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segunda-feira, 16 de maio de 2011

Os estudos de Bourdieu, Passeron, Bowles e Gintis.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mai., Série 16/05, 2011, p.01-06.





Pertencentes ao conjunto teórico neomarxista, que une pressupostos marxistas com outros referenciais, Bourdieu, Passeron, Bowles e Gintis realizam grande contribuição para a sociologia da educação.

Bourdieu e Passeron concentraram sua atenção sobre a mesma questão trabalhada por Althusser: o entendimento da reprodução da estrutura social e do sistema de poder no âmbito capitalista.

Bowles e Gintis adotaram outro caminho, utilizando amplamente métodos quantitativos para entender as relações entre trabalho, educação e o desenvolvimento do Q.I.





Bourdieu e Passeron.

Pierre Bourdieu (1930-2002), filósofo francês de origem camponesa, foi professor universitário no “Collége de France”, tradicional e conceituada universidade localizada em Paris.

Atuou nas mais renomadas universidades do mundo, como Harvard, Chicago e Frankfurt.

É autor de mais de trezentos trabalhos abordando o tema reprodução do sistema capitalista.

Jean-Claude Passeron, também francês, foi professor de sociologia na “Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais”.

É considerado um discípulo de Bourdieu, com quem escreveu “Os herdeiros” (1964) e “A reprodução” (1974).

Os autores são considerados neomarxistas, mesclando o marxismo com o estruturalismo construtivista, uma tendência que considera o mundo social dirigido pelas estruturas objetivas, coagindo a ação dos indivíduos.





Violência Simbólica e Capital Cultural.

Para Bourdieu e Passeron, a escola seria a principal estrutura objetiva que molda mentalidades e comportamentos.

Neste sentido, o ensino superior transmitiria privilégios, alocando respeito pelo status conferido, hierarquizando relações sociais.

Ao invés da escola representar a possibilidade da passagem da heteronomia para a autonomia, efetivamente faria justamente o contrário, manipulando o educando e ocultando uma violência simbólica.

A violência estaria no fato da escola se revestir de uma aparência de neutralidade, quando na realidade condiciona o educando de acordo com os interesses das elites que controlam o sistema educacional.

Esta violência seria simbólica devido ao seu caráter não material, circunscrito a esfera mental.

Dentro deste contexto, insere-se o capital cultural, a competência cultural e lingüística herdada, sobretudo, da família, facilitador do bom desempenho escolar.

Usando uma linguagem e cultura pertencente à elite, o padrão culto, a escola cometeria uma violência simbólica ao impor, ao conjunto da sociedade, valores que pertencem a um único grupo, impedindo o acesso daqueles que não possuem o necessário capital cultural.

Ao invés da escola democratizar, seria sua função reproduzir hábitos de classe, a maneira de se comportar e pensar de um grupo social, representado pelo capital cultural.

Portanto, dentro desta visão, a escolarização condena aqueles que carecem de capital cultural ao fracasso social.

Embora possa não existir sincronia entre o mercado de trabalho e o processo educacional, o capital cultural é semelhante a uma moeda de troca, por meio do qual o individuo seu sucesso ou fracasso escolar.

Assim, o capital cultural funcionaria como uma moeda de troca para que as pessoas comprem uma posição na estrutura social.

A sociedade seria hierarquizada conforme o sucesso ou fracasso escolar, determinado pelo capital cultural.

Estudando a sociedade francesa depois da 2º. Guerra Mundial, Bourdieu e Passeron chegaram à conclusão de que adquirir capital cultural tornou-se importante para a classe média.

O capital cultural foi convertido em meio de acesso a boas posições sociais, fato que explica os investimentos da categoria em educação.

Ao mesmo tempo, para fazer frente aos investimentos em capital cultural pela classe média, a elite também investe em educação para manter seu status, já que o nível de escolaridade também confere status.





A crítica as idéias de Bourdieu e Passeron.

Apesar da importância das idéias de Bourdieu e Passeron, eles sofreram pesadas críticas, acusados de funcionalistas e weberianos.

O motivo foi a não aceitação dos marxistas do viés estruturalista da sociedade aplicado ao entendimento do processo de escolarização.

Alguns autores marxistas, tal como Laval e Swartz, criticaram as teorias de Bourdieu e Passeron, afirmando que ignoram o poder da ideologia proletária.

Alem disto, a questão do capital cultural foi vista pelos críticos como muito especifica e contextualizada, já que Bourdieu e Passeron usaram a França após a 2º. Guerra Mundial como amostragem, não permitindo a generalização da teoria.

Entretanto, as teorias da violência simbólica e do capital cultural tem se mostrado aplicáveis em diferentes situações ao longo das décadas.

No caso do Brasil mostraram-se perfeitamente aplicáveis, permitindo entender a realidade educacional.

O que conduz a uma questão, pensada pelos autores: por que os professores não rompem com o sistema?

Pensando nisto, Bourdieu e Passeron chegaram a fazer um apelo para que os professores, ao entenderem os mecanismos de reprodução do sistema capitalista, adotem uma ação pedagógica que fuja da política, quebrando com o reprodutivismo.





Bowles e Gintis e o uso dos métodos quantitativos.

Representantes contemporâneos do neomarxismo, os norte-americanos Bowles e Gintis iniciaram, na década de 1970, a discussão em torno da correspondência entre hierarquia no trabalho e sistemas de relações sociais na educação.

Esta discussão levou a um debate em volta do Q.I. e de sua relação com o sucesso econômico e social dos indivíduos.

Uma reflexão que foi alvo de inúmeras críticas.

Samuel Bowles é economista, com formação em matemática, filho de um rico publicitário norte-americano, que foi embaixador na União Soviética, onde o autor estabeleceu seu primeiro contato com o marxismo.

Herbert Gintis também é economista, mas de origem mais humilde, seus pais pertenciam à classe média norte americana.

Ele esteve envolvido com o movimento hipp na década de 1970 e estabeleceu uma estreita parceria com Bowles.

Ainda vivos, Bowles e Gintis mesclam o marxismo com o estruturalismo e o método quantitativo.

Fazem amplo uso da estatística, levantando e tabulando dados para comprovar suas teses, embora sejam acusados de funcionalistas.

A principal preocupação dos autores está centrada na correspondência entre as relações sociais de produção com a educação.

Tentam entender até ponto as desigualdades econômicas distorcem o desenvolvimento pessoal, discussão iniciada na obra “Escola na América Capitalista” (1977).





As idéias de Bowles e Gintis.

O interesse de Bowles e Gintis pelo papel da escola no sucesso profissional e social dos indivíduos nasceu a partir da guerra do Vietnã.

Quando a imensa maioria dos alistados pertencia à etnia negra e latina, fato que conduziu os autores a investigar a realidade das escolas de periferia nos Estados Unidos da América, de onde os alistados eram egressos.

Estudando este conceito, Bowles e Gintis chegaram à conclusão que o sistema capitalista conduziu a hierarquização social.

Valendo-se do processo de escolarização para alienar e produzir pessoas passivas, criando personalidades adequadas às necessidades do mundo do trabalho.

A escola ensina pontualidade e organização, características necessárias ao funcionamento das estruturas capitalistas, servindo ao reprodutivismo do sistema.

Pensando no fato da sociedade ser estratificada, os autores concluíram que a escola termina criando padrões diferenciados de socialização para preencher colocações sociais.

Existiriam varias escolas, com padrões diferenciados de ensino, cada qual destinada a formar um tipo de mão de obra diferente.

As pessoas seriam educadas de acordo com funções e papeis sociais que vedem ocupar depois de formados, compondo a chamada sociedade da meritocracia.

O sistema capitalista se encarregaria de convencer os educandos que a escola seleciona para o mundo do trabalho, adotando como critério o mérito individual.

Na realidade um falso critério utilizado para alienar.

Os autores defenderam a idéia de que o mérito possui critérios falsamente objetivos, como Q.I. e notas, servindo apenas a legitimação da ordem, pois na realidade o principal fator que conduz ao sucesso profissional é a classe social.

Bowles e Gintis não encontraram correspondência entre Q.I. e notas, comprovando isto estatisticamente.

Por outro lado, provaram que também não existe relação entre Q.I e notas com o sucesso profissional.

Demonstraram que existia grande numero de indivíduos com alto Q.I. e bom desempenho escolar que tinham fracassado profissionalmente.

Inversamente, os indivíduos bem sucedidos economicamente e socialmente não possuíam, necessariamente, um alto Q.I. ou tinham sido bons alunos na escola.

 Esta visão conduziu a chamada teoria da correspondência, segundo a qual alguns grupos são preparados para comandar a superestrutura, enquanto outras categorias sociais devem permanecer na infraestrutura.

A escola seria o grande filtro, socializando os indivíduos de modo diferenciado.

Em uma mesma sala de aula, o tratamento diferenciada do professor produz a elite e o proletariado.

O professor, sem perceber, sendo também produto do sistema, estratifica a sala de aula e, com isto, contribui para reproduzir a ordem capitalista.

Em 2002, pensando no caso brasileiro da eleição do presidente Lula, de origem humilde, Bowles e Gintis reformularam suas teorias.

Foram obrigados a admitir que a classe social não é o único fator que garante o sucesso social, uma fez que, para além da herança cultural, os traços individuais da personalidade também exerceriam forte influencia no lugar a ser ocupado pelo individuo na sociedade.

Sendo assim, vários fatores exerceriam influencia no sucesso social e econômico, pois a formação da personalidade está relacionada com as relações sociais do individuo com pessoas de gerações anteriores, incluindo as relações estabelecidas entre professores e alunos.

Em outras palavras, com quem o individuo se relaciona, a sua rede de contatos, influencia no sucesso ou fracasso profissional.





As critica as idéias de Bowles e Gintis.

Antes da reformulação teórica de 2002, Bowles e Gintis receberam algumas criticas.

Os sociólogos norte-americanos Karabel e Halsey, na obra “Poder e ideologia na educação” (1978), chamaram a atenção para o fato da sociedade pós-fordista ser mais complexa do que enxergaram Bowles e Gintis.

Karabel e Halsey acusaram os colegas de terem realizado um trabalho distorcido pelo marxismo, pois as raízes da desigualdade estariam além do capitalismo, tal como demonstrado no caso da URSS.

Em “Teoria social e educação” (1995), Murrow e Torres foram ainda mais longe, acusando Bowles e Gintis de defenderem uma visão determinista, deixando de lado as lições aprendidas com o colapso da URSS.

O qual demonstrou como as personalidades individuais podem ser influenciadas pelas necessidades coletivas.

As pessoas não seriam reflexo da classe social da qual são originarias, mas sim das necessidades coletivas da sociedade.

Todos seriamos aquilo que a sociedade faz de nós, conforme a necessidade que a sociedade tem para funcionar, independente do sistema capitalista.





Concluindo.

Bourdieu e Passeron demonstraram como a escola é um elemento que comete diariamente uma violência simbólica, enquanto o capital cultural garante um desempenho educacional melhor.

Unindo as teorias de Bowles e Gintis com as criticas as suas concepções, podemos perceber que a escola é um espaço de contradições.

O sistema educacional reproduz as desigualdades, mas é também um elemento que ajuda construir uma sociedade mais justa.





Para saber mais sobre o assunto.

COSTA, Maria Cristina. Sociologia: introdução a ciência da educação. São Paulo: Moderna, 2004.

GOMES, Candido Alberto. A educação em perspectiva. São Paulo: EPU, 1994.

KRUPPA, Sonia. Sociologia da educação. São Paulo: Cortez, 2002.

MARTINS, Calos B. O que é sociologia. São Paulo: Brasiliense, 2004.

MEKSENAS, Paulo. Sociologia da educação: introdução ao estudo da escola no processo de transformação social. São Paulo: Loyola, 2005.

NÓVOA, Antônio. Relação escola e sociedade; novas propostas para um velho problema. São Paulo: Cadernos de Formação, 1994.

TOMAZI, Nelson Dacio. Sociologia da educação. São Paulo: Atual, 1997.





Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

Doutor em História Social pela FFLCH/USP.

Bacharel e Licenciado em Filosofia pela USP.

Um comentário:

  1. Otimo texto, lingaugem clara e objetiva. Me ajudou no trabalho sobre o Bowles e Gintis. Obrigada!

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Forte abraço.
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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