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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Teoria do conhecimento e o criticismo kantiano.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume ago., Série 08/08, 2011, p.01-07.


Na sua maturidade, o filosofo alemão que viveu no século XVIII, Immanuel Kant dizia que toda filosofia tinha a finalidade de responder uma só questão:
“O que pode legitimamente a nossa razão?”
Em outras palavras, a filosofia se resumiria a teoria do conhecimento, ao questionamento da capacidade cognitiva da razão.
O que implicaria em rever toda a metafísica, conduzindo até a ética.
Já que ao responder “o que posso saber”, necessitaríamos abordar “o que devo fazer”, implicando em discussões conceituais em torno da ética.
Tudo para chegar ao questionamento do que “é permitido esperar”.
Preocupações que nasceram a partir da oposição entre racionalistas e empiristas, levando Kant a questionar a natureza do conhecimento humano e a possibilidade da existência de uma razão pura, independente da experiência.
Em outras palavras, seria o conhecimento aquilo que é apreendido pelos sentidos e a experiência ou pela razão?
Kant questionou o racionalismo e o empirismo, ao longo de vinte anos de pesquisas, originando o pensamento que ficaria conhecido como criticismo kantiano.
Uma critica tanto ao racionalismo como ao empirismo, daí chamado de criticismo, fortalecendo a base da ciência contra os ataques dos céticos.
O implica em afirmar que o criticismo também diz respeito à filosofia da ciência.


Immanuel Kant.
Immanuel Kant (1724-1804) nasceu em uma família simples de artesãos, em uma cidade portuária no mar Báltico, quando a Alemanha ainda nem existia como país, em território então pertencente à Prússia.
O pai fabricava correias para carroças, a mãe era muito religiosa e cuidava dos afazeres domésticos.
O casal teve doze filhos, dos quais seis morreram ainda crianças, um perdeu a mão com onze anos, enquanto duas meninas tornaram-se empregadas domésticas ao crescer.
A família era luterana, com rígida postura moral, pertencendo ao Pieteismo, um movimento puritano que afirmava que a fé brotava direto da leitura e interpretações literais da Bíblia.
Incentivado pela mãe, Kant estudou em um colégio local, destacando-se, sendo recomendado pelo diretor para cursar filosofia em Königsberg, onde também estudou teologia.
Época em que demonstrou grande interesse pela física, química e biologia.
É interessante ressaltar que ele entrou na universidade com apenas dezesseis anos de idade.
Entretanto, em 1747, com a morte do pai, foi obrigado a abandonar os estudos, vivendo anos de miséria, sendo obrigado a trabalhar como preceptor em casas de famílias da nobreza.
Apesar das dificuldades, já com duas obras publicadas, em 1755, voltou à universidade para concluir seus estudos.
Pouco depois, recebeu o titulo de doutor, o que garantiu o direito de oferecer cursos livres, pagos pelos alunos da universidade e não pela instituição.
Em 1770, aprovado em concurso publico, tornou-se professor titular na Universidade de Königsberg, lecionando matemática, lógica, metafísica, pedagogia, direito natural e geografia.
Ele fez carreira na universidade, onde chegou a reitor, na qual fez questão de permanecer apesar dos convites para lecionar em outros locais da Europa.
Nos últimos anos de vida ficou quase cego, renunciou a cátedra em 1796, perdeu a memória e a lucidez, ficando quase senil, falecendo em 1804 aos oitenta anos de idade.
Durante sua vida Kant escreveu obras de fundamental importância para a filosofia e outras áreas do conhecimento.

No chamado período pré-critico publicou as seguintes obras:
01. Pensamento sobre a verdadeira avaliação das forças da vida (1740-1747), onde tenta conciliar o pensamento de Descartes com de Leibniz.
02. História universal da natureza e teoria do céu (1755), uma explicação mecanicista da natureza, inspirada na física de Newton.
03. Um esboço sumário de algumas meditações sobre o fogo (1755).
04. Nova explicação dos primeiros princípios do conhecimento metafísico (1755), obra que deu a Kant o titulo de doutor.
05. Os terremotos (1756), livro sobre física e fenômenos da natureza.
06. Monodologia física (1756).
07. Sobre o otimismo (1759).
08. O único argumento possível para demonstrar a existência de Deus (1763).
09. Ensaios para introduzir em metafísica o conceito de grandeza negativa (1763).
10. Observações sobre o sentimento de belo e do sublime (1764).
11. Pesquisas sobre a evidência dos princípios da teologia natural e moral (1764).
12. Sonhos de um visionário esclarecido com os sonhos da metafísica (1766).
13. Sobre a forma e os princípios do mundo sensível e do mundo inteligível (1770).
14. Dissertação de 1770, publicada no referido ano.

No chamado período crítico, que marca a maturidade do pensamento kantiano, o filósofo escreveu as seguintes obras:
15. Critica da razão pura (1781), onde estabeleceu criticas ao racionalismo.
16. Prolegômenos a toda metafísica que se queira apresentar como ciência (1783), critica feroz aos conceitos metafísicos que se pretendem científicos.
17. Idéias de uma história universal do ponto de vista cosmopolita (1784).
18. Respostas à pergunta: o que é o esclarecimento? (1784).
19. Fundamentos da metafísica do costume (1785), obra abordando questões éticas.
20. Princípios metafísicas da ciência da natureza (1786).
21. Critica da razão prática (1788), uma critica ao empirismo que tenta resolver questões que ficaram abertas na “critica da razão pura”.
22. Critica da faculdade de julgar ou critica do juízo (1790).
23. A religião nos limites da simples razão (1793).
24. Pela paz perpétua (1795).
25. A metafísica dos costumes (1797).
26. A pedagogia (1803), obra publicada após a morte do autor.


O criticismo kantiano.
Embora no chamado período pré-critico, entre 1755 e 1770, Kant tenha comungado com o racionalismo, tentando reestruturar a metafísica metodicamente, em uma tentativa de revesti-la de uma roupagem cientifica.
Após se tornar professor titular, com a defesa da Dissertação de 1770, Kant atingiu a maturidade intelectual, superando o dogmatismo e iniciando uma nova fase que daria origem ao chamado criticismo.
Contemporâneo da Revolução Francesa e Industrial, em um momento que os filósofos se encontravam divididos entre o racionalismo francês e o empirismo inglês, Kant propôs um terceiro caminho, criticando as duas tendências.
A postura criticista propunha a investigação dos fundamentos do conhecimento, repensando a filosofia para perguntar pela fonte do conhecimento, analisando o dogmatismo racionalista e o ceticismo empirista.
Em certo sentido, o criticismo kantiano se insere no iluminismo, mas termina indo além, pois pretende demonstrar que: “não se pode aprender a filosofia, somente se pode aprender a filosofar”.
É intenção do criticismo reconstruir a filosofia como uma ciência racional que pudesse abordar todo o conhecimento humano.

Respondendo quatro questões básicas:
1. O que é possível saber?
2. O que devemos fazer?
3. O que devemos esperar?
4. O que é um ser humano ou o que somos nós?

Assim, embora muitas vezes classificado como iluminista, Kant pretendeu o inverso dos filósofos ilustrados.
Ao invés de subdividir a filosofia, tencionou fortalecer seu caráter totalizante como ciência primeira ou ciência geral e completa.
O que levou Kant a ir muito além da Teoria do Conhecimento, entrando em discussões também pertinentes a ética e a moral, entre outras temáticas.


A crítica da razão pura.
Os racionalistas haviam criado uma base de sustentação sólida para o conhecimento, fornecendo um método seguro para auxiliar na construção do saber.
Porém, a garantia do Cogito era sustentada pela metafísica, por idéias inatas e universais.

O que, na opinião de Kant, sob o olhar empirista, não pode ser comprovado pela experiência.

Por outro lado, o empirismo se quer fornecia uma base para a construção do conhecimento, caindo em um individualismo relativista e no ceticismo, inviabilizando qualquer segurança ao conhecer.
A solução, portanto, estaria em examinar a razão através da própria razão, reescrevendo sua base de sustentação.
Em primeiro lugar caberia demonstrar que é possível chegar a conhecimentos universais.
O que implicaria em questionar a origem do conhecer para além da experiência e, ao mesmo tempo, fugindo do inatismo.
Para Kant, um juízo, a relação entre conceitos pensados, decorre a partir de matéria e forma.
A matéria é composta pelas próprias coisas, é o objeto em si, percebido pelo juízo analítico ou a priori, independente da experiência, embora apreendido pelos sentidos, originando uma idéia universal.
Todo corpo é físico, independente do formato, o predicado do corpo é ser físico, concreto, palpável, transmitindo em si esta idéia universal captada pelos sentidos.
A forma encontra-se naquele que conhece, nas sensações do próprio sujeito que organiza a matéria no tempo e espaço.
Portanto, a forma é representação da matéria na mente de quem percebe, o que altera o objeto real, originando juízos sintéticos ou a posteriori.
Um exemplo é o fato do corpo ter peso, o que é conferido pela matéria, mas o quanto é pesado depende da forma, levando o sujeito a perceber o peso e compor um conceito particular e relativo à sua percepção que é o juízo sintético.
Neste sentido, o conhecimento é a relação do sujeito com o objeto.
Não podemos conhecer as coisas em si, mas aquilo que é permitido pela mente humana, constituindo conceitos universais.
Em certo sentido, ao fazer isto, conheço o que não é apenas para mim, mas para todos os seres humanos, ou seja, idéias universais, embora não inatas.
Assim, os sentidos percebem o mundo, mas é a razão que organiza o conhecimento.
Segundo Kant, o engano dos racionalistas foi afirmar que as idéias são inatas, já que na realidade dependem dos sentidos.
Entretanto, o engano dos empiristas foi supor que a razão é adquirida pela experiência, pois ela existe independe de vivenciar um fato, é uma síntese que é transmitida independentemente das experiências pessoais.
O conhecimento pode ser adquirido através da experiência de um sujeito que o transmite a outro que não necessariamente necessita viver a mesma experiência, embora quem apreende precise sempre recorrer aos sentidos para adquirir novos conhecimentos.
Neste ponto, Kant se depara com uma dificuldade insolúvel, uma vez que as questões metafísicas, tais como a existência de Deus, não podem ser conhecidas através dos sentidos.
A solução provisória é afirmar que estes conhecimentos metafísicos caem no Agnosticismo (a=não + gnosis=conhecimento), demarcando a impossibilidade de conhecer.
Em síntese, seriam possíveis apenas juízos a priori sobre a metafísica, sendo impossível balizar juízos sintéticos e, portanto, pensar na temática como uma ciência, constituindo apenas crenças.
Um problema que Kant iria procurar resolver na Critica da razão prática, chegando a uma solução muito parecida com a cartesiana, afirmando que para as questões metafísicas seria possível a existência de conceitos inatos.


Concluindo.
Estabelecida a razão como centro do conhecimento, Kant procurou demonstrar que é a necessidade prática que determina a vontade humana e não os sentidos.
Simultaneamente, afastou a pretensão da razão como condicionadora da ação moral.
Não seria a razão que determina a moral, o que é considerado bom ou mau, mas a necessidade coletiva que determina a moral e a racionalização do que é bom.
As necessidades práticas para a existência da vida em sociedade criam os chamados imperativos, prescrições, deveres que determinam a ação a priori, antes da experiência.
Em outras palavras, os imperativos determinariam como agir, antes de ter que decidir ou viver a situação, tornam o agir uma obrigação.

Segundo Kant, os imperativos seriam:
1. Hipotéticos: condicionando uma ação a algum fim, tal como no exemplo “estude para passar na prova”.
2. Categóricos: incondicional e absoluto, tomado como essencial para a existência da vida coletiva, tal como no exemplo “não matarás”.

Neste sentido, os imperativos terminam determinando as leis, ratificando o dever e o próprio conceito de liberdade, já que a minha liberdade é restringida pelos imperativos.


Para saber mais sobre o assunto.
DELEUZE, Gilles. Para ler Kant. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.
FIGUEIREDO, Vinicius de. Kant e a critica da razão pura. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela FFLCH/USP.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela USP.

Um comentário:

  1. Muito bom... Ótima publicação!
    Teria como sintetizar a ideia de Kant? Pois, ainda estou meio confuso... Quero saber como esse pensamento de Kant influenciou outros filósofos...

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Forte abraço.
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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