Publicação brasileira técnico-científica on-line independente, no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar o conhecimento com qualidade acadêmica e rigor científico, mas linguagem acessível.


Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

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domingo, 5 de julho de 2015

A antropologia teológica e sua função ética.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 6, Volume jul., Série 05/07, 2015.


Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

Doutor em história social - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.

Licenciado em história - CEUCLAR.
Licenciado em filosofia - FE/USP.
Bacharel em filosofia - FFLCH/USP.

Por definição, a chamada Antropologia Teológica configura uma área do conhecimento que procura articular a existência humana com a verdade revelada por Deus, supostamente registrada na Bíblia cristã.
É uma tentativa de compreensão de fenômenos naturais à luz da ciência, conciliando a fé e as crenças coma racionalidade, explicando a vida humana individual e coletiva, bem como as implicações práticas decorrentes e suas possibilidades de humanização e realização.
Atualmente é uma tendência que está se enraizando nos meios universitários, vinculados com a Igreja Católica, demonstrando grande preocupação com aspectos pertinentes à ética enquanto ciência normativa.
Neste sentido, a Antropologia Teológica pretende realizar a distinção entre ética e moral, dentro do contexto da sociedade da informação, da globalização e da cidadania.
Em um momento em que o ambiente pessoal e profissional exige do individuo uma postura de responsabilidade social e o discernimento dos limites da liberdade, pensa no respeito ao outro como garantia de ver respeitados os próprios direitos.
Isto porque é preciso ter clareza no significado do termo ética, não confundir a referência conceitual com esferas ligadas entre si, mas que são distintas; tal como a moral, o direito ou a ideologia.
O grande problema inicial é, antes de tudo, a própria definição do que se entende por ética.
Existe uma confusão reinante no sendo comum que não distingue ética e moral.
O que tem razão de ser, porque um conceito não existe sem o outro, estando entrelaçados, além da ética ter sofrido modificações conceituais ao longo da história, com vários desdobramentos.
Entretanto, é fato que ética e moral são distintos.
A gênese da confusão está na origem dos termos e em sua concepção primitiva, repleta de paralelos e aproximações.
A palavra Ética nasceu na Grécia antiga, deriva de Ethos, que significa morada ou residência.
A partir da qual surgiu o termo Ethica, significando personalidade, assumindo a utilização usual para expressar costumes e hábitos.
Desde então, vários filósofos abordaram a sua conceituação, cunhando uma significação de senso comum, ainda corrente, de normatização de comportamentos.
A palavra Moral nasceu do termo romano Mos/Moris, que expressa em latim o mesmo que os similares gregos.
É, portanto, uma tradução que também significa moradia ou personalidade.
Acontece que ética e moral foram se tornando distintas ao longo do final da Idade Antiga; a despeito de, no século XIX, Hegel ter afirmado que eram sinônimos.
Ao longo da história do pensamento Ocidental, a ética foi considerada como moral dos filósofos, chamada filosofia moral; estando fixada no âmbito do público e do universal.
Já a moral foi considerada pertencente ao particular e subjetivo, circunscrita ao sujeito e sua privacidade.
Em termos práticos, a definição contemporânea é exatamente a oposta.
A moral define um conjunto de regras que valem para todos, sendo impostas pelos costumes, padronizando comportamentos dos indivíduos inseridos no conjunto da sociedade, pouco importando o que cada um faz na privacidade, desde que não interfira na coletividade.
A moral se insere em um contexto político, diz respeito ao individuo e a figura da pessoa.
Dois termos usados, pelo senso comum, como sinônimos, mas que não significam a mesma coisa.
A palavra Indivíduo, a partir do grego antigo, significa objeto do pensamento sem partes, remetendo a sua significação sociológica: elemento ou ser particularizado que não existe sem o conjunto da sociedade.
Portanto, o indivíduo, apesar de compor um todo integral, é aquele que não pode ser separado ou dividido da coletividade. Termo que se aplica ao contexto aristotélico aplicado a política, a vida em sociedade.
Para Aristóteles, a política é a Ciência mais suprema, a qual todas as outras estão subordinadas, sendo sua tarefa investigar o que diz respeito às coisas públicas para garantir a felicidade coletiva, tal como a melhor forma de governo e instituições capazes de gerenciar o conjunto de indivíduos.
A palavra Pessoa deriva do latim Person - de onde vem Personagem -, a máscara usada pelos atores na representação teatral na antiguidade, denotando a representação do ser, daquilo que a sociedade imagina que alguém é, ou aquilo que o próprio deseja que seus semelhantes pensem que ele é.
Assim, a palavra está ligada com a aparência, remete imediatamente a condição moral, atendendo as expectativas impostas pela sociedade, forjando uma máscara que a pessoa precisa adotar para ser aceita pelo grupo.
O que originou o termo Pessoa Física, manifestação do caráter individual, político, da pessoa moral; exprimindo seus direitos e deveres garantidos pela legislação convencionada pelo Pacto Social.
Em sentido amplo, a ética se aplica ao sujeito, determinando ações que não necessariamente atendem imposições que nascem no exterior, tal como a moral.
A ética determina ações que permitem buscar a felicidade, não a aceitação, conduzindo ao conceito de liberdade e responsabilidade.
O indivíduo é livre para buscar a felicidade, mas não pode ferir o direito do outro de também ser livre.
Ao mesmo tempo, a busca da felicidade implica em responsabilidade para consigo mesmo, o outro, a sociedade e a humanidade.
Esferas com as quais o sujeito está comprometido, porque não pode ser feliz individualmente se não contribuir para a felicidade coletiva.
O termo Sujeito é o que melhor se aplica a este contexto, já que a partir da concepção original da palavra na antiguidade, significa “aquilo que é submetido à reflexão, à discussão”.
O sujeito é o que os filósofos chamam de Ser, aquilo que realmente é; expressando o objeto do conhecimento, a interiorização do mundo e sua significação para alguém.
Portanto, o sujeito é aquele produz atos pensados, racionalizados a partir da construção do conhecimento.
O que fornece uma pista valiosa do que é a ética, pois constitui padronização de ações de forma ponderada pelo sujeito; pensada depois de investigação das necessidades do indivíduo e do pragmatismo coletivo. Transformando o termo em um significado que expressa seu caráter cientifico.
Em outras palavras, a despeito de sua conceituação que pode ser mais estreita que a moral, quando aplicada a sentidos específicos, como a ética profissional; em sentido amplo, a ética é maior que a moral, porque é também uma Ciência.
Quando se discute o conceito de ética, inevitavelmente, acabaremos concluindo que é totalmente distinta da moral; mas está entrelaçada, propondo valores racionalizados, critérios para julgar o certo e o errado, influenciando e sendo influenciada pela moral e o direito.
A ética possui, portanto, uma função moralizadora, banalizando juízos, discutindo o que é moral, ajustando os princípios aceitos pelo conjunto da humanidade e, ao mesmo tempo, padronizando códigos de comportamento que pertencem a grupos ou profissões específicas.
Destarte, a ética possui também uma função humanista, criticando posturas de ação, examinando fundamentos.
Pensando os valores de forma sistematizada, caracterizando uma Ciência que idealiza o comportamento ideal, racionalizando a relação do sujeito consigo mesmo, o outro e o mundo.
A utilidade da ética insere-se no âmbito humano da valorização da liberdade através do conceito de responsabilidade; simultaneamente, padronizando regras de comportamento para facilitar o convívio entre indivíduos.
A ética torna a coexistência entre as pessoas possível e aceitável também pelo prisma do sujeito, de sua consciência interna.

Para saber mais sobre o assunto.
ARISTÓTELES. A ética: textos selecionados. São Paulo: Edipro, 2003.
BIGNOTTO, Newton. Ética. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
MARTINI, Carlo Maria. Viagem pelo vocabulário da ética. São Paulo: Ed. São Paulo, 1994.
VALLS, Álvaro L. M. O que é ética. São Paulo: Brasiliense, 2008.



sábado, 1 de dezembro de 2012

O que é Antropologia?



Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 3, Vol. dez., Série 01/12, 2012, p.01-09.

 

O estudo do homem implica em entender não só sua evolução e o processo de humanização, mas, principalmente, o desenvolvimento social, cultural e político; inserindo-se no âmbito das Ciências Humanas.

Dentro das humanidades, encontramos as chamadas Ciências Sociais, abordando uma imensa gama de subdivisões, entre as quais a sociologia e a história.

A partir destas duas surgiu a antropologia, uma irmã siamesa, à medida que é uma ciência auxiliar das ultimas, a despeito delas também comporem seu arcaboiço teórico instrumental.

No entanto, a antropologia no Brasil é conhecida apenas superficialmente.

Primeiro porque não existem cursos de graduação na área em nosso país, por aqui temos somente mestrados e doutorados neste segmento, em geral, desenvolvidos por bacharéis e licenciados em história ou sociologia.

A antropologia é, erroneamente, simplesmente considerada uma pequena parte da sociologia.

Depois, porque a antropologia é interdisciplinar, estando presente em todas as áreas do conhecimento humano e transitando por todas elas como ciência auxiliar, servindo-se das mesmas como instrumento de pesquisa, tal como: administração, estatística, psicologia, economia, pedagogia, biologia, direito e outros segmentos da saúde, exatas e humanidades.

Isto porque todas as ciências convergem para o entendimento do homem, servindo aos interesses humano, percorrendo caminhos diferentes, mas paralelos, pelo quais a antropologia transita confortavelmente.

 

Definindo e conceituando a antropologia.

Por definição, a antropologia é um dos segmentos da matriz básica das Ciências Humanas, aquela com origem mais recente, embora não menos importante, pois é subsidio para outras Ciências Sociais, incluindo a suas irmãs siamesas: história e sociologia.

Etimologicamente, a palavra antropologia deriva do grego anthropos (homem), somado a logos (estudo, razão, lógica).

Neste sentido, a antropologia é o estudo do homem, com especial ênfase na vida em sociedade e nos aspectos culturais, interessando-se também pelo individuo e sua psicologia.

Enquanto ciência, surgiu no século XIX, mas só adquiriu status e reconhecimento ao longo do século XX.

Inicialmente estudava as populações mais arcaicas, sociedades simples ou ditas “primitivas”; deixando o estudo das populações contemporâneas, das chamadas sociedades complexas, para a sociologia.

Uma tendência abandonada em beneficio da ampliação do campo de estudo antropológico a partir da década de 1960, quando foram iniciadas pesquisas no âmbito urbano atual, onde se insere a antropologia jurídica, segmento do Direito.

A antropologia se distingue da sociologia por ser uma ciência que pretende estudar os aspectos sociais pelo prisma do observado, colocando-se no lugar do outro; enquanto a sociologia observa a sociedade visualizada por fora, pelo ponto de vista do observador.

Igualmente, enquanto a antropologia organiza os dados em relação às condições inconscientes da vida social; a historia problematiza a vida social consciente.

Embora o entendimento de um aspecto dependa do outro, visto que as mentalidades e sua formação é, simultaneamente, objeto de estudo da antropologia, história e sociologia.

É interessante ressaltar que esta relação interdisciplinar, fez da antropologia uma ciência transdisciplinar, que transita por diversas áreas.

Entretanto, o que não impediu a segmentação da antropologia, representada, por exemplo, pela antropologia jurídica; a qual pretende entender o funcionamento da mente criminosa a partir de perspectiva, motivações, etapas, etc.

 

Filosofia da Cultura.

A vinculação da antropologia com a história e a sociologia é obvia, porém, mais nítida ainda é sua ligação com a filosofia.

Não por acaso a cultura é o centro da antropologia, tanto que antes foi chamada de filosofia da cultura.

A antropologia, como a filosofia, aspira conhecer o “homem total”; diferente da ultima, que pretende estabelecer a verdade; estuda as produções e representações humanas, analisando costumes, crenças, leis, instituições, técnicas, relações e estruturas sociais, objetos físicos com utilidade atribuída pela prática ou significado e até a linguagem.

Enfim, a antropologia observa tudo que diz respeito ao homem para melhor entende-lo, mas considera a construção deste conhecimento apenas uma possibilidade, trabalhando com verdades provisórias, ou seja, teorias, o que a filosofia não faz.

Humanista na sua essência, a antropologia estuda a evolução humana, não só no seu aspecto fisiológico, mas também através de ideias, valores, símbolos, normas, costumes, crenças, invenções, ambientes, etc.

Configurando uma verdadeira filosofia da cultura, um pensar tudo que é humano, já que tudo implica em uma vertente cultural.

Configurando uma ciência auxiliar para outras áreas e constituindo base teórica importante para a sociologia e história.

Ao mesmo tempo carece de ciências auxiliares, além das já mencionadas, tal como politica, geografia, linguística, economia, etc.

Assim, é quase tão ampla como a filosofia, produzindo resultados diferentes, pensando o homem sob outra ótica.

 

Base Teórica e Prática.

Dado a amplitude de seu objeto de estudo, o homem em todos os seus aspectos ao longo da variação do tempo e espaço, a antropologia possui inúmeras subdivisões, dentre as quais cabe destacar 4 básicas:


1. Antropologia Pré-Histórica: a qual consiste no estudo do homem através dos vestígios materiais de cunho arqueológico e pertencente a paleontologia (estudo dos fosseis, vestígios matérias de organismos vivos), pretendendo reconstituir a vida de sociedades desaparecidas.
 

2. Antropologia Linguística: estuda a linguagem em todos os seus aspectos; transitando pela oralidade, escrita, gestual, simbolismo, etc; considerados patrimônio de uma sociedade e da humanidade, meio de expressão de valores, crenças e pensamentos; e não apenas meio de comunicação.
 

3. Antropologia Biológica ou Física: estuda a evolução do homem a partir de seu vinculo fisiológico, da distribuição étnica, genética, geográfica e ecológica (interação do homem com o meio ambiente e alterações na natureza para adaptar o espaço as necessidades humanas).

 
4. Antropologia Cultural ou Social: estuda a totalidade da vida social humana, seus modos de produção, organização política e jurídica, sistemas de parentescos, sua sistematização do conhecimento, crenças religiosas, língua, psicologia, criações técnicas, cientificas e artísticas.

 
Este último segmento, tradicionalmente, sendo mais amplo que os anteriores, dividiu-se em duas vertentes:

 
1. Etnografia.

Etimologicamente, significa descrição (grafei = escreverem grego) de um povo ou nação (ethno), ou seja, descrição de uma cultura.

Termo criado por Bronislaw Malinowski, antropólogo polonês, em 1922, utilizado na obra Os argonautas do Pacifico Sul; relato de seu trabalho de campo junto a nativos das ilhas Trobriand, arquipélago de 440 km quadrados próximo a Nova Guiné, na Oceania.

É o primeiro passo na pesquisa antropológica, consistindo, justamente, na pesquisa de campo, ocupando-se da descrição da cultura estudada; reconstituindo, tão fielmente quanto possível, a vida de um povo.

Englobando métodos e técnicas de classificação, descrição e analise de fenômenos culturais.

A pesquisa etnográfica envolve recolher relatos e objetos materiais, observar comportamentos e costumes do ponto de vista das diferenças; compondo fontes de estudo para a antropologia e a etnologia, a segunda etapa da tentativa de entendimento do outro.

 
2. Etnologia.

A partir do grego, a palavra significa estudo do povo ou nação, sendo um prolongamento da etnografia, embora sua origem seja anterior à antropologia cientifica.

O termo existe desde os gregos antigos, porém, foi usado pela primeira vez, com o sentido atual, pelo austríaco Adam Fraz Kollór em 1783, denotando uma ciência que estuda as origens dos povos.

É o segundo passo da pesquisa antropológica, ocupando-se do estudo da cultura, em geral, a partir de dados levantados pela etnografia, investigando e problematizando os costumes humanos, discutidos pelo viés teórico.

Utiliza métodos comparativos, examinando relatos, objetos, descrições e documentos para elaborar uma síntese do objeto estudado, orientado pela geografia, história e cultura para entender o outro e a si mesmo.

 
Embasada em um contexto teórico rico e segmentado, a antropologia articula-se com a prática, parte da vida cotidiana para entender o homem através de seu próprio referencial.

 

Os primórdios da antropologia.

Embora a antropologia tenha se configurado como ciência ao longo do século XIX e XX, alguns teóricos consideram os gregos como inventores do conhecimento antropológico.

Na antiguidade, os gregos tenham uma visão etnocêntrica do mundo, considerando outros povos como bárbaros, inferiores desprovidos de atividades civilizadas; despertando a atenção para a questão do outro, a partir do estranhamento, e uma discussão sobre a própria identidade - a forma como enxergavam a si mesmos e o que consideravam características em comum entre eles.

O estranhamento significa a perplexidade diante de culturas diferentes, fazendo as comparações, utilizadas para afirmar a superioridade, provocar um olhar para si mesmo e, portanto, o reconhecimento do que torna o “nós” diferente do “eles”.

Junto com a repulsa, provocando também um fascínio pelo estranho, investigações foram fomentadas pelo estranhamento com relação ao outro, a despeito do objetivo de conhecer para inferiorizar.

Uma tradição herdada pelos romanos, para os quais a preocupação em conhecer o outro na sua totalidade, entendendo suas motivações, inseriu-se em um objetivo maior: conhecer o inimigo para dominar, dividir para conquistar.

Os romanos procuravam conhecer os povos considerados inimigos em potencial para, depois, impor sua cultura; oferecendo cidadania para alguns, vistos como aliados, enfraquecendo uma oposição centralizada; enquanto outros povos escravizava, colocando os aliados para vigiar.

Roma administrava as rivalidades em favor dos seus interesses, fazendo-se necessário conhecer o outro, seu modo de pensar e agir, para dominar.

O que criou um antagonismo envolvendo o mundo dito civilizado, herdeiro da cultura greco-romana, em oposição à barbárie.

Depois transferida para o choque de civilizações: cristandade x islamismo.

Cada qual se considerando civilizada em oposição a um mundo bárbaro.

Não obstante, o reconhecimento do valor da cultura do outro aconteceu somente com o fim da Idade Média; a oposição religiosa entre cristandade e muçulmanos impediu qualquer atributo além de inimigos civilizacionais por excelência.

A antropologia e sua preocupação com o entendimento do outro pelo seu próprio prisma cultural fez parte da filosofia até o século XIX, iniciando a construção de sua autonomia somente no século XVIII, com o iluminismo e a enciclopédia.

No entanto, a gênese da reflexão contemporânea antropológica remonta a descoberta da América, não por acaso nomeada “Novo Mundo”; trazendo à superfície a diversidade étnica e cultural, estimulando discussões em torna das diferenças entre povos e características em comum que definem a humanidade.

O século XVI foi marcado por relatos de cronistas e viajantes descrevendo estranhamentos, o que hoje pertence à etnografia, mas que na época serviu de base para discutir afinidades e diferenças entre povos e os limites da humanidade.

Em meio a relatos fantasiosos, que se confundiam com dados concretos reais, discutia-se até que ponto aborígenes das Américas e de outras partes do mundo realmente pertenciam à espécie humana, com argumentos utilizados para negar a humanidade e justificar a escravidão e indígenas e africanos, em um contexto racista e preconceituoso.

Estas discussões criaram o conceito de desenvolvimento a partir de um estado primitivo, que justificava o domínio europeu sobre o mundo; uma vez que a Europa, o Velho Mundo, teria se aprimorado, atingindo o ápice civilizatório que pretendia propagar.

O que inaugurou a recusa do outro, a despeito de certa admiração pelas sociedades indígenas, vivendo ao estilo do paraíso cristão.

Entretanto, as tentativas de entendimento do outro, através de sua própria cultura, continuaram distorcendo a compreensão devido ao referencial centrado no “eu” ao invés do “eles”, carregado de conceitos pré-concebidos.

Herdeiro do Renascimento, da substituição do teocentrismo pelo antropocentrismo; das ideias de Copérnico e Galileu, do racionalismo cartesiano; o século XVIII aprofundou os estranhamentos do século XVI e XVII, marcou um projeto do que se tornaria os primórdios de uma ciência do homem.

O francês Jean-Jacques Rousseau, ao escrever O contrato social e A origem a desigualdade entre os homens, cunhou o conceito de “Bom Selvagem”, silvícola, homem primitivo vivendo mais próximo do estado natural humano, tal como qualquer um seria se não tivesse sofrido o processo civilizatório; observando e descrevendo o outro, isentando-se de valores morais, religiosos ou políticos.

Tendo como problemática central a relação entre natureza e cultura, Rousseau colocou o homem civilizado como degeneração da natureza, observando o outro com admiração, como dotado de qualidades.

É por isto que Claude Lévi-Strauss considera Rousseau como fundador da antropologia, uma opinião não compartilhada pela grande maioria dos teóricos.

Uma vez que, como salientou Laplatine, não existia ainda uma distinção entre o conhecimento cientifico e filosófico, com a antropologia inserida fortemente na filosofia especulativa, carecendo de sistematização metodológica.

Além do fato do discurso antropológico não se distinguir do relato histórico, repleto de um viés evolucionista, carregado de teor civilizatório europeu como ápice do progresso cultural.

A antropologia teria que aguardar algumas décadas para surgir como ciência no século XIX.

 

O nascimento da antropologia.

A corrente mais aceita delimita o nascimento da antropologia vinculada com seu caráter biológico, atribuindo a Charles Darwin seu fomento, circunscrito ao século XIX.

Quando se confundiu com o surgimento da sociologia, segundo alguns continuando embaralhada com esta até a metade do século XX, ganhando então espaço e reconhecimento.

Neste sentido, diversos teóricos afirmam que Jean-Baptiste Lamarck poderia ser considerado o pai da antropologia no século XIX, visto que sua proposta para explicar o evolucionismo teria sido usada para entender as diferenças culturais provocadas pela adaptação dos povos ao meio.

No entanto, existe um consenso em considerar como pai da antropologia o polonês Bronislaw Malinowski; devido ao fat9 de ter iniciado os estudos etnográficos, trazendo para a área o rigor metodológico cientifico que ajudou a construir credibilidade acadêmica; como também por ter transposto o componente biológico, agregando a orientação social, depois conhecida como antropologia social.

Ao inserir a corrente funcionalista na antropologia, Malinowski propôs a observação da sociedade e da cultura como um todo, examinando o contexto social como um organismo vivo, um ser biológico que deveria ser estudado com objetividade cientifica.

Negando o evolucionismo e sua noção de estágios de desenvolvimento, foi contra o difusionismo, uma corrente que afirmava que a cultura seria transmitida por empréstimo, não nascendo no interior da sociedade estudada.

Os estudos do polonês dominaram o panorama antropológico entre 1922 e 1942, cunhando conceitos, métodos e técnicas que conferiram à antropologia um status de ciência voltada para o entendimento da lógica interna de cada cultura, sistematizando o conhecimento do outro pelo seu próprio prisma.

Teóricos de períodos anteriores e contemporâneos de Malinowski, por vezes, figuram nos manuais de antropologia como pais da ciência; como Edward Tylor (1832-1917), Lewis Morgan (1818-1881), Franz Boas (1858-1942), e Radcliffe-Brown (1881-1955).

Embora estes tenham contribuído para a construção da antropologia; o polonês Bronislaw (1884-1942), merecidamente, é considerado o pai da antropologia cientifica pela imensa maioria dos manuais.

Foi Malinowski o primeiro a propor a genealogia, a história de vida e a comparação, como método e instrumental da antropologia.

Porém, existe uma vertente que considera o francês Claude Lévi-Strauss (1908-2009) como pai da moderna antropologia.

A despeito da contribuição do estruturalismo para área, o centro do conhecimento antropológico, relacionadas ao social, foi estabelecido por Malinowski.

O entendimento das sociedades como sistemas, com relações de dependência mútua em uma estrutura hierarquizada, características intrínsecas do estruturalismo de Lévi-Strauss, já estava presente na proposta de Malinowski.

Lévi-Strauss, ao lado de outros, como o linguista Saussure, agregou novos elementos, configurando a corrente estruturalista e inaugurando a antropologia linguística; mas não pode ser chamado de pai do amplo contexto antropológico contemporâneo.

Tendo a antropologia nascido como estudo das sociedades das sociedades pré-históricas, depois convertido em observação das ditas sociedades primitivas contemporâneas; ganhou um tímido contorno de ciência, no século XIX, através da antropologia biológica, trazendo si a etnologia desde a antiguidade.

Entretanto, carecia de métodos, instrumentais e técnicas cientificas.

Ao iniciar a antropologia cultural, Malinowski fundou a etnografia, propondo a observação participante, centro da moderna antropologia.

Por meio da qual a observação de um povo necessita da inserção completa do pesquisador dentro do seu objeto de estudo.

Ou seja, é preciso que o antropólogo vivencie as experiências para entender o outro por seu próprio prisma; justamente o que diferencia a antropologia da sociologia.

 

Concluindo.

Interdisciplinar e transdisciplinar, constituindo ciência auxiliar de diversas outras e carecendo de vários segmentos para se compor como ciência; em resumo, a antropologia busca ao conhecimento global do homem, tendo como objeto tudo que lhe diz respeito ao longo de um tempo e espaço amplo.

Portanto, estende-se através da geografia, história e sociologia, dentre outras e inúmeras áreas.

Aspira a um conhecimento total, aplicável ao desenvolvimento humano desde os hominídeos até os contemporâneos.

A antropologia tece conclusões que, percorrendo o entendimento do outro, contribuem para a compreensão das sociedades pós-modernas, do sujeito inserido em sociedade e do mundo contemporâneo.

 

Para saber mais sobre o assunto.

ASSIS, Olney Queiroz & KUMPEL, Victor Frederico. Manual de antropologia jurídica. São Paulo: Saraiva, 2012.
GOLDMANN, Lucien. Ciências Humanas e filosofia. São Paulo: Difel, 1974.
HERSKOVITS, Melville J. Antropologia cultural. São Paulo: Mestre Jou, 1963.
KUPER, Adam. Cultura: a visão dos antropólogos. São Paulo: EDUSC, 2002.
LAPLATINE, François. Aprender antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2006.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003.
LINTON, Ralph. O homem: uma introdução à antropologia. São Paulo: Martins Fontes, 1971.
MALINOWSKI, Bronislaw. Uma teoria da cultura. Rio de Janeiro: Zahar, 1970.
MALINOWSKI, Bronislaw. Argonautas do Pacífico Ocidental. São Paulo: Abril, 1978.
RADCLIFFE-BROWN, A. R. Estrutura e função na sociedade primitiva. Petrópolis: Vozes, 1973.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e desigualdade entre os homens. São Paulo: Abril, 1973.

 
Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela USP.
MBA em Gestão de Pessoas.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade de São Paulo.




 

domingo, 1 de julho de 2012

A importância das Ciências Humanas na formação profissional.


 
Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 3, Vol. jul., Série 01/07, 2012, p.01-08.

A rigor, as Ciências Humanas envolvem uma ampla gama de conhecimentos, aparentemente distanciados, tal como economia, administração de empresas, contabilidade, direito, geografia, psicologia, pedagogia, linguística, política, arqueologia, etc.

 
No entanto, a matriz básica que originou todas as outras subdivisões é constituída pela filosofia, história, sociologia e antropologia.
 
Ao passo que a primeira é mãe de todas as ciências não só humanas, mas também exatas e inerentes às biológicas ou saúde.
 
A história é quase tão antiga quanto à filosofia, embora seu referencial teórico vigente seja relativamente recente, remontando ao século XVIII e, principalmente, XIX e XX.

Já a sociologia e a antropologia são mais jovens, nasceram no século XIX e se desenvolveram no XX, estando ainda em fase de estruturação e, de certa forma, afirmação de sua cientificidade.
Pensando nesta matriz básica das Ciências Humanas, contemporaneamente, a formação dos profissionais das mais diferentes áreas, na maior parte dos casos, carece justamente deste referencial.
Abandonado em nome do aprimoramento técnico especializado, conduzindo a problemas de ordem ética e humanista que, por sua vez, terminam interferindo no desempenho eficiente da profissão qualquer que seja.
Um profissional da saúde que comete um erro de diagnostico, ou troca a medicação involuntariamente por falta de atenção, demonstra formação falha de natureza humanística.
Igualmente, um engenheiro que involuntariamente prejudica seres humanos, defendendo-se afirmando que se ateve apenas aos aspectos técnicos, também carece dos pressupostos básicos das Ciências Humanas.
Devemos lembrar que os nazistas, no final da primeira metade do século XX, torturaram, mataram e cometeram atrocidades bárbaras em nome da eficiência técnico industrial.
Usando seres humanos inocentes em experiências médicas e chegando ao requinte macabro de cortar os cabelos de suas vitimas dentro de um padrão industrial, que servia para fabricar chinelos para as tripulações dos submarinos alemães, antes de envia-las para as câmaras de gás.
Vitimando, sem distinção, homens, mulheres, jovens, velhos e crianças.
A grande questão envolta da ausência da reflexão humanista mais apurada está atrelada a invisibilidade do outro.
O profissional que nunca refletiu sobre temas filosóficos, históricos, sociológicos e antropológicos possui enorme dificuldade em reconhecer-se no outro, tratando o semelhante com descaso e ausência de ética.
Além disto, possui dificuldade para entender o mundo em que vive e a importância de suas ações para o progresso da humanidade.
Razão pela qual o processo civilizatório se encontra decadente, com o aumento dos índices de violência em todo planeta e a banalização do desrespeito para com a vida, fazendo imperar a mais pura anomia.
Um processo que inaugurou um estado em que paramos para refletir sobre estes efeitos, somente quando atingidos diretamente em nossa natureza psicológica e física.
Neste sentido, antes de aprofundar a discussão sobre a importância das Ciências Humanas na formação profissional, devemos percorrer os labirintos construídos pelo sistema capitalista.
Definindo inicialmente uma composição mais detalhada para as humanidades.

 
A natureza das Ciências Humanas.
Para entender a importância de uma formação humanística, é necessário entender o âmago primordial das Ciências Humanas.
Por definição, as humanidades abordam diversos aspectos do ser humano como individuo, pessoa e sujeito, tanto no que tange a introspecção como a externalidade relacionada consigo mesmo, o outro e o mundo.
Em resumo, as Ciências Humanas deveriam buscar desvendar a complexidade que define a própria humanidade e a distingue do aspecto puramente animal.
Curiosamente, os reajustes do sistema capitalista foram afastando as diversas áreas do conhecimento deste ideal, somente a sua matriz original conservou a inquietação com maior intensidade.
Isto porque as Ciências Humanas, agregando as exatas e biológicas, pertenciam à filosofia nos primórdios da sistematização do conhecimento, quando os mitos começaram a ser abandonados em favor de sua gradual substituição pela racionalização.
Entender o próprio homem e tudo que o rodeia, sem recorrer aos deuses, era o objetivo inicial, quando por volta do século VIII a.C, na Grécia e em outras partes do Velho Mundo, intensos debates originaram a filosofia.
A primeira grande subdivisão deste conhecimento totalizante aconteceu quando, ainda na antiguidade, Heródoto cunhou a palavra história, abrindo espaço para uma separação que se processou lentamente.
Na realidade, um dos grandes marcos de ruptura entre filosofia e história ocorreu somente no século XVIII e, principalmente, XIX, a despeito de avanços significativos em sua construção teórica no século XX.
Destarte, a Revolução Francesa, mais precisamente o iluminismo, inaugurou a divisão clássica entre Humanas, Exatas e Biológicas.
Um processo que contou com a influência da Revolução Industrial, período em que passou a existir uma valorização do domínio técnico como sinônimo de ciência e progresso científico.
Foi quando a racionalização totalizante, tendo a humanização como centro, foi relegada ao plano inferior em nome do lucro.
As Ciências Humanas passaram, a partir de então, a ser visualizadas como distintas do universo do mundo dos negócios.
Embora a sociologia tenha fornecido instrumentos para controle das massas de proletários, manipulando comportamentos para beneficiar a evolução da industrialização e urbanização crescente.
Entretanto, o homem continuou constituindo um ser dotado de múltiplas esferas, um animal sociopolítico que, diante de sua fragilidade física perante a natureza, necessita interagir e viver na coletividade para sobreviver.
As próprias relações de trocas que caracterizam a essência do sistema capitalista carecem da interação humana e da reflexão centrada nas humanidades.
Razão pela qual a filosofia dividiu-se em outras áreas do conhecimento humano no século XIX, no caso, sociologia e antropologia; que mantiveram sua preocupação com as humanidades, seu objeto central de estudo.
Assim composta e comportando múltiplas esferas, as Ciências Humanas podem ser definidas como conhecimento sistematizado que tem o homem e a sociedade como centro.
O que envolve o estudo das interações entre as pessoas em diversos níveis, inclusive no aspecto econômico, pedagógico, organizacional e normativo.
Portanto, tenta desvendar a complexidade humana, transitando entre a construção do pensamento e a evolução biológica, aspectos interdependentes.
Centralizando a observação dos fenômenos no homem, os valores éticos e morais terminam aprofundando a analise de seus diferentes componentes, atribuindo significado racional às necessidades sociais e culturais.
O cuidado consigo, o outro e o mundo é uma questão de sobrevivência, onde tudo espelha o “eu”, e, por esta razão, exige uma atitude altruísta, já que a natureza humana é egoísta, instintivamente construída e reforçada pelo capitalismo.
 

Vertentes humanistas.
A matriz básica das Ciências Humanas possui inúmeras vertentes, com concepções especificas de homem que interferem no olhar sobre as problemáticas abordadas.
Igualmente interferindo na postura profissional; na forma de aplicar a técnica; de conceber instrumentais de trabalho; de lidar com o outro, a coletividade, o mundo, a construção do conhecimento.
Influenciando toda amplitude das Ciências Humanas, penetrando também nas Exatas e Biológicas.
Uma das primeiras configurações humanistas foi inaugurada pela tradição socrática na antiguidade, quando a figura simbólica de Sócrates propôs a atitude expressa pela maiêutica e a máxima “só sei que nada sei”.
Um posicionamento de abertura para o mundo e constante aprendizado, assumindo uma posição de aceitação da ignorância diante da vastidão do conhecimento por construir.
O que foi complementado pela mencionada maiêutica, o parto de ideias, a atitude questionadora, formando o senso crítico apurado e aberto ao dialogo com o outro.
Pensamento em concordância com a visão grega de homem, entendido como eixo unificador da ordem do universo, onde existe uma dualidade entre mundo das ideias e mundo sensível pela qual o sujeito transita, ordenando a existência das coisas.
O que conduz a uma série de perguntas que clamam pela origem das coisas e do próprio homem, conduzindo a racionalização dos atos e sistematização do conhecimento do eu, do outro e do mundo para lidar com a dualidade.
A vertente teocrática cristã medieval, imbuída intensamente de religiosidade, enxerga o homem como criatura de Deus, que estabelece um dialogo contínuo com o criador, sendo dotado de livre arbítrio.
O que implica na responsabilidade social humana sobre as próprias ações, com consequências para tudo que rodeia o homem, sendo o conhecimento fruto da revelação divina, mas também de escolhas da humanidade.
Isto, a despeito do centro da Ciência estar fixado em Deus e, por decorrência, em sua principal criação, o homem.
A concepção de homem integral, inteiro, dotado de múltiplas esferas, tornou-se o parâmetro do humanismo renascentista a partir do século XIV, integrado ao mundo pela sua relação com o divino, mas igualmente com o profano, abrindo espaço para abandonar a figura de Deus em nome da razão pura.
Uma vertente que centralizou a reflexão no homem, subordinando todo conhecimento para tentar entender a existência e o sentido da vida, inaugurando o desabrochar da Ciência e o período do antropocentrismo em oposição ao teocentrismo.
Até então, o homem e o que poderíamos chamar de Ciências Humanas configurou o centro do conhecimento, subordinando as Exatas e Biológicas.
O que começou a mudar na Idade Moderna, quando o homem substitui Deus pela sua própria figura, definindo-se como ser pensante dotado de autonomia, fornecida pela razão cartesiana e a experiência empirista.
Mesmo diante deste panorama, a natureza humana ainda é holística, dotada de totalidade que integra as partes e serve para estabelecer inter-relações entre as subdivisões do conhecimento, que, pela altura, já começava a surgir.
Entretanto, o período contemporâneo ou pós-moderno agrega a tendência mecanicista, que procura explicar o mundo através de analogias com o funcionamento de máquinas, momento em que o homem perde espaço para os objetos e fenômenos que o rodeiam, tornando-se apenas um elemento que reage as forças que lhe são aplicadas.
É neste sentido que Darwin, com o evolucionismo, ao abordar a evolução como fruto da seleção natural, transforma o homem em apenas mais um ser dentre tantos outros disputando recursos naturais e lutando pela sobrevivência.
Igualmente, Comte, demonstra que o homem é apenas mais um objeto de estudo dentro do âmbito da mecânica social.
Pouco a Pouco, o homem é convertido em máquina de produzir e consumir por uma lógica tecnicista, que também estabelece tendências.
Tal como o capitalismo liberal e neoliberal, que enfatiza o individualismo e a competitividade, abandonando o olhar para o outro como espelho e para o mundo como consequência dos atos humanos.
Em certo sentido, a pós-modernidade divide o homem em múltiplas facetas, quebra sua unidade existencial, transformando em verdade somente o que é útil à reprodução do capitalismo e da desigualdade.
A pluralidade perdida permanece sendo discutida pela matriz das Ciências Humanas, em muitos casos em uma tentativa de resgate das antigas vertentes humanistas.
Todavia, o abandono da humanização, em beneficio do tecnicismo profissionalizante, continua a desprestigiar as Ciências Humanas, reduzidas a literatura ou poesia, puramente imaginada e sem conexão com a realidade, consideradas afastadas de uma utilidade prática.
Nada mais falso, como tentaram demonstrar diversas tendências humanistas surgidas ou aprofundadas no século XX.
Tal como o marxismo, que, a partir da dialética e do materialismo histórico, define o homem como produto do meio, mas também produtor consciente das condições materiais transformadoras da vida.
Em todo caso, centro das relações de troca, das condições e condicionantes técnicas, da economia, das inter-relações entre indivíduos e com o próprio habitat.
Ou ainda como os humanistas sigilosos, que tentaram resgatar a espiritualidade como unificadora da totalidade.
Caminho oposto ao humanismo logosófico, centrado no logos, na razão, que tanta realizar a evolução humana propondo resgatar a totalidade do ser, uma tendência argentina que busca a excelência.
O humanismo, qualquer que seja a vertente ou profissão, é um instrumento essencial para entender a vida humana, o mundo, o outro, a aplicação de técnicas em um contexto ético e de fato racional; além do lugar do sujeito na ordem do universo amplo da existência fragmentada, que na realidade compõe uma única totalidade múltipla.
Porém, pensando pragmaticamente, qual é afinal a utilidade das Ciências Humanas na vida profissional?
Por que inclui-las como essencial na formação acadêmica, principalmente na área de Extas e Biológicas?
 

A utilidade das Ciências Humanas.
A utilidade das Ciências Humanas na vida profissional, em qualquer área, é muito mais ampla do que se imagina.
Em primeiro lugar, como lembrou Leonardo Boff, clama pela dignidade humana e remete à construção ética da pessoa, a reboque, da prática profissional, em prol de uma sociedade mais justa e igualitária.
Inserindo-se no resgate da preocupação consigo mesmo e o outro, que se perde no processo de formação compartimentado e tecnicista, imposto pelo capitalismo fordista vigente.
Neste sentido, resgata, ou pelo menos tenta, a totalidade humana e a concepção de conhecimento interligada e dependente da multiplicidade.
Por sua vez, camuflada e oculta pelo tecnicismo profissional, distorcendo a própria visão sobre o mundo e a participação do “eu” na auto reprodução do sistema capitalista.
Portanto, as Ciências Humanas ampliam a percepção, estimulando a formação de um senso crítico intensamente questionador e transformador da realidade.
A competitividade, sob esta ótica, não deixa de existir, mas torna-se ética, estabelecendo a preocupação com o outro e uma vivencia profissional humanizada.
O autoconhecimento de si mesmo, reconhecido como espelho no outro, aproxima as pessoas e demonstra que existe uma intensa interdependência que interfere no desempenho profissional.
A ausência do paciente, não existe o médico. Na falta do aluno, não existe razão no trabalho do pesquisador ou do professor.
As próprias relações de trocas, a produção industrializada, perdem seu sentido sem o homem como centro do processo.
Assim, em um mundo dominado pela competitividade, com um mercado de trabalho que exige excelência no desempenho profissional; a preocupação com o outro demonstra também o cuidado consigo mesmo, pois o “eu” se transforma constantemente no “ele”, gritando pelo “nós” através da formação humanista.
Este resgate da totalidade transforma o desempenho profissional e a consciência do mundo.
Sujeitos alienados são facilmente manipulados, configurando um problema do ponto de vista da eficiência profissional, pois exigem supervisão constante, diante da incapacidade de perceber as questões que se apresentam e tomar decisões acertadas.
É neste sentido que a consciência do mundo, ao ampliar o senso crítico, cria autonomia, capacidade de resolução de problemas de forma integrada e integradora, pensando no âmbito humanista que vê o conhecimento e as pessoas como parte de um todo sistêmico.
Refletindo por este prisma, as humanidades estreitam relações sociais e melhoram a convivência política, tendo o bem comum de determinada categoria profissional como foco ou da organização a qual os indivíduos pertencem.
A reboque, dentro da construção de uma postura ética, constrói o caminho da busca da felicidade coletiva da sociedade em sentido amplo.
Portanto, em qualquer profissão, a formação em Ciências Humanas conduz a humanização do conhecimento técnico, otimizando o desempenho profissional em vários sentidos, autossustentado a relação do sujeito com tudo que o rodeia e consigo mesmo.
 

Concluindo.
A amplitude do conhecimento humano não pode ser razão de limitação do conhecer, antes, deveria permitir compor uma constante ampliação de competências aos profissionais de todas as áreas.
As facilidades tecnológicas e de comunicação, em si, compõem grandes oportunidades de interações e diálogos, nem sempre aproveitadas adequadamente, em meio à estrutura do sistema capitalista fordista.
As Ciências Humanas apresentam-se, frente a este problema, como fator integrador, agregando as Exatas e Biológicas em suas discussões.
Exemplo que deveria ser seguido por estas, onde o espaço das humanidades precisa ser revisto com urgência nos meios acadêmicos.
A ausência de uma formação humanizada tem demonstrado consequências desagradáveis nos diversos campos profissionais, inclusive nas Ciências Humanas, com prejuízos que se acumulam a volumam na sociedade.
Isto não significa que o teor técnico profissional deva ser abandonado, mas sim que as humanidades precisam enriquecer este conhecimento, devendo ser valorizadas, estudadas e aprofundadas.
Antes de ser um profissional, qualquer sujeito é um ser humano, ocorre que nas mais diversas áreas, a humanização está colocada de lado em nome da automação funcionalista.
Não somos máquinas, mas humanos e, portanto, carecemos de uma formação humanística que conduz a reflexão e ao dialogo.
O que pode ser embasado pela filosofia, história, sociologia e antropologia.
Indicativos de um caminho mais seguro em meio ao labirinto capitalista, tecnicista e profissionalizador, representado pelo atual sistema educacional e pelas relações estabelecidas no mundo globalizado.
 

Para saber mais sobre o assunto.
BOFF, L. O destino do homem e do mundo. São Paulo: Vozes, 2003.
BOFF, L. Tempo de transcendência: o ser humano como um projeto infinito. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.
BOFF, L. Ética e Moral: a busca de fundamentos. Petrópolis: Vozes, 1989.
HEIDEGGER, M. Ser e tempo. São Paulo: Vozes, 1989.
MONDIN, B. Definição filosófica da pessoa humana. Bauru: Edusc, 1998.
RAMOS, F. P. “A formação dos professores de filosofia e sua atuação profissional em sala de aula” In: Desafios e perspectivas das Ciências Humanas na formação e atuação docente. Jundiaí: Paco Editorial, 2012, p.151-170.
RAMOS, F. P. Filosofia e Ética Profissional. Santo André: FPR/PEAH, 2012.
 

Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela USP.
MBA em Gestão de Pessoas.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade de São Paulo.