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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
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quarta-feira, 13 de julho de 2011

O conceito de Cultura: um produto social e historicamente construído.

 

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume jul., Série 13/07, 2011, p.01-06.


Em um sentido histórico-antropológico contemporâneo, considera-se que, seja por obra do “espírito universal” ou para produzir as condições materiais de vida, o Homem mantém, aperfeiçoa, modifica, traduz, recria sua existência produzindo cultura.
A relação entre História e Cultura foi estabelecida teoricamente na obra de Georg Hegel, quando afirmou que a razão humana se manifesta por meio das instituições religiosas, artísticas, científicas, sociais, políticas etc.
Segundo ele, em cada tempo e lugar, essa razão se apresenta de uma forma específica, modificando-se em um processo contínuo, de acordo com as determinações do “espírito universal”.
Karl Marx também discutiu o tema, mas contrapondo-se a Hegel. Para Marx, a relação entre história e cultura dá-se não pelas escolhas dos homens, mas devido a condições concretas e pré-determinadas, estabelecidas no processo de produção da sobrevivência.
Assim, as próprias instituições sociais e intelectuais seriam organizadas pela forma como, em cada época, estrutura-se a economia, e não pelas determinações do “espírito”, como propôs Hegel.
Não obstante as controvérsias teórico-filosóficas, ambos situaram a relação lógica e dialética entre tempo histórico e produção cultural, indicando que compreender a cultura é essencial para compreender o mundo.


Cultura e cultura erudita.
De modo geral, quando se afirma que alguém possui “cultura”, isso quer dizer que esse alguém tem um “conhecimento maior” do que o possuído por outras pessoas, que “estudou muito”, que teve acesso a uma “educação formal”.
As definições habituais de cultura estão associadas, por um lado, ao senso comum, que tradicionalmente atribui à palavra o sentido de cultura erudita, letrada, e por outro, à própria História da humanidade, na qual a educação escolar constituiu-se como privilégio social para aqueles que puderam desfrutar de maiores recursos e, consequentemente, tiveram maior acesso ao saber elitizado.
Como a educação foi quase sempre um privilégio de classe, ao longo dos séculos as sociedades têm alimentado a ideia de que há uma cultura superior, que é a erudita, e as outras formas, tidas como inferiores ou nem mesmo consideradas como tal, como é o caso da cultura popular e da cultura de massa.
Mas, a formação do senso comum também faz parte dos processos culturais, pois as sociedades vão desenvolvendo percepções, criando sentidos para os vários aspectos da realidade e, por meio da linguagem e da produção material, procurando traduzir seus significados.
Um pensamento de Leonardo Boff talvez possa elucidar essas muitas possibilidades de interpretação da realidade e compreensão do mundo, assim como da relação entre o modo como um indivíduo entende e explica sua realidade exterior e interior e o seu lugar social:

“Ler significa reler e compreender, interpretar. Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde seus pés pisam. Todo ponto de vista é a vista de um ponto. Para entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual sua visão do mundo. Isso faz da leitura sempre uma releitura. A cabeça pensa a partir de onde seus pés pisam. Para compreender é essencial conhecer o lugar social de quem olha. Vale dizer, como alguém vive, com quem convive, que experiências tem, em que trabalha, que desejos alimenta, como assume os dramas da vida e da morte e que esperanças os animam. Isso faz da compreensão sempre uma interpretação”.


Cultura e poder.
Do ponto de vista das organizações sociais, é possível identificar na relação entre cultura e lugar social uma correspondência com as concepções de mundo que vão sendo elaboradas, pois em diferentes tempos os sujeitos sociais que adquiriram a cultura letrada ocuparam postos de comando e controle.
Por essa razão é possível estabelecer uma analogia entre cultura e poder.
A própria ideia de que existe uma cultura superior e formas inferiores de cultura demonstra essa analogia.
Desde a época de institucionalização das primeiras escolas, as edubas da antiga Mesopotâmia, somente os filhos das famílias mais abastadas frequentavam as aulas, visto que nem todos podiam abrir mão do trabalho dos seus filhos, ou arcar com os custos para mantê-los durante anos em regime integral de aprendizado.
Os alunos eram os aprendizes de escriba e sacerdote e, quando formados, seriam destinados ao ofício religioso, ao magistério os as funções políticas e econômicas mais importantes.
No antigo Egito, os filhos dos escribas estudavam em uma escola especialmente destinada a eles.
Esperava-se que os saberes do escriba ficassem reservados às mesmas famílias, assim como o poder que iriam exercer.
O conhecimento aprendido ou produzido nessas escolas não deveria ser comum a todos os membros da sociedade, permanecendo restrito ou secreto.
Aliás, a palavra secreto, do latim secretus, significa o que está escondido ou colocado à parte; esta palavra deriva de secerne, separar.
Por sua vez, a palavra sagrado, do latim sacer, também significa o que está à parte, separado do mundo comum, está associada ao conhecimento religioso, destinado aos iniciados, tanto que as antigas inscrições egípcias eram denominadas hieróglifos, que significa gravura sagrada (hieros = sagrado + glifo = gravura). 
Os escribas, mesmo não sendo nobres, iriam prestar serviços nos palácios e viver sob as benesses do faraó, o grande chefe político.
Como bem demonstra um documento egípcio escrito por Duaf ao seu filho Pepi, em uma carta com instruções para que permanecesse na Escola dos Livros, destinada aos filhos dos escribas:

“Olha, deves entregar-te de coração aos livros. Olha os escribas, como são livres de trabalhos pesados; acredita, nada ganha aos livros. Lê o final do Kemit e encontrarás esta máxima:  - O escriba está em toda a parte da corte, e dos escribas nenhum é pobre. Mas o que atua mediante a inteligência de outrem (o ignorante) não obtém êxitos [...]. Repara: não há profissão que não tenha um superior, a não ser a de escriba, pois ele próprio é um superior [...] Meskenet, deusa dos nascimentos, preparou o êxito para o escriba: ele é posto à cabeça dos funcionários e o seu pai e a sua mãe agradecem a Deus”.

Na antiga Grécia havia uma palavra para definir os diferentes status, que expressa a superioridade na escala social como algo ligado ao saber religioso e ao comando: hierarquia, resultado da junção entre hieros, sagrado, e arquia, governo ou autoridade, ou seja, governo sagrado.
E, como um conceito histórica e culturalmente constituído nas relações humanas, a palavra hierarquia foi mantida, designando a existência de papéis e lugares sociais distintos.
Quando os antigos romanos conquistaram a Grécia, no século I a.C., dentre as medidas para apropriação da cultura grega, professores e filósofos da Grécia foram levados, muitos na condição de escravos, para educar os filhos dos patrícios, sendo chamados de pedagogos, palavra grega formada por paidós, criança, e agodé, o que conduz, que ensina, ou seja, aquele que educa a criança.
Em pouco tempo os filhos da elite romana falavam também o grego, adicionando novos saberes aos já existentes e distanciando-se ainda mais do saber comum da plebe.
Esse sistema de status, de alocação social, em função da incorporação de conhecimentos não ficou restrito aos primeiros tempos históricos, podendo ser observado em todas as épocas e partes do mundo, nas sociedades tradicionais ou modernas, orientais ou ocidentais.
Assim, os indivíduos têm sido socialmente diferenciados também pelos saberes, eruditos ou não.
Nas sociedades tribais indígenas, por exemplo, aqueles que ocupam postos de comando, como os caciques, os chefes políticos, e os pajés, os chefes religiosos, conhecem as tradições – do latim traditio, transmissão, ou o trazer para o presente – com os seus rituais mágicos e religiosos, as fórmulas medicinais, transmitindo e preservando a memória coletiva.
Mas também as pinturas e os adornos corporais, as formas de organização social, politica, econômica, assim como as diferentes expressões, expõem saberes e valores, identificando, além das hierarquias, os ritos, as normas e os padrões comportamentais.
A associação entre cultura e poder perpassou sociedades e tempos históricos, estando ainda presente, pois tanto nas sociedades simples como nas complexas, há sempre inúmeras produções e expressões culturais, como reflexos dos conhecimentos adquiridos.
Apesar do senso comum que discrimina e hierarquiza as produções culturais, a cultura se manifesta em várias feições, como característica humana, como resultado das habilidades e potencialidades presentes em cada indivíduo que dotado de capacidade intelectual e criadora, observa e transforma a Natureza, manipula símbolos e abstrai significados, busca a compreensão de si mesmo.
Em outras palavras, o Homem, ao produzir cultura, torna-se realmente humano.


O estudo das produções culturais.
Para compreender esse processo, é importante lembrar a própria origem da palavra cultura.
Cultura, do ponto de vista etimológico, vem do latim colo, que significa cultivo. Primeiramente, a palavra representava o cultivo da terra, a prática da agricultura e o cuidado com seus frutos.
Posteriormente, foi recebendo outros sentidos e passou a significar aquilo que se cuida, que se preserva.
Quando surgiram as línguas modernas, a palavra e seus significados foram mantidos com um sentido basicamente comum, que é o de saber e preservar.
Saber e preservar são palavras que se referem à socialização da informação e do conhecimento, e ao exercício das várias modalidades da produção humana, ligadas à oralidade, à organização social, à fabricação de artefatos, às diferentes manifestações do pensamento.
Nesse sentido, é rico o exemplo fornecido por E. P. Thompson, que ao refletir sobre a articulação política dos trabalhadores ingleses da primeira metade do século XIX, quando boa parte não tinha acesso à instrução escolar, afirma:

[...] as vilas e até as aldeias ressoavam com a energia dos autodidatas. [...] os diaristas, artesãos, lojistas, escreventes, e mestres-escolas punham-se a aprender por conta própria, individualmente e em grupo [...] reuniriam pilhas de periódicos radicais e aprenderiam a usar as publicações oficiais do Parlamento; diaristas analfabetos nem por isso deixavam de ir todas as semanas, a um bar onde lia-se em voz alta e discutia-se o editorial de Cobbett”. 

Mas essa concepção apresentada por Thompson, de cultura como uma produção intelectual comum aos diferentes sujeitos sociais, incluindo os iletrados, é recente.
Somente a partir o final do século XIX, com o aprofundamento dos estudos históricos, sociológicos, antropológicos, arqueológicos, linguísticos, psicológicos  e museológicos a cultura foi convertida em objeto de estudo mais sistematizado, mas ainda pensada como filosofia, arte e ciência.
Apenas nas últimas décadas do século XX a cultura passou a ser definida como fenômeno resultante das relações entre os homens, o produto do conhecimento que deriva de um saber coletivo.
Com o avanço das pesquisas na área de Ciências Humanas, e em um tempo que se caracteriza pela mutação, as manifestações culturais tornaram-se objeto privilegiado de análise, recebendo classificações – erudita, popular e de massa ou material e imaterial – e definida também como fenômeno relacionado à construção das identidades dos povos nas sucessivas épocas históricas.
Por essa razão, uma forma interessante para observar as mudanças e permanências nas sociedades é analisar as produções culturais de diferentes grupos humanos ao longo do tempo.
A própria Museologia, antes condicionada por uma visão elitista do mundo, reorganiza seus paradigmas e apresenta uma nova forma de entender o processo de musealização, bem como os objetos que passam a integrar os acervos dos museus.
Trata-se de uma as repercussões da mudança do olhar e do conceito de cultura, relacionando-se, agora, ao sentido da diversidade das manifestações artísticas, científicas, intelectuais etc. de determinado tempo e lugar.


Concluindo.
A análise da produção cultural permite a identificação de valores, técnicas, gostos, padrões estéticos, formas comportamentais e princípios éticos.
Ou seja, a compreensão do mundo exige a compreensão das produções culturais em seus contextos históricos específicos.
Hoje não se aceita a afirmação de que somente os dotados de conhecimentos eruditos possuem cultura, pois todas as experiências humanas, letradas ou não, remetem os indivíduos à produção de saberes e à ampliação do intelecto.
Apresentando-se de forma erudita, popular ou massificada, o que a cultura expõe, preserva, transforma, traduz, é sempre o saber e o fazer humano criando o novo, preservando o antigo, recriando formas, transformando a existência.


Para saber mais sobre o assunto.
BOFF, Leonardo. A águia e a galinha. 14 ed. Petrópolis: Vozes, 1998.
CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Tradução Maria Manuela Galhardo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2000.
CHAUÍ, Marilena. Filosofia. São Paulo: Ática, 2002.

Escosteguy, Ana Carolina. Os Estudos Culturais. Disponível em: http://www.pucrs.br/famecos/pos/cartografias/artigos/estudos_culturais_ana.pdf

FALCON, Francisco José Calazans. História cultural e história da educação. In: Revista Brasileira de Educação, vol.11, nº 32, Rio de Janeiro, maio/ago. 2006.

GIORDANI, Mário Curtis. História da Antiguidade Oriental. 12 ed. Petrópolis: Vozes, 1992.

KRAMER, Samuel Noah. Os Sumérios. Lisboa: Bertrand, 1977.

LUZURIAGA, Lorenzo. História da educação e da pedagogia. 19 ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2001.

THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa: a força dos trabalhadores. 2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989. Vol. III.

 

 

Texto: Profª Drª Marilda Aparecida Soares.
Doutora em História Social – FFLCH USP.
Professora das Faculdades Integradas de Ribeirão Pires.

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