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terça-feira, 31 de maio de 2011

Cinqüenta dias a bordo de um navio negreiro.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mai., Série 31/05, 2011, p.03-10.



Resenha:

HILL, P. G. Cinqüenta dias a bordo de um navio negreiro. Traduzido por Marisa Murray. Rio de Janeiro: Editora José Olimpio, 2006.


O livro “Cinqüenta Dias Abordo de Um Navio Negreiro” escrito em 1843 traz o relato de Pascoe Granfell Hill (1804-1882), religioso protestante.
Ele acompanhou o retorno a África de um navio negreiro interceptado em Cabo Verde pelo navio da Marinha Britânica “Cleópatra”.
O relato do livro se situa no fim do período do comércio escravista transatlântico.
A primeira parte deste livro retrata o Rio de Janeiro, local onde teve início à viagem. Nas primeiras páginas o autor, destacou as belezas naturais da cidade.


A escravidão no Brasil.
Um dos aspectos que chamou a atenção de Hill, no Rio de Janeiro, foi à forma de realização do trabalho dentro do porto pelos escravos.

O autor relatou a seguinte situação:

“O patrão anotava o número de horas de que eles trabalham pesado e eles têm uma parte do dia para trabalhar em proveito próprio, permitindo lhes, com esforço, comprar a sua liberdade dentro de um prazo razoável (2006, p.24)”.

Segundo Wehlling (2006), estes escravos conseguiam juntar, por meio das suas economias, dinheiro suficiente para compra da liberdade, apenas, por volta dos quarenta anos de idade.

Após a compra da liberdade, normalmente casavam e constituíam família.

O autor, como religioso protestante, mostrou-se contrário ao regime escravista.
Esta postura, assumida por Hill, era comum na Europa onde os movimentos religiosos protestantes, a partir da metade do século XVII, eram contrários ao regime escravista.
As pressões realizadas por estes movimentos possibilitaram que o tráfico fosse abolido em 1807, e que a escravidão fosse eliminada da Inglaterra em 1834 (ALBUQUERQUE; FRAGA FILHO, 2006, p.173).
Em sua obra, Hill falou também das condições dos escravos no Brasil.
Em sua opinião o trato com os escravos domésticos era melhor que em outras partes do mundo, mas não esqueceu de fazer referências aos maus tratos, principalmente, no interior do país.   
Estes abusos são duramente condenados, o autor ainda destaca o grande número de fugas que podiam ser percebidas através dos constantes anúncios nos jornais.
Os mercados de escravos existentes no Rio de Janeiro estavam cheios dos ditos “fujões” que tinham menor preço.
Por muito tempo a captura dos escravos fugidos esteve sobre a responsabilidade do Exército Nacional, apenas em 1880 a Princesa Isabel dispensou o serviço.
Esta dispensa ocorreu graças às manifestações populares em prol da Abolição, que inúmeras vezes impediam o exército de concretizar as capturas.
Uma das observações destacáveis de Hill é a condição marginal em que se encontravam as instituições eclesiásticas católicas no Brasil.

Nas palavras do autor:

“Na parte alta baia, a rua a direita termina na subida de um morro, onde estava situado o convento dos Beneditos, ainda mantida por alguns monges daquela ordem.
Está ordem em melhor estado de conservação do que muitos outros edifícios eclesiásticos, como testemunham os destelhados do colégio dos jesuítas ocupando um morro semelhante na parte da cidade queda de frente a baía” (2006, p.29).

O livro traz assim uma demonstração do processo de laicização do Estado Luso-Brasileiro, que neste momento estava consolidado.
Este laicização ocorreu pelas mãos de Marquês do Pombal, que sobre influência dos pensamentos iluministas, em 1759, decretou a expulsão dos jesuítas do território português.


Em Moçambique.
Hill partiu do Rio de Janeiro a bordo do “Cleópatra”, junto de com Sir Willian Gomm, em direção as Ilhas Mauricio, onde este último seria o novo governador.

Depois de cumprir seus objetivos na ilha, foi para Moçambique.

A cidade em que chegou tinha sido um grande centro mercantil português, servindo de ligação e rota comercial para Índia, tornando-se uma capitania-geral em 1752.
A importância desta cidade se mostrava pelo fluxo de escravos, que em seu auge chegou a representar 10% dos escravos importados pela América.
O tráfico negreiro só cessou em Moçambique com a intervenção inglesa (BETHELL, 2002, p.179).
Hill traz o relato de um comerciante português, Senhor Nobre, dono da única loja, lá existente, sobre o bom comportamento dos negros na região.
Segundo este, o comportamento era: “melhor para eles, senão suas costas iam sofrer (2006: 66)”
O autor destaca o ódio dos portugueses para com os ingleses e seus esforços em combater o trafico negreiro.
O fim do mercado negreiro em Moçambique foi influenciado pelo processo de mudanças inerentes ao avanço do modo de produção capitalista, que se consolidava neste período.
A estratégia de bloquear e por fim ao mercado escravista, teve como objetivo a abertura de novos mercados consumidores, tendo em mente o crescimento da mão-de-obra assalariada.
As regiões na África que ainda tinham um mercado negreiro em funcionamento, eram apenas os distritos de Quelimane e Sofala (Mattos, 2008, p.03-04).


Em Madagascar.
Depois e passar por Moçambique, a viagem do “Cleópatra” foi retomada, após alguns dias, com direção a ilha de Madagascar.
Onde o autor retratou algumas características dos nativos da ilha, dizendo que:

“Eles me pareceram uma raça fina de selvagens; a pele marrom escura, lisa e brilhante, seus braços e pernas elásticas pelo exercício contínuo; todos os seus movimentos livres e ágeis.
Suas feições estavam longe de serem desagradáveis com uma expressão viva, e inteligente, os cabelos negros e arrumados com grande cuidado e maneira nenhuma desagradável” (2006, p.33).

Podemos sempre ver semelhanças entre os depoimentos que foram escritos ao longo dos séculos sobre o contato com os nativos, um exemplo destes é a carta de Pedro Vaz de Caminha que relata as primeiras impressões dos contatos com os nativos.


A captura do navio “Progresso”.
Uma das passagens mais marcantes do Livro “Cinqüenta Dias Abordo de um Navio Negreiro” é o da captura do navio “Progresso”.
Onde o autor relata os horrores encontrados.

Nas palavras de Hill, ele viu:

“A multidão de negros, com aspectos de esfomeados, tendo ficado descontrolada, havia se apoderando de tudo o que lhes interessava na embarcação; alguns com mãos cheias de farinha, a raiz de mandioca em pó, outros tendo quebrado o caixotes seguravam pedaços de carne de porco e de boi; alguns pegaram aves e as devoraram crua” (2006, p.73).

Este relato demonstra o desespero dos homens que estavam cativos.
Então amontoados em uma luta contra a fome e todas as precariedades enfrentadas dentro no navio negreiro.
Após, a captura do “Progresso”, a embarcação foi escoltada pelo “Cleópatra” com o intuito de levá-lo até Cabo Verde.
Hill se ofereceu para ser interprete e fazer a comunicação a respeito do cuidado e tratamento necessário aos negros, embarcando no “Progresso”.


A bordo do navio negreiro.
No dia posterior a captura, começou a jornada de cinqüenta dias abordo do navio negreiro, onde Hill observou o sofrimento, agonia e morte dos africanos embarcados.
A tripulação do navio capturado era formada por dezessete homens, três espanhóis e o restante brasileiros e portugueses.
O navio vinha do Brasil, do porto de Paranaguá.
Hill questionou um desses tripulantes sobre o trafico e ele responde que este “era um trabalho para homens desesperados, ou seja, hombres perdidos (2006, p.75).
Na sua primeira noite de viagem a bordo do navio negreiro, uma tempestade os abateu.
O autor testemunhou o desespero dos africanos que estavam no porão, lutando e se pisoteando por espaço próximo a única abertura ali existente.
Pela manhã do dia seguinte, os resultados desta noite de tormenta foram contados, em total de cinqüenta e quatro corpos foram encontrados esmagados e dilacerados.
A morte que foi presenciada nesta primeira manhã de viagem foi uma constante durante toda a viagem, pelo grande número de escravos que estavam doentes e machucados.
Muitos destes que se encontravam feridos foram atacados pelos seus próprios companheiros de cárcere.
Além dos horrores encontrados dentro do navio, o autor destacou que, entre aqueles que estavam aprisionados, havia muitos presos há meses, estando à espera de uma oportunidade para a realização do comércio.
O grande número de escravos doentes devia-se a este fato.
Segundo Hill um traficante “espanhol afirmou que os negros que constituíam a carga de modo geral estavam muito doentes -mala esclavitud- [tinham sido] embarcados (...) tendo esperado na costa durante dois ou três meses na expectativa de um navio (...)[,] alguns deles [vinham] de longe do interior e chegaram em condições deploráveis e cinqüenta foram rejeitados [por] incapacidade para viajar (2006, p.74).
Neste trecho o traficante faz menção aos locais de origens dos cativos, dando a entender a grande rede comercial escravista que ligava o centro do continente a costa.
As doenças que atingiam a tripulação foram às mesmas que chegaram ao Brasil no início do processo escravista, doenças como varíola, bichos-do-pé, disenteria, febre-amarela, dentre outras que se disseminaram graças às dificuldades existente na administração de remédios dentro do navio.
O autor fala sobre um enterro cristão em alto mar, ainda relata a forma de punição aos negros que se comportaram de forma ilícita durante a viagem.
Neste momento ele revela um relato de um dos tripulantes: ‘“nos não devemos ter sentimentos por este infeliz mais do que”.
Outro tripulante o retruca: “Ora nós não temos sentimentos uns pelos outros, muito menos por eles’’”.
Neste momento o autor faz presente sua opinião afirmando que o criador fez todos iguais, pois todas as nações dos homens são oriundas do seu sangue.
Esta questão de igualdade era defendida pelos quakers e metodistas na Inglaterra desde o início do século XVII (ALBUQUERQUE; FRAGA FILHO, 2006, p.172).
Mesmo que a tripulação acreditasse que os negros não tivessem fé, ele não acreditava nisso.      
Em outro momento, Hill destacou a sociabilidade existente entre os negros, tal como o fato de todos se cumprimentarem com uma batida nos pés, feita inclusive pelos doentes.
Além de falar da igualdade da divisão dos alimentos entre eles.


A alimentação no navio negreiro.
Os alimentos que estavam dentro do navio para a viagem eram comprados em sua maioria no porto de embarque da carga, para garantir que estes fossem frescos, entre os principais itens estavam arroz, milho, feijão miúdo, carne seca e farinha de mandioca, esta ultima tinha sido introduzida no século XVI.
Para o Leite (1998, p.22), “a cobiça era tão desenfreada que, no “abominável tráfico”, havia falta de alimentos (feijão, arroz, milho, peixe e carne seca), necessários para a subsistência e saúde dos negros, não só na quantidade, mas até na qualidade”.
Durante toda a viagem, a fome e a morte foram companheiras inseparáveis dos cativos do navio Progresso.
O livro de Mary Del Priore e Renato Pinto Venâncio, “Uma Introdução à História dos Ancestrais da África Atlântica” (2004), traz uma lista das preferências alimentares dos povos usados no comércio escravo:

''Os cativos provenientes do Sahel preferiam, por exemplo, o sorgo ou o milhete ao arroz, comida de base para inúmeras regiões costeira.
Escravizados vindos do delta do Niger ou Maiombe que preferiam inhame”.

O valor de venda dos escravos, segundo Hill, ao chegar ao Rio de Janeiro tinham seu preço fixado em 500 mil-réis ou 52 libras para os homens, 400 mil-réis ou 41,10 libras para as mulheres, 31 libras para crianças.
O tráfico de escravos, com certeza, trazia um grande lucro, tendo em vista que cada  africano custava 3.5 libras na origem.
A tripulação recebia 25,5 mil-réis pela viagem, em acaso de sucesso era acrescentado 500 mil-réis a cada tripulante.
Na chegada ao Brasil, após a compra, o escravo passava a receber ensinamentos, o batismo cristão era seguido por um novo nome.


Concluindo.
Ao chegar ao porto de Cabo Verde, o navio negreiro “Progresso”, trouxe consigo um incrível número de morto: 175 em um total 397.
Segundo Eltis e Richardson (2003) a média de embarcados era de 229 escravos por navio, assim podemos ter uma idéia sobre a grande lotação do “Progresso”, qual esteve também relacionada ao número de mortos.  
Os sobreviventes desta viagem foram introduzidos em fazendas, por um prazo de seis meses, como aprendizes, sendo que seus serviços poderiam ser requisitados pelo prazo de um ano sem salário.
Depois passariam a ser beneficiados com um salário, conforme a função, mas não seriam devolvidos à sua terra natal.
Quanto ao trato com os traficantes, o autor relata a impunidade, foram soltos e retomaram suas atividades normais.
No livro de Hill há uma forte critica a impunidade que vigorava em Cabo Verde quanto ao trafico.
Na última parte do livro o autor faz uma previsão que, mesmo com o fim da escravidão, seus efeitos se manteriam, o que se confirmou.  
A lei áurea, de 13 de Maio de 1888, aboliu a escravatura, mas ainda, estamos presenciando as conseqüências do tráfico negreiro, presentes nas discriminações raciais, na desvalorização cultural e na negação da identidade afro-brasileira.
Entretanto, o livro “Cinqüenta Dias Abordo de Um Navio Negreiro”, escrito na metade do século XIX, traz um importante testemunho do período escravista.
Uma leitura necessária, não apenas para os profissionais da educação que podem usá-lo nas salas de aula, mas para o público em geral.


Para saber mais sobre o assunto.

BETHELL, L. A Abolição do comércio brasileiro de escravos. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2002.        
CAMINHA, P.V. Carta de Pero Vaz de Caminha. São Paulo: Martin Claret, 2003.
DEL PIORE, Mary; VENÂNCIO, Renato Pinto. Ancestrais uma introdução a historia da África atlântica. Rio de Janeiro: Editora Sevier, 2004.   
ELTIS, David Eltis; RICHARDSON, David R. “Os mercados de escravos africanos recém-chegados às Américas: padrões de preços, 1673-1865” In: Topoi. Rio de Janeiro, março 2003, p.9-46.                                                               
HILL, P. G. Cinqüenta dias a bordo de navio negreiro. Traduzido por Marisa Murray. Rio de Janeiro: Editora Jose Olímpio, 2006.
MATTOS, Regiane Augusto de. “Comerciantes brasileiros de escravos e a resistência à dominação portuguesa em Angoche (Moçambique) no século XIX” In: Anais do XIX Encontro Regional de História: Poder, Violência e Exclusão. São Paulo: ANPUH/SP-USP., 08 a 12 de setembro de 2008. CD-ROM.
LEITE, Alfredo Carlos Teixeira. O tráfico negreiro e a diplomacia britânica. Caxias do Sul: EDUCS, 1998.
WEHLING, Arno; WEHLING, Maria José. Formação do Brasil Colonial. São Paulo: Editora Nova Fronteira, 2006.                                                                                              


Texto: Cássio Michel dos Santos Camargo.
Licenciado pelo Instituto Metodista IPA do Sul, Pós-graduando em História e Geografia Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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