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terça-feira, 7 de junho de 2011

Farias Brito pelo Prof. Luis Alberto Cerqueira.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume jun., Série 07/06, 2011, p.01-07.

 
Discutir sobre o pensamento de Raimundo de Farias Brito é lembrar que influenciou o Tomismo no Brasil, é falar sobre anti-modernismo, realismo, tradicionalismo, espiritualismo, senso-comum, e valorização da religiosidade e do espírito.
O filósofo tinha a intenção de construir uma Filosofia do espírito, no seu sentido e significado mais profundo.
Falar em espírito para Farias Brito é lembrar que através da consciência emana o ser, que surge a energia vital e a capacidade de pensar, sentir e agir.
Portanto, este princípio que exerce o poder de criação, de ação, é ativo e vivo, é objeto de ciência.
E com característica que lhe são peculiares, esta ciência do espírito é real e segue em frente com seus métodos próprios.

O parágrafo em estudo foi extraído do artigo do prof. Luis Alberto Cerqueira, sob o título: Maturidade da Filosofia Brasileira-Filosofia e Psicologia.

“Cerqueira discorre sobre o surgimento da filosofia brasileira desde Gonçalves de Magalhães a Farias Brito, e o esforço da afirmação desta, em função do conhecimento de si como problema, a fim de achar as respostas para a explicação sobre o espírito.
O filósofo continua explicando que a filosofia vem de tempos remotos e todos os pressupostos filosóficos giram em torno da busca pelo conhecimento de si, como o ponto nevrálgico das indagações.
Pois antes mesmo de nascer à filosofia, o homem já se voltava as suas buscas intimas, havia movimentos que evidenciavam uma busca espiritual profunda, por respostas aos anseios da vida.
Na religiosidade e nas manifestações artísticas já se revelava o desejo latente por uma introspecção mais íntima do ser.
O existencialismo parece se cruzar entre o ser que pensa o divino, e aquele que pensa o humano.
O encontro íntimo do ser se volta para si mesmo, e se descobre como ser que interroga, e busca na subjetividade, o elo que une o Criador e a criatura.
Esta busca depende da vontade livre e da liberdade de pensamento, a fim de poder se livrar de conceitos pré-concebidos e ouvir a voz que vem da consciência.
Mas apesar do homem saber como elevar-se em espírito, ele não sabia ainda impor uma disciplina mais rígida, a fim de coordenar e usufruir os resultados a fim de guiá-lo seguramente na verdade, justiça e beleza.
A relação entre vontade e introspecção é o elemento fundamental da filosofia de Farias Brito”.


Liberdade.
Liberdade sempre foi um assunto muito discutido e delicado na história do pensamento humano.
Quer seja uma reflexão mais abrangente sobre o futuro e destino do ser humano, quer seja sobre as especulações e interpretações no sentido da ação deste ser, tais reflexões sempre se fizeram necessárias, o tema sempre foi motivo de especulações a partir da Modernidade.
Provocou e continua ainda a instigar o pensamento das várias áreas do conhecimento, incluindo a filosofia.
O ser humano somente pode exercer dinamidade a liberdade, quando realmente se sente livre.
Pensar filosofia é um esforço do espírito e da mente e o filósofo deve ter a liberdade de poder balizar suas idéias sem que seja influenciado por pressupostos pré-concebidos.
Sua consciência deve ter autonomia em suas ações e quanto mais se amplia e alarga seu conhecimento, mais nítida fica sua percepção em relação às coisas do espírito, que é uma força interna que cresce cada vez mais, uma energia latente, e justa medida da busca de si mesmo.
Pois é a partir da noção de conhecimento e através do conceito de liberdade, que o ser humano se torna livre e apto a exercer sua influência nas diversas áreas, e em especial na ciência.
Filosofia gera conhecimento e investigação, e por conseguinte, como relata a afirmação de Cerqueira
“A filosofia é anterior à ciência e tem por isso mesmo, um caráter pré-científico”.
Não é somente conhecimento abstrato, mas força e vitalidade que vem de dentro do ser, exercendo influências, quebrando paradigmas e gerando pressupostos á partir de problematizações sobre/dentro da sociedade.
Da filosofia nasce o verdadeiro sentimento moral de um povo e nação.
Lembrando Magalhães ao falar sobre a liberdade, “ó tem liberdade nesse mundo quem é inteligente, só tem inteligência quem é livre, e obra por si mesmo”, de tal maneira que quem tem inteligência e liberdade tem consciência de si mesmo, é de necessidade um ente moral (MAGALHÃES, 2004, p.355).


Filosofia e Ciência.
De acordo com o grande filósofo Farias Brito, o ser humano é um ser em constante processo de se produzir, está sempre tentando se superar em relação a si mesmo, mas a natureza lhe impõe certas contradições e muitas vezes o que era hoje, já não o será amanhã, pela própria imprevisibilidade das coisas.
A ciência é bem organizada, catalogada, experimentada e a filosofia se dá pela via do conhecimento, da especulação e está sempre se formando e transformando cada dia.
Neste sentido, pode-se afirmar que a razão humana também está em processo de formação, adquiri formas diferentes no correr dos tempos, dependendo de como o homem se relaciona com o mundo.
A razão é histórica e aos poucos vai sendo tecida na trama da existência humana.
A razão cuida da apreensão do mundo e a razão processa os dados e faz a pré-reflexão das idéias e imagens que foram geradas na mente.
A razão transforma-o em um conceito e à medida que é refletida mais vezes, vai se tornando cada vez mais complexo geral e abstrato. 
A partir desta entrada de assunto, pode-se falar sobre a abordagem do mundo a partir do homem comum, de maneira casual, baseada no bom senso assim como no caráter científico.
Estas duas abordagens desafiam a lei da física, e ocupam o mesmo espaço no mesmo tempo e lugar.
A ciência é o conhecimento organizado e verificado.
A filosofia é o conhecimento em via de formação.
Em outros termos: a filosofia é a organização do conhecimento científico; é a investigação do desconhecido; é a atividade mesma do espírito, elaborando o conhecimento e produzindo a ciência.
É uma atividade permanente, ou seja, é produto dessa mesma atividade.

Todo o conhecimento elaborado é ciência.
Aí descansa o espírito na posse da verdade.
Mas toda ciência é apenas um ponto determinado no seio do desconhecido, o que equivale a dizer, no seio do infinito.
Partindo desse ponto e em torno desse ponto para todos os lados se estende o desconhecido em proporções infinitas.
De maneira que jamais poderá o conhecimento elaborado ou a ciência esgotar a esfera do desconhecido.
Pelo contrário com o desenvolvimento das ciências parece que o desconhecido cresce; circunstância que tem a sua explicação neste fato: que o espírito galgando uma posição mais eminente descortina horizontes mais largos e deste modo descobre novas e estranhas perspectivas.
É por isto que toda a vez que o espírito descansa na posse de uma verdade, chega ao ponto terminal numa série de investigações; mas este ponto terminal é apenas o ponto de partida para uma nova série.
A palavra filosofia significa amor da ciência, ou amor a sabedoria.
E este amor somente pode nascer no espírito.
Portanto, se conclui que a filosofia é uma atividade da mente e do espírito, sendo que a ciência é o resultado no processo.
Além do que, amor é energia, força, vitalidade.
Logo, se a ciência ama a filosofia, é ela que a nutre a ciência, da força, é princípio gerador. Nosso espírito tem necessidade de questionamentos e buscas, faz parte da querer saber, conhecer.
A atividade do espírito é buscar conhecer e ao mesmo tempo, elaborar conhecimentos.
O espírito é inquieto e está sempre analisando, investigando, questionando e trazendo resultados que geraram ciência.
"A filosofia é a concepção do problema científico; a ciência é a sua solução".
A filosofia é uma atividade que tem por função própria produzir a ciência.
É o que se pode chamar a função teórica da filosofia.
A filosofia não é, pois, somente conhecimento abstrato; é também força social, força viva, capaz de exercer influência sobre a sociedade.
Esta influência é real e decisiva, pois é da filosofia que nasce o sentimento moral.
Para Farias Brito, a filosofia pertencia a uma esfera diversa da esfera das ciências, a estas cabia o conhecimento das formalidades externas, àquela a busca de um sentido e de uma regra para a ação humana.
A função prática e ética foi o que primeiramente surgiu espontaneamente no espírito do homem.
Desta forma, Farias Brito diz que, sendo assim, logo que o homem começou a pensar, é que nasceu a filosofia.
Para ele, a filosofia somente deve ter crédito se puder nortear e regular a ação, esta no sentido ético, é tudo o que o homem faz no exercício de sua atividade e toda deliberação seguida de execução.
Já com relação ao Espírito, “o trabalho do espírito é, pois, permanente, contínuo”.
No entender do filosofo “o que é mais importante é que a filosofia, elaborando o conhecimento, não somente vai fundando as ciências, o que quer dizer, alargando e consolidando o conhecimento científico (função teórica), como ao mesmo tempo abrange, por disposição natural, o conjunto da universal existência, e deste modo vai sempre fornecendo os elementos necessários para uma concepção do mundo”.
Portanto, “deste modo não somente continuamente se esforça por dar uma explicação da verdadeira significação racional da existência, como ao mesmo tempo procura definir a posição do homem no seio do Universo”.
Reunindo seu entendimento ético da filosofia e sua visão naturalista, se prende a uma perspectiva gniosológica realista e tradicional.

Diz o filósofo:


“Segundo a lógica tradicional e confirmado pelo senso comum e pelo assentimento universal do espírito, chama-se verdade a perfeita conformidade entre a representação e a coisa.
Para ele os instrumentos fundamentais do conhecimento consideram a função conceptualizadora da razão, e a analogia.
Como critério de verdade, ele somente aceita os testemunhos da consciência e do senso-comum.
Ele afirma: Nós sabemos que não há outro critério de verdade fora o testemunho normal e permanente da consciência.
E ainda, o senso comum algumas vezes erra, mas quando as teorias se afastam do senso comum, são artificiais e falsas”.


Concluindo.
É necessário entender o contexto que Farias Brito vivia na época.
A igreja católica passava por uma fase melindrosa, a crise religiosa tendia a crescer mais, os católicos procuravam algo mais coerente às circunstâncias de suas vidas e de seus valores.
Havia um confronto entre as normas e dogmas da igreja e os valores liberais da maçonaria. 
A religião se misturava à prática da cultura política, e tais acontecimentos conduziam ao desgaste à condição do transcendente divino.
A cultura se impunha, encostando os católicos contra a parede, mudando sua forma de comportamento e quebrando paradigmas.
O secularismo avançava de forma vertiginosa, a modernização atraia as pessoas ao consumismo e ao conforto, não havia ambições em relação a ideologias e nem havia nenhuma novidade nesta área.
Positivismo e tradicionalismo religioso sofriam embates, mas ambos eram de postura racionalista, que não coincidia com a realidade do momento.
A elite começa a se sobressair, e as diferenças entre dois tipos de Brasil começa a ficar cada vez mais evidentes, ou seja, um ideal e outro real.
Poder temporais e espirituais se digladiava entre si. 
Farias Brito, se opondo ao positivismo, elaborou então sua reflexão que protegeria a autonomia da consciência, dando-lhe assim uma autonomia sobre o mundo e a realidade objetiva.
O cientificismo positivista começou a ser combatido, este estava trazendo desânimo e inquietação à sociedade da época.
O materialismo continuava a sufocar o lado espiritual e psíquico das pessoas.
Como, do ponto de vista pragmático, a religião coincide com parte das idéias do positivismo, detentora de uma moral tradicionalista e rígida, por não desejarem serem vistas como baderneiras, administram o conflito e os conservadores assumem a situação no país.
É nesse ponto que Farias Brito se fez como igreja, tendo como concepção religiosa a consciência, o pensamento e a vida em espírito.
A concepção de suas idéias combinava com o momento e procurava se ajustar a ele.
Mas eram tempos difíceis e sua religião era de ordem prática, da ação e da moral.
Raimundo de Farias Brito era um homem notável, inteligente, observador, era um homem espiritual e se preocupava com a ciência, com o rumo dos pensamentos e com a consciência.
Resistiu a fome e a peste do sertão cearense, a perda de seu primeiro filho, aos embates de inteligência, a perda de sua primeira esposa, a perda de seu amigo Euclides da Cunha, morto em confronto com o amante da esposa e tantos outros infortúnios, que o homem comum não resistiria.
Mas uma cabeça privilegiada como de Farias conseguiu superar as tormentas da vida, e tinha um único pensamento, amar e ajudar o próximo.
Embora tenha vivido varias tragédias, pois era de uma capacidade extrema em sofrer, reagir e vencer as dificuldades que a vida lhe reservara, ele ainda conseguiu tirar lições em meio as angustias, deixando que formasse uma forragem sólida para a construção de suas teses e idéias.
Era um homem espiritual e se preocupava com a ciência, com o rumo dos pensamentos e com a consciência.
Não sei se o prof. Luis Alberto Cerqueira ou outros comentaristas da nossa época julgou-o digno ou indigno, errado ou correto frente as suas especulações de natureza psíquica, espiritual, científicos e de senso comum.
O que sei é que me sinto um tanto pequena perante suas lutas e não me considero apta a julgá-lo ou não.
Sua capacidade de sofrer era tremenda, ele viveu a escravidão, o império, a República, a época da rudeza excessiva e dos grandes nomes imortais: Rui Barbosa, Silvio Romero e tantos outros.
A preocupação dele com a vida de espírito, baseada em uma moral ilibada, uma consciência equilibrada, e uma razão que transcende ao nosso tempo, é o suficiente para mim.


Para saber mais sobre o assunto.
GALEFFI, Gina Magnavita (org.). A Verdade como regra das ações: Farias Brito (1862-1917). BRASIL: GRD-INL/MEC, 1979.


Texto: Marisa Gonçalves de Almeida Santos.
Bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de Campinas.
Artista Plástica e aluna do 3º. do curso de licenciatura em filosofia do Claretiano.

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