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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Introdução a Metafísica: uma visão aplicada à história da filosofia.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume out., Série 18/10, 2010, p.01-08.

O conceito de metafísica é de difícil definição, isto porque sofreu alterações ao longo da história da filosofia, além de comportar internamente uma subjetividade.


Para Marilena Chauí a metafísica é a investigação em torno da clássica pergunta: O que é?


Neste sentido, ao questionar a existência das coisas, a metafísica cruzaria com a teoria do conhecimento, mas seu sentido vai além, uma vez que busca entender a essência das coisas, sua natureza.
Desde a antiguidade até o século XVIII, a metafísica realmente se confundiu com a teoria do conhecimento, investigando a existência do “ente”, aquilo que é percebido a priore, sem o auxilio de uma experiência sensível.
Portanto, a metafísica sempre demonstrou intensa preocupação com aquilo de Descartes chamou de conhecimento inato.
Quando, no século XVIII, David Hume, um empirista, demonstrou que os conceitos metafísicos não correspondem a nenhuma realidade externa, a concepção de metafísica se alterou.
Segundo Hume, as idéias metafísicas existiriam apenas no interior do sujeito, na imaginação.
A partir de então, a metafísica passou a estudar percepções fornecidas pelos sentidos, as quais não possuem constatação concreta, servindo de parâmetro para compor teorias e não certezas.
É por isto que, para Kant, a metafísica diz respeito aquilo que a capacidade de cada um permite conhecer, tomando como base o já conhecido que altera a percepção.
Em outras palavras, passaram a fazer parte da metafísica, questões subjetivas, aquilo que existe para cada sujeito e que pode ser relativizado.
A partir de 1920, a concepção de metafísica sofreu uma nova alteração, sendo chamada de metafísica contemporânea ou ontologia, passando a estudar a relação entre o objeto e o ser.
A função da metafísica passou a ser tentar fornecer explicações lógicas para a percepção da realidade pelo homem.
O que é diferente de tentar verificar se a realidade existe, tal como faz a teoria do conhecimento.
Não obstante, não era está à concepção original da metafísica dentro do contexto de seu nascimento.


O nascimento da Metafísica.
A metafísica nasceu na antiguidade, inicialmente se confundia com o que depois seria chamado de teoria do conhecimento, indagando sobre o que é a realidade, assim como esta realidade poderia ser conhecida.
Entretanto, quando os gregos começaram a buscar explicações racionais para a origem do mundo ordenado, o cosmos, o panorama se alterou.

Foi originada a cosmologia, a busca pelo principio ordenador da natureza, a força que provocava mudanças, chamada "physis".

Assim, a física seria uma explicação racional para a natureza, propiciando o entendimento do universo.
Uma concepção que deu origem a metafísica no ano 50 a.C, quando Andrônico de Rodes, ao classificar as obras de Aristóteles, cunhou a palavra, unindo o termo “meta” (depois de, após, acima de) com “física” (explicação racional da natureza).
A metafísica passou a significar, portanto, aquilo que está acima das explicações racionais da natureza, o que Aristóteles chamava de “filosofia primeira”, o estudo do “ser” enquanto “ser”.
Algo que depois seria chamado ontologia, a tentativa de entendimento das coisas por trás das aparências, além de sua concretude.
A busca pelo “ente”, a essência das coisas, antes de Aristóteles, já tinha sido objeto dos trabalhos de Parmênides.
Para ele, o “devir”, as mudanças, tornavam o pensar diferente do percebido, já que o percebido era pura aparência, enquanto o pensar expressaria o que é real.
Dentro desta concepção, aquilo que se pensa é real e não o que parece concreto e é fornecido pelos sentidos.
Anacronicamente, o imaginado seria real e não que percebemos.
Uma idéia também presente na filosofia de Platão, com sua distinção entre mundo sensível e inteligível.


A Metafísica Aristotélica.
Ao inspirar o termo metafísica, com sua "filosofia primeira", Aristóteles passou a ser considerado seu pai por muitos autores.
Entre estes, existem aqueles que afirmam que a metafísica começa de fato a se separar da teoria do conhecimento apenas neste momento.
Para Aristóteles, na obra Metafísica, assim chamada após sua morte, pelo seu organizador Andrônico, a essência não está no intelecto, mas nas coisas físicas.

O que não inviabiliza a permanência de um ser eterno, imutável e perfeito internamente em qualquer “ser”.

Esta entidade superior a tudo que existe e que, ao mesmo tempo, só é concreta em um mundo separado do nosso, ele chamou de “ser divino”.
Neste sentido, o “ser divino” seria a realidade suprema e primeira que originou a essência de todas as coisas e que, por isto mesmo, faz com que tudo queira imitá-lo para tentar se aproximar de sua perfeição.
Exatamente por isto, o “ser divino” seria o “primeiro motor”, o principio que move a realidade, transforma tudo, preservando sua essência.
Para Aristóteles, as coisas seriam compostas de matéria, forma e substância.
A matéria seria o elemento material; já a forma seria sua individualidade, suas particularidades.
A substância designaria características gerais, o que existe de comum entre coisas distintas.
Para citarmos um exemplo, poderíamos dizer que no caso de uma mesa, a madeira e o ferro seria a matéria, enquanto seu designer seria a forma e a substância permitiria identificar a mesa como tal, ou seja, seria o que existe de comum com a mesa analisada e outras que possuem forma diferente.
Acontece que, para Aristóteles, as coisas possuem predicados que definem como podemos percebê-las, ou seja, características que decorrem de sua essência ou de acidentes.
Nesta acepção, a essência é o que a coisa é originalmente.
O que pode mudar por acidente, através de alterações da essência, está contido no ato, nas conseqüências que surgem.
Para citar um exemplo, podemos dizer que a essência de mesa é definida por sua matéria e forma, composta de madeira e ferro e que tem o formato “x”.
Por acidente, esta mesa pode se tornar outro objeto, tal como uma cadeira, o que acontece depois desta transformação é o ato.
Assim, a árvore é o ato da semente e, por sua vez, a potência da semente é poder tornar-se árvore.
O conceito de potência designa aquilo que está contido em matéria, a possibilidade de transformação, sua potencialidade.
Estes conceitos influenciaram fortemente a metafísica cristã.


A Metafísica cristã.
A metafísica cristã surgiu a partir da necessidade de converter os intelectuais gregos, para os quais o dogma da revelação divina não bastava como argumento.
O que fez surgirem filósofos como Santo Agostinho e São Tomás de Aquino.
O primeiro passo foi à incorporação pelo cristianismo do pensamento platônico e aristotélico, em certo sentido, deturpado.
Algo que originou o neoplatonismo, o estoicismo e o gnosticismo.
O neoplatonismo retomou a filosofia de Platão, revestida com um conteúdo espiritual e místico.
O mundo inteligível das idéias foi transformado em território do “uno”, local da inteligência de Deus, onde todos deveriam aspirar chegar através da meditação e dos dogmas da igreja católica.
Já o mundo sensível foi convertido na cópia imperfeita do divino, um mundo decaído em que os homens se encontram, devendo galgar graus para ascender ao paraíso.
O estoicismo mesclou conceitos de Platão e Aristóteles para afirmar que a realidade do mundo sensível e inteligível está interligada pela razão ou inteligência universal, a qual regula a realidade.
O homem não conseguiria alcançar esta inteligência por ser governado pela vontade e não só pela razão.

Para os estóicos, a porta para alcançar Deus é a aceitação da providência, o homem precisaria aceitar a vontade divina, guiando-se pela moral cristã.

Igualmente mesclada à filosofia de Platão e Aristóteles, o gnosticismo considerava o mundo sensível como resultado da vitória do mal sobre o bem, afirmando que a salvação estaria na libertação da materialidade, para viver em um mundo puramente espiritual.
Estas três tendências influenciaram e alteraram os dogmas cristãos, separando matéria e espírito, inaugurando discussões que dominaram a Idade Média, tal como a natureza do mau e do demônio ou a existência da Santíssima Trindade.
O objetivo destas discussões era óbvio: provar a fé e reafirmar o dogma da revelação, tornando fé e razão compatíveis.
Um problema que só seria resolvido por Descartes no século XVII, trazendo problemas para pensadores como Galileu e Copérnico, antes do advento do racionalismo.


A Metafísica Clássica.
A partir do século XVI, iniciou-se o período denominado como metafísica clássica, marcando o rompimento com as questões medievais envolvendo a fé.
Um momento em que a razão adquiriu autonomia e passou a negar vários conceitos presentes no pensamento dos filósofos da antiguidade.
A definição de “ser” ou “substância”, a qual comportava antes inúmeros tipos, foi limitada a apenas três:
1. Substância infinita (Deus).
2. Substância extensa (corpo).
3. Substância pensante (alma).
No caso, negava-se a filosofia aristotélica, mas o pensamento de Platão era confirmado, baseando-se na oposição entre mundo sensível e inteligível.
A substância passou a ser definida como atributo principal das coisas, sendo características da substância extensa o movimento e o repouso.
Estes, por sua vez, determinariam a massa, a figura e o volume da substância pensante.
Como a essência (ente) das substâncias (ser) individuais concretas se distribuiriam em pensantes e extensas, o homem passou a ser visto como substância mista.
Deus seria o único “ente” com apenas uma única substância necessária a sua existência, todos os outros “seres”, precisariam de pelo menos duas substâncias.
Seguindo esta mesma linha de orientação, outro conceito que se tornou importante é o de causa ou causalidade, tomado como aquilo que produz um efeito.
Estão divididos em:
1. Causa eficiente, aquela que é determinada por uma ação anterior e que tem uma conseqüência.
2. Causa final, aquela que está presente apenas nas substâncias pensantes, não existindo concretamente, por isto, não possuindo necessariamente uma origem, portanto, poderia ser gerado do nada.
A despeito desta subjetividade, a metafísica tentou dar um passo atrás, vinculando a área novamente com a teoria do conhecimento.
A metafísica limitou seu campo de investigação, por definição, aquilo que a capacidade humana, a razão, consegue entender.
O que limitou os estudos metafísicos a natureza humana.
Enquanto a teoria do conhecimento passou a perguntar pelo que é a realidade, a metafísica começou a interrogar até onde podemos conhecer a realidade.
Na visão de muitos, foi inaugurada neste ponto uma crise da metafísica.


Concluindo.
A vinculação entre metafísica e teoria do conhecimento, como é óbvio, conduziu a uma crise.
Partindo da teoria do conhecimento, David Hume mostrou que as idéias nada mais são que hábitos mentais que não saem do nada, não são inatas e não possuem inspiração divina.
As idéias seriam fruto de uma associação de sensações, percepções e impressões recebidas pelos órgãos dos sentidos e retidas na memória, sendo esta última alterada por novas percepções.
Assim, as substâncias ou essências seriam apenas imagens da consciência, a causalidade, portanto, poderia ser definida como mero habito da mente estabelecido por percepções sucessivas.
Conseqüentemente, as questões metafísicas seriam criações artificiais, não possuindo correspondência com a realidade.
O que se tornou tão evidente que filósofos, como Kant, chegaram a afirmar que Hume tinha feito os homens despertar do sonho dogmático.
Hume havia tornado as questões metafísicas vazias de sentido, já que não eram universais, mas inerentes a cada sujeito.
 Entretanto, Kant não concordava inteiramente com Hume, pois considerava conceitos científicos inatos como questões metafísicas.
No caso, conceitos como espaço, tempo, quantidade ou causalidade, eram, para Kant, apenas questões metafísicas, sendo subjetivos e não possuindo uma natureza concreta ou real, embora palpável.
O tempo, por exemplo, não pode ser tocado, assim não possui materialidade concreta, mas seus efeitos podem ser sentidos, remetendo a investigação metafísica.
Podemos notar que, mesmo quando um objeto parece ser de natureza puramente cientifica, a metafísica ressurge das cinzas como uma fênix.
Um conceito que iria originar, no inicio do século XX, a chamada ontologia contemporânea.


Para saber mais sobre o assunto.
ARANHA, Maria Lucia Arruda & MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de filosofia. São Paulo: Moderna, 1992.
CHAUÍ, Marilena. Convite a filosofia. São Paulo: Ática, 1994.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

2 comentários:

  1. Estou encantada com o site! Está me ajudando muito! Prof°Fábio, seus textos são elucidativos.

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  2. Agradeço imensamente as palavras gentis.
    Forte Abraço.

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Forte abraço.
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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