necessário ou possível, pois também envolve questões financeiras por parte da família no caso de visitas. O contato telefônico às vezes também é dificultoso pela incompatibilidade de horário, mas não tenho dificuldades de acesso às escolas. No geral, tenho sido recebida de forma receptiva e atendida em minhas solicitações. Como a participação dos professores e observação em campo, por exemplo. Minha dificuldade maior se dá com os médicos      (neurologista, psiquiatra), dificilmente lhe atendem, retornam ou aceitam visitas pessoais. Também trabalho numa clínica multiprofissional, com fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, etc. Neste caso o trabalho, o contato e as trocas são facilitadas”.
Valéria Modesto: “Minha relação com os profissionais é boa, sempre dispõem a discutir o caso, porém se barra sempre no recurso financeiro dos pais, neste caso priorizo na ordem da necessidade do aluno, por exemplo: quando precisa de fonoaudiólogo mais psicopedagogo”.

5 - Quais sugestões você daria para os novos profissionais em início de carreira?
Tânia Regina: “Ir além da simples junção de conhecimentos oriundos da Psicologia e da Pedagogia com a meta de adquirir uma ampla compreensão sobre os variados processos inerentes no aprender humano. Enquanto área de conhecimento multidisciplinar interessa compreender como ocorrem os processos de aprendizagem e entender as possíveis dificuldades situadas neste movimento. Para tanto, será importante um estudo integrando os vários campos do conhecimento a Psicologia, a Psicanálise, a filosofia, a Pedagogia, a Neurologia etc.”.
Cristina Tamashiro: “A experiência é muito importante, por isso comecei numa pequena escola de Educação Especial, e pouco antes de terminar a especialização clínica. No começo para mim foi mais importante o interesse e o desejo pelo conhecimento, a partir daí foi preciso buscar oportunidades, fazer contatos, cursos (muitos acessíveis e outros gratuitos) nunca ficar estagnada. Apesar das dificuldades os profissionais, a Educação tem um papel fundamental no futuro (das crianças e de tudo!), a escolha pela educação é algo alma e só deve permanecer quem tem esta ligação, só assim desempenharemos bem nosso trabalho. E trabalhando assim, o retorno vem tudo em relação com o sucesso como financeiro. É nisto que eu acredito, portanto colegas: VAMOS À LUTA E BOA SORTE!”
Valéria Modesto: “Estarem sempre conectados com áreas afins e atender em conjunto com a escola e principalmente com a família para atender o contexto social que o aluno está inserido”.


ANÁLISES DOS DADOS COLETADOS.
Ao analisar o primeiro item respondido pelas psicopedagogas, percebe-se que elas veem essa área como uma busca constante de conhecimento com o objetivo de intervir de forma segura no processo de aprendizagem do indivíduo.
De acordo Beauclair (p. 31) 2011, “o psicopedagogo necessita desde constante movimento de olhar novos horizontes e caminhos para trilhar, para abrir espaços não só objetivos, mas também subjetivos, onde a autoria, e a autonomia de pensamento seja concreta possibilidade”.
Segundo Silva (p. 31) 2010, “o objeto da psicopedagogia é o homem como ser em processo de construção do conhecimento, ou seja, o ser cognoscente”.
Desta forma, as psicopedagogas desconstroem paradigmas enraizados no paciente, que dificultam a aprendizagem; para em seguida, construírem um ser autônomo em ação, perante a uma dificuldade.
No segundo item observa-se que as profissionais enfatizam a importância do vínculo com o paciente, pois ele precisa confiar no profissional, para que se desenvolva o processo pedagógico, em seguida, o contato familiar, se for necessário com outros, que participam na vida do paciente.
De acordo Beauclair (p.100) 2011, “os profissionais da Psicopedagogia podem contribuir de modo ímpar, com a possibilidade de inserções cada vez mais amplas, redimensionando suas práticas e teorias e, ao assim se conduzir, contribuir para o desenvolvimento do afeto e do amor em nossa sociedade com um todo, e nas relações de aprendizagem em particular. Novas e significativas aprendizagens surgem quando colocamos em postura amorosa”.
Conclui-se, se não houver afeto, confiança, motivação, respeito por parte do paciente em relação ao profissional que o atende, o desenvolvimento da aprendizagem do indivíduo fica comprometido.

No terceiro item, verifica-se, segundo as profissionais, que os problemas para a atuação dessa área são:
a-      Os objetivos da escola dificilmente atendem o interesse na criança e não respeita seu ritmo de aprendizagem;
b-      O desconhecimento no campo de atuação do psicopedagogo e sua profissionalização por parte daqueles que precisam do profissional;
c-      E a dificuldade em relação à família, desde seu entendimento do trabalho psicopedagógico, o acompanhamento do processo terapêutico do indivíduo, como também, a questão financeira.

Por conta dessas dificuldades na área de atuação da psicopedagogia, exige que os profissionais estejam sempre à procura de novos caminhos para atender da melhor forma os pacientes, por isso a importância de ter um diálogo receptivo com outros profissionais, no entanto, sem perder de vista o foco da psicopedagogia.
De acordo Beauclair (p. 79) 2011, “compromissado com a busca da competência profissional para que sua prática seja significativa, o profissional de Psicopedagogia deve propor que suas formações sejam continuadas, instigantes, desafiadoras e problematizadas, disponibilizando a si mesmo e aos diferentes grupos com os quais interagem pontos de mobilização e de busca de possíveis soluções para que, à luz de referenciais práticos e teóricos, possa ser válido todo seu esforço e trajetória”.
No quarto item percebe-se que as elas têm contato fácil com os profissionais da educação (professores, coordenadores pedagógicos e diretores), até mesmo dão orientações aos docentes de como agir com o aluno em tratamento, como também, há uma boa acessibilidade com fonoaudiólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais; no entanto, com os médicos (neurologistas e psiquiatras) existe dificuldade no contato.
No quinto e último item, as psicopedagogos sugerem que os novos profissionais busquem novos caminhos para o desenvolvimento da psicopedagogia, por meio de estudos, contatos com outras áreas de conhecimento como: psicologia, psicanálise, filosofia, pedagogia, neurologia entre outros.

De acordo Beauclair (p. 93) 2011:
“Ter o encorajamento de contatar autores, estudantes, universidades, grupos de estudos (chats e fóruns) para ampliar oportunidades de comunicação, acesso e conhecimento, intercambiando, ideias, projetos e fomentando a participação cooperativa”.


CONCLUINDO.
Após as leituras sobre a área de Psicopedagogia e as entrevistas com as profissionais da área, a conclusão é:
a-      A Psicopedagogia é uma ciência nova, e como tudo que se inicia , há necessidade de muito estudo e pesquisa, inclusive para alicerçar o campo teórico;
b-      Como é uma área nova, ainda há muita confusão entre ela e as outras ciências como, por exemplo, a Psicologia;
c-      O objetivo da Psicopedagogia é resgatar a dificuldade que impediu o individuo de aprender durante o processo de aprendizagem e intervir  de forma a derrubar  essa  barreira, para que  ele possa reconstruir  e prosseguir com suas aprendizagens;
d-     A importância da parceria da Psicopedagogia e as demais áreas que atendem o indivíduo como os profissionais da educação e a saúde, como também, a família do paciente, tendo como objetivo comum a aprendizagem do envolvido.
e-      Como os profissionais da psicopedagogia são os investigadores sobre as dificuldades que o indivíduo tem em aprender, é necessário, uma pratica constante de formação, pois isso facilitará no atendimento de qualquer paciente.


PARA SABER MAIS SOBRE O ASSUNTO.
BEAUCLAIR, João. “Psicopedagogia Trabalhando Competências, Criando Habilidades”. Editora Wak, 4 ° edição, 2011.
LDB 9394/96. Lei de Diretrizes de Base Da Educação.
OLIVEIRA, Silvia Sely Sillos. “A Importância do Psicopedagogo frente às Dificuldades de Aprendizagem.” (Artigo novembro 2006).
RUIZ, Santiago Hernández. “Psicopedagogia do Interesse” (Estudo histórico, Psicológico do Conceito mais Importante da Pedagogia Contemporânea). (Companhia Editora Nacional São Paulo).
SILVA, Maria Cecília Almeida. “Psicopedagogia: A Busca de uma Fundamentação Teórica”. Editora Paz e Terra 2010.


Texto: Prof. Reginaldo Pereira de Jesus.
Pós-Graduando em Psicopedagogia Institucional pelo INEC/UNICSUL.