Publicação brasileira técnico-científica on-line independente, no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
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Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Grumetes, órfãos e degredados: cotidiano a bordo das embarcações lusitanas quinhentistas.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 7, Volume dez., Série 09/12, 2016.


Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.

Licenciado em História - CEUCLAR.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.
Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.



Com o incremento da epopeia marítima portuguesa a partir de 1497, quando Vasco da Gama abriu a rota da Índia, em um momento em que o Brasil não teve grande importância econômica, constituindo mero ponto de passagem para os navios da Carreira da Índia[1], cresceu também a demanda de mão de obra para construir e tripular as naus lusitanas. 
Abundaram homens a se oferecerem para imigrar às novas possessões da Coroa no Oriente, pois esta ao seu ver constituía uma excelente oportunidade de enriquecimento rápido e fácil que no Reino nunca poderia ser alcançado.       
Em contrapartida, a carência de mão de obra se fez sentir agudamente nos escassos navios que começaram a rumar a Terra de Santa Cruz, obrigando a Coroa a adotar soluções paliativas.
A muito, nos grandes centros urbanos de Portugal os vagabundos e crianças abandonadas a perambularem pelas ruas constituía um grande problema, fato agravado por um crescente êxodo rural, sendo que a imensa maioria dos adultos haviam migrado para as cidades exatamente em busca da oportunidade de servirem na rota da Índia, justamente em um momento em que os postos abertos não podiam absorver toda a mão de obra desocupada, ao mesmo tempo, o número de crianças abandonadas só tendia a aumentar proporcionalmente ao número de camponeses empobrecidos a rumarem para as cidades.
Durante o século XV o recrutamento de forçados havia se mostrado útil ao preenchimento de navios para os quais ninguém queria se oferecer para servir como marinheiro, pois, no período temia-se o confronto com o desconhecido oferecido dia-a-dia aos navios que se aventuravam cada vez mais ao sul. 
Assim, a resolução da questão da falta da mão de obra na rota do Brasil pode ser facilmente contornada através do emprego daqueles que haviam sido excluídos pelas circunstâncias da Carreira da Índia.
Inicialmente, o emprego de crianças a bordo foi restrito, isto porque ainda não se fazia necessário, pois o rapto de vagabundos e o uso de degredados dava conta de suprir a carência de braços. Fazendo-se sentir a falta de marinheiros, conforme a “necessidade”, os “privilégios” eram quebrados e “vadios e desobrigados”[2] eram compulsoriamente embarcados nos navios que deles necessitassem, vagabundos e ciganos eram pura e simplesmente raptados ou presos sob algum pretexto, ao passo que as cadeias eram esvaziadas, sendo os criminosos obrigados, através de degredo, a migrarem para o Brasil ou servirem por determinado período em embarcações da Coroa e ou de particulares[3].
Não obstante, com o crescimento da demanda de navios e homens na Carreira da Índia, já pela altura da terceira década do século XVI, cada vez mais o uso de degredados e desocupados, estes últimos a tornarem-se escassos, precisou ser canalizado para os estaleiros portugueses e para os navios das rotas Orientais, ao que um índice de mortalidade alto na Índia exigia um envio constante de mais e mais homens, tornando difícil novamente suprir os navios que participavam do caminho do Brasil com marinheiros, mais uma vez o problema foi solucionado através do recrutamento dos excluídos, daqueles que causavam problemas nos centros urbanos ou representavam custos para o Estado, ou seja, por meio da utilização daqueles que hoje chamaríamos de crianças de rua como grumetes.
Apesar de muitos considerarem os ibéricos como possuidores de uma grande afetividade para com seus pequenos, o quadro das sensibilidades quinhentista era bem diferente. 
Na verdade, entre portugueses ou outros povos da Europa a alta taxa de mortalidade infantil, verificada ao longo de toda a Idade Média e mesmo em épocas posteriores, interferiu na relação dos adultos com as crianças. 
A expectativa de vida das crianças portuguesas entre os séculos XIV e XVIII rondava os “14 anos”[4], enquanto “cerca de metade dos nascidos vivos morria antes de completar sete anos”[5]
Isto fazia com que, principalmente entre os estamentos mais baixos, as crianças fossem consideradas como pouco mais que animais cuja força de trabalho deveria ser aproveitada ao máximo enquanto durassem suas pequenas vidas.
Um conto infantil português do século XVI, recolhido da tradição oral, classifica os “dois filhos” recém-nascidos de um rei como um “macho e outro fêmea”[6]
Esta forma de referir-se às crianças permite deduzir que, dentro do quadro das sensibilidades, as crianças não passavam de animais, sendo categorizadas do mesmo modo que o seriam os negros escravizados, vistos então como meros “instrumentos vocais”.
Este sentimento de desvalorização da vida infantil incentivou a Coroa a recrutar crianças como mão de obra justamente em um momento em que os homens adultos eram cada vez mais escassos e os poucos existentes procuravam de toda maneira fugir a vida no mar, pois sabia-se que a mortalidade era alta e as privações cotidianas a bordo. 
Assim, compulsoriamente a Coroa procurou alistar meninos de 9 a 16 anos, procurando-os em meio às famílias pobres das áreas urbanas, uma vez que neste meio eram muitos os órfãos de pai falecido na Índia e de mãe decorrente das mais variadas doenças, sendo alta a taxa de mortalidade e o envelhecimento precoce de mulheres à época, ao passo que as crianças camponesas não podiam ser utilizadas por serem necessárias na faina agrícola.
Entretanto, não tardou para que mesmo os órfãos se fizessem escassos, forçando a Coroa a buscar preencher as vagas de grumetes com crianças cujos pais ainda estavam vivos, em meio às famílias lusitanas pobres e numerosas e a judeus, estes últimos tidos como dispensáveis pelo poder régio. 
Enquanto para os pais de crianças pobres elas eram consideradas um meio eficaz de engordar à renda da família, constituindo seu alistamento sempre um bom negócio, já que mesmo que estes viessem a perecer no além-mar, podiam receber os soldos de seus miúdos. 
Para os pais das crianças judias, em geral arrancadas a força de seus pais, em um período no qual o rapto significava, simultaneamente, um meio de obter mão de obra barata e manter sob controle o crescimento da população judaica em Portugal[7], constituía uma grande perda afetiva, pois as implicações econômicas, neste caso, eram descartadas em vista da maioria esmagadora dos judeus ser possuidora de recursos consideráveis.
Às crianças era imputada a tarefa de servir a bordo das naus como grumetes ou pagens. 
Aos grumetes cabiam os mesmos serviços prestados pelos marinheiros, enquanto os pagens, por sua proximidade junto aos oficiais, desfrutavam de vários privilégios, realizando trabalhos leves, assemelhando-se a pequenos “mandaretes”[8].
Uma lista dos soldos pagos aos tripulantes de uma nau portuguesa permite observar que, em meio a uma tripulação composta por 106 homens, “20”[9] eram grumetes. 
Ou seja, exatamente a metade do número de marinheiros a servirem na embarcação. 
A população composta pelos mesmos girava em torno de 18% do total de tripulantes. 
Assim, em uma nau composta por 150 tripulantes - média de homens empregados nas naus portuguesas do século XVI e XVII - pelo menos 27 crianças estariam servindo como grumetes, número que comprova a importância da presença infantil na aventura transoceânica.
Ainda a respeito da presença desses pequenos marujos, cabe notar que a partir da segunda metade do século XVII e, principalmente, de meados do XVIII, o número de grumetes nos navios lusitanos chegou a ser o mesmo que o número de marinheiros e, algumas vezes, até superior devido a falta cada vez maior de profissionais adultos. 
Estes últimos tornaram-se mais escassos do que já o eram, pois as “elevadas taxas de mortalidade” no Reino e nas possessões ultramarinas - ocasionadas pelas “deficientes condições sanitárias e econômicas”, quando não “eram as epidemias e as fomes que matavam mais gente”[10] - haviam causado uma drástica redução da população adulta. Enquanto os ingleses procuraram suprir a falta de mão de obra adulta livre em seus navios através da utilização de escravos negros alforriados, os portugueses optaram pela utilização de crianças[11].
Entre os séculos XVI e XVIII, apesar dos grumetes não passarem de frágeis crianças realizavam a bordo todas as tarefas que normalmente eram desempenhadas por um homem. Recebiam de soldo, contudo, menos da metade do que um marujo, pertencendo à posição mais baixa dentro da hierarquia da marinha. 
Sofriam ainda inúmeros maus tratos e apesar de pelas regras da Coroa estarem subordinados ao chamado guardião (cargo imediatamente abaixo do contramestre, ocupado em geral por um ex-marinheiro) tinham que prestar contas aos marinheiros e até mesmo aos pagens, que costumavam explorar seus pares mais pobres, a fim de aliviar sua própria carga de trabalho.
Encarregar os pequenos grumetes dos trabalhos mais pesados e perigosos era um hábito corriqueiro e exemplos não faltam nos documentos de época. 
A compilação de relatos de naufrágios realizada por Bernardo Gomes de Brito no século XVIII, reunidos no seu História Trágico-Marítima, dá conta que em 1560, na nau São Paulo, que haveria de naufragar no ano seguinte, um grumete foi colocado de serviço na gávea, caindo de lá e “desfazendo a cabeça em pedaços” no convés, espalhando “os miolos”[12] por todo canto. 
Apesar de todos a bordo, inclusive os oficiais, terem plena consciência de que “os acontecimentos e perigos do mar” eram sempre “súbitos e estranhos” e de “que a todas as horas e momentos” estavam a eles “sujeitos”[13], não havia hesitação em colocar as pobres crianças para atuar nos trabalhos mais arriscados. 
Quando um dos habituais acidentes ocorreu, apesar do “muito temor e espanto” causado entre os tripulantes, tudo que os outros grumetes ouviram é que o morto era um “mancebo valente”, ao que justificou-se sua escolha para vigia na gávea, por ter ele, apesar de criança, um corpo “grosso” e temperamento “bem disposto”, nem sendo tão criança assim, pois estava até “despojado de no[i]vo”[14] no Reino.
De todos os embarcados, os grumetes eram os que tinham as piores condições de vida. 
Enquanto cada marujo tinha ao menos direito a um catre - uma cama de viagem - e um baú para guardar seus pertences, os grumetes eram alojados a céu aberto no convés, próximo aos “amantilhos (cabo que sustenta às vergas) e às curvas d’ante a ré dos amantilhos”[15], ficando expostos ao sol e a chuva e vindo a falecer, aliás, como outros tripulantes mais debilitados, vitimas de pneumonia e queimaduras do sol.
Condicionados ao mesmo tratamento dos tripulantes adultos, os grumetes tinham direito a uma ração de “uma libra e meio de biscoito por dia (...) e um pote de água, uma arroba de carne salgada por mês e alguns peixes secos, cebolas e manteiga”, pois o alimento nas embarcações portuguesas era “distribuído igualmente a todos”[16]
Não recebiam, todavia, a ração diária de “um pote de vinho” que cabia aos marinheiros. 
Em muitos casos, como por exemplo nas viagens de volta da Carreira da Índia, devido a falta de espaço causado pelo armazenamento de mercadorias, recebiam “senão biscoito e água”[17].
Embora a situação fosse um pouco mais amena na Carreira do Brasil, os miúdos eram sistematicamente acometidos de inanição e escorbuto. 
Esse último, chamado também de mal de Luanda, era provocado pela falta de vitamina C, resultando no apodrecimento das gengivas. 
Como os médicos eram raros a bordo, as crianças eram entregues aos cuidados de barbeiros que serviam como cirurgiões nas embarcações; estes costumavam aplicar-lhes as temidas sangrias, método de cura para todo e qualquer mal, que na maior parte das vezes, terminava por exauri-los ou matá-los.
Visando enriquecer a dieta de bordo, os tripulantes tinham permissão para tentar pescar, mas estando sempre sobrecarregados pelos trabalhos diários e vigiados de perto pelo guardião, não sobrava tempo para que os grumetes participassem desta forma corriqueira de melhoria das refeições. 
Recorrer então aos “muitos ratos”[18] e “baratas”[19] era a única saída que lhes restava.
Entregues a um cotidiano duro e cheio de privações, os grumetes viam-se obrigados a abandonar rapidamente o universo infantil para enfrentar a realidade de uma vida adulta. 
Muitos marujos inescrupulosos, aproveitando-se da fragilidade física dos grumetes, sodomizavam-nos, porém, quando grumetes eram estuprados, quer por medo ou vergonha, dificilmente iam se queixar aos oficiais, até mesmo porque muitas vezes eram os próprios oficiais que praticavam a violência.
Diferente dos grumetes, os pagens dificilmente eram importunados por marinheiros, sendo respeitados, principalmente porque eram originários de famílias da baixa nobreza ou relacionadas com estas. 
A eles eram confiadas tarefas leves como arrumar as camas dos oficiais ou servir a mesa, além do que, para eles, a possibilidade de ascensão social dentro da hierarquia marítima era muito maior do que a dos grumetes. 
De qualquer modo, fosse pagem ou grumete, a vida no mar proporcionava um rude aprendizado a estas crianças.
Enquanto os meninos pobres menores de 16 anos eram embarcados como grumetes e pagens nas naus portuguesas e alguns dos filhos dos oficiais, mesmo não sendo pagens, embarcavam simplesmente como acompanhantes de seus pais a fim de aprender seu ofício, as meninas órfãs de pai e pobres eram arrancadas a força de sua família e embarcadas sob a categoria de “órfãs do Rei”, sendo destinadas a casarem-se com elementos da baixa nobreza presente no Brasil e na Índia.
Muitas prostitutas e ciganas eram encerradas nos orfanatos de Lisboa e Porto como se órfãs fossem, mesmo na maior parte dos casos tendo pai ou mãe vivo, e junto com órfãs verdadeiras causavam verdadeiro alvoroço a bordo das embarcações onde predominavam os homens, sendo caçadas por grupos de marinheiros mau intencionados que ficavam dias a espreita a espera da oportunidade ideal, terminando por freqüentemente serem vitimas de estupros coletivos que garantiam a impunidade aos agressores, sendo que dificilmente as vítimas iam se queixar pelo medo de sofrerem retaliações[20].
Em uma época em que meninas de 15 anos eram consideradas aptas para casar e meninos de 9 anos plenamente capacitados para o trabalho pesado, o cotidiano infantil a bordo das embarcações portuguesas era extremamente penoso para os pequeninos. 
Os meninos não eram ainda homens mas eram tratados como se fossem e ao mesmo tempo eram considerados como pouco mais que animais cuja a mão de obra deveria ser explorada enquanto durasse sua vida útil. 
As meninas de 12 a 16 anos não eram ainda mulheres, mas em idade considerado casadoura pela Igreja católica, eram caçadas e cobiçadas como se o fossem. 
Em meio ao mundo adulto, o universo infantil não tinha espaço: as crianças eram obrigadas à se adaptar ou perecer.
Se por um lado foram poucas as crianças embarcadas nas naus quinhentistas rumo ao Brasil, por outro lado, a mão de obra infantil na falta de adultos tornou-se indispensável à epopeia marítima. 
Neste sentido, seriam os grumetes e pagens considerados crianças ou eram vistos como adultos em corpos infantis? 
Ao que parece, embarcavam em Lisboa crianças que ao longo de sua primeira viagem, antes de chegar ao Brasil, tornavam-se adultos calejados pela dor e pelo sofrimento.
Não obstante, poucas crianças, quer embarcadas como tripulantes ou passageiros, conseguiam resistir à insalubridade das embarcações portuguesas, a inanição e às doenças; e um número ainda menor sobrevivia em caso de naufrágio. 
Se eram poucas as crianças embarcadas, o número de pequenos que chegavam vivos ao Brasil ou mesmo a Índia era menor ainda, e com certeza nenhum conseguia chegar ileso ao seu destino. 
O menor mal que podia sofrer após viver alguns meses no mar, quando tinha sorte, era o de sofrer um grande trauma e deixar de ser criança; ver seu universo de sonhos, esperanças e fantasias desmoronar diante da cruel realidade do cotidiano das naus do século XVI; perder sua inocência para nunca mais recuperá-la.
Os grumetes e pagens, órfãos ou não, juntamente com os degredados, vagabundos e desocupados, excluídos das rotas mais lucrativas e ao mesmo tempo de uma participação nos proveitos obtidos com o comércio da pimenta, constituíram o grosso da mão de obra empregada na rota do Brasil quinhentista, quando a atenção dos adultos voluntários estava voltada para a Carreira da Índia. 
No entanto, a partir do inicio do século XVII esta situação começaria a se inverter, e, depois da criação da Carreira do Brasil, na metade de seiscentos, mudaria quase completamente, embora crianças, bandidos e vadios tenham continuado a serem empregados na nova Carreira em número reduzido, a Carreira da Índia passou a ser então o principal destino dos excluídos, mas esta já é outra história.

Texto originalmente apresentado como Comunicação livre-CL131 no XV Encontro Regional da ANPUH (Associação Nacional de História), no ano 2000, com o título "Grumetes, órfãos e degredados:a história dos excluídos a bordo das caravelas e naus dos descobrimentos".

Na ocasião apenas o resumo foi publicado nos anais do evento.

Resumo: A reboque das comemorações em torno dos 500 anos do descobrimento do Brasil, pretendemos reconstituir o cotidiano dos excluídos a bordo das caravelas e naus do século XVI e XVII, quando: os grumetes, em geral crianças entre 9 e 16 anos, sofriam constantemente maus tratos e abusos sexuais por parte dos marinheiros e oficiais; órfãos eram embarcados compulsoriamente e obrigados a migrar rumo as colônias de além mar; prostitutas eram encerradas nos orfanatos de Lisboa e Porto para depois serem também obrigadas a migrar para o Novo Mundo como se fossem órfãs, sendo obrigadas a casarem-se com elementos da pequena nobreza no Brasil e na Índia; ciganos e judeus eram condenados a servirem nos navios como degredados unicamente pelo crime de pertencerem às minorias. 





[1] LAPA, José Roberto do Amaral. O Brasil e a Carreira da Índia. São Paulo: Companhia Editora Nacional/Editora da Universidade de São Paulo, 1968.
[2] ANTT (Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa). Cartas dos Governadores de África e de outras pessoas para el-Rei (maço único), Núcleo Antigo 877, documento 134.
[3] COATES, Timothy J. Degredados e Órfãs: colonização dirigida pela coroa no império português. 1550-1755. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1998.
[4] SERRÃO, José. “Demografia portuguesa na época dos descobrimentos e da expansão” In: ALBUQUERQUE, Luís de (direção) & DOMINGUES, Francisco Contente (coordenação). Dicionário de história dos descobrimentos portugueses. Lisboa: Caminho, s.d., volume 1, p.349.
[5] MICELI, Paulo. O ponto onde estamos: viagens e viajantes na história da expansão e da conquista. São Paulo: Scritta, 1994, p.49.
[6] COELHO, Adolfo. Contos populares portugueses. Edição gramaticalmente atualizada por Ernesto Veiga de Oliveira a partir do original de 1879, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1993, p.177.
[7] HERCULANO, Alexandre. História da origem e estabelecimento da Inquisição em Portugal. Lisboa: Aillaude Bertrand/Francisco Alves, 1852, Tomo 1, p.137-155.
[8] DOMINGUES, Francisco Contente & GUERREIRO, Inácio. “A vida a bordo na Carreira da Índia (século XVI)” In: Revista da Universidade de Coimbra. Coimbra: Separata da Biblioteca Central da Marinha Portuguesa, s.d., p.201.
[9] BARCELLOS, Christiano (org. e compilação). Construções de Naus em Lisboa e Goa para a Carreira da Índia no começo do século XVII. Lisboa: Separata da Biblioteca Central da Marinha Portuguesa, 1898, p.38.
[10] SERRÃO. Op. Cit. In: ALBUQUERQUE & DOMINGUES. Op. Cit., p.349.
[11] WILLIAMS, Eric. Capitalismo e Escravidão. Tradução do inglês e notas de Carlos Nayfeld, Rio de Janeiro: Companhia Editora Americana, 1964.
[12] “Relação da viagem, e naufragio da Nao São Paulo, que foy para India no anno de 1560. Escrita por Henrique Dias, Criado do S. D. Antonio Prior do Crato” In: BRITO, Bernardo Gomes de. História Trágico-Marítima (fac-símile da edição original de 1735/36). Lisboa: Edições Afrodite, 1971, volume 1, p.290.
[13] Idem, Ibid.
[14] Idem, Ibid, p.291.
[15] “Relatório do Almirante João Pereira Corte Real, datado em 12 de setembro de 1619, a Felipe II da Espanha” In: BARCELLOS. Op. Cit., p.24.
[16] Histoire de la navigation de Iean Hvgves de Linschot Hollandois...” In: MICELI. Op. Cit., p.15.
[17] Idem, Ibid.
[18] “O triste sucesso da nau São Paulo (1560)” In: SÉRGIO, António (organização e adaptação). História Trágico-Marítima. Lisboa: Sá da Costa, 1991, p.122.
[19] Idem, Ibid, p.130.
[20] RAMOS, Fábio Pestana. “A História Trágico-Marítima das crianças nas embarcações portuguesas do século XVI” In: DEL PRIORE, Mary (org.). História das Crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 1999, p.19-54.




terça-feira, 14 de setembro de 2010

História, estrutura e sujeito.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume set., Série 14/09, 2010.


Introdução.

Para a historiadora norte-americana Natalie Ann Zemon Davis, a história nasce de uma conversa entre o historiador e os agentes históricos, outros eruditos e os consumidores da história.

Neste sentido, um bom historiador seria aquele que possui uma vocação para ouvir os sujeitos responsáveis por vivenciar a história.

Segundo Holien Gonçalves Bezerra, a história só pode ser concebida como resultado de sujeitos históricos, percebida através da trama traçada pelas relações sociais no tempo, envolvendo as ações dos indivíduos, a construção de identidades pessoais e coletivas, além de estruturas.

O sujeito histórico não estaria presente nas ações individuais, mas, ao contrário, estaria configurado a partir das inter-relações complexas, duradouras e contraditórias entre as identidades sociais e as pessoais.

Em outras palavras, todos nós seriamos construtores da história, simultaneamente, sujeitos da e na história, embora nossas ações só possam ser consideradas relevantes à medida que integradas a uma conjuntura mais ampla.

Assim, a história não seria apenas resultado da ação de figuras de destaque, consagradas pelos interesses explicativos de grupos ou ideologias.

Antes, seria uma construção, consciente ou inconsciente, paulatina e imperceptível de agentes sociais que constituem os sujeitos que pertencem às estruturas.

Entretanto, nem sempre os indivíduos comuns foram vistos como sujeitos históricos.

Na realidade esta abordagem é relativamente recente.

Ao longo da maior parte da história da humanidade somente os heróis, os reis e as pessoas notáveis tiveram status de agentes efetivos da historicidade, sendo merecedores de uma posição na história.

O inicio da percepção das pessoas comuns, como sujeitos históricos, foi acompanhado de intensas discussões acerca de seu lugar no entendimento da história, envolvendo, inclusive, debates sobre o papel do historiador na construção da narrativa, também ele um agente histórico.

Neste sentido, a consciência de que, além do tempo e espaço, o conhecimento histórico carece do entendimento das estruturas, foi o primeiro passa para a incorporação do debate em torno dos sujeitos na história, uma discussão, em certa medida, iniciada pela Escola de Annales.


Annales e o estudo das Estruturas.

Febvre inaugurou a moderna concepção de análise das estruturas na histórica, relatando as relações entre o meio físico e a sociedade, tidos como elementos necessários para estudar as macro-problemáticas.

A partir de então, os historiadores, independente da corrente teórica ou orientação metodológica, em geral, passaram a utilizar a técnica de análise baseada na diacronia-sincronia, assim como a periodização e, por vezes, a quantificação, visando entender o funcionamento das estruturas.

Menos usual, a partir do estimulo da revolução tecnológica representada pela invenção do computador, foi possível estabelecer relações complexas, usando a estatística para chegar a conclusões palpáveis.

Dentro deste âmbito, ainda antes do computador, representado a segunda geração de Annales, Fernand Braudel revolucionou o conhecimento histórico, unindo pressupostos da história e geografia em 1949.

Ele demonstrou como era possível decompor as estruturas em temporalidades desdobradas: o tempo individual, o tempo social e o tempo geográfico.

No tempo individual estaria fixada a história não do homem como coletividade, mas do homem como individuo, com variações rápidas e dinâmicas, permitindo ao historiador observar os acontecimentos.

Exatamente o tipo de abordagem em que estaria concentrada a maior parte da historiografia, sendo o tempo da curta duração, de tudo que muda com muita rapidez, por isto, mais facilmente percebido.

O tempo social seria o plano pelo qual se pode observar a história social dos grupos e agrupamentos, pertencendo a uma história lentamente ritmada, circunscrita ao crescimento demográfico e da economia, elementos pertencentes a longa duração.

Seria, portanto, o tempo das estruturas que mudam com muita lentidão, fazendo quem a vivencia não se dar conta destas mudanças, neste sentido, assemelhando-se mais ao que, depois, convencionou-se chamar de média duração.

O tempo geográfico representaria uma história quase imóvel, que observa o relacionamento do homem com o meio que o rodeia.


Uma história que passa lentamente e sofre poucas transformações.

As regiões montanhosas e a população que lá habita, fornecem um bom exemplo desta temporalidade, mostrando o quanto, nesta dimensão, os costumes, ligados aos aspectos geográficos, pouco mudam, já que o ambiente que os rodeia também não muda, o que Braudel chamou de longuissíma duração.

Para ele, os historiadores concentravam sua atenção apenas nos processos da curta duração, deixando de lado as outras temporalidades, oferecendo apenas um vislumbre da história, sem conseguir chegar a nenhuma elucidação.

O que envolvia, portanto, deixar também as espacialidades geográficas em segundo plano.

Para atingir o objetivo de ler o passado partindo do presente, seria necessário realizar macro abordagens, penetrando as três temporalidades, adentrando de fato as espacialidades geográficas e suas especificidades, dando conta, por exemplo, tanto das questões regionais como dos espaços mais amplos.

Somente assim seria possível tornar a escrita da história uma verdadeira ferramenta para desvendar o passado, clareando a noite como um vaga-lume.


Pouco depois das concepções braudelianas ganharem terreno entre os historiadores, os estudos de Claude Lévi-Strauss sobre a mitologia ameríndia, publicados entre 1964 e 1971, a partir do conceito de oposição binária, atraíram nomes como Jacques Le Goff e Emmanuel Le Roy Ladurie.


Estes historiadores incorporaram a abordagem estruturalista, descobrindo que ela resistia à apropriação pela história.

Tentaram combinar as estruturas com os eventos, examinando biografias e a vida cotidiana para entender valores, atitudes, crenças e comportamentos populares.

Traçaram narrativas que buscavam elucidar a história a luz dos sujeitos que vivenciaram os fatos, procurando fugir dos conceitos pré-concebidos pela cultura erudita.

Entretanto, esta postura tecnicista de tentativa de leitura imparcial do passado não passa de uma falácia.

Como ressaltou Keith Jenkins, é fato que nenhum historiador consegue recuperar a totalidade dos acontecimentos passados.

O conteúdo desses acontecimentos é ilimitado, tornando possível somente relatar uma fração do que já aconteceu.

Ao passo que o historiador, na construção de uma narrativa inteligível, nunca consegue relatar exatamente o que aconteceu.

O que nos conduz a discussão acerca do papel desempenhado pelo historiador na construção de uma memória seletiva, repleta de vínculos com a imaginação, levantando inúmeras questões, dentre as quais: a própria inviabilidade de uma história que represente a memória integral do passado.


Os sujeitos da história e a produção das fontes.

Desde a antiguidade, o conceito de história, em si, sempre conduziu a visão da participação do homem enquanto ser ativo que produz o passado ao viver o presente.

A história humana só existe porque é produzida por sujeitos que a vivenciaram, deixando vestígios que puderam chegar ao presente, fontes interpretadas pelos historiadores para o entendimento, ao mesmo tempo, daquilo que foi e do agora.

No entanto, a influencia das ações humanas sobre o passado e sua vinculação com a produção de fontes só passou a ser evidenciada a partir do século XIX, quando a história iniciou sua busca pela cientificidade, procurando a legitimação da ciência para a construção de seu discurso.

A Escola Metódica de Leopold Von Ranke forjou um conceito de história, vinculado com a produção da verdade, através do método crítico, onde, segundo José Carlos Reis, o sujeito não se anula, apenas se esconde, se autocontrola; é produtor da história, mas deve permanecer nas sombras.

Marx adotou uma postura diferente, para ele, o sujeito deveria assumir sua subjetividade.

A verdade, não sendo universal, mas pertencendo a um grupo social, conduz a um conhecimento histórico produzido objetivamente, parcial e relativo; o sujeito é produtor ativo da história, embora inserido na massa, o que anula suas ações individuais.

Ao inverso, em Foucault, a verdade é uma construção de um sujeito particular e expressa relações de poder.

Essas relações criam linguagens e saberes para legitimarem as ações coletivas, dirigidas pelas individualidades que moldam os contextos.

O homem, para Foucault uma invenção recente, é sujeito da história, mas é também modelado por normas ou regularidades das quais não têm consciência, tendo suas ações individuais restringidas pelas relações de poder na sociedade.

O que conduz ao conceito de geração de Dilthey, trata-se de pensar a historicidade como sendo compartilhada. O tempo histórico representaria a permanência e seqüência de gerações, deixando sinais, marcas, que são buscadas pelo historiador.

No contexto do século XIX, Dilthey apontou o caminho da história, da vida, tornando o apreender o mundo dos homens através do estudo das suas experiências no passado uma missão da história, unindo filosofia e historicidade.

Embora seja difícil enquadrá-lo em algum rótulo, Dilthey estaria entre um historicismo romântico e um epistemológico por buscar compreender o homem enquanto ser histórico, compreender a alteridade e todos os aspectos da vida de um povo.

Para ele, a história é mudança e o que permanece é compreensão, a comunicação entre homens diferentes, sendo o homem definido pela experiência vivida e a verdade, resultando em sua transformação em sujeito ativo do processo histórico.

Enquanto Kant acreditava que o mundo da experiência seria efetivamente modelado pela mente.

Para Dilthey os valores, emoções, idéias e atos derivam do modo particular dos indivíduos em determinados contextos sociohistóricos, sendo influenciados pelas idéias que os rodeiam e presos aos limites de uma época, subordinando a história à vida como ela é vivida.

O sujeito não é um espectador que observa o mundo, mas agente da ação e reação.
As experiências particulares, integradas ao conceito de geração, influem nas concepções coletivas.

Portanto, nas palavras de Dilthey, a compreensão da história permite a redescoberta do “eu” no “tu”, através da interpretação das fontes produzidas pelos sujeitos históricos, autores da ação e ao mesmo tempo objetos da história.


Sujeitos objetos da história.

O homem é a convivência no tempo, seu passado, presente e futuro, neste sentido, não é apenas agente histórico, mas também sujeito na história, à medida que, ao mesmo tempo em que faz e participa das ações sociais individuais e coletivas, ele é o que fez, portanto, sujeito e objeto da história.

Somos todos seres no mundo, produtores e produtos do conhecimento e das relações sociais, objetos de análise da história.

O que equivale a dizer que o sujeito tem sua missão universal inscrita na sua condição objetiva, pois sendo sujeito da é também sujeito na história, centro da epistemologia histórica.

A vida real em que o sujeito se insere, nas relações, é afetada pelo outro, fazendo com que o sujeito que pergunta, replique e responda, tornado os indivíduos objetos.

Em certa medida, foi Copérnico que colocou o homem no centro dos acontecimentos.

Ao substituir o geocentrismo pelo heliocentrismo, demonstrando que a terra não era o centro do universo, mas apenas mais um astro dentre inúmeros outros, gravitando em torno do sol, também apenas uma estrela dentre muitas outras, iniciou uma revolução na mentalidade.

Deslocou a atenção de Deus para o homem, abrindo caminho, inclusive, para o humanismo renascentista.

Entretanto, como aconteceu no caso dos indivíduos enquanto sujeitos históricos, inicialmente, apenas os ilustres foram tratados como objetos da história, situação que se manteve inalterada até o século XIX.

Justamente quando o positivismo e a escola metódica forjaram a concepção cientificista da história, optando por buscar, em documentos oficiais, uma narrativa dos fatos políticos e da vida das grandes personalidades.

As idéias desenvolvidas por Karl Marx e Friedrich Engels, no final do século XIX, terminaram alterando este panorama.

A massa proletária, vista como agente histórico ativo, paradoxalmente, passou a objeto de análise para o entendimento da história.

A busca do ideal revolucionário, simultaneamente, tornou o proletário um instrumento para alcançar a revolução e um objeto de estudo para entendê-la.
O paradoxo foi intensamente estudado por Georg Lukács, o qual demonstrou que a noção de proletariado, em si, conduz ao conceito de sujeito objeto da história.

O surgimento da escola de Annales, no século XX, deu continuidade à tendência, possibilitando a leitura de uma multiplicidade de objetos, muitos dos quais, também, não considerados sujeitos anteriormente, como é o caso das mulheres, negros ou crianças.

Fomentando discussões acerca da participação do historiador, não só como agente histórico, como também sujeito na história, objeto de análise para o entendimento da construção da narrativa do passado.


O sujeito da (na) história que lê a participação dos agentes históricos.

A reboque dos debates em torno do papel das pessoas comuns na construção da história, a discussão em torno do ofício do historiador, um sujeito da história que produz à narrativa do passado e, simultaneamente, está inserido na história, tornou-se relevante.

O historiador, não sendo um individuo isento de influencias as mais diversas, fruto de seu próprio tempo, necessita de técnicas que permitam tentar alcançar a objetividade cientifica na leitura e interpretação das fontes, o que nos remete novamente para a analise das estruturas.

Poderíamos listar uma infinidade de técnicas utilizadas para ler os dados contidos nos documentos, algumas emprestadas por outras ciências, outras surgidas no seio da análise histórica.

Porem, Jean Chesneaux sintetizou as mais usuais, a despeito de confundi-las por vezes com métodos e empregar técnica e método dentro da mesma acepção.

Segundo ele, toda análise histórica, obviamente a partir do século XIX, é tecnicista, busca uma abordagem profissional, sendo reflexo e sustentáculo da ideologia capitalista.

Dentro da amplitude deste pressuposto, é habitual observar que os historiadores, independente da corrente teórica ou orientação metodológica, tentam entender as estruturas pensando que assim garantem uma imparcialidade em suas narrativas.

O historiador tenta reinterpretar a visão de mundo fornecida pelos agentes da história que produziram as fontes, penetrando as estruturas das quais fizeram parte estes sujeitos, tentando isentar-se de cometer anacronismos sob o verniz de uma pseudo-cientificidade.

Entretanto, como lembrou Gramsci, cabe ressaltar que a história não pode ser reduzida a um cálculo matemático, ou ainda que a estatística mostra o caminho ao cego, mas não restitui a visão.

O que torna o trabalho do historiador uma representação do passado, uma construção, dentre outras possíveis, plausível, mas não necessariamente real daquilo que foi.


O historiador e a construção da história.

Não bastasse a inexatidão da narrativa, como lembrou Eric Hobsbawm, o historiador, enquanto sujeito histórico, na sua interpretação, não se isentaria de construir uma produção, consciente ou inconsciente, utilizada para legitimar as ações do presente.

Ao optar por escolhas, recordando, voluntária ou involuntariamente, conforme uma orientação especifica, a partir de uma conjuntura social ou política, o papel do historiador na construção de uma memória oficial parece mais obvio do que das fontes que ele utilizou.

Os documentos, tomados em sentido amplo, também foram produzidos dentro de um contexto, muitas vezes, intencional, visando transmitir as gerações futuras uma imagem idealizada do passado, contribuindo para a construção de uma memória coletiva oficial que não corresponde à realidade.
A história evoca o passado, ativando recordações regidas por uma temporalidade linear, ordenando os acontecimentos de forma que as pessoas se lembrem apenas dos fatos e eventos que interessam aos grupos que estão no poder, construindo modelos de comportamento que ditam as normas do conhecer e agir.

No entanto, a enredo historiográfico, em si, termina, antes de qualquer coisa, sendo influenciado pela documentação, fazendo com que o historiador, mais do que um bom interprete do passado, deva ser um critico de seu material de trabalho.

Como clamou Walter Benjamim, é função do historiador desmontar a versão da memória oficial, ao invés de legitimar ou perpetuar.

Neste sentido, as fontes sequer expressam a memória individual de seus autores, em última instancia, nunca relatam a verdade ou a realidade, exprimem apenas um ponto de vista gerado pela imaginação e intencionalidade, não são testemunhos daquilo que aconteceu, mas do ambiente em que foram produzidas.


Concluindo.

Ao longo da história da história, a própria definição teórica do que deveria ser entendido por história sofreu alterações sensíveis, algumas mais visíveis do que outras, mas todas engajadas na discussão em torno da narrativa mais adequada do passado, da possibilidade concreta de leitura deste passado através das fontes, da natureza do trabalho do historiador, entre outros debates relevantes.

Destarte, como ressaltou Jacques Le Goff, não existe sociedade sem história, o que conduz ao conceito de historicidade, o pertencer de cada individuo ao seu tempo e espaço, os aspectos comuns que todos os homens de determinada época compartilham e dos quais ninguém pode escapar, quer sejam historiadores profissionais ou não.
A despeito da história ser considerada por alguns como distinta da memória, a verdade é que a historicidade humana não existiria sem a memória ou a recordação do passado e que o historiador é o interprete daquilo que se passou, reduzindo, em certo sentido, a liberdade individual de entendimento do presente.

A história, como afirmou Massimo Mastrogregori, expressa uma tradição de lembranças, ordenadas com o apoio de relatos e visões particularizadas, forjando uma memória coletiva que, não correspondendo exatamente como as coisas foram, na maior parte das vezes, legitima a ordem política e ideológica estabelecida e, em raras ocasiões, cumprindo aquela que deveria ser sua missão, questiona a realidade.

Assim, em grande medida, a história pretende ser uma narrativa que recorda o passado para contribuir com a memória da coletividade, mas não passa de literatura verossímil que costura a si mesma com a memória e a imaginação dos sujeitos da e na história.

Georges Duby estava certo ao afirmar que a história seria, acima de tudo, uma arte essencialmente literária, só existindo pelo discurso, justificado, obviamente, por uma exposição racional.


Para saber mais sobre o assunto.

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REIS, José Carlos. História e Teoria. Historicismo, Modernidade, Temporalidade e Verdade. Rio de Janeiro: FGV, 2006.


Texto:

Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em Ciências Humanas - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.
Licenciado em Filosofia - FE/USP.
Bacharel em Filosofia - FFLCH/USP.