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terça-feira, 2 de julho de 2013

Aboios do passado: História do inicio da pecuária no Brasil.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 4, Volume jul., Série 02/07, 2013, p.01-06.



Prof. Jairo de Lucena Gonçalves.
Graduado no curso de Historia da Universidade de Pernambuco.





Este artigo tem como finalidade explanar pontos importantes da trajetória histórica do vaqueiro nordestino, como sendo um dos personagens de grande importância no processo de colonização dos sertões[i]. Buscando descrever fatos que passam despercebidos quando se estuda a História do Brasil em Especial a do nordeste.

O aparecimento dos marrueiros[ii] nas terras brasílicas.
O marrueiro surgiu no Brasil em tempos coloniais na primeira metade do século do século XVI. Com a introdução dos primeiros rebanhos bovinos pela capitania de São Vicente, no entanto a atividade pecuarista teve maior sucesso na capitania de Pernambuco e posteriormente se espalhou para varias regiões do nordeste.
Goulart (1965) citando Gilberto Freire, onde este explana que a maioria do gado que habitavam o nordeste provia de cabo verde (outra colônia de Portugal) e de são Vicente, Freire não descarta que o donatário de Pernambuco Duarte Coelho teria trazido algumas cabeças de gado quando veio residir no Brasil em 1535.
Inicialmente a pecuária se deu nos arredores dos engenhos nas regiões litorâneas.
Esse fato foi possível porque o numero de animais não era tão grande, e fica de certa maneira fácil cuidar deles.
Porém, com o crescimento dos rebanhos e a falta de cercas para proteger as plantações os bois começaram a invadir os canaviais e os mandiocais causando uma grande desavença entre criadores e agricultores.
Esse problema só foi resolvido em 1701 com o decreto do rei D. Pedro II proibindo a criação de rebanhos próxima dos engenhos ou dos roçados de qualquer tipo, á distancia mínima que os animais podiam ser criados era de dez léguas de distancia (cerca de 60 km).
Esse fato se explica porque a pecuária era apenas uma atividade de apoio que tinha importância secundaria perante o governo português, a grande “menina dos olhos” destes era a cana da qual se fabricava o açúcar que gerava tanta lucratividade para a metrópole.
Como destaca Goulart citando Caio Prado Jr. (1965:50):

Acultura da cana não permitiu que a (pecuária) se desenvolvesse nas férteis e favoráveis terrenos da beira-mar. relegou-a para o interior mesmo quando este apresentava os maiores inconvenientes a vida humana e suas atividades, como se dá em particular no sertão do nordeste.

Porém não podemos ofuscar a importância dos rebanhos na manutenção dos aglomerados humanos, já que esses animais serviam de alimento tanto para as pessoas dos engenhos e vilas quanto para os escravos.
O boi era utilizado também para o transporte de cargas mais pesadas que não pudesse ser carregado pelos escravos ou pelos cavalos.
Sabe-se que para se produzir o açúcar era necessário uma grande queima de madeira por esse motivo as matas que circundavam os engenhos foram gradativamente sendo dizimada.
Cabendo aos homens que domesticavam os bois buscarem as madeiras em lugares mais longínquos, era também trabalho dos bois levarem o açúcar para os portos quando os engenhos se situavam afastados destes, (essa afirmação não quer dizer que os bois foram os únicos animais a serem utilizados para transportar os produtos pesados, pois os equinos e os muares também foram de grande valia e não podiam ficar sem seus créditos).


O cotidiano dos sertões.
Os marrueiros eram os próprios lusitanos de inicio, entre tanto com a decisão do real em afastar os rebanhos para os sertões ouve uma necessidade de ensinar aos indígenas aliados as técnicas de criação de bovinos, acredito que tenha sido coerente para os portugueses o auxílio dos índios, pois estes já tinham um conhecimento geográfico das regiões para onde iam os bois. Salientando que isso não que dizer que os lusitanos não foram para os sertões; os índios apenas davam um suporte para os europeus.
Se a vida nas vilas coloniais já eram desconfortáveis como seria a vida nos sertões?
Onde ainda não tinha sido feito nenhuma melhoramento de infra-estruturar. Como assinala Priore e Venâncio (2006: 70):

“[...] A vida aí não era fácil. O cotidiano desenrolava-se sob sol causticante e solo árido [...], a falta d’água era tanta que, frequentemente muitos não tinham o que beber. Junto com a seca vinham as crises de abastecimento. Quase nada florescia, nem crescia. A regularidade das estiagens era apavorante.”

Os marrueiros levavam uma vida seminômade, pois precisavam se deslocar todas as vezes que o gado buscava novas pastagens, provavelmente eles viviam em cabanas improvisadas com peles ou tecidos.
Como defende Darcy Ribeiro (2006), o boi foi uma mercadoria que se conduziu por se mesma, o vaqueiro e a apenas seguindo seus rastros.
Outro fato a ser observado no dia-a-dia doa marrueiros era o grande risco de morte que estes corriam, por diversos motivos não apenas no oficio do seu trabalho mais também por causa dos ladrões que vinham das vilas para roubarem o gado; é de se imaginar que era muito fácil roubar uma rês nas condições que estas viviam, longe dos aglomerados humanos, o gado se espalhava na imensidão da caatinga facilitando a pratica do furto, já que os vaqueiros não podiam observar todo o rebanho simultaneamente.
As feras das terras praticamente intocável pelos homens brancos igualmente proporcionavam muitos perigos para os marrueiros, pois eles deveriam ter um cuidado redobrado com as crias novas que fossem aparecendo no rebanho, já que estes eram presas fáceis para os carnívoros principalmente a onça parda.
Mas nenhum dos conflitos foi tão grande e sangrento quanto dos marrueiros contra os indígenas, verdadeiras guerras foram travadas nos sertões; já que a expansão do território era algo vital para o crescimento dos rebanhos.

Desde o século XVI, o movimento de ocupação do sertão norte do Brasil confrontou o colonizador com povos indígenas que habitavam estas regiões destinadas a criação do gado. [...] a acentuação do movimento de expansão da pecuária, conflitos antes limitados tornaram-se cada vez mais frequentes, de modo que em breve uma situação de conflagração geral surgiria as vistas das autoridades coloniais, sendo denominada “Guerra dos Bárbaros”. (Puntoni,apud, Priore e Venâncio,2006, p71).

Muitas tribos indígenas foram “deserdadas” da terra que era deles; onde estes enterravam seus entes queridos e cultuavam seus deuses.
Entre tanto não podemos imaginar que os índios não lutaram por eu território; pois os índios atacavam os rebanhos matando desde reses a vaqueiros e cavalos, é de se imaginar como os aborígines brasileiros tinham hábitos antropomorfos que muitos dos marrueiros tenham virado alimento em um cerimonial. 

Goulart (1965: 27) relata sobre essa questão:

Mas em 1687, os Janduís à frente, ecôa o grito de guerra das tribos inconformadas: é quando inicia-se a correia dos nativos, de fachos em punho e setas em riste, incendiando fazendas, matando gados e flechando vaqueiros, dizimando o que de branco lhes embargasse os passos.


Observa-se que na questão levantada nesta elocução, que os indígenas dos sertões resistiram bravamente até quando puderam para retomar o seu território nas mãos dos invasores.


Curral de criar gente.
É do antropólogo Darcy Ribeiro (2006: 312) essas palavras “Assim é que é que os currais se fizeram criatórios de gado [...] e de gente” a elocução do autor pode ser justificável, pois como já foi relatado anteriormente os marrueiros viviam em provavelmente em cabanas já que precisavam se deslocar constantemente, impossibilitando este de fixar moradias.
Periodicamente era necessário levar um determinado numero de animais para serem abatidos ou para prestarem serviços de transporte nas vilas.
Esse fato demandava um grande trabalho por parte do vaqueiro que precisavam captura os animais que eram praticamente selvagens, eles amarravam os animais, porém muitos se libertavam e voltavam par o mato fechado.
Era necessário se criar um espaço onde os animais pudessem ser aprisionados antes de ser levado para as vilas.
Primeiramente os materiais utilizados para construir os primeiros currais foram as madeira das caatingas, os “currais de varas” não foram muito eficientes, pois os animais escapavam com facilidade e, além disso, precisavam de manutenção constante, pois os bois quebravam muitas varas quando fugiam.
Logo o material foi trocado por outro também encontrado com abundancia na natureza a pedra; os currais de pedra eram muito difícil de construir, mas sua durabilidade era muito maior (em varias regiões do nordeste  ainda podem ser vistos vários currais em pé).
Com o aparecimento dos currais os familiares dos marrueiros puderam se fixa nos arredores destes, todo o cotidiano da família se passava próximos aos currais e aos rebanhos, nesse período meados do século XVII os indivíduos sobreviviam com o que retiravam do gado.
Pessoas acostumadas à vida simples longe dos padrões das cidades litorâneas. Estes não buscaram construir uma nova Europa no Brasil (ou pelo menos com o passar dos anos esse sentimento foram se perdendo).
Barroso (2003) enfatiza que as populações que habitam os sertões nordestinos são em sua maior parte miscigenações de europeus com indígenas. Isso explica porque estes de certo pontos estiveram por logo tempo desconectados culturalmente dos costumes litorâneos.
Á distancia do “mundo civilizado’ também foi um fator que propiciou a criação de uma cultura própria dos povos sertanejos.


Vida nas fazendas.
Segundo Sampaio (1987) o surgimento das primeiras fazendas esta compreendida entre o final dos séculos XVII e meados do século XVIII.
Nesse período a grande preocupação dos marrueiros não era somente com os rebanhos, mas também com água (era importante que os latifúndios fossem pelo menos cortado por um rio).
Era função do vaqueiro cavar barreiros em regiões que ficassem muito afastadas dos rios;  estes recebiam o auxílio de outros empregados das fazendas, mais os marrueiros eram os grandes responsáveis pelo serviços.
O trabalho era algo comum no cotidiano das fazendas, Mary Del Priore e Renato Venâncio (2006), em uma pesquisa documental, observam que as fontes oficiais relatavam com normalidade o trabalho dos “pequenos vaqueiros” nas fazendas campeando o gado.
Quando a seca era prolongada a única opção para saciar a sede não somente dos animais mais também dos homens era a cavação de cacimbas dos leitos dos rios secos.
Nas fazendas as moradias dos marrueiros e dos fazendeiros eram bem diferentes, as dos primeiros era feita de taipas (Barro e varas) chão de terra batida.
Residências pequenas e baixas quase sem moveis; na sala um tronco de árvore vazia a vez de sofá, seus utensílios de trabalho (gibão, arreios, espingardas) eram penduradas nas paredes.
Em seus quartos não aviam camas, segundo Priore (2011) a cama era um artigo de luxo só que possuíam era indivíduos que tinham um grande poder econômico.
Estes dormiam em esteiras ou em redes, nos quartos as roupas eram guardadas em varais.
Na cozinha um fogão de lenha sempre aceso, paredes presas tingidas pela fumaça produzida pela queima da lenha da caatinga.
O marrueiro era um abio caçador; era um cenário comum nas conzinhas se encontrar carne de caça defumada pela fumaça dos fogões, (no período das chuvas), no verão as carnes e os peixes eram salgados e colocados para secar no sol. Isso fazia que os alimentos durassem mais tempo, ou seja, não entrasse em estado de putrefação.
As residências dos fazendeiros eram de alvenaria, construções altas, que mantinham traços europeus, residências caracterizadas por muitas salas e quartos demonstrado que as residências das fazendas era âmbito de encontros destes informais até mesmo políticos (que os fazendeiros mantinham uma grande influência na política regional).
Pernambuco tem muitas cidades que nasceram das primeiras fazendas Sampaio (1988) relata algumas destas entre elas; Caruaru, Salgueiro, Buique, Gravatá,entre outras tantas. Priore e Venâncio (2006: 71) fazem uma elocução sobre essa questão: “alguns arraiais e vilas nasciam no centro dessas fazendas, dando origem a muitas das atuais cidades nordestinas.”
Esse processo se deu pelo grande comercio de gado dos séculos XVIII e XIX. Que incentivou a muitos indivíduos se transferir das cidades litorâneas e seguissem para os sertões em busca de melhores condições de fida nas imensidões dos latifúndios ou em seus arredores.
Com o aparecimento dessas cidades no interior os marrueiros poderão encontrar outra fonte de renda.
Já que estes possuíam “juntas de bois mansos”[iii], estes eram utilizados para carregarem mercadorias das cidades Pólos para as cidades e vilas menores e destas para as budeguinhas[iv] da zona rural.
A agricultura também foi praticada pelo marrueiro, apesar de que geralmente as roças eram cuidadas por suas esposas e filhos.
Que também tratavam do seu pequeno rebanho, enquanto seus maridos e pais cuidavam dos rebanhos dos patrões.
Foi também no inicio do século XIX que foi se iniciando um “novo capitulo” na História da trajetória dos marrueiros; eles começaram a comprar pequenas porções de terras e deixavam de ser apenas empregados e se tornavam proprietários de seus próprios destinos.


Concluindo.
As narrativas da vida dos homens que foram “obrigados” a desbravar os sertões seguindo o gado são cheio de detalhes que pode apaixonar a qualquer estudioso que busca se debruçar sobre esta questão.
O grande objetivo deste artigo não foi de forma alguma explanar todos os detalhes do cotidiano dos vaqueiros; ele teve como finalidade principal apenas aguçar a curiosidade do leitor para as Histórias dos sertões e dos seus homens.
Que são contadas de varias formas (música, versos, cordéis, etnografias, documentos históricos, e pela memória dos indivíduos mais velhos).
Uma História caracterizada pelas dificuldades, porém muito bela de ser vislumbrada.


Para saber mais sobre o assunto.
BARROSO, Gustavo. Terra de Sol. Fortaleza: Edição Demócrito Rocha, 2003.
MAURICIO, de Albuquerque, Mª Laura. Cantos de aboio. João Pessoa: Ed. Sal da Terra, 2007.
PRIORE,Del, Mary. ; VENÂNCIO, Renato. Uma História da Vida rural no Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.
PRIORE, DEL, Mary. Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil. São Paulo: Planeta do Brasil, 2011.
FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. 18. ed. SP : Ed. Nacional, 1989.
GULART, José Alípio. Brasil de boi e do couro. Rio de Janeiro: edição GRD, 1964.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. SP, companhia de letras, 2006.
SAMPAIO, Francisco, Coelho. Estudos sociais: Pernambuco. SP: Ed. Do Brasil, 1988.




[i] Como eram chamadas as regiões que não eram banhadas pelo mar, ou seja, os interiores do território.
[ii] Forma que os primeiros vaqueiros eram chamados.
[iii] Dupla de bois domesticados que são utilizados para puxar carros de madeira os chamados “carros de boi”.
[iv] Pequenos estabelecimentos comerciais; um misto de mercado e bar, ainda muito comum de ser encontrada atualmente na zona rural.

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Forte abraço.
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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