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quarta-feira, 16 de março de 2011

Os reis católicos, a inquisição e Colombo.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mar., Série 16/03, 2011, p.01-12.


O ano de 1469 marcou o nascimento do Estado Moderno espanhol. Isabel de Castela e Fernando de Aragão selaram um casamento, unindo reinos na Península Ibérica.
Essa fusão marcaria, para sempre, a vida de milhares de pessoas em todo o mundo.
A administração da Espanha Moderna passou por dificuldades no que diz respeito à centralização e à uniformidade de medidas e leis.
Em um lugar caracterizado pela multiplicidade, em que viviam católicos, judeus, islâmicos e pessoas oriundas das mais diferentes regiões da Europa, a Igreja Católica, seus valores e suas regras, se transformaram em ponto comum de toda a Espanha.
Nesse sentido, a construção de uma identidade espanhola, forjada na monarquia e no catolicismo, passa necessariamente pelas ações da Igreja e em seu esforço contínuo de eliminar o outro, seja ele infiel, cismático, pagão ou herético.
A Espanha, dos chamados “Reis Católicos”, espalharia a mensagem de Cristo, à custa de perseguições, invasões, fogueiras e conquistas territoriais.
Em relação à religiosidade, a Espanha em seus primeiros tempos era uma verdadeira colcha de retalhos.
Católicos, judeus, pagãos e islâmicos conviviam e ocupavam as mesmas regiões e os atritos entre esses grupos eram constantes.
Fernando e Isabel, nesse projeto de constituir um governo forte, tratariam de formar um estado essencialmente católico, pois eles mesmos eram grandes fiéis do catolicismo e haviam sido criados para crer num único e verdadeiro Deus.
A unidade religiosa, acreditavam, era essencial para se manter a unidade política.
Estas tensões religiosas acabaram determinando o estabelecimento do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição.
A intolerância e o fanatismo tratariam de varrer para longe os infiéis da santíssima Igreja.
Muitas pessoas seriam perseguidas em nome de Deus e muitas prisões e mortes foram realizadas, num verdadeiro regime de terror, em nome da paz e da tranquilidade do reino.
Diante de tantos esforços, Fernando e Isabel seriam para sempre chamados de os Reis Católicos.


A Inquisição espanhola.
No dia 1º de novembro de 1478, o Papa Sisto IV assinou a bula Exigit sincerae devotionis affectus, através da qual fundou uma nova Inquisição na Espanha.
Redigida como resposta aos pedidos dos Reis Católicos, essa bula reproduzia os argumentos régios sobre a difusão das crenças e dos ritos mosaicos de circuncisão entre os judeus convertidos ao cristianismo em Castela e Aragão.
Vários conversos do judaísmo continuavam a usar a circuncisão judaica como símbolo de aliança com Deus o que constituía um desrespeito às novas leis pregadas por Cristo.
A bula papal atribuía o desenvolvimento dessa heresia à tolerância dos bispos e autorizava os reis a nomear até três inquisidores para cada uma das cidades ou dioceses do reino.
Esse poder concedido aos príncipes era um acontecimento inédito.
Tratava-se de uma verdadeira transferência de competências, mas que ao mesmo tempo confirmava e legitimava a Inquisição espanhola como tribunal eclesiástico, funcionando com poderes delegados pelo papa.
Essa atitude foi uma ruptura com a tradição medieval, pois pela primeira vez assistia-se ao estabelecimento de uma ligação formal entre a jurisdição eclesiástica e a civil.
Dessa maneira, a Inquisição tentava consolidar a unidade religiosa que se via ameaçada, especialmente pelos judeus e muçulmanos.
O medo se espalhou e o temor de ser preso, questionado e punido rondou a Espanha dos séculos XV e XVI.
O pensamento e as atitudes dos cristãos viveram em eterna vigilância, num mundo devidamente controlado pelos olhos de Deus e pelo discurso da verdade bíblica.
A Inquisição, desde sua origem medieval, era um elemento forte de representações religiosas.
Não é inocente a utilização do mesmo vocábulo auto para designar uma peça teatral religiosa e o espetáculo público inquisitorial.
A cena inquisitorial acompanha todo o processo, desde a chegada dos decretos e do inquisidor até o próprio interrogatório.
Anos depois em Portugal, as peças de Gil Vicente retratariam as posturas do tribunal inquisitorial de Lisboa, a partir da trilogia de sátiras Auto da Barca do Inferno Auto da Barca do Purgatório e Auto da Barca da Glória escritas entre 1516 e 1519.


A ritualização e simbolismo do auto-de-fé.
Para o auto-de-fé era erguido um tablado no meio da praça mais movimentada da cidade, quinze dias antes.
Os habitantes eram convocados ao som de trombetas e sinos.
No dia seguinte, pela manhã, chegavam os processados, presos em corda grossa, usando roupa de penitente e carregando velas.
No tablado, cadeiras dispostas em ordem de sentença, onde cada sentenciado sentava em lugar pré-determinado.

Os Inquisidores sentavam debaixo de dosséis.
O auto-de-fé, quando seguido de fogueiras e mortes, era a própria representação do Inferno.
Havia o palco, o público e o espetáculo, assim como num teatro contemporâneo.
A população, sentada e tranquila, tinha acesso às cenas de sofrimento, sempre didáticas e repressivas, pois mostrava o sofrimento destinado a quem não agia segundo as normas da Igreja.
Como espectadora a plateia sentia-se unida e criava, sem perceber, certo sentimento de identidade: somos católicos e estamos salvos.
Assim, o espetáculo dos autos-de-fé atendia às necessidades repressivas do Estado, aos anseios da multidão e à ação da Igreja.


Mais algumas considerações sobre a Inquisição.
Onde existissem infiéis, deveria existir a Inquisição, educando e punindo.
Sem dúvida, a sociedade europeia do século XVI representava-se como uma comunidade cristã em busca da salvação, em que desvios de crenças e comportamentos eram apresentados como agressões aos valores coletivos e, principalmente, uma ofensa contra a relação estabelecida entre Deus e os homens.
No entanto, esta mesma relação, quando boa e harmônica, seria responsável pela proteção da comunidade.

As denúncias anônimas eram consideradas um dever da consciência.

Era preciso, portanto, que os penitentes restabelecessem o equilíbrio de seu contato com o sagrado.

Durante o ano de sua condenação, os processados eram obrigados a usar o hábito penitencial, chamado de “sambenito”, feito de linho cru e pintado de amarelo, com o símbolo da reconciliação com a Igreja Católica: a cruz vermelha de Santo André.
Esta representava humildade e sofrimento, já que o próprio Santo André, por volta de 60 d.C, havia implorado a seus algozes para não ser crucificado como Jesus Cristo, por considerar-se indigno.
Acredita-se que o santo foi martirizado em uma cruz com o formato de “x”.
Após as ideias divulgadas pelo agostiniano Martinho Lutero em 1517, a Igreja Católica ganharia um novo inimigo: os luteranos.
O número de fiéis católicos perdidos foi relativamente grande e as tensões religiosas cresceram ainda mais após o início da reação católica a partir da Contra Reforma, iniciada em 1545 com o Concílio de Trento.
Este foi responsável por uma série de medidas, também chamadas de Reforma Tridentina, que tinham o intuito de barrar o avanço protestante.
As verdades religiosas e o fanatismo justificavam a aniquilação dos infiéis. Judeus, luteranos, blasfemos e leitores de livros proibidos eram os inimigos da Inquisição.
Por isso a importância da “limpeza de sangue”, da intolerância e do orgulho em afirmar ser católico desde o nascimento.
O domínio e o poder divinos eram representados pelos Reis Católicos.
A hierarquia celeste – Pai, Filho e Espírito Santo - era associada à divisão social que era igualmente pensada de forma trina: Igreja, senhores e servos.
E o mundo conhecido era também dividido em Europa, África e Ásia.
Tudo isso revelava harmonia, pois respondia aos desígnios da Igreja Católica e, portanto, era a vontade de Deus.
A centralização política levada adiante pelos reis Fernando e Isabel, as primeiras conquistas territoriais e o fortalecimento da religião católica, a partir do Tribunal do Santo Ofício, ajudaram a compor o palco em que muitos espanhóis viam ao mundo.


Cristóvão Colombo e a chegada à América.
Uma vez expulsos os maometanos da Península Ibérica, os Reis Católicos buscaram novos horizontes para expandir seu poder e sua fé, já que os domínios das terras espanholas estavam assegurados.
Os monarcas pensaram, num primeiro momento, em atacar outros islamitas que viviam no Norte da África.
Fernando e Isabel estavam empenhados na construção de um vasto domínio cristão, o que viria a ser, em pouco tempo, as bases do império espanhol.

No entanto, uma nova proposta surgiu.

O ideal de cruzadas se deslocaria para outro lugar, para o outro lado do mundo.

Cristóvão Colombo, navegador genovês, propôs para os reis que lhe enviassem a encontrar uma rota marítima alternativa, em direção à Ásia, em busca de riquezas e da expansão do catolicismo.
A proposta de Colombo era ousada e de destino incerto: atingir o Oriente navegando pelo Ocidente.
O projeto tocava em importantes pontos da mentalidade europeia.
Em primeiro lugar, navegar em direção ao Atlântico era uma aventura bastante temida. O Mar Oceano ou o “Mar Tenebroso” era praticamente desconhecido e, diante disso, muito se pensava a seu respeito.
A imaginação costumava preencher o espaço vazio deixado pelo desconhecimento da realidade.
A cartografia, nesse sentido, era muito rica em imagens de monstros, dragões, abismos e personagens mitológicos e pouco esclarecedora quanto aos caminhos que deveriam ser traçados para se chegar aos objetivos dos navegadores.
A mudança de orientação geográfica era outro desafio.
Deslocar-se em direção ao Oriente para encontrar os infiéis e reconquistar Jerusalém era uma viagem conhecida pelos europeus, desde os tempos das Cruzadas do século XI.
Além do mais, o Oriente Próximo era o local em que Jesus Cristo teria nascido, sofrido e morrido para salvar a humanidade.
A Terra Santa fazia com que o Oriente fosse visto e construído como um local de riquezas, prosperidade e, sobretudo, uma região marcada pela presença de Deus.
Por outro lado, navegar para o lado contrário, ou seja, para o Ocidente, invertia essa segura orientação.
Juntava-se a isso a condição negativa dada ao lugar onde o Sol se põe e a sua associação com o reino da morte, por oposição ao local onde ele nasce, ou seja, aquele onde tudo começou.
Por isso, o Oriente era o lugar onde há que se voltar para recuperar a pureza das origens e o Ocidente, além de lugar onde o homem não pode viver, era também o local das trevas, do desconhecido.
As associações eram inevitáveis.
O medo e o temor encontravam explicações religiosas. As associações entre “Bem” e “Mal”, Deus e o Diabo eram comuns: o Atlântico em oposição ao Rio Jordão, as incertezas do Mar Oceano em oposição à firmeza da Terra Santa, o lugar que o Sol se põe em oposição ao local em que ele nasce.
Navegar, na verdade, era impreciso.


O católico Cristóvão.
Cristóvão Colombo associava religião ao seu projeto.
Ao mesmo tempo em que era leitor do manual cartográfico mais consultado da época, o livro Imago Mundi do cardeal Pierre d'Ailly, o genovês sempre citava a Bíblia, suas passagens, versículos e salmos em suas cartas e conversas.
A assinatura de Colombo era cheia de enigmas e ele escrevia seu próprio nome fazendo referências ao cristianismo: Cristóvão, como aquele que carrega o nome de Cristo, era grafado com o desenho de uma cruz.
A ideia de Colombo, no geral, era bastante simples: ele pretendia atravessar o Oceano na direção do Ocidente para, a partir da Espanha, alcançar os litorais extremos orientais e unir, dessa forma, a Europa e a Ásia.
Essa proposta, contudo, tocava na questão do formato da Terra.
A forma esférica, de acordo com a antiga física de Aristóteles foi sua premissa fundamental: tratando-se de um globo, um viajante poderia, em princípio, chegar ao Oriente navegando para o Ocidente.
O único problema era saber se a viagem seria realizável.
Colombo aproveitou a indeterminação que havia sobre o tamanho do globo terrestre e acabou por se convencer de que o globo era muito menor do que habitualmente se aceitava.
A insistência de Colombo foi importante para o processo de convencimento dos Reis Católicos.
Ele foi pessoalmente ao acampamento dos cristãos em Santa Fé, durante a tomada de Granada, para conversar mais uma vez com Fernando e Isabel.
O tempo todo, o navegador afirmava e argumentava a respeito da possibilidade otimista de se concretizar a viagem.
Ele fazia cálculos sobre os possíveis gastos e também sobre a duração do percurso.
Além disso, prometia riquezas à Espanha e muito empenho na expansão do catolicismo.
Colombo partiria imbuído de fé e queria voltar rico e poderoso.
Apesar de seu esforço, o projeto foi rejeitado novamente.
Ele saiu do acampamento militar e partiu em direção a La Rábida, resolvido a apelar para monarcas de outras regiões.
No entanto, a poucas milhas, Colombo foi alcançado pelos emissários da rainha Isabel e levado de volta ao lugar em que estavam as tropas da campanha.
Convencidos por Luis de Santangel e vendo nisso a possibilidade de revanche contra os portugueses, cuja supremacia marítima ameaçava Castela, os reis espanhóis reviram sua posição e finalmente aceitaram as propostas do marinheiro.
Os monarcas encontraram, assim, uma oportunidade para competir com os vizinhos portugueses que realizavam, desde 1415, um intenso comércio na costa africana.


A aventura da viagem de Colombo.
Colombo partiu do Porto de Palos no dia 24 de agosto de 1492, rumo às Índias.
O ponto de partida localizava-se na costa da Andaluzia atlântica, não muito longe da fronteira portuguesa.
Esse porto não foi escolhido por acaso.
Além de todos os outros estarem atravancados pelo êxodo dos judeus expulsos, Palos tinha a vantagem de oferecer, sem que se gastasse nada, duas caravelas armadas, a Niña e a Pinta, pertencentes respectivamente a Juan Niño e aos irmãos Pinzón.
O navio almirante, o Santa Maria, foi alugado por Colombo de um patrão da Galícia, chamado Joan de la Cosa.
O almirante genovês atravessaria o temido Atlântico e seria nomeado Almirante do Mar Oceano sobre todas as ilhas ou terras que viesse a descobrir.
A viagem apresentou muitas dificuldades, principalmente porque o tempo do percurso era maior do que havia calculado Colombo.
Os marujos começaram a organizar motins.
No entanto, voltar já não era mais possível, pois a quantidade de água potável e mantimentos que havia sobrado não eram mais suficientes para o tempo que duraria a viagem de retorno.
Ou seja, eles teriam que encontrar terra firme em pouco tempo.
Nessa altura, a crença em Deus e as certezas de Colombo foram determinantes para que a expedição atingisse seu destino.
Finalmente, no dia 12 de outubro desse mesmo ano, os espanhóis chegariam às ilhas do Caribe, frente à costa da América.

Colombo atingiu o que ele acreditava ser a extremidade do litoral asiático.


Mas sem saber tinha alcançado, na verdade, a ilha de São Salvador, nas Bahamas.
Durante as semanas que se seguiram, ele explorou o litoral de Cuba, teve contatos gestuais com vários indígenas e depois avistou outra grande ilha que ele nomeou de Espanhola (atual República Dominicana), onde fundou a vila de São Domingos.
Na noite quente de Natal, sob os trópicos, a caravela Santa Maria encalhou perto da costa, sobre um mar de óleo, naufragando.
No dia seguinte a esse desastre, os indígenas trouxeram a Colombo pedaços de ouro.
O genovês, extremamente católico, viu nisso um feliz presságio e reconheceu no naufrágio da Santa Maria, única embarcação com nome religioso, os desígnios do Senhor. Deus estava do lado dos espanhóis.
Era assim que Colombo lia os acontecimentos e foi assim que ele deixou registrado em seu diário: “e assim quis Nosso Senhor”.
A Pinta foi à única embarcação que voltaria das Índias pelo Oeste e a Niña, a bordo da qual se encontrava Colombo, desapareceu durante uma tempestade ao largo dos Açores.
O próprio Colombo acabou parando primeiro em Portugal para depois retornar à Espanha.


Concluindo.
A vitória universal do cristianismo era o que também animava Colombo, homem profundamente piedoso, que nunca viajava aos Domingos.
Justamente por isso, considerava-se eleito, encarregado de uma missão divina, e que vê por toda parte a intervenção de Deus, seja no movimento das ondas ou no naufrágio de seu barco.
Ele mesmo disse: “por numerosos e notáveis milagres Deus se revelou no decorrer desta navegação”.
Toda a visão do império espanhol se expressava por meio de uma linguagem metafísica e escatológica que explorava as velhas crenças sobre a dominação do mundo, o fim dos tempos e o triunfo do cristianismo.
Em Roma, em 1493, o Papa Alexandre VI, discursava a respeito do fabuloso destino reservado aos Reis Católicos.
O Leão, que representava a dinastia de Castela e o Cordeiro, que simbolizava a de Aragão, evocavam uma famosa imagem bíblica que transformava a milagrosa coexistência de dois animais ferozes no sinal precursor da vinda do Messias.
A tomada de Granada, por exemplo, era vista como o acontecimento mais glorioso desde o nascimento de Jesus.
Essas afirmações apoiavam-se em profecias atribuídas a santo Isidoro e a santa Brígida e em diversos outros ensinamentos apocalípticos que se ligavam aos textos do profeta Daniel ou ao Apocalipse de São João, também chamado de Livro das Revelações.
As profecias também justificavam e reforçavam a ideia de que um Novo Mundo, perfeitamente cristão, se ergueria sob domínio dos espanhóis.
O filósofo romano Sêneca, na obra Medeia, escreveu em pleno século I d.C:

“Nossos antepassados viveram séculos de inocência. Cada um, tranquilamente, contentava-se com a sua praia e envelhecia na terra dos pais, ignorando a existência de outros tesouros. Agora as ondas são vencidas. Daqui a alguns séculos, chegará um momento em que o oceano abrirá as barreiras do mundo e uma terra imensa aparecerá. Tétis descobrirá um novo mundo e Tule não será o mais longínquo ponto da terra”.

Esse trecho foi lido pelos europeus como prova de que um destino maravilhoso já havia sido traçado por Deus e de que eles, os marujos, apenas cumpriam os desígnios do Senhor.
Joaquim de Fiore, no século XII, afirmou que a Terra Santa seria tomada pelos espanhóis, fazendo com que os acontecimentos ganhassem ainda mais tons de interferência divina.
Os espanhóis, após Colombo, iniciavam uma nova etapa na história do Ocidente.
O mundo nunca mais seria o mesmo.
 Nenhuma data é mais indicada para marcar o início da era moderna do que 1492, ano em que Colombo atravessou o Oceano Atlântico.
Como afirmou Todorov:

“Somos todos descendentes diretos de Colombo, é nele que começa a nossa genealogia. Desde o ano de 1492 estamos, como disse o padre Las Casas, neste mundo tão novo e a nenhum outro igual. A partir desta data, mundo está fechado. O mundo é pequeno, declarará o próprio Colombo.  Os homens descobriram a totalidade de que fazem parte. Até então, formavam uma parte sem todo”.

Mesmo destacando a importância da chegada à América, os Reis Católicos apenas iniciariam de modo lento e gradual a organização colonial na ilha Espanhola e em outras pequeninas ilhas do Caribe.
A intervenção econômica direta da Coroa se deu somente nas outras duas viagens empreendidas por Colombo.
Anos depois, comerciantes e, no geral, particulares participariam diretamente do financiamento das expedições, na medida em que a Coroa repassava a terceiros os maiores gastos das viagens.
Empresários mercantis assinavam contratos e recebiam dos reis o direito de explorar as terras e a Coroa, por sua vez, iniciava a colonização sem maiores gastos, o que permitia aos monarcas espanhóis investirem ao mesmo tempo em outras questões, como guerras e disputas territoriais na Europa.
De qualquer forma, o Novo Mundo se iniciara e a monarquia e a Igreja muito se esforçariam para que ele fosse construído à imagem e semelhança da velha Europa.


Para saber mais sobre o assunto.
BETHENCOURT, Francisco. História das Inquisições: Portugal, Espanha e Itália, séculos XV-XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
GRUZINSKI, Serge & BERNARD, Carmen. História do Novo Mundo. São Paulo: Edusp, 2001.
KARNAL, Leandro. Teatro da fé: representação religiosa no Brasil e no México do século XVI. São Paulo: Hucitec, 1998.
SÊNECA, Lúcio Aneu. “Medéia”. In.: Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
TODOROV, Tzvetan. A conquista da América: a questão do outro. São Paulo: Martins Fontes, 1992.


Texto: Prof. Ms. Marcus Vinícius de Morais.
Mestre em História Cultural pela Unicamp e autor do livro Eles Formaram o Brasil, co-autor do livro História dos EUA: das origens ao século XXI, ambos publicados pela Editora Contexto.
Membro do Conselho Editorial de “Para entender a história...”

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