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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
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segunda-feira, 22 de novembro de 2010

História da infância e da educação no Brasil colônia: Parte 2 – O cotidiano entre os indígenas.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume nov., Série 22/11, 2010, p.01-05.

As primeiras crianças européias que chegaram ao Brasil foram grumetes que, diante da perspectiva de uma vida melhor entre os nativos, fugiam quando embarcações que faziam escala ou estavam aportadas em meio a missões de mapeamento do território.
Isto porque, ao contrário do que se imagina, apesar do Brasil ter sido oficialmente descoberto em 1500, a primeira tentativa de colonização ocorreu somente em 1530, não sendo mais que uma tentativa, já que somente na segunda metade do século XVI é que esforços mais sérios de colonização foram levados a termo.
É interessante lembrar que durante quase todo o século XVI, o Brasil teve uma importância econômica reduzida.
Portugal estava mais interessado em aproveitar as riquezas da Índia, o Brasil era a terra do desterro, para onde eram enviados os criminosos, as prostitutas e os ciganos como forma de garantir a posse sobre uma terra cujo aproveitamento maior era servir de escala para as naus da Índia.
De qualquer modo, antes dos portugueses se fixarem no Brasil e sequer terem aqui chegado, os índios já estavam nesta terra.
Portanto, é importante conhecer o cotidiano das crianças indígenas, pois a forma como os nativos viviam, a afetividade, os hábitos e a visão de mundo iria influenciar o dia a dia dos portugueses que chegariam as novas terras.
Os costumes indígenas criariam, inclusive, novos hábitos em Portugal e na Europa, plantando as raízes do comportamento do brasileiro contemporâneo, tal como o banho diário, por exemplo, um hábito herdado dos índios e que se não se espalhou por toda a Europa, embora tenha se difundido nos países mediterrâneos.


Demografia.
As famílias indígenas, apesar de poligâmicas, eram mais bem articuladas que as européias, ao passo que, sendo as doenças pouco comuns e a alimentação abundante, a taxa de natalidade era alta, mas a de mortalidade infantil baixa.
No entanto, entre os ameríndios, as mortes entre os adultos do sexo masculino eram elevadas, equilibrando a demografia.

As guerras tribais davam conta de manter o crescimento populacional controlado apesar do alto índice de nascimentos.

Neste sentido, o elevado número de mortes entre os adultos homens, mantinha a população em equilíbrio com a natureza e os recursos disponíveis.


Família e Afetividade.
A afetividade atual dos adultos com relação às crianças foi aprendida pelos europeus com os índios, a reboque, acabou modificando rapidamente o modo dos portugueses presentes no Brasil colonial de tratarem os seus filhos.
Embora estas mudanças tenham demorado um pouco mais para chegar à Europa, na verdade, poucos anos depois que um português chegava ao Brasil, ele tinha a sua mentalidade modificada através do convívio com os índios.
A afetividade para com os miúdos em Portugal só foi sendo modificada lentamente, ao longo do século XVII, por influência dos portugueses que retornavam do Brasil.
Entre os índios, a afetividade não excluía nenhum membro das numerosas famílias, mais do que isto, a noção de família incluía não só os pais e filhos, mas também uma inter-relação entre irmãos, esposas de um mesmo marido, primos, netos, avós, enfim toda uma gama emocional complexa, tal como a que temos hoje, não por acaso.
Muitas vezes, a rede de relações afetivas se estendia ainda além, englobando toda a tribo, algo inconcebível na Europa do período.


A função das festas.
Enquanto as festas religiosas em Portugal atendiam anseios de sociabilização que não existiam no ambiente comum, sendo cheias de formalismo; entre os índios, as festas e ritos de canibalismo possibilitavam o estreitamento de laços fortes que já existiam.
A função das festas não era atender o desejo de sociabilização que não existia normalmente, mas reforçar as relações afetivas já existentes e diluir qualquer desentendimento nascido do convívio diário intimo.
O rito do canibalismo era pratico por mulheres e crianças como forma de sociabilização, de estreitamento de laços entre mães e filhos, entre irmãos e entre esposas de um mesmo marido, algo que foi retratado na iconografia por um alemão que esteve no Brasil a serviço da Holanda.
Grosso modo, os ritos de canibalismo eram para os índios quase como hoje é para os brasileiros um churrasco de confraternização, com a diferença que consumir a carne do inimigo tinha um caráter também religioso, pois se acreditava que devorar sua carne era digerir também sua força, sua coragem e demais características.


O modo de lidar com as crianças.
Entre os índios, no século XVI, os pais tinham um zelo pelos filhos que raramente era observado em Portugal.
As mães carregavam sempre seus filhos junto a si para onde quer que fossem, isto mesmo quando iam realizar suas tarefas de coleta de frutas e raízes.
Algumas mães levaram simultaneamente filhos em cestas que ficavam nas costas e outros filhos no colo, mastigando os alimentos mais duros antes de servi-los aos mais novos, a expressão máxima do amor de uma mãe pelos seus rebentos.
Os pais não deixavam nunca faltar o que comer, providenciando caça e pesca, defendendo ainda suas esposas, filhos e demais parentes de qualquer ameaça que por ventura viesse a surgir, chegando a sacrificar a própria vida para salvar qualquer de seus filhos.
As crianças ameríndias, de um modo geral, não eram obrigadas a desempenhar qualquer tarefa, algumas ajudavam por vontade própria a mãe a coletar frutos ou cuidar dos irmãos menores, mas tinham ampla liberdade para passarem o dia todo brincando.
É interessante salientar que o ócio era muito apreciada também entre os adultos, o que garantia tempo para que os pais brincassem com seus filhos, reforçando os laços afetivos.
As crianças indígenas só passavam a ter tarefas especificas depois que entravam na adolescência, quando então atingiam a idade para serem iniciadas diante de toda a tribo e passavam a ser reconhecidas como adultos.
A passagem para universo adulto englobava a formação de novas famílias, cuja relação afetiva se estendia até a família de onde eram originários o marido e a mulher, criando laços também entre a família do esposo e da esposa, daí a complexa rede afetiva entre os indígenas.
Ao se tornarem adultos, parte do tempo dos indígenas era dedicado a jogos e brincadeiras, o que fez com que mesmo os índios adultos fossem vistos pelos religiosos europeus como grandes crianças dotadas de inocência.


A educação.
A educação entre os índios era um tanto informal, o método pedagógico, se é que podemos chamar assim, aproveitava as brincadeiras para ensinar questões práticas ligadas à sobrevivência do grupo.
As lendas contadas pelos mais velhos servia como forma de doutrinação moral, religiosa e explicação acerca dos fenômenos da natureza e do mundo em volta da tribo.
Apesar dos índios não terem uma história, isto porque constituíam uma sociedade que vivia somente no presente, tal como demonstra sua língua, onde o tempo verbal futuro e passado não existem, as lendas serviam ainda para lembrar o feito dos antepassados mais ilustres e honrar sua memória.
Ao contrário da situação vivida na Europa, não havia qualquer tipo de restrição social ao acesso a educação, até porque a sociedade indígena era igualitária.
Todos eram educados da mesma forma e segundo o mérito poderiam adquirir uma posição de destaque como guerreiros, sábios ou curandeiros.
Esta maneira prática de encarar o mundo, em certa medida facilitou o extermínio dos nativos e a penetração portuguesa, mas, ao mesmo tempo, junto com a influência africana que viria mais tarde, criou no Brasil uma sociedade formada por portugueses e mestiços que seria totalmente distinta da européia.


Para saber mais sobre o assunto.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. “Os guarani: índios do sul. Religião, resistência e adaptação” In: Estudos Avançados, vol. 4, n.º 10. São Paulo: Instituto de Estudos Avançados, setembro/dezembro de 1990, p.53-90.
CUNHA, Manuela Carneiro (org.). História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
RAMOS, Fábio Pestana & MORAIS, Marcus Vinicius de. Eles formaram o Brasil. São Paulo: Contexto, 2010.

Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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Forte abraço.
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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