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Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
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domingo, 13 de julho de 2014

Considerações acerca do peronismo.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 5, Volume jul., Série 13/07, 2014, p.01-07.

Aurélio de Moura Britto.

Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco.


O estudo do fenômeno histórico conhecido como peronismo tem suscitado uma série de interpretações.
Desde explicações dicotômicas que ora sobrevalorizam acriticamente as implementações do governo de Perón, até posições igualmente frágeis que rejeitam qualquer peculiaridade e avanço na política por ele implementada.
Assim sendo, podemos constatar que estamos diante de um tema “muito controverso e polêmico” (PRADO, 1981, p.37).
Aqui pretendemos discutir o contexto político nacional e internacional de suas realizações, descrevendo e explicando momentos decisivos no processo de ascensão e queda do peronismo.
Na medida do possível, pretendemos ainda dimensionar aspectos inovadores e elencar aspectos que guardam precedentes na História argentina em suas práticas políticas.

O Golpe de 1943.
O general Perón alcança a presidência da república em 1946, através de eleições legais, conquanto, esteve diretamente envolvido com o golpe de estado urdido três anos antes que inclusive  o credenciara a participar do pleito.
Liderado por A. Rawson, logo substituído por Pedro Pablo Ramirez, ministro da guerra do governo, o golpe que data de 4 de Junho de 1943 e tencionava, segundo nos lembra Romero, obliterar “o vazio de poder existente.” (ROMERO, 1991, p.91)
 De toda forma, convém pontuar que o golpe foi desferido por um setor das Forças Armadas de caráter eminentemente nacionalista, simpatizantes do Eixo na Segunda Guerra Mundial, e foi, ao menos, visto com bons olhos por parte da oposição submetida a um gama de agruras e arbitrariedades do governo.
Deste modo, o golpe de 1943, assim como, o de 1930, era de tendência conservadora, embora, o primeiro fosse oriundo de tendências “nacionalistas, expansionistas, era antiliberal e antidemocrático”. (PRADO, 1981, p.43).
Dentre os membros oficiais que implementaram o golpe, progressivamente foi conquistando notoriedade o general Juan Domingo Perón.
Depois que Ramirez foi trocado por E. J. Farrell a Secretária de Trabajo e Previsión foi conferida a Perón.
Segundo Romero, “perspicácia e preocupação o levaram a se dedicar a um ator social que, até então, era pouco levado em conta: o movimento operário” (ROMERO, 1991, p. 93).
A efetivação de políticas que versavam sobre a relação capital e trabalho implicou um progressivo, porém, ininterrupto apoio dos trabalhadores a Perón.
Convém explicitar que, segundo Romero, “desde o começo do século eles [os trabalhadores] reconheciam o papel de central do Estado nas relações com os patrões e se acostumaram a negociar com ele” (ROMERO, 1991, p. 93), deste modo, Perón expandiu os mecanismos do Estado como arbitro das relações que remontam ao governo de Yrigoyen, entretanto, a proposta de Perón “radicalizou uma discussão já existente entre os dirigentes sindicais” (ROMERO, 1991, p. 93).
Neste ínterim, é ampliado o regime de aposentadorias, férias remuneradas, acidentes de trabalho, as relações entre patrão e empregados são equilibradas com intervenção estatal e, talvez, a maior inovação: o Estatuto de Peão, abrangendo os benefícios urbanos aos trabalhadores rurais.
Segundo Prado:
No campo, a concretização do “Estatuto do Peão”, ainda que não alterasse substancialmente as relações entre patrões e trabalhadores, foi um forte sinal de que o governo reconhecia sua existência e se preocupava também com os “humildes”. Na cidade, além da concessão de aumentos salariais e da obrigatoriedade do cumprimento das leis trabalhistas já existentes, (...) da instituição de uma espécie de 13º salário, foram criados tribunais do Trabalho; são também regulamentadas as associações profissionais sendo unificado o sistema de previdência social. (PRADO, 1981, p.45)
Vale ressaltar a onda nacionalista provocada pelo incidente "Braden".
Neste, o governo norte americano, por intermédio do Secretário para Assuntos Latino-Americanos dos EUA, liga o governo vigente às manobras do Eixo.
Perón promove campanha com o slogan "Braden ou Perón!"
O apelo peronista acende a chama nacionalista, acusando a interferência americana na política argentina, capitalizando votos para o Partido Laborista, e contando com o apoio da Central Geral de Trabalhadores. (BEIRED, 1984. p. 79)
Em contrapartida, desenvolveu sistematicamente uma política que visava desarticular as organizações sindicais mais politizadas e combativas, mormente, compostas de anarquistas, socialistas e comunistas por meio tanto da cooptação como da violência.
Esses avanços pontuais promovidos por Perón na Secretária de Trabajo e Previsión foi suficiente para que associações patronais demonstrassem seu desconforto com a implementação destas medidas, assim, “aos poucos as associações patronais foram se afastando de Perón e da política da Secretária, enquanto ele, paralelamente reforçava sua identificação com os operários” (ROMERO, 1991, p.94).
A classe dominante mobilizou-se e em 1945, realizou a Marcha de la Consituión y la Liberdad, exigindo a destituição de Perón, o que ocorreria no dia 12 de outubro, com sua prisão.
Entretanto, uma inesperada mobilização popular aconteceu na Plaza de Mayo onde os amotinados saldavam o general.  
Nesta ocasião, Perón vociferava pelo afastamento das “velhas oligarquias e o distanciamento do governo de Washington”. Para Romero, “o fato coroava um processo até então silencioso de crescimento, organização e politização da classe operaria.” (ROMERO, 1991, p. 95)
Estava, então, aberto o caminho para a conquista da presidência. 
Em 24 de outubro de 1945 é fundado o Partido Laborista (PL) que indicará a candidatura de Perón-Quintino, que saem vitoriosos.

O Primeiro Período Presidencial.
Vitorioso nas eleições, Perón iniciava seu primeiro período presidencial de forma bastante auspiciosa.
Afinal, foi favorecido pela situação que a Argentina logrou alcançar no mercado internacional dotado de divisas no exterior.
Além disso, de uma forma geral, a América Latina vislumbrou um período de crescimento industrial ao termino na guerra.
Deste modo, aduz Romero, o fim da guerra e a conclusão dessa espécie de “vazio de poder” no mundo que permitira o crescimento de setores industriais marginais, como o argentino.
Assim, nesse momento a argentina vive um período de significativa euforia econômica, notabilizado pelo crescimento significativo de sua indústria “leve”.
Na perspectiva de Maria Ligia Prado:
Assim, o ponto de vista econômico, o primeiro período peronista viveu na euforia e teve possibilidades de, ao lado de fazer crescer a economia, oferecer aos trabalhadores aumentos salariais constantes e outros benefícios sociais. (PRADO, 1981, p.43)
De modo geral, podemos admitir que Perón optou por recrudescer o mercado interno e pelo defesa do pleno emprego.
Tais investimentos foram realizados com montantes acumulados durante os anos prósperos da guerra, e converteram-se no “equipamento acelerado e desenfreado, porém pouco eficiente, das indústrias”. (ROMERO, 1991, p. 101)
Na perspectiva de Prado, houve um aturado crescimento das indústrias leves,afinal, “cresceram extraordinariamente durante o período peronista; em 1946 havia 85.000 estabelecimentos industriais, que passaram a 145.000 em 1945” PRADO, 1981, p.49).
Entretanto, as indústrias de base não lograram êxito semelhante, destacando-se, nesse sentido, o complexo siderúrgico de S. Nicolau.
Parte dos recursos acumulados durante o período de guerra foram esvaindo-se em medidas de caráter nacionalista, implementadas pelo governo, especialmente, a nacionalização das estradas de ferro, empresas de transportes, serviços de telégrafos e etc.
Ao passo que as nacionalizações eram feitas com o pagamento de indenizações as divisas acumuladas foram sendo progressivamente exaurindo-as, ao passo que “já em 1947 no início no processo haviam sido gastos 32% das mesmas.” (PRADO, 1981, p. 50)
Deste modo, a nacionalização da economia e seu ostensivo controle pelo Estado fora uma das chaves na nova política econômica implementada.
A outra diretriz estava relacionada aos trabalhadores, notabilizando a manutenção do emprego e a elevação do nível de vida.
A partir de então, os operários viam no sindicato um respaldo seguro.
Haja vista que a serie de concessões feitas já a partir de 1943 foram consolidas e a legislação trabalhista existente, diga-se em virtude da pressão operária e pela atuação do Partido Socialista, foram efetivadas cabalmente.
Antes de 1943 já havia sindicalização, entretanto, houve uma visível consolidação da organização operária.
Esse processo atingiu seu ponto alto em 1950 com a lei de associações profissionais que:
Garantia a existência de organizações grandes e poderosa com força para negociar de igual para igual com os representantes patronais, mas ao mesmo tempo, dependentes dos representantes gremiais definidos pelo Estado.
As reivindicações circulavam de preferência de baixo pra cima, e a CGT, conduzidas por figuras medíocres, foi responsável por transmitir as diretrizes do Estado aos sindicatos e por controlar rebeldes. (ROMERO, 1991, p.103)
Aliás, a função dos sindicatos era bem próxima disto, afinal, concorriam por funcionar como correia de transmissão de agendas políticas, reduzindo e morigerando as ações independentes oriundas de segmentos insatisfeitos. 
Nesse sentido, o peronismo não mobilizou apenas a cooptação, típica do populismo, como forma de conduzir as relações com a oposição, na verdade o regime “montou um aparelho de propaganda e repressão de grande envergadura que procurou morizar e silenciar toda e qualquer oposição” (PRADO, 1981, p. 53)
Segundo Romero, a política implantada pelo regime tinha uma tendência clara em “peronizar” às instituições instrumentalizando-as a fim de que se convertessem em agentes de doutrinamento.
Entretanto, sempre houve resistências ao regime, desde os agentes de tendências mais a esquerda, bem como, a própria Universidade que sempre manteve-se “um foco antiperonista forte, ainda que tivesse havido por parte do governo intervenções”. (ROMERO, 1991, p.53)
Na base da ação sindical houve vitalidade considerável deliberando sobre uma infinidade de problemas imediatos no que concernem as relações e condições de trabalho.
Entretanto, no geral, o Estado peronista tinha nos trabalhadores sua grande força legitimadora que em troca concedeu-lhes postos estratégicos como parte das benesses.
Deste modo, temos que ter em vista que:
A relação entre Perón e o sindicalismo – crucial no Estado Peronista – sem dúvida foi complexa, negociada e difícil de reduzir a uma fórmula simples.
Apesar da forte pressão do governo sobre os sindicatos e da decisão de controlar sua ação, esses dois elementos nunca deixaram de ser a expressão social e política dos trabalhadores.
Sob esse ponto de vista, o Estado não apenas facilitava e estimulava a organização da classe e a cobria de benefícios. (ROMERO, 1991, p.104)
Politicamente, houve um notável recrudescimento do autoritarismo encabeçado pelo executivo notabilizado pela retaliação a Corte Suprema, assim como, a Universidade.
Elaborou a constituição justicialista, nome dado ao partido de Perón, que expressava a voga autoritária do regime, comodamente, não esqueceu de versar sobre a possibilidade reeleição.
Pouco antes de findar o mandato de Perón, ocorre uma tentativa frustrada de golpe, em setembro de 1951, o que autorizou o congresso por meio de sansão ampliar sensivelmente os poderes do presidente.

O Segundo Período Presidencial.
A coligação Perón-Quinjano saiu outra vez vitoriosa.
Entretanto, a conjuntura de seu segundo mandato é consideravelmente distinta da primeira.
Do ponto de vista econômico, caracterizou-se por um período de retração da economia. As reservas monetárias haviam-se cessado. 
Soma-se a isto o receio do capital estrangeiro em investir no país devido, sobretudo, ao artigo 40 na constituição justicialista que prescrevia “todos os minerais, quedas d´agua, jazidas de petróleo, gás e demais fontes naturais de energia, assim como todos os serviços públicos, pertenciam ao Estado e não poderiam ser alienador ou concedidos a exploração.” (PRADO, 1981, p. 53)
A situação econômica se agravava, uma vez que, a inflação afetou não só a classe média, como também as camadas populares da cidade e do campo.
O arbítrio e autoritarismo do governo populista haviam feito muitos inimigos que numa situação de restrições econômicas não tardaram a publicizar suas discordâncias e críticas ao regime.
Deste modo, houve um crescimento das reivindicações populares, justamente, em momento em o governo não tinha como atendê-las.
Neste momento, a CGT, mplamente ligada ao governo, tencionou implementar uma política assistencialista a fim de sanar as demandas dos trabalhadores, logo tratou de disseminar entre a base sindical que a “ordem agora era produzir para o engrandecimento da nação e não fazer greves reivindicativas” (PRADO, 1981, p. 56)
Some-se a isto que os opositores tradicionais do regime, a oligarquia agrarista, a fração mais poderosa da burguesia industrial e o capital estrangeiro em geral, “empenhavam-se no rompimento da aliança entre capital e trabalho celebrada pelo populismo argentino” (PRADO, 1981, p. 57)
Por fim, celeumas com outros dois sustentáculos do regime, instauraram definitivamente a crise do peronismo.
De um lado, a Igreja Católica que outrora fizera intensa campanha para o primeiro mandato de Perón convertera-se em oposição ao regime.
O cerne da questão passa por um reduzido núcleo de cristãos de tendências mais democratas e antiperonista que passaram a organizar oposição ao regime e a tendência cada vez menos nacionalista da política peronista.
A igreja também se encontrava descontente com o “crescente culto laico do presidente e de sua esposa.” (ROMERO, 1991,p.122)
Nisto desagradava ao regime uma intervenção cada vez mais explicita da instituição religiosa na esfera da política.
A partir daí, o digladio será uma constante ação e reação de lado a lado.
O regime implementa uma série de políticas caracterizadas pelo anticlericalismo que reduziam a influência da igreja, tais como, “revogação da lei de ensino religioso, implantação do divorcio e, 1955, a proposta de separação entre a Igreja e o Estado” (PRADO, 1981, p. 57)
Reativamente, a igreja converte-se também num lócus de oposição ao regime como podemos ver nas mobilizações ocorridas em atos religiosos congregando opositores do regime.
A defesa da igreja não foi menos eficaz e demonstrou seu poder como instituição, mobilizando seus quadros, especialmente, da Ação Católica com intensa panfletagem contra o que reputavam serem os desagravos do regime.
Por outro lado, ocorre um levante militar na marinha.
Assim como outros segmentos da base de apoio de Perón os militares “viam uma distancia muito grande entre o presidente que firmava da Plaza de Mayo (...) e o Perón que agora negociava um acordo com Standard Oil Company.” (PRADO, 1981, p. 59)
Em 1955 um levante militar iniciado em Córdoba liberado pelo general Lonardi avança em direção e depõe o regime.
Perón que não ofereceu resistência e nem mesmo optou por uma luta civil tinha findado seu período presidencial.

Concluindo.
Apesar de sua retórica propor um ataque sistemático e ostensivo a “oligarquia”, o regime agrário pautado pelo latifúndio continuou intacto, salvo algumas restrições pontuais.
A formulação peronista da ‘terceira via’, meio termo entre o capitalismo e socialismo e superior a ambos, era na verdade um capitalismo controlado pelo Estado, dito de outra forma, era um projeto capitalista de orientação nacionalista.
De fato, trazia de novo para a política argentina, como nos propõem Romero, a incorporação brusca dos setores populares a esfera antes lhes vetadas.” (ROMERO, 1991,p.111)
Inclusão sim, porém, subordinadamente, como procuramos demonstrar .
Sem sua composição social de apoio, em 1955 sucumbi à presidência de Perón, seguramente, não era o fim do peronismo que ainda hoje permanece atual em muitas de suas bandeiras e plataformas políticas na Argentina coeva.

Para saber mais sobre o assunto.
BEIRED, José Luis Bandicho. Movimento Operário Argentino. São Paulo. Brasiliense. 1984.
PRADO, Maria Ligia. O populismo na América Latina. São Paulo: Brasiliense,1981.
ROMERO, Luis Alberto. História Contemporânea da Argentina. Rio de Janeiro. Jorge Zahar, 2006.

Resumo: Neste breve texto pretendemos discutir o contexto político nacional e internacional das realizações do peronismo. Na medida do possível, pretendemos ainda dimensionar aspectos inovadores e elencar aspectos que guardam precedentes na História argentina em suas práticas políticas. 



sábado, 25 de setembro de 2010

Peronismo – Parte 7 (Final): indicações para leitura.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume set., Série 25/09, 2010.


No Brasil, as obras que tratam o tema peronismo são raras e escassas.
Um dos motivos se deve a estrema proximidade do fenômeno peronista de nossos dias, o que termina por torná-lo atual.
Além disso, as poucas obras existentes em português acabam sempre classificando erroneamente o peronismo como populismo, o que exige do leitor certo senso crítico.
De qualquer modo, concernente ao estudo do peronismo pode ser consultada a obra de Maria Lígia Coelho Prado, “O populismo na América Latina”, da coleção “Tudo é História” da editora Brasiliense.
Apesar de classificar o peronismo como populismo, pode servir de ponto de partida ao estudo sobre o fenômeno.
Igualmente, uma boa fonte inicial de consulta é o livro de Murmis e Portantiero, “Estudos sobre as origens do peronismo”, também da editora Brasiliense, embora ele caia no mesmo erro do anterior.
Estas obras podem ser mescladas com textos que tratam do fascismo propriamente dito, possibilitando identificar o peronismo como fenômeno de caráter fascista.
Sobre o fascismo são textos de consulta obrigatória: a “Introdução ao Fascismo” de Leandro Konder, da Graal;  a “Psicologia de massas do fascismo” de Wilhelm Reich, da Martins Fontes; e “Ascensão e queda do III Reich” de William Shirer, em 4 volumosos tomos, editado pela Civilização Brasileira.
Podendo ser consultadas também as obras: “Minha Luta” escrita pelo próprio Adolf Hitler; “Hitler” de Joachim Fest; e o “Fascismo Italiano” de Angelo Trento.
Sobre o fascismo espanhol e as condições em que surgiram as revoluções populares e, por sua vez, o fascismo como resposta imediata a tais revoluções, pode ser consultada a obra do eminente professor francês Pierre Broué, “A revolução espanhola: 1931-1939”, que esteve no Brasil em setembro de 1996, participando do Simpósio Guerra Civil Espanhola: 60 anos, realizado na Universidade de São Paulo.
Sobre as relações entre Brasil, Argentina e Estados Unidos, pode ser consultada a obra de Moniz Bandeira, “Estado Nacional e política internacional na América Latina: o continente nas relações argentina - Brasil (1930-1992)”, da Editora Ensaio.
Aqueles que desejam realmente se aprofundar o estudo do peronismo podem ainda ler alguns textos em espanhol: “La política de los militares argentinos: 1900-1971” de Dario Canton; “História Argentina: la democracia constitucional y sus crisis” de Canton e Moreno; “Perón o muerte: los fundamentos discursivos del fenómeno peronista” de Sigal e Verón; e “Gobierno peronista y política del petroleo en Argentina: 1946-1955” de Marcos  Kaplan.
Para complementar este estudo pode ser consultada a obra “As razões do iluminismo” de Sérgio Paulo Rouanet.
Entre outros assuntos ele dá uma pincelada sobre questão do irracionalismo do fascismo, que se esconde sobre a aparência de racional.

Para saber mais sobre o assunto.
BANDEIRA, Moniz. Estado Nacional e política internacional na América Latina: o continente nas relações Argentina - Brasil (1930-1992). São Paulo: Editora Ensaio, 1993.
BROUÉ, Pierre. A Revolução Espanhola: 1931-1939. São Paulo: Perspectiva, 1973.
CANTON, Dario. La política de los militares argentinos: 1900-1971. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Argentina Editores, 1971.
CANTON, Dario; Moreno, J. L. & CIRIA, A. Historia Argentina: la democracia constitucional y sus crisis. Buenos Aires: Paidós, s.d.
FEST, Joachim. Hitler. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1976.
HITLER, Adolf. Minha Luta.  São Paulo: Editora Moraes, 1983.
LACLAU, Ernest. Política e ideologia marxista. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
MURMIS, M. & PORTANTIERO, J. C. Estudos sobre as origens do peronismo. São Paulo: Brasiliense, 1973.
PRADO, Maria Lígia. O populismo na América Latina. São Paulo: Brasiliense, 1981.
REICH, Wilhelm. Psicologia de massas do fascismo. São Paulo: Martins Fontes, 1972.
ROUANET, Sérgio Paulo. As razões do iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
SHIRER, William L. Ascensão e queda do III Reich. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963.
SIGAL, Silvia & VERÓN, Eliseu. Perón o muerte: los fundamentos discursivos del fenómeno peronista.  Buenos Aires: Logus, s.d.
TRENTO, Angelo. Fascismo Italiano.  São Paulo: Ática, 1986.
KAPLAN, Marcos. Gobierno peronista y politica del petroleo en argentina: 1946-1955. Caracas: Edicines de la Biblioteca de la Universidad Central de Venezuela, s.d.
KONDER, Leandro.  Introdução ao Fascismo. Rio de Janeiro: Graal, 1977.
UMBERTO ECO em colóquio organizado no dia 24 de abril de 1995, pelo departamento de italiano da Columbia University, publicado pelo jornal “Folha de São Paulo” em 14 de maio de 1995.

Texto:
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.

Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.





sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Peronismo – Parte 6: o exílio e a volta triunfal.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume set., Série 24/09, 2010.


A chamada “Revolução Libertadora”, encabeçada pelo general Eduardo Lonardi, derrubou o general Juan Domingo Perón, em 16 de setembro de 1955.

No entanto, o peronismo sobreviveu à queda de Perón.
Logo depois de ser destituído, ele partiu para o exílio no Paraguai, ficando no país até 6 de novembro do mesmo ano, quando então foi recebido no Panamá.
Em 8 de agosto de 1956, partiu para Caracas, capital da Venezuela, onde foi protegido pelo ditador Pérez Giménez, cuja queda do poder, obrigou Perón a se exilar na República Dominicana.
Finalmente, em 26 de janeiro de 1960, conseguiu asilo na Espanha do ditador fascista, general Francisco Franco, a quem os nazistas haviam ajudado a colocar no poder pouco antes do inicio da 2º. Guerra Mundial.
De longe, Perón organizou um movimento para tentar retornar a Argentina e retomar a direção da nação.

Enquanto Perón estava na Espanha.
Na Europa, Perón teve sua residência fixada inicialmente nas Ilhas Canárias, instalando-se depois em Madri, de onde regressaria para a Argentina somente em 27 de novembro de 1972.
Ao longo de todo o período do exílio, que durou exatamente dezessete anos e dois meses, Perón continuou a ter voz ativa na política argentina.
Tamanha a influencia de Perón entre os argentinos que o governo que o substituiu proibiu lemas e canções do partido peronista.
Chegou até a proibir que se pronunciassem termos como: Perón, peronismo, justicialismo e Eva Perón.
Isto só fez proliferarem os eufemismos para fazer referência a sua pessoa e ao período peronista, tais como: “o tirano prófugo”, “o tirano deposto”, “a segunda tirania”.
Demonstrando, por outro lado, que os próprios peronistas tinham consciência do caráter fascista do movimento.
Acontece que grande parte dos peronistas não consideravam uma ofensa serem taxados de fascistas, mas uma honra.
Foi dentro deste contexto que os membros da esquerda peronista começavam a ficar insatisfeitos com a orientação fascista.
Destarte, as várias leis que ficaram conhecidas como decretos da “Revolução Libertadora”, colocando o peronismo na clandestinidade, não conseguiriam fazer calar os peronistas.
Mesmo na clandestinidade e rachado, o partido peronista continuou se articulando para trazer de volta ao país o seu líder.
A imagem do peronismo, enquanto movimento sectário, fortemente associado a um período de abundância do país, continuou enraizado no imaginário popular argentino.

Sendo transmitido de pai para filho, dando origem a “juventude peronista”, a qual constituiria uma nova massa de manobra para Perón.

A crise política e econômica se agravou em 1966, chegando ao seu ápice em 1968, abrindo a oportunidade que os peronistas precisavam para trazer à tona a ausente figura de Perón.
Ele foi transformado em um messias capaz de restaurar a unificação nacional.
Os militares já não conseguiam mais controlar a situação do país, quando, em julho de 1972, temendo uma revolução popular, começaram a enxergar em Perón uma saída.
 Grupos de guerrilheiros de esquerda proliferavam por toda a América Latina, Perón parecia então o único capaz de evitar a chagada dos vermelhos a Argentina.
Os militares iniciam o processo de abertura, colocando restrições para impossibilitar a candidatura de Perón à presidência.
Ele finalmente pode retornar do exílio em 17 de novembro de 1972, chegou no famoso avião preto, o qual havia sido objeto dos sonhos dos peronistas durante longos anos.

A volta triunfal.
Perón retornou a Argentina em meio a um grande caos político e econômico, assumindo uma atitude conciliadora.

Estando impedido de concorrer às eleições, indica como seu candidato Héctor Cámpora, concorrendo à presidência pela “Frente Cívica da Libertação Nacional”.

Héctor Cámpora representava a ala ligada a extrema direita do movimento peronista, principalmente a juventude peronista, o que causou forte oposição da esquerda, mas a candidatura acabou oficializada em janeiro de 1973.
Em 11 de maio deste mesmo ano, os candidatos peronistas, Cámpora e Vicente Solano Lima foram eleitos, respectivamente, presidente e vice-presidente da república Argentina, com 49,5% dos votos.
O que representou mais a volta triunfal do peronismo ao poder, além da vitória do setor mais radical do movimento, nítida e declaradamente fascista.

Um novo governo peronista e problemas a vista.
A posse de Cámpora, em 25 de maio de 1973 desencadeou a revolta das bases operárias, gerando um conflito direto e físico, chegando ao enfrentamento armado entre operários e a juventude peronista.
Órgãos estatais, universidades, hospitais e outras instituições públicas tornam-se palco de conflitos sangrentos.

Um conflito que pode ser explicado pelo fato da ausência de Perón do país durante o exílio ter aberto espaço para modificações na base operária peronista.

Ela havia se transformado de fascista em socialista.

Estava então mais consciente do que no passado, os operários não acreditavam mais em discursos e propaganda.
Não bastava mais apenas dizer-se social, sem assumir de fato uma postura de luta pela igualdade de classes.
A população saiu às ruas gritando palavras de ordem como “Cuba e Perón, um só coração”; exigindo que Perón assumisse um novo posicionamento, não mais de direita, mas uma guinada a esquerda.
Verdadeiramente, o movimento peronista se encontrava rachado; de um lado a extrema direita exigia o expurgo do “trotskismo”; de outro a esquerda exigia o aniquilamento do caráter fascista.
Perón começou a perceber que, apesar da volta triunfal, sua base estava visivelmente debilitada.

Novamente o começo do fim.
Visando tentar sanar o racha entre peronistas, através de uma nova ilusão das massas, Perón alterou seu discurso, passando a dirigir-se não mais aos operários, mas aos descamisados.

O artifício falhou, ele não conseguiu convencer os operários, agora extremamente politizados.

No entanto, este novo governo peronista contava com aliados poderosos, havia chegado ao poder com o apoio dos Estados Unidos da América, representado pela CIA.
O mundo se encontrava em pleno clímax da guerra Fria, o peronismo parecia aos norte-americanos à única coisa que poderia impedir os comunistas de tomarem a Argentina.
Orientado por Perón, Cámpora endureceu o combate ao comunismo.
Centenas de pessoas foram mortas, muitas vezes em confrontos diretos com a juventude peronista, que havia se tornado uma organização paramilitar a semelhança das SA e SS de Hitler.
Confrontos diretos com a polícia massacraram manifestações; a tortura e o encarceramento sem fundamentação jurídica tornaram-se comum.
Em meio à confusão inicial, Perón, um tanto transtornado e perdido, alternou períodos em que estava presente no país, com períodos em que procurou se auto-exilar em Madri.
Ele deixou uma brecha que foi explorada tanto pela esquerda como pela direita, ora associando sua imagem a uma ou outra tendência.

O fim ou seria o começo.
Pouco a pouco, Perón procurou deixar clara sua posição pró-direita e declaradamente fascista.

Em outubro de 1973, o governo passou a ser acompanhado mais de perto por Perón justamente porque estava a frente dele depois de ter sido eleito presidente.

Em represaria as tendências de esquerda da ala sindical do movimento peronista, Perón iniciou uma reforma na lei sindical, com vistas a manter um controle mais rígido sobre os sindicatos.
Em meio ao tumulto surgiu o grupo terrorista de esquerda “ERP” (Exercito da Revolução Popular).
Através de atentados este grupo procurou se opor ao peronismo.
Em janeiro de 1974, o “ERP” lançou um atentado à bomba a uma guarnição militar.
Mais uma vez deixando claro seu caráter fascista, Perón obrigou o governador da província a renunciar, já que tinha sido incompetente.
Iniciou em seguida um novo endurecimento no combate ao comunismo, entrando em choque direto com os sindicatos.
A reação não tardou, em 1a. de maio de 1974, tradicional dia de comemoração da ala sindical do partido peronista, dia do trabalho, a oposição organizou uma enorme manifestação na “Praça de Maio”, em Buenos Aires.
Como no passado os argentinos manifestaram a insatisfação com o governo peronista; obtendo o apoio de diversos setores da sociedade, chegando a contar com cinqüenta mil pessoas.
Pouco depois, em 1a. de julho de 1974, Perón faleceu; assumiu o governo a vice-presidente, no caso a terceira esposa do presidente morto, Maria Estela Martinez de Perón, cujo verdadeiro nome era Isabel.

Ocupando o governo da Argentina em condições internas deterioradas, a nova presidente enfrentaria o agravamento da crise, com um aumento da inflação que chegou a 920% ao ano em 1976.


A ausência definitiva de Perón do cenário argentino fez aumentar os atos de terror e violência.
Os quais ganharam a proporção de uma verdadeira guerra civil.
Tornam-se comuns os combates e atos de terror provocados pela “Triple A” (Alianza Anticomunista Argentina) e pelo “Comando de la Arganización”, que assassinam militantes e líderes de esquerda.
Estas organizações rivalizavam com o “Ejército Revolucionario del Pueblo” (de origem Trotskista).
Enquanto, por sua vez, a juventude peronistas continuou atuante, agravando o caos e instabilidade social.
A viuva de Perón em breve seria derrubada da presidência por uma novo golpe militar.

Para saber mais sobre o assunto.
Acompanhe o próximo artigo da Revista .

Texto:
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.

Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.



quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Peronismo – Parte 5: o fascismo “terceirista”.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume set., Série 23/09, 2010.


Como todo regime fascista, o peronismo se apresentava como "terceirista".
Em outras palavras, dizia advogar uma terceira posição, nem capitalista, nem socialista.
Isto, a semelhança do NSDAP (Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães), que ficou conhecido por sua abreviação “Nazi”, na Alemanha de Hitler e que também dizia advogar uma terceira posição.

Peronismo e nazismo, algumas aproximações.
É interessante notar que o partido nazista alemão atrai, na sua origem, como o peronismo, tanto elementos da extrema direita como esquerda.
Estes últimos foram expurgados por Hitler do partido em 30 de junho de 1934, eles exigiam o aniquilamento dos patrões e proprietários, em uma segunda revolução, o que fez a ala direitista pedir providências imediatas ao partido.
Como os fascistas alemães e italianos, os peronistas acreditavam ser a esperança de um novo mundo.
Acreditavam serem os detentores de um novo sistema que se dizia nem capitalista, nem socialista; mas que não passava de um capitalismo conservador de extrema direita.
Dentro deste contexto, seu caráter socialista nada mais era do que pura demagogia propagandista, destinada a iludir sua massa de manobra, ou seja, os trabalhadores.
Na verdade objetivava combater o comunismo, através da ilusão de que poderia servir de base para a implantação de uma sociedade mais justa e igualitária.
Deste modo, o peronismo, como todo fascismo, era pura e simplesmente o capitalismo levado as suas ultimas conseqüências.
O que não deixa de constituir um terceiro caminho, porém não um caminho ao centro, mas sim um caminho mais a direita.
Tanto é que o próprio Perón admitiu, que sua ideologia era apenas uma outra forma de capitalismo, segundo afirmou em discurso, datado em 1946:

“Não somos de maneira alguma inimigos do capital, e se verá no futuro que temos sido seus verdadeiros defensores. É mister discriminar claramente entre o que é capitalismo internacional dos grandes consórcios de exploração forânea e o que é capital patrimonial da indústria e comércio. Nós temos defendido este último e atacado sem quartel e sem trégua o primeiro”.

O terceirismo peronista e os argentinos.
Obviamente, a classe detentora do capital, terminou aderindo ao peronismo depois que Perón advogou ser o “terceirismo” o único modo de controlar a massa, manter a ordem e combater o terrível fantasma do comunismo.

Perón, tal como Hitler, negociava com grandes industriais, e deles recebia dinheiro prometendo proibir as greves.

Como afirma Reich, autor de um estudo sobre a psicologia de massas do fascismo, “foi sem dúvida a estrutura psicológica do trabalhador médio que impediu os homens comuns enxergar as contradições.
O peronismo conseguiu alcançar um consenso entre diferentes grupos, com interesses distintos entre si, e que se temiam mutuamente; conseguindo manter-se no poder, com o seu suposto “terceirismo”, por pouco mais de dez anos.
Sem dúvida, parece ser uma característica, de todo e qualquer tipo de fascismo, agradar gregos e troianos simultaneamente, sem que os troianos (no caso os operários) percebam o presente de grego que lhes é oferecido.
A estrutura do fascismo, ao colocar-se demagogicamente como “terceirista”, operou como fator de agregação, convocou as massas a aderir a uma luta pelo nacionalismo e pelo desenvolvimento do poderio nacional, em detrimento do internacionalismo representado pelo comunismo.
Ao agir assim, operou em favor dos capitalistas de seu país, manobrando as massas, e comprando sua liberdade através de bens materiais.
Todos os tipos de fascismo, inclusive o peronismo, colocam-se sempre como “terceirista”, mas são na verdade apenas capitalistas que levam a doutrina até as últimas conseqüências.

Peronismo foi um fenômeno fascista?
Apesar de muitas vezes, por razões obvias, Perón negar a identificação de sua doutrina com o nazismo.
Em outras ocasiões deixou claro que o nazismo serviu de fonte de inspiração para a construção do fascismo peronista argentino.
Como se pode facilmente ser notado através do seguinte discurso pronunciado em 17 de agosto de 1944, quando o nazismo começava a ser derrotado na Europa:

“Pelas idéias que professo tenho sido atacado por pessoas interessadas, o mesmo que se sucede com todos os indivíduos bem intencionados. Declaro que não me creio nunca possuidor único da verdade; porém também afirmo que confesso o que sinto e o que penso (...) Se me tem atacado porque manifesto que cada grêmio sindical deve ser unitário. Me dizem que pensando assim, eu devo declarar que os nazis tem razão; e se digo isto, é precisamente porque não me ato a prejuízos ridículos de uma determinada ideologia, em paralelo, vou eu buscar a verdade onde ela está”.

Em seu discurso, Perón evidencia que enxergava o nazismo como uma saída possível, na medida em que também considerava os alemães “terceiristas”.
Como pretexto para inspirar-se no nazismo, Perón usou o artifício de dizer-se livre de prejuízos, ou se preferirem preconceitos, afirmando que buscava a verdade onde ela estava, colocando-se como detentor da verdade, assim como os nazistas.
Sendo assim, tentava justificar suas idéias, nitidamente de caráter e inspiração nazifascista, como sendo verdadeiras e por isto justas, portanto, ideais para a realidade argentina.
Obviamente, a posição “terceirista” adotada pelo peronismo, em uma época de bi-polarização mundial em dois blocos, não poderia ser sustentada sozinha por um país pequeno e militarmente fraco como a Argentina.

Exatamente por esse motivo, Perón buscou o apoio inglês.
No entanto, pode rapidamente perceber que não conseguiria este apoio gratuitamente.

Perón nunca foi unanimidade, mas o peronismo sim.
Sempre existiu uma divisão interna no partido peronista, que se torna cada vez mais latente depois que Perón foi destituído da presidência pelo golpe militar de 1955.

Nas eleições de 1957, com Perón exilado fora do país e seu partido na clandestinidade, o qual havia sido dissolvido e declarado ilegal poucos meses depois do golpe de 1955, somente os votos em branco chegam a somar 24% do sufrágio total, deixando claro que o peronismo estava vivo e ativo.

Os votos em branco representavam um repudio ao fato dos peronistas não poderem ser votados.
Em 1958, Perón firmou um acordo secreto com Frondizi, candidato a presidência, que prometeu legalizar novamente o partido peronista, obviamente, em troca de votos.
Os peronistas estavam então divididos entre os que aceitam apoiar Frondizi, e os que pregam o voto em branco.
Em fevereiro de 1958, os votos em branco chegam a oitocentos mil sufrágios, embora Frondizi tenha conseguido ser eleito com a ajuda da facção que seguia a risca as orientações enviadas por Perón do exílio.
Cabe notar que os dissidentes, tanto de esquerda como de direita, votaram em branco, não por discordarem da orientação de Perón, mas sim por não acreditaram que Perón tivesse enviado a orientação.
Um fato que constitui um grande empecilho as tentativas de organizar uma volta os poder, uma vez que dada a distancia, muitas mensagens enviadas por Perón eram consideradas falsas ou alteradas.
Mais tarde, quando realmente foi confirmada a existência do pacto, muitos peronistas não conseguiram acreditar que Perón tivesse tomado a decisão, consideravam a união com Frondizi um ato vergonhoso que traia os ideais do movimento peronista.
Não obstante ao racha no partido peronista, as tentativas de voltar ao poder continuariam, tanto por parte da vertente que defendia a luta armada, um grupo menos numeroso; como dos defensores do retorno por meios legais e através do protesto, representado pelo voto em branco.
Muito embora, alguns elementos da nascente esquerda peronista, começassem a desconfiar de certas posturas adotadas por seu líder, questionando a fidelidade de Perón para com as metas sociais.
O governo responsável pela queda de Perón seqüestrou o corpo embalsamado de Evita; considerada como a “mãe dos pobres”.
Eva Perón havia se tornado um verdadeiro peronista, sobretudo da ala sindical (CGT).
O novo governo manteve o corpo em um furgão que perambulou durante meses pelas ruas de Buenos Aires para evitar sua localização.
Depois da queda de Perón, o governo passou a considerar essencial evitar que o cada ver de Evita pudesse se tornar objeto de veneração; mais tarde, chegando a transportá-lo clandestinamente para a Europa.
O corpo percorrendo um tortuoso roteiro que terminou em uma cova anônima na Itália; para retornar a Argentina, depois de passar pela Espanha, onde então Perón encontrava-se exilado.
O cadáver só retornaria a Argentina depois da reabilitação do peronismo; mesmo assim, depois que a guerrilha peronista, na década de 70, roubou do cemitério o cadáver do general e ex-presidente Pedro Arambúru, um dos cabeças do golpe contra Perón em 1955.
Em troca do corpo, os peronistas exigiram como resgate a devolução de Evita.

Para saber mais sobre o assunto.
Acompanhe os próximos artigos na Revista.

Texto:

Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.
Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.