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segunda-feira, 28 de março de 2011

Spencer e o Darwinismo Social.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mar., Série 28/03, 2011, p.01-09.


Herbert Spencer (1820-1903) foi um filosofo e sociólogo inglês, responsável pela teoria do darwinismo social, considerado um seguidor de Comte e representante do positivismo na Grã-Bretanha.
Acreditava que a evolução seria um principio universal, sempre operante.
Muito conhecido na sua época, Spencer fez parte do circulo de amigos de Charles Darwin, autor de A origem das espécies, obra publicada em 1859.
Este último foi responsável pelo conceito de seleção natural e pela teoria da evolução a partir da lei do mais forte.
Spencer seguiu esta linha de pensamento e tentou aplicar as idéias de Darwin ao contexto da vida do homem em sociedade, originando o dito darwinismo social.
O qual influenciou o pensamento sociológico, o planejamento organizacional e o sistema educacional.


Influencias teóricas.
Além do contato direto com Darwin, Spencer sofreu influência das idéias de economistas como John Stuart Mill, Adam Smith e Thomas Malthus.
Para Mil, o sistema capitalista gera poder, este gera mais poder e dinheiro, ao passo que as energias da humanidade são canalizadas para a luta por riquezas.
Assim, dentro da ótica capitalista, as pessoas pensam prioritariamente em obter recursos monetários, o qual confere poder e se multiplica com ele, fazendo do dinheiro e do poder objetivos de vida.
Não significa que os indivíduos não tenham outras prioridades, mas sim que, para obter outras metas, necessitam primeiro buscar dinheiro e poder.
Para Smith, o governo deveria interferir o menos possível no desenvolvimento do capitalismo, pois a lei da oferta e da procura regula a economia.
Conforme existe uma grande oferta de determinado produto, seu preço tende a cair; inversamente, caso a oferta seja pequena, seu preço sobe.
Igualmente, sendo a demanda por um produto com pequena, seu valor cai; enquanto o aumento da procura faz os preços subirem.
Portanto, a dinâmica do mercado auto-regula preços e salários, não sendo necessário à interferência do Estado.
Um conceito que não considera o bem estar social das pessoas, somente as necessidades do sistema capitalista de se perpetuar.
Já para Malthus, as causas de todos os problemas da humanidade está na própria espécie humana.
O grande problema do mundo é o excesso de gente, o que faz os recursos naturais serem escassos e insuficientes para suprir a humanidade, forçando o sistema econômico a estratificar a sociedade.
Não existindo recursos que possibilitem um alto consumo por parte de toda humanidade, pois eles se esgotariam rapidamente, o capitalismo divide as pessoas em classes sociais.
Uma elite dirigente, com numero de pessoas limitado, tem acesso a um alto padrão de consumo, enquanto a maioria da população vive em condições precárias.
Neste sentido, guerras e epidemias seriam um mecanismo regulador da economia, fazendo diminuir a população, elevando os salários dos sobreviventes e o poder de consumo em geral, girando a economia, sem o risco de inflação e incapacidade industrial e agrícola de suprir as necessidades da sociedade.


As idéias de Spencer.
Spencer aplicou o darwinismo ao contexto social, partindo do pressuposto que o universo evolui e que a evolução é progresso, considerando, a exemplo de Comte, a ordem necessária para o progresso.
Para ele, todas as transformações possuem um caráter comum, compondo uma lei que, uma vez desvendada, permite prever as futuras transformações, embora esta previsão seja apenas parcial.
Acontece que toda causa produziria mais de um efeito, portanto, mais de uma modificação, constituindo novas causas e novos efeitos, multiplicados indefinidamente.
Dentro deste contexto, Spencer aplicou a lei do mais forte às estruturas sociais.
Chegou à conclusão que a seleção natural se aplicaria a sociedade quando pensada em termos de cooperação entre indivíduos em prol da supremacia de um grupo.
Assim, não se trata somente do individuo mais forte prosperar, mas do grupo mais coeso e forte tornar-se hegemônico, formando a elite dirigente de uma civilização.
Spencer explicitou estas concepções em várias obras, dentre as quais:

Princípios de sociologia (1879).
Lei e causa do progresso (1889).
Estatística social.
Sistemas de filosofia sintética.

Além destes livros, uma obra publicada em 1861, mas que ganhou destaque somente em 1927, após a morte do autor, influenciou decisivamente a educação britânica e mundial.
Trata-se de Educação intelectual, moral e física, onde Spencer defendeu a idéia de que era necessário preparar os indivíduos para serem uteis a sociedade, ao mesmo tempo, possibilitando uma formação adequada a sua sobrevivência no âmbito do sistema capitalista.
O que implicaria em desenvolver conhecimentos técnicos e científicos junto com uma formação moral doutrinadora do patriotismo, além de condições físicas saudáveis para os futuros operários e soldados da nação.
A partir de onde surgiram duas disciplinas ainda não integradas aos currículos escolares: Educação Moral e Cívica; e Educação Física.


A influência do darwinismo social no Brasil.
O darwinismo social influenciou fortemente os intelectuais brasileiros no século XIX e inicio do XX.
As idéias de Spencer foram incorporadas na obra Os sertões de Euclides da Cunha e nos estudos do médico legista Nina Rodrigues, a reboque, influenciando a historiografia brasileira que analisou a Guerra da Canudos.
O jornalista Euclides da Cunha, representando o jornal O Estado de São Paulo, participou como correspondente de guerra da campanha do exército brasileiro, em 1897, contra Canudos.
Observou tudo e registrou suas impressões em um livro que depois se tornou um clássico da literatura.
Canudos era o nome de uma comunidade que foi originada a partir de um movimento popular, liderado por um beato chamado Antônio Conselheiro, que durou de 1893 a 1897.
Conselheiro andou pelo sertão da Bahia, pregando contra a recém proclamada República.
Para ele o anticristo, defendendo que os sertanejos deixassem de pagar os exorbitantes impostos e não aceitassem a autoridade do governo federal, inclusive considerando um pecado o casamento civil.
A verdadeira autoridade residiria somente na igreja e na monarquia.

O beato obteve um sucesso tão grande em sua pregação que chegou a ter 25.000 seguidores, foi quando fundou o arraial do Bom Jesus de Belo Monte, nos arredores da fazenda Canudos.


O povoado cresceu rapidamente, praticando os preceitos do cristianismo primitivo, dividindo tudo igualmente entre seus moradores e formando uma guarda católica para proteger seus moradores.
Muitos jagunços das fazendas vizinhas; os quais faziam parte da chamada guarda nacional, braço armado dos latifundiários e, teoricamente, representantes do exército brasileiro na região; abandonaram seus coronéis para se juntar a Antônio Conselheiro.
Obviamente, o movimento irritou os fazendeiros da Bahia e repercutiu no Rio de Janeiro, então capital do Brasil.
Os sertanejos de Canudos foram considerados rebeldes monarquistas que lutavam contra a República, embora tão somente estivessem se colocando contra as mazelas do coronelismo e buscando apenas uma vida mais digna.
O governo federal enviou quatro expedições militares contra Canudos.

A primeira composta por efetivos da policia locais, foi facilmente derrotada pela guarda católica de Conselheiro.

A segunda, comandada pelo major Febrônio de Brito, agregando soldados das milícias locais, também foi derrotada, tendo seus equipamentos, armas e munições tomadas pelos sertanejos.
Melhor armados, a comunidade de Canudos conseguiu resistir à terceira expedição, liderada pelo coronel Antônio Moreira Cesar, considerado um herói na repressão ao movimento separatista Farroupilha no Rio Grande do Sul, apelidado “o corta cabeças”, pois tinha fama de mandar degolar os inimigos capturados.
A tropa federal, vinda diretamente do Rio de Janeiro, contando com 1.300 soldados, abusou do excesso de confiança e avançou, após longa marcha, sem analisar a topografia do terreno.
Foi derrotada pelos habitantes da Canudos, ajudando a deixá-los fortemente armados.
A quarta expedição foi formada quando as derrotas repercutiram fortemente na Capital, sendo composta por 4.000 soldados de infantaria e artilharia pesada, comandados pelo general Artur Oscar Guimarães.
Ocasião em que Euclides da Cunha se juntou as tropas como correspondente de guerra.
Após denuncias de corrupção, desvio de verbas e uma crise de abastecimento das tropas federais, os habitantes de Canudos foram derrotados depois de sete meses de combates.
Antônio Conselheiro já estava morto e enterrado, em decorrência de uma crise de disenteria, quando, em 5 de outubro de 1897, o arraial se rendeu sob promessa de que a sua população não sofreria represarias.
O cadáver de Conselheiro foi exumado e sua cabeça decepada com uma facada, a qual foi enviada para analise de Nina Rodrigues no Rio de Janeiro.
Os sobreviventes do sexo masculino foram sumariamente executados, mulheres e criança, feitos prisioneiros, tiveram que marchar a pé até o Rio de Janeiro, onde foram liderados e entregues a própria sorte.
O episódio impressionou fortemente Euclides da Cunha, que sob influencia das idéias de Spencer, passou a conceber a história como uma área do conhecimento linear, sem rupturas, voltada para um futuro industrial que iria acabar com as características rurais do Brasil.
Baseado em suas observações sobre Canudos, Euclides da Cunha assimilou os ensinamentos de Spencer, remetendo a análise da realidade brasileira em Os sertões.
Para ele, o episódio de Canudos representava o evolucionismo darwiniano, o sertanejo seria um aprimoramento da raça brasileira, em oposição ao negro e ao índio do litoral.
As três primeiras expedições a Canudos teriam fracassado porque eram compostas, primordialmente, por descendentes de negros e indígenas, enquanto os mais fortes, os sertanejos teriam triunfado.
O sertanejo seria forte porque é miscigenado, a miscigenação seria para Euclides da Cunha a força da nação.
A mistura de raças deveria constituir uma prioridade e um projeto nacional que levaria o Brasil a alcançar a sonhada ordem e progresso positivista e republicana.
Uma opinião totalmente oposta a de Nina Rodrigues, outro representante do darwinismo social no Brasil.
O médico legista que analisou o crânio de Antônio Conselheiro, publicou a obra Mestiçagem, desgenescência e crime, inclusive citando o caso de Canudos como exemplo.
Professor de Antropologia e psiquiatra, ele afirmava que a presença de negros e mestiços era a causa do atraso brasileiro, sendo a elite constituída naturalmente pelos brancos de origem ariana.
Em termos civilizacionais, os brasileiros seriam fracos, não tendo coesão interna enquanto grupo, compondo uma sociedade patológica, doente, daí o predomínio hegemônico de outros países guiando o Brasil.
Com base nesta concepção, nasceu no final do século XIX uma tendência que defendia o branqueamento da população brasileira e a marginalização de negros e mestiços.
Um tipo de pensamento que causou um grande estrago na mentalidade brasileira, que encontra absurdamente ainda hoje seguidores, sobrepondo-se a proposta de Euclides da Cunha, depois retomada por Gilberto Freire na década de 1930, com a publicação de Casa Grande e Senzala.
Nina Rodrigues revestiu teorias racistas de uma pseudo cientificidade, vinculando o darwinismo social com o conceito de raça, um erro teórico grosseiro, já que a coesão dos grupos não está relacionada nem sequer com etnia.
A coesão grupal, na acepção pensada por Spencer envolve aspectos culturais e não raciais.
Aliás, diga-se de passagem, o conceito de raça é atualmente considerado ultrapassado, pois estudos recentes indicaram que todos descendemos de uma Eva genética que viveu no leste da África há 150.000 anos.
Trata-se uma mulher negra da qual todos os seres humanos descendem, não que houvesse apenas esta única mulher sobre a terra, mas em virtude de seus descendentes terem sido aqueles que prosperaram e sobreviveram.


Educação e darwinismo social.
Aplicadas a educação, as idéias de Spencer estão vinculadas como uma critica ao ensino clássico.
Pelo prisma do darwinismo social, seria necessário introduzir nos currículos escolares conhecimentos uteis, entendidos como voltados à formação dos homens de negócios e a organização de uma vida dita civilizada.

Para Spencer não seria possível estudar tudo que a humanidade já desenvolveu, em termos de conhecimento, tornando-se necessário estabelecer os conteúdos mais valiosos e uteis.


Dentre estes estariam incluídas as verdades sobre a saúde humana, a biologia, os costumes que possibilitassem uma vida regrada, a psicologia e as ciências exatas.

A idéia era formar o cidadão, o que fazia com que a sociologia fosse incluída como conhecimento útil.
As artes e humanidades, tal como a literatura, deveriam ser dispensadas em favor do que Spencer considerava a verdadeira ciência.
Entretanto, em concordância com a tendência dominante entre os ingleses desde o século XVII, o empirismo, junto com o ensino voltado a construção de conclusões individuais via observação e experiência, seria necessário disciplinar e moralizar.
Como positivista, Spencer acreditava que os indivíduos deveriam ser doutrinados pela educação.
A escola deveria preparar as pessoas para enfrentar a difícil concorrência com o outro, ao mesmo tempo, ensinando que só a cooperação garante a sobrevivência do grupo e, assim, dos indivíduos inseridos em grupos.
O que ele chamou de organicismo, um conceito bem próximo ao desenvolvido por Durkheim, segundo o qual o funcionamento da sociedade se assemelha a um organismo vivo.
Um conceito que insere Spencer entre os funcionalistas.


Concluindo.
A semelhança de Comte e Durkheim, Spencer queria preservar a sociedade burguesa da qual fazia parte, conservando a reprodução do sistema capitalista através da educação, o que no seu extremo acabou originando os regimes totalitarios facistas, dentre os quais o nazismo.
Porém, diferente de Comte, era contra o oferecimento de uma educação publica e gratuita custeada pelo Estado.

O darwinismo social ditava que o papel do Estado deveria ser limitado, tal como defendia Adam Smith, cabendo a lei da oferta e da procura regular a sociedade, cabendo aos socialmente mais aptos procurarem oportunidades de ensino.

Aos mais fracos caberia perecer, uma idéia malthusiana.

Esta concepção reafirmava a crença nas instituições sociais como reguladoras da ordem, mas revela uma descrença no potencial humano.
Para Spencer, o problema da humanidade estava na natureza defeituosa dos indivíduos, que não conseguindo se adaptar, corrompe as tradições.
Para resolver esta natureza defeituosa, inerente a todo ser humano independente da etnia ou de fatores culturais, seria necessário moralizar através das instituições sociais.
No entanto, embora a educação fosse uma instituição com papel importante na moralização humana, devido aos custos, não era a única escolha.
Outras instituições como o poder judiciário, a policia e legislação, em concordância com a teoria funcional, deveriam auxiliar na moralização.
Uma idéia que chegou ao Brasil pelas mãos de Rui Barbosa, para quem, não obstante, a educação deveria ser o principal mecanismo de disciplinar.
O mesmo jurista que, quando por ocasião da abolição da escravatura, mandou queimar todos os certificados de propriedade de escravos, evitando que, futuramente, processos fossem movidos pedindo reparação dos danos aos escravizados e seus descendentes.
Ele pensou o sistema educacional brasileiro enquanto formador de indivíduos aptos para o trabalho, com hábitos de consumo e poupança.
Por isto introduziu nos currículos a educação moral e cívica, destinada a formar um espírito patriótico e, a reboque, maior coesão interna.


Para saber mais sobre o assunto.
CUNHA, Euclides da. Os sertões: campanha de Canudos. São Paulo: Atelie Editorial, 2009.
GOMES, Candido Alberto. A educação em novas perspectivas sociológicas. São Paulo: EPU, 2005.
GIDDENS, Anthony. Sociologia. Porto Alegre: Artmed, 2005.
KRUPPA, Sônia. Sociologia da educação. São Paulo: Cortez, 2002.
MARTINS, Carlos B. O que é sociologia. São Paulo: Brasiliense, 1985.
RODRIGUES, Nina. “A loucura epidêmica de Canudos: Antonio Conselheiro e os jagunços” In: Revista brasileira, 3 (12). Rio de Janeiro: 1897, p.129-144.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela FFCH/USP.

2 comentários:

  1. Belo Blog, Parabens à voce(s)! Sinceramente o único que achei com credibilidade, e único, no qual deixei comentários!

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  2. A equipe agradece as palavras gentis.
    Forte abraço.

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Forte abraço.
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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