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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O que é filosofia?

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume out., Série 28/10, 2010, p.01-09.

Quando os estudantes se deparam com a filosofia nos anos iniciais do ensino superior, qualquer que seja o curso ou área do conhecimento, com raras exceções, a pergunta que vem a mente é: mas afinal para que tenho que estudar este negócio chato?
Sendo assim, o que não dizer então da filosofia no ensino médio e fundamental?
Os alunos sempre consideram a filosofia como etérea, vaga, sem sentido, pouco atrativa e difícil de entender.
O grande problema é que muitas vezes os professores não conseguem apresentar a filosofia de forma mais dinâmica, criando uma falsa imagem do que é a filosofia.
Para tentar ajudar a sanar esta questão, vamos tentar introduzir o leitor no universo filosófico, essencial para qualquer área ou nível de escolaridade.
Por que não dizer essencial para a vida!


As origens do conhecimento filosófico.
A palavra filosofia, a partir do grego, significa amigo da sabedoria ou amor pela sabedoria (filo+sofia), remontando a antiguidade, tendo surgido conceitualmente na Grécia por volta do ano V a.C.
É interessante notar que, no idioma grego antigo, as palavras assumiam diversos significados dependendo do contexto ou das palavras próximas, daí tanto nomear filo como amor ou amizade, embora estes dois conceitos também estivessem ligados.
Para os gregos, o verdadeiro amor só era possível entre iguais, entre dois seres do mesmo sexo, dois homens ou duas mulheres.
Eles achavam que quando um homem se apaixonava por uma mulher, estava envolvido por sua beleza estética e não pela sua essência, seu verdadeiro eu.
Daí, inclusive, considerarem a mulher como um ser perigoso, o qual tinha sido responsável por estimular disputas e guerras entre os homens, basta lembrar da mítica guerra de troia que teria sido causada pela disputa por Helena.
O que simboliza o medo que a mulher despertava nos homens, até porque era um ser que sangrava todo mês, mas não morria, enquanto um guerreiro ferido em batalha, ao sangrar, terminaria falecendo.
Portanto, a amizade e o amor estavam intimamente relacionados.
O verdadeiro amor só poderia acontecer entre amigos.
De qualquer forma, segundo consta, foi Pitágoras (582-497 a.C) que inventou a palavra filosofia, embora seu surgimento conceitual remonte a um longo processo que começou antes dele, provavelmente no século VII a.C.


O contexto histórico do nascimento da filosofia.
A filosofia nasceu a partir da escravidão na Idade Antiga, a qual permitiu o ócio a uma minoria da população grega, questionando o senso comum e os mitos.

Na antiguidade, os gregos estavam organizados em Cidade-Estado, onde prisioneiros de guerra e pessoas endividadas se tornavam escravos.

A escravidão grega não tinha nenhum vinculo com o contexto étnico ou racial, quando alguém se via sem dinheiro, podia pegar empréstimo dando a esposa e filhos como garantia.

Caso não pagasse a divida, o devedor tinha, portanto, sua família escravizada e podia ele mesmo se tornar escravo.
Exatamente por este motivo, as pessoas que não tinham posses eram chamadas de proletários, cujo significado é “aquele que possui como posse sua prole, seus filhos e esposa”.
Neste contexto, até o surgimento da filosofia, as opiniões eram de senso comum, crenças coletivas baseadas nas aparências.
Isto só mudou a partir do momento em que alguns poucos privilegiados, no caso os cidadãos das Cidade-Estado, graças ao trabalho escravo, passaram a gozar de tempo livre para pensar, refletir sobre o mundo a sua volta.
Os escravos até mesmo administravam as posses de seus senhores, restando a estes últimos admirar o mundo e investigar o que existia por trás das aparências.
As opiniões de senso comum, inicialmente questionadas, foram aquelas que embasavam os mitos, na realidade explicações sobrenaturais para aquilo que a razão não conseguia compreender.
Embora os mitos fossem mais amplos do que isto, porque normatizavam a vida em sociedade, fornecendo um código de ética primitivo ao demonstrar as pessoas como se comportar através de lições transmitidas de geração em geração.
O mito de Édipo, por exemplo, aquele no qual o filho se apaixona pela mãe, sem saber que ela era sua mãe, e acaba em tragédia; servia para demonstrar que relações incestuosas podiam acabar mal.
Já o mito de Narciso, que teria se apaixonado pela própria imagem refletia em um lago e se afogado; simbolizava como a vaidade poderia acabar em tragédia.
Assim, quando a filosofia surgiu, os mitos eram tidos como ordenadores do mundo.
Ao questioná-los, os primeiros filósofos passaram a procurar por um elemento ordenador racional, algo que se opusesse ao Kaos, a desordem.
Eles procuravam entender o Kosmos, o principio organizador do universo.


O mito da caverna.
A filosofia pode ser simbolizada pelo “Mito da Caverna”, atribuído a Sócrates e narrado por Platão na obra A República, dizendo muito sobre quem somos nós seres humanos e como nos comportamos até hoje.
Segundo o mito, três homens teriam sido criados em uma caverna, vendo apenas as sombras do que se passava lá fora, pois estavam acorrentados junto à parede.
Um dia um deles consegue se soltar e sair da caverna, no inicio fica meio cego pela luz do sol que nunca havia visto, mas depois começa a enxergar e percebe que o mundo real não eram as sombras que conhecia.
Maravilhado, ele retorna e conta aos outros dois o que havia visto.
Assustados, um dos seus companheiros de caverna propõem ao outro matar aquele homem que estava perturbando a ordem estabelecida.
Mais ponderado, o terceiro afirma que o companheiro, que dizia ser a realidade vista na caverna apenas sombras, era apenas um louco não merecia atenção.
Uma situação que foi satirizada por Mauricio de Souza e que demonstra que ainda vivemos em uma caverna, mostrando que cada um de nós pode até mesmo construir sua própria caverna.




































Filosofia para quê?
A alegoria do “Mito da Caverna” demonstra como estudar filosofia pode ser difícil, cegar em um primeiro momento, fazendo pensar que não estamos entendendo nada e que aquilo não serve para nada.
No entanto, a filosofia permite desvendar o que está por trás das aparências.
Exatamente por isto, a filosofia nasceu na antiguidade agregando todas as áreas do conhecimento humano, era o que mais se aproximava do que hoje chamamos ciência.
Os filósofos foram os primeiros cientistas e professores, questionando o mundo através de grandes debates em praça pública, isto antes mesmo do aparecimento da escrita, tentando derrubar as verdades estabelecidas.
Na ocasião surgiu à maiêutica, um processo pedagógico atribuído a Sócrates, constituindo em multiplicar as perguntas para obter, por indução de casos particulares e concretos, um conceito geral.
Neste sentido, a figura de Sócrates sintetiza a essência do que é a filosofia.
Ele teria vivido em Atenas, no século IV a.C., era um homens feio, mas que, quando falava, fascinava.
Procurando pelos jovens, passava horas em praça pública, interpelando os transeuntes, dizendo que quanto mais aprendia, mais percebia nada saber, pois ainda restava muito para conhecer.
Uma idéia expressa pela famosa frase: “Só sei que nada sei”.
Seu método consistia em destruir a ilusão do conhecimento, levando seu interlocutor a concluir, por si só, afirmações contraditórias, não tendo outra saída a não ser reconhecer sua própria ignorância.
Exatamente por este motivo, Sócrates terminou condenado a escolher entre o exílio e a morte, optando por tomar cicuta, um veneno.
Na antiguidade, o exílio era considerado pior que a morte, pois isolava o sujeito, os gregos consideravam os estrangeiros com status social abaixo dos escravos.
Ninguém dava atenção ou oportunidades aos estrangeiros, daí ser exilado, para Sócrates, significaria viver a margem da sociedade, sem poder interferir para mudar as coisas.


Sócrates nunca existiu!
A vida de Sócrates simboliza o que é a filosofia: um questionamento da realidade que pode ser incomodo e perturbador da ordem estabelecida.
Não é a toa que nos Estados totalitários e nas ditaduras, a filosofia é sempre eliminada ou minimizada nos currículos escolares, enquanto os filósofos são perseguidos.
O grande problema, com relação a Sócrates, é que, a maioria dos especialistas em história da filosofia antiga, acreditam, ele nunca existiu, sendo um personagem criado por Platão, o qual nos seus textos se dizia um discípulo.
Segundo Platão, Sócrates era analfabeto e não deixou registro escrito, todo seu pensamento foi narrado pelo suposto discípulo.
Platão era um aristocrata e, possivelmente, usou o personagem Sócrates para abordar problemas que não poderia tratar diretamente.
Inclusive demonstrou o seu destino, caso tivesse optado por se opor aos seus pares aristocratas, ao narrar o julgamento de Sócrates e seu fim trágico.


A evolução da filosofia.
Na Idade Média, restrita aos mosteiros e manipulada pelos religiosos católicos, a filosofia assumiu um caráter de defesa da fé.
Um contexto brilhantemente ilustrado pelo filme “O nome da rosa”.

A filosofia retomou sua vocação questionadora somente no inicio da Idade Moderna, quando o francês René Descartes inaugurou o racionalismo e a teoria do conhecimento.

Descartes provou racionalmente, através da matemática, a existência de Deus, usando a prova ontológica da existência de Deus, uma prova usando a essência.
Ele possibilitou as bases para fundar a ciência, depois, separando fé e razão, permitindo construir opiniões sistematizadas.
No entanto, até o século XVIII, dentro do contexto do surgimento das universidades na Idade Média, todas as áreas do conhecimento humano podiam ser divididas em apenas quatro: teologia, direito, medicina e filosofia.
Portanto, excluindo os assuntos no âmbito da teologia, direito e medicina; todas as outras áreas do conhecimento humano eram consideradas filosofia, tal como, por exemplo, matemática, física, química, história, geografia, etc.
A ciência e a filosofia se confundiam, tornando o conhecimento filosófico extremamente amplo.
Foi quando os iluministas pensaram na enciclopédia, iniciando a separação da filosofia em várias áreas.
Para os iluministas, o conhecimento acumulado pela humanidade havia se tornado vasto demais para ser contido apenas pela filosofia, sendo necessário sistematizar a continuidade de sua evolução.
O que a enciclopédia se não a divisão do conhecimento humana em áreas especializadas?
O que fez, a partir de então, a filosofia começar a se distinguir da ciência.
Enquanto a filosofia passou a pretender alcançar a verdade, a ciência iniciou sua busca pelo entendimento da realidade.


Concluindo.
Seja qual for à profissão ou ocupação, o mundo contemporâneo exige dos indivíduos senso critico, é necessário saber diferenciar as coisas para não ser enganado.
A passagem do senso comum para a criticidade é operada, justamente, pela filosofia, estimulando a reflexão e o questionamento sobre as verdades estabelecidas.
A filosofia elimina o achismo e torna as opiniões mais embasadas e sistematizadas, possibilitando construir metodologias.
O que cria o que Marilena Chauí chamou de “atitude filosófica”: a substituição de afirmações por indagações, ajudando a enxergar além das aparências.
Assim, a filosofia permite adquirir um instrumental que ajuda a pensar de forma lógica, com maior coerência, possibilitando formular o discurso de maneira clara.
Poderia existir uma ferramenta mais poderosa e valiosa?


Para saber mais sobre o assunto:
GOLDSCHMIDT, V. “Tempo histórico e tempo lógico na interpretação dos sistemas filosóficos” In: A religião de Platão. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1963, p.139-147.
LALANDE, André. Vocabulário técnico e critico da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
PRADO JR, Caio. O que é filosofia? São Paulo: Brasiliense, 1997.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

2 comentários:

  1. Por favor, alguem pode me ajudar com um trabalho de filosofia, eu e meu grupo temos que explicar sobre a passagem da filosofia crista para a filosofia moderna.
    Alguem pode me ajudar ?

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  2. Temos vários textos que atendem sua necessidade de pesquisa, basta procurar por palavras-chaves relacionadas, as quais estão no final da página.

    Forte Abraço.
    Equipe de Para entender a história.

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Esteja a vontade para debater idéias e sugerir novos temas.
Forte abraço.
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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