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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
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Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
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terça-feira, 19 de julho de 2011

Um novo olhar para as relações: o processo de colonização na América

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume jul., Série 19/07, 2011, p.01-06.


“Os discípulos devem aos mestres apenas uma fé e uma suspensão temporária de seu próprio juízo, até que estejam completamente instruídos, e não uma resignação absoluta ou um cativeiro perpétuo (...) que os grandes autores recebam portanto o que lhes é devido, e que também o tempo, que é o autor dos autores, não seja privado do que é seu, isto é, descobrir mais e mais a verdade”.
Francis Bacon

Quando falamos sobre a Conquista do Novo Mundo, do processo de colonização e das relações resultantes deste, percebemos uma visão estereotipada mesmo por parte dos latinos americanos.
A imagem do índio como ingênuo, frágil e ignorante prevalece no imaginário das pessoas.
Muitas vezes, essa visão é gerada pela história dos vencedores, onde só se analisa os feitos dos europeus e esquece-se da resistência indígena tanto no confronto direto quanto na resistência cultural.
Gruzinski e Bruit analisaram esses estigmas e mostraram que as relações no mundo colonial foram muito além dessa perspectiva de divisão entre conquistadores e conquistados. Gruzinski trabalha em O Renascimento Ameríndio as influências artísticas que os indígenas adquiriram dos europeus.
E, por outro lado, não deixa de salientar a sua capacidade de criação, que ao adquirir essa influência externa acaba integrando-a com a sua arte originando assim uma cultura mestiça, da qual fazemos parte hoje.
Já Bruit, em Derrota e Simulação. Os Índios e a Conquista da América, desmistifica essa idéia de que os índios aceitaram pacificamente a colonização e mostra uma forma de “resistência pacífica” pouco explorada pela maioria dos autores desta temática.


Bruit e a estratégia do fingimento.
Bruit coloca a pacificação dos nativos frente às opressões dos europeus como uma estratégia.
O fingimento, segundo ele, era um mecanismo de defesa.
Simulava-se uma aceitação para enganar os conquistadores e assim manter a sua cultura viva.
Como no caso da resistência religiosa, que visando enganar os catequizadores com uma falsa obediência, escondiam figuras da sua tradição atrás de santos católicos.

“Do lado dos conquistadores, as coisas eram bem mais difíceis. A não ser raras exceções, os espanhóis ignoravam as tradições culturais americanas e os índios tiraram disto o máximo de proveito para ocultar e manter viva, mesmo que parcialmente, uma história que nas aparências tinha morrido. “(...) Nos altares que eles mesmos construíam para agradar ao padre, por trás das imagens de Cristo ou escondidos entre os adornos do altar ou atrás das paredes do mesmo, colocavam seus ídolos” (BRUIT, 1991, p.16).

Sendo assim, a conformidade dos colonizados com a submissão aos novos costumes não era verdadeira, na aparência eles fingiam aceitar a situação, mas na prática mantinham escondidos os antigos costumes.
Outro ponto de resistência abordado pelo autor é o silêncio.

No entanto, o silêncio não gerou nenhum beneficio, mas o contrário, pois a falta de comunicação entre os indígenas gerava uma desunião, um enfraquecimento da comunidade frente aos invasores hispânicos.

Dessa forma, o autor esclarece que a aparente pacificidade do índio era na verdade a sua astúcia, o modo de defender as suas tradições e de responder a verdade apenas quando fosse conveniente.
Assim, a antiga idéia de que os índios eram ingênuos e aceitaram a religião católica porque acreditaram que o Deus cristão era mais poderoso é repensada.
E essa preservação cultural, segundo o autor, foi possível porque os espanhóis ignoravam as tradições indígenas.
Entretanto, o encobrimento dos rituais nativos não era sempre tão desconhecido pelos europeus, mas havia certa tolerância, pois sabiam que o desapego às velhas tradições levava tempo.


Gruzinski e o valor da cultura indígena.
A raiva e o desejo de vingança não foram abafados pelo medo. A noção de que estavam sendo desrespeitados era clara.



E através desta noção, o folclore indígena expressa diversas manifestações contra a dominação espanhola (como as peças teatrais que modificam o final da história ao colocá-los como os vencedores); a falta de interesse; a negação ao trabalho e os suicídios também demonstram certa resistência.

Gruzinski também critica a forma que a Historiografia antiga e o imaginário da maioria das pessoas leigas abordam as relações entre o indígena e o europeu como de submissão do primeiro.
Ele aponta o preconceito como principal motivador desta visão eurocentrista.
No campo cultural, a idéia de que os índios eram atrasados está sendo superada, assim como a falsa idéia de que a tradição e os segredos indígenas foram preservados sem sofrer nenhuma modificação até hoje por alguns grupos.
O autor nos mostra constantes traços de mesclagem na cultura indígena resultante do contato entre esses povos.
E assim como a errônea idéia de atrasados, o massacre e o caos tomam conta das páginas dos livros de História sem reservar uma parte que fale da utilização da mão-de-obra indígena com a colaboração da própria elite nativa para a construção de um novo Estado aos moldes europeu.
Assim, Gruzinski trabalha com o termo de ocidentalização - ao contrário de colonização como é muito utilizado -, no qual o objetivo europeu se dava pela tentativa de transformação.
Como demonstra o processo de cristianização, que faz dos índios fiéis, membros da cristandade.
Dessa forma, achar que o povo indígena foi apenas massacrado com o objetivo de satisfazer os ideais europeus de dominação é um pouco contestador.
Pois é claro que houve o massacre, isso é incontestável, mas também houve um jogo de interesses, onde a elite indígena desempenhou um importante papel.
E os resultados da relação índio – europeu não foram isentos de influências positivas.
Tanto que a educação aos filhos da nobreza beneficiou a preservação da sua cultura.
Assim, o que parecia a perda de suas tradições para influências exteriores acaba se tornando um meio de preservação, pois através da transcrição de documentos e obras anteriores à dominação, se mantém viva essa tradição.
A partir de 1536, foi inaugurado um estabelecimento de ensino superior para os índios, o colégio de Santa Cruz de Tlatelolco, onde aprendiam o latim, a retórica e a teologia.
Dessa maneira, percebe-se um investimento na educação destinada aos indígenas, e neste período em que é gerada uma elite intelectual, muitos chegam a adquirir um importante papel na carreira política.
Isso ocorria também porque os espanhóis percebiam a importância da influência desta elite para conquistar a dominação das massas populares.
Assim, adquirindo cada vez mais conhecimento, muitos letrados indígenas participaram de grandes pesquisas etnográficas realizadas pelos monges, e serviam de tradutores e coletores de informações, segundo Gruzinski.
Adquiriam também familiaridade com as obras literárias de clássicos da Antiguidade, pois assim como na sua cultura, os gregos eram pagãos e isto dava liberdade para expressarem suas crenças na adaptação destes textos, como aponta o autor:

“(...) Os índios haviam compreendido que, na Europa, a Renascença estabelecia um forte vínculo entre o cristianismo e o paganismo da Antiguidade Clássica: por que então os Azteca cristianizados não teriam o direito de conservar, eles também, vínculos com o seu passado pagão? Deveria haver dois pesos e duas medidas? Além disso, a partir da leitura dos autores antigos, os índios sabiam que nem todos os antepassados dos espanhóis haviam sido cristãos. E não se constrangiam muito em lembrar esse fato a seus interlocutores europeus!” (GRUZINSKI, 1999, p. 295).

Dessa forma, Gruzinski aponta o alcance desses conhecimentos e a conseqüente adaptação destes como O Renascimento Ameríndio.
Onde o conhecimento da escrita e o conhecimento das técnicas artísticas ocidentais mantêm a tradição indígena e gera uma conseqüente mesclagem entre esses dois mundos.
Na técnica da pintura nota-se uma inovação digna de reconhecimento, afastando assim o mito de reprodução e de falta de capacidade criativa por parte dos índios.
Muito pelo contrário, Gruzinski demonstra que originaram uma arte mestiça, adaptaram e criaram coisas de origem européia dando um novo sentido a elas:

“(...) Os pintores e os escritores transformaram os estilos europeus e criaram formas mistas. Em outras palavras, essas elites criaram uma arte mestiça, uma música e uma literatura mestiças, que se caracterizam pela maneira como essas criações indígenas cruzaram as técnicas, as formas e os conteúdos do Ocidente renascentista com os da América indígena” (GRUZINSKI, 1999, p. 295).

Dessa forma, essas criações são frutos de certa admiração dos indígenas pela arte européia, mas também demonstram a capacidade e o bom gosto de criação dos nativos.
Nesse caso não podemos nos atar a uma perspectiva apenas de dominação por parte dos espanhóis, a influência existiu, mas os colonos foram capazes de recebê-la e transformá-la em algo novo, mesclado com as suas próprias expressões artísticas preservadas mesmo com a dominação.


Concluindo.
Assim, através da análise das obras de Bruit e Gruzinski, podemos constatar que a realidade vivida por colonizadores e colonizados foi muito mais complexa do que a visão simplista que muitas pessoas fazem a respeito do processo de colonização.

A população indígena não foi totalmente submissa às ordens e gostos dos colonizadores.
Por outro lado, ela soube utilizar-se dos aspectos positivos desta relação para criar novas formas de expressão, como no caso das artes.

Sendo assim, é preciso que seja lançado um novo olhar para as relações entre os europeus e os indígenas no processo de colonização.
A imagem do índio submisso e do europeu dominador deve ser repensada, pois as relações entre estes nos mostra sociedades complexas cujas atitudes não podem ser resumidas.
E o fato é que mesmo que as populações indígenas tenham sido dizimadas; que o grau de crueldade a elas destinado seja incalculável; e que as suas tradições culturais tenham sido parcialmente esquecidas, não teriam ocorrido resultados positivos dessas relações?  E se atualmente sofremos com a globalização, estaríamos hoje também sendo submissos?


Para saber mais sobre o assunto.
BRUIT, Héctor Hernán. Derrota e simulação: os índios e a conquista da América. Revista Resgate de Cultura. Campinas, n. 2, 1991.
ELLIOT, J. H.. A conquista Espanhola e a Colonização da América. In: BETHEL, Leslie. (org). América Latina Colonial. Volume I e II. São Paulo: Edusp, 1998.
GRUZINSKI, Serge. O Renascimento Ameríndio. In: NOVAES, Adauto (org). A Outra Margem do Ocidente. São Paulo: Companhia da Letras, 1999.
LAS CASAS, Frei Bartolomé de. O Paraíso Destruído. A Sangrenta História da Conquista da América. Porto Alegre: L&PM Pocket/Descobertas, 2001.
RESTALL, Matthew. Sete mitos da conquista espanhola. Tradução de Cristiana de. Assis Serra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
TAPAJÓS, Vicente. História da América. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1968.


Texto: Profa. Adriana Costa.
Licenciada em História pelo Centro Universitário Metodista do Sul IPA.

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Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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