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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

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sexta-feira, 5 de julho de 2013

Leitor Brasileiro: histórico e formação.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 4, Volume jul., Série 05/07, 2013, p.01-09.

 


Profª. Janete de Jesus Neves.
 
Licenciada em Pedagogia pela Faculdade de Ciência e Tecnologia Albert Einstein - FACTAE.
Especialista em Estudos Linguísticos e Literários pela Universidade Federal da Bahia – UFBA.
Professora das séries iniciais na rede pública de ensino.

 


O presente artigo é resultado de parte do trabalho monográfico apresentado na graduação, no âmbito do curso de Licenciatura em Pedagogia, onde buscou-se apresentar uma síntese do processo histórico envolvido no acesso à leitura em nosso país.
As reflexões apresentadas apontam de forma clara os problemas que permearam o difícil acesso dos brasileiros às situações de letramento no geral (leitura e escrita), assim como esboça uma figura do leitor que temos hoje.
Para tanto, recorre-se a história, a fim de descrever literalmente uma “linha do tempo” na qual estão presentes os eventos que desenharam o cenário que hoje se visualiza no Brasil.

 
Um Brasil “outrora” colonizado: cenários do difícil acesso à leitura.
Nunca se falou tanto na importância da leitura quanto nos últimos tempos. Isso porque jamais se deu demasiado valor a função social da mesma, fato que só veio acontecer recentemente, com o advento da industrialização, na década de 1920 do século passado.
Nem sempre se pensou em políticas que elucidassem o problema do analfabetismo, haja vista, a leitura ser tida como extremamente perigosa, e privando-se na “ignorância” o povo aceitaria com maior facilidade a supremacia dominante.
Os que se aventuraram, indo de encontro ao estabelecido, enfrentaram muitos conflitos e contribuíram em menor ou maior grau para transformar a realidade que hoje se tem da leitura em nosso país.
Os ranços advindos de outrora, o fator da estratificação social totalmente presente na pirâmide construída sob a miséria de uma grande maioria, nos mostra que “ainda” somos colônia de um sistema altamente capitalista/ consumista, que antes de tudo, prima pelo ter e não pelo ser.
O germe do conhecimento, que nos chega através da leitura, abalou séculos de escuridão e escravidão, levou muitas pessoas à morte e fez de tantos outros gênios de sua época.

A leitura nos deu o poder sobre nós mesmos, o direito à escolha de um governante, a independência a mulher da contemporaneidade.
Talvez, em nenhuma outra época, fizesse-se possível uma promoção efetiva da leitura quanto agora.
Quiçá, se não retrocedêssemos sem cessar a toda iniciativa de “descolonização”, pudéssemos nos transformar numa nação autônoma, quebrando desta forma, uma hegemonia social presente há séculos, ao alcançar o tão almejado “aburguesamento”.
Como não poderia deixar de ser, o histórico do difícil acesso à leitura no Brasil, iniciou-se com o da educação no século XVI, quando da ocupação e/ou exploração do Brasil, chegaram aqui os Jesuítas à frente da Companhia de Jesus, imbuídos por, através das chamadas “missões”, incutirem aos índios uma “religiosidade importada” por meio da catequização, e promover o estudo de textos clássicos aos descendentes da elite local.
É nesse contexto que surgem os primeiros colégios em território brasileiro.
De acordo com a Revista Educação (2007), no século XVIII, mais precisamente em 1747, no Brasil é implantada a primeira oficina de imprensa. Entretanto, logo em seguida, as máquinas foram confiscadas, com a desculpa de que as despesas com impressões aqui eram maiores que em Portugal, tendo a Corte necessidade de redução de gastos.
Proibida as impressões em território brasileiro, o Marquês de Pombal cria em 1768 a Real Mesa Censória (que tinha a finalidade de reformar o sistema de censura de livros que circulavam em Portugal e seus domínios), atribuindo a esta o poder de deliberar sobre quais materiais de leitura nós, enquanto colônia lusitana, teríamos acesso.
Esta medida teve como objetivo ocultar dos olhos brasileiros as obras consideradas por eles “perigosas”, por divulgarem ideias iluministas revolucionárias.
Assim, camuflados sob este jargão, os livros passam muito tempo em poder dos clérigos nos mosteiros.
O quadro só veio ter alguma alteração com a vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil, no ano de 1808, quando, em prol do conforto de Sua Majestade (e família), voltaram a ser permitidas as impressões, e paulatinamente foram introduzidos os primeiros livros na colônia lusitana.
Tais livros eram exclusivos para meninos, e baseavam-se numa tendência eurocentrista e categoricamente excludente, no que diz respeito ao sexo feminino (REVISTA EDUCAÇÃO, 2007).
Desta forma, embora com quase três séculos de atraso (se comparado a outros países e a sua criação no século XV), estabelece-se a imprensa em território brasileiro, uma pequena conquista, que fora longamente esperada.
Segundo Marisa Lajolo e Regina Zilberman (2002, p. 9-10), o fato de o Brasil enquadrar-se na condição de nação periférica e dependente contribuiu necessariamente para o seu constante retrocesso com relação à leitura.
Conforme as autoras, o nível cultural no Brasil colônia era muito pequeno, problema esse advindo da falta de espaços próprios para a sua produção (escolas, gráficas, livrarias e bibliotecas).
Enquanto na Europa o ensino adquiria proporções cada vez maiores e mais modernas, aqui nossos colonizadores davam pouca (ou nenhuma) importância à instrução.
Mesmo porque, de que lhes servira escolarizar a quem pretendiam explorar?
Nada mais natural do que nos conservar na “ignorância”, explorando nossos antepassados cada vez mais.
A Revista Educação (2007) informa que alguns anos mais tarde (ano de 1827) o Brasil já “independente” de Portugal, é regulamentada a primeira Lei de Instrução Primária (Art. 179), a qual estabelecia os objetivos pelos quais a escola deveria primar, ou seja, seria objetivo da escola o ensino da leitura e da escrita, das operações matemáticas e conhecimentos geométricos, além de “prendas domésticas” para as meninas.
Na falta de materiais específicos, as escolas utilizariam qualquer documento escrito para a leitura, a exemplo da Bíblia e da Constituição do Império.
É notável que, apesar dessas pequenas conquistas terem sido alcançadas, muito pouco foi mudado, pois, ainda faltavam escolas, livros, bibliotecas, dentre outros difusores da leitura em nosso país. Além disso, o índice de analfabetos atingia quase a totalidade da população (85% de analfabetos, conforme primeiro censo realizado em 1872).
Lajolo e Zilberman (2002, p. 108-109) apontam que isto ocorreu devido ao fato da implantação da imprensa, mesmo tardiamente, ter acontecido de forma isolada e medíocre em nosso país.
Outro problema, também apontado pelas autoras, seria a precariedade, ou ausência de políticas educacionais que provesse uma rede escolar eficiente em terras brasileiras.
Entre os anos de 1860 e 1910, os livros didáticos crescem em importância, dado ao fato de estarem intimamente ligados a escola, passando a ser produzidos com regularidade.
Neste momento, cresce também o número de produção de obras voltadas para as crianças nas metrópoles (Rio de Janeiro e São Paulo).
Marisa Lajolo e Regina Zilberman (1996) referem-se ao livro didático como o “primo-pobre” da literatura, por ser descartável, ter “prazo de validade”, tendo em vista os avanços que acontecem a todo o momento, e “primo-rico” das editoras, dada a sua vendabilidade.


O livro didático, esse primo-pobre, mas de ascendência nobre, é poderosa fonte de conhecimento da história de uma nação, que, por intermédio de sua trajetória de publicações e leituras, dá a entender que rumos seus governantes escolheram para a educação, desenvolvimento e capacitação intelectual e profissional dos habitantes de um país (LAJOLO; ZILBERMAN, 1996, p. 121).


O fato dos livros didáticos informarem o mínimo, serem “anacrônicos”, como apontam Lajolo e Zilberman, nos faz pensar (em termos de produção) em seu grande crescimento, isto, em detrimento aos livros literários, modernos e mais abrangentes.
É de conhecimento amplo, as várias discussões em torno das informações (na grande maioria das vezes retrogradas) fornecidas pelos livros didáticos, e dos malefícios que estas informações incorporam a leitura crítica do sujeito.
As cartilhas, por exemplo, perpetuaram uma época da história de nossa educação, projetando uma ideia medíocre da inteligência de nossas crianças ao portarem séries de textos obsoletos (anacrônicos).
O ano de 1921 foi marcado pelo nascimento oficial no Brasil da literatura infantil, através das obras de Monteiro Lobato.
Este, astutamente deu características rebuscadas às suas obras, aproximando sua linguagem à da população brasileira (SARAIVA, 2001, p.37).
Já na década de 1930 do século passado, muitos acontecimentos permeiam a face da educação que hoje se visualiza: o governo Vargas cria o Ministério da Educação; inicia-se o Movimento da Escola Nova; novo programa é implantado ao curso fundamental do ensino secundário, com a inserção da disciplina português; estabelece-se a Pedagogia, enquanto curso de Ensino Superior.
Tudo aparentemente ia bem, um novo modelo de educação tinha possibilidade de nascer, estávamos a avançar.
Dessa forma, em 1961, após duas décadas de protelação é sancionada a Lei n. 4.024/61 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) que proclama o texto literário como base do ensino de português, prioridade para o acesso ao ensino universalizado pretendido pelos movimentos populares da época (Centros Populares de Cultura, Movimento de Cultura Popular e movimento de Educação de Base).
Entretanto, tendo o presidente João Goulart sido deposto em 31 de março de 1964, instala-se em nosso país o movimento cívico-militar (golpe militar de 1964) que impiedosamente descaracterizou todos os movimentos culturais presentes no Brasil.
Até mesmo a literatura infantil adquiriu um atípico caráter conservador ao explorar em suas histórias, principalmente, o meio ruralista em detrimento do urbano (SARAIVA, 2001).
Igualmente, na década de 1970, uma Nova Lei de Diretrizes e Bases (Lei n. 5.692/71) volta a priorizar o ensino do português, intensificando a sua necessidade à comunicação e expressão cultural.
Neste momento histórico, a literatura infantil vive um bom momento, assim como os livros paradidáticos, ao serem inseridos no contexto escolar.
Em meados da década de 1980 (entre 1986 e 1988) surge a ideia de letramento, que passa a ser difundida ao serem analisados as práticas de leitura e escrita em nosso país.
Com a promulgação da Lei 9.394 de dezembro de 1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDBEN) no governo de Fernando Henrique Cardoso, a educação passa por muitas modificações, até chegarmos aos dias atuais.
Observa-se que a origem dos problemas convergentes na prática da leitura no Brasil reside na sistemática predileção da classe dominante aos seus próprios interesses.
Desenraizar acepções de um modelo de leitor mediano, impresso há séculos não é tarefa das mais fáceis, muito menos num país que, de certa forma, “acostumou-se” a ser colônia.
É imprescindível apontar que apesar de tantas leis vangloriando as premissas do ensino das letras, andamos a passos lentos, quando o que se considera são efetivas mudanças, isto quando não retrocedemos por uma, ou por outra razão.
Não que as mudanças não estejam ocorrendo, elas acontecem sim, mas a morosidade de tais mudanças, torna, na maioria das vezes alguns, eventos defasados.
De acordo com estudos da Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI) divulgado em nota à Revista Educação (2007, p. 20), apesar da taxa de “analfabetismo” ter caído no Brasil, o Nordeste é a região brasileira onde concentra-se 71%, dos 1,1 milhão de jovens entre 15 e 24 anos iletrados de nosso país, sendo que um terço deles encontram-se no estado da Bahia e de Pernambuco.
Também no Nordeste concentram-se as mais divulgadas intempéries da seca e da fome, tanto quanto de outras mazelas presentes na realidade brasileira (desemprego, exploração de trabalho inclusive infantil, etc.).
É igualmente fato, que a população desta região é constituída em sua grande maioria de personagens que contribuíram com força/ trabalho à nossa história, mas que sempre estiveram à margem da sociedade.
Os jovens deixam as escolas para enfrentarem uma maratona de trabalho precoce, viabilizada pela realidade da miséria em que vive a base da pirâmide social, a massa assalariada (para não dizer, os que sobrevivem com menos de um salário), conforme podemos verificar, nos diversos noticiários do país.

De acordo com Saraiva (2001):

O fator econômico impede o acesso de alunos à escola ou os obriga a abandoná-la antes mesmo de terem se tornado leitores efetivos, lacuna que, por um lado, denuncia os reflexos nefastos da estrutura social sobre a educação e, por outro, impede os indivíduos de exercerem seu papel como sujeitos históricos (p.24).

 
Esse percurso que fizemos, apontando dados imprescindíveis com relação à história da leitura no Brasil vai simultaneamente influenciar na formação do leitor brasileiro, caracterizando, assim, a figura de quem tanto dialeticamente falamos na contemporaneidade.



Formação do leitor brasileiro: um problema solucionado?
Normalmente falamos do leitor com tanta propriedade, que esquecemo-nos de analisar o que é realmente ser um “leitor”.
Com precisão, as autoras Marisa Lajolo e Regina Zilberman (1996, p.09) nos apresentam a figura do leitor sob duas perspectivas.
A primeira retrata-o através do ponto de vista de público participante de uma “massa anônima” de vontade própria; já a segunda, visualizada através do ponto de vista de leitor, nos oferece uma imagem do mesmo, enquanto indivíduo “habilitado à leitura”, com preferências estabelecidas, uma figura que o escritor tenta seduzir.
De acordo com a autora Regina Zilberman, o leitor, este sujeito tão íntimo, por vezes tão distante de nosso entendimento, aproxima-se do texto de “modo ritualístico”, onde:


primeiro, ele apalpa a obra, sentindo-a de modo táctil e explicitando a natureza carnal do livro. Depois, procura as figuras, detendo-se nas imagens visuais, para só então mergulhar nas letras, que o conduzem a universos fantásticos, distantes no tempo, no espaço e nas idéias, mas próximos dele, dada a materialidade do livro, para onde o leitor apaixonado, sempre retorna (CONDINI; PRADO, 1999, p. 146-7)


Portando, a leitura deve convidar o sujeito para o seu desbravamento, para o seu entendimento, e ousando discordar de Regina Zilberman, a ordem deste ritual não importa dada a autonomia depositada no leitor no ato de sua leitura.
A leitura adquiriu nova roupagem nos diferentes contextos que a permeavam e vinculou-se as mais prementes necessidades da população em cada época.
O contexto familiar, por exemplo, adquiriu grandes proporções em importância, na legitimação da leitura e formação do leitor, por ser dentro desta instituição “nuclear” (que adquiriu ares modernos com a Revolução Industrial) que acontecia a maior difusão da leitura.
A questão da religião também contribuiu em prol da formação do leitor que temos hoje, tendo em vista a ansiedade por parte dos religiosos (protestantes, reformistas, etc.) de terem acesso aos saberes bíblicos e a formação moral.
A difusão da literatura é outro ponto a ter seu mérito, por terem se constituído nas primeiras manifestações baratas de lazer, assim como o nascimento no meio rural, da literatura de cordel, ponto de partida para a criação dos folhetins que ganharam pouco tempo depois, as ruas das metrópoles brasileiras, por meio dos jornais (LAJOLO; ZILBERMAN, 1996).
Com relação às mulheres, o processo foi ainda mais complicado.
Ainda no século XIX, o sexo feminino tinha pouco (na maioria das vezes nenhum) acesso a materiais de leitura, apenas atendo-se aos conhecimentos necessários a sua formação doméstica.
Não obstante, devemos acrescentar que, visualizada através da constante interferência de uma série de acontecimentos que contextualizaram a história da leitura (assim como da educação propriamente dita) em nosso país, a formação emancipatória do leitor brasileiro ainda não se deu completamente.
A habilidade natural do sujeito para a leitura e o fato deste ter participado e/ ou ainda participar de uma história familiar que apresentou-lhe a leitura desde tenra idade são fatores que viabilizam em grande medida a formação do leitor em seu sentido pleno e de direito.
No entanto, sabemos que esta regra é exceção na nossa realidade, tendo em vista, os dados relacionados aos altos índices de analfabetismo (para não falar dos analfabetos funcionais) obtidos através de censos realizados no país.
Apesar de encontrarmo-nos no interior de uma sociedade letrada, a leitura acrítica é uma constante nas salas de aula brasileira, fato que vem já há algum tempo perturbando o âmbito educacional.
Neste contexto, a escola, na sua posição de uma das instituições mais importantes, presentes na sociedade, tem a responsabilidade de procurar compensar o que falta nos lares desses sujeitos (contato com livros, bibliotecas, etc.), além da falta de habilidade destes para a leitura.
Dessa forma, frente a uma luta “solitária”, a escola vem tendo constantes insucessos ao promover a leitura apenas como forma de se alcançar sucesso social e econômico no atual mundo capitalista.
Não seria talvez, o momento de passarmos a promover a urgente necessidade de obtermos momentos prazerosos e conhecimento diversos com ela?
Muitas vezes, enveredamos o sujeito por um caminho que não caracteriza-se como sua necessidade imediata de aprendizagem (e leitura) e esquecemos de levar em conta as pistas que ele anteriormente já nos apresentou (sua leitura de mundo, seus saberes cotidianos, o que rabisca nas paredes, nas carteiras, nos cadernos, etc.) e acabamos por fazer um caminho contrário, o que acaba por afastar esse sujeito do nosso objetivo: a leitura.
Mas se observarmos as pistas, aquelas as quais não demos a mínima importância (e pior, que taxamos de puro e simples vandalismo), ele desejava o acesso à leitura, pois apresentou as pistas claramente, a escola é que estando limitada de criticidade não soube ler nas entrelinhas.
Comumente observamos a preocupação de muitos professores no que diz respeito à promoção de projetos educativos, que culminem no incentivo aos “hábitos de leitura”.
Entretanto, esses projetos, na grande maioria das vezes caem no vazio, visto o fato de estarmos tão acostumados à motricidade dos hábitos (rotina) que acabamos por torná-los fazeres mecânicos isentos de criticidade.
Na perspectiva de Paulo Freire (2005), por exemplo, “o ato de ler e não o hábito da leitura” é pensado como possibilidade de articulação de ideias (aversão ao pensamento inanimado) e exercício da criticidade.
Segundo ele, “muito de nossa insistência, enquanto professoras e professores, em que os estudantes leiam, num semestre, um sem-número de capítulos de livros, reside na compreensão errônea que às vezes temos do ato de ler” (p.17).
Infelizmente, apenas incentivar o hábito de leitura não assegura que este “hábito” perdure fora dos bancos escolares e, este é um dos grandes problemas que repercute na formação do leitor brasileiro.
Segundo dados divulgados em 2008 pela pesquisa Retratos da leitura no Brasil promovida pelo Instituto Pró-Livro a título de compreender o perfil do leitor em nosso país, o brasileiro lê em média 1,8 livros por ano e se tirarmos os livros indicados pela escola este número cai para 1,3 livros por habitante/ano.
Além da questão da quantidade, também a escolha desses materiais de leitura desempenha seu papel no desenho do perfil deste leitor.
Quando se trata da lista dos livros mais vendidos no Brasil, os dados da pesquisa apontam à existência de três categorias: 1) ficção (narrativa, poesia e drama); b) não-ficção (crônicas no geral) e; c) auto-ajuda (assim como esoterismo, guias, espirituais e negócios).
Essa última categoria, segundo nos informa Regina Zilberman em artigo apresentado a Revista Eletrônica de Jornalismo Científico – Com Ciência, surgiu há aproximadamente uma década e figura o elenco dos materiais que “colaboram para o êxito pessoal ou profissional do sujeito”.
Vale ressaltar, que nesta lista não há predominância dos autores de língua portuguesa.
Com o advento das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) uma competição é estabelecida entre o objeto livro e os aparelhos audiovisuais ultramodernos.
O confinamento da população brasileira em frente dos aparelhos de TV, assim como dos microcomputadores e consequentemente da Internet reduzem em grandes proporções as possibilidades de aproximação com a leitura (de um livro, jornal, etc.), pois, uma vez aprisionados ao recurso áudio-visual, vinculado a um motivo maior, a exemplo, de um programa preferido e/ou algum “reality show da moda”, o leitor contemporâneo gravita entre as várias possibilidades de informação, na maioria das vezes optando pela maneira mais rápida e fácil de adquiri-la, esquecendo-se de contabilizar que esta também, pode não ser a mais eficiente.


A leitura e a troca de experiências de leitura e de vida já não fazem parte dos encontros familiares. O encantamento oriundo de fábulas e de lendas, de narrativas fantásticas ou realistas, das histórias de vida, marcadas por fracassos e sofrimentos ou por sucessos e alegrias, bem como o ludismo dos jogos poéticos não mais agregam a família em torno de um círculo solidário e cedem lugar aos programas televisivos ou jogos eletrônicos, comprovando a afirmação de procedimentos que estimulam o individualismo e empobrecem o sujeito em sua capacidade de diálogo (SARAIVA, 2001, p. 24).


Dessa forma, percebe-se que o perfil deste leitor tão inquietantemente comentado no âmbito educacional e fora dele, independe tão somente do número de livros (aqui entendido como qualquer material de leitura) que ele tem acesso efetivo.
Mais precisamente, este perfil de leitor leva em conta (e talvez com maior criticidade) a escolha e/ou gosto do sujeito.
 

Concluindo.
Seria coerente dizer que esta formação do leitor (ainda inconclusa se formos levar em conta os apontamentos ora realizados) ultrapassa as barreiras das questões políticas.
Na verdade, pode-se dizer que apesar dos ranços de outrora refletirem na nossa realidade atual, e do Estado, assim como a escola terem suas responsabilidades nesse processo, a formação do leitor hoje, permeia muito mais uma questão pessoal politizada.
A formação do leitor hoje é em primeira instância, responsabilidade de cada sujeito; é responsabilidade de seu querer e do seu estado de pertencimento a algo maior: a sociedade, a história.
Estamos acomodados no conforto de algumas situações, que nem ao menos nos damos conta que o mundo está mudando, o tempo é motriz, também devemos sê-lo mais vezes.
Responsabilizar outrem sobre essa crise tão propriamente pessoal é tentar ocultar uma verdade que possivelmente desagradará a nós mesmos.

 
Para saber mais sobre o assunto.
COSSON, Rildo. Letramento Literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2006.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 2005.
INSTITUTO PRÓ-LIVRO. Retratos da Leitura no Brasil. Disponível em: < http://www.cerlalc.org/redplanes/boletin_redplanes/documentos/Noticia1/Retratos_2008.pdf >. Acesso em: 14 set. 2009.
KOCH, Ingedore Villança; ELIAS, Vanda Maria. Ler e compreender: os sentidos do texto. São Paulo: Contexto, 2006.
LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. A formação da leitura no Brasil. São Paulo: Ática, 1996.
LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. A leitura rarefeita: leitura e livro no Brasil. 1. São Paulo: Ática, 2002.
LOBO, Luiza . Estética da Recepção. In: SAMUEL, Rogel (Org.). Manual da teoria literária. Petrópolis: Vozes: 1984.
LOBO, Luiza . Leitor. In: JOBIM, José Luís (Org.). Palavras da crítica: tendências e conceitos no estudo da literatura. Rio de Janeiro: Imago, 1992.
MARTINS, Maria Helena. O que é leitura. 19. ed. São Paulo: Brasiliense, 2004.
PRADO, Jason; CONDINI, Paulo (Orgs). A formação do leitor: pontos de vista. Rio de Janeiro: Argus, 1999.
REVISTA EDUCAÇÃO. São Paulo: Segmento, ano 11, n. 121, p. 20, 36-56, mai. 2007.
SARAIVA, Juracy Assmam (Org). Literatura infantil: do plano do choro ao plano da ação. Porto Alegre: ArtMed, 2001.
SILVA, Ezequiel Theodoro da. Leitura e realidade brasileira. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985.
SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.
ZILBERMAN, Regina. Leitor brasileiro “em primeiro lugar”. Com Ciência. São Paulo, Seção Artigos. Disponível em: <http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=40&id=480>. Acesso em: 31 ago. 2009.

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