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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
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terça-feira, 31 de agosto de 2010

História, Métodos e Técnicas.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume ago., Série 31/08, 2010, p.01-05.






Desde que o cientificismo iniciou a busca pela objetividade na história, no século XIX, a partir do momento em que a história pretendeu fazer-se uma ciência; a discussão em torno da adoção de métodos e técnicas tornou-se uma necessidade tão premente como a composição teórica para fornecer sustentação cientifica ao discurso historiográfico.


Embora a definição de ciência comporte múltiplos conceitos, a teoria, a especulação sobre os princípios da ciência, depende de métodos e técnicas para tornar-se viável.

Para Aristóteles, por exemplo, a ciência seria a busca do universal e do eterno, dentro do âmbito da definição contemporânea, entendida como um processo de investigação para alcançar um conjunto de conhecimentos tidos como verdadeiros, por meio de generalizações verificáveis.

Para compor hipóteses e verificá-las, centro do conhecimento cientifico, responsável por sua distinção do senso comum, o método é essencial, estando, por sua vez, estritamente vinculado com a técnica.

O método, definido como a ordem estabelecida na investigação da verdade, carece da técnica para ser efetivado, ou seja, precisa de um conjunto de processos especializados, ordenados em consonância com a metodologia.


Método e Técnica e o funcionamento da Ciência.

Segundo Júlio Aróstegui, o método atuaria como uma bússola para a teoria, um sistema de orientação no transito dos caminhos que seriam seguidos para obter certezas.

Enquanto a teoria proporia explicações para os fenômenos e soluções para os problemas observados, o método seria o procedimento adotado para obter conhecimentos e determinar os passos para explicar e demonstrar a realidade, comprovando hipóteses.

Entretanto, paradoxalmente, assim como a teoria depende do método, este último também só poderia existir dentro do âmbito de procedimentos lógicos formulados a partir de pressupostos teóricos, formando o que os lógicos chamam de circulo, já que a teoria necessita do método e este da teoria.

Apesar de na antiguidade, Aristóteles ter demonstrado certo interesse pela composição de um método, chamado por ele de investigação, foi René Descartes, no século XVII, que iniciou a vinculação do método com a ciência, pretendendo, através da obra Discurso do Método, fornecer um caminho pelo qual se poderia determinar resultados.

Descartes pretendia criar um programa que regulasse, antecipadamente, uma seqüência de operações para evitar erros, dividindo problemas complexos em partes menores para facilitar sua resolução, a semelhança de uma equação matemática, resolvida parte a parte até a atingir a solução do todo.

O aprimoramento deste conceito conduziu a sua interdependência com a técnica, o conjunto de procedimentos ordenados pelo método.

A técnica, segundo uma definição alcançada em 1890 pelo filosofo Espinas, seria, justamente, a prática necessária para efetivar o método, compondo o domínio de procedimentos, instrumentos e materiais, de modo que um método poderia empregar diversas técnicas e uma técnica ser útil a diversos métodos.

A teoria, o método e a técnica, unidos, compõem um sistema, constituindo um modelo que torna a ciência possível.

O conceito de modelo implica em operações visando representar as relações e funções que ligam as unidades de um sistema, por meio de generalizações, permitindo explicações.

A ciência precisa de modelos para entender a realidade e resolver os problemas que a pesquisa impõem, mesmo que a percepção não passe de um momento cognitivo, remetendo a busca pela verdade e a distinção do conhecimento cientifico de seu similar oferecido pelo senso comum.

A história, como todas as outras ciências, também necessitou de modelos para organizar e sistematizar o conhecimento que lhe é inerente.

As teorias que forneceram sustentação às várias correntes historiográficas, tornaram-se viáveis graças à elaboração de padrões de explicação presentes na metodologia.


A despeito de cada concepção teórica comportar múltiplos modelos, ao passo que cada modelo possui variados métodos e técnicas, muitas vezes entrelaçados; a história, em meio à reivindicação de sua cientificidade, sempre empregou métodos e técnicas emprestados de outras ciências.


Um processo intensificado a partir de Annales, criando variações especificas que terminaram constituindo um arcabouço de métodos científicos propícios ao entendimento da natureza de seu objeto de estudo.


O método cientifico aplicado ao conhecimento histórico.

Na década de 1960, Jacques Le Goff chegou a afirmar que o trabalho do historiador consistia em estabelecer acontecimentos, bastando aplicar aos documentos um método para fazer os fatos aparecerem.

Na realidade, assim como ainda hoje muitos confundem teoria com metodologia, um erro comum é tomar a técnica pelo método, algo a que nem mesmo Le Goff escapou.


A confusão tem uma razão histórica, ligada ao desenvolvimento e aplicação de métodos científicos à análise historiográfica.


Muitas técnicas já foram consideradas métodos, fazendo nascer especialidades ainda ativas, transformadas em linhas de pesquisa nos centros acadêmicos, como é o caso, por exemplo, da demografia histórica.


Algo que não poderia ter sido diferente, diante do fato, lembrado por Émile Durkheim, de que um método nunca pode ser mais do que provisório, já que se modifica a medida que a ciência avança e que o próprio conceito de ciência é alterado.

Pensando especificamente no conhecimento histórico e na concepção contemporânea, a técnica serve a decodificação do passado, ao interrogatório que o historiador conduz a partir dos documentos, enquanto o método insere-se no contexto da condução da resolução dos problemas encontrados pelo historiador ao questionar o passado ou observar o presente.

A despeito de podermos considerar que os memorialistas do século XVIII, ou mesmo os historiadores de períodos anteriores, conduzissem seus estudos pautados por métodos específicos de seu tempo.

Uma preocupação sistemática com a questão da busca de um método cientifico que pudesse ser aplicada a história só surgiu com o cientificismo no século XIX.

Foi em 1892, por exemplo, que no Collège de France a cátedra de História e Moral foi suprimida, sendo substituída pela cátedra de História Geral e do Método Histórico, embora o seu surgimento estivesse inserido dentro da tradição das narrativas totalizadoras que pretendiam abordar a história das civilizações.

Não obstante, apesar de todos os esforços, alguns ainda consideram a maioria dos trabalhos, dentro do âmbito historiográfico, feitos através de métodos suspeitos, senão incorretos.


A técnica: a prática do oficio do historiador.

Ao contrário do que poderia ser imaginado, o historiador não produz analogias aleatórias a partir de imagens que forma de frases soltas nos documentos, não junta grosseiramente colocações que possam sustentar sua opinião pessoal e não constrói imagens do passado calcadas em suas próprias lembranças ou em concordância com sua visão do presente.

Ele carece do domínio de técnicas que permitam, constantemente, retificar a história, substituindo, como pretenderam alguns, os traços falsos pelos exatos.

É justamente o domínio da técnica que permite ler os documentos para tentar visualizar corretamente o passado.

Poderíamos listar uma infinidade de técnicas utilizadas para ler os dados contidos nos documentos, algumas emprestadas por outras ciências, outras surgidas no seio da análise histórica.

Entretanto, Jean Chesneaux sintetizou as mais usuais na sua obra clássica Devemos fazer tábua rasa do passado, a despeito de confundi-las por vezes com métodos e empregar técnica e método dentro da mesma acepção.

Segundo ele, toda análise histórica, obviamente a partir do século XIX, é tecnicista, busca uma abordagem profissional, sendo reflexo e sustentáculo da ideologia capitalista.

Dentro da amplitude deste pressuposto, é habitual observar que os historiadores, independente da corrente teórica ou orientação metodológica, em geral, utilizam a técnica de análise baseada na diacronia-sincronia, assim como a periodização e, por vezes, a quantificação.

Através da diacronia-sincronia, todo fenômeno histórico, expresso através da língua, é analisado simultaneamente em uma série vertical e horizontal; sua extensão na dimensão do tempo, a diacronia, permite observar as conexões, antecedentes e conseqüências; já sua relação com outras referências do conjunto que é contemporâneo, a sincronia, permite visualizar as implicações entre fatos aparentemente desconexos, mas que encontram relação, por vezes, diretas.

Um refinamento da diacronia, a periodização é uma extensão da técnica, organizando as articulações em etapas, períodos que visam facilitar o estudo do fenômeno, criando compartimentos fechados envolta de momentos que parecem centrais dentro de cada etapa da história.

Uma técnica que foi reforçada pela prática pedagógica, especializando o conhecimento histórico, servindo de exemplo os estudos focados no renascimento ou na Idade Moderna.

Menos usual do que as técnicas qualitativas da diacronia-sincronia e da periodização, a quantificação; surgida, como ressaltou Jacques Le Goff, na década de 1960, a partir do estimulo da revolução tecnológica representada pela invenção do computador; passou a permitir estabelecer relações complexas, usando a estatística para chegar a conclusões palpáveis.

Porém, como lembrou Gramsci, cabe ressaltar que a história não pode ser reduzida a um cálculo matemático.

O que não invalida a técnica da quantificação e nem tampouco seus desdobramentos a história demográfica e a história serial, linhas de pesquisa que já foram tidas como concepções teóricas ou metodológicas, mas que na realidade constituem aprofundamentos da técnica.


Em todo caso, pensar a história filosoficamente é essencial para tentar entender o passado evitando anacronismos e a sua utilização política como elemento de manipulação das massas.


Para saber mais sobre o assunto.

ARÓSTEGUI, Júlio. A Pesquisa Histórica. São Paulo: Edusc, 2006.

CHESNEAUX, Jean. Devemos fazer tábua rasa do passado?: sobre a história e os historiadores. São Paulo: Ática, 1995.

GRAMSCI. Écrits politiques. Tomo I. Paris: 1975.

LANGLOOIS, Ch. V. & SEIGNOBOS, Ch. Introdução aos estudos históricos. São Paulo: Editora Renascença, 1946.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Unicamp, 1990.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

2 comentários:

  1. Prezado Fábio,
    Sou Adriana Carrijo,psicóloga e doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.Gostaria de conversar,mais amiúde,com você sobre gravuras que retratem crianças a bordo das naus portuguesas rumo ao Brasil.
    Aguardo um retorno seu através do e-mail:adrianacarrijo@terra.com.br.
    Cordiamente,
    Adriana Carrijo

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Forte abraço.
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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