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sábado, 6 de julho de 2013

Dificuldades de aprendizagem em leitura e escrita nas séries iniciais do Ensino Fundamental.



Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 4, Volume jul., Série 06/07, 2013, p.01-18.
 

O presente artigo faz parte da Monografia de Conclusão de Curso de Pós-Graduação em Psicopedagogia Institucional pelo INEC/Universidade Cruzeiro do Sul, orientada pelo Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
 

 
Profa. Marcia Cecília Salmeron.

Pós-Graduada em Psicopedagogia Institucional pelo INEC/UNICSUL.   
Professora da Rede Estadual de Ensino do Estado de São Paulo.

 

A educação formal reveste-se de grande importância sociocultural no mundo moderno e o bom desempenho escolar é indicativo de futuro sucesso social.
O acesso à escola tornou-se universal e no Brasil garante-se às crianças de 6 a 14 anos a gratuidade da educação fundamental.
Verifica-se, todavia, que essa universalidade não garante a qualidade da educação, visto que as queixas de mau desempenho escolar multiplicam-se nos consultórios médicos.
O presente trabalho objetiva analisar os principais fatores que interferem no processo de aprendizagem nas séries iniciais do ensino fundamental, como essa lacuna de aprendizagem na área de leitura e escrita afetam o desenvolvimento social e o processo de conhecimento, bem como o caminho para atender com qualidade os alunos que não venceram as habilidades propostas no Plano de Ensino.
A obtenção de dados para a composição desse trabalho se deu através de pesquisa bibliográfica, cujas fontes variaram desde livros e  revistas especializadas a consultas pela Internet a artigos escritos por estudiosos sobre o tema.  
Em adição às pesquisas, anexei os resultados de rendimento escolar de alunos de 1º a 4º anos e de correção de ciclo, acompanhados por mim como coordenadora pedagógica nos 1º e 2º bimestres de 2012, sendo que os anos anteriores foram obtidos através de sondagem escolar.

 
Introdução.
Há uma grande lacuna de aprendizagem nas séries iniciais do ensino fundamental em consequência de um grande número de alunos com dificuldade em aprendizagem, interferindo no seu futuro desenvolvimento cognitivo, acadêmico e social.
Para uma melhor análise dessas dificuldades em aprendizagem mister se faz uma breve análise do processo de alfabetização.
O ser humano, desde a antiguidade, procurou transmitir seus conhecimentos como lhe era possível: através de hieróglifos, desenhos e símbolos. 
A representação gráfica e a expressão oral, transmitida de pais para filhos, foram muito utilizadas até serem substituídas pela linguagem escrita através do alfabeto.
A criança, desde seu primeiro contato com o mundo, aprende a interpretar os gestos, olhares, imagens e palavras. 
Como um processo natural de sua sobrevivência, aprende a se alimentar, falar, andar, interpretar os gestos, a palavra e a pensar.
Na escola a aprendizagem também é um processo natural e a criança é exposta a uma atividade mental complexa envolvendo a percepção, as emoções, o pensamento e a motricidade, entre outros. 
Esse processo é potencializado por meio do aprendizado da escritura e leitura, permitindo ao aluno acesso a todas as áreas da cultura.
De uma maneira geral, a alfabetização é definida como o aprendizado do alfabeto. 
Contudo, essa etapa consiste não só nas habilidades mecânicas, mas na interpretação crítica de novos conhecimentos e novas formas de compreender o uso da linguagem. 
Numa perspectiva social, é por meio da escrita que contribuímos para a evolução humana do conhecimento através de registro das informações que vão estabelecendo a construção do conhecimento.  
A leitura, por sua vez, aguça a percepção crítica e reflexiva, para que aconteça a modificação do contexto em que estamos inseridos.
Considera-se ler escrever como habilidades essenciais para que um indivíduo possa se inserir nas diversas situações requeridas pela sociedade moderna, seja no nível pessoal, no ambiente de trabalho, como consumidor, como eleitor, entre inúmeras outras atividades.
Numa perspectiva social, é por meio da escrita que contribuímos para a evolução humana do conhecimento através de registro das informações que vão estabelecendo a construção de conhecimentos.  
Dessa forma, a educação formal no mundo moderno exerce um importante valor sociocultural. 
O bom desempenho escolar é indicativo do futuro sucesso social do indivíduo e cabe à escola cumprir sua função social de possibilitar ao aluno o desenvolvimento das competências de leitura e escrita em seus diversos gêneros.   
O estudo do processo de aprendizagem e suas dificuldades devem ser analisados primeiramente com relação à realidade externa e interno do aluno, utilizando vários campos de conhecimento e de uma forma global compreender a condição do sujeito que tem dificuldades em leitura e escrita.
Emília Ferreiro e Ana Teberosky no livro Psicogênese da Língua Escrita (1999) despertaram a atenção dos educadores ao possibilitar a construção de uma didática de alfabetização, concentrando suas pesquisas em mecanismos cognitivos relacionados à leitura e à escrita e comprovando o papel importante que a criança tem na construção da linguagem escrita ao perceber que a criança reinventa a escrita. 
As autoras destacam que a interação da criança com o meio reveste-se de fundamental importância neste processo de alfabetização, enfatizando que o trabalho de alfabetização não se restringe apenas à sala de aula, mas abrange vários setores, desde o seu desenvolvimento emocional e o ambiente social onde se encontra inserido, até a relação escola e sociedade. 
Consideram também essencial o conhecimento dos estágios de desenvolvimento da percepção da linguagem escrita.
 
De acordo com a teoria exposta ano livro Psicogênese da Língua Escrita, toda criança passa por quatro fases distintas até que esteja totalmente alfabetizada:

- Pré-silábica: não consegue relacionar as letras com os sons das línguas faladas, registrando rabiscos, letras, símbolos e desenhos misturados a números;
- Silábica: tem a noção de que cada sílaba corresponde a uma letra;
- Silábico-alfabética: mistura a lógica da fase anterior com a identificação de algumas sílabas, o valor sonoro impõe-se forçosamente;
- alfabética: domina, enfim, o valor das letras e sílabas, reconstruindo assim o sistema linguístico.



A Alfabetização e a dificuldade de aprendizagem.
A aprendizagem e a construção do conhecimento que fazem parte das atividades escolares deveriam acontecer de forma natural e espontânea e até de certa forma prazerosa e não como um fardo. 
Contudo, o que se verifica é que muitos alunos apresentam grandes dificuldades nas séries iniciais do Ensino Fundamental com relação à leitura e à escrita.  
Essas dificuldades, se não detectadas e corrigidas acarretarão problemas no desempenho escolar e, consequentemente, no futuro desses alunos.
Segundo Emília Ferreiro (1986), tudo aquilo que se passa com a criança no início de sua escolaridade é decisivo para toda a sua vida escolar.    
Acrescenta também a educadora, que a criança não precisa chegar na escola sabendo sobre alfabetização, é a escola que tem a obrigação social de alfabetizar.
A base do aprendizado é primordial para que não haja lacunas futuras no conhecimento gramatical.   
Erros ortográficos, por exemplo, poderão ocorrer se houver deficiências na assimilação de normas gramaticais.
Mas o que é realmente um indivíduo alfabetizado?  
É suficiente aprender as letras do alfabeto, juntá-las em sílabas, em palavras e frases para, em seguida compor um texto?  
Considera-se que um indivíduo alfabetizado é aquele que tenha uma formação que lhe possibilite produzir textos com proficiência, bem como leia e interprete textos criticamente, tendo assim as condições adequadas para a ampliação de sua participação social e exercício efetivo da cidadania. 
A definição correta do conceito de alfabetizado é essencial para se medir os reais índices de analfabetismo no país e consequente tomada de ação no setor da Educação.
Roxane Rojo (CENP 2004) esclarece sobre as alterações no conceito de alfabetização nos Censos Demográficos.  
Antes de 1940 era considerado alfabetizado aquele que declarasse saber ler e escrever, o que era interpretado como a capacidade de escrever o próprio nome; a partir de 1950 passou a considerar-se alfabetizado aquele capaz de escrever um bilhete simples, ou seja, capaz de não só ler e escrever, mas de já exercer uma prática de leitura e escrita; até o momento atual, em que os resultados do Censo têm sido frequentemente apresentados, sobretudo nos casos das Pesquisas nacionais por Amostragem de Domicílios (PNADs), pelo critério de anos de escolarização, em função dos quais se caracteriza o nível de alfabetização funcional da população, ficando implícito nesse critério que, após alguns anos de aprendizagem escolar, o indivíduo terá não só aprendido a ler e escrever, mas também a fazer uso da leitura e da escrita. 
Verifica-se, assim, uma progressiva, embora cautelosa, extensão do conceito de alfabetização em direção ao conceito de letramento: do saber ler e escrever em direção ao ser capaz de fazer uso da leitura e da escrita.
     

Diferença entre dificuldade e transtorno de aprendizagem.
É essencial estabelecermos a importância da diferenciação entre o que é uma dificuldade de aprendizagem e o que é um quadro de Transtorno de Aprendizagem.
A criança com dificuldade de aprendizagem é aquela que apresenta bloqueios na aquisição do conhecimento, na audição, na fala, leitura, raciocínio ou habilidades matemáticas.
Essas dificuldades podem originar-se por origens diversas ou ser uma combinação de vários fatores, tais como problemas anteriores à vida escolar, problemas familiares, emocionais ou déficits cognitivos, problemas na proposta pedagógica, capacitação do professor, entre outros. 
Para Fonseca (1995), a criança com dificuldade não deve ser rotulada como deficiente.   Trata-se de uma criança normal que aprende de uma forma diferente, a qual apresenta uma discrepância entre o potencial atual e o potencial esperada.  
Não pertence a nenhuma categoria de deficiência, não sendo sequer uma deficiência mental, pois possui um potencial cognitivo que não é realizado em termos de aproveitamento educacional.  
O risco está em não se detectar esses casos, não se proporcionando no momento propício às intervenções pedagógicas preventivas nos períodos de maturação mais plásticos.  
Se não se detectarem esses casos, a escola com o seu critério seletivo de rendimento pode influenciar e reforçar a falta de adaptação, culminando, muitas vezes, mais tarde, no atraso mental, na delinquência ou em sociopatias.
Na mesma linha de raciocínio, Soares (2005), observa que, exigir de todos os alunos a mesma atuação é um caminho improdutivo; cada um é diferente, com  o seu próprio termo lógico e psicológico, e cada um tem uma maneira específica de lidar com o conhecimento.  
Respeitar este ritmo para o ato de aprender é preservar o cérebro de uma possível sobrecarga que contribuiria para uma desintegração total do processo ensino-aprendizagem.
Os transtornos de aprendizagem, por sua vez, compreendem a falta de habilidade específica como leitura, escrita ou matemática em indivíduos que apresentam resultados abaixo do esperado para o nível de desenvolvimento no qual eles se encontram. 
Tais transtornos podem originar-se de distúrbios na interligação de informações em várias regiões do cérebro.  
Dentre os transtornos de aprendizagem, o mais agravante é o transtorno de leitura e escrita, o qual será abordado neste estudo.
Os professores relatam que os alunos com dificuldade de aprendizado são desajeitados, apresentam falhas na integração perceptiva, na memória, bem como dificuldades na leitura e na escrita, nos conceitos numéricos e nos processos de pensamento e linguagem.
As dificuldades apresentadas por muitas crianças ao realizar uma tarefa na escola podem originar-se por problemas familiares, capacitação do professor ou mesmo inadequação na proposta pedagógica, não significando necessariamente um fenômeno biológico de transtorno de aprendizagem.
O transtorno de aprendizagem é uma disfunção bem distinta do que é dificuldade. Dentro da proposta de letramento podemos distinguir a diferença entre ambos.
 

Tipos de transtorno de aprendizagem.
Dentre os transtornos existentes serão apresentados os transtornos de leitura e escrita.
O transtorno de leitura, também conhecido como dislexia, é caracterizado por uma dificuldade específica em compreender palavras escritas.
No transtorno de leitura apresentam-se distorções, substituições e omissões de palavras na leitura oral.
Tanto a leitura em voz alta, quanto a silenciosa caracterizam-se por lentidão e erros de compreensão.
Trata-se de um transtorno específico das habilidades de leitura e está relacionado à idade mental, problemas de acuidade visual ou baixo nível de escolaridade.
O transtorno de escrita, também conhecido como disortografia, consiste numa escrita com numerosos erros de gramática e de ortografia, aliada à má organização dos parágrafos, além de uma caligrafia ruim.

Dentre os diversos motivos que podem condicionar uma escrita desse tipo, destacam-se:
- Alterações na linguagem:  o atraso na aquisição ou no desenvolvimento e utilização da linguagem e a pobreza de vocabulário podem facilitar os erros de escrita.  
Nesta áreas incluem-se os erros originados por uma alteração específica da linguagem, como são os casos das dislálias e/ou  disartrias, prejudicando o desenvolvimento.
- Erros na percepção, tanto visual como auditiva: dificuldade para memorizar os esquemas gráficos ou para discriminar qualitativamente os fonemas. 
 - Falhas de atenção: a criança, na sua fase inicial, sente-se impossibilitada a fixar os grafemas ou fonemas corretamente.



A criança, a família e o meio sócio econômico.
Para um estudo adequado do processo de aprendizagem há que se analisar a realidade externa e interna da criança que tem dificuldades em leitura e escrita.
É essencial que sejam oferecidas à criança as oportunidades apropriadas para que adquira as habilidades adequadas ao processo de aprendizado.
O papel do adulto é fundamental nesse processo, porque é ele que media a relação da criança com o mundo.  
Enfatiza ASSIS (1990) que ambientes familiares pouco esti­muladores e com pouca interação sociolinguística podem levar a criança ao não desenvolvimento de suas aptidões e habilidades.
Assim sendo, se a relação com o adulto for positiva, é mais provável que a criança receba bem o que virá dele; e, se for negativa, é provável que veja com desconfiança ou mesmo rejeite o que lhe é oferecido por ele. 
Além disso, aprender é tomar conhecimento de instrumentos que são de domínio do adulto e apropriar-se desses instrumentos é identificar-se com o adulto. 
Se a criança tem uma imagem negativa do adulto, será menos provável que queira ser como ele é, caso contrário, se tiver uma imagem positiva, provavelmente tentará assemelhar-se a ele.
Vários fatores podem interferir na vida escolar: o ambiente doméstico tranquilo e saudável é de fundamental importância, pois é ele que vai nortear a estabilidade emocional da criança.  
As primeiras lições são ministradas pelos pais, que vão orientar a criança em seus primeiros contatos com o mundo, que serão desenvolvidos ao longo de sua vida.  
A estabilidade do ambiente doméstico e o estímulo familiar serão de grande influência no poder de produção escolar da criança.
A tendência é a criança espelhar o cotidiano: se conviver num lar impregnado de tensões e preocupações, ela se tornará tensa e negativa.
Se conviver num clima autoritário, poderá revoltar-se conta qualquer tipo de autoridade ou intimidar-se perante os professores, bem como poderá agir como dominadora e hostil com outras crianças mais jovens que ela.
Por outro lado, se o seu lar for afável e acolhedor, permitindo-lhe expressar-se livremente, ela lidará melhor com seus sentimentos e situações.
Strick e Smith (2001) reforçam o conceito ao afirmar que as crianças que recebem um incentivo carinhoso durante toda a vida tendem a ter atitudes positivas sobre si mesmas e sobre o aprendizado. 
Segundo as autoras, vários fatores influenciam sobre o aprendizado:  o estresse emocional, a ansiedade em relação a dinheiro, mudanças de residência, discórdia familiar ou doença podem comprometer seu desempenho escolar. 
Outro ponto que destacam é a rigidez na sala de aula.  
Se colocados numa sala com um professor muito rigoroso sobre tarefas e testes ou que usa materiais e métodos inadequados às suas necessidades eles serão reprovados.
Outra teoria considerável é a de Emília Ferreiro (1986), observando que a criança que convive num ambiente onde os pais são cidadãos que possuem maior grau de informação, possui melhores condições de serem alfabetizados com mais frequência, devido ao acesso à leitura e à escrita.  
Vygotsky (1989) acrescenta que é o próprio meio que influencia na aprendizagem da criança, ou seja, a criança constrói o seu conhecimento a partir do momento em que interage com outras crianças.
Já Piaget destaca que a aprendizagem se processa em períodos e que a criança aprende de acordo com a faixa etária.  
Educar, para Piaget é procurar a atividade, estimular a procura do conhecimento. 
Para ele o conhecimento não pode ser uma cópia, visto que a inteligência depende sempre da ação do sujeito sobre os objetos, numa espécie de diálogo entre estruturas internas e a realidade interna.
É importante destacar que as condições socioeconômico-culturais mais precárias também podem afetar significativamente o aprendizado da criança.  



As dificuldades de aprendizagem.
Define-se dificuldade de aprendizagem como um termo genérico que se refere a um grupo heterogêneo de desordens manifestadas por dificuldades significativas na aquisição e uso da audição, fala, leitura, escrita, raciocínio ou habilidades matemáticas.  
Esses transtornos são intrínsecos ao indivíduo e presume-se que devido à disfunção do Sistema Nervoso Central.   
Apesar de que uma dificuldade de aprendizagem pode ocorrer concomitante com outras condições incapacitantes (por exemplo, deficiência sensorial, retardamento mental, distúrbio social e emocional) ou influências ambientais (por exemplo, diferenças culturais, instrução insuficiente/inadequada, fatores psicogênicos), não é o resultado direito dessas condições ou influências.
Para se analisar uma criança com dificuldades de aprendizagem há que se considerá-la em sua individualidade, não como um incapaz, mas alguém que apresenta alguma dificuldade para aprender.  
Para Guerra (2002), crianças com dificuldades de aprendizagem não são deficientes, não são incapazes e, ao mesmo tempo, demonstram dificuldades para aprender. 
Incapacidades de aprendizagem não devem ser confundidas com dificuldades de aprendizagem.
As crianças com dificuldades de aprendizagem são crianças suficientemente inteligentes, não tem problemas de audição ou visão, aparentemente são bem organizadas emocionalmente, mas se deparam com bloqueios em sua habilidade em aprender.
Apresentam-se inquietas, desatentas, confundem-se com as instruções do professor e se esquecem de suas obrigações com relação a deveres de casa.
Conforme entendimento de Strick e Smith (2001), as dificuldades de aprendizagem referem-se não a um único distúrbio, mas a uma ampla gama de problemas que podem afetar qualquer área do desempenho acadêmico.
As dificuldades são definidas como problemas que interferem no domínio de habilidades escolares básicas, e elas só podem ser formalmente identificadas até que uma criança comece a ter problemas na escola.
Souza (1996) esclarece que os fatores relacionados ao sucesso e ao fracasso acadêmico se dividem em três variáveis interligadas: ambiental, psicológica e metodológica.
O contexto ambiental engloba fatores relativos ao nível socioeconômico e suas relações com ocupação dos pais, número de filhos, escolaridade dos pais etc., sendo o mais amplo em que vive o indivíduo.
O contexto psicológico refere-se aos fatores envolvidos na organização familiar, ordem de nascimento dos filhos, nível de expectativa etc, e as relações desses fatores são respostas como ansiedade, agressão, autoestima, atitudes de desatenção, isolamento, não concentração.  
O contexto metodológico engloba o que é ensinado nas escolas e sua relação com valores como pertinência e significado, com o fator professor e com o processo de avaliação em suas várias acepções e modalidades.
A autora ressalta que as dificuldades de aprendizagem aparecem quando a prática pedagógica diverge das necessidades dos alunos. 
Como consequência do fracasso escolar, devido à inadequação para a aprendizagem, a criança é envolvida por sentimentos de inferioridade, frustração, e perturbação emocional, o que torna sua autoimagem anulada, principalmente se este sentimento já fora instalado no seu ambiente de origem.
Por outro lado, sendo a aprendizagem significativa para o aluno, este se tornará menos rígido, mais flexível, menos bloqueado, isto é, perceberá mais seus sentimentos, interesses, limitações e necessidades.
Elucida Fonseca (1995), que a aprendizagem é uma função do cérebro. 
A aprendizagem satisfatória se dá quando determinadas condições de integridade estão presentes, tais como: funções do sistema nervoso periférico, funções do sistema nervoso central, sendo que os fatores psicológicos também são essenciais.  
Vários estudos têm assegurado que os dois hemisférios do cérebro trabalham em conjunto.  Ainda de acordo com o autor, o hemisfério esquerdo é responsável pelas funções de análise, organização, seriação, atenção auditiva, fluência verbal, regulação dos comportamentos pela fala, raciocínio verbal, vocabulário, cálculo, leitura e escrita.
É o hemisfério dominante da linguagem e das funções psicolinguísticas.
O hemisfério direito é responsável pelas funções de síntese, organização, processo emocional, atenção visual, memória visual de objetos e figuras.
O hemisfério direito processa os conteúdos não verbais, como as experiências, as atividades de vida diária, a imagem, as orientações espaço temporais e as atividades interpessoais.
O autor destaca que para que uma criança aprenda é necessário que se respeitem várias integridades, como o desenvolvimento perceptivo-motor, perceptivo e cognitivo, e a maturação neurobiológica, além de inúmeros aspectos psicossociais, como: oportunidades de experiências, exploração de objetos e brinquedos, assistência médica, nível cultural etc.
Quando o professor julgar necessário, deve solicitar o acompanhamento de profissionais como fonoaudiólogos, psicólogos, pedagogos e psicopedagogos para intervirem no sentido de orientar sobre os procedimentos de aprendizagem adequados.



Causas das dificuldades em aprendizagem e o papel do professor.
A aprendizagem escolar é considerada um processo natural da criança, porém muitos alunos sentem grandes dificuldades com relação à leitura e à escrita nas primeiras séries do Ensino Fundamental.  
A aprendizagem escolar envolve uma complexa atividade mental na qual o pensamento, a percepção, as emoções, a memória, a motricidade e os conhecimentos prévios estão envolvidos e onde a criança deva sentir o prazer em aprender.
Contudo, o professor depara-se com muitas crianças que apresentam grandes dificuldades nas séries iniciais do Ensino Fundamental com relação à leitura e à escrita.  
Estudos indicam que os processos utilizados pelas crianças quando leem e escrevem não são os mesmos, pois há uma complexidade que podem determinar essas dificuldades, uma vez que cada pessoa tem suas particularidades e anseios que determinam sua forma de aprender. 
Torna-se de fundamental importância que tais dificuldades sejam detectadas e corrigidas evitando assim problemas no desempenho escolar dessas crianças.
A dificuldade em aprender não significa necessariamente em um transtorno, podendo ser causada por vários fatores, como: problemas na proposta pedagógica, capacitação do professor, problemas familiares anteriores à vida escolar, bem como déficit cognitivo, entre outros.
Outro importante fator que pode interferir na vida escolar é a vida em família.  Um ambiente doméstico tranquilo e saudável é de fundamental importância, pois é ele que vai nortear a estabilidade emocional da criança.  
As primeiras lições são ministradas pelos pais, que vão orientar a criança em seus primeiros contatos com o mundo, que serão desenvolvidos ao longo de sua vida.  
A estabilidade do ambiente doméstico e o estímulo familiar serão de grande influência no poder de produção escolar da criança.
Por vezes nenhum fator específico é a causa para o diagnóstico da dificuldade, podendo ser uma combinação de fatores.  
Dessa forma, é importante que se analise os fatores que podem interferir no processo de aprendizagem, antes de focar o enfoque terapêutico.  
Deve-se investigar o ambiente no qual a criança vive, onde a ele não recebe os estímulos de que carece, bem como a metodologia pedagógica, porque o problema pode ser que o aluno não consegue se adaptar à metodologia aplicada pelo professor. 
Assim, alunos difíceis que apresentam oscilação de humor, não conseguem organizar adequadamente o pensamento e não entendem os processos lógico-matemáticos, podem ser resgatados na sua aprendizagem pelo entendimento de sua dificuldade na época apropriada, traçando-se uma estratégia pedagógica adequada à suas necessidades.
Outras crianças, todavia, podem não apresentar nenhum fator externo a ela e mesmo assim não conseguir desenvolver plenamente suas habilidades pedagógicas.
É o caso das crianças com distúrbio de aprendizagem, cujas limitações intrínsecas se manifestam através de déficits linguísticos, alteração no processamento auditivo e outros vários fatores que podem prejudicar significativamente o aprendizado da leitura e da escrita.
Existe uma grande tendência de se transferir a problemática de dificuldades de aprendizado à área da Saúde Pública, rotulando-a como transtornos de aprendizagem, de cunho biológico, sem uma acurada e devida consideração às implicações culturais, econômicas e sociais que ela envolve.
Cabe à escola, na figura do professor, ser o mediador desse processo, fazendo uma análise da criança com dificuldade de aprendizagem, considerando o estado geral da criança em seu dia-a-dia, o contexto familiar em que está inserida e os eventuais problemas familiares que possa estar vivenciando.
O papel do professor enquanto identificador dos problemas de aprendizagem é efetivo.
A percepção inicial das alterações na aprendizagem escolar deve ocorrer por meio de uma sondagem pedagógica realizada em âmbito escolar como forma de identificar e prevenir problemas na aprendizagem da leitura e escrita, buscando, desta forma, a preparação de programas educacionais efetivos para o trabalho com as dificuldades dos alunos visando à diminuição do número de escolares que apresentam fracasso escolar.
Na escola, a relação professor-aluno poderá ser um elemento estimulante ou incapacitante, dependendo do direcionamento do professor, da metodologia de ensino e dos conteúdos escolares aplicados.  
A relação professor-aluno torna o aluno capaz ou incapaz. 
Se o professor tratá-lo como incapaz, não será bem sucedido, não permitirá a sua aprendizagem e o seu desenvolvimento.    
Outro ponto a ser destacado é a rigidez na sala de aula.  
Para progredirem, tais estudantes devem ser encorajados a trabalhar ao seu próprio modo.
Fernández (1990) considera as dificuldades de aprendizagem como sintomas ou “fraturas” no processo de aprendizagem, onde necessariamente estão em jogo quatro níveis: o organismo, o corpo, a inteligência e o desejo.  
Segundo a autora, a dificuldade para aprender seria o resultado da anulação das capacidades e do bloqueio das possibilidades de aprendizagem de um indivíduo.  
Acrescenta a autora que a origem das dificuldades ou problemas de aprendizagem não se relaciona apenas à estrutura individual da criança, mas também à estrutura familiar que a criança está vinculada. 
Se o aluno só não aprende na escola há que se fazer um diagnóstico institucional para detectar quais problemas estão comprometendo o êxito do aluno.  
O professor por vezes não tem a sensibilidade de perceber que sua maneira de ensinar não é a mais apropriada, ou encontra-se preso a métodos ou à proposta pedagógica da escola, sem condições de se atualizar ou mesmo resistente às mudanças, fazendo assim, sofrer o aluno por não rever sua prática de ensino.
Uma das maiores dificuldades dos educadores é encontrar prematuramente os elementos corretos que indiquem que a criança tem efetiva dificuldade de aprendizagem, o que pode retardar um processo de alteração na proposta pedagógica para resgatar o aprendizado. 
A inabilidade ou lentidão do professor em identificar o que o aluno necessita implicará no encaminhamento de alunos para consultórios alegando que os mesmos têm algum tipo de transtorno, quando o problema poderia ter sido sanado em sala de aula.
Maria Lúcia Weiss (1992) elucida que a aprendizagem normal dá-se de forma integrada no aluno, no seu pensar, sentir, falar e agir.
Quando começam a aparecer “dissociação de campo” e sabe-se que o sujeito não tem danos orgânicos, pode-se pensar que estão se instalando dificuldades na aprendizagem.
Souza (1996) afirma que as dificuldades de aprendizagem aparecem quando a prática pedagógica diverge das necessidades dos alunos.
Neste aspecto, sendo a aprendizagem significativa para o aluno, este se tornará menos rígido, mais flexível, menos bloqueado, isto é, perceberá mais seus sentimentos, interesses, limitações e necessidades.
Roman e Steyer (2001) apontam que os conflitos emocionais interferem muito no rendimento da criança.
Cabe à escola, na figura do professor, ficar atenta às manifestações da criança, considerando seu estado geral no dia-a-dia, o contexto familiar em que está inserida e os eventuais problemas familiares que possa estar vivenciando, desde o nascimento de um irmão, a morte de um familiar, uma situação de desemprego, separação dos pais, dentre outros problemas.  
Para esses autores, uma das formas de prevenção nas propostas de trabalho da educação é preparar teoricamente o corpo docente para a prática dos jogos e atividades lúdicas, realizando, principalmente, um aprofundamento sobre a importância do ato de brincar para o desenvolvimento infantil. 
Em conformidade com a visão desses autores, na escola a criança deve ser amada, pois só assim se poderá considerar útil.
Ressaltam que é importante o estabelecimento de uma rotina na escola para possibilitar, a partir da organização externa, a segurança emocional e a organização interna de cada criança, favorecendo e complementando o processo de socialização por meio da aprendizagem das regras de convívio em grupo, da formação de vínculos e da aquisição de conhecimentos em todos os âmbitos de desenvolvimento.
É através da rotina da escola que são identificadas algumas das queixas comuns na primeira infância, as quais em geral são erroneamente confundidas, por desconhecimento, com diagnósticos como agressividade, hiperatividade e desatenção.
Esses diagnósticos, quando analisados com o devido cuidado por meio de entrevista com os pais ou responsáveis pela criança, podem revelar dados importantíssimos e que demandam orientações da própria escola.
As dificuldades apresentadas por muitas crianças ao realizar uma tarefa na escola podem originar-se por problemas familiares, capacitação do professor ou mesmo inadequação na proposta pedagógica, não significando necessariamente um fenômeno biológico de transtorno de aprendizagem.
 

A Psicopedagogia como instrumento.
O estudo do processo de aprendizagem humana e suas dificuldades são desenvolvidos pela Psicopedagogia, levando-se em consideração as realidades interna e externa, utilizando-se de vários campos do conhecimento, integrando-os e sintetizando-os e de uma forma global compreender a condição do sujeito que tem dificuldades em leitura e escrita.
Conforme elucida Golbert (1985), o objeto de estudo da psicopedagogia deve ser entendido a partir de dois enfoques;  o preventivo e o terapêutico. 
O enfoque preventivo considera o objeto de estudo da psicopedagogia o ser humano em desenvolvimento enquanto educável.  
Seu objeto de estudo é a pessoa a ser educada, seus processos de desenvolvimento e as alterações de tais processos. 
Focaliza as possibilidades do aprender, num sentido amplo. 
Não se restringe a uma agência como escola, mas ir também à família e sua comunidade. 
Poderá esclarecer, de forma mais ou menos sistemática, a professor, pais e administradores sobre as características das diferentes etapas do desenvolvimento, sobre progresso nos processos de aprendizagem, sobre as condições psicodinâmicas da aprendizagem, sobre as condições determinantes de dificuldades da aprendizagem.  
O enfoque terapêutico considera o objeto de estudo da psicopedagogia a identificação, a análise, a elaboração de uma metodologia de diagnóstico e tratamento das dificuldades do aprendizado.
Dessa forma, a psicopedagogia não vê a aprendizagem somente dentro do espaço da escola, pois entende que ela ocorre em todos os lugares e durante o tempo inteiro no decorrer da existência humana, investiga as relações do indivíduo com o conhecimento, o vínculo deste com a aprendizagem e as significações contidas no ato de aprender.  
Dentro de sua especialidade orienta os envolvidos para o desenvolvimento do potencial cognitivo do indivíduo.
Para Fernández (1990), quando o fracasso escolar é identificado, profissionais (fonoaudiólogos, psicólogos, pedagogos, psicopedagogos) devem intervir, ajudando através de indicações adequadas.
Os pais são os maiores especialistas em seus filhos, portanto, se perceberem que a criança não está aprendendo deve, conjuntamente com o professor, observar a causa das dificuldades.
O mestre é o complemento da família ao verificar o potencial cognitivo da criança, analisando se os bloqueios de aprendizagem vivenciados podem ser sanados pedagogicamente dentro da sala de aula, adaptando seu método de ensino, ou se deve recorrer à intervenção de profissionais habilitados em transtornos de aprendizagem. 
É essencial que haja uma cooperação mútua entre a família e o  professor para que possam buscar orientações para lidar com alunos/filhos que apresentem dificuldades e/ou que fogem ao padrão, buscando a intervenção de um profissional especializado. 
O objetivo da intervenção é otimizar as potencialidades e minimizar as dificuldades, buscando sempre os recursos das várias áreas do conhecimento para a compreensão do ator de aprender, valendo-se para isso de métodos e técnicas próprias.
Para uma melhor eficácia, deve contemplar palestras ou reuniões com os pais, bem como realizar conselhos de classe, para que os professores tenham participação ativa no diálogo com os seus e com a equipe da escola para juntos traçarem metas  que venham favorecer a aprendizagem do aluno.

 

A criança, a escola e o sistema de ensino.
Muito tem se questionado sobre a dificuldade de aprendizagem e os alunos foram os “vilões” da história, responsabilizados pelo fracasso. 
Hoje, todavia, há mais clareza quanto à complexidade do problema e identifica-se que vários fatores podem interferir no aprendizado escolar, notadamente problemas de ordem pedagógica como relacionamento professor-aluno, metodologia de ensino, conteúdos escolares inadequados ou problemas sócios culturais, tais como a família e o meio onde vivem e interagem os alunos com dificuldade de aprendizagem.  
Atenta-se também à constatação de que a maioria desses alunos pode raciocinar e aprender, mas, para tanto, requer uma metodologia de ensino diferenciada, adequada às suas necessidades.
Vários questionamentos são realizados em relação aos métodos de ensino atuais.   
Segundo Carraher e Schliemann (1989), há sólidas evidências de que a maioria dos alunos com dificuldade em aprendizagem não são incapazes de raciocinar e aprender, mas requerem uma metodologia de ensino diferenciada, adequada às suas necessidades, visando o aperfeiçoamento de suas habilidades e o desenvolvimento de suas potencialidades.
Há que se considerar a responsabilidade da escola pelo fracasso do aluno ao não atender a diversidade dos seus alunos.  
Exemplo disso é a exposição da criança a situações de aprendizagem além ou aquém da sua capacidade.  
Ao sentir-se inadequada, a criança sente-se frustrada, com baixa estima e começa a apresentar desinteresse, desatenção e por vezes agressividade.
É de fundamental importância que o professor se conscientize que o aluno não tem dificuldade de aprendizagem por vontade própria.  
Cumpre ao professor estabelecer vínculos positivos com seu aluno no seu dia-a-dia, conhecendo-o, analisando seu comportamento, suas dificuldades, encorajando-o, mudando seu modo de ensinar, quando necessário.  
Outro fator a ser analisado é que a má qualidade da educação afeta diretamente as crianças provenientes de condições socioeconômico-culturais menos privilegiadas, evidenciando assim a correlação existente entre boas escolas, disponibilidade de recursos e progresso escolar. 
É função da escola equalizar essas diferenças, capacitando melhor os alunos, minimizando assim a desigualdade social.   
Em seus estudos, Leite (1988) evidenciou dois grandes determinantes do fracasso escolar. 
O primeiro é nomeado de “fatores extraescolares”, representados por uma série de fatores relacionados à realidade sócio econômica a que está submetida à maioria da população brasileira, caracterizada pelas relações de trabalho e de pobreza. 
Simultaneamente às variáveis extraescolares, existem os “fatores intraescolares” que englobam a distância cultural entre a escola pública e sua população, a ineficácia da formação e treinamento dos professores, os problemas relacionados aos programas de ensino e práticas escolares e a própria burocracia pedagógica.
A escola traduz o problema educativo dos fracassos e das dificuldades escolares em termos de doença e tratamento ao não considerar mais o “mau aluno” como um culpado, mas si, como um doente, continuando, desta maneira, a não admitir suas responsabilidades.
Segundo a visão de Collares (1992), a medicalização do fracasso, que consiste na busca de soluções médicas sob o ponto de vista organicista e individual para problemas de origem eminentemente social, é considerada como uma das maiores desculpas utilizadas para escamotear o problema.  
A medicalização do fracasso escolar passa, então, a exercer um papel fortemente tranquilizador para a escola e para o sistema.
Outro estudo, realizado por Corrêa e Collares (1992) elucida que foram encontradas três categorias que contribuíram para o fracasso escolar, quais sejam a gestão (forma como o diretor desempenha seu papel), o preconceito e as relações interpessoais (por exemplo, a forma como é recebido o aluno que pertence a uma classe social diferente).
Almeida (1993) reforça que o fracasso escolar é um fenômeno recorrente na história educacional brasileira e, se a razão de ser da escola é a sua tarefa de transmissão e aquisição de conhecimentos e de formação do cidadão, o fracasso escolar e as dificuldades de aprendizagem apresentam uma dupla face:  o fracasso do aluno traduz também um fracasso da escola e do sistema social como um todo. 
Aborda também a autora que não há ato de ensinar-aprender sem a mediação concreta de sujeitos humanos, não existindo, portanto, relação ensino-aprendizagem sem que haja atuação indissociável entre inteligência, afetividade e desejo.
Negar ou superdimensionar a afetividade na relação ensino-aprendizagem significa, em ambos os casos, um desconhecimento profundo da natureza das atividades psíquicas.
Atualmente a política educacional “educação para todos” possibilita a inclusão de alunos que eram anteriormente excluídos do sistema escolar por portarem deficiências físicas ou cognitivas.
Somente a partir da Lei de Diretrizes e Bases para a Educação de 1996  as crianças portadoras de deficiência conquistaram então o direito de frequentar as escolas regulares, fora das salas especiais. 
Os alunos considerados como “difíceis” por apresentarem dificuldades de aprendizagem puderam frequentar as escolas, porém o que se evidencia é que grande parte das escolas não estão adaptadas para receberem adequadamente as crianças em suas necessidades de aprendizado.
É de competência dos profissionais da educação e gestores públicos identificar as crianças observar os alunos que têm dificuldade de aprendizagem, analisar as causas do fenômeno recorrendo se e quando necessário aos especialistas de aprendizagem.  
A sondagem e diagnóstico na época certa é primordial para o resgate de aprendizagem do aluno.  A correção de rumo na estrutura pedagógica é essencial para dinamizar o potencial cognitivo do aluno, evitando que o problema se perpetue.  
Atualmente somente o aluno ou a escola são responsabilizados pelo fracasso na aprendizagem.  
A solução do problema exige uma adequada reestruturação dos projetos políticos-pedagógicos e dos currículos, com as devidas e necessárias mudanças na concepção de aprendizagem.
Elucida Freitas (2002) que é preciso ficar atento às manobras políticas que se travestem em políticas de equidade como slogans do tipo “Educação para Todos”.   
Para o Estado, a “redução” nos índices de fracasso, ou redução da evasão escolar, significa a diminuição de custos sociais - pois implica em menores investimentos em cultura, lazer e prevenção de violência, visto que as crianças estão agora dentro da escola – e políticos, visto que a sociedade deixa de pressionar o Estado.  
Como a aprovação é compulsória, o aluno não abandona a escola, internalizando, deste modo, o fracasso, pois o sistema educacional transformou a exclusão formal em exclusão subjetiva ao criar trilhas desvalorizadas no interior da escola, usando recursos como salas de aceleração, reforço de ciclo e correção de fluxo. 
Segundo o autor, a reprovação não garante o aprendizado, porém a progressão continuada no modelo brasileiro acaba sendo aprovação automática.
Fernández (1990) alerta sobre a necessidade da existência de planos de prevenção nas escolas “para que o professor possa ensinar com prazer e, com isso, seu aluno possa aprender com prazer. 
Reforça o autor que a principal tarefa é ajudar as crianças a recuperarem o prazer de aprender, pois o próprio fracasso pode causar falta de confiança em si mesmos, com seus subsequentes efeitos negativos sobre a aprendizagem.
É notório que as dificuldades de aprendizagem se apresentam quando a prática pedagógica diverge das necessidades dos alunos.
Se a aprendizagem for significativa para o aluno, ele se tornará mais flexível, em maior consonância com seus interesses e sentimentos e se tornará menos bloqueado ao aprendizado. 
Não tem sido avaliada corretamente a responsabilidade da escola pelo fracasso escolar, atribuindo-se costumeiramente ao aluno a culpa pela incapacidade de raciocinar e aprender adequadamente
 

Sondagem de Rendimento Escolar.
Anexo a seguir tabelas referentes ao rendimento escolar em Português e Matemática do 1º ao 4º ano do Ensino Fundamental, acompanhados por mim como coordenadora pedagógica nos 1º e 2º bimestres de 2012, sendo que os anos anteriores (2009 a 2011) foram obtidos através de sondagem escolar.
Com a adoção de progressão continuada nas séries iniciais, o aluno pode chegar no 4º ano com dificuldade de aprendizado.  
Se o professor acompanhar o rendimento do aluno nas séries iniciais, ou seja, do 1º ao 2º ano, o aluno terá oportunidade de recuperar seu aprendizado e ter sucesso na avaliação diagnóstica externa, que é o SARESP, realizada nos anos finais.
A Secretaria de Ensino se pauta na avaliação do SARESP para estabelecer metas a serem alcançadas para cada unidade escolar.
Pela sondagem escolar em anexo, observa-se que essa escola terá problemas futuros na avaliação do SARESP, salvo se medidas corretivas forem trabalhadas através de uma proposta pegagógica adequada à necessidade desses alunos.
Através desses dados, reiteramos assim o conceito dos autores que estudam o tema, que a sondagem e diagnóstico na época certa é primordial para o resgate de aprendizagem do aluno.  A correção de rumo na estrutura pedagógica é essencial para dinamizar o potencial cognitivo do aluno, evitando que o problema se perpetue nos anos futuros.  
A solução do problema exige uma adequada reestruturação dos projetos políticos-pedagógicos e dos currículos, com as devidas e necessárias mudanças na concepção de aprendizagem.
 
Escola Estadual
SONDAGEM DE ALUNOS - FORMAÇÃO BÁSICA DAS SÉRIES INICIAIS
CORREÇÃO DE CICLO
 
1º BIM.
2º BIM.
3º BIM.
4º BIM.
MÉDIA
L. PORT.
MAT.
L PORT
MAT.
L PORT
MAT.
L PORT
MAT.
2010 - 2º ANO
ANDRÉ
5
5
8
8
7
5
7
7
6,5
CLEBER
4
4
4
4
5
5
5
5
4,5
FELIPE XX
5
6
7
7
8
8
9
9
7,4
GUILHERME
5
5
4
10
5
5
6
6
5,8
GUSTAVO
6
6
7
5
7
5
6
6
6
LEANDER
6
6
7
9
9
7
9
9
7,8
MIKAELA
7
7
6
6
7
7
6
6
6,5
RYAN
4
4
5
6
5
5
6
6
5,1
WESLEY
4
4
4
4
4
4
4
4
4
YASMIN
5
5
5
5
6
5
5
5
5,1
2011 - 3º ANO
 
ANDRÉ
5
5
5
5
5
5
5
5
5
CLEBER
4
4
4
4
 
 
3
3
3,7
FELIPE XX
6
9
6
8
5
5
6
8
6,6
GUILHERME
4
4
4
4
4
4
4
5
4,1
GUSTAVO
3
3
4
3
4
3
4
4
3,5
LEANDER
6
8
5
5
6
5
7
5
5,9
MIKAELA
4
5
5
4
5
5
5
5
4,8
RYAN
3
3
4
3
5
3
5
5
3,9
WESLEY
4
4
4
4
 
4
5
5
4,3
YASMIN
4
4
4
4
4
4
4
4
4
2012 - 4º ANO
 
ANDRÉ
4
4
 
 
 
 
 
 
4
CLEBER
4
4
 
 
 
 
 
 
4
GUILHERME
4
4
 
 
 
 
 
 
4
GUSTAVO
3
3
 
 
 
 
 
 
3
LEANDER
4
4
 
 
 
 
 
 
4
MIKAELA
4
4
 
 
 
 
 
 
4
RYAN
4
4
 
 
 
 
 
 
4
WESLEY
3
3
4
4
4
4
4
4
3,8
YASMIN
4
4
 
 
 
 
 
 
4


Escola Estadual.
SONDAGEM DE ALUNOS – FORMAÇÃO ANOS INICIAIS
 
1º BIM
2º BIM
3º BIM.
4º BIM.
L. PORT.
MAT.
L PORT
MAT.
L PORT
MAT.
L PORT
MAT.
MÉDIA
2009 - 1º ANO
BRENO
7
7
6
7
6
6
5
5
6,1
CAIO
5
5
5
5
6
6
6
6
5,5
CAMILY
4
4
4
4
5
5
5
5
4,5
EVERTON
4
4
5
5
5
5
6
6
5,0
EVERTON
5
5
5
5
5
5
5
5
5,0
JOÃO
5
5
6
6
6
6
6
6
5,8
RITA
4
4
4
4
4
4
4
4
4,0
RODRIGO
5
5
5
5
5
5
5
5
5,0
THAIS
4
4
4
4
4
4
5
5
4,3
2010 - 2º ANO
 
BRENO
5
5
5
5
5
5
6
6
5,3
CAIO
5
5
5
5
5
5
5
5
5,0
CAMILY
5
5
5
5
5
5
6
6
5,3
EVERTON
5
5
5
5
5
5
5
5
5,0
EVERTON
5
6
5
5
6
7
7
7
6,0
JOÃO
5
5
6
6
6
6
6
6
5,8
RITA
5
5
5
5
5
5
5
5
5,0
RODRIGO
6
6
6
6
7
7
7
7
6,5
THAIS
5
5
5
5
5
5
5
5
5,0
2011 - 3º ANO
 
BRENO
4
4
4
4
4
4
5
5
4,3
CAIO
5
5
5
5
5
5
5
5
5,0
CAMILY
4
4
4
4
4
4
4
4
4,0
EVERTON
5
5
5
5
5
6
5
5
5,1
JOÃO
4
4
4
5
4
4
4
4
4,1
RITA
4
4
4
4
4
4
4
4
4,0
RODRIGO
4
4
4
5
5
4
5
5
4,5
RODRIGO
4
4
4
4
4
4
5
5
4,3
THAIS
5
5
5
5
5
5
5
5
5,0
2012 - 4º ANO
 
BRENO
4
4
4
4
 
 
 
 
4,0
CAIO
5
5
3
3
 
 
 
 
4,0
CAMILY
7
5
4
3
 
 
 
 
4,8
EVERTON
2
3
2
3
 
 
 
 
2,5
JOÃO
4
4
3
4
 
 
 
 
3,8
RITA
2
2
2
2
 
 
 
 
2,0
RODRIGO
3
3
4
4
 
 
 
 
3,5
RODRIGO
4
4
4
4
 
 
 
 
4,0
THAIS
4
4
4
4
 
 
 
 
4,0
LUCAS
5
2
 
 
 
 
 
 
3,5


Concluindo.
Numa breve análise dos estudos desenvolvidos pelos educadores elencados nas referências bibliográficas, com relação aos principais fatores que interferem no processo de aprendizagem nas séries iniciais do ensino fundamental, cumpre observar a grande missão a ser realizada pelos profissionais da educação para encontrar o caminho adequado para resgatar o potencial cognitivo de alunos que apresentam dificuldades de aprendizagem.
 
As questões mais prementes sobre essa problemática são:
Quando o problema das dificuldades de aprendizagem é detectado? 
Como as dificuldades de aprendizagem na área de leitura e escrita afetam o desenvolvimento social e o processo cognitivo do aluno? 
Esse processo é neurológico ou tem outras causas? 
Qual é a responsabilidade do ambiente familiar?  
Qual deve ser o papel do professor? 
O professor está capacitado para lidar com o problema? 
O sistema educacional está cumprindo adequadamente sua função de atender com qualidade os alunos que não venceram as habilidades propostas no Plano de Ensino?  
O Plano de Ensino é condizente com a realidade do aluno e da sociedade onde está inserido?
A realidade é que a escola está deficitária no tocante à formação dos alunos nas séries iniciais do ensino fundamental.  
Com a progressão continuada, há que se ficar mais atento ao progresso acadêmico do aluno, evitando que seus déficits cognitivos se perpetuem nos anos vindouros. 
A garantia de um aluno na escola não significa necessariamente que ele está aprendendo a contento.  
Um grande número de alunos não consegue acompanhar a proposta pedagógica, causando uma lacuna de aprendizagem e impossibilidade de continuar a aprender pela dificuldade na leitura e escrita.
Salienta-se que o professor precisa estar devidamente capacitado para o entendimento das relações biopsicosociais envolvidas na ocorrência do desenvolvimento acadêmico do aluno.  
Tal capacitação propiciará um diagnóstico mais acurado e precoce das dificuldades de aprendizagem, permitindo uma adaptação de metodologia de ensino, ou encaminhamento a um profissional especializado em transtorno de aprendizagem, se houver suspeita de problema neurológico. 
De qualquer forma, a escola, o professor e a família devem estar em consonância para uma melhor estratégia de resgate do potencial cognitivo do aluno que se encontra com dificuldade de aprendizagem, sendo que a família deve estar conscientizada sobre a importância de ambiente estimulador, com o devido acompanhamento do desenvolvimento escolar de seu filho.
Como uma nação em desenvolvimento, precisamos de uma escola preocupada em desenvolver competências e habilidades para aprimorar a aprendizagem, centralizando o foco no aluno.
Com essa finalidade, mais do que respostas, há que se questionar:  o plano de ensino está sendo eficaz para o aprendizado? 
O sistema de avaliação garante o progresso acadêmico do aluno?   
Os recursos que estão sendo utilizados são suficientes para garantir democraticamente a educação? 
As escolas estão habilitadas a atender com qualidade as necessidades educacionais das crianças especiais? 
Os professores estão capacitados e estimulados para detectar e atender as dificuldades de aprendizagem? 
As salas de aula tem o número adequado de alunos para que o professor possa exercer criteriosamente o seu magistério?  
Os materiais didáticos são suficientemente estimuladores ao aprendizado?
Não há dúvida que a Educação, assim como o Brasil, é um processo em desenvolvimento e muito há a se caminhar para que o ensino fundamental forme alunos em seu pleno potencial cognitivo.  
Os educadores analisam incansavelmente formas de dirimir ou erradicar as dificuldades de aprendizagem, mas  sem dúvida se requer uma real e efetiva colaboração do sistema educacional na busca do aprimoramento da aprendizagem para que o aluno possa garantir plenamente sua interação social.


Para saber mais sobre o assunto.
ALMEIDA, S.F.C. da.  O lugar da afetividade e do desejo na relação ensinar-aprender. Temas em Psicologia, n. 1, 1993.
ALMEIDA, S.F.C. da.  Psicologia, teoria e pesquisa - concepções e práticas de psicólogos escolares acerca das dificuldades de aprendizagem.   v. 11, n. 2, p. 117-134,maio/agosto, 1995.
ASSIS, M.B.A.C.  Aspectos afetivos do desempenho escolar: alguns processos inconscientes. Boletim  da Associação Brasileira de Psicopedagogia, n. 20, p. 35-48, 1990.
CARRAHER, T.N.;  SCHLIEMANN, A.D.   Na vida dez, na escola zero.  São Paulo: Cortez Editora, 1989.
COLLARES, C.A.L. Ajudando a desmistificar o fracasso escolar. Ideias, n. 6, p. 24-25, 1992.
CORRÊA, M.A.M.;  COLLARES, C.A.L.  O psicólogo escolar de hoje.  O fracasso escolar de sempre, v. 2, n. 2 (3), p. 79-96, abril, 1995.
FERNÁNDEZ, A.  A inteligência aprisionada; abordagem psicopedagógica clínica da criança e sua família.   Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.
FERREIRO, E. Alfabetização em Processo. São Paulo: Cortez, 1986.
FERREIRO, E.;  TEBEROSKY, A.   Psicogênese da Língua Escrita. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999.
FONSECA, D.A. Introdução às dificuldades de aprendizagem.  Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.
FREITAS, L.C. A internalização da exclusão. Educ. Soc., Campinas, v. 23, n. 80, p. 299-325, 2002.
GOLBERT, Clarissa S. Considerações sobre as atividades dos profissionais em Psicopedagogia na Região de Porto Alegre. In: Boletim da Associação Brasileira de Psicopedagogia, ano 4, n. 8, agosto de 1985.
GUERRA, L.G. A criança com dificuldade de aprendizagem;  considerações sobre a teoria-modo de fazer.   Rio de Janeiro: Enelivros, 2002.
LEITE, S.A. da S. Fracasso escolar no ensino de primeiro grau.   Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, v. 69, n. 163, p. 510-540, setembro/dezembro, 1988.
PIAGET, J.  Artigo “O Biólogo que pôs a aprendizagem no microscópio”.  publicado na revista Escola, Fundação Victor Civita, Ed. Especial n. 19, págs. 89 a 91, 2008.
ROJO, R.H.R.  Letramento e capacidades de leitura para a cidadania.  São Paulo: S.E.E., CENP, 2004 - Texto apresentado em Congresso realizado em maio de 2004.
ROMAN, E.D.;  STEYER, V.E.  A criança de 0 a 6 anos e a educação infantil: um retrato multifacetado. Canoas: Ed. Ulbra, 2001.
SOARES, C.S.R. O cérebro X aprendizagem.   Artigo em Psicologia, Educação e Saúde On-Line, acessado em 29 de julho de 2012.
SOUZA, E.M. Problemas de aprendizagem - criança de 8 a 11 anos. Bauru: EDUSC, 1996.
STAMBACK, M.;  VIAL, M.;  DIATKINE, R.;  PLAISANCE,  E.;  BEAUVAIS, J.  Síntese dos trabalhos, in AJURIAGUERRA, J. de, et al.  A dislexia em questão;  dificuldade e fracassos na aprendizagem da língua escrita. Porto Alegre: Artes Médicas, 1984.
STRICK, L.;  SMITH C.  Dificuldades de aprendizagem de A a Z;  Um guia completo para pais e educadores.  Porto Alegre: Artes Médicas, 2001.
VIGOTSKY, L.S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fones, 1989.
WEISS, M.L. Psicopedagogia clínica: uma visão diagnóstica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.

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