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Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Como a família e a escola podem interferir no trabalho do psicopedagogo clínico?


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 3, Vol. out., Série 15/10, 2012, p.01-05.

 
O artigo faz parte da Monografia de Conclusão de Curso de Pós-Graduação em Psicopedagogia Clínica pelo INEC/Universidade Cruzeiro do Sul, orientada pelo Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
 

Esse estudo tem como objetivo analisar o trabalho do Psicopedagogo Clínico durante o processo de tratamento de um paciente, partindo das seguintes questões: até onde a família e a escola podem interferir no trabalho do psicopedagogo clínico?

A relação entre elas auxiliam o profissional da área no desenvolvimento do seu trabalho? 
Onde se inicia e termina a responsabilidade do terapeuta para o desenvolvimento das aprendizagens de seus pacientes?
Como proceder quando o profissional encontra dificuldades com a família e a escola? 
Foram entregues um questionário com quatro questões para três profissionais, que atuam na área, para ser respondido.

Em seguida, houve uma tabulação dos dados coletados; e o resultado foi o seguinte: tanto a família como a escola podem auxiliar o trabalho psicopedagógico, entretanto, o profissional deve ter autonomia, independência para desenvolver o trabalho.

 
INTRODUÇÃO.
Nunca se observou nas últimas décadas o empenho de governos, sociedade, instituições filantrópicas, igrejas entre outros, preocupados com a melhoria e qualidade de educação.
Ciências novas como a Psicopedagogia Institucional e Clínica surgiram no Brasil na década de 70, como uma das respostas ao grande problema do fracasso escolar.
Hoje se sabe que todos os indivíduos aprendem de acordo com seu ritmo e o tempo, o grande desafio da educação do século XXI é intervir no processo de aprendizagem do aprendente respeitando sua individualidade.
O grande desafio de todos que trabalham na educação é a distinção entre fracasso o escolar e a dificuldade de aprendizagem, já que muitas vezes, os profissionais da educação, não têm muito claros essa diferença e geralmente responsabiliza o sujeito aprendiz pelo insucesso escolar. Segundo SAMPAIO (2011, p. 11):

“Dificuldade de aprendizagem é de ordem mais subjetiva e individual - geralmente há algum tipo de deficiência ou necessidade educacional específica, que compromete o desempenho na escola e pode causar fracasso escolar; e esta é a conjunção de fatores que, em um determinado momento, interagem, mobilizando o desempenho do sujeito e do sistema familiar/escolar/social ao qual está integrado.”

Durante décadas o fracasso escolar no Brasil foi responsabilizado pelo aprendente (este tinha alcunha de preguiçoso e que não queria aprender), como também, a sua família (na maioria das vezes, caracterizada como omissa na vida escolar do seu filho em todos os sentidos).
Hoje se sabe que as dificuldades de aprendizagem apresentadas pelo indivíduo precisam ser analisadas em todos os focos como: deficiências do sistema escolar, aspectos socioeconômico-culturais, problemas orgânicos, cognitivos, afetivos, social e a interação com o ambiente familiar e escolar.
Conclui-se que atualmente os educadores precisam estar sintonizados com essas novas perspectivas de como observar as dificuldades de aprendizagem e buscar caminhos para intervenção, inclusive o auxílio e parceria com outros profissionais; já que não há mais espaço para culpar o sujeito e sua família pelo fracasso escolar.


JUSTIFICATIVA.
Com o avanço econômico do Brasil nos últimos anos, a sociedade brasileira tem se conscientizado sobre a importância da qualidade na educação básica e do nível superior, pois cada vez mais, o país necessita de profissionais qualificados em todas as áreas, além disso, um povo letrado tem maiores condições de exigir e lutar por uma nação mais igualitária.
Como a melhoria e a qualidade da educação é o foco desse momento, vários profissionais ligados à aprendizagem discutem , refletem e trabalham, com intuito, de encontrar caminhos, para que todos aprendam.
Observa-se que a educação é responsabilidade de todos (família, escola, sociedade entre outros) já que, um povo letrado ou não, influencia o desenvolvimento social, econômico e político de uma nação.
 

MÉTODO.
Além das leituras sobre o tema abordado, outro elemento norteador para o desenvolvimento desse artigo foi a entrega de um questionário com quatro perguntas para três psicopedagogas que atuam em clínicas particulares, e com posse desse material dar-se-á a tabulação para a análise.
As profissionais são: Maria Inês Sladek da Costa, Cristina K. Tamashiro e Valéria Modesto de Jesus, todas com experiência na área da psicopedagogia.

Segue abaixo as questões e as respectivas respostas das envolvidas na pesquisa:

Até onde a família e a escola podem interferir no trabalho do psicopedagogo clínico?
Maria Inês: "A colocação não seria interferir e sim acrescentar no trabalho, pois sem esta colaboração o trabalho fica quase impossível, pois o psicopedagogo vê a criança duas vezes por semana e a família e a escola estarão com ele todos os dias então...”.
Cristina Tamashiro: "É importante que o profissional tenha autonomia e independência para que um bom trabalho seja realizado. É claro que as demandas da família e da escola devem ser acolhidas e investigadas, mas nem sempre o que se manifesta é o que de fato ocorre, necessita ser trabalhado, etc. Cabe ao profissional com toda a sua bagagem técnica pela qual se diferencia do leigo, realizar esta leitura e da forma mais adequada possível clarificar e trabalhar a questão com os envolvidos”.
Valéria Modesto: "Percebo interferência quando não colaboram com as informações e não fazem parcerias para chegarmos ao objetivo comum que é o aluno, se preocupam com interesses próprios".

A relação entre elas auxiliam o profissional da área no desenvolvimento do seu trabalho?
Maria Inês: "Não só auxilia como completa, pois a continuidade do aprendizado deve acontecer para a fixação do que a criança tem dificuldades".
Cristina Tamashiro: "É muito comum haver discordâncias e conflitos entre a família e a escola. Nestes casos, o psicopedagogo deve intervir de forma a resolver a situação sempre em função do interesse e benefício da criança, observando se a escola é adequada quanto à estrutura, metodologia, equipe profissional, filosofia de trabalho, etc. Esta adequação é fundamental, pois proporciona uma maior probabilidade de que tanto os interesses da escola como da família corram numa mesma direção, tornando a relação mais positiva o que sem dúvida torna o trabalho mais fácil".
Valéria Modesto: "Quando há a resistência da escola e não da família, o psicopedagogo consegue realizar o trabalho; com a família, ela não chega ao consultório; não reconhece o problema no seu filho, justifica que a criança é preguiçosa ou há algum parente que teve a mesma dificuldade. Quando de fato a criança piora o resultado de aprendizagem ou é reprovada na escola, aí sim a família cai na real. Uma vez que se inicia o tratamento, geralmente, não existem só dificuldades de aprendizagem, mas também, problemas na família ou talvez na escola. Na questão da resistência da escola na maioria das vezes é falta de informação do que é o trabalho do psicopedagogo".

Onde se inicia e termina a responsabilidade do terapeuta para o desenvolvimento das aprendizagens de seus pacientes?
Maria Inês: "Dentro dos parâmetros do que é possível numa relação terapêutica".
Cristina Tamashiro: "Esta é uma pergunta difícil, pois seus limites não são tão delineáveis, mas podemos dizer que o profissional clarifica, aponta soluções, encaminha, auxilia nas decisões e escolhas, porém nem sempre a escola e ou família concordam ou aceitam. Uma vez tendo desempenhado o seu papel, creio que podemos dizer que seu papel foi desempenhado”.
Valéria Modesto: "Inicia-se quando começamos o diagnóstico e fazemos a intervenção. Termina quando os interessados não aceitam ou não colaboram com os procedimentos que devem ser tomados”.

Como proceder quando o profissional encontra dificuldades com a família e a escola no desenvolvimento do seu trabalho?
Maria Inês: "Esse também requer uma análise de caso, pois sem a participação no mínimo da família não acontece o atendimento”.
Cristina Tamashiro: "Cabe ao profissional buscar soluções para estes problemas, muito comuns, através de seu trabalho, sempre procurando estabelecer relações positivas entre as partes, mas com objetividade e autonomia. A postura, seu conhecimento técnico, a sua psicoterapia pessoal para autoconhecimento são as bases fundamentais para que o profissional consiga mostrar consistência e importância de seu trabalho, angariando a cooperação de todos. Em casos extremos, onde isto não foi possível, o profissional não deve se submeter a se responsabilizar por um caso onde não tenha mais domínio (no sentido de realizar um trabalho conjunto), devendo isto ser pontuado e trabalhado. Muitas vezes a própria clarificação da situação cria um movimento diferente, ou até a opção pela interrupção, dependendo do caso, mas seria contraditório, enquanto psicopedagogos trabalharmos com o não dito".
Valéria Modesto: "Costumo deixar tudo documentado através de relatórios sobre o processo e intercorrências e envio cópias para a família, a escola e também se houver outros envolvidos no caso. Desta forma, fico assegurada, caso haja algum problema superior”.

 
ANÁLISES DOS DADOS COLETADOS.
Ao analisar o primeiro item respondido pelas psicopedagogas, percebe-se que elas destacam a importância da família e da escola como parceiras no desenvolver do trabalho do psicopedagogo com a criança, entretanto, enfatizam a autonomia e a independência do profissional para desenvolver o trabalho.
 
Segundo PORTO (2011, p.8):

"O psicopedagogo sendo um profissional multiespecialista em aprendizagem humana que congrega conhecimentos de diversas áreas a fim de intervir nesse processo, com sua intervenção psicopedagógica, pode assumir uma feição preventiva ou terapêutica, relacionando-se com equipes ligadas aos campos de saúde e educação, terapêutica e institucional, respectivamente".

No segundo item as profissionais esclarecem que a família e a escola intergradas auxiliam no trabalho do psicopedagogo, entretanto, quando houver divergências entre elas, cabe o profissional defender o interesse do paciente e expor aos envolvidos as dificuldades que cada uma está proporcionando, para não aprendizagem do indivíduo. De acordo SAMPAIO (2011, p. 17):

“O sujeito poderá encontrar obstáculos, mas poderão ser superados à medida que encontramos na família, na escola e no próprio sujeito uma porta, que nos permita entrar e (re)construir, junto a estes, uma nova aprendizagem.”

No terceiro item as terapeutas destacam que é difícil delinear de uma forma precisa onde inicia ou mesmo termina o trabalho do psicopedagogo, mas observam que a partir do contato profissional,na qual clarifica, aponta soluções, encaminha, auxilia nas decisões e escolhas; que nem sempre a família ou a escola concordam; tudo isso faz parte da responsabilidade do psicopedagogo. Conforme SAMPAIO (2011, p. 15):

“O psicopedagogo tem a difícil tarefa de avaliar a adequação das estruturas sociais e o funcionamento dessa complexa rede de relações, a afim de melhor intervir nos processos de aprendizagem. Saber entender as relações entre sujeito/família/ escola é, pois, um pré-requisito importante para uma visão preventiva e terapêutica das dificuldades que se interpõem nos processos do aprender”.

No quarto e último item as psicopedagogas apontam que as dificuldades encontradas junto à família e a escola variam de caso a caso, cabe o profissional buscar solucioná-las com objetividade, autonomia, uma postura de mostrar consistência sobre importância do seu trabalho, como também, elaboração de relatórios sobre o processo e intercorrências. Dessa forma, ficam asseguradas caso haja algum problema superior. Segundo PAIN (1986), citada por PORTO (2011, p.79):

“O profissional, para cumprir os objetivos e garantir o enquadre no trabalho psicopedagógico, deve adotar certas técnicas. São elas: organização prévia da tarefa; graduação nas dificuldades das tarefas; autoavaliação de cada tarefa a partir de determinada finalidade; historicidade do processo, de forma que o paciente possa reconhecer sua trajetória no tratamento; informações a serem oferecidas ao sujeito pelo psicopedagogo...”.

 
CONCLUINDO
No trabalho do Psicopedagogo Clínico é primordial que a relação entre o profissional, à família e a escola seja construtiva, pois isto auxilia o trabalho do terapeuta, entretanto, cabe a ele ter autonomia, independência, e de intervir com segurança para o convencimento da família, escola e do próprio paciente sobre o processo de intervenção psicopedagógica na dificuldade de aprendizagem do indivíduo. É um processo de construção em todos os sentidos: a confiança da família, da escola e do próprio paciente envolvido.
Daí a importância desse profissional está sempre pesquisando, para que sua bagagem teórica possa ser aplicada na prática para um melhor atendimento clínico.

 
PARA SABER MAIS SOBRE O ASSUNTO.
BEAUCLAIR, João. “Psicopedagogia Trabalhando Competências, Criando Habilidades”.  Editora Wak, 4 ° edição, 2011.
PORTO, Olivia. “Bases da Psicopedagogia Diagnóstico e Intervenção de aprendizagem”. Editora Wak, 5˚edição, 2011.  
SILVA, Maria Cecília Almeida. “Psicopedagogia: A Busca de uma Fundamentação Teórica”. Editora Paz e Terra 2010.
SAMPAIO, Simaia. “Dificuldades de Aprendizagem: A Psicopedagogia na relação sujeito, família e escola”. Editora Wak 3° edição, 2011.
SAMPAIO, Simaia “Manual Prático do Diagnóstico Psicopedagógico Clínico”. Editora Wak. 3˚ edição 2012 .
WEISS, Maria Lucia Lemme & Weiss, Alba: “Vencendo as Dificuldades de Aprendizagem Escolar”, Editora Wak 2°edição, 2011.


Texto: Prof. Reginaldo Pereira de Jesus.
Pós-Graduando em Psicopedagogia Clínica pelo INEC/UNICSUL.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Educação, Escola, Família e Sociedade.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mai., Série 02/05, 2011, p.01-07.


Contemporaneamente, as questões em torno da função da educação remetem ao estudo da família, pois, cada vez mais, o senso comum atribui à escola a tarefa de educar, delegando responsabilidades aos professores que antes eram dos pais.
Mas será que a escola realmente pode chamar para si a tarefa de educar?

Talvez seja necessário fazer a sociedade entender o que é família, assim como o que é educação, antes de discutir o assunto.

Em todas as sociedades humanas, tanto hoje como no passado, a família sempre foi a unidade central da organização social, oscilando em tipos e formas variadas, assumindo funções sociais essenciais para a existência da vida coletiva.
O ser humano, como animal fisicamente frágil, desenvolveu a união de forças para sobrepujar a natureza.
A cooperação foi essencial para a sobrevivência da espécie, transformando o homem em um ser social.
A interação social, a capacidade de relacionar-se com o outro, integrar-se ao grupo, nasceu junto com a humanização.
Devemos lembrar que quando nasce, por um longo período, a criança precisa ser alimentada e protegida por um adulto.
Mais tarde, quando cresce, o novo ser precisa perpetuar a espécie e reproduzir, novamente, dependendo da interação social.
Assim, ao contrário de outros animais, o homem não pode depender somente do instinto para sobreviver, necessita da razão e da interação social, o que conduz diretamente ao conceito de família.


O conceito de família.
Embora, em geral, a família tenha origem em um fenômeno biológico de conservação e reprodução da espécie, o conceito envolve questões vinculadas a aspectos sociais que interferiram diretamente na evolução humana.
A família sofreu consideráveis modificações ao longo da história, regulando as interações sociais e cunhando preceitos morais e éticos, fomentando leis e normas.
No entanto, o conceito de família, independente de suas variações, é basicamente o mesmo desde os primórdios da humanidade.
Segundo Murdack, família é “um grupo social caracterizado pela residência em comum, com cooperação econômica e reprodução”, um conceito bastante elástico.
Para Mair, família é “um grupo doméstico no qual os pais e filhos vivem juntos”, uma concepção mais restrita e hoje colocada de lado pela maioria dos antropólogos.
Para Beals e Hoijer, família é “um grupo social cujos membros estão unidos por laços de parentescos”.
Outro conceito aparentemente estreito, mas que, diante da elasticidade do estabelecimento de graus de parentescos artificiais, admitidos como possíveis pela antropologia, esta concepção torna-se ampla.
Em outras palavras, qualquer que seja a linha teórica, a verdade é que todos os conceitos se encaixam na seguinte definição de família:

Família é todo conjunto de pessoas unidas por interações sociais com certo grau de coesão entre seus membros, com graus de parentesco artificiais ou concretos, declarados ou ocultos, com ou sem ligação genética.

Hoje, apesar de no passado já terem sido registrados casos semelhantes ao longo da história da humanidade, a família pode tanto ser constituída por pais e filhos, como por um conjunto de amigos, onde cada membro assume uma função social perante os demais.


Tipos de família.
Dentro do âmbito da amplitude do conceito de família, para a antropologia existem algumas classificações tipológicas que visam ajudar o estudo.
Assim, pensando nas diferentes maneiras como se organizam ou estruturam os grupos, variáveis no tempo e espaço, a família pode ser classificada em cinco tipos:

1. Elementar.
Também chamada de nuclear, natal-conjugal, simples, imediata ou primaria; é aquela formada por pai e mãe, homem e mulher ou aqueles que assumem a vida conjugal monogâmica, podendo ser um casal de dois homens ou duas mulheres.
Fazem parte deste tipo de família, além do casal, também os filhos, quer sejam gerados biologicamente ou agregados ao grupo.
A despeito de, até pouco tempo atrás, só ser considerado como pertencente a este tipo de modelo a família patriarcal tradicional com laços sanguíneos.
Não obstante, a família elementar, do ponto de vista antropológico, é considerada efêmera, pois à medida que os filhos crescem, constituindo novas famílias, o grupo diminui e, eventualmente, tende a desaparecer com a morte dos pais.
Sobrevive, com raras exceções, não mais que duas ou três gerações.

2. Extensa.
Também chamada grande, é uma unidade formada por duas ou mais famílias de tipo elementar, com grau de parentescos mais complexos, envolvendo avós, tios, sobrinhos, primos, afilhados e até agregados.
No entanto, a unidade nuclear, com pai e mãe, ou aqueles que exercem a função, é bem definida e nítida, admitindo apenas relações monogâmicas entre cônjuges.

3. Composta.
Também chamada complexa ou conjunta, é uma unidade formada por três ou mais cônjuges e seus filhos, com estrutura poligâmica.
É um modelo oriental de família, existente desde os primórdios da humanidade e muito comum em sociedades matriarcais

4. Conjugada Fraterna.
Refere-se a uma unidade composta por membros que compartilham funções, não existindo a presença rígida de pai e mãe.
Ora um membro do grupo exerce o papel de pai, ora de irmão ou filho, tudo depende do contexto e do momento.
Um bom exemplo são as sociedade indígenas, onde a criança é de responsabilidade de toda a tribo, embora existam funções delimitadas por sexo e idade.
Nas sociedades modernas, diante da ausência do real ocupante da função exercendo a mesma, existe uma tendência a sempre alguém ocupar o lugar vago, mesmo que temporariamente.

5. Fantasma.
Consiste em uma unidade formada por apenas um elemento nuclear, pai ou mãe, e o chamado fantasma, além dos filhos.
Isto, mesmo no caso de pai ou mãe vivos, mas ausentes, pois quando a função não é desempenhada, pelo menos em um aspecto, o elemento torna-se um fantasma.


Funções da família.
Dentre as diversas funções da família, as quais tem variado através dos séculos, os estudiosos apontam quatro básicas e quatro subsidiárias.
As funções básicas, também chamadas de fundamentais, são encontradas em todos os grupos humanos, sendo elas:

1. Sexual.
Atende as necessidades sexuais permitidas por meio da institucionalização da união ou casamento.

2. Reprodução.
Visa perpetuar a espécie, mesmo em sociedades onde há liberdade sexual, a procriação é regulada com normas e sanções que legitimam a família.

3. Econômica.
Assegura o sustento e proteção do grupo, conduzindo a divisão de tarefas e a estratificação, com status diferenciados entre os membros.

4. Educacional.
O grupo, através da coesão, arca com a responsabilidade de transferir os conhecimentos acumulados pela humanidade de geração em geração, criando condições para que exista uma cooperação entre os membros.
O que torna, teoricamente, a vida em sociedade possível.

Portanto, as funções básicas da família podem ser desempenhada de várias maneiras, dentro dos mais diversos sistemas culturais, moldando as personalidades individuais.
Como agente educador, a família pode combinar duas funções especificas:

1. Socializadora.
Na medida em que transmite a herança cultural e social durante os primeiros anos de vida (linguagem, usos, costumes, valores e crenças), a família é peça essencial no processo de endoculturação, preparando a criança para o ingresso na sociedade.

2. Social.
Proporciona a conquista de diferentes status dentro da estratificação social, tal como o posicionamento étnico, nacional, religiosa, político, educacional e até de classe.

Além destas divisões, alguns autores classificam quatro funções subsidiárias, apesar de outros afirmarem que perderam sentido na sociedade moderna.
No entanto, cabe ressaltar que, diferente das funções básicas, as subsidiarias não existem em algumas sociedades.
Estas funções subsidiarias podem ser assim divididas:

1. Religiosa.
Une seus membros através de uma rede de direitos e proibições morais, estabelecendo laços afetivos e sentimentais.

2. Jurídica.
Impõem obrigações definidas entre os membros, mas também direitos.
O que garante a reprodução do sistema econômico e político vigente, assim como a manutenção do status individual.

3. Política.
Propicia proteção potencializando apoio emocional para a resolução de problemas e conflitos, podendo formar uma barreira defensiva contra agressões externas.
Neste sentido, reforça a saúde física e mental do individuo, constituindo um recurso para lidar com situações associadas à vida em comunidade.

4. Recreativa.
Constitui uma válvula de escape para as tensões fora do grupo, um elemento de fuga do stress.
Embora esta válvula de escape, desvinculada da função religiosa e associada a outros fatores, possa conduzir a violência domestica.


Casamento e família.
Freqüentemente associada ao casamento, para entender a família integralmente, é necessário discutir o união entre cônjuges.
Na sociedade, em geral, existem duas formas de relação, do ponto de vista antropológico, entre seres humanos: união e casamento.

Tradicionalmente, a união consiste no ajuntamento de indivíduos do sexo oposto sob influencia do impulso sexual.

Modernamente, a união também pode ser caracterizada pelo ajuntamento também entre indivíduos do mesmo sexo, contanto que exista influencia de impulso sexual.
De qualquer forma, a união não estabelece necessariamente direitos e obrigações e, do ponto de vista antropológico, não constitui obrigatoriamente uma família.
Para que isto aconteça é necessário o reconhecimento dos envolvidos e da sociedade.
Entretanto, a união pode conduzir ao matrimonio ou casamento, quer seja reconhecido ou não religiosamente ou pelo Estado.
O que caracteriza o casamento é, justamente, a união orientada para a constituição da família, implicando em costumes complexos e o estabelecimento de laços afetivos mais estreitos, quer dentro da monogamia ou da poligamia.
Assim, o casamento ou a união é a base para a construção da família e seu principal elemento agregador, podendo comportar múltiplas soluções e/ou problemas que afetam todos os seus membros.


Família e escola.
Existe, em quase todas as sociedades, uma tendência para que certos aspectos do adestramento das crianças sejam assumidos por agentes externos à família, tal como a escola.
O grande problema é que o saber escolar, muitas vezes, distancia-se da realidade, impedindo a assimilação democrática do conhecimento, excluindo e limitando o acesso ao saber.

A escola é uma instituição, como tal possui normas e padrões, impostos por aqueles que controlam o sistema educacional, dentro do âmbito do fordismo, acarretando em problemas como a questão da “violência simbólica”, discutida por Bourdieu e Passeron.
Portanto, embora a sociedade transfira, cada vez mais, responsabilidades da família para a escola, cabe lembrar que somente a primeira constitui um grupo primário.
A escola é um grupo secundário e nunca poderá substituir a família na educação das crianças.


Concluindo.
Seja qual for o problema, dentro da escola, a resolução não está apenas no tratamento do educando, mas sim na orientação familiar.
O vinculo dos sujeitos com a família é essencial para um desenvolvimento coerente.

O problema do individuo pode ser, na realidade, um problema de sua família, podendo, inclusive, agravar situações em um efeito em cascata transposto para a sociedade.

Por outro lado, trabalhar com a família, permite ao profissional da educação realizar verdadeiramente uma profilaxia, uma prevenção do agravamento de problemas já existentes.
Para solucionar as questões que diariamente se colocam aos educadores, dentro da escola, talvez devamos pensar em retomar alguns aspectos do ensino tradicional, só assim será possível auxiliar o educando na passagem da heteronomia para a autonomia.


Para saber mais sobre o assunto.
ABRAMOVAY, Miriam et ali. Violência nas escolas. Brasília: UNESCO, 2002.
ANDRADE, Marconi. Antropologia: uma introdução. São Paulo: Atlas, 2001.
BEYER, H. O fazer psicopedagógico: a abordagem a partir de Piaget e Vygotsky. Porto Alegre: Mediações, 1996.
CASTEL, Robert. “As armadilhas da exclusão”. In: Desigualdade e a questão social. São Paulo: EDUC, 1997.
FERNANDES, Alicia. A inteligência aprisionada. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.
GREEN, Bill & BIGUM, Chris. “Alienígenas na sala de aula” In: SILVA, Tomás Tadeu da. (org.) Alienígenas na sala de aula. Uma introdução aos estudos culturais em educação. Petrópolis: Vozes, 1995.
LINTON, Ralph. O homem: uma introdução à antropologia. São Paulo: Martins Fontes, 2000.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo.
Bacharel em Filosofia pela FFLCH/USP e Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Educação da USP, com MBA em Gestão de Pessoas pela UNIA.



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