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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Historiografia e Temporalidades.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume nov., Série 01/11, 2010, p.01-13.


Pensar a historiografia é revisitar a cultura histórica, como lembrou José Jobson de Andrade Arruda, é “atravessar vários momentos de cristalização da instauração de linhas mestras interpretativas hegemônicas e hegemonizantes”.
O que implica em adentrar a construção do conhecimento histórico enquanto produção humana que reflete o tempo.

Como ressaltou José D’Assunção Barros, a história refere-se “sempre a certos processos da vida humana em uma diacronia – isto é, no decurso de uma passagem pelo tempo – ou que se relacionam de outras maneiras, mas sempre muito intensamente, com uma idéia de temporalidade”.

Tal como estabeleceu a lingüística, também na história os termos sucessivos se substituem uns aos outros ao longo do tempo, tornando a historicidade uma sucessão de fatos, estudados através da sincronia, o entendimento das estruturas.
Entretanto, a narrativa da história estabeleceu, há séculos, escolhas que denotam posicionamentos interpretativos de análise do homem como ser histórico, circunscrito há um tempo e uma forma contextualizada de encarar a passagem do tempo.
Refletindo a própria essência do debate em torno da observação das mudanças e permanências, uma análise incorporada pela historiografia, quer como mero aspecto metodológico ou como objeto central de estudo.
Esta abordagem, por sua vez, remete ao próprio conceito de tempo adotado como escolha teórica, interferindo diretamente na forma como a história será interpretada e vinculada ao debate historiográfico.
Uma questão complexa, já que o tempo desdobra-se e volta-se novamente para dentro de si mesmo.
Isto porque a própria definição de tempo é variável, filosoficamente contentável por ser uma convenção determinada pela sociedade, cultura, economia e também historicamente composta, uma invenção que, no entanto, possui embasamento na percepção das transformações que se processam em volta daquele que observa.
Neste sentido, a temporalidade, como produção humana, é uma ferramenta da história, mais visível como referência expressa em calendários e cronologias, demarcando os anos e séculos, situando acontecimentos, ajudando a organizar as narrativas históricas para facilitar o entendimento da passagem do homem pelo tempo.
Entretanto, dependendo da escola ou corrente historiográfica, para além desta conceituação de senso comum, a percepção das temporalidades interfere diretamente na concepção de história, na abordagem e escolha dos fatos que o historiador julga relevantes para incorporar ao conhecimento de sua competência, modificando o entendimento do passado e, porque não dizer, do próprio presente.
Portanto, assim como, contemporaneamente, nenhum historiador pode furtar-se de conhecer a historiografia, categorizada por Guy Bourdé e Hervé Martin como o exame dos discursos de diferentes historiadores e a analise de seus conceitos e métodos; a compreensão das temporalidades, incorporadas às narrativas históricas, é essencial para entender o que os historiadores entendem por história.
O grande problema é que cada Escola ou corrente teórica possui noções de tempo implícitas, autoinfluenciando-se mutuamente. Sendo inviável realizar um trabalho mais aprofundado neste momento, porém, é factível abordar uma amostragem que possibilite notar a grande importância deste componente no âmbito da teoria da história.
Permitindo traçar uma linha mestra que conduza até o atual interesse da historiografia pela abordagem conceitual das temporalidades.

O tempo na história.
Na história, o tempo aparece sob as mais diferentes formas, é uma conseqüência, uma variável que integra a definição de realidade, embora não reflita um conceito absoluto.
Já a temporalidade, entendida como percepção da passagem do tempo, demonstra uma dimensão que reconfigura os fatos.
No entender de Paul Ricoeur, o tempo é um processo social intuitivo que progride com o amadurecimento psicológico do sujeito que supõe sua especificidade.
Remetendo a uma constante reconfiguração da definição de tempo.
Este conceito, aplicado ao conhecimento histórico, suscita um duplo questionamento: primeiro sobre a natureza do que se entende como tempo e depois como isto se articula com as temporalidades.
Em linhas gerais, o tempo pode ser entendido como físico, social ou histórico.
Uma visão objetiva, vinculada com as ciências biológicas e a psicologia, defende a idéia de que a realidade do tempo é apenas uma percepção sensorial, não sendo, portanto, uma criação intelectual do homem.
Por outro ângulo, para as ciências sociais, além do tempo existencial percebido, existe também um “tempo do relógio”, este sim uma convenção humana.
Sendo uma invenção sociológica, o tempo é uma instituição que se constrói conforme a natureza da sociedade, assumindo funções precisas para organizar a coexistência entre as pessoas e a divisão de tarefas.
Analisado pelo viés filosófico, na antiguidade, o tempo foi concebido por Platão como um acontecimento anterior a um posterior, mera conseqüência com limites apenas vagamente definidos.
Um conceito que trazia implícito tanto o tempo físico como o social, à medida que utilizado como base para medir as épocas do ano, o momento de semear e colher, as épocas da paz, das guerras e dos heróis.
Para Aristóteles, a idéia de tempo só pode existir se admitido antes o conceito de movimento, alterações de estado, transformações perceptíveis, as quais podem ser aplicadas também ao aspecto físico e social, já que constitui uma referência para homem balizar suas opiniões.
Concepções que se tornariam preponderantes no mundo Ocidental até o século XVI, quando o tempo assumiu uma magnitude uniforme e homogênea, convertendo-se em pura unidade de medida para o entendimento do mundo físico, sendo deixado de lado seu viés social.
Isaac Newton reforçou esta idéia no século XVII, quando, em 1686, publicou Princípios Matemáticos da Filosofia Natural.
Na obra, ele distinguiu “o tempo absoluto, “verdadeiro e matemático, por si próprio e por sua própria natureza, [fluindo] de maneira uniforme sem relação [com] qualquer coisa externa”; do “tempo relativo, aparentemente comum (...), uma medida sensível e externa da duração do movimento (...), comumente usada ao invés do tempo verdadeiro[,] tal como uma hora, um dia, um mês, um ano”.
O que, simultaneamente, inaugurou uma noção de linearidade do tempo, sempre em constante fluxo, com começo, meio e fim; medido pela observação das mudanças, ou seja, através da sucessão de fatos, cujas conseqüências chegam até tudo que pertence ao mundo natural.
No final do século XIX, Henri Bérgson prosseguiu na mesma linha de raciocínio, definindo o tempo como uma espécie de mudança que se encontra em tudo aquilo que passa, em oposição à eternidade, retomando o conceito grego, remetendo ao deus Cronos, aquele que conduz as coisas à maturidade.
Esta sucessão de fatos como medida, originou, na historiografia, a temporalidade linear, a crença que a narrativa histórica precisa ter um inicio e um final, a qual se tornaria predominante no Ocidente, em oposição ao tempo cíclico, mais comumente adotado no Oriente e na Mesoamerica precolombiana.
Dentro desta concepção cíclica, não há um inicio para a história, mas vários, com fatos que se sucedem e repetem constantemente, assim como o sol nasce a cada dia no horizonte depois de ter se posto no final da tarde do dia anterior.
Este conceito de ciclo seria parcialmente incorporado no tratamento das temporalidades pela história econômica, no inicio do século XX, onde, mesclado a tradição de tempo linear, iria compor explicações que defendem o conceito de “forças que interagem entre diferentes elementos que compõem [um] sistema”, repetindo dinâmicas com alternâncias de produtos cultivados ou negociados também no centro dos acontecimentos sociais, políticos e culturais, tal como o ciclo do pau-brasil, da pimenta, do açúcar ou do café.
Na historiografia portuguesa, foi João Lúcio de Azevedo, em seu Épocas de Portugal Económico, publicado em 1928, o primeiro a pensar em ciclos econômicos, sucessivamente.
Uma abordagem, posteriormente, em 1953, criticada por Vitorino Magalhães Godinho, para quem “a idéia de ciclos dominados cada um por um produto não [deixaria] de falsear um pouco a realidade, dando dela uma imagem demasiado esquemática, demasiado simplista”.
Destarte, a partir da tradição inaugurada por Azevedo, as explicações da história, através do conceito de tempo cíclico, influenciaram fortemente a historiografia brasileira na década de 1950, representada por obras de teóricos como Celso Furtado.
Continuando presente implicitamente ainda hoje, tendo sido, anteriormente, incorporada em clássicos da historiografia, como, por exemplo, Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808) de Fernando Novais ou A Bahia e a Carreira da Índia e O sistema colonial de José Roberto do Amaral Lapa.


O tempo histórico e as temporalidades.
Ao lado do tempo físico e social, como conseqüência do cruzamento de conceitos, o tempo histórico nasceu em decorrência da percepção das mudanças.
A consciência de que o ser está inserido no tempo, mudando e amadurecendo constantemente, tornou a história indissociável do tempo.
O próprio conceito de história está inserido no conceito de tempo, sendo interdependentes e explicando-se mutuamente, conduzindo implicitamente a historiografia a refletir sobre a temporalidade desde seus primórdios, embora a atenção direta sobre a questão tenha se tornado mais abundante somente a partir do século XX.
Entretanto, uma das primeiras reflexões explicitas sobre o tempo histórico foi realizada na Idade Média por Breda, um monge inglês que escreveu, no ano 703, a obra Temporibus (traduzida para o inglês como On time), onde processou um estudo sobre o computus, as datas e o calendário, discutindo a presença de sua influencia nas cronologias, as famosas coletâneas de fatos narrados pelos historiadores do período.
Até este momento, dentro do âmbito da linearidade, o tempo histórico assumia como fato constatável àquilo que era imutável, a verdade estabelecida e aceita como tal, incorporada às cronologias que davam conta da ascensão e queda dos grandes impérios, da vida dos príncipes, reis e santos.
A atenção de Breda sobre a questão não mudou imediatamente a percepção temporal, mas levou os historiadores a começarem a refletir sobre a relação entre a historicidade e temporalidades, passando a notar que, mais que as permanências, sendo a história pura mudança, seria necessário dar atenção também aos mecanismos de transição.
Gradualmente, o tempo histórico passou a ser mensurado por diversos procedimentos, invertendo a lógica da história como produto do tempo para o tempo como criação da história, uma convenção humana variável. As temporalidades, inseridas na análise dos fatos históricos, tornaram-se provisórias, em conformidade com o contexto vivido no presente.
A modernidade inaugurou as filosofias da história, fazendo com que, no século XVIII, quando Kant escreveu a Critica da razão pura, defendesse a idéia de que não podemos conhecer a essência dos fenômenos, à medida que conhecemos através da experiência, tendo apenas sensações acerca da realidade; sendo possível, portanto, conhecer apenas representações dos fenômenos fornecidas pelos sentidos.
Para Kant, o mundo conhecido não é tal como ele é, mas sim uma representação, ou seja, o mundo é tal como parece em um tempo e espaço especifico e único.
Assim, ao questionar a realidade, Kant terminou por estabelecer uma critica ao conceito de historicidade humana, colocando em dúvida a própria capacidade de conhecer da historia; reduzida, mais tarde, com a Critica da razão prática, quando procurou dar conta das questões metafísicas, a uma obra da providência.
Posição diametralmente oposta a de Hegel, para quem o conhecimento de qualquer fenômeno seria sempre histórico, circunscrito em um tempo e espaço, possível de ser conhecido apenas através da história, de onde derivaria, posteriormente, o historicismo marxista, sustentado pela idéia hegeliana de progresso e revolução, desenvolvimento e evolução.
Na realidade, foi o iluminismo oitocentista que inaugurou a visão progressista da história, a idéia de que os fatos históricos deveriam ser selecionados como relevantes em função da perspectiva evolucionista, tomando como base as mudanças ao longo do tempo sempre como qualitativas.
Um conceito que conduziu a fixação de uma miopia etnocentrista, antagonicamente inspirada por pensadores ilustrados, como Turgot e Condorcet, os quais iniciaram uma tradição Ocidental de análise da história da humanidade classificada em estágios culturais, fixados entre sociedades primitivas e as civilizações complexas, como se existissem degraus pelos quais os povos devessem escalar para atingir a modernidade.
A visão etnocêntrica iluminista reduziu toda a espécie humana a parâmetros únicos que deveriam servir obrigatoriamente de referência, tendo a Europa e sua história como modelo a ser adotado, o que originou também o eurocentrismo.
Ainda no século XVIII, o conceito de evolução ganhou contornos naturalistas com o francês Lamark, popularizando-se no século XIX com Charles Darwin e sua teoria da evolução das espécies através da seleção natural, o que terminou transposto para positivismo histórico e a escola metódica, os quais também adotaram a temporalidade linear evolucionista em suas narrativas.
O positivismo de Comte procurou encontrar, no estudo da história, leis que regulassem o desenvolvimento humano, permitindo contextualizar os fatos do presente, originando uma hierarquia para justificar o colonialismo cultural.
Enquanto a escola metódica, encabeçado por Leopold Von Ranke, supervalorizou o Estado Nacional, defendendo a idéia de objetividade do conhecimento histórico, acrescentando a xenofobia nas narrativas históricas.
O século XIX deu inicio também, a partir dos estudos sociológicos e antropológicos, duas ciências então nascentes, a trabalhos que debateram o tempo como construção mitológica e simbólica da regulação temporal, potencializando uma visão critica do tempo histórico.
Na primeira metade do século XX, consolidando está nova tendência, o pensamento de Martin Heidegger influenciou os historiadores a repensarem a questão das temporalidades.
Em alguns textos, Heidegger defendeu a tese de que não haveria temporalidade absoluta, sendo que a percepção do tempo histórico se faria a partir do futuro, portanto, fenômeno inerente puramente ao presente.
Igualmente, a temporalidade como categoria de vida, concebida por Wilhem Dilthey, também se faria presente na historiografia do século XX.
Para ele, as pessoas seriam por natureza seres temporais, uma vez que experimentam o tempo com base nas conexões entre passado, presente e futuro.
Para Dilthey, os sujeitos respondem ao presente relacionando-o com experiências passadas e antecipando o futuro, compreendendo como vivem em função do tempo, através da autoreflexão, produzindo o material que os historiadores chamam de fontes.
As idéias Heidegger e Dilthey seriam incorporados aos debates em torno das temporalidades, fomentando estudos entre os historiadores da Escola de Annales, quando a influencia da percepção da passagem do tempo ganhou um vulto ainda maior, inserida nas discussões metodológicas, na investigação sobre a natureza da história e na critica ao anacronismo.


Temporalidades historiográficas.
Embora a representação do tempo, presente na historiografia, seja quase sempre linear, como lembrou Jose D´Assunção Barros, “os historiadores mais tradicionais nos seus modos de escrever a história esquecem-se de que, ao elaborar o seu texto, eles mesmos são os ‘senhores do tempo’ - isto é, do seu ‘tempo narrativo’ - e de que não precisam se prender à linearidade cronológica e à fixidez progressiva ao ocuparem o lugar de narradores de uma história ou ao se converterem naqueles que descrevem um processo histórico”.
Uma idéia hoje mais aceita e debatida do que em um passado recente, mas que começou a ser discutida com maior veemência apenas quando a historiografia incorporou a questão ao criar novas formas de narrativa para a história.
Uma observação ressaltada por José Carlos Reis, quando desenvolveu a hipótese de que “o conhecimento histórico só se renova, uma ‘nova história’ só aparece quando realiza uma mudança significativa na representação do tempo histórico”.
Um destes momentos, talvez o mais significativo, foi justamente o surgimento da Escola de Annales, a qual representou uma renovação na prática historiográfica.
Foi graças esta corrente teórica que as problemáticas metodológicas e teóricas se tornaram dominantes no século XX, remetendo, a reboque, a discussão sobre as temporalidades historiográficas.
Foi na década de 1930 que Marc Bloch chamou atenção para o problema do condicionamento do historiador com relação ao tempo, ressaltando que não deveria ser considerado um anacronismo pensar a história através do presente.
Até aquele momento isto era negado por aqueles que achavam que a história era apenas um relato do passado.
Bloch desfez de uma vez por todas este equívoco, afirmando que o tempo é uma categoria básica para o historiador. Ao descrever a história como ciência dos homens no tempo, ele dizia que aquele que constrói narrativas sobre o passado, na verdade tenta entender questões do presente, pois não pode escapar de conceitos que são inerentes a sua própria época.
Em Introdução à História, o historiador defendeu a tese de que “seria grave erro julgar que a ordem adotada pelos historiadores nas suas investigações tenha necessariamente de modelar-se pela dos acontecimentos”, sugerindo um método de investigação histórica que recuasse ao passado a partir do presente, o que ele chamou de “método regressivo”.
No entanto, é interessante notar que, apesar da maneira inovadora de pensar, Bloch permaneceu preso a uma temporalidade linear.
Como historiador, as suas narrativas mantiveram a tradicional estrutura utilizada anteriormente pelos seus pares, a despeito das inovações advindas com Annales.

Pouco depois das reflexões de Bloch, representado a segunda geração de Annales, Fernand Braudel revolucionou de fato a abordagem do tempo pelos historiadores, com a publicação de O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Felipe II em 1949.

Na obra, ele demonstrou como era possível decompor o tempo da história em planos desdobrados: o tempo individual, o tempo social e o tempo geográfico.
No tempo individual estaria fixada a história não do homem como coletividade, mas do homem como individuo, com variações rápidas e dinâmicas, permitindo ao historiador observar os acontecimentos.
Exatamente o tipo de abordagem em que estaria concetrada a maior parte da historiografia, sendo o tempo da curta duração, de tudo que muda com muita rapidez, por isto, mais facilmente percebido.
O tempo social seria o plano pelo qual se pode observar a história social dos grupos e agrupamentos, pertencendo a uma história lentamente ritmada, circunscrita ao crescimento demográfico e da economia, elementos pertencentes a longa duração.
Seria, portanto, o tempo das estruturas que mudam com muita lentidão, fazendo quem a vivencia não se dar conta destas mudanças, neste sentido, assemelhando-se mais ao que, depois, convencionou-se chamar de média duração.
O tempo geográfico representaria uma história quase imóvel, que observa o relacionamento do homem com o meio que o rodeia.
Uma história que passa lentamente e sofre poucas transformações.
As regiões montanhosas e a população que lá habita, fornecem um bom exemplo desta temporalidade, mostrando o quanto, nesta dimensão, os costumes, ligados aos aspectos geográficos, pouco mudam, já que o ambiente que os rodeia também não muda, o que Braudel chamou de longuissima duração.
Para ele, os historiadores concentravam sua atenção apenas nos processos da curta duração, deixando de lado as outras temporalidades, oferecendo apenas um vislumbre da história, sem conseguir chegar a nenhuma elucidação.
Para atingir o objetivo de ler o passado partindo do presente, seria necessário realizar macroabordagens, penetrando as três temporalidades. Somente assim seria possível tornar a escrita da história uma verdadeira ferramenta para desvendar o passado, clareando a noite como um vaga-lume.
Esta concepção braudeliana da temporalidade histórica tornou-se de fato um farol para gerações de historiadores, extrapolando as fronteiras da França para adquirir um significado mundial, sendo incorporada pela academia como um procedimento metodológico básico, influenciando toda a historiografia a partir de então.
Embora Ernest Labrousse e Pierre Vilar, como seguidores de Braudel, tenham dado continuidade às reflexões braudelianas sobre o tempo nos meios universitários, na década de 1960, Jacques Le Goff mudou parcialmente o foco da discussão, retomando a questão pelo ângulo anterior.
Quando tentou definir o trabalho do historiador e da memória, na mesma obra dedicou um largo espaço à discussão da natureza do tempo.
Ao estudar os calendários como sistemas de medida baseados nos astros, Le Goff concluiu que o tempo pode ser encarado como um objeto de manipulação do poder, já que o Estado os utiliza como meio para organizar a sociedade.
Para ele, estudando a história das civilizações, podemos notar que aqueles que detêm o conhecimento do calendário, controlam a vida social e econômica.
Esta reflexão conduziu ao retorno do questionamento sobre a natureza da história como construção operada pelos historiadores, uma vez que, contemporaneamente, são eles que detêm as temporalidades historiográficas.
Como ressaltou Edward Hallett Carr, os fatos não são averiguações da verdade, da mesma forma que as impressões dos sentidos não falam por si mesmas; os fatos só adquirem sentido quando o historiador recorre a eles e determina sua temporalidade.
Precisamente, os historiadores selecionam, interpretam e apresentam os fatos, conferindo-lhes sentido no tempo, determinando como analisá-los, encaixando-os em uma temporalidade.
Entretanto, ao fazê-lo, operam conforme seus próprios interesses e experiências, traduzindo a vontade de sua época e o conceito de tempo em que estão inseridos, criando temporalidades historiográficas especificas e que não refletem de modo algum a realidade concreta, antes, aproximasse mais de um anacronismo.
Uma discussão que têm se tornado cada vez mais pertinente no âmbito da historiografia.


O historiador e o tempo.
O historiador, não sendo um individuo isento de influencias as mais diversas, fruto de seu próprio tempo, necessita de técnicas que permitam tentar alcançar a objetividade cientifica na leitura e interpretação das fontes.




Poderíamos listar uma infinidade de técnicas utilizadas para ler os dados contidos nos documentos, algumas emprestadas por outras ciências, outras surgidas no seio da análise histórica, contudo, Jean Chesneaux sintetizou as mais usuais na sua obra clássica Devemos fazer tábua rasa do passado, a despeito de confundi-las por vezes com métodos e empregar técnica e método dentro da mesma acepção.
Segundo ele, toda análise histórica, obviamente a partir do século XIX, é tecnicista, busca uma abordagem profissional, sendo reflexo e sustentáculo da ideologia capitalista.
Dentro da amplitude deste pressuposto, é habitual observar que os historiadores, independente da corrente teórica ou orientação metodológica, em geral, utilizam a técnica de análise baseada na diacronia-sincronia, assim como a periodização e, por vezes, a quantificação.
Através da diacronia-sincronia, todo fenômeno histórico, expresso através da língua, é analisado simultaneamente em uma série vertical e horizontal; sua extensão na dimensão do tempo, a diacronia, permite observar as conexões, antecedentes e conseqüências; já sua relação com outras referências do conjunto que é contemporâneo, a sincronia, permite visualizar as implicações entre fatos aparentemente desconexos, mas que encontram relação, por vezes, diretas.
Assim, a diacronia possibilitaria perceber, por exemplo, o ideal cruzadistico de combate aos infiéis, circunscrito ao século XII, na península ibérica expresso pela reconquista aos mouros, como uma das causas que conduziram aos descobrimentos portugueses no século XVI, possibilitando ainda visualizar a colonização, o povoamento europeu, do Brasil, no século XVII, como um de seus desdobramentos.
 A sincronia, centrada também nos descobrimentos portugueses, por sua vez, permitiria notar que problemas internos na Espanha, ainda envolvida na guerra de reconquista no século XV, permitiram a primazia dos mares aos lusitanos.
Um refinamento da diacronia, a periodização é uma extensão da técnica, organizando as articulações em etapas, períodos que visam facilitar o estudo do fenômeno, criando compartimentos fechados envolta de momentos que parecem centrais dentro de cada etapa da história.
Uma técnica que foi reforçada pela prática pedagógica, especializando o conhecimento histórico, servindo de exemplo os estudos focados no renascimento ou na Idade Moderna.
Menos usual do que as técnicas qualitativas da diacronia-sincronia e da periodização, a quantificação; surgida, como ressaltou Jacques Le Goff, na década de 1960, a partir do estimulo da revolução tecnológica representada pela invenção do computador; passou a permitir estabelecer relações complexas, usando a estatística para chegar a conclusões palpáveis.
Quantificando o número de navios que circularam na rota do Brasil e da Índia, por exemplo, ao longo do século XVI e XVII, poderíamos vislumbrar o momento da viragem do centro econômico e social do Império português, provando, através da quantificação dos naufrágios, o peso deste componente no declínio do poderio lusitano no Oriente.
Entretanto, como lembrou Gramsci, cabe ressaltar que a história não pode ser reduzida a um cálculo matemático, ou ainda que a estatística mostra o caminho ao cego, mas não restitui a visão.
O que não invalida a técnica da quantificação e nem tampouco seus desdobramentos a história demográfica e a história serial, linhas de pesquisa que já foram tidas como concepções teóricas ou metodológicas, mas que na realidade constituem aprofundamentos da técnica.


Concluindo.
A constante referência ao tempo, dentro da ótica capitalista, quer seja pela falta dele ou pela impressão de sua passagem cada vez mais veloz, tendo a vida cotidiana das pessoas como base; tornou a reflexão sobre sua natureza um componente obrigatório na historiografia.
A história, enquanto uma discussão sobre a passagem de acontecimentos relacionados a espaço e tempo, neste sentido, inaugurou uma consciência temporal que tem penetrado na sociedade, passando a fazer parte da cultura.
Acontece que a percepção de tempo, incorporada e debatida na historiografia, é fruto, simultaneamente, da própria época vivida, do presente, como também do passado, de sua evolução ao longo dos séculos, compondo uma relação dialética e anacrônica.
O que altera continuamente nossa percepção do tempo tomado isoladamente, da temporalidade da história, da historicidade dos fatos do passado que chegaram até nós, do que vivemos hoje e daquilo que o futuro pode nos reservar.
É por isto que, em termos teóricos, a discussão em torno da historiografia e das temporalidades é um assunto essencial, não só para os historiadores, como para a sociedade como um todo.
Embora só possamos afirmar que esta questão só foi abordada superficialmente até o presente momento, restando à teoria da história fomentar novos debates e o aprofundamento dos estudos sobre a construção temporal das narrativas históricas.


Para saber mais sobre o assunto.
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Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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