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terça-feira, 5 de junho de 2012

Comportamentos delinquentes na adolescência: de quem é a culpa?




Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 3, Vol. jun., Série 05/06, 2012, p.01-12.



O artigo faz parte da Monografia de Conclusão de Curso de Pós-Graduação em Psicopedagogia Institucional pelo INEC/Universidade Cruzeiro do Sul, orientada pelo Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.



A idéia dessa pesquisa surgiu devido ao crescente número de manifestações de violência exercida por adolescentes nos últimos anos.

São inúmeros os fatores que influenciam no processo da conduta delinqüente entre os jovens, dentre eles está o processo de adolescer, que é um momento onde o jovem desenvolve suas potencialidades e incorpora novos valores éticos e morais à sua identidade, estando assim suscetível a influências externas e internas, pois é um período em que se reestrutura o psiquismo humano.

Essa é uma problemática que resiste ao longo dos tempos e está em constante ascensão, tratado de acordo com o contexto social em que o individuo está inserido.

Para a realização desse trabalho foi utilizado uma verificação literária de autores psicanalíticos e comportamentais, a fim de entender como o “ter” deu lugar ao “ser”, levando os jovens a juntarem-se em bandos, tal qual uma legião cega pela intolerância ao outro.





Entendo o adolescer.

Na percepção de Levisky (1998), o suporte para essa mudança e reestruturação, parte do reconhecimento do adolescente pelos pais no grupo social, bem como de um bom narcisismo por parte do adolescente na construção dos laços sociais.

Reestruturação essa que é marcada pela crise de identidade, pela busca desse reconhecimento e pela busca de espaço pertencente a ele enquanto sujeito social e que deve ser ouvido.

É nessa fase que a atuação se apresenta como forma de mostrar sua existência.

Em 1932 Freud já se preocupava com a origem da agressividade.

O que constatamos nas correspondências que trocou com Eistein no texto “Por que a guerra.”, onde discutem o porquê o homem precisa ser tão agressivo.

Em “Totem e Tabu” (1912, 13), ele faz menção ao mito da horda primitiva, no qual os filhos colocam-se contra o pai violento e detentor do poder, onde somente através do assassinato deste tomariam o poder para si.

E o poder nada mais é do que a ordem e a lei.

Sendo assim, percebemos que a violência tem inicio na cultura dos povos.

Para um estudo mais eficiente se faz necessário entender o processo de “adolescer”.

Esse processo é o momento em que a criança desenvolve suas potencialidades incorporando novos valores à sua identidade, esse período de reestruturação do psiquismo humano, vem repleto de conflitos, que conforme Levisky, é marcado pelo luto infantil, luto dos pais idealizados, retorno ao complexo de Édipo e a busca da identidade.

Na opinião de Myers (1999) psicólogos e estudiosos do comportamento já percebem a adolescência como uma das características principais do comportamento distorcido, com suas oscilações de humor que é também vista como um tempo de vitalidade, sem os cuidados da vida adulta, amizades vazias, idealismo intenso, uma crescente sensação de excitantes possibilidades.

O desenvolvimento moral e a moral pró-social dependem de uma complexa relação interna entre fatores como ordem familiar, social, educacional e cultural, além de processos cognitivos, afetivos e motivacionais que permeiam as experiências de socialização às quais a criança está exposta.

Dessa forma Lustosa (2005) afirma que os valores, as crenças, e os princípios morais de educadores, principais agentes responsáveis pela socialização, bem como outras figuras de autoridade para a criança, e até mesmo a mídia, influenciarão a aquisição e evolução do conceito de moralidade dos indivíduos.





O comportamento normal da adolescência e o comportamento delinqüente.

Conforme Knobel (1981), quando estamos na “normalidade” temos a capacidade de utilizar ferramentas, existentes em nossa estrutura psíquica, para atingir as satisfações básicas do sujeito, de forma a alcançar substituições favoráveis tanto para o individuo, quanto para a sociedade.

Defende que a personalidade bem integrada nem sempre é a melhor adaptada, mas que possui recursos internos para modificar a sua conduta de acordo com as necessidades circunstanciais, quando o meio entra em conflito com os objetivos de satisfação do individuo.

Freud em “Além do Principio do Prazer” (1920), afirma que, é necessário o individuo identificar sua destrutividade consciente ou inconscientemente e que, a partir disto, desenvolva mecanismos adaptativos que atenuem ou sublimem a ação dessas forças.

Knobel (1981) pontua, também, que na fase adolescente há uma ameaça constante de ruptura das relações intra, inter e trans-subjetivas, fato este que acaba por provocar maior incidência de mecanismos psicológicos regressivos, de natureza psicótica, neurótica ou psicopática.

São mecanismos como: onipotência, egocentrismo, cisão, negação, projeções, acting-out o que, então, se refletem no comportamento dos jovens, com tendência a se cristalizar como modo de funcionamento mental.

O autor fala ainda, sobre uma patologia normal, no período da adolescência, onde para conseguir a estabilização da personalidade o adolescente necessita de uma conduta ligeiramente patológica.

Por isso os comportamentos externalizados de luta e rebeldia, não são mais do que reflexos dos conflitos internos, sendo esperado durante esse processo o surgimento de atuações como características defensivas de caráter psicopático.



Nesse sentido, o autor cita Anna Freud, que diz não ser o esperado a presença de um equilíbrio estável, durante o processo adolescente, e conceitua a sintomatologia que integra está suposta síndrome:

a)                  Busca de si mesmo e da identidade: todo o processo de adolescer está baseado na busca da própria identidade, que é a principal função desta fase, que se desenvolve à medida que o sujeito vai integrando e introjetando concepções de muitas pessoas, grupos e instituições a respeito dele mesmo.

b)                 Tendência grupal: o adolescente utiliza a uniformidade como comportamento defensivo, que proporciona segurança e estima pessoal, juntando-se, assim, em grupos, onde todos se identificam com cada um.

c)                  Necessidade de intelectualizar e fantasiar: a realidade impõe ao adolescente a necessidade de renunciar ao corpo, ao papel e aos pais da infância, fazendo com que este vivencie esta fase com sentimento de fracasso e impotência frente a estas situações tão dolorosas.

d)                 Crises religiosas: nesta fase o individuo pode apresentar desde o ateísmo mais intransigente até o misticismo mais fervoroso com situações extremas. Ele está em busca de ideologias para seguir valores éticos e morais que farão parte de sua personalidade.

e)                  Deslocalização temporal: ele converte o tempo presente e ativo, numa tentativa de manejá-lo, sendo as urgências enormes e as postergações aparentemente irracionais. À medida que vão se elaborando os lutos típicos dessa fase, a dimensão temporal adquire novas características, o que implica a conceituação de tempo, noção de passado, presente e futuro.

f)                   Evolução sexual manifesta: evolução do auto-erotismo, onde há o contato sexual de caráter exploratório e não procriativo. Inicia-se a busca por um parceiro e, consequentemente, as primeiras relações de carinho, afeto e sexuais.

g)                 Atitude social reivindicatória: a idéia de poder transformar o mundo é muito presente nesta fase e se caracteriza pelo pensamento fantasioso onipotente de manejo do mundo.

h)                 Contradições nas manifestações de conduta: o pensamento se torna ação para poder ser controlado, sua personalidade é permeável, na qual os processos de projeção e introjeção são intensos, variáveis e freqüentes, fazendo com que este não possa ter uma linha de conduta determinada.

i)                   Separação progressiva dos pais: uma das tarefas básicas na busca da identidade do adolescente é a de ir separando-se dos pais. Isto só é possível através da internalização de boas imagens parentais, com papéis bem definidos, uma cena primaria amorosa e criativa.

j)                   Flutuação de humor: as mudanças de humor são típicas desta fase, tendo sua base nos mecanismos de projeção e de luto pela perda dos objetos já citados. Os sentimentos de ansiedade e depressão acompanham permanentemente o processo de adolescer.



Levisky (1998) pontua que, para se ter um diagnóstico diferencial entre a crise normal da adolescência e os quadros psicóticos ou psicopáticos, deve-se observar a constância do comportamento, sua mobilidade, considerando o desenvolvimento evolutivo, antecedentes pessoais e familiares.

Conforme Knobel (1981), o processo de busca de identidade pode fazer com que o sujeito a encontre de forma errônea, baseada em figuras negativas, onde é melhor ter uma identidade perversa a não ter nenhuma.

Isto acontece muitas vezes quando já houve transtornos na aquisição da identidade infantil, o que constitui a base dos grupos de delinqüentes e adeptos de drogas.

De acordo com Ballone, dentro da psiquiatria da infância e da adolescência, um dos quadros mais problemáticos tem sido o chamado de Conduta, anteriormente chamado de delinquencia, o qual se caracteriza por um padrão repetitivo e persistente de conduta anti-social, agressiva ou desafiadora, por no mínimo seis meses ( segundo o CID 10).

Para ser considerado Transtorno de Conduta, esse tipo de comportamento deve alcançar violações importantes, além das expectativas apropriadas à idade da pessoa e, portanto, da natureza mais grave que as travessuras ou a rebeldia normal de um adolescente.

O padrão de comportamento no Transtorno de Conduta se caracteriza pela violação dos direitos básicos dos outros e das normas ou regras sociais.

Conforme o mesmo autor citado acima, o Transtorno de Conduta é um diagnostico especialmente infantil ou da adolescência, pois após os 18 anos, persistindo os sintomas básicos (contravenção), o diagnóstico deve ser alterado para Transtorno de personalidade Anti-social.

Outra característica do Transtorno de Conduta é que esse padrão sociopático de comportamento costuma estar presente numa variedade de contextos sociais e não apenas em algumas circunstâncias, ou seja, não só na escola, no lar ou na rua, por exemplo.

O portador desse transtorno causa mal estar e rebuliço na comunidade em geral.

Atualmente a psiquiatria tende a considerar dois subtipos de Transtorno de Conduta com base na idade de inicio, isto é, o Tipo com inicio na Infância e Tipo com inicio na Adolescência.

Ambos podem ocorrer em 3 níveis: leve, moderada ou severa.

As pessoas com Transtorno de Conduta apresentam sintomas como: pouca empatia e pouca preocupação pelos sentimentos, desejos e bem-estar dos outros, sensibilidade grosseira para as questões sentimentais e emocionais dos outros, não possuem sentimentos próprios e apropriados de culpa, ética, moral ou remorso, são extremamente manipuladores, costumam delatar seus companheiros e tentar culpar outras pessoas por seus atos.

Apresentam, também, baixa tolerância à frustração, irritabilidade, acessos de raiva e imprudência quando contrariados e este transtorno está freqüentemente associado com o início precoce de comportamento sexual, consumo de álcool, uso de substâncias ilícitas e atos imprudentes e arriscados.

O diagnostico de Distúrbio de Conduta deve ser feito somente se o comportamento anti-social continuar por um período de pelo menos seis meses e assim representar um padrão repetitivo e persistente.

Devem estar presentes algumas características importantes para o diagnóstico: Furtos, fugas noturnas da casa dos pais, mentiras freqüentes, faltas à escola ou ao trabalho, destruição da propriedade alheia, crueldade física com animais, atividades sexuais forçadas, envolvimentos repetidos em confrontos físicos e outros.

Muitos indivíduos com Transtorno de Conduta, particularmente aqueles com inicio na adolescência e aqueles com sintomas leves, conseguem um ajustamento social e profissional satisfatório na idade adulta.

O início muito precoce indica um pior prognóstico e um risco aumentado de o transtorno persistir e se agravar na vida adulta.





Herança cultural e social.

Aragão (1991) no texto “Mãe preta, tristeza branca” faz uma ligação da violência brasileira com a história cultural do Brasil.

Ele trata a violência como um sistema de troca, como relacional, analisando a questão da violência a partir do modelo familiar composto, além dos pais e dos filhos, pela ama de leite ou “babá”.

Teoriza, então, que a relação entre a criança e a ama está fortemente marcada pelo contato corporal, onde esta imprime na criança, suas modalidades de organização efetiva.

O que quer dizer que o corpo no qual a criança tem acesso não é reconhecido socialmente, sendo que o corpo reconhecido pelo social, ela não tem acesso.

Consequentemente, este fato marca uma dissociação da sexualidade e do reconhecimento social, impossibilitando o individuo de reconhecer-se a partir do outro e a partir do contato com outro.

Essa afetividade difusa, passada pela “mãe preta” e o contexto das relações sociais, marca o individuo desde o nascimento até a morte.

À luz desta teoria estamos diante de uma sociedade que historicamente, tem provado sua incapacidade em produzir uma estruturação das diferenças, em troca de uma totalização social.

Portanto, para Aragão, a violência no Brasil está ligada ao processo de socialização, ao modelo de colonização caracterizado, principalmente, pela escravidão e pela divisão entre as elites e as classes trabalhadoras.

Arendt apud Fleig (1999) pontua que junto à transição da sociedade pré-moderna para a moderna ocorreu também uma transição das formas de poder e violência que está focalizada no eixo dos valores.

Isto porque na sociedade pré-moderna os valores estavam centrados no todo, no relacional (parentesco), na hierarquia, na tradição: enquanto que na modernidade os valores são situados nas coisas, no conceito de igualdade, autonomia, individualismo, onde para se dizer quem é o sujeito, é necessário que este possua bens, que consiga acumular objetos.

É o “deslocamento do poder sobre as pessoas para um poder sobre os objetos” (129).

Para o mesmo autor, a violência é oriunda dos ideais de igualdade, individualismo e autonomia.

Já para Calligaris apud Fleig (1999) a violência é um resíduo do poder pré-moderno (escravidão) e do efeito do poder moderno, que priva a maioria da população do poder sobre os objetos, que se caracteriza como um convite à violência.

De acordo com Foucoult apud Birman (2001), as normas regulam as práticas sociais, de maneira arbitrária e relativa, de acordo com as particularidades culturais de determinada tradição histórico-social.

Para Birman (2001), o Brasil tem uma das contribuições mais avançadas do mundo, mas, em oposição, os princípios desta não funcionam nas práticas sociais da justiça, talvez por estar marcada pela tradição escravista patrimonialista da sociedade.

Enfim, o que funda as práticas sociais da justiça é essa tradição.

Santos e Tirelli (1999) fazem uma reflexão da interação entre a policia e as classes sociais, enquanto expressão das formas de dominação, marcada pela violência física e simbólica.

Nesta interação, o fato da dominação e excesso de poder por parte da policia e a falta de cidadania do povo brasileiro está marcado pela herança social, pela extrema hierarquização social e por um forte autoritarismo do Estado.

Assim, a violência entraria como recurso para assegurar a hierarquização presente no Brasil, na falta de outra base consensual.

Para Fleig (1999) existem três tipos de violência na atualidade: contra os objetos, na forma de rapto ou depredação; contra os corpos dos semelhantes e a terceira e mais brutal, é a violência do objeto contra si mesmo.

“O objeto a ser consumido e destruído ocupa este lugar de quem nos comanda e a quem nos submetemos passivamente” (p.130).

Assim, estamos expostos à escravidão voluntária, sensíveis a um gozo sem falha, como se tivéssemos garantia absoluta de banir o mal-estar em que nos encontramos.

Segundo Kunzel (1998), a sociedade atual está marcada pela estrutura perversa, o que nos leva em direção a um sintoma social perverso, o que está diretamente ligado à sociedade moderna, onde a tradição se encontra recalcada e no lugar desta surge uma nova conduta, observada através da busca desenfreada dos indivíduos pelo novo.

Neste contexto a sociedade do consumo é a resposta ao direito de gozo, a um gozo sem limites.

E para tanto a modernidade se apresenta como um fracasso do arbitrário, da lei, da frustração paterna.

Calligaris apud Kunzel (1998) diz que a função paterna se mede pelo gozo que interdita e imaginariza, e não pelo gozo que permite.

Desta forma possibilita ao sujeito um lugar simbólico, idéias de referência e limite, sendo que a falha desta função acarreta ao sujeito se reconhecer através da criminalidade, buscar um nome que não lhe foi dado, a sanção que não foi exercida, o lugar a ser ocupado, o lugar que lhe foi privado.

Bonin (1998) diz que cada individuo ao nascer traz consigo determinados comportamentos inatos.

Entretanto no decorrer do seu desenvolvimento, ele é moldado pela cultura que constitui o sujeito através da rede de inter-relações sociais.

O primeiro contato que o individuo tem com a sociedade é através do grupo familiar no qual está inserido, portanto são os pais que enunciam e investem o lugar que os filhos irão ocupar no círculo familiar e na sociedade.

Violante (2000) diz que não são somente os pais que devem investir no sujeito, a sociedade também deve projetar sobre este a mesma antecipação, pré investindo o lugar supostamente ocupado quando adulto, possibilitando que este encontre no discurso social referenciais que lhe permitam projetar-se no futuro, servindo, então, de suporte identificatório.

Nesse contexto, a mesma autora designa o contingente populacional como produto histórico da lógica perversa, através da qual a sociedade produz e distribui suas riquezas, e que condena uma parcela social a viver no nível da necessidade do imediato, desprovendo-as das condições materiais básicas de sobrevivência e do acesso aos bens culturais.





A relação individuo x sociedade.

A relação “individuo” e “sociedade” pode ser analisada pela lógica da oposição, sendo que o individuo estaria preso entre as forças da “cultura” e da “natureza”, onde apenas haveria desintegração, hostilidade, destruição e desespero.

Pela lógica funcional-interacionalista, o individuo é reconhecido e se reconhece como constituído pela complementaridade entre “natureza” e “cultura”, neste caso haveria o mal-estar “um estado crônico, mas tolerável de desprazer, é intrinseco à constituição do psiquismo e uma condição básica para a procura pelo homem das felicidades possíveis” (DERRIDA apud FIGUEIREDO, 1999, p.26).

E por fim pela lógica da suplementariedade, onde um certo desprazer é constitutivo à subjetividade, pois se ela se constrói na e como conquista deste desprazer, enquanto condição para a procura de formas de felicidade qualitativamente diferenciadas.

Em 1915, Freud no texto “Reflexão para os tempos de guerra e de morte”,  teorizava que os impulsos não eram “nem bons, nem maus”, onde, a partir de uma ótica evolucionista, aponta-nos, que o ser humano é instintivamente destrutivo.

Em “Além do principio do prazer”  (1920) Freud formula a noção de pulsão de vida e de morte, onde o equilíbrio entre estas forças garante o funcionamento satisfatório da vida psíquica do sujeito, visto que uma sem a outra torna insustentável a vida psíquica e social do ser humano.

Em “O mal-estar na civilização” (1930), Freud coloca que o mal-estar sentido por todos os seres humanos liga-se diretamente à não satisfação de suas pulsões, principalmente da sexual e da agressiva (pulsão de morte), pois a civilização impõe ao homem esses sacrifícios.

Sendo assim, a evolução da civilização pode ser descrita como a luta entre as pulsões de vida e as pulsões de morte.

No texto “Por que a guerra?” (1933), Freud utiliza a palavra violência num primeiro momento associada a agressividade, mas logo depois a utiliza como expressão que define a conseqüência entre os conflitos de interesses, o que, portanto se aproxima muito da violência atual.

Para Birman (2001), estamos vivendo na cultura do narcisismo e na sociedade do espetáculo, o que está possibilitando novas formas de subjetivação, onde o sujeito encara o outro como objeto para seu usufruto, podendo este ser eliminado assim que lhe satisfizer.

Então os desejos assumem uma direção exibicionista e autocentrada, na qual o horizonte intersubjetivo se encontra esvaziado, desinvestindo das trocas inter-humanas.

Sendo assim essa manipulação do outro que permite a existência do sujeito atual nada mais é do que a exaltação de si mesmo.

Aberastury apud Levisky (2000) identifica a sociedade atual dentro de um quadro de violência e destruição, que não oferece garantias de sobrevivência.

Assim, o adolescente, cujo destino é a busca de idéias e de figuras ideais para identificar-se, depara-se com a violência e o poder e também os usa.

Knobel (1981) coloca que na falta de um pai simbólico, o delinqüente faz tentativas de se constituir como sujeito por conta própria, visto que a apreensão do objeto através do furto é um modo de comunicação, sendo assim, valorizando o ato e não o objeto como capital.

Ceccarelli (2001) contribui dizendo que a descrença generalizada dos valores tradicionais levou a uma intensa busca do prazer pessoal, do individualismo ao desencontro dos ideais coletivos, fazendo com que haja uma substituição, ou mesmo eliminação dos ideais que não se enquadram nas referencias do sistema de produção idealizado pelo capitalismo.

O que leva, então, ao empobrecimento da subjetividade em prol da cultura globalizante, transformando o sujeito em objeto, onde este em desamparo, fica esvaziado.





Uma reflexão sobre livre-arbítrio.

Em “A Dissolução do Complexo de Édipo” (1924), Freud postula sobre a constituição do homem enquanto sujeito através da passagem pelo complexo de Édipo, ou seja, através da posição que a criança ocupa em relação aos seus pais que será possível que ela adentre ao universo da cultura e compreenda o mundo através de uma ordem geral, simbólica, regida por leis que têm seu inicio na Lei contra o incesto.

Entrar no mundo da Cultura implica no recalque dos desejos incestuosos, mas possibilita a relação e a compreensão dos demais sujeitos à sua volta, o que torna possível o ato da linguagem e a expressão de suas demandas.

Além disso, o sujeito continua regido por outra instância, o inconsciente, que influência o homem em direção à satisfação dos desejos recalcados.

Temos aqui a noção de um sujeito clivado que vive entre dois pólos: a Cultura e o Desejo, constituído ainda na infância como humano pela relação com as instâncias maternas e paternas.

Tendo isso em vista, o sujeito se vale de subterfúgios diversos para a realização de seus desejos: se por um lado ele é limitado pela cultura que o cliva, o sujeito da psicanálise pode valer-se de todos os recursos que a cultura oferece para apostar na realização de seus desejos.

Se por um lado o sujeito segue a uma lei que o limita, por outro lado ele possui uma infinidade de recursos que o permitem, conscientemente ou não, satisfazer seus desejos.

A expressão “livre arbítrio” costuma ter conotações objetivas e subjetivas.

No primeiro caso indicam que a realização de uma ação por um agente não é completamente condicionada por fatores antecedentes.

No segundo caso indicam a percepção que o agente tem em que sua ação originou-se em sua vontade.

O conceito de livre arbítrio tem implicações religiosas, morais, psicológicas e cientificas.

Por exemplo, no domínio religioso o livre arbítrio pode implicar em que uma divindade onipotente não imponha seu poder sobre a vontade e as escolhas individuais; já no campo da ética, ele implica em um individuo que pode ser considerado moralmente responsável pelas suas ações.

Baum (1999), fala que com tudo isso, não podemos confundir o conceito de livre arbítrio com a capacidade de escolha.

Esta faz parte da vida e do comportamento humano e o conceito de economia comportamental tem ainda muito a contribuir para seu estudo.

Já enquanto a noção implícita de que a pessoa tem uma liberdade de se comportar independentemente do seu ambiente passado e presente, esse é um conceito ainda conflituoso.

O mesmo autor diz ainda que o livre arbítrio supõe um terceiro elemento além da hereditariedade e do ambiente, supõe “algo” dentro do individuo.

Este algo nos remete a uma noção de que a escolha não é uma ilusão e que são as pessoas inteiramente causadoras do próprio comportamento.

Na adolescência são muito comuns as reivindicações de liberdade.

O jovem nesta fase de contestação e auto-afirmação passa, segundo Gusdorf apud Aranha e Martins (1986), por momentos onde a liberdade do adolescente é uma liberdade de aspiração, diz ainda que a juventude é tempo de aprendizado da própria liberdade, onde esse individuo; experimenta, testa, contesta e se contradiz todo o tempo.

Para Locher (2000), a vontade não necessita de um ato, justamente por que tem em si a livre determinação.

De acordo com o autor podemos, decidir entre atuar ou não, entre atuar deste ou daquele modo.

“O pássaro, a quem hoje sou a liberdade é, contudo, determinado intrinsecamente a suas ações instintivas, ao passo que ao criminoso agrilhoado possui, em sua alma, um santuário, onde ele sempre será seu próprio e absoluto senhor – a vontade; porque nada no mundo o forçará a querer o que ele mesmo não quer”. (Locher, 2000. p. 228)





Concluindo.

A adolescência é um período privilegiado da existência humana, período este no qual as mudanças orgânicas, cognitivas, sociais, e afetivas, interferem largamente no relacionamento interpessoal, quer de ordem familiar, escolar ou social.

O adolescente tem a necessidade da atuação de algo concreto e real, a fim de manipular seus desejos e inseguranças.

Essa fase também propicia a experimentação de diversas situações, do exercício da criatividade, a busca da ideologia a ser seguida, o que nada mais é do que a busca da identidade.

Neste contexto, a cultura, a família e a sociedade mostram os caminhos a serem percorridos pelos adolescentes na busca de sua identidade.

Temos a identidade como um conjunto de idéias e conceitos, que o jovem vai absorvendo e armazenando em seu cérebro desde recém-nascido e tudo isso irá compor a maneira como ele agirá no futuro.

Assim percebemos que é a partir do outro que o adolescente constrói a noção do eu.

A função da família, enquanto primeira ordem social a qual o sujeito entra em contato, é transmitir a cultura e desenvolver o individuo psíquico.

Para tanto, é necessário que a família proporcione à criança um ambiente saudável, onde haja espaço para que ele encontre seu lugar simbólico e conheça seus limites, para poder alcançar sua liberdade subjetiva e realizar seus desejos.

Através dos estudos de Freud, isto só será possível através da figura paterna, que marca a cisão entre a figura materna e o filho, representando a lei e, consequentemente, garantindo o lugar simbólico de filho.

Já ao olharmos para a nossa sociedade, percebemos que essa está numa busca alucinada por um “bem estar”, ilusório, onde tudo o que você quer está ao seu alcance, é só consumir e introjetar, sem pensar e refletir, onde o caminho a ser percorrido, para se ter o gozo (ilimitado) prometido, é longo e penoso e pode apresentar inúmeras formas de ser realizado, sendo que o mais comum é o uso da violência, baseado nos postulados de Freud (1932), violência no sentido de conflitos de interesses, tendo em vista o individualismo pregado pela sociedade capitalista, visto que os bens desejados por muitos, somente serão acessados por poucos, o que vai contra a ideologia de igualdade.

Violante (2000) ressalta, que essa idéia de igualdade, prometida pela sociedade, promove na verdade uma grande desigualdade que muitas vezes leva a exclusão social.

Cada vez mais adolescentes crescem na rua, fazendo dessa suas casas, depositando todos seus sentimentos que antes se davam dentro do círculo familiar e escolar.

Estes adolescentes delinqüentes não ocupam lugar na sociedade e nem são reconhecidos.

Esse reconhecimento e gozo que não lhes é dado de direito é buscado através da violência, onde se fazem reconhecer pelo outro, causando uma morte simbólica determinada pela exclusão.

Por outro lado Forte (2003), sinaliza o aumento dos comportamentos delinqüentes entre adolescentes de classes não tão excluídas (média e alta), dando ênfase à crise moral que atinge toda a sociedade, a qual vem exigindo dos homens uma conduta cada vez mais individualista.

O aumento tecnológico permite a satisfação imediata dos desejos, fazendo com que o sujeito perca o senso critico e coloque-se numa posição passiva que o conduz culposamente a atuar de maneira delinqüente.

Notamos aqui que, é mais fácil compreendermos o adolescente delinqüente que fora espancado durante a infância por um pai alcoolista e subempregado, e indulgenciar o infrator das classes médias altas, mas a causa essencial do jovem abastado é a mesma do garoto carente.

Ambos erram porque fazem mau uso da liberdade de escolha, que lhes é concedida.

Será que é só por isso?

Será que também não tem a ver com a falta da figura paterna que interdite, que imponha limites, que permita o encontro com os valores morais.

Ou também a falta de uma sociedade que permita ao adolescente ocupar um lugar saudável?

Enfim, toda essa discussão é de extrema importância para que se possa refletir sobre maneiras de intervir e prevenir comportamentos delinqüentes na adolescência, principalmente no que diz respeito aos valores atuais, ou seja, buscar entender as necessidades pertinentes a este período da adolescência, a fim de que estes jovens encontrem seu lugar nessa sociedade e o ocupem de maneira saudável tanto para si quanto para o social.

Levando em consideração que os jovens vivem, em sua grande maioria, com pleno uso de sua liberdade e livremente se deixam impulsionar a atos e comportamentos inadequados para o convívio social, faz-se necessário uma discussão sobre a responsabilidade moral dos adolescentes sobre seus atos, de uma maneira mais ampla, que englobe uma questão não só social, mas também política, ficando esta sugestão para trabalhos posteriores.





Para saber mais sobre o assunto.

ABERASTURY, A; KNOBEL, M. O adolescente e a liberdade. In – Adolescência normal. Porto Alegre: Artes Médicas, 1981, p. 13-23.

ARAGÃO, LUIZ Tarlei de. ET AL. Mãe preta, tristeza branca.  Processo de socialização e distância social no Brasil. In: ____. Clinica do social: ensaios. São Paulo: Escuta, 1991, p. 21-37.

BALLONE, GJ. Transtornos de Conduta In: PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br/infantil/conduta.html revisto em 2003. Acesso em 10set,2010.

BAUM, William M. Compreender o Behaviorismo Ciência, Comportamento e Cultura. São Paulo: Editora Artmed, 1999.

BAPTISTA, J. Exclusão Social: O nosso mundo. Oeiras: Celta Editora, 2005 (p.14-59).

BIRMAN, Joel. Mal Estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2001.

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CECCARELLI, Paulo Roberto. Delinquencia: resposta a um social patológico. In: Boletim de novidades da Livraria Pulsional. São Paulo: ano XIV, 145, maio, 2001, p.05-13.

FIGUEIREDO, Luiz Cláudio. Psicanálise e Brasil: considerações acerca do sintoma social brasileiro. In: SOUZA, Edson de. (Org.). Psicanálise e colonização: leituras do sintoma social no Brasil. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1999, p.24-39

FREUD, S. Totem e Tabu. (1912/13). In: - Obras Completas. Edição standart brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996, vol. XIII, p. 21-162.

FREUD, S. Reflexões para os tempos de guerra e morte. (1915). In:___. Obras completas. Edição standart brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996, vol. XIV, P. 311-339.

FREUD, S. Além do principio do prazer. (1920). In: ___. Obras completas. Edição standart brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996, vol. XVIII, p. 17-88.

FREUD, S. A dissolução do Complexo de Édipo. (1924). In:  ___. Obras completas. Edição standart brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996, vol. XIX, p. 215-226.

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Texto: Carla Cristine de Almeida Zotino.

Psicóloga, atua em treinamento e seleção na área de segurança pública.

Pós-Graduanda em Psicopedagogia Institucional pelo INEC/UNICSUL.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

A privação dos cuidados maternos e o desempenho escolar prejudicado.

 


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 3, Vol. jun., Série 04/06, 2012, p.01-21.



O artigo faz parte da Monografia de Conclusão de Curso de Pós-Graduação em Psicopedagogia Institucional pelo INEC/Universidade Cruzeiro do Sul, orientada pelo Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.





Este trabalho constitui-se de pesquisa bibliográfica sobre as consequências da privação materna em crianças.

O trabalho foi feito com base em pesquisas cientificas realizadas por autores especializados em desenvolvimento emocional infantil durante a década de cinquenta.

O artigo mostra a importância das primeiras relações infantis, bem como os cuidados maternos adequados com qualidade que garantem o desenvolvimento sadio da criança, enfatizando que uma situação contrária a esta, pode influenciar negativamente na área educacional.

Inicialmente o trabalho procura evidenciar e diferenciar as variantes do termo “privação” e apresentar suas consequências negativas, relacionadas às respectivas idades em que são vivenciadas, em seguida estabelece uma comparação entre algumas áreas de desenvolvimento infantil afetadas pela privação.






Sendo a escola um espaço social fechado, a mesma, acaba oferecendo condições propicias para a avaliação emocional das crianças e dos adolescentes.

É na escola que os alunos podem ser comparados estaticamente com seus pares e com seu grupo etário e social.

É na escola também que o professor dispõe de maior oportunidade para observar e detectar problemas no desenvolvimento da criança.

Dentro da sala de aula ocorrem situações significativas que envolvem a psique emocional da criança, nas quais os professores podem atuar beneficamente, ajudando a sanar o problema do aluno, ou podem piorá-los ainda mais.

Os alunos podem trazer consigo um conjunto de problemas emocionais que podem ser próprios de suas personalidades ou que podem ser conseqüências de experiências vividas socialmente e com suas famílias.

Entre os problemas psíquicos que fazem parte da própria personalidade da pessoa, incluem-se alguns como o Transtorno Obsessivo Compulsivo, o Autismo, a Deficiência Mental, a Psicose, o Transtorno de Conduta, etc.

Alguns professores podem cometer o erro de considerar que todas as crianças devem agir e reagir da mesma maneira diante de determinadas situações, e que as expondo às situações ridículas ou constrangedoras, possam se corrigir e parar com “maus comportamentos”.

No entanto, condutas deste tipo agravam o sentimento de inferioridade da criança que passa a não gostar mais da escola e a não querer mais freqüentá-la.

Requer-se do professor que faça uma auto-avaliação e, caso seja descartada a hipótese do problema estar em seu trabalho, observar mais atenciosamente o “aluno problema” que pode ser reflexo de algum transtorno emocional, muitas vezes advindo de relações extrínsecas à estrutura de sua personalidade.

Dentre os exemplos de questões externas à personalidade da criança, que são capazes de traduzirem em problemas emocionais, o trabalho enfatiza a privação materna, uma vez que este assunto acha-se cada vez mais crescente e comprovado no campo da psicologia e reflete-se no campo da educação, porem com poucas pesquisas na área educacional sobre distúrbios e problemas de aprendizagem causados pela privação.

A qualidade dos cuidados parentais que uma criança recebe nos seus primeiros anos de vida é de importância vital para o bom desenvolvimento de sua personalidade e para a sua saúde mental futura.

Conhecer um pouco mais sobre o que significa a privação materna e que tipos de complicações ela traz para dentro do meio escolar, pode mudar a visão do professor sobre o “aluno-problema”, podendo sensibilizá-lo a mudanças significativas de postura e de trabalho com este aluno.

Este tema tem grande importância para a área educacional, já que não são raros os casos de alunos que não vivem com suas mães naturais ou com a família original.

Acredita-se que o essencial à saúde mental é que o bebê e a criança pequena tenham a vivência de uma relação calorosa, intima e continua com a mãe (ou mãe substituta permanente), na qual ambos encontrem satisfação e prazer.

É nesta relação amorosa entre mãe e filho nos primeiros anos, enriquecida pelas outras relações com o pai e irmãos, que é a base para o bom desenvolvimento da personalidade.

A situação na qual a criança não encontra esse tipo de relação chama-se “privação materna”, que abrange um grande número de situações diferentes e tem efeitos variados de acordo com o grau da mesma.

Além da privação, existem outras formas de separação ou rejeição, pelas quais a relação mãe-filho torna-se pouco saudável.

Estudos realizados e comprovados deixam claro que, quando uma criança é privada dos cuidados maternos, seu desenvolvimento é quase sempre retardado-físico, intelectual, social e emocionalmente – e que podem aparecer sintomas de doenças físicas e mentais.

Existem três aspectos que influenciam nos danos que uma criança pode sofrer: a idade em que ela perde os cuidados maternos, o tempo em que ela ficou privada destes cuidados, e o grau em que eles lhe faltaram.

Mas com certeza, todas as crianças com menos de sete anos de idade estão sujeitas a este risco, e os efeitos da privação podem ser claramente perceptíveis já nas primeiras semanas de vida.

Em alguns casos a privação materna pode causar danos irreversíveis e os sintomas podem levar a problemas escolares variados, principalmente a incapacidade de abstração, atraso e problemas da fala e da noção de tempo, que podem ser de difícil diagnóstico para o professor que não conhece este assunto.





O que se entende por Privação de Cuidados Maternos.


Uma relação normal entre mãe e filho é aquela onde ambos encontram prazer e satisfação nas trocas de carinho, de contato físico, de brincadeiras e de amor.



Podemos ter como exemplo sobre como seria uma relação “normal”, o conceito deste autor:



“... uma criança é um indivíduo ativo, de aparência sadia, que dá a impressão de ser feliz e dá pouca preocupação aos pais. Como bem, dorme bem; seu peso, assim como seu tamanho, aumenta normalmente, e a cada mês torna-se mais inteligente e mais ativa – e, cada vez mais, um ser humano. Emocionalmente, ela dá satisfação aos pais e parentes e, por sua vez, recebe deles cada vez mais satisfação.” (SPITZ, 1998, p.205)



Uma criança que apresenta estas características passa por boas relações afetivas e emocionais com sua mãe.

A mãe é a pessoa mais importante nos primeiros anos de vida da criança.

Não que os pais não tenham importância, mas a criança está ligada emocionalmente à mãe desde a gestação, e no caso das mães substitutas, são sempre elas que estão presentes nos momentos de limpar e trocar, alimentar, de fazer dormir, de amamentar e outros cuidados que um bebê e uma criança pequena precisam.

Enfim, é sempre à mãe que a criança recorre em seus momentos de angústia.

A relação sadia entre mãe e filho ‘e uma relação íntima, onde a criança recebe o conforto do colo materno,da amamentação, do respeito e carinho à sua fragilidade, onde aprende a cada dia que tem valor próprio e que é especial para sua família.

Uma mãe carinhosa e maternal se alegra com qualquer atitude de seu bebê e divide com ele essa alegria; esta interação de afeto relacionada a atitudes é uma das primeiras formas de aprendizagem que influenciará no bom desenvolvimento do bebê.

É denominada “Privação Materna” a situação onde a criança não encontra uma relação afetiva estável e duradoura com sua mãe natural ou substituta, e à falta de cuidados que só a mãe proporciona nos primeiros anos de vida.



Uma criança pode ser privada dos cuidados maternos por alguns fatores como:

Quando não há um grupo familiar natural estabelecido, ou seja, ilegitimidade, criança concebida fora do casamento, filho de “pai desconhecido”, fruto de abuso sexual;

Geralmente as crianças ilegítimas são rejeitadas socialmente e sofrem algum tipo de privação materna por suas mães solteiras encontrarem dificuldades para o sustento de ambos;

Quando a criança vive no grupo familiar natural intacto, porém não atuando de maneira eficaz: situação de miséria, doença grave ou incapacidade de um dos pais, desequilíbrio mental e instabilidade emocional de um dos pais;

Quando a criança vive em grupo familiar não intacto e não funcional, portanto, de maneira eficaz: morte de um dos pais, hospitalização prolongada de um dos pais, prisão, separação, abandono de lar, mudança para outro país ou um lugar muito distante, trabalho fora de casa em período integral com pouco contato com a criança.



Essas três categorias que contribuem para que a criança, de certa forma, sofra alguma privação de cuidados, são influenciadas principalmente, por fatores sócio-econômicos onde os pais nãos têm possibilidade de sustento adequado e nem amparo de políticas públicas.

É importante destacar outras formas de privação de afeto como a negligência emocional por parte da mãe que também sofreu falta de cuidados e afeto em sua infância, a crueldade física sofrida e a falta de controle dos pais.

De qualquer forma, a criança que sofre privação materna nos primeiros anos de vida tem comprometimento de sua saúde mental.

 




Tipos e graus da privação.


Segundo Bowlby (1981), o termo “privação da mãe” pode ser aplicado a vários grupos de condições diferentes, que podem ter consequências semelhantes.

Se a criança vive com sua mãe natural ou uma mãe substituta permanente, mas os cuidados que ela recebe e a interação que mantém com ela,são insuficientes, neste caso, a privação consiste na insuficiência de interação entre mãe e filho.

Quando ocorre uma separação da criança de sua mãe, não implica necessariamente em privação de cuidados maternos e insuficiência de interação, desde que seja proporcionada à criança separada outra mãe permanente.

Contudo, uma separação entre mãe-filho é sempre uma experiência perturbadora para a criança, principalmente se esta mantinha uma ligação afetiva suficiente e não a encontra da mesma maneira, posteriormente com a substituta ou se fica sendo cuidada por várias outras pessoas de tempo em tempo.

Desta forma, a descontinuidade na relação mãe-filho, traz efeitos prejudiciais no desenvolvimento infantil.

Outro conjunto de condições que emprega o termo “privação da mãe” refere-se ao tipo de relação entre o par que acontece de maneira prejudicial, ou seja, de maneira distorcida, como: rejeição, hostilidade, crueldade, falta de afeto, repressão e controle excessivo.

A insuficiência, a descontinuidade e distorção da relação mãe e filho, são três definições utilizadas para ajudar a distinguir e compreender as condições de privação materna que levam a efeitos prejudiciais variados.

Tais efeitos prejudiciais não variam quanto à natureza, mas quanto ao grau em que foram sentidos, incluindo a idade da criança na época da privação.

A criança que sofre privação por uma relação insuficiente ou que passou pela descontinuidade e já recebe, no momento atual, cuidados de uma mãe substituta (estranha), são casos de privação parcial, pois são situações em que a não dispõe de uma única pessoa que cuide dela de forma pessoal, são exemplos de instituições e creches de período integral.

No caso da privação total, a criança ficou totalmente privada de afeto e cuidados, sendo abandonada emocionalmente.

A privação parcial causa angústia, exagerada necessidade de amor, fortes sentimentos de vingança e, como conseqüência, culpa e depressão.

A privação total traz efeitos mais negativos ao desenvolvimento emocional, que já se tornou prejudicado desde as primeiras semanas de vida.





Reações em diferentes idades.


Como já fora mencionado, alguns fatores importantes contribuem para os efeitos prejudiciais da privação: o tempo a idade em que a criança o em que a criança ficou privada dos cuidados e o grau em que eles lhe faltaram.

Outro fator para tais efeitos é a idade em que a criança sofre a privação.



“Um estudo muito cuidadoso do choro e do balbucio dos bebês mostrou que os que se achavam num orfanato, desde o nascimento até os seis meses de idade, vocalizavam sempre menos do que os que viviam com famílias, podendo-se notar claramente a diferença já antes dos dois meses de idade. Este atraso na “fala” é especialmente característico da criança em instituição, em qualquer idade.” (BOLWBY, 1981, p.22-23)



Todas as crianças com menos de sete anos estão sujeitas ao risco de efeitos prejudiciais da privação, e alguns destes efeitos podem ser discerníveis já nas primeiras semanas de vida do bebê.

Eles afetam o desenvolvimento infantil física, intelectual, emocional e socialmente.

Um grande número de pesquisadores estudou detalhadamente os efeitos da privação materna em crianças, desde que eram bebês, principalmente naqueles que viviam em instituições.

Tais pesquisas chegaram ao consenso de que o desenvolvimento de crianças que vivem em instituições está abaixo da média, já nos primeiros meses de vida:

Entre os sintomas observados, constatou-se que o bebê que sofre de privação pode deixar de sorrir para um rosto humano ou de reagir quando alguém brinca com ele ou apesar de bem nutrido, pode não engordar, pode dormir mal e não demonstrar iniciativa.



Os bebês entre seis e doze meses separados de suas mães, sem receberem uma mãe substituta adequada, apresentam diversas características típicas de um adulto depressivo:



“A criança se afasta de tudo ao seu redor, não há qualquer tentativa de contato com um estranho, e nenhuma reação positiva se este estranho a toca. Há um atraso nas atividades e a criança freqüentemente fica sentada ou deitada inerte, em profundo estupor. A falta de sono é bastante comum e todas têm falta de apetite. A criança perde peso e apanha infecções facilmente. Há uma queda acentuada em seu desenvolvimento geral.” (BOWLBY, 1981, p.26)



Se for proporcionada à criança uma mãe substituta única e presente, durante seu primeiro ano de vida, as conseqüências negativas podem ser evitadas.

No entanto, especialistas acreditam que, embora a recuperação da criança seja rápida com o retorno da mãe, ela pode ser dificultada e incompleta depois de três meses de privação.

Sptiz (1998) estudou e detalhou mais especificamente, patologias do desenvolvimento infantil no primeiro ano de vida, causado por distúrbios da personalidade materna, que se refletem nas perturbações da criança.



Aos dois ou três anos, as mães substitutas são completamente rejeitadas, o que agrava a recuperação da criança separada de sua mãe:



“... ficando a criança inconsolável por vários dias, uma semana ou mesmo mais, sem interrupção. Na maior parte deste tempo, ela fica num estado de desespero agitado, gritando ou gemendo. Recusa tanto o alimento quanto a ajuda. Apenas a exaustão a leva ao sono. Depois de alguns dias, a criança fica mais quieta e pode cair em apatia, da qual vai emergindo lentamente para começar a se interessar pelo ambiente estranho. Contudo, durante semanas, ou mesmo meses, ela poderá apresentar uma regressão a comportamentos de bebê. Poderá molhar a cama, masturba-se, parar de falar e insistir em ser carregada ao colo, de tal forma que uma atendente menos experiente pode julgá-lo mentalmente deficiente.” (BOWLBY,1981, p.270).



Crianças de três, quatro anos separadas e privadas de suas mães, tornam-se claramente hostis.

A mãe, por sua ausência, passa a ser uma pessoa odiada.

A hostilidade pode ser manifestada de várias formas: birras, violências, fantasias contra seus pais.

Todo este ódio é fruto do sentimento de abandono pela mãe ou ambos os pais, levando a criança a um conflito de ambivalência, de amor e ódio.

Este sentimento conflitante produz angústia e depressão e provoca um comportamento agressivo e delinqüente.

Em casos extremos, também pode levar ao suicídio como alternativa de assassinato dos pais.

O fato de a criança estabelecer relações e posteriormente perde-las, causa o medo de ser ferido de novo, levando-a a se afastar do contato humano, a se fechar em si mesma e evitar maiores frustrações.

Como consequência, acaba perdendo a capacidade de estabelecer relações afetivas, sem perder o seu desejo de amar, que fica reprimido.

A repressão deste desejo de amor é que leva a comportamentos como relações sexuais promíscuas, frutos e sentimentos de vingança.

Crianças que sofreram privação total, não apresentarão as mesmas características, pois já têm o seu desenvolvimento emocional prejudicado, ou seja, não formaram vínculos afetivos.

Seus sintomas são considerados mais graves, se relacionam com outras pessoas de forma superficial, não demonstrando sentimentos verdadeiros, são incapazes de se interessarem ou estabelecerem laços de amizade profunda, não apresenta reações emocionais, não demonstram afeto e nem preocupação.

Geralmente são falsas, furtam, mentem constantemente, são agressivas e apresenta sexualidade precoce, promiscuidade, baixo nível de inteligência, baixa capacidade de abstração e de raciocínio lógico, além de déficit no desenvolvimento da fala.

Em longo prazo, as crianças que sofreram privação total, podem desenvolver personalidade delinquente, psicopata e incapaz de afeição (BOWLBY, 1981).

Aos cinco ou seis anos, os danos que a privação causa tornam-se mais leves e diminuem.

Nesta fase, a criança já é capaz de entender melhor as situações que levaram à falta da mãe.

Porém, é mais comum nesta idade a idéia de punição, ou seja, a criança acredita que ficou sem a mãe como castigo por ter sido má ou que foi separada de sua família por sua culpa.

É uma interpretação errônea que nem sempre é expressa pela criança.

Por carregar a culpa pela separação de sua mãe ou família, torna-se maior sua lealdade, que é esta ligação profunda da criança com seus pais, por mais terríveis e maus que tenham sido.

Mesmo a privação sendo causada pela relação distorcida, ainda assim, a criança é fiel aos pais.

Inúmeros são os estudos de psiquiatras e psicanalistas que buscam explicar a distúrbio mental relacionada a uma perda, seja esta pelo luto ou pela separação, sentida pelo adulto, jovem ou criança.

O fato é que perder uma pessoa amada é uma das experiências mais intensamente dolorosas que o ser humano pode sofrer e, quando pensamos que esta experiência pode também atingir uma criança, voltamos nossa atenção a esta fase que significa a base para o bom desenvolvimento do individuo: a infância.

Estudiosos ou não, todas as pessoas se preocupam com os infortúnios que uma criança possa passar, principalmente porque ela é um ser humano totalmente, frágil, sensível e tão cedo já se depara com espinhos da vida.

Mas nem sempre os adultos preferem enxergar esse tão doloroso sofrimento da perda ou privação, vivenciada pela criança.

Preferem acreditar que a criança se esquecera da mãe, ou que não sabe o que está acontecendo, como se ela fosse uma lousa onde tudo que vivenciou pudesse ser apagado e escrito uma nova vida.

Embora esta fosse a vontade de muitos, observações mostram que o desejo de retorna da mãe persiste na criança e que esta persistência vem carregada de uma hostilidade; também revelam que até as crianças pequenas tem capacidade de reter na memória seu modelo de mãe ausente e se lembram dela durante a permanência com pessoas estranhas.

Os efeitos da privação podem ser variados, de acordo com a idade que a criança se encontra ao ter inicio esta privação.

Estas variáveis determinam quais os processos no desenvolvimento infantil que serão afetados negativamente.

Dentre os processos intelectuais, a linguagem e abstração ficam mais vulneráveis e dentre os processos da personalidade, a capacidade de estabelecer e manter relações interpessoais profundas e significativas, juntamente com a capacidade de controlar os impulsos, parece que são os mais atingidos.

Ao entendermos que para a aquisição da aprendizagem faz-se necessário um ambiente adequado e estimulador, podemos supor então, o quanto ela se tornará difícil para estas crianças que foram privadas de suas mães ou não tiveram a intenção e estimulação satisfatória com seu ambiente inicial.

Segundo teorias psicanalíticas, a privação precoce da mãe faz com que a criança crie defesas contra novas frustrações, decorrentes da interação com novos ambientes que venha a conhecer, ou seja, a criança pode se tornar isolada e resistente a mudanças, afetando assim a aprendizagem de algo novo.

Uma reversão só seria possível com o máximo de esforços de um novo ambiente para romper estas defesas e, com certeza, a educação também tem que cumprir a sua parte nesta tarefa.






Interesses e preferências da mãe são influencias para o desenvolvimento infantil.

Não só influenciam como também incentivam determinados tipos e níveis do desenvolvimento, ou seja, a criança parece concentrar-se e desenvolver-se melhor naqueles níveis que recebem mais diretamente o amor e aprovação materna e o prazer da mãe nos feitos dos filhos.

Contrariamente, parece negligenciar os níveis do desenvolvimento que não recebem esta aprovação (FREUD. A. 1971).

Isto que dizer que as atividades aclamadas pela mãe são repetidas com mais frequência, tornando-se libidinizadas e, por tanto, são estimuladas em sua evolução.

Tudo isto significa que quando há um desequilíbrio em algumas etapas do desenvolvimento infantil como um todo, eles podem ter sido criados por situações externas; especificamente para este estudo, pela privação afetiva da mãe.

As etapas pelas quais passa a criança pequena desde a sua completa dependência corporal e emocional até a sua autoconfiança e amadurecimento sexual seguem uma linha gradual de desenvolvimento, que vai fornecer a base para o que é normal ou anormal, em relação ao emocional do individuo.

As etapas do desenvolvimento recebem a contribuição do id e do ego em formação.

A disposição da criança para enfrentar acontecimentos que geram angustia e ansiedades, como por exemplo, o nascimento de um irmão, hospitalização, entrada na escola, etc., é vista como resultado direto do progresso em todas as linhas de seu desenvolvimento.

Se os níveis adequados foram atingidos, os acontecimentos poderão ser benéficos para a criança, caso contrário, os esforços por parte dos pais, enfermeiras e professores não impedirão sentimentos de aflição, fracasso, e infelicidade por deixar temporariamente seu ambiente familiar e a presença constante da mãe.

Até a maturidade emocional sadia do individuo adulto há um longo caminho a percorrer, cheio de níveis pertinentes passados na infância, aos quais a Psicologia e Psicanálise se encarregam de estudar.

No entanto, há diretrizes básicas no desenvolvimento infantil que merecem receber atenção por se tratarem especificamente de diretrizes que sofrem influencias negativas diretas, e conseqüentemente, tornam-se prejudicadas pela falta da mãe, como foram mencionadas anteriormente; a interação social, a capacidade de abstração e o desenvolvimento da linguagem.






Quando nasce, a criança é muito indefesa; sua sobrevivência dependerá da ajuda prestada pelo grupo social onde ela vive.

Ao mesmo tempo, ela possui uma grande capacidade para a aprendizagem, já que o sistema perceptivo herdado geneticamente encontra-se organizado, colocando-a em contato com o meio através dos sentidos, e servindo para estabelecer relações entre organismo e meio, sobretudo às características do meio que possam ter conseqüências positivas ou negativas.



De acordo com Spitz:



“O primeiro ano de vida é o período mais plácido no desenvolvimento humano. O homem nasce com um mínimo de padrões de comportamento pré-formados e deve adquiris incontáveis habilidades no decorrer do seu primeiro ano de vida. Nunca mais na vida tanto será aprendido em tão pouco tempo.” (SPITZ, 198, p. 109)



Além da capacidade de percepção, a criança esta constantemente sendo estimulada a perceber o meio que a cerca.

Ela sente-se mais atraída pelos estímulos de origem social, como o rosto humano.

Sem dúvida, o estimulo mais relevante para o bebê é aquela pessoa que cuida dele: a mãe.

O rosto humano é dotado de características que atraem o bebê, como o brilho dos olhos, o contraste entre o cabelo e a fronte, o contraste entre os olhos e a boca, cor, movimento, expressões faciais e um outro estimulo sonoro que a criança gosta: a voz humana que sai da boca.

Tanto sua capacidade de aprendizagem quanto, sua atração por estímulos sociais, fazem com que a criança esteja em condições ideais para iniciar o processo de assimilação de valores, normas e formas de agir que seu grupo social irá transmitir-lhe.

A transição cultural que envolve regras, valores, costume, atribuição de papeis, ensino da linguagem, habilidades e conteúdos escolares, é realizada através de determinados grupos sociais encarregados de incorporar a criança á sociedade.

Entre estes agentes sociais estão a mãe,pai, os irmãos, outros familiares, amigos, professores e outros como os meios de comunicação.



De acordo com Coll (1995), os processos de socialização pelo qual passa a criança são basicamente três mais importantes:



- Os processos mentais de socialização: aquisição de conhecimentos;

- Os processos afetivos de socialização: formação de vínculos;

- Os processos condutais de socialização: conformação social da conduta.



Os vínculos afetivos que a criança estabelece com a família e amigos são à base de seu desenvolvimento social, pois uma vez estabelecidos, unem a criança aos demais e a sua manutenção transforma-se em um dos motivos fundamentais da sua própria conduta social, como ter empatia pelo outro, colocando-se em seu lugar; o apego emocional; a formação de amizades profundas, etc.

Os processos mentais de socialização como: conhecimento de valores, normas, aprendizagem da linguagem, conhecimentos adquiridos na escola e outras fontes, fazem com que a criança conheça como é sua sociedade, comunique-se com os demais membros e comporte-se de acordo com o que é esperado dela.

A socialização envolve também a aquisição de condutas que são consideradas desejáveis, bem como a se evitar aquelas que são consideradas anti-sociais.

Para isto não basta que a criança saiba o que é certo ou errado, mas que saiba ter controle sobre sua conduta e sinta-se na moral, no raciocínio sobre a utilidade social de determinados comportamentos, bem como suas conseqüências, o medo do castigo e o medo de perder o amor e favores que recebe dos demais.

Se a criança vincula-se afetivamente a determinados adultos, se adquire o conhecimento de que a sociedade é o que espera dela, e se tem um comportamento adequado a estas expectativas, estará bem socializada.

Há uma sociedade estabelecida dentro do par mãe-filho, onde as trocas estão em fluxo contínuo, cada um deles é o complemento do outro, enquanto a mãe fornece o que o bebê precisa e o bebê por sua vez, fornece o que a mãe precisa para sentir-se bem.

A partir do inicio da vida, a mãe é o parceiro do filho que serve de mediador a toda percepção, toda ação, todo conhecimento.

Quando os olhos do bebê seguem cada movimento da mãe, quando ele consegue fixar-se no rosto da mãe de forma preferencial às outras coisas externas, devido às trocas afetivas continuas, este rosto materno assumira cada vez mais um significado maior.

Esta seleção faz parte de um processo de aprendizagem, onde são de extrema importância os sentimentos das mães em relação ao seu filho.

A mãe oferece um clima emocional favorável e uma variedade de experiências vitais: o que tona estas experiências tão importantes para a criança é o fato de que elas são enriquecidas e caracterizadas pelo afeto materno.

A existência da mãe, sua simples presença, age como um estímulo para as respostas do bebê; sua menor ação por mais insignificante que seja, mesmo quando não está relacionada com o bebê, age como estímulo.

Seus afetos, seu prazer, suas próprias ações, conscientes ou inconscientes, facilitam inúmeras e varias ações do filho.

Pode-se dizer que “o maior grau de facilitação para ações do bebê é propiciado, não pelas ações conscientes da mãe, mas por suas atitudes inconscientes” (SPITZ, 1998).

Os fatores relevantes para a socialização são: de um lado, a mãe com sua individualidade, e de outro lado, a criança cujo desenvolvimento se estabelece progressivamente, através de continua inter-relação, com a ajuda de outros membros do meio familiar.






Como se desenvolve a personalidade e os processos de abstração do individuo em processo de interação e adaptação ao meio, enquanto que para tal depende dos cuidados maternos?

À medida que a personalidade se desenvolve, o individuo torna-se cada vez mais apto a escolher e criar seu ambiente, e passa a planejar para conseguir o que quer.

Isto significa que ele aprende a pensar de forma abstrata, aprende a usar a imaginação e fazer considerações sobre seus desejos imediatos e objetivos almejados.

Conforme a criança cresce, espera-se dela que pense antes de agir, que tenha capacidade de fazer abstrações do tempo e do espaço, a fim de poder considerar as coisas que quer no futuro e a perceber que para serem conseguidos, alguns desejos e vontades precisam ser sacrificados.

É através da percepção de coisas que agradam e desagradam às pessoas, que a criança passa a aprender e a ter consciência de seus atos, sendo que é a mãe quem agirá como esta consciência nos estágios iniciais do desenvolvimento infantil, até que ela atinja um grau de maturidade e se estabeleça como um indivíduo consciente e de personalidade própria.

As perturbações que a personalidade e consciência podem passar geralmente se devem a distúrbios sofridos em etapas importantes do desenvolvimento infantil como: a fase na qual o bebê está a caminho de estabelecer uma relação com uma pessoa que identifica claramente a mãe, por volta dos cinco ou seis meses; a fase na qual ele necessita da presença constante da mãe, geralmente até o seu terceiro aniversário; a fase na qual a criança começa a relação com a mãe mesmo quando ela está ausente.

São estes os processos que são prejudicados pela privação, impedindo que a personalidade e consciência se desenvolvam bem.

Se o comportamento da criança é impulsivo e descontrolado e ela não é capaz de ter objetivos em longo prazo porque cede aos prazeres momentâneos, se seus desejos são ou devem ser todos realizados, se não há um poder de se auto-contentar, é porque sua personalidade foi incapaz de aprender com a experiência, resultado este da falta da mãe que deveria agir como uma consciência da criança pequena.

Indivíduos que apresentam estas características têm reduzidas as capacidades para lidar com idéias ao invés de ficarem presos aos objetivos do momento.

Todas as crianças institucionalizadas, estudadas por Bowlby (1981), apresentam uma incapacidade grave e especifica para o raciocínio abstrato – o pensamento necessário à ação do eu, da consciência.

A criança pequena deve pensar antes de agir e deve abandonar a resposta automática a qualquer acontecimento, só então se tornará uma pessoa completa, por exemplo: espera-se que a criança não saia correndo em direção à rua, atrás de sua bola, sem tomar os cuidados necessários para atravessar, e isto acontece quando ela para pra pensar o que vai fazer.

É possível que quando o raciocínio abstrato não se desenvolve adequadamente, através da interação satisfatória com a mãe, a personalidade não possa amadurecer totalmente, ou seja, a pessoa torna-se um adulto cujo ego é enfraquecido.

Segundo a teoria psicanalítica, a probabilidade de uma criança permanecer mentalmente saudável está relacionada com a capacidade de seu ego para arcar com as ansiedades, isto é, o ego é mediador entre o eu e o meio ambiente, capaz de tolerar as frustrações.

Este ego só pode se desenvolver de forma saudável se a criança tem assegurada em sua infância a permanência da pessoa capaz de lhe proporcionar esta experiência: a mãe ou a mãe substituta.

Mas por que a criança que sofre privação tem prejudicada a sua capacidade de raciocínio abstrato?

Ora, a mãe é considerada nos primeiros anos de vida da criança, como sua personalidade e consciência.

A criança institucionalizada, geralmente, nunca teve esta experiência e conseqüentemente não pôde completar a primeira fase do desenvolvimento estabelecendo uma relação com a figura materna claramente definida.

A sucessão de substitutos ou de outros agentes disponíveis para seus cuidados, não lhe deu a continuidade no tempo, que faz parte da essência da personalidade.

Como as crianças de instituição nunca foram cuidadas por uma única e permanente pessoa, não tiveram oportunidade de aprender os processos de abstração e de organização do comportamento no tempo e no espaço.

Ao contrario daquelas que vivem com suas famílias, dentro deste grupo, a criança é encorajada a expressar-se tanto socialmente quanto nas brincadeiras; já se tornou um ser com características próprias para sua família, sabe das coisas que ela gosta e que não gosta e ela própria esta aprendendo a modificar seu ambiente, levando as pessoas a fazer o que ela quer.

Estas práticas são importantes para o desenvolvimento da personalidade e isto não ocorre dentro de uma instituição para crianças abandonadas e longe de suas famílias.

Se a criança sofre a privação na segunda fase, a qual ela precisa constantemente da figura da mãe para sentir-se segura, defronta-se com uma situação na qual se sente apavorada e frente a tarefas que sente como impossíveis.

Nesta situação, é possível que as capacidades já adquiridas sejam perdidas e a criança regrida às formas mais infantis de comportamento.






O ser humano é um aprendiz da língua praticamente desde os primeiros dias de vida até a idade adulta.

O domínio progressivo das habilidades do uso da linguagem é um fator decisivo no desenvolvimento psicológico geral.

A evolução da linguagem está relacionada ao meio social e à capacidade intelectual, ou seja, a experiência proporcionada pelo uso que os demais fazem da linguagem em suas interações e, especialmente, ao comunicar-se com a própria criança, oferecendo a ela sua principal fonte de informação sobre a linguagem.

A aquisição da fala é um processo complexo.

A vocalização do bebê, que no inicio servia para descarregar as tensões, agora passa por modificações e torna-se um jogo onde a criança repete e imita sons que ela mesma produziu.

A criança percebe sua vocalização por volta dos três meses, repete-os e, mais tarde, utiliza estas experiências ao imitar os sons que ouve de sua mãe.

Normalmente o meio social oferece um modelo de uso da linguagem, adaptado aos modos de vida e ao tipo de interações habituais nesse meio social.

Uma família que possui um bebê pode, por exemplo, utilizar um notável e comum modelo de fala, onde tende a simplificar a fala dirigida à criança pequena, adaptando-se à capacidade do bebê ou, mais exatamente, a uma melhor interpretação e de consequência otimizadora da capacidade do bebê: é a fala maternal, que dura até por volta dos dois anos.

Depois desta idade, a criança consegue regular, com o adulto, o diálogo sem se acomodar ao interlocutor infantil, e vai aproximando sua fala ao padrão.

A fala maternal usa procedimentos que facilitam a compreensão: ela é simples e repetitiva como, por exemplo, au-au para referir-se a cachorro, piu-piu para passarinho e mamá para mamadeira, além de ser enfática, com pronunciação lenta e rítmica, de acentuação e entonação muito marcadas e freqüentemente acompanhadas de gesticulação vocal.

A pronunciação das vogais é prolongada, busca a facilitação do significado com o apoio dos gestos e refere-se tão somente ao contexto linguístico acessível, ou seja, situa-se unicamente no presente.

É uma fala carregada de entonação suave e carinhosa.

A fala da criança de dois ou três anos compartilha muitas vezes destas características e somente começa a se assemelhar à fala convencional quando os adultos próximos abandonam o estilo maternal e proporcionam outras formas comunicativas usuais.

Portanto, uma das primeiras experiências de aprendizagem da aquisição da fala, se dá na inter-relação mãe-filho, que facilita e precede a aquisição da linguagem propriamente dita.

Sendo o recém nascido um individuo ativo, preparado para receber o intercambio social na interação com o meio, busca estímulos e organiza a informação adquirida, mostrando condutas especificas relacionadas á linguagem humana.

O adulto é quem controla estes intercâmbios sociais; e estas interações iniciais que a mãe oferece ao bebê, dão origem a significados rudimentares, compartilhados pela criança e por quem cuida dela.

Um sabe o que esperar do outro enquanto resposta determinado comportamento.

No entanto, não basta apenas a afetividade, mas a comunicação que se estabelece nesta interação.

Através da comunicação, as interações podem tornar-se mais complexas, pois surge no contexto o mundo dos objetos externos aos jogos de mãe e filho.

Coll (1995), falou da relação entre estes jogos e a aquisição da linguagem.

Este autor emprega o nome de formato para descrever estas interações triangulares (mãe-filho-objeto).



Em suma, distingue:



- Formatos de ação conjunta: situações nas quais o adulto e a criança agem conjuntamente sobre um objeto, como: “jogo de dar e tomar”, “o jogo de tirar e colocar”;

- Formatos de atençãoconjunta: situações nas quais o adulto e a criança observam conjuntamente um objeto, como: jogos de indicação e jogo de leitura de livros e gravuras, etc.;

- Formatos mistos têm as características da ação e atenção conjunta, como o jogo do “cuco”, onde se esconde e faz-se reaparecer algo.



Nos três tipos de formatos, o adulto e a criança envolvem-se conjuntamente na elaboração de procedimentos, ou seja, ambos têm que negociar e estabelecer a conduta a ser seguida.

As relações sociais envolvidas estão no fato de que alguns jogos fazem com que adulto e crianças façam coisas para e com o outro, sendo a comunicação o instrumento fundamental.

As implicações educacionais das características inerentes ao processo da linguagem e comunicação são importantes.

Em primeiro lugar, o domínio das habilidades comunicativas é conseguido no contexto das relações individuais em situações variadas.

Em segundo lugar, as tarefas envolvidas precisam ser motivantes para a criança.

As palavras que a criança incorpora relacionam-se diretamente ao contexto que vivencia e são utilizadas neles.

As primeiras palavras são empregadas, em primeiro momento, de forma contextualizada, para posteriormente serem utilizadas referencialmente em outras situações, como é o caso da criança que aprendeu a palavra “acabou” e a utiliza tanto para referir-se a algo que realmente acabou, quanto para alguma ação que queira realizar.

Assim, da mesma forma que a criança vai estabelecendo o significado de suas primeiras palavras, vai compreendendo cada vês melhor o caráter instrumental da linguagem.

A criança passa a aumentar seu vocabulário a partir da necessidade de nomear a realidade que circunda, no contexto em que participa ou de expressar sua intenção neste contexto.

Através da interação com o meio, a aquisição da linguagem se processa de varias maneiras, onde todos os agentes envolvidos contribuem para o ensino desta á criança.

Porém, dando mais ênfase nesse processo relacionado á Psicanálise e a importância da interação que a criança tem com sua mãe.

Uma das explicações encontradas, diz respeito á incorporação de uma determinada palavra: o não.

Spitz (1998) refere-se á compreensão que a criança adquire sobre proibições, como um dos mais importantes requisitos para a comunicação humana.

A partir do momento que a criança aprende a andar e foge ao controle da mãe, ocorre uma mudança significativa na comunicação entre mãe e filho.

Há uma maior predominância da palavra não, de modo que a intervenção materna tem que basear cada vez mais em gestos e palavras.

Desde que a locomoção é adquirida, o cantarolar, os balbucios de antes e os contatos corporais freqüentes, que são diminuídos, se transformam em ordens, proibições e reprovações.

O que a mãe mais fala agora é ”Não! Não!” e dizendo isto também balança a cabeça e faz sinal com o dedo indicador, impedindo a criança de fazer o que estava pretendendo.

A criança entende as proibições da mãe através de um processo de identificação. Para a criança, este meneio de cabeça torna-se símbolo duradouro da ação frustradora da mãe.

A criança adotara este gesto, mesmo quando adulta, pois foi adquirido e reforçado durante o período mais arcaico da consciência, no inicio do estagio verbal.

Segundo o autor, o meneio negativo da cabeça e a palavra “Não”, são diferentes das outras palavras globais, como “mamá”, “papá”, etc., pois representam um conceito: o conceito de negação, de recusa.

Não é apenas um sinal, mas um signo da atitude da criança, consciente ou inconsciente.

Trata-se do primeiro conceito abstrato formado na mente da criança.

O meneio negativo de cabeça não é apenas imitação do gesto da mãe.

A criança é quem escolhe a situação em que vai usar o gesto e, depois a palavra.

Quando a criança recusa algo que a mãe deseja ou oferece, é como se ela fosse imitar, como se o gesto negativo da mãe tivesse sido registrado na memória da criança.

Entretanto, após registrar na memória a associação do meneio de cabeça com recusa, a criança, por sua vez, reproduz o gesto quando ela expressa recusa.

O principal fato intelectual necessário para tais abstrações e generalizações não é explicado apenas através da acumulação de traços de memória.

A psicologia da Gestalt diz que tarefas inacabadas são lembradas, enquanto que as tarefas acabadas são esquecidas, então, quando a mãe proíbe ou recusa alguma coisa, o seu “Não” impede a criança de completar a tarefa que pretendia realizar.

O fato de a criança não poder realizar a tarefa reforçará, assim, a sua recordação e lembrança do que significa a palavra “não”.

Segundo a teoria da psicanalítica, todo “Não” da mãe representa uma frustração emocional para a criança.

Há uma carga afetiva de desprazer que acompanha a frustração e que provoca um impulso afetivo do id.

Um traço de memória é registrado no ego da proibição e será investido com esta catexia agressiva.

A criança passa a viver no conflito entre a ligação libidinal, que a atrai para a mãe, e a agressão provocada pela frustração que esta mesma mãe lhe impõe.

Entre o desprazer de se opor á mãe, arriscando-se a perder o objeto, a criança recorre a um mecanismo de defesa, a “identificação com o agressor”, conforme foi descrita por Anna Freud (1971).

Esta identificação com o agressor será seguida, por um ataque contra o mundo exterior.

Na criança de quinze meses, este ataque assume a forma do ”Não” primeiro o gesto o depois a palavra que a criança obtém do objeto libidinal.

Devido a numerosas experiências de desprazer, o “Não” é investido co catexia agressiva.

Isto torna esta palavra apropriada para expressar agressão, e é por isso que o “Não” é usado no mecanismo de defesa de identificação com o agressor e é voltado contra o objeto libidinal.

Uma vez que este passo tenha sido completado, pode começar a famosa fase de teimosia, com a qual marca o período do segundo ano de vida.






É muito importante a avaliação global da criança ou do adolescente, considerando as diversas possibilidades de alterações que resultam nas Dificuldades de Aprendizagem, para que o tratamento seja o mais especifico e objetivo possível.

Algumas Dificuldades de Aprendizagem englobam, principalmente, as chamadas disfunções cerebrais, como Transtorno da Leitura, Transtorno da Matemática e Transtorno da Expressão Escrita, bem como os transtornos da linguagem falada.

Outras Dificuldades de Aprendizagem seriam conseqüentes a alterações biológicas especificas e bem estabelecidas e alterações comportamentais bem esclarecidas, sendo estas ultimas mais freqüentes em escolares.

Em relação ás alterações biológicas têm-se as lesões cerebrais, Paralisia Cerebral, Epilepsia e Deficiência Mental.

Ainda dentro das causas biológicas, há as situações de dificuldades de aprendizagem conseqüentes a outros problemas perceptivos que afetam a discriminação, síntese, memória e relação espacial e visualização.

Em relação aos problemas de comportamento, um dos fatores mais marcantes para o desenvolvimento de Dificuldade de Aprendizagem são os quadros classificados como Comportamento Disruptivo e, dentro deles, o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade e o Transtorno Desafiador o Opositivo.

Quanto aos problemas emocionais que favorecem as Dificuldades de Aprendizagem, principal item abordado neste Artigo, aparecem a Depressão Infantil e do Adolescente, a Ansiedade de Separação na Infância e a Privação Materna.

Algumas inibições, sintomas e ansiedades surgem quando uma determinada fase do crescimento impõe exigências excessivas à personalidade da criança, ou seja, quando a criança ainda não está apta ou preparada para passar por determinadas situações; se tais sintomas não forem mal conduzidos pelos pais ou professores podem desaparecer logo que a adaptação ao nível do desenvolvimento tiver sido feita.

Geralmente, os sintomas patológicos não causam o sofrimento da criança, mas sim as ações restritivas dos pais.

Até a enurese e encoprese (ato de urinar e defecar na roupa) podem ser ignorados e não vistos como humilhantes pela criança aflita, mostrando que elas sofrem menos do que os adultos de suas psicopatologias, porém sofrem mais que eles de outras tensões a que são expostas: as crianças pequenas sofrem de todo e qualquer racionamento, demora e frustrações que imponha às suas necessidades corporais e derivadas de impulso; sofrem em virtude de separações de seus primeiros objetos de amor, seja qual for o motivo que eles ocorreram; em virtude de decepções reais ou imaginadas causadas por tais objetos; sofrem de ansiedades causadas pelo complexo de Édipo e complexo de castração, por culpas, fantasias, etc.

Até uma criança normal pode sentir-se infeliz por vários destes motivos, inclusive os fantasiosos, levando-a a reagir emocionalmente com variados comportamentos.

Em contrate, é a criança obediente, quieta e resignada que deve ser desconfiada pelos adultos de que processos anormais estão atuando nela.

As crianças tidas como boas e quietinhas, isto é, que aceitam sem protestar qualquer condição desfavorável, pode estar agindo assim porque sofrem de algum dano no desenvolvimento do ego e uma passividade do lado de seus impulsos (FRUD, A., 1971).

As crianças que separam com muita facilidade de seus pais podem assim proceder porque não formaram relações normais; não sentir aflição e ansiedade quando há ameaça de perda de amor não é sinal de saúde e forca numa criança, ao contrario, está longe de ser saudável, pois não protestar se aproxima “da primeira indicação de renuncia autístita ao mundo dos objetos” (FREUD, A., 1971, p.109).






A sintomatologia das crianças separadas de suas mães é similar aos sintomas conhecidos da depressão em adultos.

Este fato mostra que, desde muito novas, as crianças podem sofrer de depressão como consequência de uma privação e, se não diagnosticada e tratada desde o inicio, ela arrasta-se com o doente interferindo no seu di a dia.

Contudo, apesar de terem sintomas similares, a depressão no adulto e a depressão na criança passam por processos psíquicos diferentes.

O trabalho refere-se á Depressão Infantil, neste item, como uma consequência da carência afetiva, onde a criança foi privada dos cuidados maternos – o que não exclui a possibilidade de, mesmo quando presente, a mãe privar seu filho de afetos.

Embora na maioria das crianças, os sintomas de depressão sejam atípicos, algumas podem apresentar sintomas clássicos como tristeza, ansiedade, expectativa pessimista,mudanças no habito alimentar e no sono, ou por outro lado, problemas físicos como dores inespecíficas, fraqueza, tonturas, mal estar geral que não respondem ao tratamento médico habitual.

Em crianças e adolescentes a Depressão, em sua forma atípica, esconde verdadeiros sentimentos depressivos sob uma máscara de irritabilidade, hiperatividade e rebeldia.

As crianças mais novas, devido à falta de habilidade para a comunicação que demonstre seu verdadeiro estado emocional, também manifestam a Depressão atípica com hiperatividade.

A Depressão na criança e no adolescente pode ter inicio com perda de interesse pelas atividades que habitualmente eram interessantes, manifestando-se como uma espécie de aborrecimento constante diante dos jogos, brincadeiras, esportes, sair com amigos, etc., além de apatia e redução significativa da atividade.

Às vezes pode haver tristeza.

Ainda aparece diminuição da atenção e da concentração, perda de confiança em si mesmo, sentimento de inferioridade e baixa auto-estima, idéia de culpa e inutilidade, tendências e ideias ao suicídio.

Na criança e adolescente é comum a Depressão acompanhada também de sintomas físicos, tais como fadiga, perda de apetite, diminuição da atividade, queixas inespecíficas tais como cefaléias, lombalgia, dores nas pernas, náuseas, vômitos, cólicas intestinais, vista escura, tonturas, etc.

Quanto ao comportamento, a Depressão na Infância e Adolescência pode causar deterioração nas relações com os demais familiares e colegas, perda de interesse e isolamento.

As alterações cognitivas da Depressão Infantil, principalmente a relacionadas à atenção, raciocínio e memória, interferem fundamentalmente no rendimento escolar.

Tendo em vista o fato de ser possível que muitos sintomas relacionados apareçam naturalmente como parte das etapas normais de desenvolvimento da infância e adolescência, para estabelecer um diagnóstico provável de Depressão, é necessário avaliar sua situação familiar, existencial, seu nível de maturidade emocional e, principalmente, sua auto-estima e conduta.

Na fase pré-escolar as crianças podem somatizar o transtorno afetivo, o qual se manifesta através de dor abdominal, falta de peso, retardo no desenvolvimento físico esperado para a idade, além da fisionomia triste, irritabilidade, alteração do apetite, hiperatividade e medo inespecífico.

Na fase escolar, o cansaço, a dificuldade concentração, as alterações da memória, são as complicações da Depressão Infantil, que comprometem muito o rendimento escolar e a aprendizagem.





Concluindo.

O propósito deste trabalho foi chamar a atenção para um grave problema emocional que, da mesma forma que atinge os vários aspectos do desenvolvimento infantil, também se reflete negativamente na aprendizagem escolar.

Separar, seja qual for a razão, uma criança pequena de sua mãe, durante o período de unidade biológica entre ambas, representa uma interferência injustificada com as mais importantes necessidades que acompanham o bebê.

Como tal, a criança reage com aflição legítima, a qual só pode ser avaliada pelo regresso da mãe ou, a mais longo prazo, pelo estabelecimento de vínculos com uma mãe substituta.

Não devemos esperar que todas as crianças manifestem um padrão muito regular de crescimento e se mostrem mais avançadas ou atrasadas em determinadas fases de suas vidas do que em outras.

Estas desarmonias em etapas do desenvolvimento infantil só se convertem em patologias se houver um desequilíbrio grande na personalidade, necessitando para isto, uma avaliação psicológica.

Determinar os distúrbios de uma criança no presente, bem como opinar a respeito da probabilidade de saúde ou doença mental futura, depende não só dos detalhes da desordem infantil existente, mas também de certas características fazem parte da constituição do individuo, isto é, são inatas ou adquiridas sob as influencias das primeiras experiências do bebê, como o trabalho procurou mostrar no segundo capitulo sobre o desenvolvimento social.

Num primeiro momento, é a mãe que age como a personalidade da criança, e desta interação poderá ou não ocorrer a formação de distúrbios.

Na medida em que os distúrbios dessa ordem são devidos á influencia do meio ambiente, podem ser eliminados se métodos diferentes de assistência á criança forem empregados, desde o principio.

Porém, uma vez gerados, as consequências não podem ser removidas, nem mesmo que se façam mudanças benéficas na forma de tratamento.

O tratamento inconsiderado das primeiras necessidades infantis tem ainda outras repercussões no desenvolvimento patológico.

Em seu avanço para a independência e autoconfiança, a criança aceita a inicial atitude, gratificadora ou frustradora, da mãe como um modelo que imitará e recriará em seu próprio ego.

Quando a mãe compreende, respeita e satisfaz os desejos da criança, até onde for possível, há boas probabilidades de que o ego infantil mostre igual tolerância.

Quando a mãe protela, nega e negligencia desnecessariamente a satisfação de desejos da criança, o ego desta desenvolve a chamada “hostilidade contra o id”, istouma propensão para o conflito interno, que é um dos requisitos prévios do desenvolvimento neurótico.

O trabalho também procura mostrar que a relação que dá força e condições para tornar o homem um ser social, é a relação mãe-filho, e que todas as relações humanas posteriores com qualidade, relações de amor, de amizade e todas as relações interpessoais, têm origem nesta relação primeira, que capacita o ser humano.

É através deste relacionamento tão especial, que se consegue a canalização das pulsões direcionadas no objeto libidinal e se estabelece o modelo para todas as relações humanas posteriores, incluindo a identificação positiva com um professor.

A privação de relações afetivas impede o individuo de iniciar ou manter, com outros adultos da sociedade, relações interpessoais capazes de ir além dos limites do benefício econômico imediato.

Em nossa sociedade ocidental, por exemplo, mudanças de condições sociais, em conseqüência de transformações econômicas, ideológicas, tecnológicas e outras que foram impostas, modificam o quadro das relações mãe-filho.

Nos últimos séculos, fomos sujeitos a algumas transformações fundamentais como a rápida deterioração da relação mãe-filho, iniciada com o advento da industrialização da produção, onde as mães foram recrutadas para o trabalho nas fábricas, de tal forma que elas foram afastadas de sua família e de suas atividades domesticas.

Este tipo de separação preparou o cenário para uma rápida desintegração do modelo tradicional de família em nossa sociedade ocidental.

As consequências aparecem nos problemas cada vez mais graves de delinquência juvenil e no crescente número de neuroses e psicoses na sociedade adulta.

Este fator torna-se mais grave ainda quando tais problemas se perpetuam num circulo vicioso, onde filhos que sofreram falta de afeto crescem incapazes de cuidar e amar de maneira adequada seus próprios filhos.

O progresso do desenvolvimento suscitou novas soluções para os problemas enfrentados: surgiram mais instituições de abrigo, serviços de adoção, creches de período integral, clínicas de aconselhamento para crianças e adolescente, “baby sitters”, bem como um maior número de formação de psiquiatras, psicólogos e o surgimento da própria Psicopedagogia.

Sob o aspecto social, as relações objetais perturbadas no inicio da infância, sejam elas desviadas, impróprias ou insuficientes, têm consequências que colocam em risco a própria base da sociedade.

Sem um modelo, as vitimas de relações objetais perturbadas apresentarão consequentemente, deficiência na capacidade de se relacionar.

Não poderão adaptar-se a sociedade.

Tais indivíduos serão incapazes de compreender e, sobretudo, de descobrir e de partilhar os vínculos nas relações que nunca tiveram.

As relações que eles são capazes de formar mal alcançam o nível de identificação e dificilmente vão além disso.

Estas crianças se traduzirão na aridez das relações sociais do adolescente.

Privados do alimento afetivo que lhes era devido, o único recurso será a violência.

O único caminho que permanece aberto para eles é a destruição de uma ordem social na qual são vítimas. Que espaço sobra em seus corações para a escola, para o desejo de aprender?

E mesmo que o tenha, fica difícil aprender tendo uma personalidade prejudicada.

A criança com carência em todos os sentidos da palavra tem necessidade de um ambiente cujo objetivo seja o cuidado e o afeto e, por último, o ensino.

Em outras palavras, para a criança que sofre privação, a escola pode se apresentar para ela como um lugar de pouca importância, ou como um “abrigo”. “lar substituto”, “prisão”, e as varias conotações que cada um destes termos tem para suas fantasias inconscientes.

Por isso, os cuidados e o ensino de crianças carentes que sofrem de privação, não devem se restringir apenas aos professores, mas paralelamente, orientar-se com o trabalho de um profissional especializado.

O não aprender, para tais crianças, diz respeito aos afetos e vínculos formados com a mãe, ou a ausência desta.

Por tanto, o estudo deste trabalho torna-se pertinente à medida que crianças institucionalizadas, privadas de afeto materno e que não desfrutam de um convívio familiar original, ainda têm, pelo menos, garantido o direito a educação e o direito de aprender.



 


Para saber mais sobre o assunto.

BOWLBY, John. Cuidados maternos e saúde mental. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1981.

BOWLBY, John. Apegoe perda: tristeza e depressão. V. 3. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes,1998.

COLL, César (Org.); PALACIOS, Jesus (Org.); MARCHESI, Álvaro (Org.). Desenvolvimento psicológico e educação: psicologia evolutiva. V. 1. Porto Alegre: Art. Méd., 1995.

FERNANDEZ, Alícia. A inteligência aprisionada. 2ª ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.

FREUD, Anna. Infância normal e patológica. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1971.

FREUD, Sigmund. Obras completas. v 2. Londres: Standart Edition, 1925.

PAIN, Sara. Diagnóstico e tratamento dos problemas de aprendizagem. 3ª ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.

SEGAL, Hanna. Introduçãoá obra de Melane Klein. Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda, 1975.





Texto: Profa. Alessandra Peixoto Lanini.

Pós-Graduanda em Psicopedagogia Institucional pelo INEC/UNICSUL.