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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O movimento Luddista e a oposição à automatização do trabalho.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 3, Volume jan., Série 02/01, 2011, p.01-07.


O sentido atual de luddismo define a palavra como sinônimo de medo da tecnologia e resistência ao progresso, mas o significado do movimento luddista é mais profundo.
Possui raízes históricas que remontam a Revolução Industrial inglesa, segundo a leitura marxista do fenômeno e a historiografia mais recente, representada por Eric Hobsbawm, vinculado ao inicio dos movimentos operários e organizações sindicais.
Em outra vertente, o luddismo representou uma proposta alternativa de construção social, centrada no ser humano ao invés das máquinas.
Compôs o que o filósofo Martin Heidegger chamou de tecnofobia, a denuncia da mecanização como vil interesse do lucro, desumanizando as relações, inserindo-se dentro do âmbito da critica ao sistema capitalista vigente.
Reprimido com força na Inglaterra, em 1819, embora discutido por Karl Max no Capital, o movimento luddista renasceu com força a partir da década 1970.
O que aconteceu através de propostas diferenciadas para reformar o sistema capitalista, entre outros autores, tal como apresentada por Ivan Illich, a quem se atribui, ironicamente, também o germe da ideia de Internet como uma rede de troca de conhecimentos e circulação de informações.
Destarte, para entender o movimento luddista é necessário focalizar a atenção sobre o contexto da Revolução Industrial inglesa, onde surgiram as condições que conduziram ao nascimento do luddismo, identificado então com o banditismo dos quebradores de máquinas.


A Revolução Industrial e os fatores que conduziram ao luddismo.
Na segunda metade do século XVIII, iniciou-se na Inglaterra, um processo de substituição das ferramentas por máquinas, da energia humana pela energia motriz, do modo de produção doméstico pelo sistema fabril.
Este processo mudou radicalmente a estrutura da sociedade e acelerou o avanço tecnológico, ficando conhecido como Revolução Industrial.
Caracterizada por três fases; entre 1760 e 1850, a Revolução industrial esteve restrita a Inglaterra.
O processo de industrialização foi fomentada pela influência britânica sobre a América Latina e pelo liberalismo, circunscrita a produção de bens de consumo, principalmente, baseados na indústria têxtil e na energia a vapor.
Entre 1850 e 1900, difundiu-se inicialmente pela Europa, espalhando-se notadamente pela Bélgica, França, Alemanha e Itália; chegando depois a América, onde encontrou terreno fértil nos Estados Unidos da América e na Ásia, sobretudo centrada no Japão.
Nesta segunda fase, os bens de consumo se diversificaram, intensificando a concorrência entre as nações industrializadas.
Os meios de transporte foram difundidos para escoar a produção e deslocar a matéria-prima (ferrovias e navios a vapor), ao passo que novas formas de energia, como hidrelétricas, e novos combustíveis derivados do petróleo, alteraram a rotina fabril.
A partir de 1900, convencionou-se chamar a nova fase como 3º. Revolução Industrial, caracterizada pelo surgimento de grande conglomerados industriais que ultrapassaram as fronteiras das nações.
Quando surgiram as multinacionais com produção automatizada, marcando o advento da sociedade de consumo e avanços tecnológicos ainda mais acelerados a partir de 1980, principalmente na área da informática.
Justamente na primeira fase da Revolução Industrial, nasceu o movimento luddista.
Na ocasião, a produção artesanal, circunscrita às corporações de oficio, surgidas dentro do contexto medieval, foi substituída pela manufatura mecanizada.
As corporações de oficio, fenômeno típico do período inicial do renascimento urbano, produziam bens, com ferramentas, instalações e matéria-prima em escala doméstica.
O conhecimento acumulado era transmitido de pai para filho, valendo-se da mão de obra como principal ingrediente necessário à produção.
O crescimento dos centros urbanos conduziu a ampliação da demanda, o maior consumo levou muitos artesãos a aumentarem sua produção, originando as manufaturas e a divisão social do trabalho.  
As funções sofreram uma especialização, o trabalho passou a ser assalariado, remunerado pela participação no processo produtivo.
A passagem da produção artesanal para as manufaturas marcou uma transformação radical no caráter do trabalho, separou o capital dos meios de produção, criando um antagonismo entre capitalistas, detentores dos meios de produção, e proletárias, aqueles que tinham como único capital sua mão de obra.
O termo proletário foi extraído da concepção romana, para os quais, os ditos proletários eram aqueles que tinham como única posse a sua prole, os filhos.
Isto porque, dentro do contexto da antiguidade, um empréstimo podia ser tomado sob a garantia da escravização dos filhos e esposa, chegando ao extremo do endividado terminar se tornando escravo em caso de não pagamento.
A partir do advento das manufaturas, o trabalhador perdeu o controle sobre o processo produtivo.
Até então, todo o processo ainda estava centrado na figura humana, mas a ampliação do consumo, suscitado pela abertura de novos mercados, durante as guerras napoleônicas e após as independências latino-americanas, criou a necessidade de aumentar o ritmo da produção, mecanizando as manufaturas.
Diante de uma necessidade social, estimulado por concursos realizados pelo Estado inglês, a partir de 1733, começaram a surgir novos inventos que tentavam adaptar os velhos teares manuais, usados para fiar algodão e transformá-lo em tecido, para serem movidos a vapor ou pela energia das águas.
A mecanização da produção, além da alterar o ritmo do trabalho, diminuiu a necessidade de mão de obra.
A força bruta do gênero masculino não era mais necessária para operar os teares, pelo contrário, mãos delicadas e pequeninas passaram a ser requisitadas para dar conta de desenroscar as engrenagens de metal, através das pequenas frestas que possibilitavam o trabalho.
Muitas crianças, algumas de seis anos de idade, perderam mãos, braços e dedos lidando com as engrenagens destas máquinas.
Era um tempo em que ainda não existiam direitos trabalhistas e a utilização da mão de obra infantil não era mal vista pela sociedade.
O fato é que, com a utilização de crianças e mulheres como mão de obra preferencial, a mecanização da produção tendeu a desvalorizar o trabalho humano, visto como facilmente substituído.
A população urbana da época, aglomerada em cortiços, tendia a altas taxas de natalidade, embora a mortalidade infantil também fosse elevada, oferecendo um farto contingente de operários.
A desvalorização do trabalho humano conduziu a uma baixa nos salários e, conforme o processo de mecanização avançou, a um crescente desemprego, principalmente entre os homens adultos.
Enquanto alguns trabalhadores procuraram fugir dos problemas se entregando ao alcoolismo e ao banditismo; outros responsabilizaram as máquinas pelos problemas sociais, acabando por se rebelar.
Aos descontentes juntaram-se os pequenos artesãos que se viram arruinados, diante da produção mecanizada que baixou o preço dos bens de consumo produzidos, inviabilizando a concorrência das pequenas oficinas.


Os camponeses, expulsos da zona rural pelos cerceamentos, obrigados a migrar para as cidades, sem perspectiva de emprego, também começaram a culpar as máquinas pelos problemas da sociedade em colapso.


Revoltados, grupos enfurecidos iniciaram a invasão de fabricas em 1769, destruindo as máquinas, obrigando o Estado e os proprietários a organizarem defesas, praticamente, militares para tentar impedir as invasões, fazendo largo uso de forças policiais públicas e milícias privadas.

Nasceu o que ficaria conhecido como o movimento dos quebradores de máquinas, o qual, estimulado pelas ideias da Revolução Francesa, ganhou força e durou até aproximadamente 1779.
A concepção antimecanização só foi enfraquecida entre os estamentos mais pobres na Grã-Bretanha através de uma lei, promulgada em 1797, que tentou garantir condições de sustento mínimo a população desempregada, por meio da qual o Estado subsidiava a compra de pão.
Uma velha formula desenvolvida pelos romanos na antiguidade, conhecida como pão e circo, a garantia de subsistência e distração das questões realmente importantes.
Embora a nova lei tenha apaziguado os ânimos, o bloqueio continental impetrado por Napoleão Bonaparte, em 1806, apesar de não ter prejudicado a economia inglesa, provocou a escassez de trigo e conduziu a um crescente e abusivo aumento do pão, base da alimentação dos ingleses.
O movimento dos quebradores de máquinas ganhou novo fôlego a partir de 1811, desta vez, não mais aglomerados em turbas descontentes, mas organizados e liderados por alguém que se identificava como General Ludd.  


Ned Ludd e os quebradores de máquinas.
Embora os relatos sejam confusos, o estopim do reinicio do movimento dos quebradores de máquinas começou com a destruição de uma máquina de tricotar meias por Ned Ludd, em uma fábrica condado inglês de Leicestershire.
Em um acesso de raiva, após ser repreendido pelo patrão, não se sabe exatamente o porque, o enfurecido Ned tornou-se um herói local ao quebrar a máquina, passando a ser apelidado General Ned ou King Ned.
Imediatamente agregou em torno de si uma inumeros seguidores que passaram a se denominar ludistas.
Organizados, começaram a enviar cartas às fabricas, exigindo que os proprietários se livrassem das máquinas, ameaçando invadir e destruir tudo, queimar a propriedade, assassinado os capitalistas, suas famílias e até saquear suas residências.
Inicialmente as ameaças não foram levadas a sério, até que milhares de ativistas, com rostos pintados e mascarados, começaram a atacar a noite, equipados com instrumentos de trabalho, principalmente com martelos, quebrando as máquinas e causando pânico.
O movimento ludista cresceu, ganhou novos lideres, como Enoch Taylor, um ferreiro que levava ao ombro uma poderosa maça de ferro batizada com o seu nome.
Todos estes novos lideres estavam submetidos ao comando de Ned Ludd, com poder de vida ou morte sobre os membros do movimento.
Foi quando o grupo se tornou mais ousado, com o registro de ataques as fabricas em plena luz do dia, destruindo de máquinas sob o aplauso de multidões de desempregados.
Tendo a Revolução Francesa como precedente, o luddismo adquiriu, cada vez mais, um caráter de insurreição contra os poderes estabelecidos.
Diante do fato, o Estado inglês decidiu intervir, reprimindo o movimento.
Inicialmente, em 1812, o parlamento inglês promulgou uma lei que previa pena de morte a quem destruísse maquinas.
Lei a qual o poeta Lorde Byron se opôs ferozmente, por enxergar no luddismo um movimento legitimo de transgressão das normas.
Entretanto, o governo inglês iniciou processos de deportação e prisões de luddistas conhecidos, enfraquecendo o movimento.
Sete anos depois, em 1819, tendo adquirido um caráter mais reivindicatório do que revolucionário, luddismo foi reacendido.
Cinquenta mil pessoas se reuniram em Saint-Peter para protestar contra as péssimas condições de trabalho nas fabricas e contra a mecanização do trabalho.
Encarada pelo governo inglês como uma insurreição, a manifestação luddista foi dissolvida por uma carga da cavalaria, comandada pelo duque de Wellington, um dos comandantes que havia vencido Napoleão em Waterloo.
O episódio culminou no chamado Massacre de Perterloo (uma paródia jocosa de Waterloo), com a morte de 15 manifestantes e a prisão de muitos outros; chocando a Grã-Bretanha e novamente abafando o luddismo.
No entanto, o movimento ainda não havia chegado ao fim, pois, nos anos 1830, surgiu no meio rural a figura mitológica do Capitão Swing.
Ele adotava métodos semelhantes aos de Ned Ludd, dizendo-se contra a mecanização do trabalho, neste caso especificamente, apoiando a luta dos tosquiadores de lã contra a mecanização.
Os manifestantes exigiam, também, o direito de poder se reunir em associações, angariando fundos destinados a pagar o enterro de seus membros, germe do sindicalismo inglês.
Todavia, o luddismo foi perdendo força na mesma medida em que começaram a surgir os sindicatos, dos quais, inclusive, o movimento é tido como um precursor.
A oposição contra as máquinas foi substituída pela luta contra a exploração do trabalho infantil e pela limitação da utilização da mão de obra feminina, assim como pela exigência de melhores salários e condições de trabalho.


O luddismo e o movimento operário.
Embora o movimento luddista tenha sido visto, pela historiografia, como a primeira insurreição genuinamente proletária, isento de ideologia.
Estudos mais recentes, notadamente a partir de 1970, de cunho marxista, procuraram realizar uma releitura, tentando desmistificar a imagem de um movimento de analfabetos ignorantes, transformando os luddista em precursores dos movimentos sindicais.
Segundo Thompson, em A formação da classe operária inglesa, não foram às condições objetivas externas ou estruturais do capitalismo industrial que suscitaram a criação dos sindicatos, mas a própria experiência e ação coletiva dos grupos de trabalhadores em oposição às classes superiores da sociedade, criando uma identidade de interesses entre si e contra seus dirigentes e empregadores.
Neste sentido, na concepção do autor, o luddismo representou uma experiência subjetiva que ajudou a criar uma consciência de classe, marcando um momento de conflito e de transição.
O movimento, de um lado, olhava para trás, para costumes antigos e uma legislação paternalista que nunca poderia ressuscitar; de outro, tentava reviver antigos direitos para abrir novos precedentes, tendo como fundamento básico as comunidades locais e os antigos valores das tradições populares.
Em confluência com Thompson, Hobsbawn também enxergou no luddismo um movimento proto-sindical, inicialmente uma reação natural ao desemprego, mas que, depois, teria evoluído para uma forma de contestação ao capitalismo, representado pela substituição do trabalho artesanal pela mecanização.


Concluindo.
Na década de 1930, o filosofo alemão Martin Heidegger, cunhou o termo tecnofobia para expressar o horror suscitado pelo avanço tecnológico, a padronização da linha de montagem e o fordismo, encerrando em si a perda da individualidade humana.
Medo expresso pela metáfora do homem sendo engolido pela máquina no filme Tempos Modernos, de Charles Chaplin, de 1936.
A releitura, a principalmente a partir de Hobsbawn, terminou reacendendo o movimento, ampliando o conceito de luddismo, originando o chamado neoluddismo, a oposição aos avanços tecnológicos, com ataques a laboratórios que realizam experiências biogenéticas e lavouras transgênicas; ações que guardam precedentes justamente na chamada tecnofobia.
Entretanto, o homem contemporâneo depende cada vez mais da tecnologia, mas será na eventualidade de uma necessidade que ainda consegue viver sem as máquinas?
Até que ponto o desenvolvimento da inteligência artificial não tornará os humanos também descartáveis, tal como a mão de obra dos operários foi se tornando mais superfula desde o século XVIII?


Para saber mais sobre o assunto.
ARRIGHI, Giovanni. O longo século XX: dinheiro, poder e as origens de nosso tempo. São Paulo: Unesp, 1996.
ARRUDA, José Jobson. Nova História Moderna e Contemporânea. São Paulo: Edusc, 2005, v.1, p.207-234.
HOBSBAWM, Eric J. A era das Revoluções. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
HOBSBAWM, Eric J. Os trabalhadores: estudos sobre a história do operariado. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
KENNEDY, Paul. Ascensão e queda das grandes potências. Rio de Janeiro: Elsevier, 1989, p.143-167.
THOMPSON, E. P. La formacion historica de la clase obrera: Inglaterra 1780-1832. Barcelona: Laia, 1977.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela USP.
MBA em Gestão de Pessoas.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade de São Paulo.

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Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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