Publicação brasileira técnico-científica on-line independente, no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar o conhecimento com qualidade acadêmica e rigor científico, mas linguagem acessível.


Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

Mostrando postagens com marcador Descartes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Descartes. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Breve Ensaio sobre a relação entre o Deus cartesianismo e a ordem dos fundamentos do Cogito.

 Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 12, Volume jul., Série 01/07, 2021.

 

Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.


Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.

Licenciado em História - CEUCLAR.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.
Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.
Graduado em Pedagogia - UNICSUL.


A base e fundamentação do pensamento cartesiano é o pressuposto da existência de Deus, conceito sem o qual todas as contribuições de Descartes para a filosofia seriam anuladas.

Por sua vez, para ele, sem que implique em contradição, a ciência filosófica aparece fundada em dois princípios: o Cogito (Pensamento) e Deus.

Um ou outro aparecerão como princípios primeiros, considerando de um lado as necessidades de nosso entendimento (ou seja, a ordem das razões), ou de outro a necessidade das próprias coisas (ordem das matérias).

Muitos de seus contemporâneos descobriram, em tal fundamento, um círculo vicioso, porque não se pode demonstrar a existência de Deus, senão guiado na evidência de ideias claras e distintas.

A objeção residiria no argumento que não seria possível confiar nessa evidência, a menos que a existência de Deus pudesse ser demonstrada.

Descartes responde dizendo que há duas espécies de certeza: a dos axiomas, que são conhecidos por simples golpe de vista, dos quais não se pode duvidar; e a da ciência, que consiste em conclusões dependentes de raciocínios muito demorados.

A questão é que para vários filósofos contemporâneos e posteriores, essa resposta foi considerada embaraçosa, visto que se a prova da existência de Deus é, como parece, um raciocínio longo e complicado, o círculo vicioso persistiria.

No entanto, o que ocorre é que o conhecimento claro e distinto, ponto de chegada e um fim, é também ponto de partida para o espírito, que busca as combinações e os efeitos das essências.

Para Descartes, a ciência não vai do obscuro ao claro, mas do claro ao claro.

Sendo assim, a dúvida sobre a existência das coisas materiais e a certeza matemáticas, conduz a verdade inabalável do “penso, logo existo”.

A demonstração cartesiana da existência de Deus legitima o Cogito, servindo de partida para a ordem das matérias.

Podemos dizer que partindo da ordem das razões (ou do entendimento), pelos efeitos, podemos alcançar as causas e; por outro lado, partindo da ordem das matérias (ou da necessidade das próprias coisas), pelas causas alcançar os efeitos.

Cabe aqui uma observação, devemos notar que enquanto a ordem das razões é explicita, mantendo-se em conformidade com o método, a ordem das matérias encontra-se implícita dentro das necessidades do entendimento.

Para provar o que acabamos de dizer basta citar as palavras do próprio Descartes: "[...] não ordeno as matérias, mas somente as razões." (Carta a Mersenne - AT, III, 260).

Em outras palavras, não são possíveis senão as coisas que Deus quis tornar verdadeiramente possíveis, a razão de sua vontade depende do que quis fazer.

O pensamento cartesiano faz de Deus não o modelo, mas a garantia de nosso entendimento.

Isto é, segundo o preceito geral de seu método, seguindo não a ordem de produção de Deus às coisas, mas a ordem das razões.

Descartes mostra como uma verdade pode engendrar outra verdade, como a existência de Deus é, para nós, o princípio de outra verdade.

Decorre deste princípio uma das maiores dificuldades da obra "Meditações", abandonar a ordem das matérias que nos é familiar em favor de uma gênese dos conteúdos.

Estes conteúdos são a mesma matéria que hão de aparecer em diferentes passagens do pensamento cartesiano, conforme o lugar exigido pela ordem, sem que a necessidade das próprias coisas seja destituída de sentido.

Desta afirmação decorre uma questão de vital importância: que método é esse, cuja ordem do entendimento abarca, implícita e não destituída de sentido, as próprias coisas?

O método cartesiano é aquele que vêm substituir o aristotelismo, sua máxima da necessidade metódica de questionamento exige que a existência deve ser provada antes da investigação da essência, sob pena de não encontrar senão quimeras, como a figura do satírico.

Isto implica que o juízo de existência pode ser estabelecido antes que se saiba o que é a coisa, afirmando a existência como atitude em conformidade do senso comum.

Por isso mesmo, Descartes é forçado a admitir muitas noções obscuras e mal definidas, na opinião de alguns caindo em afirmações que podem ser desmontadas facilmente.

Estes utilizariam o argumento que era ideia familiar ao tomismo a verdade percebida pelo entendimento humano fundamentada no entendimento divino.

No entanto, a verdade e o entendimento divino não são mensurados nem produzidos, mas medem e produzem uma dupla verdade: uma nas coisas, outra em nossa alma.

Por apagadas que estejam, nossas noções são imagens de razões inteligíveis das coisas, estando contidas em Deus.

Para São Tomás de Aquino, nosso conhecimento é garantido por ser reflexo do entendimento divino, naturalmente voltado para sua origem, de forma que nossa verdadeira vocação está na vida eterna, onde esse reflexo irá converter-se em visão.

Segundo Descartes, ao contrário, o conhecimento intelectual não significa qualquer grau de participação no entendimento divino; as essências, objetos do entendimento humano, são criaturas de Deus.

Deduz-se que Deus é garantia de nosso conhecimento, não por um atributo relacionado com este, mas que se ligam ao seu criador através de sua onipotência e bondade.

O neoplatonismo parte da intuição de um princípio divino para ir de Deus, como causa, às coisas como efeitos dessa causa.

Neste sentido, parece haver uma alternativa à qual, Descartes, deixa apenas implícita e oculta em sua metafisica.

Para concluir basta dizer que, por um lado, o Cogito se apresenta como primeiro princípio, dentro da ordem das razões metafisicas, por outro, a existência de Deus constitui a verdade fundamental que legitima a edificação das ciências e o próprio método cartesiano.

A ciência filosófica aparece fundada em dois princípios: o Cogito e Deus.

O Cogito parece ser o princípio primeiro, mas de acordo com as necessidades de nosso entendimento, que abarca a necessidade das próprias coisas; carece antes de Deus.

Encontramos, portanto, implícito na ordem das razões a ordem das matérias, cujo primeiro princípio é Deus.

As necessidades de nosso entendimento e seu primeiro princípio, o Cogito, ou seja, a ordem das razões, convive de forma harmoniosa com a necessidade das próprias coisas e das matérias, sem que isto implique em contradição.

Para o pensamento cartesiano, “a dedução só se pode fazer, quer das palavras às coisas, quer do efeito à sua causa, quer da causa ao seu efeito, quer do semelhante ao semelhante, quer das partes às partes ou ao próprio todo” (DESCARTES, 1993: Regra XII).

Não obstante, Deus é o garantidor do Cogito e de toda a existência, sem o qual o pensamento ou a concretude do mundo não seria possível.

 

PARA SABER MAIS SOBRE O ASSUNTO.

BRÉHIER, Emile. História da Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1977.

DESCARTES, René. Meditações. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

DESCARTES, René. Princípios da Filosofia. Lisboa: Guimarães Editores, 1989.

DESCARTES, René. Regras para a direção do espirito. Lisboa: Edições 70, s.d.

LALANDE, André. Vocabulário técnico e crítico da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1982.

PADOVANI, Umberto & Castagnola, Luís. História da Filosofia. São Paulo: Melhoramentos, 1990.

KUJAWSKI, Gilberto de Mello. Descartes Existencial. São Paulo: Edusp, 1969.




segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A razão no pensamento de Descartes e Pascal.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 5, Volume dez., Série 01/12, 2014, p.01-03.


Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos. 

Doutor em história social - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.
Licenciado em história - CEUCLAR.
Licenciado em filosofia - FE/USP.
Bacharel em filosofia - FFLCH/USP.




Enquanto a filosofia de Descartes é regida pela razão demonstrada através de princípios; para Pascal o monopólio da certeza não é sua exclusividade, visto que está circunscrita ao seu domínio, mas é limitada.

Descartes vê na razão, e em seu método, um meio seguro de resolver qualquer dificuldade, chegando assim a verdade.

Pascal julga que a razão é limitada, carecendo do auxilio do coração, pois: “o coração tem suas razões, que a razão não conhece”.


A concepção cartesiana.

Em seu Discurso do Método, Descartes estabelece os quatro famosos preceitos (Evidência, Divisão, Ordem e Enumeração), através dos quais a razão chega a verdade.

Para o filosofo só existe uma verdade, considerando que tudo é suscetível de conhecimento verdadeiro, é, por isto mesmo, passível de conhecimento de tipo matemático.

Sendo assim surge um problema: como explicar as coisas que não podemos entender racionalmente?

As quais, inclusive estão presentes no próprio pensamento cartesiano, tal como a união entre alma e corpo.

A análise dos textos de Descartes prova que seria um equivoco julgar o racionalismo ilimitado em extensão.

Outro equivoco, porém, seria crer que, por não ser ilimitado, o racionalismo cartesiano é menos radical.

A característica do pensamento cartesiano não é ser ilimitado, mas sim invariável em compreensão, ou seja, compreende todos os objetos sempre segundo o mesmo critério.

O pensamento cartesiano é racionalista por julgar, rigorosamente, a unidade da razão com a unidade do saber e com a unidade do método.

No momento em que se indicar qualquer brecha na unidade da razão cartesiana, da qual dependem as outras duas, poder-se-ia colocar em dúvida todo o sistema filosófico cartesiano.

Descartes compõe a máquina e tenta adequar o mundo a seu sistema.


A concepção de Pascal.

Pascal, um dos criadores do cálculo das probabilidades, compreende bem o caráter multipolar da verdade, tentando adaptar o seu pensamento ao mundo, e não o mundo ao seu pensamento.

Para ele a razão é limitada, não podendo ser juízo de tudo.

Cada objeto exige um método para sua compreensão, a razão tem o seu lugar, mas necessita do auxilio do coração.

A razão é um ato de pensamento puro que não pode enxergar de um só golpe, como faz o coração, entendido como aquilo que é captado pelos sentidos.

A razão deve se ajustar ao real e não o contrário, embora esta concepção comporte dúvida, pois não existe uma definição clara do que se entende por realidade.

No pensamento de Pascal a verdade tem muitas faces, o que conduz a concluir que não existe uma verdade limitada pela razão.

A verdade não pode ser alcançada pelo homem, só Deus pode contemplar a sua complexidade.


Concluindo.

Para concluir basta dizer que enquanto Descartes vê na razão, e principalmente em seu método, um meio para compreender todos os objetos sempre segundo o mesmo critério, assim chegando a uma verdade única.

Pascal compreende a limitação da razão, bem como o caráter multipolar da verdade.

O pensador não se contenta em construir um sistema fechado, que dentro de si mesmo é a prova de refutações.

Pascal prefere adequar seu pensamento ao real, motivo pelo qual afirmou categoricamente: “Descartes, inútil e incerto”.


Para saber mais sobre o assunto.

ARANHA, Maria Lucia Arruda & MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de filosofia. São Paulo: Moderna, 1992.

CHAUÍ, Marilena. Convite a filosofia. São Paulo: Ática, 1994.

CHEVALIER. “La méthode de connîte d’aprés Pascal” In: Étrue sur Pascal. Paris: Armand Colia, 1923.

DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

LALANDE, André. Vocabulário técnico e crítico da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, s.d.

LEBRUN, Gérard. Pascal. São Paulo: Brasiliense, s.d.

KUJAWSKI, Gilberto de Mello. Descartes existencial. São Paulo: Edusp, 1969.

MORA, José Ferrater. Dicionário de filosofia. Lisboa: Dom Quixote, s.d.


PASCAL, Blaise. Pensamentos. São Paulo: Abril Cultural, 1973.



segunda-feira, 1 de outubro de 2012

As semelhanças e dessemelhanças entre o método cartesiano e o espírito geométrico em Pascal.


 

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 3, Vol. out., Série 01/10, 2012, p.01-04.

 

“Zombar da filosofia é um verdadeiro filosofar” (Pascal, Fragmentos, fr.4).

 

É bem verdade que muitas semelhanças existem entre o método cartesiano e o espírito geométrico em Pascal, mas as dessemelhanças são muito mais nítidas.

A exemplo do método cartesiano, encontramos no espírito geométrico, a presença de uma verdade unívoca e monolítica.

Enquanto para Descartes a verdade se estende através do método a todos os ramos do saber, para Pascal é aplicável somente as matemáticas.

Ambos centralizam a possibilidade de alcançar a verdade por meio de um método, embora o resultado seja dispare.

 

Razão x Coração.

No Discurso do Método, Descartes (p.40) afirma: “comprazia-me sobretudo com as matemáticas, por causa da certeza e da evidência de suas razões; mas não notava ainda seu verdadeiro emprego, e, pensando que serviam apenas às artes mecânicas, espantava-me de que, sendo seus fundamentos tão firmes e tão sólidos, não se tivesse edificado sobre eles nada de mais elevado”.

Sua proposta responde esta inquietação, indo de encontro a busca de um saber universal, tendo as matemáticas como meio de universalizar as certezas e obter verdades em todas as áreas do conhecimento humano.

Antagonicamente, Pascal considera a pretensão cartesiana cômica, censurando a Mathesis Universalis de Descartes, por considerar abusiva a transferência de um método para fora de seu domínio de origem.

O que expressou através do aforismo: “ardemos no desejo de encontrar uma plataforma firme e uma base última e permanente para sobre ela edificar uma torre que se erga até o infinito, porém, os alicerces ruem e a terra se abre até o abismo” (Pascal, Pensamentos, fr.72).

Entretanto, para ambos, a evidência faz-se necessária, assim como a utilização de um método.

Descartes apresenta o seu método baseado nos quatro preceitos: 1. Evidência (clareza e distinção); 2. Divisão; 3. Ordem; 4. Enumeração.

Baseado única e exclusivamente, diga-se de passagem, pretensiosamente, na razão nua e crua.

O espírito geométrico de Pascal busca não somente pela razão, mas também pelo coração, chegar à verdade.

Operando da seguinte maneira: o espírito geométrico abarca o espírito geométrico, aplicável às matemáticas, e o espírito de justeza, aplicável à física; o espírito geométrico abarca, por sua vez, a razão e o coração.

Assim, a razão entendida como raciocínio, caberia aprender o conhecimento discursivo ou por extensão, ao coração, que poderia ser traduzido por sentimento, caberia apreender o conhecimento de modo imediato.

Para Pascal, a razão não tem o monopólio da certeza, o coração tem seu domínio assim como a razão teria o seu.

Tanto um como o outro, cada qual em sua ordem, é um operador de certeza para alcançar a verdade.

Dado a própria limitação da razão, “o  coração tem suas razões, que a razão não conhece”, afinal nossa razão é sempre iludida pela inconstância das aparências.

 

Certezas e Verdades.

Tanto o método cartesiano como o espírito geométrico primam por uma verdade unívoca, operando através da evidência.

Apesar do jogo de palavras, Pascal busca, como Descartes, através da evidência a verdade universal.

Devemos notar, no entanto, que Pascal afirma buscar “princípios tão claros que não se encontrem outros que o sejam mais para servir de provas”, e não princípios tão claros que não existam outros (LEBRUN: p.32).

Essa é a diferença básica, que constitui também semelhança, entre os dois filósofos.

Descartes entende por evidente o ato de intuição racional; Pascal entende pelo mesmo termo não a garantia de verdade ou sinal de nossa comunicação com o verbo divino, mas sim uma proposição estrategicamente útil, dado a clareza dos princípios ser relativa ao alcance limitado de nosso campo de visão.

Portanto, enquanto Descartes pretende atingir verdades universais, Pascal enxerga certezas relativas às possibilidades do momento.

Diferente de Descartes, que pretende estender o método cartesianos a todos os ramos do saber, alcançando verdades; Pascal sabe reconhecer a finitude do espírito geométrico, aplicando-o somente as matemáticas.

 

Concluindo.

Pascal considera a ideia de um saber universal uma quimera; Descarte é para ele cômico quando propõe um método que poderia conduzir infalivelmente ao saber de tudo o que o espírito humano seria capaz de conhecer.

Diz ele: “Descartes põe os seus princípios e, depois disso (...) tenta explicar-nos sem interrupção e até pormenores o funcionamento do mundo (...)[;] é uma coisa estranha que eles tenham querido compreender os princípios das coisas e assim chegar ao conhecimento do todo, através de uma presunção tão infinita quanto seu objetivo” (Pascal, Fragmentos, fr.72).

Entre muitas outras semelhanças e dessemelhanças, cabe destacar que Descartes e Pascal concordam no tocante a necessidade de um método para bem julgar e encontrar certezas nas ciências.

No entanto, Pascal só concerne com tal intento se além da razão estiver apoiado na experiência; enquanto Descartes centraliza seu método somente na dedução.

Pascal, em seu espírito geométrico, admite a necessidade do método, mas diferente de Descartes enxerga a finitude de sua aplicação, daí o absurdo de uma Matemática Universal que alcançaria a verdade dogmática.

Apoiado na dedução e na razão pretende chegar a certeza, a uma verdade de certa forma, embora aplicada a um contexto permitido pelo coração e a experiência, os quais complementam a razão, possibilitando alcançar a evidência.

 

Para saber mais sobre o assunto.

DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

LALANDE, André. Vocabulário técnico e critico da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

LEBRUN, Gérard. Pascal. São Paulo: Brasiliense, s.d.

MORA, José Ferrater. Dicionário de filosofia. Lisboa: Dom Quixote, 1982.

PASCAL, Blaise. Pensamentos. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

 

Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela USP.
MBA em Gestão de Pessoas.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade de São Paulo.

 

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O Racionalismo Cartesiano no contexto da Teoria do Conhecimento.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume fev., Série 21/02, 2011, p.01-08.

A despeito da discussão iniciada na antiguidade, durante a Idade Moderna, René Descartes revolucionou a maneira de pensar a construção do conhecimento, podendo ser considerado o pai da moderna Teoria do Conhecimento.
A despeito de grande parte dos historiadores da filosofia considerar John Locke como o fundador da Teoria do Conhecimento, foi Descartes que, seguindo a tradição estabelecida por Parmênides, demoliu todas as certezas para reconstruí-las sob as bases solidas da razão.
Depois de um período em que, durante a Idade Média, o cristianismo interrompeu a discussão sobre a possibilidade de conhecer, o racionalismo cartesiano ousadamente retomou a temática.
O cristianismo havia distinguido verdades de fé reveladas da realidade racional, optando por demonstrar que o conhecido era apenas o permitido por Deus, quando o filosofo francês provou que sem a razão não era nem ao menos ter certeza da existência de um ser imaterial superior ao homem.


Descartes e o Racionalismo.
René Descartes (1596-1650) nasceu na França, em uma família burguesa enobrecida, estudou em colégio jesuíta, onde aprendeu autodisciplina e tomou gosto pelos estudos.
Foi neste período que notou a ausência de uma metodologia capaz de fornecer sustentação a ciência e a filosofia; instruindo, controlando e ordenando as idéias para guiar a busca pela verdade.
O que o levaria a escrever, mais tarde, o Discurso do método.
Na realidade, Descartes estabeleceu uma critica a ciência de sua época e aos ensinamentos tradicionais.
Chegou a afirmar que na filosofia não se encontrava até então uma só coisa que não fosse duvidosa.
Isto, principalmente porque reinava naquele momento a escolástica, uma tendência medieval que defendia a idéia de que a fé em Cristo e a razão deveriam ser conciliadas.
Para Tomás de Aquino, por exemplo, não poderia haver contradição entre fé e razão, sendo que Deus garantia a verdade em detrimento do obvio.
Já Santo Agostinho simbolizava a junção entre fé e razão através de um episódio que o teria levado a conversão.
Segundo ele, andando pela praia, questionando a existência de Deus, encontrou um garoto tentando encher um buraco na areia com água do mar.
Ao perguntar aquela criança sua intenção, obtém a resposta que o menino queria colocar toda a água do mar no buraco.
Chamando o garoto de louco, escuta dele que é mais fácil colocar toda água do mar no buraco na areia do que o homem, com sua razão limitada, entender o que é Deus.
Descarte se opôs, justamente, a este tipo de pensamento e forma de explicar o mundo.
Para isto, defendeu a idéia da recuperação do sentido original da matemática, uma palavra que, a partir do grego ta mathema, significa conhecimento completo ou conhecimento racional integral de ponta a ponta.
Ainda na juventude o francês já afirmava que somente a matemática poderia fundamentar com conceitos firmes e sólidos a ciência e a filosofia.
Aliás, dois conceitos que ainda se confundiam neste período e até pelos menos o século XVIII.
No entanto, Descartes deixou o colégio jesuíta desorientado, sem saber como aplicar a matemática na construção de um conhecimento de fato totalizante, estudando direito e freqüentando aulas de medicina.
Formado, viajou pela Europa, alistando-se nas tropas de Mauricio de Nassau, na Holanda, em 1618.
No ano seguinte, serviu no exercito de Maximiliano da Baviera, no que hoje é a Alemanha.
Nesta época em que foi soldado, estudou física e, depois, resolveu viajar novamente pela Europa, até se estabelecer na Holanda em 1628, quando conheceu Galileu Galilei, interessando-se pelo estudo da matemática pura.
Foi quando escreveu sua primeira obra filosófica, as Regras para a direção do espírito (1628), pesquisando e escrevendo sobre ótica, lentes, o funcionamento dos olhos humanos, a luz, anatomia e a circulação sanguínea.
Fruto destas pesquisas, publicou O mundo ou tratado sobre a luz, uma obra sobre física, além de um estudo antropológico intitulado O homem.
Entre 1633 e 1637 publicou mais um tratado de física - Meteoros, dióprica e geometria -, passando a expressar uma intensa preocupação com o problema da objetividade da razão e a autonomia da ciência em relação à onipotência de Deus.
Isto conduziu a publicação da obra O discurso sobre o método, a qual ficaria conhecida como O discurso do método, em 1637, demonstrando o caráter objetivo da razão, indicando regras para buscar a objetividade para alcançar a verdade.
Embora tenha mesclado esta intenção com fundamentos metafísicos, por razões obvias, para tentar escapar da censura da inquisição.
Este caráter metafísico do pensamento cartesiano foi ressaltado na obra Meditações sobre a filosofia primeira, conhecida como Meditações metafísicas, publicada em 1641.
Onde Deus foi apresentado como garantia da existência do mundo e da possibilidade de construção do conhecimento objetivo e concreto da realidade.
Em 1644, Descartes publicou Princípios da filosofia, uma síntese de suas concepções filosóficas e cientificas.
Dedicando-se a responder objeções de seus críticos, através de cartas remetidas a cada qual, hoje também publicadas.

Em 1649, quando publicou As paixões da alma, onde abordava a relação entre corpos e alma, o problema da moral e do livre-arbítrio; desgostoso com a proibição de suas obras em várias universidades em diferentes pontos da Europa, resolveu aceitar o convite da rainha Cristina da Suécia para integrar sua corte.

A estadia na Suécia foi curta, o hábito da rainha de se reunir com seus protegidos para discutir filosofia às cinco horas da manhã, no inverno rigoroso, diante de sua saúde debilitada e o clima rígido, levou Descartes à morte por pneumonia em dois de fevereiro de 1650.

Após a sua morte, obras póstumas foram publicadas, demonstrando sua imensa genialidade, incluindo suas mencionadas cartas e um tratado de música.


O método.
Para Descartes, a razão era a única capaz de construir uma ciência segura que conduzisse a verdade, possibilitando certezas matemáticas, inserindo-se no contexto da matemática universal cartesiana.
Isto porque a razão seria o único elemento comum a todos os homens, sendo imutável no tempo e espaço, portanto, universal.
Para a realização deste projeto, Descartes defendeu a idéia de que a ciência e filosofia precisavam de um método universalmente aplicável para fornecer alicerces seguros para a construção do conhecimento.
O método foi definido como um conjunto de regras que, observadas com exatidão, conduziriam à certeza, “ensinando a não tomar o falso por verdadeiro e aumentando, progressivamente”, o conhecimento.
Neste sentido, o método adquiriu o significado que possui ainda entre nós hoje: um conjunto de operações, de regras para alcançar um resultado.
Este método universal deveria ser critico, para contestar e evitar erros; e positivo, forçando a acreditar que é possível chegar à verdade, mesmo que provisória.

O método cartesiano defende três princípios:
1. Clareza: só aceitar aquilo que se a apresenta imediatamente ao espírito; o que surge por meio da intuição direta e é entendido só ao ser observado.
2. Distinção: só aceitar como verdadeira uma idéia que não se confunda com nenhuma outra, sem possibilidade de dúvida.
3. Evidência: aquilo que é claro e distinto; o que pode ser expresso pela máxima de só aceitar como verdadeira a idéia que se apresenta de imediato e sobre a qual não existe dúvida, não havendo como confundi-la com outra.

Portanto, para encontrar a verdade, seria necessário um esforço para não aceitar como certo aquilo que não seja claro e distinto, assim evidente; afastando preconceitos, precipitações, situações emocionais e psicológicas que conduzem ao erro.

Para atingir esta intenção, Descartes pensou em quatro regras que compõem seu método:
1. Evidência: só tomar como verdadeiro aquilo que se apresenta de forma clara e distinta.
2. Análise: dividir problemas complexos em partes menores para solucionar cada questão e, portanto, resolver o problema maior.
3. Síntese: conduzir o pensamento de forma ordenada, organizando do mais fácil para o mais difícil, do simples para o complexo.
4. Enumeração ou Revisão: retomar o pensamento em busca da falhas, encontrando erros reiniciar todo processo.

Neste contexto, para tornar o método uma matemática universal (mathema universalis) seria necessário ainda usar dois elementos:
1. Intuição: uma operação ou processo racional que permite a apreensão imediata e instantânea de uma evidência.
2. Dedução: a operação ou processo racional pelo qual, a partir de verdades conhecidas, poderíamos extrair outras verdades, pois as verdades estariam ligadas, encadeadas de forma progressiva.

Seja como for, a partir do racionalismo cartesiano, todo conhecimento cientifico passou a carecer de metodologia para ser considerado ciência.
O método se tornou o alicerce, a base de sustentação de qualquer teoria.


A dúvida cartesiana.
A dúvida cartesiana funda a moderna Teoria do Conhecimento, estabelecendo uma doutrina que suspende o juízo provisoriamente por não saber se uma proposição é verdadeira ou falsa.
Uma idéia defendida por Descartes nas obras Discurso do método (1637), Meditações metafísicas (1641) e Princípios da filosofia (1644).

Através da dúvida, ele pretendia encontrar a verdade sobre a possibilidade de conhecer, utilizando como primeiro argumento o gênio maligno.


O filosofo pretendia aplicar seu método ao saber tradicional, fornecido pelo mundo sensível, pelos sentidos, para ver se existia alguma verdade naquilo que julgamos real.

Supondo que não existe Deus, mas sim um gênio maligno, enganador, afirma que todas as coisas exteriores podem ser apenas ilusões e enganos.
O gênio maligno pode iludir a pensar que determinado objeto é real, quando não existe além da mente.
Em seguida, pensando nas experiências sensíveis, lembra que os sentidos enganam, lançando mão do argumento do erro dos sentidos.
Cita como exemplo uma vara dentro da água, a qual parece entortar ou ficar mais curta para o observador, mas continua igual.
Nem mesmo a razão escapa da dúvida, pois boa parte do saber se fundamenta na razão.
Também este elemento parece duvidoso, a partir do argumento do sono e da vigília, o qual demonstra que o raciocínio erra.
Descartes relata que muitas vezes está diante da lareira aquecendo-se, mas, de repente, acorda e se vê sobre a cama debaixo das cobertas; ou seja, sua mente enganou seu raciocínio.
Neste momento, retoma o argumento do gênio maligno, admitindo a possibilidade da existência de Deus, tornando a dúvida hiperbólica através do argumento do Deus enganador.
Supondo que Deus existe, ele poderia estar me enganando, brincando com o homem, levando a sentir ou pensar coisas que não são reais.
A dúvida se torna hiperbólica porque não há nada certo no mundo, até a matemática e a teologia são colocadas em dúvida.
No entanto, a dúvida cartesiana não é a mesma dos céticos, que negavam a possibilidade de chegar à verdade, é apenas uma etapa para eliminar os entraves que atrapalham a construção do verdadeiro conhecimento racional.
A dúvida serve para afastar o que não é evidente e chegar à verdade, o que é alcançado através do cogito.


O cogito.
Permanecendo a dúvida nunca seria possível construir qualquer tipo de conhecimento, inviabilizando a filosofia e a Teoria do Conhecimento.
A superação deste estado conduz a descoberta do cogito.
Ao duvidar, enquanto duvido, eu penso, logo, existindo pensamento, é necessário que exista quem pense, nem que esta existência do ser seja apenas enquanto ser pensante.

Daí a máxima cartesiana: “cogito ergo sun”, uma expressão em latim que pode ser traduzido como “penso, logo existo”.

Entretanto, não há experiência ou dados fornecidos pelos sentidos, somente intuição, o que é evidente; conduzindo a uma única certeza inquestionável: eu existo como ser pensante.

A realidade do outro ou do mundo exterior já é outra coisa, pois, quanto a isto, a dúvida permanece.
Para que este pensamento não caia no solipsismo - a doutrina que afirma que o eu é a única certeza real e segura no mundo - passa a ser necessário provar a existência de algo fora de mim mesmo, fora do ser pensante.
Até este momento, o eu cartesiano é puro pensamento, res cogitans (ser pensante), já que no caminho da dúvida, a realidade do corpo foi colocada em suspenso.
A res extensa (coisa ou ser extenso, ser material) pode ser apenas imaginada pela razão.
É a prova ontológica da existência de Deus que garante a realidade externa ao eu.
O que possibilita a construção de conhecimentos seguros e a especulação filosófica e cientifica.
Cabe lembrar que a ontologia é a parte da filosofia que especula sobre o ser enquanto ser, estudando as substâncias para além das aparências, em outras palavras, busca conhecer a essência das coisas.
Descartes prova a existência de Deus, justamente, através de sua suposta essência, a partir da idéia de perfeição e infinitude, mostrando pela matemática que o infinito não cabe dentro do que tem fim.
Portanto, a idéia de Deus não pode nascer da mente humana, finita, só pode ter origem externa, fornecida pelo ser infinito, ou seja, Deus.
A existência de Deus, por sua vez, demonstra como a realidade exterior não é ilusão, o que leva, também, a admitir que existem idéias inatas, que são exteriores ao ser pensante e que já nascem com o homem.
Isto mostra que a idéia de corpo é inata e que a res extensa existe concretamente, sendo a realidade possível de ser conhecida através da razão.


Concluindo.
René Descartes desconstrói o mundo, a realidade, antes assegurada pela revelação divina, mostrando que nada é certo, tudo é questionável.
Para em seguida, demonstrar que não é Deus que garante a possibilidade de conhecer, mas sim a razão.
É claro que, sendo um homem de sue tempo, acaba tendo que encaixar Deus em algum lugar, terminando por utilizá-lo como garantia da realidade exterior ao eu.
No entanto, o Deus cartesiano não é exatamente o mesmo Deus cristão; é antes de tudo uma entidade superior, que poderia ser até um deus astronauta.
Descartes errou feio ao afirmar que a glândula pineal fazia a comunicação entre ser pensante e extenso, podendo conferir um sexto sentido ao homem, possibilitando transitar entre realidade física e pensamento.
Mas acertou ao tornar o cogito uma certeza inabalável, tendo como guia um método seguro e universal, permitindo entender a realidade e construir o conhecimento.
Como mostra o filme Matrix, talvez a realidade não passe daquilo que imaginamos, porém, com certeza o pensamento contido no racionalismo cartesiano garante que existe uma possibilidade de conhecer concreta.
Assim, funda a moderna Teoria do Conhecimento.


Para saber mais sobre o assunto.
ALQUIÉ, F. et alli. Galileu, Descartes e o mecanismo. Lisboa: Gradiva, 1987.
KOYRÉ, A. Considerações sobre Descartes. Lisboa: Presença, 1963.
KUJAWSKI, G. M. Descartes existencial. São Paulo: Edusp, 1969.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.