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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Consciência histórica e narrativa histórica: a abordagem de Jörn Rüsen.

 
Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 5, Volume dez., Série 02/12, 2014, p.01-06.


Profª Drª Marilda Soares.

Doutora em História Social - FFLCH/USP.

Consultora do CONEPIR-Piracicaba.




Considerando a influência das representações e dos significados atribuídos aos eventos e às experiências temporais humanas sobre o entendimento da história e a construção de uma consciência histórica, cabe ressaltar a importância da abordagem teórica de Jörn Rüsen – estudioso da filosofia, pedagogia e literatura alemã e, especialmente, da Teoria da História; ex-presidente do Kulturwissenschaftliches Institut, em Essen, Alemanha –  para a análise do tema.

“A história possui um sentido cognoscível?”, “Como se constitui o pensamento sobre a história que se apresenta como ciência?”.

Estas são algumas das problemáticas iniciais anunciadas por Jörn Rüsen acerca da produção de um conhecimento histórico, seus vínculos com a razão e seu transido entre a ciência e a práxis, a razão e os sentidos.


 
Razão e consciência Histórica.

De acordo com Rüsen, “Se a ciência histórica pretende ser uma instância racional no trato da história (pretensão com que se legitima), então não lhe é permitido simplesmente ignorar a questão da razão, originada na incontornável carência de orientação da práxis humana e pilar do pensamento histórico.

A ciência histórica está, assim, entre a cruz e a caldeirinha: como ciência, ela não é a especialidade competente para responder às perguntas fundamentais sobre o sentido e, no entanto, ela se sabe movida por tais questões, o que a impede de ignorá-las” (Razão histórica: 12).
O autor elabora uma abordagem crítica da Teoria da História, explicitando seus questionamentos e intenção de desnudar os procedimentos adotados para a produção do conhecimento histórico enquanto racionalidade e fundamentação para o conhecimento do passado.

Segundo ele, o conhecimento histórico extrapola os limites da História e da Teoria da História, abrangendo teoria, reflexão e prática, ultrapassando, portanto, o trabalho dos historiadores:

“Ora, a práxis dos historiadores – vale dizer, sua pesquisa e sua historiografia – é por sua vez “teoria” (no sentido coloquial do termo) porque, como operação cognitiva, vai além do agir prático, colocando-o, por conseguinte, em uma perspectiva de dimensão histórica que os profissionais, em sua prática concreta, não tematizam explicitamente. Com respeito a essa dimensão “teórica”, a teoria da história é uma metateoria, uma teoria (reflexiva) da teoria, um pensar sobre o pensamento histórico, cujo eixo é a racionalidade (Razão Histórica: 15).

O esforço para descobrir o passado humano, uma visitação aos conteúdos, eventos e sentidos do passado, efetiva-se mediante as referências de vida e experiências que compõem o repertório de conhecimentos daquele que realiza essa operação cognitiva de desenvolvimento da consciência histórica.

Os princípios do pensamento histórico, objeto da Teoria da História, estão mesclados em diferentes de formas de pensar a história, abordagens, métodos, representações, intenções e manifestações empíricas, concepções diferenciadas e contraditórias, resultando em uma grande dificuldade para definir seu campo de análise e a necessidade de pensar sobre si mesmo enquanto princípio de investigação racional e científica.

O pensamento histórico tem uma ambiciosa intenção de racionalidade, define-se por critérios de cientificidade, apresenta-se como objetivo e busca sobrepor-se a interpretações contrárias recorrendo à força da argumentação.

Por essa razão, afirma Rüsen, é necessário “desenvolver sistematicamente as questões da teoria da história em articulação com a práxis a pesquisa histórica e da historiografia” e  compreender que “a formulação sistemática de soluções somente seriam adequadas funcionalmente se se considerar apenas uma etapa de uma caminho a ser continuado, cuja direção só se pode descobrir à medida em que é percorrido” (Razão Histórica: 21).

O fato é que o pensar histórico propriamente, seja por meio da adoção de rigorosos critérios de investigação e análise de fontes documentais fidedignas, seja pelo contato ulterior com as produções acadêmicas ou artísticas, ou mesmo objetos do mass media, produz consciência histórica, ainda que seus conteúdos possam e devam ser questionados quanto à extensão e à qualidade dessa consciência histórica.


A formação da consciência histórica.

Ao estudar a formação e o desenvolvimento da consciência  histórica, Jörn Rüsen elaborou o conceito de “tipologia geral da consciência histórica”, sistematizando as suas manifestações de racionalidade em quatro formas diferenciadas as quais denominou “Consciência Tradicional, Consciência Exemplar, Consciência Crítica e Consciência Genética”.

No texto intitulado "O desenvolvimento da competência narrativa na aprendizagem histórica": uma hipótese ontogenética relativa à consciência moral, o autor expõe os conceitos formulados.

A consciência tradicional corresponde a uma forma mais estabilizada e, portanto, menos dinâmica de apreensão do passado, das experiências vividas, sendo os valores morais inquestionáveis e as experiências não problematizadas, mostrando-se mais conservadora. 

A consciência exemplar considera a variedade das experiências humanas como representativas de regras gerais e atemporais, de modo que a argumentação corresponde à generalização e à regularidade dos princípios.

A consciência crítica apresenta um caráter de negação das totalidades temporais e de ruptura com as experiências anteriores, com a inserção de pontos de vista próprios e a crítica das ideologias e dos valores morais pré-existentes.

A consciência genética, por sua vez, insere a perspectiva de criação de novos modelos culturais e de ação mais aceitáveis e condizentes com as necessidades do tempo presente, aceitação de diferentes pontos de vista, validade e mudança dos padrões morais segundo sua temporalidade, mostrando-se transformadora e com alto grau de complexidade (O desenvolvimento da competência: 63).

Nas palavras de Rüsen, a  consciência histórica na sua forma mais elaborada permite aos indivíduos “sua própria autorrelação como dinâmica e temporal.

Eles compreendem sua identidade como ‘desenvolvimento’ ou como ‘formação’, e ao mesmo tempo, com isso, aprendem a orientar temporalmente sua própria vida prática de tal forma que possam empregar produtivamente a assimetria característica entre experiência do passado e expectativa de futuro para o mundo moderno nas determinações direcionais da própria vida prática (Aprendizado histórico: 46)

A memória é matéria-prima para a operacionalização da consciência histórica.

É por meio dela que os eventos passados são relembrados e atualizados, mediante as questões postas pelo presente e como forma de ligação entre diferentes temporalidades.

É a memória que permite a lembrança e a efetiva continuidade do tempo e fornece aos homens os elementos necessários à reflexão, pela observação direta ou indireta, sobre os eventos passados e a análise crítico-comparativa destes com os eventos presentes.

A linguagem é o instrumento e o meio pelo qual o homem socializa suas experiências afetivas ou intelectuais e é, também, uma operação de construção e reconstrução de sentido.

Pelo uso e elaboração da linguagem gestual, falada, escrita, artística, arquitetônica, etc., os seres humanos expressam formas de compreensão da realidade, intenções, questionamentos, gostos e valores.

É por meio da linguagem que a memória surge para “presentificar” o passado conferindo-lhe existência no momento em que está sendo evocado.


Memória, narrativa e consciência histórica.

A memória dos feitos humanos mantém-se, especialmente, pela narrativa histórica, que garante a possibilidade de leitura e releitura do passado, e pela mediação da linguagem, que permite a organização dos acontecimentos ao longo do tempo e o estabelecimento da relação entre eles, com a percepção de causa e efeito (ou consequência).

Memória e linguagem constituem, portanto, o elo entre o que já se fez e o que se faz agora, por meio da continuidade temporal e das ligações  de sentido.

Como afirma Rüsen, “a narrativa constitui (especificamente) a consciência histórica na medida em que recorre a lembranças para interpretar a experiência do tempo”, porém “a mera subsistência do passado na memória não é constitutiva da consciência histórica” (Razão histórica: 62).

Para que a consciência histórica se constitua é necessária a correlação entre o presente e o passado e sua expressão por meio da narrativa histórica.

Poder-se-ia  assegurar, ainda, que o contato com a memória, em seus diferentes suportes, gera conhecimento histórico, pois permite uma mobilidade temporal que desloca o indivíduo da sua realidade imediata, levando-o a espaços e tempos distintos, possibilitando o encontro entre o vivido e outras culturas, civilizações presentes ou passadas, e mesmo projeções de situações futuras.

O compartilhar desse conhecimento, por meio de novas elaborações cognitivas, é sempre mediado pela narrativa histórica, e esta pelo repertório intelectual, o lugar social, as ideologias, as concepções do narrador, as mentalidades do tempo no qual se fala, os recursos discursivos e mesmo as relações afetivas entre o narrador e o objeto da narrativa.

O passado narrado é uma abstração do tempo no qual se fala, ele não existe tal como está sendo descrito ou interpretado.

O passado não existiu exatamente como é registrado pela memória ou definido e redefinido pelas narrativas históricas que o representam em diferentes tempos e contextos.

O que valida a narrativa é seu caráter de racionalidade, evidenciado pela cognição e capacidade argumentativa.

É por meio da argumentação que a narrativa torna-se mais ou menos inteligível e plausível.

É por meio dessa racionalidade – que se converte em conhecimento e consciência e que se exprime em narrativas e argumentos que formam outras consciências – que, segundo Rüsen, o indivíduo se percebe como um sujeito histórico inserido em um tempo e contexto específico, portanto, dimensiona historicamente sua existência.

Assim, a partir dessa compreensão, explicita-se o papel do saber histórico na formação da identidade histórica dos indivíduos e grupos humanos.

 
Regras do pensamento histórico.

Abordando as regras do pensamento histórico, Jörn Rüsen apresenta uma síntese esquemática da relação entre cinco aspectos que julga interligarem-se na formulação do conhecimento histórico enquanto busca de entendimento do passado para responder a questões de ordem teórica e prática postas pela dinâmica histórica do tempo presente e que se constituem, pois, em parte dos recursos motivadores ou impulsionados das mudanças históricas, apresentando-os em uma representação gráfica:
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A consciência histórica é, segundo o pensador, “a soma das operações mentais com as quais os homens interpretam sua experiência da evolução temporal de seu mundo e de si mesmos, de forma tal que possam orientar, intencionalmente, sua vida prática no tempo” (Aprendizado histórico: 57).
 
Ou seja, a consciência histórica é a atribuição de sentido para a experiência histórica passada (vivida ou sabida) colocada em relação ao tempo presente e às expectativas de futuro, o que se traduz em elaboração cognitiva, orientação e motivação para as ações.

 
Concluindo.

Rüsen  estabelece uma linha divisória entre o conhecimento histórico que se produz como ciência e o conhecimento histórico comum, bem como entre o âmbito da ciência especializada e da vida prática, mas ressalta a interdependência dos fatores e sua atuação em ambos os casos.
 
São eles: as ideias, “perspectivas orientadoras da experiência do passado”; os métodos, “regras da pesquisa empírica”; as formas de apresentação; as funções “de orientação existencial”; e os interesses, “carências de orientação no tempo”.

Tal entendimento é fruto de processo intelectual que dimensiona as transformações e permanências ocorridas ao longo do tempo, dando sentido ao tempo e às experiências humanas não apenas no passado, como também no presente, tendo, portanto, um caráter intelectual e político.

Assim sendo, o conhecimento histórico e a consciência histórica não estão restritos ao saber individual, mas ligados a saberes que se ampliam e transformam permanentemente,  pois aquele que detém o conhecimento serve-se dele para expandir sua compreensão e interpretação do mundo, bem como para ressignificar sua própria prática cotidiana  e interferir na formação de outras consciências e práticas.

 
Para saber mais sobre o assunto.

BAROM, Wilian Carlos Cipriani; CERRI, Luis Fernando. A teoria da história de Jörn Rüsen entre a modernidade e a pós-modernidade: uma contribuição à didática da história. Educação & Realidade, vol. 37 nº 3, Porto Alegre, Sept./Dec. 2012.

RÜSEN, Jörn. Aprendizado histórico. In: SCHMIDT, Maria Auxiliadora; BARCA, Isabel; MARTINS, Estevão Rezende (org.) Jörn Rüsen e o ensino de História. Curitiba: Ed. UFPR, 2010.

Rüsen, Jörn. O desenvolvimento da competência narrativa na aprendizagem histórica: uma hipótese ontogenética relativa à consciência moral (In: SCHMIDT, Maria Auxiliadora; BARCA, Isabel; MARTINS, Estevão Rezende (org.) Jörn Rüsen e o ensino de História. Curitiba: Ed. UFPR, 2010.

Rüsen, Jörn. Razão histórica. Teoria da História: os fundamentos da ciência histórica. Brasília: Editora UnB, 2001.

Rüsen, Jörn. Reconstrução do passado. Teoria da história II: os princípios da pesquisa histórica. Trad. de Asta-Rose Alcaide. Brasília: Ed. UnB,  2007.

SCHMIDT, Maria Auxiliadora; BARCA, Isabel (org.) Aprender história: perspectivas da educação histórica. Ijuí: Ed. Unijui: 2009.

SCHMIDT, Maria Auxiliadora; BARCA, Isabel; MARTINS, Estevão Rezende (org.). Jörn Rüsen e o ensino de História. Curitiba: Ed. UFPR, 2010.
 
 
 

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Forte abraço.
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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