Curiosidades e tudo que você sempre quis saber...


Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

Livros com preços promocionais a partir de 4,99.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Os estudos de Durkheim.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mar., Série 21/03, 2011, p.01-07.


Apesar de Comte ser considerado o pai da sociologia, a participação de Émile Durkheim (1858-1917) não foi menor.
Ele foi responsável pela introdução da área nos currículos das universidades, quando se tornou de fato uma disciplina reconhecida como cientifica.
Escreveu várias obras e pesquisou temas diversos, incluindo o estudo sobre o suicídio, dentre as quais podemos destacar:
Da divisão social do trabalho.
As regras do método sociológico.
O suicídio.
Formas elementares da vida religiosa.
Educação e Sociologia.



Os fatos sociais.
Na obra As regras do método sociológico, Durkheim definiu o objeto de estudo da sociologia como os fatos sociais.
Um fato social, que não deve ser confundido com um padrão social, seria um acontecimento ou ação relevante para o funcionamento da sociedade.
O fato social seria determinado pela coerção social, fazendo os indivíduos se conformarem com as regras impostas pela sociedade, independente de sua vontade.
O grau de coerção dos fatos sociais seria determinado pelas sanções, os impedimentos que o individuo está sujeito quando tenta se rebelar contra a coerção.

Neste sentido, as sanções seriam legais ou espontâneas.

Sanções legais são aquelas impostas pela sociedade através das leis, colocando penalidades institucionalizadas aos infratores.
Quando um indivíduo comete um ato considerado criminoso, ele nada mais faz que infringir uma regra imposta pela sociedade e transformada em lei.
Sanções espontâneas são impostas pela estrutura do grupo ao qual o individuo pertence ou pela sociedade como um todo, isolando o individuo e conduzindo ao suicídio no seu extremo.
Neste caso, não precisam existir nem ao menos regras explicitas de convivência, basta que fique subentendido, por exemplo, que para pertencer a determinado grupo, o individuo deve se vestir de determinada maneira.
O simples fato de se vestir diferente ou não falar as mesmas gírias gera o isolamento do infrator.
Portanto, o fato social é o registro do comportamento que é imposto pela coletividade, podendo ou não constituir um padrão.
Embora, com o tempo, um fato social repetido constantemente conduza a formação de um padrão social.
Dentro deste contexto, a educação age como elemento de coerção, tanto na variante formal como informal, internalizando e transformando regras e hábitos, interferindo na formação de padrões sociais.


A crítica ao positivismo.
Apesar de Durkheim, nos seus estudos iniciais, seja identificado como positivista; após identificar os fatos sociais, procurou definir o método de conhecimento da sociologia.
Ao fazê-lo estabeleceu uma critica ao positivismo, mantendo, contudo, características muito próximas a metodologia desenvolvida por Comte.
Para Durkheim, a explicação cientifica exige que o pesquisador mantenha distância e neutralidade em relação aos fatos, deixando de lado a afetividade e os valores particulares.
O sociólogo deveria abraçar a objetividade em sua análise.
Características que, na concepção de Durkheim, o positivismo não tinha, já que a tendência defendia um envolvimento do pesquisador com seu objeto de estudo para manipular os padrões sociais.
Entretanto, semelhante ao positivismo, Durkheim reafirmou a idéia de que a metodologia sociológica deveria englobar a medição, observação e comparação.
A sociologia deveria identificar os acontecimentos gerais e repetitivos relevantes para o entendimento da sociedade, ou seja, os fatos sociais.


A sociedade como organismo vivo.
Semelhante a Comte, Durkheim achava que a finalidade da sociologia seria encontrar soluções para os problemas verificados na vida social.
Para ele, a sociedade funcionaria como um organismo vivo, apresentando estados normais (saudáveis) e patológicos (doentios).
Diferente do positivismo, Durkheim não pensava em impor ordem à sociedade, já que a organização estrutural da sociedade seria natural, funcionando ordenadamente por si só.
É neste sentido que a sociedade funciona como um organismo vivo, onde, semelhante aos órgãos, cada função social depende das outras para existir.
O que faz a “consciência individual” dar lugar a “consciência coletiva” que, por sua vez, gera os padrões sociais.
Esta concepção originou a Teoria Funcional, segundo a qual, funcionando a sociedade como uma máquina, as engrenagens defeituosas devem ser excluídas da sociedade, sendo substituídas por novas peças.
Em outras palavras, em concordância com o sistema capitalista, o funcionalismo afirma que os indivíduos que não se encaixam devem ser excluídos da sociedade, para isto existe o sistema judiciário e penitenciário.
Dentro deste contexto, Durkheim pensou em estágios de evolução social, definindo as sociedades como inferiores ou superiores.
Tendo evoluído a partir da horda, a forma mais simples e igualitária de organização, a sociedade pré-capitalista teria sido organizada através da solidariedade mecânica.
A dita solidariedade mecânica é constituída pela coerção exercida pela família, religião e tradição dos costumes, formando a consciência coletiva.
O individuo seria compelido a se comportar em concordância com que o grupo espera dele simplesmente pela pressão exercida por aqueles próximos, evidenciando um comportamento involuntário e automático.
A partir do desenvolvimento do capitalismo, a solidariedade mecânica teria evoluído para a solidariedade orgânica.
Portanto, uma divisão do trabalho que possibilita o funcionamento da sociedade a semelhança de um organismo vivo.
Através da solidariedade orgânica, interesses individuais seriam suprimidos em favor das necessidades coletivas, pois, para realizar seus interesses, ele teria que ceder às necessidades de outros.
Haveria na solidariedade orgânica maior autonomia do que na mecânica, mas a própria estrutura social reduziria a consciência individual, fazendo o sujeito adotar valores de determinado grupo, anulando sua individualidade.
Para Durkheim, os conflitos sociais seriam transitórios e poderiam ser resolvidos a partir do momento em que os indivíduos aceitassem ocupar sua função e seu lugar na sociedade, o que seria imposto pela solidariedade orgânica.


O estudo do suicídio.
Durkheim se interessou pelo tema por enxergar nas altas taxas de suicídio, registradas na Europa no final do século XIX, um amplo campo que poderia fornecer material para consolidar a sociologia como ciência.
O culto a morte chegou a ser tão difundido no século XIX, glorificado na literatura pelo romantismo gótico, que o suicídio ficou conhecido como mal do século.
Estudando a elevação da taxa de suicídio em determinados anos, Durkheim observou que o principal fator que conduzia ao ato era a solidariedade social.
A solidariedade pode ser caracterizada como um sentimento de simpatia e identificação.
Enquanto, por um lado, o fracasso individual conduz o sujeito a sentir que falhou com o grupo, quando sua vida perde a razão de ser; por outro, níveis de interação social muito elevados também conduzem ao suicídio.
Neste ultimo caso, estes níveis de interação originam o chamado suicídio altruísta, como é o caso dos pilotos japoneses kamikazes na segunda guerra mundial, fazendo a vida do individuo, igualmente, perder sentido frente aos interesses da sociedade.
O altruísmo se refere ao sentimento que um individuo dá ou outro, importando-se mais com a coletividade ou com os outros do que com ele próprio, gerando atos desinteressados de beneficio a sociedade.
No entanto, segundo Durkheim, o caso mais comum de suicídio é aquele em que o sujeito não sente corresponder aquilo que o grupo espera dele, refletindo em uma sensação de exclusão social.
Ao mesmo tempo, o suicídio poderia ser motivado pelo fato do sujeito sentir que o grupo espera seu sacrifício, neste caso a exclusão aconteceria se o suicídio não fosse efetivado, a morte é que matéria o vinculo.
É o caso dos homens bomba.
Assim, tanto uma ausência de integração quanto uma integração intensa poderiam gerar o suicídio.
Os estudos de Durkheim inspiraram outros a continuarem o seu trabalho em torno do suicídio.
Viktor Frankl, por exemplo, aprofundou a pesquisa, dando origem a logoterapia, segundo a qual somente o sentimento de que outros dependem de dado individuo pode impedir tendências suicidas.
A palavra logoterapia, a partir do grego, significa terapia do mundo.
Um termo em concordância com o método de Frankl para testar se seu paciente estava curado.
Ele perguntava ao paciente o porquê ele se considerava curado, caso a resposta fosse de encontro a qualquer outra que não a relação de dependência e vinculo com o mundo, com outros indivíduos, o argüido não era liberado do tratamento.


Concluindo.
Em seus estudos, Durkheim termina admitindo que, embora a ordem seja natural, as rápidas mudanças provocadas pelo sistema capitalista, acabam gerando um estado de anomia, a ausência de norma.
Os indivíduos ficam desorientados frente esta característica da vida moderna.
Pensando na questão, afirmou que seria necessário estabelecer um sistema educacional que incentivasse a noção de disciplina, dever, respeito as leis e hierarquia.
Somente assim seria possível ajudar os indivíduos a se inserirem na sociedade, estruturando a coletividade a partir da exclusão dos elementos considerados doentes socialmente.
Porém, valorizando o funcionalismo, Durkheim esqueceu de avaliar o papel dos conflitos no interior da sociedade, também necessários para sua evolução, uma analise que seria iniciada por Karl Marx.


Para saber mais sobre o assunto.
CORTELLA, Mario Sérgio. A escola e o conhecimento. São Paulo: Cortez, 1988.
GOMES, Candido Alberto. A educação em novas perspectivas sociológicas. São Paulo: EPU, 2005.
GIDDENS, Anthony. Sociologia. Porto Alegre: Artmed, 2005.
KRUPPA, Sônia. Sociologia da educação. São Paulo: Cortez, 2002.
MARTINS, Carlos B. O que é sociologia. São Paulo: Brasiliense, 1985.
PETER, Ricardo. Viktor Frankal: A antropologia como terapia. São Paulo: Paulus, 1999.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela FFCH/USP.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Esteja a vontade para debater idéias e sugerir novos temas.
Forte abraço.
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.