Publicação brasileira técnico-científica on-line independente, no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar o conhecimento com qualidade acadêmica e rigor científico, mas linguagem acessível.


Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

Mostrando postagens com marcador Ensaio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ensaio. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 4 de julho de 2023

Breve ensaio sobre as razões da filosofia nascer na Grécia e não no Oriente: ou, porque a filosofia no sentido acadêmico é a Ocidental.

 Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 14, Volume jul., Série 04/07, 2023.


Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.


Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.

Licenciado em História - CEUCLAR.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.
Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.
Graduado em Pedagogia - UNICSUL.

 

A filosofia acadêmica, que alguns chamam de "oficial", estudada nas escolas e universidades; nasceu na Grécia e foi desenvolvida, principalmente, na Europa até a entrada da Idade Contemporânea.

No entanto, contemporaneamente, alguns alegam que esta é uma forma discriminatória de classificar a filosofia, sob o argumento que também foi desenvolvida em outros pontos do mundo, sobretudo na Ásia.

É verdade que, na antiguidade, o mundo grego em muitos de seus traços o mundo grego se assemelhava ao Oriente próximo.

Originalmente as duas regiões possuíam o mesmo tipo de organização social e guardavam semelhanças econômicas, possuindo laços culturais e uma história em comum.

Sendo assim, realmente seria correto sustentar que a filosofia Oriental deveria fazer parte do universo acadêmico?

Responder esta questão implica, antes, em responder outra: por que a filosofia nasceu na Grécia e não no Oriente?

A cultura grega, em particular sua religião e mitologia, originária do passado micênico, no século XII a.C., rompeu com esta origem nitidamente oriental.

Foi o momento em que as tribos dóricas invadiram a Grécia continental, destruindo a estrutura social centralizada.

A figura do rei cedeu lugar ao debate público, que pretendia equilibrar os diversos elementos que compunham o cosmos.

Enquanto o Oriente próximo continuou a manter sua estrutura social e política centralizada, com fortes semelhanças com a cultura micênica.

Um exemplo desta cultura é o palácio do mundo micênico, cujo papel era ao mesmo tempo religioso, político, militar, administrativo e econômico; ou seja, era o eixo da vida social.

Este estilo de vida foi destruído pela invasão dórica, inaugurando uma divisão entre Oriente e Ocidente, um rompimento que criaria um profundo abismo cultural.

O mar Mediterrâneo deixou de ser um caminho de passagem, para tornar-se uma barreira.

Isolados, os territórios gregos voltaram-se para uma economia puramente agrícola, isolando-se em meio a características geográficas que já condiziam a descentralização.

Pouco a pouco, a mitologia, maneira pela qual buscava-se explicar o mundo, foi substituída pela filosofia.

Em linhas gerais e resumidamente, podemos afirmar que a filosofia nasceu na Grécia e não no Oriente graças ao isolamento ao qual as populações gregas estavam submetidas.

Após a invasão dos dórios, a descentralização modificou a estrutura social e estimulou o debate, transformando a mitologia em filosofia e iniciando a construção do que conhecemos atualmente como Cultura Greco-Romana.

Enquanto no Oriente, a estrutura social manteve-se centralizada, ampliando a mitificação como elemento de controle social, cada vez mais vinculado com aspectos espirituais.

Neste sentido, a filosofia Oriental está muito distante da Ocidental, uma vez que a primeira possuí relevância religiosa, a despeito de representar uma sabedoria milenar.

A filosofia Oriental, por exemplo, representada pelo budismo ou ioga, não possuí racionalidade no sentido lógico do termo, não se quer tentou e separar na mitologia; ao contrário, aprofundou seu vínculo com a mitificação.

Apesar de também poder ser chamada de "filosofia", a filosofia Oriental guarda características distintas em relação à filosofia ocidental.

Além importância das religiões para as populações da Ásia, a utilização de línguas com estrutura totalmente diferente em relação às línguas Ocidentais, gerou uma visão de mundo Oriental totalmente distinta em relação a Ocidental.

A filosofia Oriental também não marca nitidamente a oposições que caracterizam a cultura filosófica Ocidental, como: inteligível x sensível, divino x humano, cultura x natureza, mente x corpo, espírito x matéria e lógico-racional x estético-intuitivo.

As tendências filosóficas Orientais são ortodoxas e constituem parte de dogmas de fé ou crenças em estilos de vida, apoiadas e/ou confirmando mitificações.

A filosofia acadêmica, conhecida como Ocidental, herdada dos gregos antigos, questiona as mitificações e tenta racionalizar o entendimento do mundo.

Não apregoa qualquer estilo de vida a não ser o da dúvida permanente, tampouco sustenta uma religião qualquer que seja.

Houve sim uma tentativa de utilizar a filosofia grega como sustentáculo da fé cristã na Idade Média pela Igreja católica, mas esta intenção não se cumpriu dada sua natureza questionadora.

Alguns Santos do catolicismo foram grandes filósofos, como Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, mas o pensamento destes foi maior do que a heterodoxia religiosa.

Portanto, a filosofia possuí berço na Grécia antiga e não no Oriente; assim como a verdadeira filosofia, aquela que nomeamos como acadêmica, é Ocidental.

A despeito de, após o início da Idade Contemporânea, talvez um pouco antes, passar a ser composta para além das fronteiras europeias.


PARA SABER MAIS SOBRE O ASSUNTO.

VERNANT, Jean Pierre. As Origens do Pensamento Grego. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994.


terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Ensaio sobre a doutrina dos Universais em São Tomás de Aquino.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 13, Volume dez., Série 06/12, 2022.


Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.


Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.

Licenciado em História - CEUCLAR.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.
Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.
Graduado em Pedagogia - UNICSUL.



1. INTRODUÇÃO.

São Tomás de Aquino, o maior e mais importante filósofo e teólogo da Alta Idade Média, preocupou-se em desplatonizar a teologia cristã.

Adepto do aristotelismo, tentou proceder como Santo Agostinho fizera com a filosofia de Platão, tentando uma conciliação entre a filosofia aristotélica e o cristianismo.

Ele não acreditava em um paradoxo irreconciliável entre aquilo que dizia a filosofia enquanto racionalização e a revelação da fé cristã, pelo contrário, considerava que o cristianismo e a filosofia tratavam de certa forma das mesmas temáticas.

No entanto havia um entreve representado pelo problema dos “Universais”, que, desde a antiguidade, afligia os pensadores sobre a existência real de tudo que nos cerca.

Havia a dúvida sobre gêneros e espécies ser existentes na realidade, apenas no intelecto ou meras palavras sem correspondência com o concreto.

Uma questão central para ser solucionada pela teologia cristã medieval, porque se meras palavras, conceitos como Deus e alma seriam invalidados.

Razão pela qual o antagonismo entre platonismo e aristotelismo, por sua vez, estava dentro do horizonte da escolástica medieval, a filosofia desenvolvida nas nascentes Universidades.

O tomismo precisava solucionar esta ausência de confirmação da concretude dos dogmas cristãos e, para tal, antes, proceder uma síntese entre a fé e o conhecimento filosófico da antiguidade, provando Deus racionalmente.

 

2. REFUTANDO PLATÃO PARA CONFIRMAR ARISTÓTELES.

Embora na Idade Média fosse considerado que somente pela fé e pela revelação se poderia chegar a verdade, São Tomás de Aquino acreditava que ao lado das verdades de fé poderiam coexistir, sem contradição, as verdades naturais teológicas.

Entendendo estas últimas como alcançáveis tanto pela fé como pela razão inata, com a qual todo humano nasce, iniciou uma doutrina dos “Universais”.

Esta foi construída sobre as formas separadas, adaptando o pensamento aristotélico ao contexto cristão, mostrando que o conhecimento inteligível da ação pertenceria ao intelecto, agindo sobre a alma humana.

No entanto, antes, precisou proceder a refutação do platonismo, não de um platonismo qualquer, mas sim de um platonismo de tipo inconsequente.

Uma vez que era necessário mostrar que o conhecimento humano, necessariamente, dependeria das sensações, ou seja, seria uma derivação integral do inteligível a partir do sensível.

Divergindo de Santo Agostinho, em harmonia com o pensamento aristotélico, São Tomás de Aquino considerava a filosofia como uma disciplina essencialmente teórica e absolutamente distinta da teologia, apesar de não ser oposta ao conteúdo teológico das revelações facultadas por Deus.

A filosofia seria empírica e racional, sem inatismo e iluminações divinas, exatamente por este motivo, seria fazia desplatonizar a filosofia.

Razão pela qual rejeitava o dualismo platónico entre a alma e o corpo, para ele a união da alma ao corpo seria benéfica e naturalmente exigida para a felicidade humana.

Portanto, em essência o dualismo platônico, apregoado por Santo Agostinho, estaria incorreto, a medida que alma e corpo estariam integrados.

 

3. ALMA E CORPO UNIDOS POR DEUS.

Para São Tomás de Aquino, o corpo estaria condenado a morte desde a criação do homem, enquanto a alma seria imortal, mas ambos estariam unidos pelo criador.

Assim, a ideia da busca da felicidade pelo homem estaria ligada a uma imortalidade restituída pela ressurreição, de modo que a felicidade suprema da alma seria a visão beatificada de Deus.

Dentro deste contexto, o problema da teologia pura estaria intimamente ligado a questão epistemológica do conhecimento, especialmente a distinção entre a priori (o que conhecemos antes de ter contato com a coisa) e a empiricidade.

A matéria, não sendo absoluta (não ente), seria irreal e sem forma, de modo que a forma seria a essência das coisas e, portanto, universal.

Toda substância corpórea seria um composto de duas partes substanciais complementares e unidas, uma passiva e em si mesma, absolutamente indeterminada, chamada de matéria; e outra ativa e determinante, denominada forma.

Os seres materiais teriam outras duas causas: eficiente e final.

A causa eficiente seria a que faz surgir um determinando ser na realidade, realizando a síntese da matéria com a forma que a especifica.

A causa final seria o fim que opera a causa eficiente, determinando a ordem observada no universo.

A forma seria o princípio da vida, uma atividade originada dentro do ser, que poderíamos chamar alma.

Esta se dividiria em vegetativa e sensitiva, sendo a primeira própria dos seres que crescem e se reproduzem e a segunda daqueles que sentem e se movem.

Antes de São Tomás de Aquino, o problema da alma separada do corpo constituía um paradigma cientifico aceito pela Teoria do Conhecimento; a partir dele, os teólogos passam a considerar a alma como unida naturalmente ao corpo.

 

4. A ALMA E CORPO INDISSOCIÁVEIS.

Para São Tomás de Aquino, a atividade intelectiva seria orientada para entidades imateriais, como os conceitos; por consequência, tal atividade só poderia depender da alma racional.

A vontade humana seria exatamente, por este motivo, livre e indeterminada, onde entraria o livre arbítrio facultado por Deus, como ser maior e motor da junção do corpo e da alma.

Desta forma, a alma espiritual transcenderia a vida do corpo depois da morte, portanto, imortal e transcendendo a origem material do corpo criado imediatamente por Deus.

A relação do corpo, já formado e individualizado, seria indissociável da alma.

Portanto, o corpo não poderia existir sem a alma, da mesma forma que a alma, ainda que imortal, não possa ter uma vida plena sem o corpo, que é seu instrumento indispensável para conhecer o divino, a despeito de não permitir vivencia-lo plenamente.

Contrariamente à doutrina agostiniana, que pretendia ser Deus conhecido por intuição, no tomismo Deus é cognoscível unicamente por demonstração.

Esta demonstração não recorreria ao a priori, mas unicamente ao posteriori, partindo da experiência, que sem o corpo não seria possível.

Assim, sem a intrínseca relação entre corpo e alma, não poderia ser conhecido pelo homem.

 

5. O ARISTOTELISMO PROVANDO A EXISTÊNCIA DE DEUS.

Baseando-se em conceitos aristotélicos, São Tomás de Aquino utiliza argumentos filosóficos racionais para provar a experiência que, por sua vez, permite conhecer Deus e sua existência concreta.

A ideia é utilizar o pressuposto garantidor da relação corpo/alma para evidenciar Deus, usando o sensível e racional, procedendo a uma demonstração lógica.

Portanto, os dogmas cristãos seriam concretos e não apenas um “Universal” existente apenas como palavra, sem correspondência com a realidade.

O argumento inicial se baseia na doutrina da potência e do ato, ou seja, na experiência sensível, que pode ser constatada pelo movimento das causas, do contingente, dos graus de perfeição das coisas, ou da ordem que entre elas reina.

Aplicando o princípio de causalidade, que suspende o movimento ao necessário, o imperfeito ao perfeito, a ordem à inteligência ordenadora, conheceríamos Deus de modo indireto e limitado, partindo da criatura.

A partir do homem e da sua imperfeição, representada pelo corpo, ou seja, do efeito, chegaríamos a prova da existência de Deus ou da causa.

O conhecimento humano de Deus seria um conjunto de negações e analogias, o que levaria a um conhecimento que não é falso, mas apenas incompleto.

Partindo do problema dos “Universais”, poderíamos afirmar que o espirito seria um produto semelhante a uma pluralidade, na predicação do objeto estaria presente Deus.

No entanto a formulação mais completa sobre a questão, dentro da filosofia tomista, parece ter sido realizada em sua obra “O ente e a essência”.

O “ser” é diferente da essência, pois é Deus que permitiria às essências realizarem-se em entes, em seres existentes.

Deus seria ato puro, completo e existente como fundamento da realidade das outras essências que, uma vez existentes, participam de seu “ser” infinito.

A filosofia de Aristóteles não falava sobre um criador, como seria compreendido pelo cristianismo, mas São Tomás de Aquino transforma Deus em indispensável para existência de um “Motor” garantidor da alma e do corpo.

Ele acreditava que o conhecimento de qualquer verdade, inclusive do real, carecia da ajuda divina.

O intelecto só pode ser movido por Deus a agir, os seres humanos teriam a capacidade natural de conhecer muitas coisas sem nenhuma revelação divina, ou a priori, mas o a posteriori seria iluminado pelo divino.

 

6. A REFORMULAÇÃO DO PENSAMENTO DE AVICENA.

A originalidade do pensamento de São Tomás de Aquino não está na tese da indiferença da essência e nem nas distinções de seus estados, não residi tampouco na assimilação das ideias divinas; está sim na reformulação da doutrina de Avicena da essência e da articulação da essência com predicados.

Abu Ali Huceine ibne Abedalá ibne Sina, cujo significado do persa era "filho de Sina", conhecido como Ibn Sīnā ou por seu nome latinizado Avicena; foi um filósofo árabe que viveu no século XI, duzentos anos antes de São Tomás de Aquino.

Para quem seria possível conciliar o neoplatonismo e o aristotelismo, visto que o ser seria o objeto primário e próprio da metafisica; sendo possível uma coisa existir legitimamente apenas no espírito e faltar nos objetos exteriores; não sendo concreto, mas existindo em sua intencionalidade.

No tomismo, a essência seria aquilo que o intelecto concebe primeiro, de modo que somente enquanto concebido o “ente”, tudo aquilo que pode ser definido racionalmente, guardando uma identidade consigo mesmo, estaria acessível o concreto.

Através da sensação um conceito que se elevaria ao ente, muito embora este esteja na origem do processo cognitivo.

Dentro deste contexto, o ente não seria apenas fundador da abstração, mas, a medida que originário, captaria o objeto no que é em sua potência, essência e ser.

Ao contrário da ideia platônica, o tomismo não afirma a existência como mera ideia que corresponderia, antes, a uma maneira de considerar a essência e de testar sua legitimidade.

O ente poderia ser dividido no que enuncia enquanto verdade da proposição e no seu predicamento.

Tudo que estaria sob o alcance do saber humano seria composto e comportaria um dualismo inseparável, tal como a representação do corpo e da alma unidos pelo criador.

O saber humano se elevaria a partir do simples, embora do posterior para o anterior, ou do que é segundo para o que é primeiro.

Desta forma, o mundo seria como que uma vítima semântica do encaixe entre os sentidos da forma.

O “Universal” não poderia ser interpretado como algo universal na coisa mesma, ou a maneira de Platão, como se a universalidade só estivesse no conceito da palavra.

Deveria ser entendido como algo que está nas coisas fundamentalmente, uma vez que a natureza dos seres seria justamente a universalidade de entendimento que viria de Deus.

Sendo o “Universal”, apenas uma questão semântica, sem correspondência com a realidade, apenas um nome para aquilo que o homem entende parcialmente.

 

7. CONCLUINDO.

Para São Tomás de Aquino, seria através da essência que as coisas se tornariam cognoscíveis, e, portanto, passíveis de classificação em uma espécie ou gênero, de modo que a matéria não seria princípio de conhecimento.

Ele acreditava que a verdade seria conhecida pela razão através da revelação natural e pela fé pela revelação sobrenatural.

Esta teria sua origem na inspiração pelo Espírito Santo e estaria disponível através do ensinamento dos profetas, reunidos nas Sagradas Escrituras.

A revelação natural conduziria a verdade disponível a todos através da natureza humana e dos poderes da razão, que tornaria possível perceber e confirmaria a existência de Deus.

 

8. PARA SABER MAIS SOBRE O ASSUNTO.

HIRSCHBERGER, Johannes. História da filosofia na Idade Média. São Paulo: Herder, 1966.

LIBERA, Alain de. La querelle des universaux. De Platon à la fin du Moyen Age. Paris: Du Seuil: 1996.

TOMÁS DE AQUINO. O Ente e a Essência. Petrópolis: Vozes, 1995.

KLIMKE, Federico. Historia de la filosofia. Barcelona: Labor: 1947.




quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Ensaio sobre o intuicionismo de Bergson como método filosófico.

 Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 12, Volume dez., Série 01/12, 2021.


Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.


Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.

Licenciado em História - CEUCLAR.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.
Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.
Graduado em Pedagogia - UNICSUL.


 

1. INTRODUÇÃO.

A filosofia bergsoniana tinha horror aos conceitos genéricos, recusando a chave que abre todas as fechaduras, e adotando a flexibilização de espirito diante do real.

Pretendia resolver os problemas filosóficos ultrapassando-os e integrando em uma corrente mais profunda, na medida que convicto de que a solução dos problemas filosóficos se encontrava no contato com o real.

Nascido em Paris, em 1859, o filósofo Henri Bergson, durante boa parte de sua vida foi professor de filosofia na Escola Normal Superior e no Colégio de França, além de ter sido membro da Academia Francesa.

Foi um dos pais e principal expoente do intuicionismo, sustentando que o genuíno conhecimento não se encontrava nos conceitos abstratos do intelecto, mas sim na apreensão imediata.

No entanto, este intuicionismo bergsiniano não deve se confundido com o intuicionismo matemático de vertente britânica, ligado a lógica de Poincaré.

Antes, é um intuicionismo francês, vinculado com a metafísica, um método filosófico que usa a intuição e suas regras específicas, constituindo o que Deleuze (1999: 08) definiu como aplicação da “prova do verdadeiro e do falso aos próprios problemas”, denunciando “os falsos problemas”, reconciliando “verdade e criação no nível dos problemas”.   

 

 

2. O CONHECIMENTO DA REALIDADE.

O que Bergson chamou de intuição imediata poderia ser definido como intuição, resultado da experiência interior, nesta medida concebendo a realidade como sempre nova, de modo que só poderia ser apreendida unicamente pela intuição concreta, particular e mutável, portanto, não pelo conceito abstrato, universal e imutável.

Para o pensamento bergsoniano existiriam dois caminhos para conhecer o objeto real, duas formas de conhecimento diversas e desiguais entre si: mediante o conceito ou pela intuição.

O método de conhecimento através dos conceitos; ou seja, dos juízos, silogismos, análises e sínteses. quer seja por meio da dedução ou da indução, seria utilizado pelos filósofos cientistas.

Já o conhecimento gerado pela intuição, seria um tipo de conhecimento imediato e anterior ao conhecer dos conceitos, um conhecimento intrínseco, concreto absoluto.

Conhecer através da intuição significaria transportar-se até à interioridade profunda das coisas, conhecer a realidade tal como ela realmente é, ou ao menos como parece ser.

Em contrapartida, o conhecimento da realidade por meio dos conceitos fragmentaria e deformaria a realidade, a medida que opera através de símbolos e abstrações que deixam escapar a realidade profunda, concreta e verdadeira das coisas.

Bergson procurou alertar justamente para o perigo do conhecimento por meio dos conceitos, gerado pela confusão da intuição filosófica com um iluminismo, feito de imagens e palavras.

Uma espécie de visão mística que transforma a filosofia em uma confidência entre iniciados, reduzindo a uma espécie de língua confusa de que já caçoava Platão.

 

3. A RENOVAÇÃO DA FILOSOFIA.

Reduzindo a filosofia por meio dos conceitos em puro sofismo, Bergson procurou demostrar que a tradição atribuía à experiência imediata um hermetismo que nada tinha a ver com ela.

Desta forma para entender o papel da intuição recomendava que mais que pensar na teosofia do Oriente, pensasse-se nas intuições delicadas dos movimentos do espírito.

Tal como as encontramos, por exemplo, nos moralistas, ou ainda no bom senso capaz de adaptar espontaneamente seus juízos às mais variadas situações concretas.

Nesta acepção, a crítica de Bergson a tradição filosófica não é mais que a crítica às doutrinas que supõe que a inteligência humana é essencialmente especulativa.

Portanto, o intuicionismo permitiria conhecer as coisas como são, postulado comum a toda filosofia Ocidental desde o tempo dos gregos.

Embora os cépticos já tivessem duvidado da capacidade de conhecer da inteligência humana, e os relativistas limitado este conhecer aos fenômenos, sem a intuição a filosofia não poderia validar o conhecimento.

Seria necessário renovar a filosofia penetrando na natureza da inteligência, considerando o homem como um criador de instrumentos que fabrica com matéria solida.

O pensamento precisaria alargar sua ação sobre a matéria, como a inteligência humana que permitiu a faculdade de fabricar instrumentos.

A semelhança dos enciclopedistas do século XVIII, que não atribuíam outra finalidade ao espirito humano que não o transformar o planeta para o seu próprio bem; a filosofia careceria da intuição para se renovar para o bem de si própria.

Para estes enciclopedistas, o que constituía o conhecimento eram a matemática e as ciências da matéria, as ciências humanas, penetradas de materialismo, reduzindo-se em combinações mecânicas de noções elementares, tornando o funcionamento do espírito semelhante ao de uma máquina.

Tal concepção, formulada no século XVIII, no século XIX, terminava por confirmar inteiramente a tese bergsoniana de uma tendência da inteligência para especular, regulando-se pelo comportamento dos sólidos.

A intuição aplicada a filosofia, seria um método para promover um simples arranjos e combinações mecânicas, explicando tudo na vida e no espirito, renovando o pensamento filosófico.

 

4. A APLICAÇÃO PSICOLÓGICA.

Bergson, em seu “Ensaio sobre os dados imediatos da consciência”, sua tese de doutoramento, datada em 1889, constitui uma análise da psicologia introspectiva.

O ponto de partida de sua metafísica são os fenómenos psicológicos complexos, por sua vez, formadores de fenômenos psicológicos mais simples.

Estes seriam reunidos segundo as leis de associação, provando que existe um determinismo psicológico, que faz com que os fatos se desprendam de outros fatos, em particular do ato voluntário que deriva de seus motivos.

Não obstante, estas ideias entravam em choque com o sentimento espontâneo que se tinha da natureza do ser vivo e da alma.

Consciente desta realidade, ao invés de negar, forneceu a prova da contradição em sua obra, datada em 1900, intitulada “O riso”.

Para ele, o riso produz-se quando encontramos o automático e o mecânico, onde esperávamos encontrar o vital e o voluntário.

Sendo assim, o erro que o mecanicista comete deriva do fato de tentar compreender a vida e o espirito como uma inteligência que só se dá bem com a matéria bruta.

O esforço da especulação filosófica processa-se, precisamente, em sentido inverso, obtendo como resultado um violentar da tendência natural convertida em inércia; ou seja, a percepção habitual das coisas é utilitária, refém dos resumos fragmentados da percepção intuitiva.

Um exemplo concreto é fornecido pela percepção de uma língua estrangeira, que ignora a sequência de palavras que formam um poema, a qual só é realmente conhecida, tal como um nativo, quando compreendemos a função das palavras na continuidade e sentido deste poema.

A inteligência, sem a intuição, está fora da vida e do espírito como o estrangeiro é alheio às nuances da língua que, para outros, constitui a língua materna, que torna o sentido original inteligível para este.

Aplicando o pensamento bergsiniano a psicologia, enquanto a inteligência apreenderia pelo exterior, a intuição apreenderia pelo interior.

No ato voluntário, por exemplo, a inteligência examinando a realidade interiormente, saberia analisa-la e reconstitui-la.

Por outro lado, a inteligência seria apenas resultante de composição mecânica desta força, sendo que o ato voluntário se realizaria instantaneamente e inteiro, indiferente ao tempo.

O que nos leva a perceber que a inteligência segue uma via errada, pois ao contrário do conhecimento direto e interior, exigiria uma lenta maturação.

Uma vez que mecânica, não poderia agir sobre uma realidade que nunca apresenta o mesmo aspecto da vida, mas seria descoberto mais tarde que os mecanismos da mente se repetem, anulando esta premissa.

 

5. O PROBLEMA DA IMPREVISIBILIDADE HUMANA.

Para Bergson, o real nunca é o mesmo, o antes e o depois não funcionam como na mecânica, onde os atos são repetidos e previsíveis.

O depois indica, em relação ao antes, uma inovação imprevisível e intraduzível em linguagem abstrata, constituindo uma duração unicamente vivida e que só pode ser objeto da intuição.

O presente não sucederia apenas o passado, mas também tornaria-se com ele mais denso, pois afinal a vida psicológica humana ignora as leis de equivalência que reinam na mecânica.

Somente pela intuição o espírito se colocaria acima das alternativas oferecidas pela imprevisibilidade humano, chegaria-se até à interioridade das coisas.

Dentro deste contexto, conhecer por intuição significaria transportar-se ao interior da realidade no que ela tem de único.

A intuição seria a faculdade suprema do impulso vital, de modo que a humanidade caminha para o desenvolvimento da intuição como faculdade ordinária de conhecer as coisas.

Para método intuicionista bergsoniano, mediante a intuição, poderíamos conhecer de maneira imediata e perfeita, ou pelo menos a realidade do nosso eu.

A essência do sujeito e de todo o universo, consistiria na duração sucessiva preenchida com atos vitais sempre novos.

Neste sentido, a fonte da qual brotariam todas as coisas, quer as materiais, quer as espirituais, seria o impulso vital consciente ou supraconsciente de produzir, por evolução, novas e maiores formas.

Originalmente, todas as propriedades e forças deste dito impulso vital, para Bergson, estavam indivisas e não desenroladas nele.

A própria evolução teria obrigado o impulso vital a marchar para diversas direções, de modo que estas forças teriam tendido a desenrolar-se e dividirem-se, umas se desenrolando com mais perfeição do que outras.

Este impulso vital, no homem, chegaria até a plena consciência e à liberdade.

No entanto, simultaneamente, teria feito com que o homem perder o instinto, faculdade permitiria perceber a essências das coisas, porque a inteligência conheceria não as coisas, mas sim apenas relações entre elas e com si mesmo.

 

6. CONCLUINDO.

Diante da discussão entre os adeptos do determinismo e do livre-arbítrio, da oposição entre evolução ou criação, ordem ou desordem, realidade ou nada, causalidade mecânica ou finalidade, e tantas outras; Bergson termina por contestar ambas.

Para o filósofo, a escolha consistiria tão somente entre vida e morte, uma vez que o espirito estaria diante apenas de escolher uma conduta de vida, que faria com que o sujeito participasse do universo.

O intuicionismo como método filosófico termina culminando em uma única alternativa: a do vital e mecânico.

O espírito se definiria pela contração, cada vez maior, da duração; cujos momentos penetrariam no presente, na duração do agora para o eu.

Para que tal se torne possível, ele define o limite superior destes movimentos como sendo a eternidade divina; e o limite inferior como sendo o espaço homogêneo.

Cabe notar que entre estas duas direções não há de modo algum uma hierarquia, como se no real a matéria bruta fosse um primeiro grau entre o nada e a vida.

A doutrina bergsoniana, no seu conjunto, é uma experiência que tem por objeto o espírito e uma indagação tendente a conduzir a esta experiência.

Ela deriva do mediato, do construído para terminar no imediato.

Reside neste ponto a metafisica, pretendendo seguir a experiência e não ir além dela; não sendo nem uma construção intelectual, nem a afirmação de um valor.

A intuição não abandona o dado e nem tão pouco o real, termina constituindo um positivismo radical em que tudo se reduz a uma experiência real subjetiva e pessoal, além de toda construção.

Destarte, é impossível não reconhecer que Bergson, com sua crítica perspicaz e profunda, trouxe uma contribuição poderosa à liquidação definitiva do materialismo, do determinismo universal, fundando a psicologia experimental.

Somente Bergson foi capaz de mostrar com clareza que a filosofia é um "perene recomeçar, não no sentido de um retorno constante à origem absolutas do mundo, mas no sentido de que sua descrição sempre deve recomeçar, para acompanhar a experiência continuamente nova de uma realidade que está sempre em vias de se fazer" (PRADO JR).

 

7. PARA SABER MAIS SOBRE O ASSUNTO.

BERGSON, Henri. As Duas Fontes da Moral e da Religião. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.

BERGSON, Henri. "Cartas a William James" In: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1974.

BERGSON, Henri. "Conferências: a intuição filosófica, A consciência e a vida, A alma e o corpo" In: Os Pensadores. Tradução de Franklin Leopoldo e Silva, Abril Cultural, 1974.

BERGSON, Henri. Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consciência. Lisboa: Edições 70, s.d.

BERGSON, Henri. "Introdução à Metafisica" In: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1974.

BERGSON, Henri. Matéria e Memória. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

BERGSON, Henri. "O Cérebro e o Pensamento" In: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1974.

BERGSON, Hernri. "O Pensamento e o Movente" In: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1974.

BERGSON, Henri. O Riso. Rio de Janeiro: Guanabara, 1978.

DELEUZE, Gilles. O Bergsonismo. São Paulo: Ed. 34, 1999.  

PRADO JUNIOR, Bento. Presença e Campo Transcendental. São Paulo: Edusp, 1989.


quinta-feira, 1 de julho de 2021

Breve Ensaio sobre a relação entre o Deus cartesianismo e a ordem dos fundamentos do Cogito.

 Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 12, Volume jul., Série 01/07, 2021.

 

Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.


Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.

Licenciado em História - CEUCLAR.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.
Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.
Graduado em Pedagogia - UNICSUL.


A base e fundamentação do pensamento cartesiano é o pressuposto da existência de Deus, conceito sem o qual todas as contribuições de Descartes para a filosofia seriam anuladas.

Por sua vez, para ele, sem que implique em contradição, a ciência filosófica aparece fundada em dois princípios: o Cogito (Pensamento) e Deus.

Um ou outro aparecerão como princípios primeiros, considerando de um lado as necessidades de nosso entendimento (ou seja, a ordem das razões), ou de outro a necessidade das próprias coisas (ordem das matérias).

Muitos de seus contemporâneos descobriram, em tal fundamento, um círculo vicioso, porque não se pode demonstrar a existência de Deus, senão guiado na evidência de ideias claras e distintas.

A objeção residiria no argumento que não seria possível confiar nessa evidência, a menos que a existência de Deus pudesse ser demonstrada.

Descartes responde dizendo que há duas espécies de certeza: a dos axiomas, que são conhecidos por simples golpe de vista, dos quais não se pode duvidar; e a da ciência, que consiste em conclusões dependentes de raciocínios muito demorados.

A questão é que para vários filósofos contemporâneos e posteriores, essa resposta foi considerada embaraçosa, visto que se a prova da existência de Deus é, como parece, um raciocínio longo e complicado, o círculo vicioso persistiria.

No entanto, o que ocorre é que o conhecimento claro e distinto, ponto de chegada e um fim, é também ponto de partida para o espírito, que busca as combinações e os efeitos das essências.

Para Descartes, a ciência não vai do obscuro ao claro, mas do claro ao claro.

Sendo assim, a dúvida sobre a existência das coisas materiais e a certeza matemáticas, conduz a verdade inabalável do “penso, logo existo”.

A demonstração cartesiana da existência de Deus legitima o Cogito, servindo de partida para a ordem das matérias.

Podemos dizer que partindo da ordem das razões (ou do entendimento), pelos efeitos, podemos alcançar as causas e; por outro lado, partindo da ordem das matérias (ou da necessidade das próprias coisas), pelas causas alcançar os efeitos.

Cabe aqui uma observação, devemos notar que enquanto a ordem das razões é explicita, mantendo-se em conformidade com o método, a ordem das matérias encontra-se implícita dentro das necessidades do entendimento.

Para provar o que acabamos de dizer basta citar as palavras do próprio Descartes: "[...] não ordeno as matérias, mas somente as razões." (Carta a Mersenne - AT, III, 260).

Em outras palavras, não são possíveis senão as coisas que Deus quis tornar verdadeiramente possíveis, a razão de sua vontade depende do que quis fazer.

O pensamento cartesiano faz de Deus não o modelo, mas a garantia de nosso entendimento.

Isto é, segundo o preceito geral de seu método, seguindo não a ordem de produção de Deus às coisas, mas a ordem das razões.

Descartes mostra como uma verdade pode engendrar outra verdade, como a existência de Deus é, para nós, o princípio de outra verdade.

Decorre deste princípio uma das maiores dificuldades da obra "Meditações", abandonar a ordem das matérias que nos é familiar em favor de uma gênese dos conteúdos.

Estes conteúdos são a mesma matéria que hão de aparecer em diferentes passagens do pensamento cartesiano, conforme o lugar exigido pela ordem, sem que a necessidade das próprias coisas seja destituída de sentido.

Desta afirmação decorre uma questão de vital importância: que método é esse, cuja ordem do entendimento abarca, implícita e não destituída de sentido, as próprias coisas?

O método cartesiano é aquele que vêm substituir o aristotelismo, sua máxima da necessidade metódica de questionamento exige que a existência deve ser provada antes da investigação da essência, sob pena de não encontrar senão quimeras, como a figura do satírico.

Isto implica que o juízo de existência pode ser estabelecido antes que se saiba o que é a coisa, afirmando a existência como atitude em conformidade do senso comum.

Por isso mesmo, Descartes é forçado a admitir muitas noções obscuras e mal definidas, na opinião de alguns caindo em afirmações que podem ser desmontadas facilmente.

Estes utilizariam o argumento que era ideia familiar ao tomismo a verdade percebida pelo entendimento humano fundamentada no entendimento divino.

No entanto, a verdade e o entendimento divino não são mensurados nem produzidos, mas medem e produzem uma dupla verdade: uma nas coisas, outra em nossa alma.

Por apagadas que estejam, nossas noções são imagens de razões inteligíveis das coisas, estando contidas em Deus.

Para São Tomás de Aquino, nosso conhecimento é garantido por ser reflexo do entendimento divino, naturalmente voltado para sua origem, de forma que nossa verdadeira vocação está na vida eterna, onde esse reflexo irá converter-se em visão.

Segundo Descartes, ao contrário, o conhecimento intelectual não significa qualquer grau de participação no entendimento divino; as essências, objetos do entendimento humano, são criaturas de Deus.

Deduz-se que Deus é garantia de nosso conhecimento, não por um atributo relacionado com este, mas que se ligam ao seu criador através de sua onipotência e bondade.

O neoplatonismo parte da intuição de um princípio divino para ir de Deus, como causa, às coisas como efeitos dessa causa.

Neste sentido, parece haver uma alternativa à qual, Descartes, deixa apenas implícita e oculta em sua metafisica.

Para concluir basta dizer que, por um lado, o Cogito se apresenta como primeiro princípio, dentro da ordem das razões metafisicas, por outro, a existência de Deus constitui a verdade fundamental que legitima a edificação das ciências e o próprio método cartesiano.

A ciência filosófica aparece fundada em dois princípios: o Cogito e Deus.

O Cogito parece ser o princípio primeiro, mas de acordo com as necessidades de nosso entendimento, que abarca a necessidade das próprias coisas; carece antes de Deus.

Encontramos, portanto, implícito na ordem das razões a ordem das matérias, cujo primeiro princípio é Deus.

As necessidades de nosso entendimento e seu primeiro princípio, o Cogito, ou seja, a ordem das razões, convive de forma harmoniosa com a necessidade das próprias coisas e das matérias, sem que isto implique em contradição.

Para o pensamento cartesiano, “a dedução só se pode fazer, quer das palavras às coisas, quer do efeito à sua causa, quer da causa ao seu efeito, quer do semelhante ao semelhante, quer das partes às partes ou ao próprio todo” (DESCARTES, 1993: Regra XII).

Não obstante, Deus é o garantidor do Cogito e de toda a existência, sem o qual o pensamento ou a concretude do mundo não seria possível.

 

PARA SABER MAIS SOBRE O ASSUNTO.

BRÉHIER, Emile. História da Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1977.

DESCARTES, René. Meditações. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

DESCARTES, René. Princípios da Filosofia. Lisboa: Guimarães Editores, 1989.

DESCARTES, René. Regras para a direção do espirito. Lisboa: Edições 70, s.d.

LALANDE, André. Vocabulário técnico e crítico da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1982.

PADOVANI, Umberto & Castagnola, Luís. História da Filosofia. São Paulo: Melhoramentos, 1990.

KUJAWSKI, Gilberto de Mello. Descartes Existencial. São Paulo: Edusp, 1969.